quinta-feira, 13 de junho de 2019

ÁGUAS E PEDRAS: TRIBUTO A LUZ I(S)LÂNDIA

Fonte: Google


ÁGUAS E PEDRAS: TRIBUTO A LUZ I(S)LÂNDIA

Elmar Carvalho

As águas que rolam
pelas lombadas do morro
(bem) vindas das cercanias alvadias da igreja
            lavam os resíduos da cidade
            levam os rejeitos da saudade
e se afogam e se renovam
nas águas remansosas em novelo
do cotovelo recurvo do Parnaíba
bem ali onde as pedras
foram sufocadas
no manto cinzento do cimento
que lhes decepou a beleza
bem ali onde outrora
as lavadeiras estendiam
suas brutas labutas e canseiras
e tudo se fazia um encantado multicor
como se as roupas fossem
belas velas arriadas
enxaguadas e secando
sobre o lombo duro das pedras – agora
submersas na argamassa,
mas prenhes de lembranças
            e saudades.   

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O poeta João Carvalho na ágora do Ágora


 
Kenard Kruel, Emerson Araújo e João Carvalho. Fonte: Blog Bate Tuntum
O poeta João Carvalho na ágora do Ágora

Elmar Carvalho

Neste sábado, na Academia, foi-me entregue o opúsculo do “XXVIII Sarau Lítero-Musical Ágora”, evento que vem sendo organizado, mensalmente (última quinta-feira de cada mês), por João Carvalho, há um ano e meio, como a numeração indica. Seu organizador é um médico humanitário, que realiza um trabalho social relevante, voltado especialmente para os portadores do mal de Alzheimer, de cuja Associação Brasileira [de Alzheimer] – Regional do Piauí é ele presidente.

Tem promovido constantes palestras sobre essa devastadora doença. Quando fui juiz em Capitão de Campos, já ouvia falar no João Carvalho, que havia sido médico nessa cidade, como um cidadão bem-humorado e cordato. Depois, o conheci pessoalmente e atesto essa opinião. O Sarau Ágora conta com o apoio decisivo dele, que gasta um bom dinheiro em sua realização, embora tenha o apoio de algumas entidades.

Ajudam-no a levar adiante essa difícil empreitada os poetas William Melo Soares, velho amigo, desde meus tempos parnaibanos, Kátia Paulo, Graça Vilhena, e mais Ilza Bezerra e Dionísio Neto. No evento são recitados poemas, intercalados por belas apresentações musicais, com músicos e cantores especialmente convidados. Em cada mês é homenageado um poeta diferente.

No sarau de dezembro todos esses poetas são homenageados conjuntamente, como apoteose dessa sequência lítero-musical. As pessoas presentes podem recitar poemas de sua autoria ou da lavra de outros poetas. Além de bardo traquejado, de muita sensibilidade e sutileza, João Carvalho também é músico competente, seja manejando um teclado ou empunhando um sonoro pinho.

Para gáudio meu, já tive a ventura de ser um dos poetas homenageados, numa das edições do sarau, com direito à publicação de uma bela plaqueta, que coligia uma seleta de meus poemas preferidos. Vida longa ao sarau de nosso bravo e boa-praça João Carvalho!


1º de março de 2010

terça-feira, 11 de junho de 2019

A caveira de burro



A caveira de burro

Pádua Marques
Jornalista e escritor

O velho Domingos Dias da Silva vivia batendo cabeça, tentando de tudo em quanto pra se aposentar pelo INSS. Tinha umas cabecinhas de gado, pé duro, não restava dúvida, mas que lhe davam uns poucos litros de leite todo santo dia. Pra ele e os dois filhos, Simplício e Raimundo. Este último sempre foi o mais rebelde, metido a valentão, rabo de burro. Do cais do porto até a Nova Parnaíba tudo era território dele. Como se dizia na época, ali Raimundo casava e batizava.

Raimundo passava o dia inteiro em cima de um burro velho cotó. Era o mesmo que o pai usava pra mandar os criados, os cativos, trazerem água do Igaraçu pra encher os potes da cozinha e as tinas de banho. Menino ainda, ia até a cozinha atrás de comer farinha com açúcar. Era sair da cozinha com a boca cheia e ir intimar com as duas filhas da criada, duas negrinhas já no tope, furando os bicos dos peitos.

A vida que queria quando foi ficando rapazinho era descer o barranco na direção do porto, lá embaixo, na boquinha da noite, tudo turvo, escuro de meter o dedo no olho, escondido da mãe Claudina Josefa, que nesta esta hora estava descaroçando um terço e pedindo a Deus que desse juízo pros filhos. Ia atrás de raparigas. Índias, vindas do outro lado do rio e pelo que se sabia, ainda parentes de longe de um tal Mandu Ladino, que dominou desde a Tutoia e Araioses.

O velho Domingos vivia coçando a cabeça de tanta preocupação porque numa daquelas o filho, vai que se engraça de alguma, acaba trazendo pra dentro de casa? Depois era preparar os couros e contratar advogado pra não pagar pensão alimentícia. Raimundo vivia metido em confusão e de vez em quando chegava em casa apanhado. Lá se danava seu Domingos a correr pra delegacia atrás de algum jeito pra tirar o menino da cadeia e evitar até que fosse pra o Complexo do Menor, onde havia muito rapazinho do Broderville, São Vicente de Paula, João XXIII e do Mendonça Clark.

Com essas e outras o velho português acabou perdendo muita cabeça de gado e até teve de vender terras pra pagar indenizações. Mas a vida de Domingos e de dona Claudina tinha uma satisfação neste rosário de lagrimas, o filho Simplício. Era na família o filho mais bom da cabeça. Tá certo que lá mais na frente gastou fortuna, o que tinha e o que não tinha com luxo desnecessário. Somente pra fazer inveja nos vizinhos. Tinha até uma banda de música, de rock, sabe-se lá o que, formada por uns negros e índios. Coisa sem futuro.

A ideia de Simplício era competir com as bandas inglesas e norte americanas garantindo espaço no mercado de show business. Meteu o pau em tudo. As vaquinhas que davam leite e carne de charque, algumas léguas de terras pras bandas do Cocal e da Testa Branca, o PIS, o FGTS. Tudo pra se meter em política. Perdeu tudo. Morreu pobre e ainda com fama de medroso que fugiu pras bandas de Granja no Ceará, quando o velho Fidié, já se arrastando com a língua de fora, deu de cara ali na Guarita, invadiu a Parnaíba e levou o que pode e o que deu pra levar.

Raimundo, quando o burro velho cotó morreu, tratou de pedir ao velho Domingos Dias da Silva que fizesse o enterro com homenagens e uma sepultura com tampa de mármore e tudo o mais . Insistiu, mas insistiu tanto que o pai, já ficando caduco, mouco e perdendo a autoridade dentro e fora de casa, mandou cavar um buraco ao lado da igreja e na frente de casa, pra enterrar o diabo do burro. Não era na frente da igreja, era à esquerda, onde hoje está enterrado também o finado Cine Delta.

Foram chamados, o juiz, os vereadores, chefes de repartições públicas, as escolas, a banda de música e a criadagem ignorante. Todo mundo foi convidado pra ver o enterro do burro. Houve discursos, badalar de sinos, coroa de flores, colocação de fitas, choros e ranger de dentes. A Parnaíba parou pra ver ou acompanhar o enterro desse burro, que saiu lá do Campo das Mercedes e atravessou a cidade inteira. Igual, somente entronização de Papa no Vaticano.

Anos depois começou a decadência e a dor de cabeça sem fim dos Dias da Silva. Chamaram umas ciganas, que ficam ali perto da Banca do Louro, pra dizerem o que estava acontecendo e o que ainda iria acontecer. Como é que de uma hora pra outra o leite azedou e foi tudo por água abaixo? A fortuna, o brilho, a influência da família estava acabando e por quê?

Foi motivo de muita discussão e pedidos de instalação de audiência pública no senado da Câmara e tudo mais. E nessas idas e vindas, discursos e discussões sem utilidade e finalidade, procissões, rezas de terços, quermesses e leilões, as ciganas disseram a uma só voz que o segredo daquela decadência da Parnaíba estava enterrado em frente da casa de Simplício Dias da Silva e era uma caveira do burro! Daí que tudo que se tentou construir ou instalar naquele quarteirão, até hoje nunca foi pra frente.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O cabotino


O  CABOTINO

Alcenor Candeira Filho

     No Dicionário Aurélio Século XXI, este verbete:

                        “Cabotino  [Do fr. cabotin ]. S. m. 1. Cômico ambu-
                        lante. 2. Mau comediante. 3. Fig.  Indivíduo presu-
                        mido,  de maneiras afetadas, que procura chamar a
                        atenção, ostentando qualidades reais ou fictícias.”

      Como ensina o dicionário, o termo cabotino se aplica tanto ao medíocre quanto ao talentoso, caindo bem na carapuça do “general da banda iê iê” e na do “pavão misterioso, pássaro formoso”. Ambos podem até ter  tutano mas não coturno para entender que “maior é a girafa porque tem o pescoço grande”.

     O cabotino padece do pesadelo da falta do reconhecimento geral com que sonha na insânia da insônia. Seu ego é maior que o ego do cego que enxerga além da luz do fim do túnel. É o mitificador ou mistificador capaz de exaltar algumas pessoas com altissonantes brados hiperbólicos e de ignorar outras com a imperial mudez da indiferença. É  um solitário solidário só na reciprocidade: eu te elogio, tu me elogias e nós nos elogiamos.

     Essa categoria está sempre (re)unida e se compraz em apelidar ou xingar  de “gênio” quem é do mesmo time. Entre críticos maldosos fala-se até em rusgas entre “baixo clero” e “alto clero”. O certo é que de clero em clero, de lero em lero e de bolero em bolero o cabotino vai atapetando os marmóreos degraus que poderão conduzi-lo ao topo da montanha.

     Na sua firme e permanente vontade de aparecer, esse príncipe do exibicionismo balofo está presente em todos os palcos, ora como rei, ora como servo. Em qualquer situação, não passa daquele “bicão” a que me referi em entrevista concedida aos escritores Elmar Carvalho e Domingos Bezerra, publicada na revista “Cadernos de Teresina”:

                           “ -  O que você tem a dizer sobre os bicões literá-
                           rios?
                             -  Acho que são muitos e às suas altissonantes
                           trombetadas só os incautos batem continência.
                           Felizmente.”

     A preocupação com os bicões esteve presente nas seis edições do Salão do Livro de Parnaíba – SALIPA, com primeira edição em 2009 e última em 2015. Homenageados em cada ano:

     - Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva
     - Humberto de Campos Veras
     - Renato Pires Castelo Branco
     - Evandro Lins e Silva
     - Francisco de Assis Almeida Brasil
     - Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco
   
     Os organizadores do evento primavam pelo rigor na escolha dos palestrantes. Se a peneira não era infalível pelo menos tinha poucos buracos. O rigor seletivo era ainda maior na escolha do homenageado em cada ano.

     Para evitar a pressão de indivíduos interessados apenas na promoção pessoal ou familiar, adotou-se inicialmente um critério suscetível de neutralizar nefastas contaminações: o homenageado seria sempre pessoa falecida, preferencialmente parnaibana, com livro de reconhecido valor artístico, científico ou filosófico. Essa regra só foi quebrada em 2014, quando com inteira justiça se homenageou um dos maiores escritores vivos do país: Assis Brasil.

     O reconhecimento do próprio valor e do de terceiros é inerente ao ser humano e faz muito bem à alma de todos.

     O problema surge  a partir da obsessão da própria estátua, quando a pessoa perde o senso do ridículo, a ponto de não enxergar que “a estátua é sempre maior que o original”, como ensina Virgínia Woolf.

     Essa obsessão é analisada e ridicularizada na literatura universal. Um só exemplo, extraído do primeiro capítulo do romance “O Ateneu”, de Raul Pompéia, ao retratar o dr. Aristarco, diretor de famosa escola, que “enchia o Império com o seu renome de pedagogo”:

                   “Nas ocasiões de aparato é que se podia
                   tomar o pulso ao homem. Não só as condeco-
                   rações gritavam-lhe do peito como uma couraça
                   de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco todo era um
                   anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de
                   um rei  -  o autocrata excelso dos silabários. (...)
                   Em suma, um personagem que ao primeiro exa-
                   me, produzia-nos a impressão  de um enfermo,
                   desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão
                   da própria estátua.”

     Finalmente, é bom desconfiar também do cabotino às avessas, do espertalhão travestido de modesto, que à elegância do paletó e gravata prefere a simplicidade de sandálias e vestes surradas. Parafraseando Eça de Queirós, qualquer que seja “o manto diáfano da fantasia”  usado para esconder “a nudez  forte da verdade”  -  o que todos querem mesmo na fogueira das vaidades  é ouvir o eco oco do elogio retumbante ecoando além do pipocar de foguetes e palmas.      

domingo, 9 de junho de 2019

Seleta Piauiense - Da Costa e Silva


[EU SOU TAL QUAL O PARNAÍBA]

Da Costa e Silva (1885 - 1950)

Eu sou tal qual o Parnaíba: existe
Dentro em meu ser uma tristeza inata,
Igual, talvez, à que no rio assiste
Ao refletir as árvores, na mata...

O seu destino em retratar consiste,
Porém o rio tudo o que retrata,
De alegre que era, vai tornando triste,
No fluido espelho móvel de ouro e prata...

Parece até que o rio tem saudade
Como eu, que também sou desta maneira.
Saudoso e triste em plena mocidade.

Dá-se em mim o fenômeno sombrio
Da refração das árvores da beira
Na superfície trêmula do rio...

Fonte: Google/algumapoesia.com.br   

sábado, 8 de junho de 2019

Rute Barros - Um amor incondicional à arte




Rute Barros - Um amor incondicional à arte

José Pedro Araújo
Historiador, cronista, contista e romancista

Tínhamos praticamente a mesma idade. Por uma questão de dias, ou mesmo por pressa minha, não escolhemos o mesmo dia para comemorar o nosso aniversário. Segundo contam, foi uma esperteza da minha parte, pois utilizei a sua rede novinha em folha primeiro que ela. Minha mãe não tivera tempo de concluir a minha, e por isso fiz uso da sua. Seguimos com nossas vidas muito próximas até que o Criador resolveu interromper isso ao convidá-la para pintar paisagens celestiais.

Rute nasceu uma garotinha diferente, não com aspecto de sertanejo como nós outros. Enquanto seus irmãos (quase todos) possuíam tez amorenada, ela nasceu loira e com profundos e cintilantes olhos azuis. Enquanto os demais membros da família iam se estabelecendo no entorno da casa paterna e materna, ela escolheu, ainda muito jovem, a distante São Paulo para fixar sua morada. E enquanto todos os manos e manas escolhiam profissões conhecidas e praticáveis no meio em que viviam, ela buscou o difícil caminho das artes plásticas, dificuldade para ninguém botar defeito. Enfim, havia nascido com a têmpera dos que dão preferência aos desafios da vida.

Sem ter frequentado uma só aula de pintura – na minúscula cidade não havia nenhum adepto da arte do pincel e da paleta de cores – desde cedo já fazia as suas experiência na arte abraçada por Von Gogh. O primeiro quadro pintado por ela de que me lembro, passou anos dependurado na parede da nossa copa: uma paisagem que ilustrava um esplendoroso lago no qual nadavam alguns patinhos. Um detalhe: ela havia se apropriado de um espelho retangular com moldura, pintou-lhe as bordas para parecer a terra, desenhou árvores no seu entorno, e depois colocou os patinhos a nadar dentro dele. Estava formado um belo e luminoso lago de águas cristalinas.

Depois não acompanhei mais a sua evolução no metiê. Desgarramo-nos um do outro. Ela foi para São Paulo, e eu tomei outro rumo, passei a perambular por lugares sempre diferentes, até fixar raízes em Teresina. Certa vez, encontrei-a em São Paulo. Já morava por lá há muitos anos, e depois de trabalhar em diversas funções, montara o seu próprio estúdio de beleza na sua residência. Viva confortavelmente sem precisar enfrentar a correria dos demais residentes da Pauliceia desvairada.

Pude ver, naqueles dias que passei como seu hóspede, que não havia desistido da ideia de pintar. Nas paredes da sua casa era possível ver inúmeras telas de sua autoria,  algumas delas retratando o seu torrão natal.

Certo dia, tomei conhecimento de que havia passado o seu estúdio para uma parente que já trabalhava com ela havia alguns anos. E que resolvera viver exclusivamente da arte da pintura. Àquela altura da vida, confesso que fiquei surpreso com a sua decisão, posto saber que ela possuía clientela fiel e auferia bons dividendos com o seu trabalho.

Tempos mais tarde, tomei conhecimento de que, com calma e persistência, as coisas estavam indo muito bem. Rute já participava de Vernissage em São Paulo, e em muitas outras cidades do sudeste. Vivia agora exclusivamente da sua arte, da venda de suas telas. E foi assim até que uma doença tolheu-lhe os passos e a empurrou de volta para a terra natal onde viveria seus últimos instantes, fazendo o que mais gostava: pintar obras de arte.

Artista intuitiva, sempre disposta a experimentar novas técnicas de pintura, era de uma generosidade e honestidade a toda a prova. Generosidade que a fazia presentear algumas pessoas com suas obras - acredito que por notar que o admirador não possuía recursos para fazer face aquela despesa. Honestidade por nunca procurar passar adiante uma obra da qual ela mesma não gostasse. Como aconteceu comigo certa vez. Estava eu escolhendo um de seus quadros para comprar, quando me deparei com uma tela que retratava uma paisagem rural. Inebriado com a sua beleza, disse-lhe que queria aquela pintura.

Ao que ela me respondeu: essa é uma experiência que acho que não deu certo.

Insisti que havia gostado muito. Ela retrucou mais uma vez dizendo que, além disso, quando da sua viagem de volta, alguns quadros haviam se rasgado. Aquele era um deles. Continuei insistindo, e lhe pedi que desse um jeito nele.

Vou abreviar a história e dizer que ela ficou um pouco contrariada comigo. Não gostaria de vender algo de que não gostava, e que ainda por cima estava com problemas. Dias depois, entregou-me a pintura recuperada. Havia consertado o local do rasgão, e sobre ele pintara uma minúscula carroça com seu condutor. Mal dava para notar o conserto, ou mesmo visualizar o intruso no cenário. Rute Barros foi a introdutora de uma profissão nova no velho Curador.   

Fonte das ilustrações e do texto: Blog Folhas Avulsas

sexta-feira, 7 de junho de 2019

DR. CELSO BARROS COELHO – SAPIÊNCIA E CARÁTER

Fonte: Google


DR. CELSO BARROS COELHO – SAPIÊNCIA E CARÁTER

Francisco Miguel de Moura, Membro da Academia Piauiense de Letras*
          
          A competência do Doutor Celso Barros Coelho no campo do Direito é reconhecida por todos, ele é Doutor com todas as letras e com D maiúsculo.  Nem me atrevo citar suas obras, por falta de espaço. Quem quiser saber de sua bibliografia tão extensa tem que ler o livro “Academia Piauiense de Letras – um pouco da história, um pouco das ideias”, editado pela própria Academia, em 2018, na “Coleção 100 anos”, da mesma entidade.

          Na verdade, sinto-me bem pequeno para falar sobre Celso Barros, creio que pela segunda vez, em artigo para o jornal, mostrando sua competência e seu caráter. Da primeira vez enalteci o grande orador que é, colocando-o na mesma altura e grandeza de um D. Avelar Brandão Vilela, os dois maiores expoentes na arte de um Cícero, entre os que eu conhecia na data do artigo acima mencionado. 

          Mas Dr. Celso Barros Coelho é muito mais do que orador. É historiador, filósofo, crítico de ideias e de literatura, sobre cujos aspectos me sinto com algum conhecimento, não profundamente, mas de modo geral. Por isto invoco-o, neste momento, mais sob o ponto de vista do cidadão de caráter sem jaça e do ilustríssimo Acadêmico da “Casa de Lucídio Freitas”.  Como Presidente da APL, fez uma administração profícua, voltada sempre para os interesses da Casa e dos seus membros.  Lembro que sob seus auspícios criou a coleção “Cadernos Cultura e Sociedade”, que teve início com sua obra “Por onde anda a cidadania”, e em seguida com meu ensaio “Castro Alves e a poesia dramática”, 1998.

          Volto um pouco mais no tempo e não esqueço de quando me dispus a concorrer a uma vaga na APL e ele foi um dos primeiros a incentivar-me, atitude bastante honrosa para mim, sem dúvida. Dizer que ele é meu confrade, meu irmão de letras, por causa da magnitude de sua sapiência e do seu caráter, itens que escolhi para esta crônica jornalística, é pouco. Quando penso no grande representante que tivemos na Câmara Federal por duas legislaturas e na sua eficiente atuação, vejo-o como um simples eleitor que fui nas duas oportunidades.

          Celso Barros é uma daquelas pessoas ímpares, considerá-lo um gênio não é exagero, pois elevados são os seus conhecimentos, quer do Direito, da Filosofia, do Latim, tanto quanto da Língua Portuguesa e da História. Outros temas devem ser indicados, por exemplo a crítica literária, amante que é das musas e disto tem dado bastante exemplo em livros e artigos. Sua obra é muito grande. Limito-me a colocar, neste momento, sua história da “Academia Piauiense de Letras: Um Pouco da História, Um Pouco das Ideias”, Teresina-PI, 2018, reeditada e aumentada, onde coloca de pórtico os versos do poeta Jônatas Batista, como se fossem seus: “Caminho sem parar, sem curva, sem receio, /Sem fraqueza ou pavor, sem cobarde receio, / Meu destino a seguir, sem encontros temer.// A batalha me tenta, a guerra me alucina... O movimento é a vida, a vida me ilumina... / Nasci para lutar, na ambição de vencer”. É realmente um livro para quem quer conhecer a entidade e seus membros através dos 100 (cem) anos de existência que comemoramos.  Também não posso esquecer que logo abaixo dos versos do poeta e acadêmico Jônatas Batista, vem a dedicatória aos historiadores da literatura piauiense, por ordem e em seguida: João Pinheiro, Francisco Miguel de Moura e Herculano Morais. Esse reconhecimento me cativa. Outro livro que desejo evidenciar, de sua autoria, é “Tempo e Memória” (2009), - uma joia de alto valor pelo sentimento e grandeza com que coloca sua infância e juventude.

          Celso Barros é também genial, quer no sentir e no fazer, quer no viver e no tratar com os outros. Na ciência do Direito o é, repetimos, pois que reconhecido por todos os piauienses e brasileiros de modo geral que privam ou privaram de sua lhaneza em algum momento da vida ou conheçam sua obra.  Educação esmerada, caráter sem jaça, humano quando, como advogado, se volta à defesa de causas justas e honrosas. Mas sua bondade e generosidade vai além: Jamais deixou à míngua uma pessoa sem condição de pagar honorários. Tudo isto falo não só por minha parte, desde que o conheci ao aportar em Teresina, vindo do interior da Bahia, 1964. Ele já era, àquela altura, uma celebridade: Advogado famoso, professor exímio da Faculdade de Direito do Piauí e Deputado Estadual cassado pela ditadura dos militares daquele ano. A grandeza de seu espírito foi evidenciada no episódio de sua cassação, sendo traído por muitos colegas que se diziam também contra a Ditadura Militar de 1964.  Depois tive-o como mestre na cadeira de “Linguística” quando eu ingressara na Faculdade Católica de Filosofia do Piauí, entidade que ainda não se integrara à Universidade.

          Celso Barros Coelho nasceu aos 11 de maio de 1922, filho de Francisco Coelho de Sousa e Alcina Barros Coelho, em Pastos Bons (MA), mas ninguém é mais piauiense do que ele, pois a maior parte de sua vida devotou ao Piauí, especialmente a Teresina, como se fosse aqui nascido. Porém jamais esqueceu sua terrinha do Maranhão, a região de Pastos Bons, onde foi fundar a necessária e importante Academia de Letras, História e Ecologia da Região, entidade que desde o seu nascimento vem publicando o simpático jornal “Pastos Bons”, cujo órgão foi fundado e é dirigindo por ele. A Academia de Pastos Bons comemorou no dia 15 de março de 2019, seus 15 anos de profícuo trabalho em favor da literatura, da arte, da cultura e da ecologia da região.  Pois bem, este senhor Doutor Celso Barros, na comemoração dos 15 anos de existência da dita Academia estava lá, justo quando ele completava suas 97 primaveras de vida bem vivida e bem amada. Pois, sim, estava em Pastos Bons, a terrinha do seu berço.

          Cá, em Teresina, na reunião da Academia Piauiense Letras, seus membros proclamaram a data e prestaram a homenagem ao aniversariante.  Bem muito mais valia como festa a proeza de 97 anos de vida integral, em corpo e espírito, para um homem de tamanha envergadura, dentro de tal idade e que auguramos que vá muito longe e com saúde, íntegro como está, fazendo, sentindo e opinando, nos jornais, revistas e onde quer que publique seus artigos. Mas, repito, não estou fazendo sua biografia. Meu propósito ao render-lhe esta homenagem, em primeiro lugar, é mostrar os momentos que com ele privamos. Nem é bem um artigo, é uma crônica que vem de dentro do meu coração. 

quinta-feira, 6 de junho de 2019

PROFESSOR FREITAS E O GIGANTE ADAMASTOR




PROFESSOR FREITAS E O GIGANTE ADAMASTOR

Elmar Carvalho

Ontem à tarde estive no apartamento do professor José de Ribamar Freitas. Muitas vezes o tenho visitado, seja para conversarmos, seja para receber alguma orientação sua, mormente na área de literatura. Ele é um homem sério, para alguns circunspecto, mas para mim foi sempre uma pessoa de fácil convívio e de bom-humor. Admiro a sua avantajada e bela biblioteca.

Muitos de seus livros são, hoje, obras raras, e muitos já não são reeditados há muitos anos. A maioria é composta de clássicos da literatura universal. Ribamar Freitas é, ele próprio, um clássico, e eu o chamo de o último dos helenos. Tem considerável conhecimento de grego e de latim. Lê, no original, os poetas do classicismo greco-romano. É um erudito e grande orador. Está, no momento, às voltas com um livro de ficção, que está preparando para publicar, já tendo escrito vários de seus contos.

Fui seu aluno de Direito Penal, na Universidade Federal do Piauí, na primeira metade da década de 80. Recordo que no primeiro dia de aula cheguei um pouquinho atrasado. Ele estava dizendo que já ninguém lia os clássicos, que ninguém queria mais saber desses grandes mestres do classicismo. Para provar o que dizia, perguntou se alguém já ouvira falar em Adamastor, exatamente no momento em que eu me sentava numa das cadeiras.

Devo dizer que o silêncio foi sepulcral. Então, levantei o braço, e disse que Adamastor era o gigante de Os Lusíadas, de Camões, que ameaçou de males formidáveis os navegadores portugueses, ao dizer que lançaria maldições de toda sorte, e que o menor mal seria a morte. O mestre ficou perplexo, e levemente contrafeito, porque eu quebrara o mote e o fundamento de sua peroração.

Duas décadas depois, encontrei na apresentação ao livro Reflexões sobre a Vaidade dos Homens e Carta sobre a Fortuna, de Mathias Aires, uma passagem que me fez recordar o episódio, algo anedótico, que contei. Consta que Ariano Suassuna, ao ministrar aula em São Paulo, dissera que as universidades brasileiras ensinam de costas para o país. Para provar o que afirmava perguntou se alguns dos alunos já ouvira falar em Kant. Todos levantaram a mão, afirmativamente.

Em seguida, perguntou se eles já tinham ouvido falar em Mathias Aires. Ninguém levantou a mão, exceto um único aluno. Suassuna perguntou a esse aluno se ele já lera esse clássico de nossa literatura, ao que ele respondeu que não. Disse que só conhecia o nome do grande escritor e pensador porque, por coincidência, morava numa rua que tinha o seu nome.

Contudo, se fosse nos dias de hoje, à pergunta de mestre Ribamar Freitas, todas as mãos levantar-se-iam e todas as vozes responderiam sim, em uníssono. Sucede que hoje é sobejamente conhecido o palhaço televisivo Adamastor Pitaco.

28 de fevereiro de 2010

terça-feira, 4 de junho de 2019

O QUE É RIMA

Fonte: Google


O QUE É RIMA

Alcenor Candeira Filho

          perfeita ou imperfeita
          identidade sonora
          em início em meio
          ou em fim do verso.
    
     toante  -  se se dá a partir de vogal tônica
     de derradeira palavra de cada verso,
     consoante  -  se ocorre só entre vogal tônica
     de derradeiro signo de cada verso.

          mais:
          rara
          rica
          pobre
          grave
          aguda
          esdrúxula

                A
                B
                A
                B

                A
                B
                B
                A

                 A
                 A
                 B
                 B

COMENTÁRIO

     Rima é a identidade sonora entre palavras dos versos, podendo ocorrer no início, no meio ou no final  deles.

     A rima era considerada elemento fundamental na poesia parnasiana e na simbolista.
     Com o surgimento do modernismo seu emprego    entrou em declínio, chegando a ser ridicularizada , embora não inteiramente proscrita, como se vê nestes versos:

                               “Mundo mundo vasto mundo
                               se eu me chamasse Raimundo
                               seria uma rima, não seria uma solução.
                               Mundo mundo vasto mundo
                               Mais vasto é meu coração.”
                                   (Carlos Drummond de Andrade  -  “Poema
                                   De Sete Faces”)

               Contudo,  lembra Murilo Araújo no livro “A  Arte do Poeta”,
                                                   
                                                   “ é ela um elemento de
                          primeira ordem na orquestração do verso. É tão
                          da índole poética que já a encontramos, há
                          milhares de anos, em velhos salmos hebraicos.
                          Pode pois e deve ser empregada,  hoje, como foi
                          ontem, embora com mais liberdade pelos autores
                          modernos.”

     O poema enumera vários tipos de rima:

- PERFEITA: Identidade sonora e gráfica a partir da vogal tônica da palavra: mistério/cemitério.
- IMPERFEITA: Falta de identidade quanto ao timbre: museu/céu.
-  CONSOANTE: A que só apresenta semelhança na vogal tônica: forte/ocorre.
-  TOANTE: A  que apresenta semelhanças de consoantes e vogais: vida/querida.
-  RARA: Ocorre entre palavras com sonoridade incomum: arriba/Parnaíba.
-  RICA: Entre palavras pertencentes a diferentes categorias gramaticais: povo/novo.
-  POBRE: Entre palavras da mesma categoria gramatical: povo/ovo.
- GRAVE: Entre palavras paroxítonas: menino/sino.
-  AGUDA: Entre palavras oxítonas: caju/tatu.
- ESDRÚXULA:  Entre palavras proparoxítonas: árvore/mármore.

     Em seguida o poema classifica as rimas quanto à disposição:

     -  alternadas: a-b-a-b
     -  entrelaçadas: a-b-b-a
     -  emparelhadas: a-a-b-b   

segunda-feira, 3 de junho de 2019

As rosas da princesa Isabel

Fonte: Google/Gazeta do Povo


As rosas da princesa Isabel

*Por Pádua Marques

A princesa Isabel tinha em casa um escravo de sua confiança chamado Sebastião. Tião, pra ser mais íntimo da casa da futura imperatriz do Brasil, não fosse o marechal Deodoro e os seus pariceiros Benjamin Constant e Floriano Peixoto. Era de um tudo. Levava recados pra dona Tereza Cristina, lavava os penicos que o conde D’Eu usava de noite, colocava sela nos cavalos pra os filhos da princesa passearem dentro de São Cristóvão e aguava as roseiras do pé da janela.

Dona Tereza Cristina não tolerava o diabo do negro. E vai lá que tinha suas razões. Aliás, nunca gostou dessa coisa de negro dentro de casa, dando palpite no de comer, no de beber, no de vestir, ouvindo conversa atrás de porta, roubando um naco de queijo dos netos ou uma galinha gorda que o Duque de Caxias ou o marquês do Paranaguá, aquele ministro de seu marido, lá do Piauhy de vez em quando mandava pra o imperador comer ao molho pardo e depois fazer uma canja.

Dom Pedro sempre foi muito tolerante, ela não. Onde já se viu aquele palácio não ter uma guarda de honra que fizesse boa estampa aos seus patrícios italianos quando visitavam São Cristóvão? Ficava com a porta cheia de negros sem nenhuma compostura. Mas tudo culpa dessa mania do marido passar o dia todo enfurnado em cima de um monte de livros, mapas, no laboratório privado esmiuçando aqui e ali pra ver se descobria alguma coisa com aquela cara de Papai Noel dele.

Mas Tião era um negro preguiçoso e debochado. Abusava da confiança da princesa. O príncipe Gastão de Orleans não gostava de ver nem pintado o negro, quanto menos conversando com sua mulher e de brincadeira com seus filhos. Dona Isabel mandava ele regar as plantas e ele ia era se meter na cozinha atrás de conversa com as criadas. Aquela cozinha de São Cristóvão era um ninho de fuxico! Negro entrando e saindo feito que nem formiga.  

Dona Isabel chamou um dia Tião e o encarregou de cuidar de suas roseiras. O serviço era trazer água de uma fonte ali perto e não deixar que elas morressem. As rosas colhidas seriam levadas pra igreja. No começo foi tudo muito bem. Mal dona Isabel levantava e já ouvia o negro assobiando e chegando do rio com a água pra jogar nas plantas. Era um cuidado fora de coisa comum.

Dom Pedro já estava até pensando em dar um aumento no salário de Tião, liberar o FGTS pra ele comprar uma casa no programa Minha Casa, Minha Vida. Dona Teresa Cristina foi que nunca engoliu esse negócio daquele negro viver dentro da casa da filha entrando e saindo da cozinha e passando pela sala na frente das visitas, mascando fumo e se coçando.

Uns meses se passaram e a princesa um dia percebeu que suas rosas estavam de vermelhas ou brancas ficando amarelas! Pensou em chamar seu pai o imperador, homem que vivia dia e noite em pesquisas e mais pesquisas, pra ter alguma explicação sobre aquele fenômeno. Ele chamou os maiores cientistas de França e Inglaterra pra que dissessem o que era aquilo de uma rosa vermelha está assim de repente ficando amarela. Foram mandar gente e ministros até a Holanda. Vieram cientistas da Turquia e da Grécia. Descobriram nada!

Conde D’Eu e dona Teresa Cristina, que nunca gostaram de negros dentro de casa e com intimidades com os seus, passaram a olhar com desconfiança aquela estranheza das rosas ficando de vermelhas ou brancas em amarelas. Disseram a uma só voz o que achavam. Isabel, minha filha, esse Tião, com preguiça de buscar água no rio, estava era mijando nas suas roseiras. Só podia ser isso!

Meteram tanta conversa na cabeça de dona Isabel, que ela resolveu tirar a limpo aquela história. Numa noite disse que iria dormir mais cedo pra acordar no outro dia bem ao raiar do dia, antes que o galo cantasse. De madrugada se acordou, acendeu a vela e ficou escutando movimento que vinha do jardim. Pouco depois ouviu uma tossida longe. Era Tião temperando a goela e dando sinal de presença.

Dona Isabel ficou apurando o ouvido, mas nada ouviu além de uma cantiga de grilo aqui e mais adiante. Imaginou que Tião havia saído pra buscar os animais e as ancoretas com o que traria a água. E demorou e demorou e nada. A vela já havia queimado a metade e o diabo do negro Tião ainda não chegava com a água pra começar o serviço.

De repente ela ouviu um barulho de água caindo. Por onde ele havia chegado que nem fez barulho? Que água mais pouca era aquela? Que marmota seria aquela de Tião ter ido tão ligeiro? Abriu a janela de uma vez e viu o criado ainda abotoando a braguilha. Os olhos mais pareciam umas tochas de fogo, de tão encarnadas que eram. Tião, que é que tu tá fazendo com minhas roseiras? O pé do negro foi um vento. Até hoje.

* Pádua Marques, da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, colaborador do Opiagui.

domingo, 2 de junho de 2019

Seleta Piauiense - Zito Batista

Fonte: Google


Saudade

Zito Batista (1887 – 1926)

Evoco o áureo perfil dessa doce criatura
Que, de longe, onde está, soberba, resplandece,
Como bênção de luz, dentro da eterna prece
Que o meu lábio por ela a toda hora murmura.

Traço, a um jeito de artista, a impecável e pura
Linha fidalga e heril do seu vulto... Anoitece,
O ceu é calmo e azul, e em tudo me parece
A imagem da saudade, o bem que me tortura...

É que a saudade é ela. É o seu gesto. É a divina
Rara expressão ideal do seu olhar nervoso,
Cuja luz todo inteiro o meu olhar ilumina.

Só a lembrança dela o coração me invade:
Ando a vê-la, talvez por um perpétuo gozo,
Dentro da intensa dor desta enorme saudade...