segunda-feira, 18 de abril de 2022

QUEM DERA ESTIVESSEM AS PESQUISAS EQUIVOCADAS

 

O culto a si mesma   Fonte: Google

QUEM DERA ESTIVESSEM AS PESQUISAS EQUIVOCADAS


Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

 

                Isto não foi Sandoval que me contou: eu vi. Ao chegar, naquela mesa do restaurante, já lá estava um jovem casal. Pareceu-me que o moço queria fazer um pedido ao garçom; como a lhe pedir vênia, olhou, em vão, para a companheira, que não tirava o olho nem os dedos do aparelho - que, um dia, teve como principal função, fazer e receber ligações telefônicas -, ao qual, vez ou outra, colocava, horizontalmente, à altura do ouvido do lado contrário ao companheiro, quem sabe para que ele não ouvisse o que falavam do outro lado da linha. Fez o pedido, por conta própria.

                Minutos depois viria o garçom com um frasco de vinho e duas taças; colocou um pouco na sua para que o cidadão degustasse e, uma vez aprovado, completou-a; porém, não a da senhora, que continuava entretida na sua silenciosa atividade de comunicação. O moço fez sinal ao profissional para que levasse a garrafa, mas deixasse a taça vazia na mesa.

                Ao fundo dois violonistas e uma cantora alegravam o ambiente. Cruzando os braços, o cidadão virou-se o mais que pôde para melhor visualizar os músicos, quase em diagonal com sua acompanhante que, tudo indicava, sequer percebera a manobra e o reposicionamento do moço.

                Algum tempo depois, ele se levantou e foi à bancada de frios; no percurso, cruzou com o garçom, a quem pediu água mineral; em seguida, voltaria com sua tábua à mesa, onde chegaria ao mesmo tempo que o garçom com a água solicitada. O funcionário supriu-lhe a taça e decidiu conversar alguns minutos com o cliente, talvez, fazendo-lhe companhia, haja vista a cidadã continuar ensimesmada com seu smartphone, vagueando e zapeando por suas redes sociais.

                Mais ou menos uma hora após nossa chegada - minha com a patroa e um dos filhos -, o cidadão decidiu ir embora; já havia consumido a quantidade de vinho que pretendia e degustado os frios escolhidos. Pediu, com um gesto ao garçom, a conta, que ele trouxe rapidamente; conferida, aprovada e paga, levantou-se, deu um toque na patroa que parece haver se assustado com a inesperada ação. E saíram.

                Não sei se ela já teria chegado ao restaurante após jantar e tomar os drinques prediletos, fato é que eles não se falaram durante aquela mais de uma hora em que os vi. Se tal modo de agir era comum entre eles, ou não; se o pau comeria quando chegassem ao carro, em casa ou qualquer outro lugar, somente os jornais do dia seguinte diriam, ou não.

                A este episódio, também testemunhei, em outro restaurante. Na grande mesa à frente da nossa, estavam um casal mais idoso, duas mocinhas e três garotões. Todos, à exceção da matriarca e do marido, já armados e disparando seus smartphones rumo às redes sociais preferidas. Cabeças baixas, apenas a madame dava conta do que acontecia ao redor.

                Já que ninguém da mencionada mesa parecia manifestar qualquer interesse em ser atendido, os garçons passavam ao largo, indo ocupar-se de outros clientes. Lá pelas tantas, o senhor, como que assustado, virou-se para sua senhora e perguntou pelo garçom, ao que ela respondeu: “deve estar por aí”. Vendo um deles, chamou-o, sendo avisado pelo mesmo que outro é que atendia sua área. E este chegou. Pelo que pude perceber, o cidadão perguntou à patroa o que deveria pedir para a “meninada”. Ela lhe disse para ele pedir o que quisesse, pois a moçada se virava. Uma cerveja, um refrigerante e alguns copos traria o garçom, logo em seguida. E a rapaziada, literalmente, seguia cada um na sua: teclando, sorrindo, autofotografando-se, interagindo, se fosse o caso, com algo ou alguém do outro lado das telas.

                Um dos rapazes, mais tarde, sem largar seu aparelho, pediu ao pai – levantando o copo – cerveja. Brindou com ele, deu uma bicada e retornou à sua atividade solitária.

                Algum tempo depois, talvez já cansados com a falta de papo, ou do pessoal da mesa, dois jovens casais levantaram-se, acenaram, mecanicamente, despedindo-se dos que ficaram, e saíram, abalroando mesas e cadeiras, pois não conseguiam tirar o aparelho da frente dos olhos, nem os dedos dos viciantes teclados, onde digitavam, desvairadamente.

                Diante do que acabara de presenciar, quedei-me em indagações. Não consegui deixar de considerar inexplicável ou, no mínimo, desrespeitoso para com as demais pessoas da mesa, que, certamente, convidaram-nos para conversar, rirem, falar alto; bater papo, jogar conversa fora, discutir sobre política, futebol, religião, a violência das ruas, a incompetência dos governantes e parlamentares e, quem sabe, almoçar, tomar uns drinques, os que saíram terem se postado tanto tempo, silenciosamente conectados, comunicando-se, virtualmente, com alguém que talvez estivesse ao lado, em frente, ou a quilômetros de distância. Por que teriam aceitado o convite se não havia qualquer interesse em conversar, pessoalmente?

                Quiçá não venhamos reclamar do que pesquisas mais sérias, mesmo científicas, já andam anunciando: que estamos emburrecendo, ficando menos inteligentes, mais idiotas nestes tempos de permanente conexão à rede mundial de computadores e às redes sociais. Não é mesmo, Sandoval?            

domingo, 17 de abril de 2022

GRAN FINALE

 

Fonte: Google

GRAN FINALE


Elmar Carvalho

 

Desmanchei

com minhas mãos

que os criara

os deuses em que cria.

Desfiz

a imagem que fizera

da mulher amada.

Perdi a fé em tudo

como quem nada perde.

Depois

gritei, berrei,

chorei gargalhando

e resolvi ficar louco.

Depois de doido,

resolvi tentar a sorte

            sal –

                        tan-

                                    do de cabeça

do alto do arranha-céu.

 

           Parnaíba, 15.06.78  

sábado, 16 de abril de 2022

O HOMEM QUE DAVA LEITE

Foto meramente ilustrativa    Fonte: Google


O HOMEM QUE DAVA LEITE

Possidônio Queiroz (1904 - 1996)

Parece que ainda estou a ver. Estatura mediana, gordo, por isso mesmo parecendo mais baixo, xingador, amante de uma boa pinga, palavroso, quase valente, festeiro, vaqueiro hábil e corajoso. 

Há quarenta anos atrás, todo mundo o conhecia em Oeiras. Residente no interior do município, no lugar Malhada Real, a poucas léguas da sede, vinha constantemente à cidade. Aqui privava com as pessoas mais categorizadas. Muitos gostavam de ouví-lo, porque a conversa entremeada de palavras menos doces, de constantes invocações ao Diabo e de pilhérias salgadas, despertavam gargalhadas estrepitosas.

Raimundo Figueiredo nunca vinha à cidade sem paletó. A camisa, porém, lhe aparecia por baixo do paletó, na frente e atrás, porque a trazia sempre por fora das calças. Isto lhe dava um  aspecto bizarro.

Quando moço foi acometido de pertinaz moléstia, que, por pouco o não levou à sepultura. Permaneceu em estado de coma por vários dias. Restabelecido, contava, grave, sentencioso, que estivera no inferno e que lá vira muita gente conhecida, cujos nomes declinava. Desde então, tornou-se famigerado praguejador, vomitando injúrias, a cada momento.

O que vai dito bastava par a definição do homem que veio do “outro mundo”, sobremodo amigo do Tinhoso, amigo de tal forma que não lhe podia nunca tirar o nome da boca. Entretanto, não é sob este aspecto, que lhe queremos focalizar a personalidade. O que vamos dizer de Raimundo Figueiredo, é que ele era um homem que dava leite, e dava muito leite. 

Gostava de dizer, de afirmar essa faculdade que possuía, que, de certa forma, o colocava acima dos outros homens, que não sabiam dar leite. E não admitia que ninguém lhe duvidasse da assertiva. A mais de uma pessoa, por duvidar do que ele dizia, sujou a cara e a roupa de leite. Era desacreditá-lo, e ele, num movimento rápido, sacava de sob as vestes um peito enorme, referto do líquido branco, e, sem mais demora, mandava contra o incrédulo um forte esguicho que o molhava todo.

Raimundo Figueiredo amamentou a mais de um filho. Não gostava de ouvir choro de criança. Por isso, quando a mulher saía para lavar roupa e a criança tinha fome, ele acalentava o filho pequeno, dando-lhe o peito a mamar. Daí lhe adveio o criar leite, e muito leite. Cabra macho, não ajeitava contenda.
Ginecomasto, na expressão da palavra, possuía mamas enormes. Neste particular poucas mulheres lhe levam a palma.  Podia tirar, dos grandes peitos, sempre refertos, como costumava afirmar, copos de leite. Isso, eu o ouvi dizer de mais de uma vez.

Gostava muito de sambar, de comandar as danças nos folguedos roceiros. Nas festas de casamento, nunca deixava de pronunciar discursos bombásticos, geralmente muito aplaudido.

Era perdido por mulheres. Casado, tinha cinco ou seis filhos do matrimônio e vários de contrabando. Se fosse vivo estaria escandalizado por ver tantos homens operando-se, no desejo insólito de se transformarem em mulheres. Não fez nenhuma operação. E, no entanto, tinha seios enormes e amamentou crianças. Cousas da vida!

Oeiras - 1976

quinta-feira, 14 de abril de 2022

NO BAR DO ZÉ LIRA

 

Fonte: Google/Campo Maior em Foco

Foto meramente ilustrativa   Fonte: Google/SESC-RS


NO BAR DO ZÉ LIRA


Elmar Carvalho


Estive ontem, no que eu chamo de “rápida circulação etílico-cultural periférica”, no bar do Zé Lira. Gosto de ir para lá porque fica perto da linha férrea, onde outrora passaram trens e locomotivas diversas, inclusive velha, negra e enfumaçada maria-fumaça, que passava bufando, resfolegando, enfeitada com o seu penacho de fuligem, a apitar saudosamente, como a dizer adeus a um tempo que não perduraria muito, e nas proximidades da casa grande da Fazenda Estrela, que ainda está de pé, embora quase em ruínas.

Mas vou, principalmente, porque de lá tenho uma bela visão da pequenina Serra Grande, na verdade morros isolados de Santo Antônio do Surubim, além de que, na ida e na volta, contemplo o pequeno, porém grande em beleza, Açude Grande. Ali perto, existiu um campo de futebol, chamado de rabo-da-gata, onde eu me transformava em verdadeiro gato, a fazer belas, elásticas e acrobáticas defesas, segundo dizem alguns amigos “pebolistas”.

Zé Lira é um cidadão sério e trabalhador, e que imprime respeito ao ambiente. Ontem, admirado com a qualidade das músicas que estavam sendo tocadas em seu aparelho de som, perguntei sobre quem as pedira. Com um sorriso traquina, respondeu-me que fora ele mesmo que as pedira. Tornou a repetir que gostava de pescarias e caçadas. Acredito que a afirmativa não é história de caçador e nem de pescador porque ele teve a humildade de dizer que era caçador de mocós, preás e outros pequenos animais, e não de onça.

Falou que é natural do município de Barras, de uma localidade situada entre Cabeceiras e a sede daquele município, porém depois foi residir num local perto do cruzamento da estrada que vai para Boqueirão com a BR.

Quando estava já quase de saída, em companhia do Zé Francisco Marques, chegaram o Sílvio Andrade e o Leni, meus velhos conhecidos. Sílvio é irmão de meu saudoso cunhado Zé Henrique, filho de dona Conceição e senhor Antônio Almeida, ambos falecidos. Fomos vizinhos na adolescência, quando nossos pais moraram perto, em casas que ficavam na rua do Estádio, a Capitão Félix.

Quando morei nessa rua, costumava jogar bola no campinho que ficava na beira do açude, numa praia de alvas e finas areias, em que perpetrei algumas “pontes” ornamentais, verdadeiras pontes estaiadas, na posição de goleiro. Esse campo ficava detrás da casa do tenente Jaime da Paz, ex-prefeito de Campo Maior, em cujo quintal verdejavam e se requebravam vários coqueiros, que me lembravam o mar que eu ainda não conhecia, a não ser por fotografias e pelos filmes exibidos no inesquecível Cine Nazareth.

Esse campo depois foi soterrado pela avenida de contorno da laguna, mas teima em existir na minha saudade. Nesse tempo ditoso, o açude praticamente não era poluído, e após o jogo tomávamos gostoso banho nas suas águas tépidas e de pequeninas ondas.

Depois, passei a jogar no campo do Grupo Escolar Leopoldo Pacheco, que era ingrato, áspero e intratável, como o cacto do poeta Bandeira, por causa da piçarra do terreno, que era uma verdadeira lixa a esfolar a pele dos atletas, principalmente goleiro, como era o meu caso. O imperador da época e do pedaço era o Otaviano, que até tem mesmo nome de imperador romano; era o dono da bola e do time.

Como não poderia deixar de ser, falamos do Zé Henrique, que, além de irmão do Sílvio, era amigo de nós três. Lembramos que, algumas vezes, quando tocado de leve pelo álcool, ele chegava a dar a própria camisa, quando se comovia com a pobreza de algum pedinte que o abordava. Foi bom rever esses amigos, e com eles ter confraternizado e conversado.

15 de março de 2010   

quarta-feira, 13 de abril de 2022

A CIDADELA DO ESPÍRITO



A CIDADELA DO ESPÍRITO


José Expedito Rêgo (1928 - 2000)


As más línguas costumam parolar que determinados escritores têm por hábito rasgar seda entre si, toda vez que uma obra nova é publicada. Não é bem assim. Não me considero crítico literário, mas a leitura de certos livros me deixa uma coceira mental, um impulso irreprimível de comentário. Assim aconteceu com A CIDADELA DO ESPÍRITO – um estudo sobre a arte sacra na obra de Eça de Queiroz – de autoria do oeirense, DAGOBERTO CARVALHO JR.


Desde que li Notre-Dame de Paris, ainda no tempo de ginásio, achei simplesmente paulificante a descrição interminável que Victor Hugo faz da esplêndida catedral. Há quem diga que se, por desgraça, o famoso templo, algum dia, ruísse e por terra, poderia ser refeito, igualzinho, graças ao relato do mestre francês. Pode ser. Mais que eu achei maçante, achei. Fiquei, então, prevenido contra estudos descritivos de igrejas ou qualquer outra estrutura arquitetônica. 


Comecei a mudar de opinião ao conhecer a dissertação de mestrado de Dagoberto, A TALHA DE RETÁBULOS NO PIAUÍ. E agora confesso que tive um prazer muito grande na leitura do novo ensaio eciano. O autor conhece a fundo a arquitetura sacra de Portugal, em todos os tempos, e, sem cansar o leitor, vai mostrando, com muita erudição, sem contudo abusar de terminologia técnica, toda a beleza desse maravilhoso mundo artístico. Descobrindo que a obra de Eça encontra-se impregnada pela arte sacra portuguesa, com edificações dum estilo jesuítico... imagens de Cristo cheio de chagas roxas sobre a sua cruz de pau-preto... fachada de igrejas negra e muda... a castíssima Senhora do Patrocínio e todas suas estrelas... E não só Portugal, também Nápoles de rugas escuras, quentes, com retábulos da Virgem, e cheirando a mulher... Mais ainda o Cairo e suas quatrocentas mesquitas, onde floresce a graça do minarete esbelto.


Quando um crítico não aprecia o modo de escrever de algum autor, mas deseja elogiá-lo, por cortesia ou bajulação, diz que o tal fulano tem um estilo escorreito e enxuto. Enxuto coisa nenhuma! Secura não à boa qualidade na arte literária. O estilo de Dagoberto é rorejado de tenro orvalho, a humidade necessária para aumentar o brilho a graça das observações oportunas e inteligentes.


Todo o contexto do livro é um vasto campo perolado, do mais fino lavor da prata antiga, onde se incrustam, realçando como pedras preciosas, as gemas coloridas das citações ecianas.   

terça-feira, 12 de abril de 2022

El mar

 

Boneco criado por minha irmã Maria José, em que sou representado como membro da Academia Piauiense de Letras (manto) e como juiz (martelo).

El mar

 

 Sousa Filho

 

A Elmar Carvalho, uma singela homenagem pela passagem do seu aniversário

 

O  mar, o sol

El mar, el sol

Eres el mar, Elmar.

Eres el sol

Eres sol y mar

És Carvalho: longevo, imponente.

Feliz cumpleaños, nobre Elmar Carvalho.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Elmar Carvalho em três presentes

 

Presente produzido por minha irmã Maria José e por seu filho Almeida Neto
Charge elaborada pelo amigo e grande chargista Fernando di Castro
Boneco confeccionado por minha irmã Maria José, em que sou homenageado como juiz (martelo) e como membro da Academia Piauiense de Letras (manto).  


domingo, 10 de abril de 2022

sexta-feira, 8 de abril de 2022

A EXISTÊNCIA DE DEUS E OS SEUS PLANOS

Fonte: Google

 

A EXISTÊNCIA DE DEUS E OS SEUS PLANOS


Elmar Carvalho


Releio, pela enésima vez, este texto de Epicuro: “Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?”

Nunca me inquietei com essas indagações, e sempre tive resposta para elas. Apenas nunca externei o que sempre esteve em minhas convicções e fé. Enfrentarei a problematização da primeira parte da citação e tentarei encontrar uma resposta. Em momento algum Epicuro negou a existência de Deus. Portanto, a admitiu. Aliás, todas as perguntas partem do pressuposto de que Deus existe. Faz tempo venho adiando escrever uma crônica, que forceja em meu cérebro, louca para ser dada à luz da publicidade. Escrevê-la-ei agora, e com ela tentarei responder aos questionamentos epicurianos.

Quando fiz minhas primeiras viagens aéreas, tinha muito medo, e sequer olhava para as belezas que poderia ver da janela, fosse uma bela e verdejante colina ou uma caprichosa enseada marinha, ou fosse o celestial alumbramento das nuvens, nas quais gostaria de deitar e rolar. Entendi que esse medo de nada adiantava, já que eu era forçado a enfrentar a viagem. E se houvesse algum acidente, de nada me valeria essa inquietação. Portanto, era inútil, e apenas me incomodaria durante o voo.

Além do mais, considerando que avião é o meio de transporte mais seguro, exceto elevador, eu apenas sofreria por algo que dificilmente iria acontecer. Por outra parte, raciocinei que o avião fora construído por quem sabia o que estava fazendo, por quem tinha conhecimento, ciência, experiência, e a mais avançada tecnologia e os mais adequados e sofisticados materiais.

Também pensei com os meus botões: quem o pilotava sabia o que estava fazendo, estudara, tinha um plano de voo e igualmente seria vítima de eventual erro que cometesse, pelo que agiria sempre com responsabilidade e prudência. Assim, decidi confiar, mesmo porque não poderia fazer outra coisa, uma vez que resolvi entrar na aeronave.

Da mesma forma, para responder às indagações do filósofo, direi que Deus, cuja existência ele admite no enunciado de seu silogismo, tinha e tem pleno conhecimento de sua obra e, certamente, tem um plano maravilhoso e perfeito, como só podem ser as obras divinas. O que sucede é que nossa inteligência e nossos conhecimentos são diminutos, para que possamos entender a mente e a inteligência infinita de Deus, como igualmente não conhecemos os pormenores de seu plano.

Ora, quanto mais o homem tenta perscrutar os umbrais do infinito, do infinitamente grande, mais novas grandezas ele descobre no espaço sideral. E, quanto mais se volta para o infinitamente pequeno das partículas e da mecânica quântica, mais se surpreende com subpartículas cada vez menores e cada vez mais sutis.

Até já disse, num de meus poemas, que atingi o infinito ao ficar infinitamente pequeno. Dessa forma, entendo que não devemos nos preocupar com as indagações do velho Epicuro. Confiemos no criador da aeronave, que é Deus, e confiemos no plano de voo do piloto, que também é Deus. Talvez Ele, que é perfeito, não tenha desejado criar uma obra pronta e acabada, mas uma em construção, em permanente marcha para a perfeição, apesar dos momentâneos e aparentes retrocessos.

E, no final dessa odisseia, que é a própria existência, chegaremos ao porto final, sãos e salvos, puros e redimidos, recolhidos ao corpo místico de Deus, como pequeninos agasalhados em colo aconchegante e protetor.

Para finalizar, considerando que Epicuro fez várias perguntas, seguindo as pegadas e as lições de Lavoisier, quero fazer apenas uma: será se algo ou alguém que obteve a existência poderia algum dia perdê-la, ou haverá apenas uma transformação existencial, uma nova dimensão do existir, do ser? Sem ansiedades, confiemos e esperemos. Em Deus.

10 de março de 2010

quarta-feira, 6 de abril de 2022

ALGUMA POESIA

Fonte: Google


ALGUMA POESIA


José Expedito Rêgo


Drummond, ainda em vida, dizia não se considerar o maior poeta do Brasil. Ele era modesto. Os grandes homens, de real valor, são, via de regra, humildes. Bernard Shaw não era, nem Voltaire, exceções por certo. Não acredito porém que fosse por falta modéstia que o poeta de Itabira não se julgava o maior. Era sinceridade. Explicava: “Não há maiores poetas, há poetas”. Citava outros que achava muito bons: Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Manoel Bandeira. Cada qual na sua época, em diversas escolas literárias, seguindo tendências diferentes, mas todos grandes. 


Realmente, Bilac, dentro de sua maneira de encarar a arte poética, atingiu a perfeição. Sua poesia era inspirada, correta na forma, de inigualável beleza e sensibilidade.  Quem não recorda o Ouvir Estrelas?  Casimiro de Abreu, poeta da infância brasileira, nunca me esqueço dos Meus Oito Anos: “Oh! Que saudades que tenho...” E a Canção do Exílio: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá...”. São versos que caíram na boca do povo, todo mundo sabe de cor.  Manuel Bandeira teve também momentos de rara inspiração e realização estética.  Mas, no meu fraco entender, nenhum outro poeta brasileiro dominou tão bem a arte de fazer versos como o paraibano Augusto dos Anjos. Ele encontrava a palavra exata, para colocá-la no lugar certo, em versos de metrificação rigorosa e cadenciado ritmo, usando rimas do melhor efeito, tudo dentro de impecável harmonia: 


“É a meretriz que de cabelos ruivos, 

colérica, soltando hórridos uivos,

na mesma esteira pública recebe,

entre farraparias e esplendores,

o eretismo das classes superiores

e o orgasmo bastardíssimo da plebe.”


A poesia de Augusto nada tem de romântica. É realista, muitas vezes brutal: “Um urubu pousou na minha sorte!” Claro que não podia ser popular.  Seu linguajar é difícil, erudito, requer leitura atenta:


“... também das ditomáceas da lagoa

 a criptógama cápsula se esbroa...”


Na verdade, Drummond deve ser o maior de nosso tempo. Em cada época, dentro diferentes concepções da beleza, na arte poética, tivemos nomes tão grandes quanto o dele.   

terça-feira, 5 de abril de 2022

Um poema de Walter Lima

 

Fonte: Google

1705.01

 

Walter Lima

 

Maria, a concebida, renome de 14 gerações,

Atrás temos Davi, Abraão, Moisés, Noé, Adão.

Reunião de tantas gerações para se chegar no

Inexplicável feito inicial.

A história da Criação assim se deu:

 

Desde a Gênesis de tudo quando

Ele na sua infinita perfeição

Reformulou o que não era Nada,

Infinitamente calculou, mediu imensidões

Somou, multiplicou, pôs tudo e

Mais um tanto no nivelamento, ocorreu

As divisões entre Céus e Terra, firmamento,

Reuniu Sabedoria na criação das estrelas, astros.

 

Sim, na Terra dia a dia Fez criação de

Ilimitadas espécies, animais, peixes, insetos...

Lua, Sol, planetas, astros, tudo em seu lugar. Por último

Veio à lume o ser perfeito, Adam e da costela saída

A Madam, perfeição total, o ser “mulher”.

“Descansou Deus quando viu tudo que fez era bom.”

MD.

17/05/2019.   

domingo, 3 de abril de 2022

Seleta Piauiense - Hermes Vieira

Fonte: Google


Lamentos de Mãe-da-Lua


Hermes Vieira (1911 - 2000)


"No sertão, nos matagais,

Quando vai no céu a lua

E nas fontes cristalinas

O luar meigo flutua,

Um silêncio agreste e doce

Deixa tudo extasiado;

Pelo espaço enluarado.

 

E uma voz dolente ecoa

Essa voz que dissimula

Uma dor a gargalhar,

É notória no sertão

Pelas noites de luar.

 

É a voz da Mãe-da-Lua

A chorar o ausente esposo

Que, segundo afirma a lenda,

teve um fim misterioso.

 

Era um pobre lenhador;

Certa vez, indo lenhar,

Por motivo inexplicável,

Não voltou mais ao seu lar.

 

Mãe-da-Lua, em desespero,

Coração angustioso,

Atirou-se pelas brenhas

A procura do esposo.

 

Andou muito, mas, debalde:

O marido não encontrou,

E por isso nunca mais

A cabana ela voltou.

 

E depois, num ramo nu,

Sob um manto de luar,

Outras aves encontraram

Mãe-da-Lua a soluçar.

 

Não querendo a infeliz ave

Pelas outras ser zombada,

Logo o pranto simulou

Numa triste gargalhada.

 

E num galho, solitária,

Mergulhada no luar,

Ela ainda continua

Com seu triste gargalhar.

 

Como oculta a Mãe-da-Lua,

Gargalhando os seus tormentos,

Muitos riem, assim também,

Ocultando os sofrimentos". 


Fonte: Cecordel, acesso em 03/04/2022

sexta-feira, 1 de abril de 2022

A catirina e o helicóptero americano

 


A catirina e o helicóptero americano


Pádua Marques

Jornalista, contista, cronista e romancista

 

Noite dessas, coisa de pouco tempo, eu já estava me preparando pra entrar debaixo dos panos quando de repente entrou pela janela de meu quarto uma catirina. Entrou e fez zuada batendo as asas em volta da lâmpada. Depois voou no sentido das roupas dependuradas e dos meus livros na estante.

E fez aquele reboliço todo e o certo é que levou quase meia hora pra que eu pudesse colocar a insolente de janela pra fora fazendo com que voltasse pelo mesmo caminho por onde entrou. Então me larguei a pensar e recordar cá comigo os distantes dias de minha infância. Fazia muito tempo que eu não encontrava cara a cara com esse inseto tão interessante. Eu até já dava como outra espécie em extinção!

Catirina é inseto de inverno. Aqui pra nós, de tempos de chuvas e dos alagados. E na minha recordação de menino a gente ficava por um bom tempo pelos campos do bairro de Fátima correndo atrás das catirinas pra pegar e depois amarrar com uma linha. A captura não era nada fácil. A gente via e vinha pisando devagar. Um pé atrás do outro, mas bem devagar pra que ela não percebesse e voasse justo em cima da hora. Porque senão tudo estaria perdido.

Não se podia fazer zuada, não podia falar baixo e muito menos alto. A gente ficava como se estivesse numa pescaria. Sem dar um piu que fosse. Passava tempo esperando ela pousar na cabeça de um toco, num fio de arame ou numa touceira de pés de mussambê, pé de capa-bode, numa mata de sabiás, ali pra os lados do Pedro Agostinho, vizinho onde hoje é o mercado municipal, entre as ruas James Clark e Madeira Brandão.

Pedro Agostinho era agregado do doutor Mirócles Veras  e tinha muitos filhos. Os dois maiores, o Zé da Onça e o Burra Cega, que era caraolho, depois de homens feitos seguiram a carreira de carroceiros. Ente os melhores lugares pra se pegar catirina , um era no Campo do Jaboatão, time criado pelos três filhos do João Surubaca, o Chico, o Raimundo, o conhecido Nabor e o Pedro, conhecido pelo apelido de Rádio. Depois vinha o Pelebreu, filho de dona Maria de Holanda, meus irmãos Daschagas e Luís, o Teninha, e outros mais, como o Canequinho, cunhado do Zezé Boi. Era lugar onde também se jogava muita carniça.

Mas era uma alegria medonha, um encantamento, quando depois de uma chuva e na volta do sol naquela campina, um dos quatro ou cinco meninos conseguia pegar a catirina segurando firme pelo rabo. E aquele barulho das asas transparentes batendo no campo aberto e cheio de poças de águas, era uma coisa extraordinária! E a gente ficava olhando aquele inseto de cabeça imensa e com aqueles olhos esquisitos. Nós caçávamos catirinas pra mostrar coragem e valentia uns pra os outros.

Depois o menino caçador levava pra casa ou pra onde o grupo estava brincando. Mas aquele brinquedo vivo logo iria perder o interesse e a gente achava de soltar e deixando que tomasse seu rumo. Ela iria já sem forças pousar num galho e ir depois embora. Tinha gente de nós que até guardava em caixa vazia que fossem de sapatos, de Maisena, em latas de Leite Ninho, dentro de uma garrafa. Mas a bichinha acabava era morrendo de tanta judiação.

E lá no bairro de Fátima tinha uma moça de nome Francisca, que ninguém sabe qual a razão, se devido sua magreza ou porque gostava de andar em tudo quanto era festa, ficou conhecida por Catirina. Não fazia mal pra ninguém. Mas o final de semana era dela! Queria era saber onde ia ter uma festa, um bazar animado por uma radiola, o equipamento eletrônico mais moderno pra aquela época, fosse nas Casas Populares, nome do hoje Nova Parnaíba, se no Curre, na Guarita, nos Campos!

Depois que a gente foi ficando grande e sabendo das coisas e dos segredos da ciência pelos livros, ficamos sabendo que o nome daquele inseto é libélula. Libélula, calcule só. Nome feio que nada tinha a ver. Pra mim nunca deixou de ser catirina! Bom mesmo era pegar mais de uma, duas, três, quatro. Coisa que levava tempo e paciência.

A gente dava até nomes pra elas. Depois soltava no aberto do Campo do Jaboatão ou lá pra os lados do Bariri ou na rua de casa ou lá na beira da linha de ferro, indo pra o Catanduvas, e deixava que saíssem voando e se batendo umas nas outras amarradas de linhas pelos rabos. Pareciam helicópteros americanos de desembarque de tropas naqueles dias de nossas vidas, quando a gente via as fotografias na revista Cruzeiro ou na Realidade durante a guerra do Vietnam. 

quinta-feira, 31 de março de 2022

SOBRE SOGRAS E MADRASTAS

 

Foto meramente ilustrativa    Fonte: Google

SOBRE SOGRAS E MADRASTAS


Elmar Carvalho


O grande Machado de Assis disse que teria meia dúzia de leitores. Ora, se Machado que era o Machado dizia isso, que direi eu? Bem, o fato é que um de meus poucos leitores, no caso o professor Nelson Rios, de Regeneração, dizendo que amanhã será o dia do sogro, e que ele gosta muito do seu, o senhor Raimundo Rodrigues Coimbra, pediu-me escrevesse alguma coisa sobre esse nosso parente por afinidade.

Inicialmente, devo dizer que nunca fui dado a escrever poemas de circunstância ou a pedido. Nunca tive habilidade para isso, mas desta feita abrirei uma exceção, mesmo porque o texto será em prosa. Por falar em parente por afinidade, se realmente houvesse afinidade, entre genro e sogro, sem dúvida seria uma grande dádiva e bênção. E se houvesse amizade, melhor ainda.

O fato é que não escolhemos nossos parentes, simplesmente nascemos em determinada família. Já os amigos, não; nós os escolhemos, pelas afinidades, pelas identidades, simpatia e admiração. Diz-se que os opostos se atraem. Isso pode ser verdade na física, no eletromagnetismo, mas não creio ser na amizade e nem no amor. Por que um homem bom e de bem seria amigo de um bandido, sobretudo perverso? Não creio haver motivo para isso, mesmo porque um homem mau e do mal não é amigo de ninguém, mas apenas cultiva os seus interesses e finge amizade, na defesa de suas conveniências momentâneas.

Agora, a mulher ou o marido são escolhidos por nós. Consequentemente, vamos ser genro ou nora de um parente de nosso cônjuge, que ele não escolheu, e que veio de contrapeso com o casamento. A Bíblia diz que, quando uma pessoa casa, deixa o pai e a mãe, para ir ser carne da mesma carne de outra pessoa. Claro, o texto sagrado não está recomendando a ninguém o abandono de seus pais, mas advertindo-o de que a sua preocupação, em primeiro lugar, deve ser com a família que irá constituir, principalmente com a vinda dos filhos.

No Brasil, seja por brincadeira ou por preconceito, as sogras são estigmatizadas, e consideradas verdadeiras megeras, vítimas das mais sarcásticas piadas. Em outros países, essas parentas afins são consideradas uma espécie de segunda mãe, e até são chamadas e tratadas como tal. No Brasil, talvez a sogra seja considerada uma espécie de mãe postiça, e muito desse preconceito venha de velhas estórias infantis, em que as madrastas maltratavam os enteados, sendo que uma delas enterrou uma orfãzinha, que, com um fio de voz, sumida e chorosa, vinda das entranhas da terra, pedia ao capineiro de seu pai para não lhe cortar os cabelos, que haviam nascido e crescido do ventre da terra.

Esse conto cortava o coração dos lacrimejantes pequenos que o ouviam. Há o ditado popular que diz: “Mateus, primeiro os meus”. Quiçá, em muitas mulheres, haja mesmo uma nítida preferência pelos seus filhos do que pelos enteados, mas isso não pode ser generalizado. Muitas madrastas foram mães extremosas para os enteados, e cuidaram deles com todo o desvelo de uma mãe de verdade.

A mesma coisa sucede em relação a sogros e sogras: muitos são verdadeiros pais para seus genros e noras, e lhes dedicam um verdadeiro amor familiar. Estimo que o meu leitor Nelson Rios, professor de matemática, mas versado em Humanidades, nesse aspecto seja um privilegiado, por ter um sogro de sua máxima estima e benquerer. 

9 de março de 2010  

quarta-feira, 30 de março de 2022

O sertão e a saudade em dois livros

 




Recebi ontem, pelos Correios, enviados pelo instrumentista, cantor, compositor e poeta José Paraguassú, os livros Sertão Encantado, de sua autoria, e Saudades da Infância, da lavra de sua esposa, Dina Paraguassú.

Os livros foram bem impressos, têm belas capas e trazem páginas preambulares, que registram a impressão de leitura, com comentários críticos e biográficos, de autores diversos, entre os quais José Bruno dos Santos e Adrião Neto.

Sobre o primeiro, diz o seu autor: “Sertão Encantado é a história contada em versos e prosas da minha experiência e vivência no sertão. Eu  não nasci no sertão, foi o sertão que nasceu dentro de mim”. Com essas palavras, José Paraguassú demonstra a sua ligação visceral e guimarães-rosiana com os encantos e feitiços sertanejos e catingueiros.

CARTA A UM CERTO GESTOR PÚBLICO



CARTA A UM CERTO GESTOR PÚBLICO


Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

 

                Saudações, senhor gestor municipal. Sei que o pronome de tratamento que lhe deveria dispensar, fosse acatar as normas gramaticais e sintáticas da última flor do Lácio para esse tipo de vocativo, seria um excelentíssimo; mas qual o quê? Que de excelente, notável ou notório tem feito vossa senhoria – a propósito, parece já mais que ideal, também essa forma de tratamento ou, talvez nem dela se faça merecedor, por não pouca razão e motivos – por essa entidade estatal cuja administração lhe caiu às mãos que, até agora, mostraram-se modorrentas ou pouco afeitas ao exercício do trabalho exigido? Acaso estaria o senhor despreparado para exercê-lo? Não? Então, a que se deve tanta reticência protelatória?

                Segundo disse seu companheiro de cédula eleitoral, ainda em tempo de campanha, a instituição cujo povo lhes delegaria o comando integral, não se bancava em termos de arrecadação tributária própria, gastava mais do que obtinha em receitas, estava, pois, quebrada; há que se dizer, por oportuno, não ser verdadeiro  o estado de falência pregado por seu auxiliar, e se torcer para ter sido meramente demagógica a afirmação de que as aplicações de recursos seriam inferiores às origens, pois isso significaria a existência fática de crime, haja vista, contabilmente, ativo e passivo terem que se equivaler; todavia, se arrecadação superior a gastos e/ou dispêndios for um privilégio, poucas cidades brasileiras são detentoras dele; a maioria é bancada pelos fundos constitucionais e outros complementos financeiros públicos disponibilizados pela União; mas, a despeito de essa lengalenga, há que se dizer que a cidade que receberam para administrar, comparada a tantas outras país afora, estaria acima da média, se não autossuficiente, longe das condições que assolam muitas de suas congêneres; tanto que sempre se manteve entre as melhores em se tratando de educação e saúde públicas, referência mesmo, em certos casos; adredemente, não seria cabotinice nem leviandade de não eleitor, afirmar que, à caça dos votos que conduziriam o senhor ao comando dela, lançou-se vossa senhoria, voluntária e, espontaneamente; portanto, se há alguém com direito a reclamar, e muito, não é o prezado; portanto, pare de fingir que visando ao céu, ganhou o inferno. Hora de se lançar ao trabalho, cidadão.

                Agora, falarei sobre o desmantelamento administrativo propriamente dito, observável sem grande esforço visual ou mental, por qualquer cidadão minimamente atento. Parece um desejo ignóbil, inexplicável, autocrático, tirânico, talvez – não venha dizer que é para melhorar a mobilidade no trânsito – dessa lógica padecemos em governos anteriores -, essas estapafúrdias reengenharias intervencionistas em importantes vias que unem áreas muito populosas, e que culminam, sim, por facilitar congestionamentos e aumentar a recorrência de acidentes -,  ilhar determinadas regiões da cidade; no bairro Morada do Sol, só para citar um exemplo, é como se o poder público quisesse impor a seus moradores o castigo de não lhes permitir chegar e/ou sair, com celeridade e segurança, de seus lares para o centro de suas ocupações laborais; se não, por que as instituições de trânsito têm buscado eliminar quase a totalidade dos retornos e conversões de alguns logradouros, como os da avenida Dom Severino, da Homero Castelo Branco – pegando apenas um trecho – até o balão final daquela via pública, sem oferecer alternativas viáveis? Está, praticamente, sem conversões simples à esquerda quem naquela trafega naquele logradouro. O que deveria fazer para melhorar a mobilidade e o deslocamento dos habitantes da área servida pelas ruas e avenidas citadas? Uma alternativa elementar seria tornar acessível,  reparando ou substituindo o péssimo pavimento das ruas Mundinho Ferraz, Senador Luís Gonçalves, paralelas à dom Severino: isso diminuiria o fluxo em parte desta via; nem ousaria exigir tal gentileza para com a rua Assis Veloso que, além de ainda estar com a pavimentação poliédrica da década de oitenta, do século passado, portanto, há quase quarenta anos e, por conseguinte, em péssimas condições físicas, vez ou outra serve de desvio de tráfego e trânsito para outras vias, como aconteceu dias atrás, quando ela recebeu de uma de suas vizinhas, que passava por reparos no sistema de fornecimento de água, grande parte do fluxo de caminhões, ônibus, excetuando-se aviões e trens, até barcos, pequenos iates e embarcações do tipo jet ski, por ela trafegaram rebocados por pesadas camionetas; com o sobrepeso imposto ao velho e caquético pavimento, coitada da rua, passaram a nela ser recorrentes os vazamentos na rede de água; a propósito, a concessionária do serviço, seja para colocar na gestão do senhor mais um senão, seja porque fora contagiada por sua modorra e passividade, tem sido bastante negligente e/ou despreocupada com os necessários reparos, que, mesmo após insistentes reclamações dos moradores, demoram semanas para serem feitos.

                A princípio, havia pensado em tecer críticas e reclamações mais ácidas sobre temas como saúde, educação, segurança, transporte, dentre outros, mas não o farei agora, tantos são os cidadãos insatisfeitos, arrependidos da má decisão eleitoral tomada que, recorrentemente, vêm se manifestando, onde podem, a respeito da falta de atenção e de interesse do senhor para com as necessidades da população; citá-las, possivelmente, só recrudesceria a falta de paciência com sua gestão.

                Despeço-me esperando que algum discernimento e tino administrativo lhe sobrevenham, de modo que, imbuído deles, possa olhar com maior atenção o que ocorre a seu redor, torne-se mais operoso em suas atribuições, e zele pelo órgão ao qual, apesar de o senhor diagnosticar como canceroso metastático, espontânea e, voluntariamente, arvorou-se a dele querer cuidar. Faça-o, pois, da melhor forma possível; aplique-lhe a medicação adequada. Que Deus lhe (e nos) proteja, amém!          

Ave sem asas

 


Ave sem asas


Sousa Filho

  

Ó,  ave sem penas!

Como queres voar?

Se,  sequer ...

Se sequer tens penas?

Se sequer tens pena de ti?

Ó, pseudo-ave...

Como voarás?

Vã ilusão!   

terça-feira, 29 de março de 2022

ANTÔNIO CABELIM: CORAÇÃO E BRAÇOS DO BAIXÃO DO UMBUZEIRO (PI)





ANTÔNIO CABELIM: CORAÇÃO E BRAÇOS DO BAIXÃO DO UMBUZEIRO (PI)


Por Eduardo Pontin 

Fotos: Francisca Sousa





Quando perguntado em que Era havia nascido, Antônio Raimundo Torres, popularmente conhecido por Antóim Cabelim, costumava responder: “Na Era da fome”. Uma maneira de dizer que havia nascido em 1932, ano das mais severas secas do Piauí, retratado inclusive no conto “32” do grande escritor picoense Fontes Ibiapina. Cabelim foi homem pra tudo. Não foi rei porque pelas bandas do interior do Piauí todos são senhor de seu próprio destino, mas foi muito mais que rei. Foi braços, mãos, mente e coração do povoado que ainda hoje é conhecido pelo poético nome de Baixão do Umbuzeiro, município de Wall Ferraz, antiga localidade chamada de Ilha Estadual, no Centro-Sul do Piauí.


Antônio Cabelim nasceu no povoado Riacho, que hoje faz parte do município de Floresta do Piauí. Foi o primeiro de muitos filhos de José Raimundo Torres e Izabel Vicença da Conceição, a Belinha. Para escapar da fome, com pouco tempo o casal se mudou com Antônio Cabelim ainda criança mais outros filhos para o povoado Cajazeiras, município de Picos. De lá, conforme a família ia aumentando, a peregrinação continuava para outros povoados da região, como Baixi, em Paquetá.



O apelido Cabelim vem de seu avô, o cearense Raimundo José Torres, o primeiro da família a bater em retirada rumo ao Piauí em busca de terras onde a chuva fosse mais clemente. Com cabelo ralinho, não tardou para o povo o sair chamando Raimundo Cabelim. Com o povo é assim, o defeito mais vistoso se transforma no apelido da pessoa. O apelido “Cabelim”, Raimundo passou para o filho, que passou para o neto que já passou para o seu bisneto.

Ainda jovem, Antônio Cabelim encontrou o amor de sua vida, Dona Pequena, e botou na telha que ia se casar, mesmo sem um tostão furado. Peitou família, e, assim como na quadra da Lezeira, dança mais popular da região, disse a tua mulher: “Minina, tu qué, eu quero/Tua família num qué/ Ti assustenta a tchia palavra/Se arrebenta quem quisé”.



E assim foi feito! O casal morou 4 meses no povoado Cajazeiras e 8 anos no povoado Carnaúba, mas quando Cabelim deu pra conhecer o Baixão do Umbuzeiro, se encantou como se tivesse encontrado a terra prometida. Num negócio louco que envolvia entrada e prestações, comprou um terreno e arrochou o pau, brocando e limpando o lugar para construir a casa que seria o lar da sua família. 

Ao chegar com Dona Pequena no Baixão do Umbuzeiro em fins dos anos 1950, o povoado era algo como Fontes Ibiapina descreveu no romance “Tombador” (1971): “Quando ali chegaram, não havia vivalmas para remédio por aquelas bibocas. (...) era um mundão folote de terras. Mas inculto, seco de tinir durante o verão. E desabitado. Só aquele chapadão sem fim, e pronto”. Mas Antônio Cabelim não esmoreceu, assim como o personagem Bernardino do romance de Fontes: “Aquilo era que era ser homem de sangue no olho! Estudou o problema com gosto e carinho. Mediu, palmo a palmo, circunstâncias e possibilidades. Adereçou os apetrechos. E meteu os peitos”.



Por esse período, enquanto construía a casa, morou de julho a outubro debaixo de um grande pé de juazeiro junto com a esposa, a filha primogênita Inácia e o filho que haviam pego pra criar, Zé Cabelim. Dormiam em rede. Dona Pequena relata que certa noite viu um movimento ziguezagueado num dos troncos do pau e avisou Antônio Cabelim, que pediu que ela aquietasse e dormisse. Eram cobras. Nada aconteceu a ninguém.

Pouco depois, já com um cômodo da casa construído, Antônio Cabelim se mudou com a família e firmou residência no Baixão do Umbuzeiro, terra que com inverno bom chegava a dar 40 quartas de feijão.



Cabelim trabalhou duro na roça e foi adquirindo pedaços de terra. Protegia suas propriedades com cercas feitas de pedras. Com suas mãos, ia pegar as pedras no mato, que eram transportadas no lombo de jumento e depois as colocava, uma por uma. Ainda hoje as cercas de pedra estão lá, de pé. 


Cabelim trabalhou de sol a sol e passou a dominar todas as etapas de produção do que sua família necessita para viver. Sua casa foi construída com adobes que ele mesmo fazia, retirando barro da natureza, o misturando com estrume de gado e os juntando com os pés. Depois de ganhar consistência, colocava o barro em formas para adquirir o formato de tijolo e o botava para secar ao ar livre. As vigas de sua casa são de árvore de carnaúba. As telhas são de barro e ele mesmo as fez. Não comprou nada, fez tudo com as próprias mãos.



Com o entendimento que adquiriu fazendo sua própria casa, Cabelim começou a receber empeleitas para construir casas no Baixão do Umbuzeiro, o que fazia com extremo cuidado e competência, a um preço justo.


Também não comprava nada do que ele e sua família comiam. Plantava o arroz e o feijão. Da plantação de macaxeira, produzia farinha de goma em sua casa de desmancha para ter beiju o restante do ano. Quando a situação apertava, Cabelim ia buscar caça do mato: tatu; peba; lambu; rolinha etc. Aos poucos, foi adquirindo pequeno criatório de gado, bode, porco e galinha.

Produzia o currulepe que ele, sua mulher e filhos calçavam. Também confeccionava o surrão de couro para armazenar os legumes dos invernos bons e ruins. Em tropa, ia tangendo animais e percorria grandes distâncias para vender e comprar mercadorias como farinha e feijão. Muitas foram as viagens até os Picos de pés. 



Antônio Cabelim foi um dos primeiros homens a movimentar a economia local do Baixão do Umbuzeiro, contratando trabalhadores para roça. Pessoas hoje com pouco mais de 40 anos contam que davam um jeito da enxada quebrar para terminar o trabalho do dia, pois ninguém segurava o rojão do velho Cabelim, que trabalhava até o sol dar seu último suspiro do dia.

Antônio Cabelim tinha um coração enorme. Quantas não foram as pessoas que iam lhe tomar dinheiro emprestado para tentar a sorte em São Paulo sem nenhum juros. Inclusive, muitas dessas pessoas lhe davam o calote, o que era sempre perdoado por ele. Cabelim e Dona Pequena tiveram uma filha, Inácia, e criaram mais dois, Zé Cabelim e Toinha. Sem contar os inúmeros agregados, a casa vivia cheia com muitas bocas para alimentar. 



Mas sua casa era lugar de fartura, pois com o seu trabalho na roça conseguia tudo o que precisava para sustentar os seus. Antônio Cabelim, além de ser humano sem igual, foi um homem de visão. Pensou e amou o seu Baixão do Umbuzeiro, terra de onde nunca saiu nem imaginou deixar para viver as ilusões da cidade grande.

Na mesma casa que construiu em fins de 1950, hoje em 2022 ainda não há televisão ou internet. Assim, mesmo nos dias atuais quase todas as noites filhos, netos e bisnetos de Cabelim e Pequena se reuniam na ponta de terreiro de sua casa para conversar e ouvir as estórias de trancoso que o velho sabia contar como ninguém. 


Seu Cabelim e Dona Pequena ainda hoje preferiam dormir em redes paralelas, sustentadas nos troncos de carnaúba, na sala. Mesmo com geladeira em casa, nunca se desfez do pote de barro, que vive devidamente abastecido para quando a energia acabar não faltar água fresquinha. 


Mesmo com fogão a gás, nunca dispensou o fogão a lenha, que inclusive era muito mais utilizado. 


Já com idade avançada, gostava de ficar sentado no alpendre de sua casa nos finais de tarde, esperando as poucas cabeças de gado que lhe restavam pra remédio chegarem. Elas pareciam reconhecer o seu dono, pois ficavam ali na cerca, à espreita. Quando alguém brincava que queria comprar o seu gado, ele dizia que não vendia, e justificava: “o gado é a corda do meu coração”.


Cabelim viveu para os seus e para o Baixão. Aos 80 anos foi acometido pelo Mal de Alzheimer. Não largou o trabalho, o trabalho é que largou ele.

Cabelim tinha um bom-humor contagiante, era um contador de histórias fino. Embora sem estudo, possuía vocabulário rico, vivíssimo, com imagens poéticas de dar inveja a poetas eruditos. Tudo o que fez aprendeu vivendo, na prática, observando e tentando fazer.



A história de Antônio Cabelim não é única, ela é um retrato de boa parte do povo piauiense e nordestino de outrora, que com grande coragem e disposição, enfrentou a vida com gosto de gás e transformou o mundo ao seu redor com as suas próprias mãos.

Antônio Raimundo Cabelim partiu desse plano aos 89 anos, no dia 27 de março de 2022, mas está vivo em seu amado Baixão do Umbuzeiro, povoado que pode ser definido pelos versos poéticos do grande Cantador de Viola picoense Barrazul, que ele tanto admirava:


“Orgulhoso eu sou por ter nascido

A três léguas de Picos, a Oeste

Clima quente, distante do agreste

Entre os morros da Data Boqueirão

No recanto mais pobre do sertão

Nos carrascos mais secos do Nordeste”.