terça-feira, 13 de setembro de 2016

LIVROS SOBRE PARNAÍBA




LIVROS SOBRE PARNAÍBA

Alcenor Candeira Filho

          Com o nome de “Livros Básicos Sobre Parnaíba”, este trabalho foi publicado pela primeira vez em 1998 no livro de minha autoria MEMORIAL DA CIDADE AMIGA.
Agora (re))aparece  revisto e acrescido  de referências a  27 livros não mencionados anteriormente,  quase todos publicados pela primeira vez no século XXI.
          Os livros aqui relacionados e comentados em forma de resenha e em ordem cronológica  referem-se direta ou indiretamente a Parnaíba em  todas as suas páginas ou na maioria delas.
      As obras foram citadas sem qualquer critério seletivo, mas levando em conta que , segundo a UNESCO, livro é“uma publicação impressa, não periódica, que conste de no mínimo 56 páginas, sem contar as capas”.
          Em termos de texto escrito, a memória histórico-cultural da Parnaíba está dispersa em jornais, revistas, anuários e livros, conservados em poucas bibliotecas e em arquivos públicos e particulares.
          Sem a pretensão de oferecer uma listagem completa, passo a relacionar os principais livros que retratam fatos e pessoas da cidade, segundo um enfoque histórico e literário.

PRIMEIRA PARTE:E N F O Q U E    H I S T Ó R I C O
          Excluídas as referências constantes das obras básicas da historiografia piauiense (F. A. Pereira da Costa, José Martins Pereira de Alencastre, Odilon Nunes, Monsenhor Chaves, Wilson Brandão e outros), os principais textos sobre a história da Parnaíba estão nos seguintes livros:

01.          HISTORIOGRAFIA
          - O LIVRO DO CENTENÁRIO DE PARNAÍBA (Benedicto Jonas Correia e Benedicto dos Santos Lima, 420 p.):  importante documentário que compreende estudos históricos, corográficos,  estatísticos e sociais do município, no período de 1844 a 1944. A obra apresenta quatro partes: a primeira focaliza aspectos gerais da Parnaíba (notícia histórica, descrição física, situação política, organização administrativa, situação econômica, educativa e associativa); a segunda – “Parnaíba do Pensamento e do Trabalho – reúne artigos de intelectuais parnaibanos; a terceira contém informações diversas sobre o centenário da cidade e a quarta parte reporta-se ao comércio e à indústria da Parnaíba (Gráfica Americana, Parnaíba, 1945).

          - HISTÓRIA ADMINISTRATIVA DA PARNAÍBA (Lauro Andrade Correia, 134 p.): focaliza com riqueza de detalhes as realizações do governo municipal-  gestão Lauro Correia  -  no período de 1963 a 1966, considerada a primeira administração planejada em território piauiense, através dos Planos Quinquenal, Diretor e Urbanístico, bem como dos Códigos de Posturas, de Obras e Tributário.
          Outras realizações imateriaisou não: oficialização do Hino da Parnaíba e de outros Símbolos Municipais: Bandeira, Armas e Selos; aquisição de sede própria para a  Prefeitura; implantação do serviço de abastecimento d’água tratada e canalizada; construção do  Centro Cívico (Gráfica Americana, Parnaíba, 1967).

          - PARNAÍBA: CADA RUA SUA HISTÓRIA (Caio Passos, 360 p.): obra que encerra interessantes revelações sobre a história da Parnaíba, a partir do nome de seus logradouros. O livro se divide em quatro partes, com informações detalhadas sobre os nomes de bairros, praças, avenidas e ruas da cidade (Imprensa Oficial do Ceará, Fortaleza 1982).

          -JOSÉ FRANCISCO DE MIRANDA OSÓRIO E SEUS DESCENDENTES (Maria Luíza Motta de  Menezes, 178 p.): além de anotações genealógicas, o livro contém informações sobre o coronel José Francisco de Miranda Osório, que constituiu família em Parnaíba  e  residiu no Sobrado Vista Alegre (vizinho da  Casa Grande de Simplício Dias), entre a rua Monsenhor Joaquim Lopes e a avenida Presidente  Vargas  (Editora Henriqueta Galeno, Fortaleza, 1980).

          - PARNAÍBA (Judith Santana, 159 p.): focaliza a história da Parnaíba , dando ênfase a pessoas que se destacaram  na atividade política, econômica e social (COMEPI, Teresina, 1983).

          - PARNAÍBA, MINHA TERRA (Maria da Penha Fonte e Silva, 248 p.): registra objetivamente aspectos geográficos, estatísticos, históricos, administrativos,  culturais, educacionais, turísticos, econômicos e sociais da Parnaíba, finalizando com 78 curiosidades sobre a terra de Simplício Dias da Silva (Edição da autora, Parnaíba, 1987).

          - O PAPEL DA IGREJA NA COLONIZAÇÃO DO NORTE DO PIAUÍ (José da Guia Marques, 48 p.): trabalho histórico acerca das origens da Parnaíba e do norte do Piauí, objetivando “resgatara memória perigosa e subversiva dos massacres indígenas  (...) e da postura da Igreja na época” (Secretaria Estadual da Cultura/ Fundação Cultural do Piauí, Teresina, 1987).

          - ECONOMIA PARNAIBANA: ASPECTOS MACRO E MICROECONÔMICOS (Francisco Pereira da Silva Filho, 170 p.): obra técnica indispensável aos estudiosos dos problemas sócio-econômicos da cidade de Parnaíba (editora da Gráfica da Universidade Federal do Piauí, Teresina, 1993).

          BENEDICTO DOS SANTOS LIMA: INTELECTUAL AUTODIDATA (Org.: O. L. dos Santos): edição comemorativa do primeiro centenário de nascimento de Benedicto dos Santos Lima, o Bembem.
          O livro é apresentado por Orphila Lima dos Santos e reúne artigos de intelectuais que escreveram sobre o fundador do ALMANAQUE DA PARNAÍBA (Folha Carioca Editora, Rio de Janeiro, 1993).

          - MUNICIPALIZAÇÃO E EDUCAÇÃO SANITÁRIA (Juarez de Queiroz Campos, Valdir Edson Soares, Ilvanete Tavares Beltrão, Carmen Clark Pires , José Domingos de Almeida Souza e coordenação de Silvana Maria Aragão Vieira, 160 p. ): estudo científico sobre a saúde sanitária em Parnaíba, apresentando os seguintes títulos: I. Educação Sanitária e Comunicação;II. Diagnóstico de Saúde do Município de Parnaíba;III. Municipalização da Saúde-  A Experiência de Parnaíba;  IV. A Influência da Desinformação na Má Qualidade de Vida do Morador do Bairro Catanduvas do Município de Parnaíba;V. Elementos de Estatísticas (Editora JOTACÊ, São Paulo, 1995).

-A PARNAÍBA COLONIAL E IMPERIAL (Iweltman Mendes, 90 p.): cronologia da Parnaíba (1500 a 1889), com aproximadamente seiscentas informações objetivas sobre fatos da época colonial e imperial que se acham dispersos, pulverizados em livros, documentos e jornais (Gráfica da Universidade Federal do Piauí, Teresina, 1996).

          - HISTÓRIA DO TEATRO EM PARNAÍBA: 1898 a 1999 (Rozenilda Castro 113 p. ): obra dividida em duas partes: a primeira – “O Teatro na Comunidade” – refere-se às peças escritas e dirigidas por Luís de Moraes Correia em 1898, passando pelo teatro nas residências  aos dias de hoje; a segunda – “O Teatro no SESC – trata da trajetória teatral da instituição a partir dos anos 50 ( Rozenilda Castro, Parnaíba, 2000).

          - PARNAÍBA: EDUCAÇÃO E SOCIEDADE (Francisco Iweltman Vasconcelos Mendes, 124 p.): o professor e historiador Iweltman Mendes, autor de outros livros sobre a história da Parnaíba e do Piauí, declara a propósito desta obra: “Se o resgate da história da educação do Piauí como um todo é importante, julgo a elucidação de como se processou o  ensino na cidade de Parnaíba uma necessária contribuição para uma abordagem mais completa sobre a educação no Estado. Propomos, portanto,  pesquisá-la em uma comunidade que liderou a economia por mais de um século e representou o fiel da balança nas mais importantes decisões políticas estaduais”(UFPI, Teresina, 2001).

          - PARNAÍBA: O ESPAÇO E O TEMPO (Elita Araújo, 205 p.): livro que encerra uma visão panorâmica da Parnaíba através de alusões a figuras bizarras, barqueiros do Parnaíba, pessoas de destaque na sociedade, logradouros,Pedra do Sal, Delta do Parnaíba, rio Parnaíba, Catedral de Nossa Senhora da Graça, Academia Parnaibana de Letras (SIEART, Parnaíba, 2002).

          - JOAQUIM CUSTÓDIO E UM ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO EM PARNAÍBA (Sólima Genuína, 111 p.): livro que presta justa homenagem ao educador Joaquim Custódio, que serviu durante décadas ao ensino em Parnaíba, tendo dirigido o Ginásio São Luís Gonzaga e o Ginásio Clóvis Salgado.
          Completam o volume artigos sobre vários assuntos vinculados à educação na cidade (Edigraphique, Parnaíba, 2004).

          - PARNAÍBA QUE EU VI (José Nelson de Carvalho Pires, 90 p.): obra que se reporta às primeiras famílias chegadas em Parnaíba, enfatizando nomes de destaque na política, no comércio e na educação da cidade(Edição do autor, Parnaíba 2005).

          - PERSONALIDADES ATUANTES DA HISTÓRIA DE PARNAÍBA ONTEM E HOJE (Aldenora Mendes Moreira, 439 p.): a autora homenageia no livro dezenas de pessoas que contribuíram para o desenvolvimento de “uma Parnaíba histórica e de grandes feitos patrióticos” (Edição da autora, Parnaíba, s/d.).

          - O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA (Alcenor Candeira Filho, 81 p.): livro em prosa e verso que trata do assassinato de Alcenor Rodrigues Candeira em 11 de outubro de 1959 (SIEART, Parnaíba, 2008).

          - PARNAÍBA DE A a Z: GUIA AFETIVO (org. : José de Nicodemos Alves Ramos, 172 p.): excelente edição bilíngue (Português e Inglês), com textos de vários autores e fotografias de Paulo Roberto de Melo Freitas.
          O livro destaca aspectos históricos, geográficos, turísticos, culturais e arquitetônicos da Parnaíba (Multicultural Arte e Comunicação, Brasília, 2008).

          - PARNAÍBA NA HISTÓRIA DA AVIAÇÃO : NA LINHA NEW YORK, BUENOS AIRES COM ESCALA EM PARNAHYBA PARA ÁGUAS DO RIO IGARAÇU EM 1929 (João Tércio Solano Lopes, 224 p.): obra que se propõe resgatar os primórdios da aviação em Parnaíba, com informações sobre acontecimentos, desde 1930,  ainda no Campo de Aviação do Catanduvas (Gráfica Melo, Parnaíba, 2010).

          - ZPEs (ZONAS DE PROCESSAMENTO DE EXPORTAÇÃO ) DE SHANNON A PARNAHYBA (Renato Santos Júnior, 288 p.): obra prefaciada pelo presidente da ABRAZPE, Helson Braga, que diz: “As ZPEs constituem um dos mais transversais e impactantes instrumentos de política econômica revelados pela experiência internacional. Elas desempenham papel importante para a atração de investimentos, para a geração de empregos, para o reforço do balanço de pagamentos, para a correção de desequilíbrios   regionais e para a difusão de novas tecnologias e práticas mais modernas de gestão” (SIEART, Parnaíba, 2012).

          - O ECLETISMO PARNAIBANO: HIBRIDISMO E TRADUÇÃO CULTURAL NA PAISAGEM DA CIDADE NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX (Neuza Brito de Arêa Leão Melo, 228 p.): livro que através de textos e fotografias revela a riqueza arquitetônica do centro histórico parnaibano: edificações coloniais,  neoclássicas e   modernas, com seus bangalôs, chalés, castelos, casas neocoloniais térreas ou com dois pavimentos.
          Leitura indispensável para quem ama a Parnaíba (EDUFPI, Teresina 2013).

          -A ESCOLA DE APRENDIZES MARINHEIROS DE PARNAÍBA (Rozenilda Castro, 222 p.): interessante livro sobre a Escola de Aprendizes Marinheiros de Parnaíba, instituição educativa vinclada à Companhia de Aprendizes Marinheiros do Piauí e que funcionou no período de 1874 a 1915 paraatender crianças pobres, menores órfãos e desvalidos que não apresentassem problema de saúde, objetivando torná-los marinheiros para os serviços da Marinha de Guerra Nacional (EDUFPI, Teresina, 2013).

          - UMA HISTÓRIA DAS BEIRAS OU NAS BEIRAS: PARNAÍBA, A CIDADE, O RIO E A PROSTITUIÇÃO (Erasmo Carlos Amorim, 151 p.): como disse o prefaciador da obra, “este é um livro sobre a história de Parnaíba, sobre a história de uma cidade-beira, tal como o próprio texto a define, pois é a história não só de uma cidade que se localiza à beira do rio Igaraçu, mas é uma cidade que se expandiu, teve momentos de desenvolvimento, progresso e estagnação graças à presença do rio, graças à sua proximidade com o rio Parnaíba, maior rio navegável do Estado, estrada líquida e fluida responsável por vertebrar econômica e politicamente o próprio território piauiense em dados momentos” (SIEART, Parnaíba, 2013).

          -PARNAÍBA: TERRA DO FUTEBOL (João Batista de Oliveira Nascimento, 312 p.): importante livro sobre a história do futebol na cidade, a partir da introdução do jogo em solo parnaibano há cem anos, Segundo o autor, Parnaíba foi a primeira cidade a adotar esta prática esportiva  no Piauí (PREMIUS, Fortaleza, 2013).

-MEMÓRIAS URBANAS: UMA VIAGEM AO PASSADO DO FUTEBOL EM PARNAÍBA (José de Paulo Brito, 104 p.): Diz Antenor Silva:  “o autor (...) trata de uma viagem ao passado do futebol em Parnaíba. Faz uma narrativa procurando resgatar os anos de ouro do futebol parnaibano nas décadas de 1913, 1920, 1930 e 1940 etc., principalmente os times amadores e suburbanos tais como: Fluminense, Flamengo, Belga, International, Santos, Paissandu, Parnahyba, Santa Cruz , São Tarcísio,  Madureira, Portuguesa e outros”( CIRCULANDO, Parnaíba, 2013).

          -PARNAÍBA: SENTIR, VER,  DIZER  (orgs.: Frederico Ozanam Amorim Lima e Idelmar Cavalcante Júnior, 288 p.): livro prefaciado por Benjamim Santos, com nove textos de professores e professoras. Como assinala Frederico Ozanam a obra enfeixa “artigos que pluralizam e diversificamas  nossas percepções sobre o espaço que habitamos. São atalhos ou desvios de rota. São , por fim, tentativas de dizer que é  possível sentir, ver, dizer a cidade de Parnaíba deslocando os seus sentidos habituais: des-materializando o que já foi estabelecido como uma verdade e des-focando a lente que via verdade onde  era possível construir inúmeras dúvidas” (EDUFPI, Teresina, 2015).

          - PRIMEIRA IGREJA BATISTA EM PARNAÍBA: 60 ANOS DE HISTÓRIA (João Tércio Solano Lopes eJaime Linz Solano Lopes, 338 p.): obra que resgata a memória da primeira Igreja  Batista em Parnaíba com relatos sobre a participação dos membros fundadores dessa igreja e a contribuição dos missionários americanos desde 1955 (Edição dos autores, Recife, 2015).



          - PARNAÍBA: A PÉROLA DO LITORAL BRASILEIRO (Inacio Marinheiro de Oliveira, 150 p.): Um dos mais belos livrosque já vi e li sobre Parnaíba, com muitas  fotografias e textos do autor, que declara na “Introdução” :  “Este trabalho, como os dois anteriores, tem como objetivo despertar as autoridades responsáveis pelo Trade Turístico do Piauí, especialmente as autoridades locais, os profissionais e estudantes do Turismo, Geografia, História, Arquitetura, Arte e a população em geral, para a joia que é o  portal e entrada para o Delta do Rio Parnaíba” (Halley, Teresina, 2014).


02.          ANUÁRIO

             -ALMANAQUE DA PARNAÍBA: provavelmente a única publicação no gênero que já alcançou a marca de 69 edições. Nas suas páginas a vida econômica, política, social e literária da cidade, a partir de 1924, ano em que foi fundado por Benedicto dos Santos Lima (Bembem), que o manteve até 1941, com 18 edições.  A partir de 1942, passou a ser dirigido por Ranulpho Torres Raposo, responsável por 41 edições ininterruptas (1942/1982). Manuel Domingos Neto realizou a 60ª edição (1985) e desde 1994 a Academia Parnaibana de Letras vem assumindo a publicação do tradicional anuário, com 9 edições realizadas (nºs. 61 a 69).



SEGUNDA PARTE: E N F O Q U E L I T E R Á R I O

          -

          Relaciono aqui somente livros que evocam a cidade de Parnaíba em todas as suas páginas ou na maioria delas.

01.          ROMANCES

- TETRALOGIA PIAUIENSE (Assis Brasil, 486 p. ): BEIRA RIO BEIRA VIDA (1965), A FILHA DO MEIO-QUILO (1966), O SALTO DO CAVALO COBRIDOR (1967/1968) e PACAMÃO (1969) são os romances que compõem a TETRALOGIA PIAUIENSE, que de certa forma representa um retorno do escritor à terra de nascimento, da qual se afastou na adolescência. A Parnaíba do segundo quartel do século XX serve de pano de fundo para o desenvolvimento do enredo de cada romance, todos interessados na denúncia social. BEIRA RIO BEIRA VIDA é o mais importante romance da Tetralogia, vencedor do Prêmio Nacional Walmap (1965).  As personagens centrais dessa obra-prima do moderno romance brasileiro são pessoas sofridas, miseráveis (prostitutas, marinheiros, vareiros, canoeiros), habitantes do velho bairro Tucuns – atualmente São José - , localizado às margens do rio Parnaíba. A FILHA DO MEIO-QUILO e PACAMÃO constituem uma crítica à classe média parnaibana, revelando as fraquezas da pequena burguesia. Por fim, O SALTO DO CAVALO COBRIDOR, obra menos expressiva da Tetralogia, é um romance regionalista, cujo protagonista se chama Inação, empregado do dr.Gervásio, protótipo do burguês rural (Nórdica/MEC, Rio de Janeiro, 1979).

          - O RIO MÁGICO      (Renato Castelo Branco, 144 p.): romance de caráter memorialístico, cujos episódios se desenvolvem no Piauí, especialmente em Parnaíba, terra natal do escritor: o reencontro com as raízes, com a família, com a infância, com o Ginásio Parnaibano e sua primeira turma, a Praça da Graça, onde a banda  municipal, nas retretas de domingo, “tocava dobrados, valsas, marchas, enquanto moças e rapazes desfilavam – rapazes de um lado, moças de outro entrecruzando-se, trocando olhares, risos furtivos” (Edicon, São Paulo, 1987).

          - PEDRA DO SAL: UM PESCADOR E SEUS AMORES (Rita de Cássia Amorim Andrade, 164 p.): romance ambientado na mais bela praia do litoral piauiense – Pedra do Sal,em prosa que às vezes ganha toques poéticos. O tema do livro é o amor e suas implicações: sexo, união, separação, renúncia (Halley, Teresina, 2009).

          - A RUA DAS FLORES (Antônio de Pádua Marques da Silva, 103 p.): prosa de ficção inspirada na  rua das Flores, próxima da Lagoa do Bebedouro, com sua gente pobre e esquecida.
          O jornalista e escritor Pádua Marques já escreveu oito livros, entre fábulas e romances, a maioria ainda não publicados (Editora Patrícia Pinto Araújo – Sistema de Comunicação Correio do Norte, Parnaíba, 2011).

          - TEODORO BICANCA (Renato Castelo Branco, 138 p.): romance premiado pelo Círculo Literário Brasileiro e bem recebido pela crítica, que viu nele qualidades que o colocam na primeira linha da nossa prosa de ficção. É uma narrativa de cunho social que focaliza o conflito no relacionamento do coronel latifundiário com o sertanejo (Academia Piauiense de Letras 2ª edição, Teresina, 2016).


02  MEMÓRIAS

          - MEMÓRIAS (Humberto de Campos, 487 p.): volume que encerra a primeira parte das memórias do notável escritor maranhense, que residiu em Parnaíba durante a infância. A maior parte do livro evoca fatos acontecidos em Parnaíba, destacando-se o relacionado ao cajueiro plantado pelo escritor em 1896. No livro, encontram-se expressivas descrições da cidade de Parnaíba e dos povoados dos Morros da Mariana e da Pedra do Sal (W. M. Jackson Editores, São Paulo, vol. 16, 1958).

          - MEMÓRIAS INACABADAS (Humberto de Campos, 238 p.): obra póstuma que reúne vários capítulos que focalizam pessoas e tradições parnaibanas, bem como fatos acontecidos na cidade, em fins doséculo XIX e início do XX (W. M. Jackson Editores,  São Paulo , vol.  17, 1958).

          - TOMEI UM ITA NO NORTE (Renato Castelo Branco, 258 p.): obra rica de acontecimentos e de emoções, em que o grande escritor passa em revista fatos e pessoas que lhe marcaram a vida a partir da infância, em Parnaíba (L.R. Editores, São Paulo, 1981).

          - PARNAÍBA NO SÉCULO XX (Maria Luíza Motta de Menezes, 135 p.): livro escrito com o propósito de homenagear a Parnaíba no sesquicentenário.
          Através de recordações do que viu e viveu na querida terra natal, Maria Luíza Motta de Menezes reporta-se a aspectos históricos, culturais, sociais, políticos e religiosos da Parnaíba a partir do limiar do século XX.
          Não é propriamente obra de caráter historiográfico porque não se fundamenta em pesquisa, que é indispensável em trabalhos no gênero, mas de cunho memorialístico como na “Apresentação” destaca a autora (Gráfica Alcy, Fortaleza, 1994).

          - PARNAÍBA TEM MEMÓRIA (Rubem Freitas, 174 p.): livro que faz referência a personalidades parnaibanas (po- líticos e profissionais liberais) e aos Intendentes e Prefeitos do Município, bem como aos Presidentes da Câmara de Vereadores.
          Várias instituições da cidade também são mencionadas : Rotary Clube de Parnaíba, Lions Clube de Parnaíba, Colônia do Carpina, Sociedade Parnaibana de Expansão Cultural (SIEART, Parnaíba, 2012).


03  HISTÓRIA LITERÁRIA

  - ASPECTOS DA LITERATURA PIAUIENSE (Alcenor Candeira Filho, 131 p.): enfeixa, dentre outros, amplo estudo histórico-crítico sobre a poesia parnaibana – da origem aos nossos dias-, bem como um ensaio sobre o produto cultural alternativo dos anos 70 na Parnaíba (Alínea Publicações Editora/Gráfica da Universidade Federal do Piauí, Teresina, 1993).

          -
04  CRÔNICAS/CONTOS

          -VAREIROS DO RIO PARNAÍBA & OUTRAS HISTÓRIAS (R. Souza Lima, 82 p.): obra composta de vários episódios que envolvem a vida marginalizada dos vareiros e das mulheres da beira rio beira vida, no período do apogeu da navegação fluvial na cidade (Secretaria Estadual da Cultura/Fundação Cultural do Piauí, Teresina, 1988).

          - IMAGENS FUGIDIAS (João Maria Madeira Basto, 90 p.): crônicas que focalizam pessoas que marcaram época na cidade ( o bêbado, o treinador e o jogador de futebol, o músico, o farmacêutico, o artesão, o delegado, o menestrel, o panfletista), tratadas via de regra no plano do humor e da crítica leve (Secretaria Estadual da Cultura/Fundação Cultural do Piauí, Teresina, 1988).

          - ESTÓRIAS DE UMA CIDADE MUITO AMADA (Carlos Araken, 118p.) : livro composto de crônicas de saudade, desenvolvidas num estilo  solto e agradável, através das quais o cronista faz um mergulho mais fundo nos anos em que viveu em Parnaíba como menino observador (Edição  do autor,Parnaíba, s/d.).

          - MEMORIAL DA CIDADE AMIGA (Alcenor Candeira Filho, 160 p.): livro que reúne crônicas, confissões, reminiscências, poemas e apreciações críticas que foram escritas em diferentes épocas e que evocam direta ou indiretamente a Parnaíba (Projeto Petrônio Portela – FUNDAC, Teresina, 1998).

          - O ENCANTADOR DE SERPENTES E OUTROS VULTOS ILUSTRADOS ( Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos, 125 p.):    compõe-se de vinte e três crônicas que falam de pessoas de Parnaíba de forma crítica, humorística e irônica.
          O artista plástico Fernando Antônio Melo de Castro é o autor das charges que ilustram o livro (SIEART, Parnaíba, 2012).


05  POESIA

          A poesia sobre a Parnaíba ainda não foi reunida em volume. A principal fonte para uma visão de conjunto dessa poesia é o ALMANAQUE DA PARNAÍBA, que publicou em suas páginas, a partir da edição de 1994, uma seção denominada “Parnárias” com poemas de autores antigos e novos. Trinta e uma composições poéticas sobre a cidade já foram divulgadas: “Terra Mater”, “Terra Natal”, Faróis” (Jonas da Silva);  “Pedra do Sal” (Edson Cunha); “Parnaíba” (Fernando Ponte);  “Progressos” (Lívio Castelo Branco);  “Parnaíba” (Oliveira Neto); “Parnaíba” (Félix Aires);  “Praça Santo Antônio”, “Portinho”, “O Éden”, “Salve São João” (Jorge Carvalho);  “Parnaíba” “Pedra do Sal”, “Soneto Fluvial”, “Bar do Gago” (Alcenor Candeira Filho);  “Balada da Praça da Graça”, “Lagoa do Portinho”,  “Mar(ulho) no Tabocal”, “Paisagem Marinha” (Elmar Carvalho);  “Porto Salgado” (Israel Correia);  “Parnahyba” (Danilo de Melo Sousa);  “Parnaíba” , “S.O.S.” (Fernando Ferraz);  “Rio Igaraçu” (V. de Araújo);  “Um Rio” (José Pinheiro de Carvalho Filho);  “Praça da Graça” (Anchieta Mendes); “Multiplicação da Miséria” (Pádua Santos);  “Porto das Barcas” (Carlos Marinho).

          Dentre as obras coletivas, a que mais contém poemas que falam da cidade, num total de 25 composições, é POEMÁGICO – A NOVA ALQUIMIA (Projeto Petrônio Portella/Secretaria Estadual de Cultura, Teresina, 1985, 150 p.), - antologia prefaciada por Assis Brasil e que reúne cinco poetas: Paulo Veras, Alcenor Candeira Filho, V. de Araújo, Jorge Carvalho e Elmar Carvalho.
          Até o momento foram publicados dois livros constituídos só de poesias alusivas à cidade: POEMITOS DE PARNAÍBA, de Elmar Carvalho com ilustrações de Gervásio Castro (Gráfica do Povo, Teresina , 2009, 64 p.)  e  PARNAÍBA: MEU UNIVERSO, de Alcenor Candeira Filho (SIEART, Parnaíba, 2014, 73 p.).

CONCLUSÃO
          Ao contrário do que pensam algumas pessoas, existem várias fontes bibliográficas relacionadas com a cidade de Parnaíba, vista e pensada por historiadores, romancistas, poetas, memorialistas, cronistas, críticos literários.
          Somente neste trabalho estão citados 50 livros .Se se levar em conta as 69 edições do ALMANAQUE DA PARNAÍBA chega-se ao total de 119 volumes.
          Todos os livros evocados aqui integram minha biblioteca ,  exceto a coleção completa do ALMANAQUE  DA  PARNAÍBA, da qual tenho apenas 22 edições.
          O esforço tem sido grande e as obras estão aí à espera de muitos leitores.

                                                         2016

domingo, 11 de setembro de 2016

Encontro


ENCONTRO

Elmar Carvalho

Em teus olhos mergulhei
para rever
        reviver o já vivido.
Neles me embebi
                 embevecido
ao arrebatar do inesquecido
“o que não foi
e que poderia ter sido”.
Colhi nas minhas
o perfume de tuas narinas.
A essência de tuas crinas e resinas
às minhas misturei.
Com os meus, colhi-te
os lábios, entreabertos
em suave espera e ânsia.
Beijei-te os olhos
– fechados para que visses e sentisses
plenamente a magia do momento –
e deles vertias o céu e o mel.

Te. 08.91    

sábado, 10 de setembro de 2016

PARA ONDE IRÃO OS BURROS?


PARA ONDE IRÃO OS BURROS?

Antônio Francisco Sousa
Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)
               
                Será que terão mais sorte do que seus irmãos tortos, os jumentos? Estes, há muito vêm sendo desprezados por seus donos, que preferiram substituí-los por motocicletas, senão mais possantes, bem mais rápidas, que vão aonde aqueles iam e sujam menos. Tanto é assim, que os coitadinhos dos jegues estão a um passo de virarem manjar na China. Dizem que a terra dos mandarins tem potencial para importar até um milhão deles por ano, para transformá-los em fina iguaria.
                E os burros, para onde irão? Não fui eu que ouvi, mas não tenho nenhum motivo para desacreditar no amigo que me falou a respeito. Disse-me ele haver sabido que um candidato a prefeito municipal – teria, acaso, querido ser irônico como aquele ex-governador que, enquanto titular do executivo, levou-os e a seus donos para pastarem e visitarem o palácio de onde despachava ordens e decisões governamentais? – ou, um tanto pitoresco, ou melhor, quixotesco, como o outro – que Deus o tenha –, trabalhador incansável e sonhador quimérico com barca do sal, asfalto branco, praia artificial e que tais? -, como promessa de campanha, e visando minimizar o maltrato aos animais domésticos, inclusive, os que atuam como força motriz ou instrumento de trabalho, informou a seus pretensos eleitores, críticos e adversários, que pretende retirá-los da frente das carroças, que passarão a ser motorizadas. Haja burro desempregado e carroceiro sem ganha-pão. Talvez em outro momento da campanha, depois de conversar com seus correligionários e patronos, informe-nos como fará para que os donos das carroças, no mais das vezes, indivíduos que apenas sobrevivem com o que conseguem graças a seus burros, arranjem dinheiro a fim de adquirir os motores que substituirão seus animais. E, obviamente, também, mais um jogo de rodas, eixo, pneumáticos, além de um volante, para que o novo e moderno veículo, a carroça automóvel, transite pelas vias públicas e privadas, transportando fretes e encomendas. O combustível não será problema: hoje, o motor, ou melhor, o burro, alimenta-se de milho e de algum outro tipo de ração vegetal; com a mudança da tração animal para motorizada, talvez seja utilizado álcool, gasolina, a mistura dos dois – vai que o possante seja bicombustível, flex - ou óleo diesel.
                Quem sabe, logo, logo, claro que antes do pleito eleitoral, venha-se a saber como se dará o financiamento do motor e demais equipamentos necessários à motorização da ex-carroça de tração animal; quem os bancará e em que condições; quem os produzirá em escala industrial, quem os instalará.  Na mesma oportunidade, alguém já poderá haver pensado, tido uma ideia, uma sugestão do que será feito, para onde irá o defasado, preterido e superado ex-motor, o velho e bom burro.
                Como eleições novamente somente em dois mil e dezoito, quem sabe, até lá, um iluminado empreendedor não crie a associação dos ex-burros carroceiros e lance alguns dos filiados à carreira política. Burro para governador, deputado, senador e até presidente da república, já imaginaram? No passado, houve macaco candidato – e muito bem votado - papagaio, jabuti. Os asnos, muares ou mulas, como conhecemos nossos incansáveis burros que, sabidamente, são extremamente produtivos e trabalhadores, não farão feio. Com bons headhunters e conselheiros, irão longe.
                Um pouco da atenção dos senhores, carroceiros: não vão com muita sede ao pote; não vendam, não troquem, nem façam qualquer negócio com seus burros até que venha o resultado das eleições: e se o candidato que se comprometeu a possibilitar a motorização das carroças, não vencer o pleito? Será que o vencedor e novo prefeito assumiria essa utópica, quimérica – para não chamar de demagoga ou quixotesca – proposta do candidato perdedor? Mesmo que ele vença as eleições, ainda assim, esperem até que assuma, ou um pouco mais adiante: a história política tem registrado incontáveis casos de candidatos que, antes da votação, prometem mundos e fundos e depois dela, simplesmente, tornam-se amnésicos.                      

NOS SEBOS DO RIO DE JANEIRO


NOS SEBOS DO RIO DE JANEIRO

Cunha e Silva Filho

          Na segunda metade dos anos 1960,  época em que iniciara a graduação em Letras, comecei a frequentar os sebos  cariocas. No Rio havia, então,  muitos  e muitos sebos espalhados, principalmente  pelas ruas do Centro. O número era tão grande que dois professores da UFRJ,  publicaram duas obras  informativas  acerca desses  sebos. A primeira foi a do professor de literatura brasileira,  Wellington de Almeida Santos, que foi meu orientador no Mestrado.  O opúsculo foi  lançado justamente em 1991, quando era seu aluno.  Tem por título  Guia comentado dos sebos do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro:UFRJ, 1992, 38 p.).
        Este Guia é precedido de uma elucidativa  “Apresentação,” na qual   aquele professor  dá as razões da organização do livrinho.  E, o mais curioso  é que,  pela primeira vez tomei conhecimento  do termo  “sebo” para significar  livro antigo destinado à venda.
        Assim, o professor Wellington, recorrendo à  informação contida no livro de Memórias do Visconde de Taunay, faz uma pequena citação que esclarece  esse ponto. Os antigos vendedores de livros usados eram  chamados de “caga-sebo.” Eles eram os mais  antigos  livreiros  desse  comércio de livros. Taunay, portanto,  registrou  esse primeiro  vendedor, entretanto, não nos falou  do nome dele, apenas acena para a data em que ocorreu  o fato histórico, que é o ano de 1856.
        Mais adiante,  o professor Wellington,  estendendo suas observações, acresce ainda que,  com o tempo,  a forma composta “caga-sebo’ reduziu-se, por eufemismo,  ao termo “sebo.” Este, sozinho, perde o sentido  pejorativo da primitiva  forma composta.
        Devo  anotar aqui  que o pequeno  livro  do meu  ex-professor teve a colaboração do professor  e hoje  membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Carlos Secchin, também meu ex-professor de literatura brasileira  no Doutorado..  Foi de Secchim que surgiu a ideia de organizar uma publicação dessa natureza. De resto, o próprio Secchin, posteriormente,  lançou seu  Guia de sebo das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo ( Rio de Janeiro: Nova Fronteira,  do Rio de Janeiro e São Paulo 4 ed.rev. e ampliada, 2003, 166 p.).
        A edição de Secchim inclui ainda no volume 15 cidades brasileiras. Além disso, a enriquece uma “Apresentação do Editor” que, de forma erudita,  dá novas  sentidos e origens ao termo “sebo”. E mesmo ao composto “caga-sebo.”
       O que, porém, mais me leva ao passado de, pelo menos,  4 décadas,  era o contentamento  de, naqueles  tantos anos,  entrar nos sebos,  ir até às prateleiras  c cheiro de livro  velho, ver as seções que me interessavam  mais, ou seja, as que diziam  respeito a línguas estrangeiras(algumas no original),  literatura  brasileira, teoria literária,  linguística, filologia, língua portuguesa, língua inglesa, francesa, espanhola,  latina, de outras literaturas  ocidentais,  de romances  brasileiros sobretudo, de gramáticas portuguesas.
       Ficava encantado quando me deparava com um a obra que me parecia  de grande utilidade aos meus estudos. Algumas eram verdadeiros achados. Como eram mais  baratos,  não deixava de comprar uns três ou quatro  volumes  sempre que dava uma passada naquele sebo durante anos. Ainda guardo comigo  várias obras, algumas raras de se encontrarem hoje, a não ser se contarmos com a sorte  nas chamadas  livrarias  virtuais.
      Dos muitos sebos cariocas   o que  mais  visitei foi o que se originou da Livraria  São José, do antigo proprietário, o  livreiro conhecido Carlos Ribeiro (ex-funcionário da velha Livraria  Quaresma) junto com o seu sócio, Walter Alves da Cunha, que depois se separaram.
     A Livraria   São José foi também, por algum tempo,  editora. Em tempos que não os meus,  a Livraria São José era um point famoso de encontro de altos  intelectuais cariocas e de  talentosos  escritores  vindos de outras regiões do país, sobretudo do Norte e Nordeste.
    Tempos de Manuel  Bandeira,Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles,  Gilberto Freyre  Graciliano Ramos,  José Lins do Rego, Jorge Amado,  Raquel de Queiroz, entre tantos outros.Até escritores  do porte de Ferreira de Castro,  Miguel Angel Astúrias ( prêmio Nobel de Literatura), Neruda( também Nobel de Literatura). O local  não era somente visitado por  escritores,  jornalistas,   cronistas,   críticos, mas também  por  presidentes da República,  políticos em evidência ..
   Tempos também  de memoráveis lançamentos  de livros de grandes escritores brasileiros. A instalação da livraria  São José se deu em 1939. Antes ela, abrigava a antiga Livraria Briguiet. Nos anos 1980 a Livraria São José  foi considerada como “o maior  sebo da América Latina.”   No seu apogeu(anos de 1947 a 1967),  além da loja-matriz  na Rua  São José, nº 38, a livraria dispunha de mais três  lojas na mesma rua, nos números  40, 42 e 70.s..
   Sendo a Livraria situada na própria Rua São José,  desconfio de que a razão social do ramo de livros se deve também por contiguidade e aproximação física com a bela Igreja de São José, na qual  meu filho  Francisco Neto se casou.  Aquele entorno  no passado se chamava Morro do Castelo, o qual foi demolido, sofrendo, com o tempo, completa modificação  paisagístico-arquitetônica.
  As lembranças da Livraria São José são do tempo em que  conheci  um dos seus funcionários,  o Germano, que  ali  começou a trabalhar bem moço, como funcionário do Carlos Ribeiro, citado  acima. Quem me apresentou  ao Germano foi a minha  mulher, na época, minha  namorada. Era no tempo  em que iniciara o meu curso de Letras.
  Elza, que estudava química na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), da antiga Universidade do Brasil,  uma vez foi apresentada ao Germano por outras colegas da Faculdade que já eram  compradoras  da São José e muito bem  atendidas  pelo Germano,  vendedor  da preferência  delas.
  Os áureos tempos da São José foram declinando, Carlos Ribeiro faleceu. A Livraria deu  origem, mais tarde,  ao sebo da São José.  Carlos Ribeiro, afetivamente chamado de “Carlinhos,”  com o agravamento financeiro da livraria e já com a saúde bem abalada em razão das péssimas finanças da livraria, decidiu vendê-las  a seus ex-bons funcionários, sendo o  Germano  um deles.Os outros dois eram o Carlos dos Santos Ribeiro e o Adelbino de Marins Spíndola.
  Em seguida,  a Livraria passou à condição privilegiada de ser um bom   sebo, mas não mais  funcionava na Rua São José. mudou-se, primeiro,  para a Rua  do Carmo,  bem perto do antigo endereço. Desse endereço, após algum tempo, transferiu-se para a Rua 1º de Março, igualmente no Centro.
  O sebo era mais especializado em obras jurídicas, mas tinha ainda um   acervo  de muita  importância nas seções de línguas estrangeiras, didáticas ou não, dicionários de alta relevância,  e um  número grande de obras  em várias literaturas.Em todo esse tempo,  não deixei de ir ao sebo São José.
  Uma circunstância que não deveria  esquecer de comentar. Elza, ao referir-se ao Germano, sempre  o chamava de Seu José,  levada seguramente por associação de ideias   e pela proximidade com o nome da antiga Livraria São José.  De tanto  visitar ao sebo da São José, com o tempo  estreitei amizade com o Germano que, além disso,  me fazia sempre um  bom  desconto  nas compras de livros.
  Germano me contava, nos últimos anos,  que o aluguel da loja  para o funcionamento  do sebo estava cada vez mais caro com as mudanças econômicas  havidas no país e isso ia num crescendo a ponto de atingir situação  ainda mais  delicada para destino das livrarias de sebos que começaram a  fechar as portas de forma crescente.O curioso é que não só os sebos sofreram   os embates  de crise econômica,  mas as próprias livrarias  mais conhecidas  que não vendiam  livros  usados. Do Centro  várias  boas e excelentes livrarias  fecharam as portas.
  Germano  teve que praticamente interromper os negócios do sebo do último  endereço  na 1º de Março. A situação ficou insustentável. Vendeu o estoque quase por inteiro. Ficou apenas com  uma parte do acervo  de livros  jurídicos, obras raras nessa área. Fez sua mudança novamente. Obrigado pela crise, alugou umas salas pequenas na Rua da Quitanda,  nº 67, Sala 402.
   Germano, diante da grave crise dos sebos e mesmo  do fechamento de grandes e luxuosas livrarias do Centro,   a fim de sobreviver,teve que entrar no meio digital da venda de livros, associando-se ao conglomerado chamado de Livraria Virtual.  
  O costume de ir aos sebos é bem antigo. Escritores, estudantes, pessoas  interessadas em cultura habituaram-se às visitas   nos sebos.Acredito, porém,  que hoje, com a venda de livros usados via internet, os sebos ao vivo estão em franca decadência., com baixas sensíveis nas vendas. 
    As vendas virtuais, segundo me informaram,  estão dando mais lucros, Mudanças de tempos e de hábitos, ainda com a concorrência dos e-books, dos downloads de livros  nos tablets,  nos celulares  de alta potência e complexidade.
       Eu perguntaria a mim mesmo: “Está satisfeito com isso? Não.” Sinto nostalgia? Sim.” Sobretudo do tempo  de estudante de Letras e, depois,  mesmo do tempo  em que iniciara, muito jovem, o magistério. Comprei muitos livros. Achava-os, naqueles tempos,  mais baratos. Hoje, penso que os livros usados se valorizaram e, por isso,  são mais caros, sobretudo algumas obras que ficaram  raras.
     Não é só o prazer de comprar esses livros usados que nos faz ir aos sebos. Há o prazer de encontrar uma obra que há tempos procurávamos. Eureka!”Além disso, é agradável quando podemos travar um bom relacionamento com o livreiro, principalmente quando ele tem bom humor, é solícito, dá bons  abatimentos que nos contentam e, sem nenhuma dúvida, nos fazem ali sempre voltar com alegria.

     Nos  apegamos às vezes a um sebo como foi o meu caso e o de minha família com o do Germano. Não há como não visitá-lo a fim de verificarmos se o estoque possui o que procuramos. O ideal seria se todos pudéssemos ter o mesmo  sebo e desfrutar  do convívio com o livreiro amigo e camarada, além da felicidade de encontrar o livro desejado. Ah, velhos sebos de outrora!   

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Histórias de Évora - Capítulo XX


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XX

Escândalo no QG

Elmar Carvalho

 “Em minha puberdade, quando voltava de alguma festa, tertúlia ou da Praça Lucas Mendes Furtado, gostava de dar uma passada na Zona Planetária, para olhar a movimentação de pessoas ou mesmo tomar duas ou três cervejas com meus amigos. Raramente ficava com alguma mulher. O medo de doença venérea e a escassez de dinheiro, para pagar a ‘chave’ ou a mulher eram o principal empecilho. Em alguns dos prostíbulos, no apogeu da cera de carnaúba e de outros produtos do extrativismo, muitos fazendeiros, gerentes de poderosas empresas, comerciantes e industriais fecharam grandes negócios, a tomarem um aperitivo antes do almoço.

Uma vez ou outra, fui até a zona do baixo meretrício, onde ficavam os cabarés Cai n’água, Isabelão e o Corujão da meia noite. O primeiro, como o nome sugere, ficava na beira do rio Paraguaçu. Quando algum malandro não queria pagar a conta da bebida ou a rapariga, corria e pulava no rio; daí a pitoresca denominação. O nome do segundo era em virtude de a matronal e rotunda madame se chamar Isabel. Nele fazia ponto a Juriti, que tinha esse silvestre apelido em virtude de, algumas vezes, aceitar acoitar-se nas finas areias das moitas do rio, para que o parceiro não pagasse o quarto.

O Corujão, cujo nome usávamos sempre abreviado, ficava aberto a noite toda. Vendia uma cachaça muito ruim, barata, mas sempre aguada ou ‘batizada’, e uma panelada gordurosa, idem na ruindade. Por esse motivo, Cazuza, parafraseando o poema-piada de Oswald de Andrade, dizia com sua tonitruante voz: ‘Cachaça e panelada do Corujão é beber, comer e ir ao chão, vítima de mortal congestão.’

Numa das vezes em que fui ao QG, vi um homem de cerca de quarenta anos de idade, que conhecia de vista, sentado a uma mesa, com dois amigos, a beber cerveja. Era baixote, um tanto gordinho e já ostentava uma acentuada calvície. Falava alto e gesticulava muito, mostrando sinais de que a bebida já começava a fazer efeito. À socapa a canalha o chamava de peito de pombo ou garnisé empavonado. Andava empertigado, como se desejasse aumentar a reduzida estatura. Era um alto funcionário da Fazenda Estadual, e chefiava a antiga Mesa de Renda local.

Não demorou muito, três mulheres, das mais vistosas do ambiente, vieram para a mesa dos três homens. O baixinho colocou uma delas em seu colo, e começou a acariciá-la e beijá-la, com certeza já se preparando para levá-la ao quarto. Sua mesa estava perto de um dos pontos cardeais da rosa dos ventos, estampada no mosaico, no centro do salão.

De súbito, como uma tempestade não prevista pelos meteorologistas, chegou uma linda mulher, a mais linda mulher de Évora, assim considerada por homens e mulheres em voz geral e uníssona. Estava deslumbrante, em seu vestido apertado e um tanto curto. O sapato de salto alto ainda mais realçava o seu porte magnífico. Tinha um belo rosto e curvas estonteantes de legítima Calipígia. Não tinha quem a visse e não lhe admirasse a prodigiosa beleza, digna destes e de outros adjetivos.

Em não programada estratégia,suponho, ficou bem no centro da rosa dos ventos, rosa pisoteada por outra rosa mais bela. Colérica, começou a imprecar de forma incontida contra o marido, que outro não era senão o fazendário baixinho:
–Olha bem, seu cretino, por que tu não faz comigo o que está fazendo com essa cunhã? Por que tu não bebe lá em casa e me coloca em tuas pernas e me beija? Eu sei o que tu merece... Tudo merece é que eu te coloque um bom par de chifres! Aí tu vai ver, covarde, se é bom ser enganado.

E continuou por mais algum tempo com a sua rajada de impropérios. O marido, estupefato e tomado de surpresa, não esboçou a menor reação. Estava no ponto norte da rosa dos ventos, mas ficou completamente desnorteado. Quando conseguiu se levantar e caminhar em direção à esposa, esta lhe deu as costas e foi embora em passos apressados. Essa destemperada e violenta demonstração de ciúme parece demonstrar que a bela mulher gostava do marido, e apenas estava a requerer maiores atenções e carícias. Tanto que o baixinho contava aos amigos que a reconciliação fora ‘uma verdadeira delícia, uma segunda lua de mel revista, aumentada e melhorada’.

Eu conhecia essa formosa mulher e lhe admirava o esplendor à distância. Era uma verdadeira deusa da beleza e despertava olhares de admiração em todo mundo. Era uma formosura completa, dos pés à cabeça. Foi a partir da contemplação de seu corpo escultural que eu desenvolvi uma tese que rebatia a do Zé Limeira, chamado o Poeta do Absurdo.

O notável repentista paraibano teria dito estes versos, em sua inocente loucura e genialidade, em homenagem à mulher de seu anfitrião, em noite de cantoria: “Cantar para Dona Zefinha / É só isso que me aumenta, / Pois conheço a muié boa / Pelo buraco da venta (...)” Defendi o entendimento de que toda mulher (desde que não seja obesa) que tem a panturrilha grossa, bem torneada, possui um corpo todo bonito e harmonioso, ao menos do queixo para baixo. Até hoje não tenho visto exceção. Médicos como o doutor Gisleno e renomados causídicos têm concordado comigo.

Para que se tenha uma pequena ideia do encanto sem igual da mulher do fazendário, contarei o seguinte: certa vez em que eu participava de um treinamento para o desfile de 7 de setembro, ao passarmos por uma das ruas do centro da cidade, ela estava parada, em pé, numa das esquinas; todos os rapazes de dois pelotões masculinos, como sob o efeito de algum sortilégio, se voltaram para ela, o que pode ter provocado torcicolo em algum deles. Em vez de ela passar em revista a tropa, nós é que a passamos em revista, em completo alumbramento e justa homenagem. Só nos faltou lhe batermos continência.

Todavia, não demorou muito, seja por vingança, seja também por carência, em face da desídia injustificável do cônjuge, a beldade cumpriu a promessa: ornamentou-lhe a testa com um belo e imponente par de chifres. O felizardo foi conhecido malandro e garanhão da cidade. Parece que ela escolheu esse boêmio para dar uma lição no marido, e para demonstrar que não queria nada a sério com ninguém, mas apenas lhe aplicar um corretivo, para que ele não mais lhe fosse infiel e desdenhoso.


O marido entendeu a advertência. Conseguiu rápida e oportuna transferência para a capital, onde continua com ela, ainda bonita e desejável, apesar da idade.”     

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Como é difícil se chamar Ideilce


Como é difícil se chamar Ideilce

Valdir Fachini

O meu nome é esse aí, do título, sem tirar nem por. É difícil de acreditar, mas é isso aí. Então você pergunta: Como pode alguém se chamar assim? É fácil, é só ter um par de pais doidos como eu tive.
Também não sei onde eles acharam isso, se era nome de alguma planta da região, ou de algum calango, ou se foi o sol abrasador do sertão baiano que queimou os miolos deles.
Mas, enfim...! Esse é o meu nome e confesso que não me envergonho dele. Eu poderia mudar pra Virgulina (olha só, nome de herói!), Severina (mais vida do que morte), ou Bastiana, ói que nome lindo! Mas eu prefiro esse que tenho.
Ah! Eu ia me esquecendo, eu sou mulher, é meio difícil de identificar porque esse nome pode ser masculino ou feminino, embora muita gente ache que não serve nem pra um e nem pra outro.
Sou baiana arretada, nascida num vilarejo de nome estranho. Acho que no passado era município de Caculé, mas hoje já é dono do seu nariz. Meus pais moravam no sítio e nunca registravam o filho logo que nascia. Eles esperavam juntar depois fazia um pacote só, então eles não lembravam a data e punham qualquer uma. Eu, por exemplo, faço aniversário em dois dias do ano, mas até hoje não sei qual o dia certo.
Bom! Já terminei o meu dossiê, agora vou falar da dificuldade de ter o meu nome. O problema é que ninguém acerta e nem é tão difícil assim, mesmo assim o pessoal se complica. Já me chamaram de uns trocentos nomes diferentes. Ontem mesmo ligaram no meu serviço e queriam falar com o senhor Idelco. Aí eu me estressei, senhor Idelco o escambau! Eu sou uma menina, não um trator (depois eu descobri que o nome do veículo é Iveco e não Idelco e também não é trator, é caminhão).
Já me chamaram de tantos palavrões que às vezes até esqueço minha identidade. Faço cara de brava, xingo, não respondo, mas no fundo eu até gosto, não importa se colocam mais letras ou se tiram algumas; o importante é que tentam falar o meu nome.
Já pensei até em fazer um dicionário e já pensei até como se chamaria: Dicionário Ideilcês... Acho até que seria um Best Seller! Já me vejo numa noite de autografo.
É isso aí, esse foi o nome que me deram e eu sou feliz assim, pelo menos é exclusivo. Já mandei um e-mail pra Globo pra eles darem meu nome pra uma protagonista de uma novela das nove, já pensou? Aí as mães iam querer esse nome nas suas recém-nascidas. Legal né?
Se algum dia algum jornal publicar uma história tirando sarro desse meu lindo nome, pode ter certeza que foi aquele chato do meu marido, metido a escritor, que escreveu.

Tô nem ai, eu não ligo mesmo!    

terça-feira, 6 de setembro de 2016

RETORNO AO “NORTE DO PIAUÍ”

Alcenor Candeira Filho
RETORNO AO “NORTE DO PIAUÍ”
                                      
Alcenor Candeira Filho

          Fui colaborador contumaz durante algum tempo dos jornais A AÇÃO , NORTE DO PIAUÍ e A LIBERTAÇÃO, dirigidos respectivamente por Mão Santa,  Mário Rodrigues Gomes Meireles e Bernardo Batista Leão.

          Todos esses jornais, bem como os demais que circularam ou circulam na cidade, sempre acolheram em suas páginasjornalistas, escritores, professores, doutores, artistas. No mundo da internet, blogues e portais também vêm dando espaço para todos. E assim vai girando o mundo dos que lutam com palavras, ainda que “sem maior proveito/ que o da caça ao vento”, como disse Carlos Drummond de Andrade no poema “O Lutador”.

          Minha iniciação na imprensa escrita parnaibana se deu nos anos 70 em jornais alternativos ou marginais: O LINGUINHA e INOVAÇÃO.

          Colaborações esporádicas em revistas culturais: PRESENÇA, CADERNOS DE TERESINA, ALMANAQUE DA PARNAÍBA, REVISTA DA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS e REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE OEIRAS.

          A maior parte do que publiquei em jornais da Parnaíba trata de assuntos culturais, especialmente literários.

          Até hoje não entendo a falta de apetite para escrever sobre política municipal, porque em verdade sou apaixonado pelo assunto e tenho sido político militante, comfiliação partidária, desde 1972 , quando iniciava a vida profissional como advogado e professor e apoiei publicamente, inclusive com discursos em palanque, a candidatura a prefeito de Elias Ximenes do Prado pelo MDB. Partido adversário: ARENA. Era a época do bipartidarismo ditatorial. Elias derrotou o deputado Ribeiro Magalhães, que tinha o apoio dos governos federal (Garrastazu Médice), estadual (Alberto Silva) e municipal (Carlos Carvalho).

            Sempre estive filiado a agremiação partidária, apesar de nunca ter disputado mandato popular. Encontro-me filiado ao PTB desde que o deputado José Hamilton FurtadoCastelo Branco assumiu a presidência do partido em Parnaíba.

          É inconcebível, porque meramente utópico, um mundo sem governantes e governados.

          Encaro a política como ciência, arte e prática e a considero fundamental no destino dos povos, em qualquer época. Não se deve generalizar na crítica aos que detêm ou detiveram mandato eletivo. Como em todos os setores da sociedade se haverá sempre de distinguir o “alto” do “baixo clero”, “o joio do trigo”.

          Gosto de ler, ver e ouvir notícias e opiniõespolíticas. Hábito antigo, mas O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA ´´é o único livro de minha autoria que trata de política municipal.

          Quem sabe um dia não venha a escrever artigos sobre o passado e o presente da política parnaibana, a partir de 1950, quando desde o nascimento era vizinho do prefeito João Orlandode Moraes Correia. Em razão dessa vizinhança guardo vaga lembrança da visita a Parnaíba feita em agosto de 1950 pelo então candidato à presidência da república Getúlio Vargas, que se hospedou no casarão da rua Grande, hoje av. Presidente Vargas, onde residia o dr. João Orlando.

          Há algum tempo só tenho escrito esporadicamente em jornais e blogues locais: O BEMBÉM, O PIAUGÜÍ, BLOG DO POETA ELMAR CARVALHO, PORTAL COSTA NORTE e ACESSE 24 HORAS.

      Daqui para frente espero publicar um texto, como aliás já fiz no número anterior, em todas as edições do jornal NORTE DE PIAUÍ.

       Para mim é um feliz retorno ao conceituado jornal, após algumas décadas de ausência voluntária.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Discurso em apresentação a Teodoro Bicanca

Renato Castelo Branco
Discurso em apresentação a Teodoro Bicanca

Dilson Lages Monteiro (*)

Senhores e senhoras,

Saúdo a todos, lembrando a figura do notável romancista Orlando Geraldo Rêgo de Carvalho (O. G.); de suas palavras em memorável palestra para numerosa plateia de estudantes secundaristas e alguns curiosos, entre os quais me incluía, nos idos de 1990. No auditório do Liceu Piauiense, ao falar sobre sua formação como literato,  O. G. fez um apanhado dos traços que definiam a prosa de ficção quando publicou Rio Subterrâneo.

Em dia de iluminação, daqueles em que as ideias têm asas, de voz firme em sua energia que respirava literatura quando se pronunciava sobre ela, a sua literatura notadamente,  citou, para minha surpresa, eu que já o ouvira manifestar-se várias vezes sobre como se fez escritor, Teodoro Bicanca, de Renato Pires Castello Branco.

O nome do autor já me era conhecido dos compêndios de literatura. Também o mesmo nome sobre quem, em menino, ouvira minha avó materna falar em algumas ocasiões, aludindo saudosamente à sua tia – e também do esposo - Antônia Pires Rebello (Tunica), avô do escritor; a tia acolhedora a quem visitava quando estudante em Parnaíba e sobre quem se enchia de felicidade ao falar. A obra, porém, somente naquele dia, percebi tratar-se, segundo revelava O. G. Rego, valiosa, porque precursora do modernismo na Literatura Piauiense.

Em objetivas palavras, Orlando Geraldo resumiu o cerne do romance; traçou-lhe apanhado de sua mímese e dos elementos identitários que a tornavam única. Então, recém-egresso ao curso de Letras, vasculhei as bibliotecas de Teresina, para sorver de Bicanca a atmosfera de que o nosso notável prosador havia falado com um entusiasmo sincero de que se tratava de um livro especial.

Minha curiosidade logo se arrefeceu. Em nenhuma delas, encontrei o livro. Tive de me contentar com as referências apropriadas e oportunas de Herculano Moraes em Visão Histórica da Literatura Piauiense, embora não me desse por satisfeito da frustração de, naquele momento, não ler livro tão fundamental para nossa história literária. Muitos jovens interessados em literatura piauiense, creio, vivenciaram a minha insatisfação e esperam até hoje o momento para conhecer o romance que insere o Piauí na prosa moderna de ficção.

Em meu caso, particularmente, quase uma década depois da palestra de O. G., meu desejo  materializou-se em presente a mim encaminhado pelo sociólogo e genealogista Edgardo Pires Ferreira. Ele desfrutara da amizade com o autor, a quem muito estimava, e me concedera a surpresa de fazer com que os livros mais valiosos de Renato Pires Castello Branco me chegassem às mãos. E, assim, surgia a oportunidade de conhecer Teodoro Bicanca e Civilização do couro, há muito ausentes de nossas bibliotecas.

No caso de outros curiosos e interessados em nossas letras, a quem não foi concedido ainda o privilégio da leitura de Renato Castello Branco, o momento chegou: Teodoro Bicanca, agrupada em edição com o clássico estudo sociológico Civilização do Couro, integra a centena de obras basilares da história cultural do Estado, reunidas em esforço histórico, para comemorar, em 2017, os cem anos deste Cenáculo de Letras.

Senhores e senhoras,

Escrevendo sobre o romance de 30, o crítico literário José Hidelbrando Dacanal reúne alguns elementos comuns aos romances produzidos em torno do ideário regionalista:

a)”O que é narrado é verossímil, é semelhante à verdade”;

b)”Em termos de estrutura narrativa, isto é, a forma como são apresentados os fatos narrados, é fundamentalmente linear”, em geral;

c)A linguagem “é filtrada pelo chamado código urbano culto”,

d)”O romance fixa diretamente estruturas históricas perfeitamente  identificáveis por suas características econômicas e sociais;

e)”As estruturas históricas são geralmente agrárias (...) As personagens vivem no espaço urbano, mas procedem do espaço agrário, do que resultam conflitos não poucas vezes centrais no desenvolvimento do enredo”;

f)”O romance de 30, está impregnado de um otimismo que poderia ser qualificado de um ingênuo. (...) E, portanto, reformável, se preciso e quando preciso. Basta a vontade dos indivíduos e/ou grupo para que a consciência, que domine o real o transforme”;

A par disso, em Teodoro Bicanca, cuja primeira e única edição é de 1948, Renato Castello Branco            narra o drama da divisão de classes, expressa na exploração dos trabalhadores braçais na fazenda Areia Branca, nos lugares sociais pré-demarcados na sociedade parnaibana, na exploração do capital sobre  vareiros, canoeiros e embarcadiços do Parnaíba.

Esta seria na literatura piauiense a primeira obra a conjugar os traços temático-estilísticos a que se refere Dacanal,  os quais servem como pano de fundo para denunciar as injustiças sociais, ideário comum a toda essa literatura produzida com sucesso entre 1928 e 1960, ainda que calcada em grande preocupação com a ambientação social e humana, herdada do realismo. Ainda que, como lembra Antônio Cândido, em Iniciação à literatura brasileira, ocorram os riscos expressos “pela redução da humanidade dos personagens, pelo pitoresco superficial e pela dificuldade de ajustar a linguagem culta aos torneios populares” .

A estrutura do romance regionalista, entretanto, conforme explica Alfredo Bosi, citando Lucien Goldmann, apresenta um “herói que se opõe e resiste agonicamente às pressões da natureza e do meio social”:

“Os fatos assumem significação menos ingênua e servem para revelar as graves lesões que a vida em sociedade produz no tecido da pessoa humana: logram por isso alcançar uma densidade moral e uma verdade histórica muito mais profunda. Há menor proliferação de tipos secundários e pitorescos: as figuras são tratadas em seu nexo dinâmico com a paisagem e a realidade sócio-econômica. (...) E dessa relação que nasce o enredo. Passa-se do tipo à expressão; e, embora sem intimismo, talha-se o caráter do protagonista”.

Nesse sentido, Bicanca, o primeiro protagonista,  é um resistente. Resiste, ou tenta resistir, à reprodução do ciclo de arbitrariedade que cerca o destino do pai, explorado na roça, explorado na extração da cera de carnaúba. Resiste ao aventurar-se na venda de água de porta em porta em Parnaíba. Resiste no brutal esforço de vareiro valente. Resiste ao abraçar a causa da consciência do amigo e advogado Abedias – este, talvez alter ego de Renato. Resiste, enfim, ainda que sem sucesso, a reproduzir silenciosamente as engrenagens da opressão.

Em Teodoro Bicanca, a fusão entre lirismo e preocupação social consiste em fator que torna a narrativa envolvente, ressaltando traço a que a crítica é unânime em afirmar: há um alto grau de associação entre o eu do escritor e a sociedade que o formou, de tal modo que a memória rompe como elemento vital do processo de escritura até nos efeitos de sentidos alçançados por termos próprios do falar regional.

Essa fusão é mais determinante, a nosso ver, em passagens que recuperavam os hábitos da vida na fazenda, ou a estratificação social na Parnaíba representada. Nesse ponto, marcam a leitura a lembrança das regras que regem a distribuição do trabalho no mundo rural e  o “sereno” na porta da associação festiva parnaibana. Marcam, principalmente, pela imposição da memória sobre a ficção em perceptível carga de lirismo.

Em dissertação de mestrado sobre Teodoro Bicanca, de leitura recomendável, a professora Arlene Soares, em lúcida e inteligente interpretação discursivo-estilística da obra, diz que

“Renato Castello Branco Jamais abandonou as reflexões que o despertaram na juventude as questões humanitárias, mostrando-se sempre atento às injustiças sociais e às transformações do Mundo”.

É nesse ponto que, a nosso ver, compromissado com o ideário do regionalismo, o escritor alcança seu ponto mais elevado. Revela-se aqui a incorporação do marxismo como fundamento para a gênese de seu projeto literário no romance. Ao incorporar postulados marxistas para a tessitura das ações do romance e do perfil dos personagens de maior relevo, age em defesa, no fundo, do próprio humanismo, alcançando efeitos próximos aos alcançados por Graciliano Ramos em São Bernardo.

Neste, Paulo Honório, para manter sob controle os agregados, utiliza-se dos mais variados meios de controle social, inclusive do extremo da violência física. A esse propósito, essa aproximação ideológica é cabível em passagens como:

(...) Uma tarde surpreendi no oitão da Capela (...) Luís Padilha discursando para Marciano e Casimiro Lopes:

-- Um roubo. O que tem sido demonstrado categoricamente  pelos filósofos e vem nos livros. Vejam: mais de uma légua de terras, casas, mata açude, gado, tudo de um homem. Não está certo.

Marciano, mulato esbodegado, regalou-se, entrochando-se todo e mostrando as gengivas banguelas:

-- O senhor tem razão, seu Padilha. Eu não entendo, sou bruto, mas perco o sono assuntando nisso. A gente se mata por causa dos outros. É ou não é, Casimiro?

Casimiro Lopes franziu as ventas, declarou que as coisas desde o começo do mundo tinham dono.

-- Qual dono! Gritou Padilha. O que há é que morremos trabalhando para enriquecer os outros.

(São Bernardo, p.44)                         

Analogamente, em Teodoro Bicanca, deparamo-nos com passagens como esta:

“Com a convivência de Abedias, Teodoro ia compreendendo coisas que nunca lhe passara pela cabeça. O mundo começava a se apresentar a seus olhos de modo diferente.

E os coronéis, também, tinham outros coronéis ainda maiores acima deles, os que compravam a cera, ou o babaçu, ou as peles, para mandar para a estranja. E Abedias dizia que também dependiam de gente ainda mais poderosa.

O mundo de Teodoro tornava-se cada vez mais complexo, - era o mundo do bicho maior comendo o menor: o coronel comendo o agregado, o exportador comendo o coronel, a estranja comendo o exportador.”

 (Teodoro Bicanda, p. 135).

Senhores e senhoras,

Resumindo a resistência literária em Teodoro Bicanca, de Renato Castello Branco, cabe dizer sobre o autor, o que disse Antônio Cândido ao analisar a obra de Graciliano Ramos:

“A literatura é o seu protesto, o modo de manifestar a reação contra o mundo das normas contritoras. Como em quase todo artista, a fuga da situação por meio da criação mental é o seu jeito peculiar de inserir-se nele, de nele definir um lugar”.

Muito obrigado!


(*) Discurso proferido pelo escritor e ocupante da cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras, Dílson Lages Monteiro, em apresentação de Teodoro Bicanca, durante lançamento do volume 81 da Coleção Centenário, na Academia Piauiense de Letras, em 25.08.2016.   

domingo, 4 de setembro de 2016

Seleta Piauiense - Álvaro Pacheco


Poema da Mulher

Álvaro Pacheco (1933)
 
de âmbar e ostras
o cheiro forte
um mistério profundo
de pérolas líquidas
and strange scents
no começo de tudo.
de lábios e dobras
folded, exhilarating
uma coisa simples
e inexplicável - e nela
em mucos liquefeitos
se experimenta a morte.

de formas fugitivas
como nuvens e sonhos
em matéria úmida
no mistério de âmbar
e pérolas liquefeitas:
nesse túnel sem fim
a terra mágica, o caminho
que nunca se encontra
e o exposto segredo
ao nosso indecifrar.


Rio, novembro 74

sábado, 3 de setembro de 2016

POSSE NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA MAÇÔNICO DO GOB-PI

Irmão Carvalho, Grão Mestre José Antônio Dias e Edvaldo Marques, presidente do TJ-GOB-PI

Alguns dos obreiros presentes à solenidade

Elmar Carvalho discursa, vendo-se os seus colegas de posse Marcus Vinicius, João Fernandes e Lirton Nogueira

POSSE NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA MAÇÔNICO DO GOB-PI

Elmar Carvalho

No dia 31 de agosto, quarta-feira, em solenidade iniciada às 19 horas, tomamos posse no Tribunal de Justiça Maçônico do Grande Oriente do Brasil – Piauí Lirton Nogueira, Marcus Vinicius, João Fernandes e este obreiro. A sessão foi presidida pelo presidente do Tribunal, Edvaldo Marques, coronel e vereador de Teresina no mundo profano, coadjuvado pelo eminente Grão Mestre, José Antônio Dias, que proferiram generosas palavras de acolhimento. Os novos juízes foram agraciados com o diploma e medalha do Mérito Judiciário.

Estavam presentes representantes dos Poderes da sublime Ordem e expressivo número de obreiros. Fui indicado à Poderosa Assembleia Legislativa Maçônica, para exercer o cargo magistratural, pelo valoroso irmão José Ataíde, que também, mais de duas décadas atrás, me convidou a ingressar na Maçonaria; tenho certeza de que serei “compelido” por ele a bem servir neste novo mister, como, aliás, é meu propósito.

Prestamos juramento, um a um, e assinamos o termo de posse. Fui indicado pelos novéis juízes a proferir discurso, em que procurei ser breve e conciso. Disse que um julgador deve procurar sempre agir com justiça e celeridade; que a Justiça tardia é muita vezes crassa injustiça. Acrescentei que deveríamos nos esforçar para engrandecermos a nossa colenda corte julgadora maçônica.

Relembrei estas palavras, que disse no já distante dia 19 de dezembro de 1997: “Quando tomei posse de meu cargo de juiz junto ao Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Piauí (...) disse que uma dúvida me assaltava naquela ocasião: sobre o que seria mais importante, se a justiça, se a bondade. Mas eu próprio resolvi o aparente paradoxo da equação, ao dizer que quem era justo era bom, e quem era justo necessariamente teria que ser bom.” Por coincidência, o irmão Lirton Nogueira também tomava posse nessa ocasião. Por pura blague, disse que, aposentado na magistratura piauiense, voltava à plena atividade na judicatura maçônica.

O irmão Luciano Machado, vice-presidente do Tribunal, proferiu um belo discurso, de profunda erudição maçônica, ornado de belos ensinamentos, alguns extraídos da mitologia, e recheado de pertinentes reflexões sobre o melindroso ofício de julgar.

Após a solenidade, o grão mestre José Dias inaugurou as ampliações e reformas feitas no prédio da sede do GOB-PI. Como corolário, foi servido farto, saboroso e variado coquetel.  

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Histórias de Évora - Capítulo XIX


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XIX

Montevidéu, ontem e hoje

Elmar Carvalho

A chácara Montevidéu pertencera ao coronel e fazendeiro Marcolino Ferreira, que nela passava os finais de semana com a sua família. Às vezes ele convidava amigos para eventuais comemorações, à base de churrasco e cerveja. Todavia, no meio da semana, em frequência que variava de quinze a trinta dias, o coronel levava uma mulher, prostituta ou não, para passar uma tarde com ele nesse sítio.

Já cinquentão, no começo dos anos 60, seja por mérito exclusivamente seu ou com a intermediação de pessoa de sua confiança, começou a ter um caso com três irmãs, sendo uma viúva e duas outras solteironas. Acredita-se que ele começou esse relacionamento com a primeira, que depois teria aliciado as irmãs. A filha única da viúva já era casada e morava na capital, de modo que as irmãs Alvarenga moravam na mesma casa. Não se sabe por que inusitado capricho o coronel, embora na periodicidade já referida, as “usava” na mesma ocasião, e não em dias diferentes. Também se desconhece o motivo pelo qual elas aceitavam essa situação digna de um harém. Nunca se soube se elas iam para a alcova ao mesmo tempo, ou se em diferentes momentos do conciliábulo amoroso.

Comentava-se em Évora que o coronel Marcolino era como sarampo, atacava a família toda. Na época, um homem com mais de cinquenta anos já era tido como velho. Por isso mesmo, as pessoas se admiravam de seu vigor. Contudo, quem conhecia a realidade dos fatos era o farmacêutico Sousa Santos, que detinha em sua memória uma fórmula milagrosa, que nunca partilhou com ninguém, levando-a para o túmulo.

Acrescente-se que esse notável boticário era o principal responsável pelas curas das famigeradas doenças venéreas, não raras vezes através de métodos heterodoxos e dolorosos. Ante algumas situações introduzia ardentes bastonetes em vaginas e uretras, untados com as poções miraculosas que ele próprio preparava. A vítima urrava e estrebuchava de dor. Era ele quem sarjava os árdegos cavalos de crista, pégasos tão abomináveis quanto indesejados, e espremia ou extirpava os venéreos tumores e úlceras, jamais veneráveis. Prescrevia dietas e receitas.

Uma hora antes do colóquio amoroso do coronel com as irmãs Alvarenga, o Sousa Santos, debaixo de muita discrição e cautela, lhe injetava diretamente no membro esse precursor do Viagra, que fora originalmente criado para controlar problemas cardíacos. O fato é que ele provocava severos problemas colaterais, inclusive óbito, especialmente quando usado como afrodisíaco. Em vários casos, era tiro e queda: matava mesmo.

Assim, o bravo coronel veio a falecer com apenas 63 anos de idade, no início dos anos 70. As irmãs Alvarenga não botaram luto fechado, porque isso seria uma afronta à família de Marcolino, sobretudo a sua esposa, de quem elas eram amigas, apesar dos rumores, mas passaram a usar roupas escuras, sempre muito discretas. E nunca mais se ouviu falar em relacionamento amoroso de nenhuma delas. A chácara terminou ficando de herança para um dos filhos de Marcolino, que veio a se tornar próspero comerciante e fazendeiro.  

Segundo comentários ouvidos por Marcos, o cabaré Montevidéu de Gracinha estava indo de vento em popa. Os carros, lambretas e vespas ficavam bem resguardados, dentro do cercado da antiga chácara, longe da vista de passantes curiosos e de fofoqueiros ditos profissionais. A clientela vinha aumentando a olhos vistos, talvez por causa de prostitutas novas e bonitas que ali marcavam presença. Em consequência, novas raparigas passaram a fazer ponto no Montevidéu, e isso, por sua vez, atraiu novos fregueses, em contínuo processo de retroalimentação.

Ante essas notícias, ao se encontrar com Fabrício e Mário Cunha, Marcos os convidou para uma “incursão” ao prostíbulo. No sábado, cedo da noite, os três seguiram para lá. Em face do horário, o salão principal ainda tinha algumas mesas vagas. Alguns preferiam beber no alpendre, e outros, debaixo do enorme e frondoso oitizeiro, sobretudo à tarde, quando uma brisa soprava, vinda, ao que se dizia, das bandas do lago Galileia.

Tudo parecia indicar que o empreendimento de Gracinha se tornara rentável. Além da grande venda de cerveja, refrigerantes e outras bebidas, como uísque, conhaque, rum e vermute, a diligente madame contratou uma cozinheira para preparar saborosos tira-gostos, além de pesadas refeições, entre as quais panelada, mão de vaca e rabada. A bem da verdade, diga-se que muitos não iam ao prostíbulo em busca de mulher, mas apenas dessas iguarias e de uma cerveja bem gelada, do tipo “véu de noiva”.

Os jovens e bravos mosqueteiros não estavam à procura de mulher naquela noite, pois acertaram demorar pouco, com o objetivo de irem a uma festa no Évora Clube. Observaram o plantel, e viram que algumas raparigas eram bonitas e apetitosas, e circulavam com certa discrição, à cata de possíveis clientes. Sem dúvida descartavam os estudantes, quase sempre sem dinheiro, e apenas preparados para ratear três ou cinco cervejas, ou oito em dia mais propício. Mas sempre disponíveis para uma “trepada por amor”, como eles jocosamente diziam, em suas gabolices juvenis.

Quando Marcos e seus amigos já se preparavam para deixar o recinto, chegou uma das mulheres, bem vestida, com certa sobriedade, talvez para imprimir respeito. Usava uma pulseira e brincos de ouro, mas sem ostentação. Logo foi identificada como sendo a dona do ambiente. Fabrício tratou de providenciar uma cadeira, para que ela se sentasse, e foi logo pedindo uma cerveja para lhe oferecer um copo, que ela delicadamente recusou.

Gracinha falava em voz baixa e suave, quase a sussurrar, não obstante o bolero que a vitrola tocava. Fez algumas perguntas triviais, e disse que estava gostando do local. Esclareceu que não permitia música em alto volume, para não incomodar as famílias, que precisavam de repouso. Dessa forma cultivava a política da boa vizinha e evitava retaliações, como denúncias ao prefeito ou ao delegado, sob o argumento de perturbação ao sossego público. Perguntou se eram apenas estudantes, ou se exerciam algum trabalho.

Marcos e Mário responderam que trabalhavam em jornal alternativo, mas sem nenhuma remuneração. Fabrício disse que, de vez em quando, prestava algum serviço na loja de seu pai, mais no intuito de aprender sobre como um comércio do seu tipo funcionava; em consequência seu pai lhe aumentava a mesada e lhe dava algum presente.

A madame, furtivamente, vez ou outra, olhava para Marcos, com indisfarçável interesse. O rapaz podia ser cauto, mas não era cego e muito menos ingênuo. Logo percebeu esses olhares de admiração, embora sua eventual vaidade fosse bem administrada. Considerou que ela gostara de seu porte físico e de seu comportamento. Por isso, achou estratégico lhe revelar que morava perto, a apenas três quarteirões.
– Ora, você é quase um vizinho. Pois apareça por aqui, de manhã, quando não tem movimento, nem clientes e nem mulheres, para a gente jogar conversa fora, se isso não lhe causar problema com seus pais. Geralmente, estou sozinha, apenas com mamãe e a empregada.


O rapaz lhe agradeceu o convite, e prometeu que breve a visitaria, na parte da manhã, por volta das dez horas. Em seguida, pagaram a conta e seguiram para o centro da cidade. Marcos, sem afoiteza nem açodamento, apertou a mão de Gracinha e a beijou no rosto, como via fazerem os mocinhos elegantes das películas cinematográficas.