quinta-feira, 11 de junho de 2020

DIVAGAÇÃO EM “QUARENTENA”




DIVAGAÇÃO EM “QUARENTENA”

Valério Chaves

Des. Inativo do TJPI
 

O isolamento social que me impôs - diria  quase que compulsoriamente - essa quarentena coroniana que assola o mundo,  subtraiu parte do meu direito constitucional de ir onde eu quiser, inclusive caminhar no final da tarde na Raul Lopes, mas por outro lado, tem me dado tempo para assistir filmes pela TV e ler livros de alguns autores importantes – historicamente falando – não tanto pelos próprios méritos, mas pelo volume de informações que  transmitem sobre a era em que viveram algumas figuras históricas realmente importantes.

 A propósito de corona, de saída, gostaria de dizer que até hoje não entendi porque essa “quarentena” que estamos vivendo, em razão da Covid-19, não acabou ao completar seus quarenta dias de tolerância, pois até onde sei, quarentena significa 40 dias. Pelo menos é essa a definição na língua portuguesa que o Dicionário Aurélio registra, verbis: quarentena – período de 40 dias, espaço de tempo durante o qual os passageiros procedentes de países onde há doenças contagiosas graves são obrigados à incomunicabilidade... (pág. 1425, 2ª edição). Além disso, a Bíblica  diz que Jesus ficou em quarentena durante 40 dias no deserto, sendo tentado pelo diabo (Lucas, 4.2). Ainda existe a Quaresma – 40 dias entre quarta-feira de cinzas até domingo de Páscoa – período destinado pelos católicos e ortodoxos à penitência.

Na minha obscura piauiensidade (como diria o Prof. Camilo Filho), acredito que quem inventou o termo quarentena não tenha tido talento bastante para perceber a grandeza e a poesia dos autores anônimos dos relatos bíblicos como nos livros de Reis, Crônicas e Juízes.

Mas deixemos de lado as interpretações linguísticas e voltemos aos feitos, livros e figuras históricas importantes do mundo antigo a respeito dos quais tem me sobrado tempo para ver nos tele-jornais, nos programas de tv e nas mídias em geral.

Começo citando apenas alguns nomes que se destacaram no mundo ocidental no campo da poesia, na literatura, na mitologia, na retórica, na arte, na política e na história da humanidade, antes e depois da era cristã.

Tito Petrônio Árbitro - o homem de um só livro – com o seu  Satiricon, no qual escolheu como tema as frivolidades do seu tempo transformado em degenerescência moral aliada a uma filosofia oriunda de Platão.

Públio Ovídio Naso (43ª.C-18 d.C) - conhecido como Ovídio nos países de língua portuguesa como autor de Heroides, Amores, Metamorfoses, Fastos e Tristia, escrito no exilio, no  mar Negro. Escreveu sobre amor, sedução e mitologia clássica. Era admirado por toda a Roma antiga apesar de ter vivido uma vida boêmia resultando no seu envolvimento num escândalo com Júlia, neta do imperador Caio Plinio Segundo. É colocado ao lado de Virgílio e Horácio como um dos três poetas canônicos da literatura latina.

Públio Virgilio Maro (70 aC-19aC) – considerado um dos maiores poetas de Roma. Eneida é sua obra mais conhecida, baseada na história de Eneias refugiado da lendária Guerra Troia, período turbulento de cerca de dez anos durante os quais gregos e troianos pelejaram por Helena, mulher de Menelau. Teve grande influência na literatura ocidental, mais notadamente na Divina Comédia de Dante Alighieri.

Caio Júlio César (100 a.C-44 a.C) - A par de ter sido um dos grandes líderes da humanidade, foi audaz na conquista do Império Romano, ambicioso na guerra civil, inquieto intelectualmente – autor de um razoável trabalho sobre a analogia (diluição parafraseada de alguns itens da lógica aristotélica). Diante de  situações dramáticas era capaz de arrancar célebres frases que até hoje são repetidas no mundo ocidental: “Vim, vi e venci”, “A sorte está lançada”, “Até tú, meu filho”. Dando a medida de sua importância, não só como herói carlileano, mas capaz de exercer fascinação em outro gênio como Shakespeare quando este escreveu a peça tragédia grega, Júlio César.

Dentro de um contexto literário, a frase “Até tú, Brutu” dita por César quando viu Brutu entre os senadores assassinos, resta um enigma para alguns historiadores da antiguidade.

 Até os dias atuais, entre historiadores e acadêmicos, não se sabe ao certo quais foram as últimas palavras de César. O historiador Suetônio acredita que César não disse nada antes de morrer, apenas “envolveu a cabeça com a toga quando viu Bruto entre os conspiradores, e com a mão esquerda, puxou a extremidade dela até os pés para tombar decorosamente (sem mostrar os genitais)”. A célebre frase em latim “Et tu, Brute, na verdade, vem da peça Júlio César, do dramaturgo inglês William Shakespeare.

 Certo, porém, é que os assassinos de César não duraram três anos após o atentado, exceto Bruto que foi perdoado e assumiu o governo da Gália (atual norte da Itália). Alguns morreram em guerra civil, outros foram caçados e executados, outros cometeram o suicídio.

Edward Gibbon (1737-1794) – autor de uma obra clássica sobre a história e o declínio romanos depois da morte do último Cesar, situa entre a morte do imperador Domiciano  e a ascensão de Cômodo, o período mais feliz da humanidade, quando afirma: “Se o homem tivesse de fixar o período da história do mundo durante a qual as condições da raça humana tenham sido mais felizes e prósperas, indicaria sem a menor hesitação esse período que decorreu entre a morte de Domiciano e a ascensão do filho de Marco Aurélio onde a vasta extensão do Império Romano era governada pelo poder absoluto, sob a orientação da virtude  e da sabedoria”.

Nesse período os exércitos foram coibidos pela mão firme de quatro imperadores sucessivos: Nerva, Trajano, Adriano e Antonino, que, segundo o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony (1926-2018) “se deleitavam na imagem da liberdade e se consideravam como ministros responsáveis pelas leis. Esses príncipes teriam a merecida honra de restaurarem a República se os romanos de seus tempos tivessem sido capazes de adotar uma liberdade racional” (in, A Vida dos Doze Césares).

Marco Túlio Cícero (106 aC-43 aC) - tradutor da filosofia grega, tribuno, orador, político, advogado de Metelo e Milão, além de ter erguido as bases jurídicas e morais de um mundo em transição espraiado num imenso território conquistado por Júlio César. Segundo Michael Grant “a influência de Cícero sobre a história da literatura e das ideias europeias em muito excede a de qualquer outro escritor em prosa de qualquer língua” (Discursos, enciclopédia livre).

Tirante das histórias contadas por escritores e historiadores  antigos sobre figuras históricas como estas que acabei de mencionar aleatoriamente, continuo por aqui na modernidade dessa tal de quarentena alimentando-me  24 horas de notícias ruins sobre mortes e contaminação, mas sem perder a esperança de ver um mundo melhor, apesar de políticos desonestos, pessoas desempregadas na fila de bancos buscando auxílio emergencial, marginais soltos pelas ruas e cidadãos honestos dentro de casa impedido (por decreto) de sair para trabalhar.

Este é o mundo em que estamos vivendo, ou melhor, tentando viver, com medo até de beijar familiares e apertar as mãos dos amigos.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Weliton Carvalho: o martelo e o cinzel


Fonte: Google/APL


DIÁRIO
[Weliton Carvalho: o martelo e o cinzel]

Elmar Carvalho

10/06/2020

            Certa feita, após uma solenidade da Academia Piauiense de Letras, entrei numa animada, quase acirrada discussão literária, em que exercitei o meu senso de humor, naquela manhã em que estava me achando; me achando criativo, bem-entendido. Notei que um circunstante me observava com atenção, entre admirado e levemente divertido; ao menos foi o que me pareceu, pela sua expressão facial. Depois, o acompanhei a um outro recinto e nos apresentamos.

            Tratava-se do Dr. Weliton Carvalho, juiz de Direito na Comarca de Timon, natural de Bacabal (MA), mas também pertencente a estirpes piauienses, sobretudo de Floriano. Fiquei sabendo que gostava de literatura e era poeta. Ele passou a frequentar nossos eventos culturais, principalmente palestras, seminários e lançamentos de livros, com admirável assiduidade. Aos poucos fomos construindo uma amizade, para a qual contribuiu a sua lhaneza, simpatia e humildade, e principalmente a sua cultura literária.

            Logo no início percebi que ele estava longe de ser do tipo desses poetas diletantes e ingênuos, que acham que o simples fato de serem bacharéis em Direito lhes dão o direito a ter uma “carta de poeta”, como se dizia outrora. Nas diversas palestras que tivemos notei que ele conhecia os grandes poetas maranhenses, piauienses e brasileiros, sobre os quais emitia comentários apropriados e argutos, de quem assimilou crítica e teoria literária. Ele me parece conhecer tanto a boa crítica impressionista, como a nova crítica, a que analisa sobretudo os aspectos intrínsecos da peça literária em debate.

            Quando iniciou o processo de edição do seu livro Ócios do Ofício me pediu para fazer a sua apresentação na solenidade de lançamento, que seria no auditório de nossa APL. Trocamos algumas ideias a respeito, e ele com antecedência me deu uma “boneca” da obra, que estava sendo impressa em outro estado.

Tentarei transpor para este Diário o que disse na ocasião, de improviso, seguindo o esquema de que fiz uso. Chamou-me a atenção o título, pois o poeta se encontra em plena atividade na judicatura, e certamente assoberbado de trabalho como hoje é de praxe. O ócio deve ser as suas escassas horas de folga, que ele dedica a ler, e a escrever os seus belos poemas.

Portanto, trata-se de otium cum dignitate, quando ele se propõe a enfrentar a página em branco, quando tenta conciliar a inspiração e a transpiração, ou seja, o trabalho e o labor mental de quem estudou e meditou, mas que também possui como aliados o talento e a inteligência. Sobre isso José Ewerton Neto, em seu abalizado prefácio, teceu a seguinte consideração, que espanca qualquer dúvida: “Esse compartilhamento, fruto dos ócios do ofício que o fizeram postar-se diante de uma página em branco para sentir-se e fazê-la sentir, se faz presente de uma forma ou de outra em quase todos os seus poemas.”

Não se trata apenas da página em branco, que deve ser enfrentada, contudo jamais afrontada, ou da busca de assuntos, de temas, mas também de dizer o já dito e redito em nova linguagem e imagem, em novo e inventivo formato. Contrapondo-se ao conhecido pessimismo de Eclesiastes – “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol (1:9)” – busca se reinventar e inventar novas fórmulas, como está posto no início do poema “Página a um poema”:

A página em branco suplica um poema,

a manhã é banal e os tempos sombrios.

 

Em verdade, de tudo se faz um poema:

esses retratos, metáforas de túmulos na estante,

                                    esses móveis de família,

                                             melancólicos.

 

Ao lançar mão da inventividade e de outros recursos e de novas fôrmas e formas de se expressar, o poeta tenta fugir das banalidades, das repetições e monotonias de que nos fala o pregador de Eclesiastes, e por isso procura se renovar e inovar na construção de seus versos. Contudo, é um poeta sóbrio, distanciado dos exageros e torrencialidades de certos poetas menores, que procuram nos impressionar com os seus barulhos e estridências. Eu poderia demonstrar o que afirmo transcrevendo diversas passagens ilustrativas, mas prefiro deixar que o leitor o faça.

Os assuntos dos poemas são os mais diversos possíveis, e vão desde o lirismo, ao que há de mais moderno da intertextualidade e da metalinguagem, além dos poemas sociais ou de denúncia, sem jamais tender para o meramente panfletário, em sua procura de dizer o indizível, o inefável, de tudo dizer na medida do possível e do impossível. Sem dúvida, além de outras temáticas, o livro agasalha versos epigramáticos, satíricos e eróticos, todos em sábia dosagem, voltagem e medida. 

Ao longo do livro vai homenageando os seus escritores e poetas prediletos, e através dessas predileções vai revelando os métodos e segredos que utiliza na construção de seus poemas, como a exiguidade e a exatidão de Graciliano Ramos: “A frase curta, / exata e plural: / toda singular. // Nada falta / nem sobra / seco exato.” Sem transbordamento, sem excesso e sem falta, como em João Cabral, engenheiro da poesia, ou como Joaquim Cardozo, engenheiro dos cálculos estruturais e das estruturas poéticas.

Homenageia também seus compositores favoritos, entre os quais Mozart e Bach. A esses dois, no meu gosto pessoal, eu acrescentaria, Beethoven, a catedral suprema e soberba da harmonia musical, Chopin e Tchaikovsky. Sobre Mozart e Beethoven se diz que a música de um seria uma composição do homem para Deus, e a do outro, seria a de Deus para o homem. Para mim são ambas músicas celestiais, divinas, e eu já não recordo e já não quero recordar qual das referências se referia a um, e qual ao outro, tal a grandeza de cada um em meu conceito.

            No seu livro me deparei com a bela “orelha” da lavra de José Ribamar Neres, professor de literatura e membro da Academia Maranhense de Letras, da qual pinço estas elucidativas palavras: “A poesia desse talentoso escritor é forte, vibrante, segura e, sem dúvida, pode ser colocada entre as grandes obras das letras brasileiras contemporâneas.” Sem dúvida essas palavras são a expressão da verdade, e eu as assinaria sem vacilos e titubeios.

            Tive ocasião de contar um fato interessante ao nosso poeta, que faço questão de aqui relatar, em síntese e entre parênteses. Mais de vinte anos atrás, em encontro fortuito, o saudoso cordelista e editor Pedro Costa me informou que o professor José Ribamar Neres havia escrito um excelente trabalho sobre meu livro Rosa dos Ventos Gerais, 1ª edição, por sinal uma singela e acanhada edição. O ensaio fora publicado na revista De Repente, que Pedro editava com a cara e a coragem e minguado recurso financeiro. Era uma crítica muito bem feita, conquanto sintética, em que Neres comentava e analisava os principais aspectos de meus poemas. Meses depois ele me contou, por e-mail, que por acaso encontrou meu humilde e pequeno livro no meio de vários outros, em certa livraria ou sebo; que começou a folheá-lo lentamente, creio que pulando páginas, e ele, nas suas palavras, pôde perceber a qualidade dos poemas. E foi assim, sem premeditação, antes por acaso, que ele escreveu o ensaio, que muito me honra, e foi enfeixado na edição seguinte. Mas fechemos o parêntese e este parágrafo com este ponto final.

            Em nossas conversas observei que Weliton Carvalho não alimenta preconceitos e nem maniqueísmos literários, e valoriza, assim como eu, certos autores que foram vítimas de rotulações inapropriadas e de ideias preconcebidas, que um crítico ou desafeto diz, e os repetidores espalham e consolidam. Assim, nós reconhecemos que o poeta José Sarney tem sido uma das vítimas desse desdém, por vezes gratuito, tanto que ele colocou como epígrafe de um de seus poemas o seguinte trecho de Homilia: “Tenho um encontro com Deus: - José! / onde estão tuas mãos que / eu enchi de estrelas? / - Estão aqui, neste balde, / de juçaras e sofrimentos.”

            Arrematando minhas palavras, noto que seus poemas são concisos, porque ele os quis esbeltos, elegantes, sem superfluidades e sem os excessos de gordurinhas; são poucos, porque a quantidade nunca o atraiu, mas, sim, a alta qualidade que lhes conseguiu injetar; são exatos, porquanto, seguindo as lições dos mestres da poesia e da engenharia, ele os calculou e projetou para que não houvesse exagero ostensivo de formas e de argamassa.

            No título deste registro, em lugar de toga e espada, símbolos da magistratura, preferi colocar o martelo e o cinzel, porque são símbolos da Justiça, da escultura e da poesia, ao menos na profissão de fé bilaquiana, em que o poeta em perfeito lavor vai tecendo os seus versos.

            O escultor a retirar do bloco concreto de mármore ou do tronco de madeira a escultura, e o poeta Weliton Carvalho a retirar do bloco imaterial de palavras, “em estado de dicionário”, as palavras com que irá urdir o seu poema.   

segunda-feira, 8 de junho de 2020

FADADOS A PERDOAR E AMAR

Fonte: Google


FADADOS A PERDOAR E AMAR

Everardo de Oliveira (*)

A sociedade brasileira está realmente a cada dia mais intolerante e angustiada, e com essa pandemia e isolamento social, por conta da covid-19, esses sentimentos se afloraram ainda mais. A prova disso é a violência contra a mulher que aumentou nesse período.

No mês de fevereiro, logo após o Carnaval, antes da pandemia, quando assisti a uma palestra de um psicólogo de minha religião, este afirmara que o automóvel é um dos principais meios de agressão social, fiquei deveras admirado, que como um cidadão normal, pai de família, pagador de impostos, frequentador de missas dominicais e cultos religiosos, ou seja, acima de qualquer suspeita, quando estão ao volante de um veículo se transformam em “feras urbanas”? Portanto, bastasse que um outro motorista desavisado faça alguma peripécia veicular em sua frente ou ao seu lado, que ele buzina, pisca os faróis, xinga (falando sozinho), esbraveja colocando a mão para fora do carro com gestos obscenos e até provoca o outro usuário para vias de fatos.

O palestrante explicara que quando a pessoa está dirigindo um veículo sente-se empoderado em conduzir uma máquina e ter uma certa superioridade em relação aos outros usuários da via, principalmente os pedestres. Particularmente, não concordei muito com a tese dele, pois na minha vã consciência e com vinte e poucos anos de volante, não vou sair por aí ofendendo e provocando pessoas para brigarem comigo.

Há um mês atrás, li uma manchete pela internet no Jornal Estado de Minas, no caderno cultura: “Michel Houellebecq diz que pandemia deixará o mundo pior. Para escritor francês, 'nunca antes havíamos expressado com uma indecência tão serena o fato de que as vidas de todos os indivíduos não têm o mesmo valor'. O escritor francês Michel Houellebecq não acredita em absoluto que o mundo pós-coronavírus será diferente, pelo contrário, ele afirma que será o mesmo, "mas um pouco pior". Autor de obras como Plataforma, Submissão, A possibilidade de uma ilha, O mapa e o território e Serotonina,  Houellebecq é o escritor francês contemporâneo mais lido no exterior”. https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/05/05/interna_cultura,1144369/michel-houellebecq-diz-que-pandemia-deixara-o-mundo-pior.shtml. Acesso em 08.06.2020.

Talvez, o escritor, por ter esse entendimento cético-realístico do mundo, tenha dado tal opinião, porém, opto pela filosofia cristã de esperança e amor, na qual em um dos ensinamentos de Jesus Cristo isso fica muito cristalino no Evangelho de Marcos, Capítulo 12, versículos 28 a 31 (Bíblia de Jerusalém, edição 2019): um dos escribas que ouvira a discussão, reconhecendo que respondera muito bem, perguntou-lhe: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos? ” Jesus respondeu: “O primeiro é: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor, amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e com toda a tua força. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não existe outro mandamento maior do que este”...

Portanto, essa é nossa predestinação, que segundo Jesus Cristo, estamos fadados a perdoar e amar, conforme outro ensinamento dele: no perdão das ofensas escrito pelo Evangelista Mateus, Capítulo 18, versículos 21 e 22 (Bíblia de Jerusalém, edição 2019): “Então Pedro chegando-se a ele, perguntou-lhe: “Senhor quantas vezes devo perdoar meu irmão que pecar contra mim? Até sete vezes? “ Jesus respondeu-lhe: “Não te digo até sete, mas até setenta e sete vezes”, ou seja, infinitas vezes...

(*) Everardo de Oliveira nasceu em Parnaíba-PI. Cel. PMPI da Reserva Remunerada. 

domingo, 7 de junho de 2020

ELEGIA DO AMOR FINAL




ELEGIA DO AMOR FINAL

Elmar Carvalho

Teus braços
que poderiam
tudo me dar
num simples abraço
se fecharam para sempre
para mim.
E teus seios perfumados
teus lindos seios sedosos
não mais me abrigarão
e neles não mais porei
minha boca sequiosa.
E teus olhos que
poderiam devassar e possuir
meu ser interior
mesmo que me fitassem
não mais me veriam porque
para mim para sempre
se fecharam com suas longas
pálpebras de sonho e de medo.
E tuas belas mãos
tuas delicadas mãos para mim
se fecharam e me esmurraram.
E teus lábios
teus lindos lábios
emudecerem e se fecharam
num longo beijo sempre negado.
E teu sexo
me foi sempre uma
concha eternamente fechada.
E teus cabelos
à brisa eram lenço
acenando em despedida.  

sábado, 6 de junho de 2020

Capitão José Luís da Silva

Fonte: Google



Capitão José Luís da Silva 

Reginaldo Miranda*

Conforme tivemos oportunidade de dizer em outro artigo biográfico, nenhum médico propriamente dito exerceu sua profissão no Piauí, durante o período colonial e até o início do império. Embora desde o último quartel do século XVIII, tenha recebido cirurgiões aprovados e licenciados egressos do Hospital Real de São José, na cidade de Lisboa.

Naquele tempo havia curso de medicina apenas na Universidade de Coimbra. No entanto, desde 1492, com a edificação do Hospital de Todos-os-Santos, foi iniciada em Portugal a medicina hospitalar. Com a destruição deste no terramoto de 1755, essa tradição do ensino de cirurgia vai ser continuada no Hospital de São José, ambos situados na cidade de Lisboa. Mas esta profissão não pode ser confundida com os médicos diplomados pela Universidade de Coimbra, tratando-se de um curso profissionalizante que habilitava cirurgiões e sangradores. No entanto, ambas as categorias estavam autorizadas a prestar cuidados de saúde, juntamente com outros profissionais igualmente aprovados. É importante ressaltar, que o Hospital de São José, serviu de base para a Real Escola de Cirurgia de Lisboa, fundada em 1825 e que ficou alojada em suas dependências. Em 1836, esta foi convertida na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, pondo fim à distinção[1] entre médicos e cirurgiões.

Felizmente, alguns anos depois, por fruto desses avanços, chegaram ao Piauí em épocas diversas, alguns poucos cirurgiões diplomados pelo Hospital de São José, entre esses: Francisco José da Costa Alvarenga, Francisco José Furtado e José Luís da Silva.

José Luís da Silva, chegou à cidade de Oeiras pouco antes do desaparecimento de seu venerando colega Francisco José da Costa Alvarenga, cujo óbito ocorreu em 1809. Atuou inicialmente ao lado deste e do também cirurgião aprovado e licenciado, Francisco José Furtado, que faleceria em 1821.

Nasceu José Luís da Silva, em 1779, na freguesia de São Miguel do Milharado, do termo do concelho de Mafra[2], filho de Antônio Luís da Silva e de sua esposa Paula da Silva, ambos falecidos[3] na cidade de Oeiras, para onde mais tarde vieram viver na companhia do filho. Por via patrilinear era descendente da família Moura, melhor dizendo, Silva Moura, embora não trouxesse no nome, mas fez questão de perpetuá-la em sua descendência.

Desde muito moço demonstrou vocação para a área de saúde, tendo se mudado de sua terra logo depois de concluir os estudos primários. Seguiu para a vizinha cidade de Lisboa, onde prosseguiu até frequentar o curso profissionalizante no Hospital Real de São José, onde aprendeu e praticou a arte de cirurgia, anatomia, operações, ligaduras e partos.

Concluindo esse ensino profissionalizante de cirurgia no ano de 1800, foi em seguida nomeado para exercer o cargo de 1º cirurgião da armada portuguesa. Nessas circunstâncias, em 10 de abril do ano seguinte, embarcou em serviço na fragata Benjamim para o arquipélago dos Açores, sob o comando do capitão-de-fragata Antônio de Saldanha Gama. E somente retornou a Lisboa, em 22 de agosto daquele ano, depois de cumprir com suas obrigações.

Logo depois, em 25 de setembro do mesmo ano, seguiu na charrua Ativo, em diligência para Belém do Pará, sob o comando do 2º tenente Francisco Soares Vieira. Nesse seu primeiro contato com o Novo Mundo, demorou-se até 28 de junho do ano seguinte, quando por ordem do governador e capitão-general daquele Estado, foi destacado para o correio marítimo Paquete Real, de que era comandante o 2º tenente José Joaquim Pereira. No longo retorno somente chegou e desembarcou na cidade de Lisboa, em 13 de setembro de 1802, depois de 76 dias de viagem.

Porém, não teve descanso porque em menos de um mês foi destacado no correio marítimo Vigilante, para retornar à colônia da América, desta feita dirigindo-se às cidades da Bahia e do Rio de Janeiro, sob o comando do 1º tenente Joaquim Ignácio Lobo. Tendo embarcado em 6 de outubro daquele ano, no porto da cidade de Lisboa, foi obrigado a desembarcar no porto do Rio de Janeiro, em 28 de fevereiro de 1803, por motivo de doença.

No entanto, recobrando a saúde retornou em viagem comercial à cidade de Lisboa, porém, com o firme propósito de fazer a vida na colônia. Gostara da prosperidade que vira em alguns de seus conterrâneos. Por essa razão, logo depois do retorno submete-se a exame de suficiência pelos deputados da Real Junta do Protomedicato[4], composta pelos examinadores Domingos de Almeida e Francisco José de Paula, na presença do deputado Antônio Pedro da Silva. Foi pelos mesmos aprovado nemine-discrepante[5]. Assim, em 9 de setembro de 1803, obteve carta e licença de cirurgião para poder curar de cirurgia em qualquer parte do reino e de seus domínios, podendo demandar os salários que lhes fossem devidos. E tendo os mesmos deputados da Real Junta por juízes privativos, somente perante eles podendo ser demandado de eventuais erros que cometesse no exercício da dita arte.

Em seguida veio para a cidade de Oeiras, no Piauí, onde fixou sua morada definitiva e foi nomeado cirurgião-mor do regimento de cavalaria de milícias, com o partido do hospital real. Nesse tempo também exerciam suas atividades na mesma cidade, dois outros cirurgiões egressos do mesmo hospital, Francisco José da Costa alvarenga e seu genro Francisco José Furtado. Portanto, no aspecto de saúde as coisas melhoravam na capital do Piauí, atingindo o auge nesse início de século, mas o primeiro faleceu em 1809 e o segundo em 1821, restando apenas José Luís, por um bom espaço de tempo. Encontramos um registro de seu trabalho naquela capital, referente a 22 de novembro de 1806, quando firmou atestado[6] em benefício do major José Loureiro Mesquita. E prosseguindo no exercício de sua profissão, foi nomeado capitão do mesmo regimento por decreto de 6 de junho de 1820 e patente de 7 de dezembro do mesmo ano.

No entanto, apesar de envergar essa patente militar não encontramos registros de sua participação no movimento que resultou em nossa independência política. Apenas compareceu a uma reunião realizada na manhã de 1º de janeiro de 1823, com todas as pessoas gradas da cidade, para apurar denúncia de movimentos sediciosos feitas pelo padre Joaquim José Monteiro de Carvalho e Oliveira[7]. E seu nome desaparece completamente dos episódios que posteriormente se desenrolaram, neles não tendo tomado parte.

Porém, logo depois de instalada a nova ordem política foi eleito e solenemente instalado o Conselho[8] de Governo do Piauí, em 16 de agosto de 1825. Concorrendo a juma vaga ficou o capitão José Luís da Silva numa suplência, tendo assumido os trabalhos a partir da sessão de 9 de outubro de 1828, quando ocupou a vaga aberta com o falecimento de Joaquim de Santana Ferreira, sendo reconduzido para o período seguinte[9].

Em seguida elege-se duas vezes para o Conselho Geral da Província, organismo que surge com o objetivo de propor, discutir e deliberar sobre os negócios da província. Na verdade, é o órgão que antecede às assembleis legislativas provinciais e depois estaduais. Atuou ali nos dois quadriênios de existência desse órgão (1.12.1829 – 30.11.1833 e 1.12.1833 – 7.2.1834). Foi profícua sua atuação, estudando, discutindo e propondo relevantes projetos para o desenvolvimento da província. Segundo um levantamento feito pelo Prof. Wilson de Andrade Brandão, para o seu interessante livro História do Poder Legislativo na Província do Piauí[10], o conselheiro José Luís da Silva formulou oito importantes proposições, a saber: construção de cemitérios em Oeiras e nas vilas, para evitar fossem feitas sepulturas nos templos religiosos, por motivo de higiene pública; fossem elevadas à categoria de vilas as povoações de São Gonçalo, Jaicós, Capela das Barras, Piranhas, Piracuruca e Poti; que a bancada de parlamentares piauienses em plano nacional fosse equiparada à do Maranhão, pois era inconcebível que aquele tivesse direito a eleger apenas um deputado e um senador, enquanto este elegia quatro deputados e dois senadores, mesmo tendo população[11] inferior; criação de uma cadeira de Filosofia e outra de Retórica a serem ministradas em Oeiras, assim como elevação do ordenado dos professores de Latim, de Parnaíba e Campo Maior; criação do cargo de cirurgião-mor[12] da província, com ordenado anual de oitocentos mil réis; criação de um corpo de guarda provincial; alteração de dispositivos legais da lei sobre habeas corpus; por fim, formulou proposta regulamentando a arrematação e provimento de carnes secas. Todas essas proposições foram bem justificadas em suas respectivas exposições de motivos.

Por decreto de 12 de outubro de 1828 e título de 3 de novembro do ano seguinte, foi agraciado com título de cavaleiro da Ordem de Cristo.

Pela resolução de 21 de agosto de 1830 a carta patente imperial de 20 de maio de 1835, foi reformado, a pedido, no posto de capitão graduado de milícias, com vencimentos integrais do cargo de cirurgião-mor do Hospital Militar de Oeiras, depois de 31 anos de serviços.

No entanto, por decreto de 19 de outubro de 1832, foi criado o cargo de cirurgião do partido público, com ordenado de Rs. 800$000 anuais, na forma por ele defendida no Conselho. Por ato de 23 de agosto de 1833, foi ele nomeado para esse cargo, em cujo exercício veio a falecer depois de nove anos de trabalho. Tinha a atribuição de curar não somente os militares, como também os pobres recolhidos no hospital militar e no futuro hospital de caridade a ser fundado.

Com o fim dos conselhos gerais e criação das assembleias legislativas provinciais, foi eleito deputado provincial para a primeira legislatura instalada em 4 de maio de 1835. Foi o quarto mais votado, com 87 votos, sendo eleito vice-presidente da mesa diretora e sucessivamente reeleito em três legislaturas consecutivas, até quando veio a óbito.

Segundo anotou o biógrafo Miguel Borges, em seu exercício profissional o cirurgião José Luís da Silva, não atendia fora da cidade, porém, era inexcedível no atendimento aos enfermos que o procuravam na zona urbana, tratando-os gratuitamente. Na verdade, não era completamente gratuito esse atendimento porque recebia um ordenado para atender à população mais carente, apenas o fazendo também fora do hospital militar. Por outro lado, alguns escritores o apresentam como primeiro médico do Piauí, o que não é verdade, vez que não era médico e sim, cirurgião. Conforme demonstramos, também não foi o primeiro cirurgião licenciado do Piauí, tendo sido antecedido por ao menos dois outros. Porém, justiça seja feita, Miguel Borges foi muito correto em seu texto, não tendo dado margem a esse equívoco.

Faleceu o capitão e cirurgião José Luís da Silva, na cidade de Oeiras, em 18 de outubro de 1842, com 63 anos de idade. Deixou uma enorme contribuição à sociedade piauiense, seja como cirurgião assistindo aos enfermos, seja como conselheiro e deputado apresentando e defendendo relevantes projetos sociais e de cunho educacional e administrativo.

O cirurgião José Luís da Silva, foi casado em primeiras núpcias[13], na cidade de Oeiras, com Ana Maria Ferreira, filha do português Custódio Ferreira e de Ana Damásio Ferreira, moradores na vila, hoje cidade de Juazeiro, na Bahia.

Ficando viúvo, contraiu segundas núpcias[14] com Raimunda Ferreira do Nascimento, filha do abastado lavrador Lourenço José Ferreira e de Ana Leonor de São José; neta paterna do português José Antônio Ferreira e de Ignácia da Silva Teixeira, esta filha de Antônio Borges Teixeira e Joana da Silva Pinto[15]. O capitão José Luís da Silva, gerou 22 filhos, sendo 11 de cada consórcio, dos quais 14 atingiram a maioridade, sendo 6 do primeiro e 8 do segundo consórcio. Dele descendem importantes varões da sociedade piauiense.

Fonte: Portal Entretextos 
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* REGINALDO MIRANDA, advogado e escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.  

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Um ano de Jogando Conversa Afora




DIÁRIO
[Um ano de Jogando Conversa Afora]

Elmar Carvalho

05/06/2020

            Estive vendo o vídeo mais recente do canal You Tube “Jogando Conversa Afora”, em que o apresentador Walter Siqueira rememora um ano desse programa de entrevistas. Considero, no gênero, um dos melhores, porque o seu apresentador, com discrição, parcimônia e senso de oportunidade, formula as perguntas de forma sintética e inteligente, e, sem se colocar como centro das atenções, deixa que o entrevistado se sinta à vontade e se estenda em suas respostas.

            Nesse mais recente programa ele fez uma espécie de montagem com trechos de várias das mais de 35 entrevistas realizadas ao longo de um ano. A edição está perfeita, pois não se nota rupturas, com cortes abruptos de frases ou desenvolvimento de raciocínios. Também a seleção dos trechos foi muito boa, porquanto foram pinçados os momentos mais marcantes ou impactantes da entrevista, mais condizentes com a personalidade do entrevistado. Tive a honra e a satisfação de rever um extrato da entrevista que lhe concedi alguns meses atrás.

            Conheci o Dr. Walter Henrique Siqueira no início de 1998, na longínqua Comarca de Socorro do Piauí, quando iniciava minha carreira na magistratura e ele ali exercia o elevado cargo de Promotor de Justiça. Fizemos algumas viagens juntos, de Socorro a Teresina, em que conversávamos e ouvíamos uma boa música do som do automóvel.

Ele é um exímio violonista e um primoroso cantor, de voz afinada, mas que também sabe produzir um falsete e uma dissonância com rara maestria. Na realidade é um ser cultural, que se interessa por todas as manifestações artísticas. Cultiva a religião Católica com afinco, mas sem fanatismo, respeitando a religiosidade dos outros.  

Por todas as qualidades que lhe ornam a personalidade e pelos seus múltiplos interesses culturais, Walter Siqueira convida para suas entrevistas pessoas de diferentes setores profissionais e artísticos, e delas, com simpatia e vivacidade, sabe extrair o melhor de seus conhecimentos e experiência laboral e de vida.

Vida longa, pois, a esse excelente programa de entrevistas, em que as conversas não devem ser jogadas nem fora nem afora, mas guardadas como zelo em nossa memória, para nosso proveito e aprimoramento cultural e espiritual.   

Entre sapotis e carambolas




Entre sapotis e carambolas

Pádua Marques
Contista e romancista

Madrinha Gesuína havia mandado Tina limpar o pátio onde estavam no chão alguns muitos sapotis e carambolas apodrecendo e levantando mosquitos. Aquilo, aquela sujeira sem fim só haveria de chamar a atenção de meninos moleques de rua, homens que trabalhavam no porto, nas oficinas, nas fábricas de pilar arroz e a gente pobre dos Tucuns, os pedidores de esmolas que ficavam até tentando com a ajuda de um pedaço de pau ou outro meio a retirar essas frutas pelos vãos das grades.

Gesuína de Sales, a mulher mais rica da rua Vera Cruz em Parnaíba, viúva do capitão de navios Joaquim de Sales, o comandante Quincas de Sales, mandava, se preciso fosse, até soltar os três cachorros pra assustar aqueles invasores. E além da sujeira daquelas frutas podres levantando mosquitos, poderiam causar um dano no automóvel que fazia anos estava guardado, um Ford V8 Window Coupe. Depois que o marido morreu ela não quis mais saber de mandar vender ou contratar um chofer pra, pelo menos levar ela e Tina na missa, na igreja de Nossa Senhora da Graça.

A Parnaíba estava ficando grande e rica demais naquela guerra na Europa em 1941 e muitos parnaibanos que viviam nos Estados Unidos passaram a ficar preocupados e a causar preocupação. Mas dona Gesuína não era de largar o pé do telefone e do rádio, este último uma coisa nova, com a novidade da Rádio Educadora. Aqueles dois luxos eram ainda sua ligação com o que foi no passado, quando casou em Amarante, sua terra, com o jovem e entusiasmado capitão Joaquim de Sales e que lhe trouxe em seguida pra terra dos Moraes Correia.

Ela e Quincas de Sales nunca tiveram filhos. Fora o casal na casa apalacetada da Vera Cruz, vivia a negra Vicentina, a Tina, vinda com ela de Amarante desde o primeiro dia pra debaixo do teto do capitão. Ele, homem de grande fortuna, era mão fechada a ponto de, já doente recusar pagar passagem e tratamento em São Luiz no Maranhão e andar uma semana inteira vestido com um pijama. Fedia de longe. Quando a sujeira dava na vista de um lado, ele virava pelo avesso.

Deixou pra ela muito dinheiro, o palacete com boa mobília, quadros, vasos de porcelana, prataria e o automóvel, um carro muito bonito, preto, elegante e que chamava a atenção de todo mundo na Parnaíba. Comprado com a ajuda de gente de dentro da alfândega. Há um pouco tempo Gesuína comprou nos Marc Jacob uma geladeira, peça muito bonita e que funcionava a querosene.

Mas foram poucos os vizinhos que puderam ver. Da mesma forma foi quando ainda vivo, o capitão Quincas de Sales mandou instalar o telefone. Nada de estranhos dentro de casa, pedindo água gelada ou pra que Tina guardasse carne ou peixes. A luz elétrica dentro de casa era mandada ligar tão logo era difícil enxergar alguma coisa no escuro e tão logo ela Gesuína se recolhia pra seu quarto, a afilhada e criada vinha e apagava tudo e ia também dormir.

Gesuína custou a se acostumar com a luz elétrica e com o telefone. Mas só ela podia atender as raras ligações quando o aparelho tocava. Nos últimos anos dona Gesuína de Sales vivia dizendo pra uns poucos que ainda passavam por sua sala na Vera Cruz, que tinha dinheiro e se quisesse e ela estivesse à venda, podia comprar a Parnaíba inteirinha! Sales, seu marido, nunca foi de querer comprar terras. Esse negócio de léguas e mais léguas de carnaubais na Ilha Grande de Santa Isabel e na beira do rio Parnaíba, até a Barra do Longá, era fortuna enterrada!

Mas o capitão Joaquim de Sales, o Quincas de Sales, sendo rico e conhecido pelo silêncio que cobriu a sua e a vida da mulher Gesuína, era de guardar raiva de gente como a que alimentava pelo poeta Alarico da Cunha. Se bem que o jornalista nunca lhe tenha dirigido uma única vez a palavra e pouco tenha visto Sales em público, ali pela mercearia do seu Bembém, na rua Duque de Caxias e noutros lugares, no Cine Éden, na praça, nas casas comerciais dos Veras, pela Casa Inglesa e nos estabelecimentos dos Jacob.

Quincas de Sales tinha uma cisma porque o poeta era espírita. Dentro de casa xingava Alarico da Cunha de tudo quanto era nome feio. Gesuína ficava calada e até se retirava da sala. O capitão também não gostava de sair com a mulher pra ir à igreja. Detestava os padres, as imagens, as procissões, as novenas, as confissões e muito menos alguém vir pedir que fosse padrinho de seu filho. Mas a mulher, de birra, mandou fazer um banco com o nome deles, “Capitão Joaquim de Sales e Gesuína de Sales”.

Quando ele morreu, passados mais uns anos, Gesuína também já não gozando de saúde e de paciência e vendo seus dias se consumindo, igual às velas de cera ainda acesas nos altares de Nossa Senhora das Graças, mandou tirar o banco da igreja. O carro de pouco uso, luxuoso, lustrado, possante e o banco da igreja com o nome deles, passaram a ser vizinhos de esquecimento e entulho entre as carambolas e os sapotis podres no jardim da rica e sombria rua Vera Cruz, na antes barulhenta e rica Parnaíba.  

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O profeta Gentileza e a intolerância de hoje


Fonte: Google

DIÁRIO
[O profeta Gentileza e a intolerância de hoje]

Elmar Carvalho

04/06/2020

            Tenho a impressão, aliás compartilhada por alguns amigos com quem já discuti o assunto que agora trago à baila, que muitas pessoas se tornaram mais impacientes e mesmo intolerantes após a quarentena, um tanto compulsória, imposta pela covid-19, que ainda vivenciamos, não sei por quanto tempo ainda. Ao que parece, a máscara ainda será um adereço a ser usado por um bom tempo.

            Muitos dos que se autoproclamam da direita discutem de forma acirrada com os autorrotulados da esquerda, e estes revidam da mesma forma e no mesmo grau de intensidade, por causa, muitas vezes, de ninharias, de insignificâncias.

            E, o que é mais curioso, um lado chama o outro de intolerante, quando ele próprio também o é, ao menos no conceito do antagonista. Reivindicam o direito à livre expressão, mas não dão ao outro o mesmo direito. Querem deitar falação, algumas vezes estapafúrdia e incoerente, mas não admitem que a outra parte tenha o mesmo direito. E ambas não admitem escutar o que a parte adversa tem a dizer. E se acusam, reciprocamente, de radicalismo e intolerância. São os “radicais livres”, com relação à sua própria liberdade, que desejam ilimitada.

            Invocam o constitucional direito de livre expressão, mas se esquecem de que esse direito, como qualquer outro, não é absoluto, e que termina onde e quando começa o do outro, ou melhor, o de nosso semelhante. Também parecem não saber que, através da livre expressão, crimes e pecados podem ser cometidos, tais como “assassinatos” de biografias e reputações, injúrias, calúnias, difamações, falsos testemunhos e declarações inverídicas, falsidades ideológicas etc.

            Todavia, quando se consideram vítimas de eventual abuso do direito de livre expressão se revoltam e, então, sabem procurar a Justiça em busca de reparação a danos e prejuízos, e de que esses abusos sejam coibidos.

            Muitos postam ou compartilham as chamadas fake news, sem atentarem para os malefícios que podem estar causando a outrem. Contudo, quando falsas notícias lhes causam prejuízo, passam a compreender que a livre expressão não pode ser um direito absoluto, e que deve estar sujeita às regras limitadoras de nosso ordenamento jurídico.

            Já soube de casos de pessoas que se “intrigaram” com parentes próximos e amigos por causa de questões ideológicas e por causa de certos políticos que idolatram, tanto da chamada direita como da esquerda, cujos nomes não declinarei, mas que acho só merecem a execração e o desprezo de pessoas de bem. Muitos deles são apenas mentirosos, vendedores de ilusões, demagogos e populistas, preocupados apenas com a vaidade do poder e com o ter, e que nunca cumprem o que prometem em suas campanhas eleitorais e programas partidários e de governo.

            Vejo agora muitos jovens e não tão jovens depredando prédios públicos e particulares, assim como tocando fogo em carros e outros bens. Ora, sempre soube que não é com a destruição dos ricos e das riquezas que se irá resolver o problema da miséria. Ao contrário, a dilapidação de patrimônios e de empresas só irá gerar mais miséria, mais fome e mais pobreza e desemprego. Construir sempre foi muito mais difícil e mais caro que destruir. O próprio tempo, por si só, é um artífice do caos e da destruição.

            Por causa de tudo isso e de mais alguma coisa que julguei desnecessário abordar, me lembrei do Profeta Gentileza, cujo nome era José Datrino (1917 – 1996). Com a sua túnica branca e a sua longa barba de profeta, cheguei a vê-lo, no final dos anos 80 ou começo dos 90 do século passado, na esquina do relógio da Praça Rio Branco, em Teresina, com um grande painel, que prefiro chamar estandarte, a pregar o amor, a bondade, a tolerância e a gentileza.

            E como hoje estamos a precisar de que essas virtudes sejam cultivadas e praticadas por cada um de nós, ainda que só no espaço de nosso pequeno quadrado. Gentileza, que fora na juventude um amansador de burros brabos, se tornara um “amansador dos burros homens da cidade”, como ele se denominou.

É necessário que nos tornemos mansos, tolerantes, pacíficos e cordiais, como pregava o nosso profeta, que também advertia: “Gentileza gera gentileza, amor.” Em gestos de pura gentileza, oferecia flores e rosas a pessoas que sequer conhecia. Aos que o chamavam de louco, respondia simplesmente: “Sou maluco para te amar e louco para te salvar.”

            E, para que a pregação do Profeta Gentileza não seja a voz de alguém que tenha clamado no deserto, basta que se siga a regra de ouro deixada por Cristo, que é uma síntese de tudo quanto ambos ensinaram: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas [Mateus 7:12:].”  

            E como corolário, observemos o sublime mandamento, por muitos considerado o dom supremo: “O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei [João 15:12].” Se isso acontecesse, a humanidade não precisaria mais de leis, e as masmorras poderiam ser demolidas.  

quarta-feira, 3 de junho de 2020

José de Freitas: passado e presente






DIÁRIO
[José de Freitas: passado e presente]

Elmar Carvalho

03/06/2020

            Ontem, por volta das dez e meia, recebi um telefonema do economista e ex-prefeito de José de Freitas, Fernando de Almendra Freitas, descendente do patriarca que deu seu nome à velha Livramento. Disse-me que estava escrevendo um histórico sobre a Igreja de Nossa Senhora do Livramento, e me perguntou onde poderia encontrar o livro do saudoso padre Cláudio Melo, que traçava breve relato da velha capela, hoje imponente matriz.

            Respondi-lhe que recentemente, pela Coleção Centenário, a Academia Piauiense de Letras havia publicado o volumoso livro Obra Reunida, que era quase a obra completa do grande historiador piauiense, um dos maiores de nosso estado, pois enfeixava todos os seus livros, inclusive a sua tese de doutorado, com exceção, talvez, de um ou dois, de que tive a honra de lhe fazer o prefácio. Perguntou-me onde o poderia adquirir.

            Disse-lhe que a nossa Academia, por decisão da Assembleia, entrara de recesso até o final da quarentena covidiana, e que as livrarias ainda estavam fechadas, como era de seu conhecimento. Todavia, acrescentei, por sorte eu tinha dois exemplares, e lhe poderia ofertar um. Combinamos que o deixaria na portaria do condomínio e que ele viria buscá-lo às dez horas do dia seguinte.

            Com efeito, às onze horas liguei para a portaria, para saber se o Fernando tinha vindo pegar a monumental obra da historiografia do Piauí. O Eliomar me respondeu que ele não só viera, como deixara uma encomenda para mim, que não fazia parte do combinado, e que, portanto, não me fora anunciada.



            Incontinenti, fui buscá-la. Tratava-se de um mimo: uma bela camisa do Festejo de Nossa Senhora do Livramento, do ano passado, em que se encontra estampada a bela igreja da padroeira, que tantas vezes admirei no ano de 1970, ano do tricampeonato, ganho pela Seleção Brasileira, quando, aos 14 anos de idade, residi na bela e bucólica cidade, numa das quadras mais felizes de minha vida, na época em que era vigário o padre Deusdete Craveiro de Melo, meu diretor e professor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, e o livro José de Freitas: passado e presente, da autoria da professora Pastôra Lopes de Lima Carvalho. Sua capa é um lindo bico de pena dos tiradores de palha e dos carnaubais freitenses, em que sequer foram esquecidos dois operosos jegues e algumas belas pindobas.

            Pelo título e pelo índice, e pelo que pude folhear, a obra historiográfica relata a rica história e genealogia do município, em cuja folha de rosto se encontra lavrada a amável dedicatória: “Para o imortal da APL Elmar Carvalho com nosso abraço em nome da Academia Freitense de Letras, Ciências e Artes – AFL – José de Freitas, 03 de junho de 2020 – Fernando de A. Freitas”.   

terça-feira, 2 de junho de 2020

DIÁRIO - 02/06/2020

Fonte: Google
Vitor entre o professor Gallas e Paulo de Tarso Mendes Souza

DIÁRIO
[Os irmãos Paulo e Vitor Couto]

Elmar Carvalho

02/06/2020

            No final da semana passada, fiz contato telefônico e através do WhatsApp de minha mulher com o professor Vitor de Atayde Couto, que atualmente se encontra passando uma temporada na Bahia, a convite de sua filha, embora há alguns anos tenha voltado a residir em Parnaíba, após sua aposentadoria como professor da Universidade Federal daquele estado.

            A finalidade do contato era lhe informar que, tendo tomado conhecimento de seu comentário à minha crônica sobre o professor Amstein, postada em meu blog e em outros sítios internéticos, lhe fiz a retificação do equívoco que ele apontara, bem como lhe fiz um pequeno acréscimo, possibilitado pelas novas informações que ele produziu no referido comentário.

            Na conversa telefônica, além de vários outros assuntos, lhe falei do importante livro Economia e Desenvolvimento do Piauí, segunda edição, da autoria do professor e economista Felipe Mendes, sobre o qual fiz algumas considerações e depois lhe enviei, por e-mail, um comentário que escrevi sobre essa importante obra. Disse-lhe que, após a pandemia, que nos está causando um verdadeiro pandemônio, lhe enviaria um exemplar. Ao conversar com o Dr. Felipe sobre isso, ele, espontaneamente, me pediu o endereço do Vitor para ele próprio lhe remeter de imediato um volume, o que acredito já deva ter acontecido.

            Vitor é filho do professor José de Lima Couto, com quem, a partir de 1977, tive o prazer de conversar algumas vezes em sua casa, algumas delas debaixo de um caramanchão, onde eu ficava a sentir o cheiro de belas e odoríferas flores. O velho mestre me falava de sua experiência de livreiro e no magistério, mas sobretudo falávamos de literatura e poesia. Ele lera alguns de meus poemas publicados em jornais e, depois, os enfeixados em Salada Seleta e Galopando, livros coletivos dos quais era participante o seu filho Paulo Couto.

            Salvo falha de minha memória, Lima Couto era o diretor do famoso Ginásio Parnaibano, na época em que ele foi estadualizado pelo governador Chagas Rodrigues, transformando-se no Colégio Estadual Lima Rebelo. Ele era um causeur; sabia atrair o ouvinte, pois falava “corado”, com vivacidade e entusiasmo, com gestos amplos, vibrantes, como se fosse um maestro, e sua conversa tinha denso conteúdo e era sempre interessante.

Embora, talvez, não fosse o velho mestre um entusiasta do modernismo, eu sentia que ele apreciava os meus modestos versos. Um dia, para minha surpresa e certo receio, um pouco depois do falecimento de minha irmã Josélia, o jornalista e ex-poeta (o único literato assumidamente ex-poeta que conheço), Bernardo Silva me disse que Lima Couto temia eu viesse a morrer jovem, porquanto me achava muito inteligente. Sei que esse conceito se devia apenas à amizade e bondade do velho professor para com um jovem cheio de sonhos e esperança, que então eu era. Fiquei entre o desvanecimento e o medo de que ele se revelasse um bom profeta, o que felizmente não aconteceu.

Eu conhecia Vitor apenas de nome, posto que ele já era professor na Bahia, através do Paulo, seu irmão, que lhe tinha grande amizade e admiração. Vitor fora caçula durante oito anos, quando perdeu esse cômodo e agradável posto para o temporão Paulo. Porém, não ficou enciumado. Ao contrário, passou a cuidar do caçula com todo devotamento e zelo, até prosseguir nos estudos em Salvador, onde ingressou no magistério superior na UFBA, passando a lecionar no curso de Economia.

Paulo admirava e comentava as longas cartas que o irmão lhe enviava pelos Correios. Cheguei a ver uma ou outra. Era um verdadeiro missivista. Elas tinham qualidade literária. Nelas Vitor vazava todas as qualidades de um verdadeiro escritor. Tinham vivacidade, leveza, e o autor lhes injetava uma boa dose de criatividade, bom-humor, em que destilava certas ironias e blagues de um antenado espírito crítico.

E eu prefigurava que ele poderia se tornar um bom cronista, como depois comprovei ao ler algumas de suas crônicas, por vezes jocosas e irreverentes, vertidas em linguagem algo coloquial, mas sempre espirituosas e inventivas, em que não lhes faltava o condimento da sacada, da sagacidade e da ironia, em menor ou maior voltagem.

Paulo Couto, por seu turno, era poeta, como já disse, mas era também articulista e cronista. Publicava seus escritos no jornal Folha do Litoral, na segunda metade da década de 1970, enquanto, assim como eu, fazia o curso de Administração de Empresas na UFPI – Campus Ministro Reis Velloso. Fomos colegas de turma e colocamos grau no mesmo ano. Após a formatura, ingressou, através de concurso público, no Banco do Brasil, indo servir em outros rincões, de modo que o perdi de vista durante muitos anos. Agora, publicou um livro de poemas, que prometeu me enviar pelos Correios.

Vitor, coroando sua carreira magisterial, em tempos mais recentes, ministrou aulas no campus da Universidade Federal em Parnaíba, na qualidade de professor visitante. Nessa condição promoveu um seminário na área de Economia, em que vários problemas e perspectivas foram debatidos. Esse evento lhe motivou a escrever o livro “Piauípsilon – um projeto geopolítico excludente”, em que analisa e comenta aspectos da economia piauiense, sobretudo os referentes a Parnaíba.

No seu e-mail consta a palavra pinho. Curioso como sou, perguntei-lhe a razão. Ele me respondeu que o endereço virtual fora criado por um de seus filhos, que lhe adicionara essa palavra, em virtude de ser ele, Vitor, um violonista.

Desse modo descobri o motivo pelo qual ele frequentava o grupo de “chorões” do saudoso e exímio violonista Francisco Eliziário, além de “rei da voz parnaibana”, na expressão de Vitor. E, sem dúvida, não apenas como ouvinte, senão também como instrumentista, a dedilhar um “pinho”.    

segunda-feira, 1 de junho de 2020

SOLTARAM AS ONÇAS

Fonte: Google
Fonte: Google

SOLTARAM AS ONÇAS 

            (Este texto inédito integra a série “Crônicas de Parnásia”, livro em edição) 

Vitor de Athayde Couto 

Domingou. Tudo funciona regularmente em Parnásia, como em todos os domingos de sol. Praia de manhã, almoço mais tarde, cochilo, banho seguido de muita brilhantina e laquê nas cabeças adolescentes. E Lancaster! Tal uma grande lagarta, a fila do cinema Paradiso vai se mexendo para a sessão das 18:30. Duas horas depois da vesperal, logo em seguida ao the end, todo mundo corre até a praça, em busca da tão ansiosamente esperada meorinha de caminhada, dando voltas, cantadas e comentando o filme: as moças rodam no sentido horário; os rapazes, no sentido contrário. Hora de se amostrar móde um relógio novo, saia plissada, conjunto Banlon, camisas-volta-ao-mundo, tudo novo, comprado no Rio, pela Cruzeiro. Só os malas incluídos e muito abestados não rodam. Ficam parados, no meio da praça, falando merda e frescando com quem passa. 

A azaração tem que acontecer entre 20:30 e 21:00, quando termina a missa da catedral, de onde saem os pais corujas, de braços dados, arrastando as filhas não cinéfilas e alguns filhos bundões, direto pra casa. Quem fica com quem não fica, nunca se sabe. Mal se conhecem os sonhos, pelo menos até a hora em que chega a porra da realidade: 21 horas, anunciam as badaladas do sino desafinado da matriz. Hora de soltar as onças. 

Esvazia-se o estacionamento socialmente estamentado pelos diferentes espaços reservados para automóveis, lambretas e bicicletas (ninguém falava báique), conforme as diferenças patrimoniais entre as famílias. Quem mora perto caminha pelas calçadas seguras, exceto os malas incluídos que vão de carro, ali pertinho, só para se amostrar. Ah, ia esquecendo o estacionamento de balecos da gente diferenciada. Ficava mais distante, depois do vento, móde o fedor de bosta. Agora são 21:08, a praça entristece e se desertifica. As tartarugas da pérgula nadam, silentes. Permanecem só o guarda e os seus eternos interlocutores de plantão, animados pelo corote. São os malas desincluídos, deficientes e mendigos sem teto, sempre de braços cruzados, olhando pro nada. 

“Soltaram as ôôônças!”, grita um culumim, à distância. “Queima o tabaco da êêêma!”, grita outro. “É a tuáááma, Datilôôôia!”, mais outro. E assim, de culumim em culumim, a praça escurece em meio aos gritos saídos de bocas invisíveis, escondidas do guarda. 

Os globos dos pequenos postes de ferro se apagam, móde economizar energia da usina da Rua Sete. Protegido pela escuridão, alguém arrisca e grita: “Seu Fulano é côôôrno!”. Normalmente, seu Fulano é quase sempre um grande e respeitável negociante rico que acabou de comungar, na missa da catedral, logo depois de pedir perdão pelos pecados, principalmente as mentiras, conspirações políticas, sonegação de impostos e traição conjugal; ou por ter espancado a mulher e uma frágil filha adolescente. Ele sabe que, amanhã, segunda-feira, começa tudo de novo. Mas Deus é bom e tudo perdoa sete vezes sete vezes sete... Afinal, ainda nem se sabia o que era preconceito racial, logo, isso não era pecado. Ser limpinha, mesmo sendo preta, era a primeira condição para ser uma boa curica ou babá. A segunda condição eram as chamadas “referências”, em que tudo vale. 

Já em casa, enquanto repassam na mente as últimas imagens da vesperal, as moças de família vão sonhar, metidas em babydolls de náilu. Não sem antes de resumir no querido diário, sob a luz do abat-jour, as cantadas ouvidas entre 20:30 e 21:00. Para elas, a vida se concentra nessa meorinha sagrada, pela qual esperam a semana inteira, entre rezas e promessas fáceis. Isso ocorre em quase todas as semanas do ano. As moças de família odeiam as onças invisíveis que expulsam, com seus relógios, as pessoas da 2 praça. Odeiam o tempo que passa, e também o inverno. Quando chove, não tem domingo. A semana pula direto, de sábado pra segunda-feira. Sem praça, sem graça. 

Ainda na náite, alguns rapazes de família de bem (dizia-se: “da sociedade” haha) também abandonam a praça. Em vez de irem direto pra casa, dirigem-se aos cabarés, à procura de mulheres virtuais esgotadas pelo fim-de-semana, nas altas horas de domingo, quando resta só o bagaço. “Bem, pelo menos é mais barato”, lembrou um dos rapazes, para consolo das mesadas dos companheiros lupanáticos. Sorte é de quem tem pai cabarezeiro, pois é ele quem escolhe a “modelo mais top” e negocia o cachê, quando o filho completa 15 anos. No clube, a filha debuta. No cabaré, o filho é da puta que o pai escolhe e lhe apresenta – a sua primeira vez. Mimo de aniversário. Depois, ele apresenta o médico, a farmácia, os remédios... e o permanente sorriso orgulhoso de quem é pai de macho. Cepãdã, se ocorrer algum acidente da natureza, esse “paitriarca”... sei não... ou mata, ou se mata. Em compensação, presente de pai não-cabarezeiro é só livro. Que ódio! Quase sempre é o “Meu catecismo de preparação para a crisma” ou “Tarzã, o rei da jângal”. Mas poderia ser pior, por exemplo, um “Pequeno dicionário da língua portuguesa”, enquanto a irmã ganha “O pequeno príncipe” ou “Reinações de Narizinho”. E ainda com recomendação de colocar uma capa de papel impermeável fosco, e cuidar bem! “Não risque, porque vai servir para a sua irmã caçula!” haha. 

Na praça, agora escura, só se vê uma lanterna, intermitente, móde economizar pilha. É o guarda brincando de vagalume. Pra afastar a solidão, apita e foca a lanterna nos cururus. Já no rumo dos cabarés, o magote grita, de uma distância segura: “O guarda não é mais aquele / o que que se faz com ele...”, etc. Sobretudo etc., porque soa mais forte. Pura vingança, porque o guarda dormiu e não cuidou da praça – que acabou sendo destruída. 

Ao longe, no silêncio truvo, já dá pra ouvir o som da vitrola do primeiro cabaré, situado na rua da Mungubeira, xis com o Beco do Xêramijo. A voz grave do Nelson Gonçalves mixa com os chiados do vinil que gira no pick-up Garrard, cuja agulha há muito está vencida. Difícil achar outra, nem mesmo na Discolândia do Rei Momo. “Fica comigo esta noite / e não te arrependerás...”. Nunca entendi por que “lá fora o frio é um açoite”, se na Parnásia faz um calor da porra haha. A galera aperta o passo, mas, ao chegar na Mungubeira, alguns rapazes hesitam, devagar, quase parando. Faz que vai mas num vai. Finalmente, encontram uma pequena janela lateral, aberta. Corações trepidam. Aproximam-se mais. As cabeças grandes se apertam na janela, móde espiar. 

No salão principal, o corpo de um bêbado dança, sozinho, abraçado a outro corpo, invisível, de algum fantasma real. Por cima da carne seca, uma gata prenha se lambe. Outro bêbado dorme sentado à mesa, com a cabeça dentro de um prato onde um resto de farofa acabou grudando na brilhantina do seu cabelo. Um viado lava os últimos copos americanos de cerveja. Umas três ou quatro mulheres sobreviventes permanecem sentadas, em silêncio, à espera de alguma esperança. Elas ouvem a música com atenção, pela milésima vez, como se fosse a primeira. À sua frente, a cerveja quente remanesce do último freguês já apagado da memória. De vez em quando elas se revezam pra virar o mesmo disco do Nelson Gonçalves. Uma se levanta, troca o lado A, depois lado B, lado A-B-A-B-A... até o infinito. Aproveita a levantada e vai mijar mais um pouco de cerveja quente no penico indiscreto. Joga o produto pela janela do quintal. Depois, volta. Sempre ao mesmo lugar, onde reencontra o seu fiel campo energético que lhe dá mais alguma sobrevida noturna, enquanto espera a luz do dia para dormir. 

Do lado de fora, ainda na janela, os corações adolescentes saltam de emoção. Emoção que nunca será esquecida, porque, na idade do urubu, é mais fácil ser feliz. Com muito ou com pouco. Tanto faz. Mesmo que o cabaré tenha sido apenas um sonho de menino.