quinta-feira, 2 de novembro de 2023
Caçando Pedrinho
Caçando Pedrinho
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
E era onça mesmo!
Com isso, inicia-se a saga de Pedrinho e sua turma, no Sítio do Picapau Amarelo, de Lobato, preparando-se para a arriscada aventura de enfrentar a famosa e terrível onça da Toca Fria, em Caçadas de Pedrinho.
A sequência é violenta, com tiros de canhão, facas e coronhadas. Nos últimos momentos do animal, assim atacada de todos os lados, a onça não teve remédio senão morrer. Estrebuchou e foi morrendo. Quando deu o último suspiro, Pedrinho, no maior entusiasmo de sua vida, entoou um canto de guerra: - Ale guá, guá, guá...
Hoje, vejo a narrativa com um tiquinho a mais de maturidade. Afinal, é uma obra de 1933. E a selvajaria ainda é própria dos humanos.
No entanto, há um fetiche em cravar as garras na obra de Lobato, sob a batuta da onipresente, e radical patrulha do cancelamento.
São sentimentais (ou afoitos ao julgar), e colocam o Sítio na mira das teclas e críticas.
Caçam as palavras politicamente incorretas ou ofensivas - e conseguem, às vezes, fazer com que editoras cortem trechos devido à pressão econômica.
Como bisbilhoteiro que sou, descobri que há sessenta e cinco palavras relacionadas a caça, caçadas, caçadores e setenta menções a onças em Caçadas de Pedrinho.
Em seguida, imaginei o título da obra sendo abatido pelo safári digital, transformando-se em “(Caçadas) de Pedrinho”, tachado.
Acaso, se houvesse a revisão da obra, cortando-se só essas palavras, jamais liberariam a tal caçada do infrator Pedrinho, dando-lhe, de brinde, um belo sermão e conduzindo todos ao delegado.
Não seria incrível criar uma Delegacia de Censura de Diversões Públicas na Internet (DCPI), seguindo-se com o parecer: “O presente livro, retrata maus-tratos contra uma onça indefesa, cometidos por crianças, em um livro infantil, com linguagem bastante antiecológica e cruel para o século XXI. Portanto, ao nosso ver, opinamos pela Não Liberação”.
Felizmente, mesmo com risco de Lobato, Pedrinho e sua turma serem caçados e cancelados, não considero ofensivo para as crianças lerem o texto original. Isso porque a formação de um bom leitor crítico requer a premissa de não aceitar tudo que lê.
Quando criança, assisti a muitos episódios do Sítio e, mesmo assim, não me tornei um exímio caçador de onças ou especialista no ramo de safáris.
Aliás, não sou de gabolices. E o mais próximo que chego de ser um bom caçador é atirar com espingarda de chumbinho em circos, abatendo bombons e chocolates.
Ah, como amaria que Emília, com seu pó de pirlimpimpim, me transportasse para o Sítio do Picapau Amarelo original, me livrando desta tediosa e cruel expedição de caça.
E era Pedrinho mesmo!
(*) cronista e contista
quarta-feira, 1 de novembro de 2023
DISCURSO DE RECEPÇÃO A GILDÁRIO DIAS LIMA (*)
| Fotomontagem: Elmara Cristina |
DISCURSO DE RECEPÇÃO A GILDÁRIO DIAS LIMA (*)
Elmar Carvalho
Nesta manhã festiva e engalanada,
tenho a honra de, em nome da Academia Campomaiorense de Ciências, Artes e
Letras - ACALE e de todos os seus membros, receber o neófito acadêmico Gildário
Dias Lima, cidadão de muitos méritos, louros e troféus, conforme adiante
informarei.
Portanto, a sua presença entre nós
engrandecerá e fortalecerá os pilares de nosso sodalício. A solenidade de posse
torna o eleito, de fato, acadêmico, e o dia de sua posse constitui a data mais
importante de sua vida acadêmica, cuja efeméride deverá ser proclamada em
nossas reuniões, nas ocasiões propícias, como acontece em outras academias.
Nasceu Gildário Dias Lima em Campo
Maior, no dia 7 de dezembro de 1983, filho de Adelmo Bezerra Lima e Isabel
Maria Dias Lima, que sempre o incentivaram em seus estudos e em suas vitórias
intelectuais, e aqui se encontram, com justo orgulho, para aplaudi-lo neste
novo e importante triunfo, em que a coroa de louros da imortalidade acadêmica
orna a sua fronte.
Em sua cidade natal, a bucólica e
bela Terra dos Carnaubais, no período de 1990 a 1998, cursou a Educação Infantil
e o Ensino Fundamental I e II, na Unidade Escolar Patronato Nossa Senhora de
Lourdes. Ali também estão situados, no cimo da suave colina, uma singela ermida
e uma gruta, que, em minha adolescência, tantas vezes contemplei, na época em
que essa paisagem era apenas um largo de terra nua, ornado de capim e flores
silvestres, onde se realizavam os festejos anuais da Santa, com quermesses e
leilões. Por lá vi desfilarem belas e graciosas normalistas, vestidas de azul e
branco.
Gildário fez o Ensino Médio, entre
1999 e 2002, no Educandário Leonardo da Vinci (Campo Maior), que homenageia a
mais importante figura da Renascença. Da Vinci, além de pintor, poeta, músico e
escultor, foi inventor, arquiteto, engenheiro e homem de ciência. Como também,
escritor e cientista, veio a se tornar Gildário Dias Lima.
Sua graduação e mestrado foram feitos
na Universidade Federal do Piauí – UFPI, no período de 2003 a 2010. De 2014 a
2020, conquistou a láurea máxima, o doutorado em Física, pela Universidade
Federal Fluminense (Niterói – RJ).
Foi cofundador e membro das seguintes
entidades, entre outras, onde apresentou projetos e participou de eventos:
Instituto de Tecnologia, Ciências e Inovação do Delta do Parnaíba (Delta
TIC’s), Primeiro Fórum de Tecnologia, Ciências e Inovação do Piauí (FORTIC’s),
Membro fundador da Organização não Governamental Cajuína Tech, Universidade
Federal do Delta do Parnaíba, Startup Outlier Medical Automation, The Hub –
Primeiro HUB de Tecnologia do Piauí, Membro da Comunidade Carnaúba Valley do
Norte do Estado do Piauí, Membro do
Programa de Pós-graduação em Engenharia Elétrica da Universidade Federal do
Piauí.
Conquanto ainda jovem, recebeu as
seguintes homenagens e honrarias: Cidadão Honorário de Parnaíba, Comendador da
Ordem Renascença do Estado do Piauí, Título de Filantropo da Câmara Municipal
de Campo Maior e Medalha do Mérito Legislativo “Vereador Simplício José da
Silva”.
Entre a vida do conterrâneo Gildário
e a minha, encontro alguns pontos de contato, aos quais me referirei.
Foi ele, ainda jovem, exercer o cargo
de professor na Universidade Federal do Piauí, da qual mais tarde se desmembrou
a Universidade Federal do Delta do Parnaíba – UFDPAR, onde continua professor
respeitado, além de exercer outras atividades, inclusive de extensão, a que me
referi acima.
Eu e minha família fomos morar em
Parnaíba em 1975, quando era um bisonho jovem de 19 anos de idade. Tinha apenas
“duas mãos e o sentimento do mundo” e a cabeça povoada de sonhos e utopias. Em
1977 ou 1978, já trabalhando na ECT – Empresa de Correios e Telégrafos e
estudando no curso de Administração de Empresas (UFPI – Campus Ministro Reis
Velloso), nostálgico de Campo Maior, escrevi o meu poema Cromos de Campo Maior,
do qual extraio estes poucos versos:
Açude Grande
apenas no nome, mas
pequeno
na paisagem ampla dos
descampados.
Tuas águas cinzentas
azularam-se em minha
saudade.
Tuas águas barrentas
são tingidas de azul
pelo
azul do céu que se
espelha
em tuas águas de
chumbo.
No umbral de seus quarenta anos, toma
Gildário, no dia de hoje, posse na Academia Campomaiorense de Artes e Letras.
No Iate Clube Laguna, à beira do
formoso Açude Grande, mais de vinte e cinco anos atrás, aos 41 anos de vida,
tomava eu posse na Academia de Letras do Vale do Longá. Naquela ocasião, falei
sobre as demolições de edifícios antigos de Campo Maior, lendo parte de meu
poema o qual dizia que literalmente haviam tombado a Fazenda Tombador. Décadas
antes já havia sido demolida a velha e bela Igreja Colonial de Santo Antônio do
Surubim. Adverti que, se providências não fossem tomadas, as velhas casas da
Zona Planetária cairiam.
Infelizmente, fui um bom profeta.
Seis ou sete anos depois, num “inverno” rigoroso, de fortes e torrenciais
chuvas, ruíram os velhos lupanares, cujos escombros úmidos, tristonho
contemplei. Depois, quase sub-repticiamente, foram desaparecendo outros
prédios, por causa da ganância, da insensibilidade ou da incúria do poder
público. Concito os confrades para que sejamos os guardiões desses vetustos
prédios, sobrados e casarões solarengos, inclusive do Cemitério Velho; este
deveria ser transformado em Museu e Memorial a céu aberto. Em homenagem ao
saudoso arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho, nosso conterrâneo, peço vênia
para recitar apenas os versos iniciais de meu poema A Zona Planetária:
Anfion percorre os
sulcos
dos discos das vitrolas
e as
emoções são alinhadas
pedra a pedra.
Apolo é qualquer moço
feio
que nos vitrais Narciso
se julga.
De repente, Átropos
corta o fio da vida
que era tecido pelas
Parcas lentamente
pelos golpes de facas,
adagas ou estiletes
nas mãos de um velho Pã
embriagado.
Gildário nasceu e se criou em sua
terra natal. Porém, aos 22 anos de idade, foi estudar no Rio de Janeiro, de
onde retornou aos 29 anos, com o título
de doutor em Física e com habilidades em tecnologia aplicada. Fora ele à
procura, talvez, do pássaro azul da felicidade, assim como eu, aos 16 anos, fui
em busca da pedra azul de minha serra encantada, de minha serra encardida.
Tornou-se professor do Campus da
UFPI, em Parnaíba, que logo veio a ser, com a sua parcela de contribuição, a
Universidade Federal do Delta do Parnaíba. Por esse e por outros bons serviços
prestados ao município, Gildário recebeu o Título de Cidadão Parnaibano, título
este que tenho a honra de também haver recebido. Protagonista do setor
tecnológico no Estado do Piauí, hoje se dedica a criar tecnologias disruptivas,
que têm o objetivo de solucionar problemas, tornando a vida mais agradável.
Enquanto ele, amante da ciência e das
artes, vislumbra inefáveis belezas nas fórmulas e nas equações da Física e da
Matemática, eu, ao contrário, reconheço que elas nada me ensinaram, exceto o
terror, como explanei nestes versos:
A matemática
me enlouquece:
por isto meu pensamento
salta de mais infinito
a menos infinito
e explora as amplidões
do universo, enquanto
meus olhos vidrados
fitam a álgebra
sem vê-la.
E a minha abstração
me leva ao infinito
que meu corpo
me nega.
Meu caro Prof. Dr. Gildário, você irá
ocupar a cadeira 18 de nosso Silogeu, que tem como patrono o poeta, escritor e
historiador Reginaldo Gonçalves de Lima, pernambucano de Jaboatão dos
Guararapes, mas que se fez Campomaiorense como os que mais o sejam. Dele, em
prefácio ao seu primoroso livro Geração Campo Maior – anotações para uma
enciclopédia –, colhi o ensejo para dizer:
“Reginaldo Gonçalves de Lima veio
conhecer os largos e planos tabuleiros, pontilhados de carnaubeiras, e ficou.
Ficou para sempre encantado com a exuberância da paisagem, onde pontificam a
sinuosidade do Surubim, o recorte do debrum azul da serra e o ondular manso e
manhoso do açude. Tomou-se de amor pela terra e escreveu, talvez como
retribuição e oferenda, este Geração Campo Maior – anotações para uma
enciclopédia.
O subtítulo diz tudo,
diz mesmo demais. Realmente, o livro é quase uma enciclopédia, chega a ser de
fato uma enciclopédia pela massa de informações que contém, pela variedade de
assuntos enfocados.”
Merece essa esplêndida obra ser
reeditada pelo poder público, com urgência, porque nela estão a memória dos
principais fatos de nossa história e a síntese biográfica de ilustres
Campomaiorenses.
E será o sucessor de José Cardoso da
Silva Neto, o popular Zé Didor, o Tremendão de nossa boa e velha Jovem Guarda
local, figura acolhedora, alegre e extrovertida, paladino quixotesco da memória
artística e histórica de nosso torrão, que exerceu as atividades de escritor,
memorialista, “historiófilo” e “museófilo”, como consta em seu curriculum na
Revista Acadêmica, edição 01, ACALE, 2013, cuja obra magna, com a qual será
imortalizado, foi haver criado o seu legendário Museu, através do qual
amealhou, ao longo de décadas de esforço constante e tenaz, milhares de objetos
históricos, de obras de arte e de valiosos e importantes documentos que agora
deveriam ser preservados por algum órgão público.
Como esta solenidade está sendo
realizada nesta Casa de Vereadores, não resisto à tentação de prestar rápida e
singela homenagem ao Tenente Simplício José da Silva, posteriormente
Tenente-Coronel, que pertenceu ao antigo Senado da Câmara de Campo Maior. Foi
ele um dos maiores heróis da Guerra pela Independência do Brasil, tanto porque
combateu na Batalha do Jenipapo, quanto porque, a seguir, perseguiu Fidié, em
verdadeiros combates de guerrilha, e ainda porque, com mãos firmes e austeras,
imprimiu ordem ao caos e à anarquia que se instauraram na vila de Campo Maior,
em meio a roubos e assassinatos, após a sangrenta Batalha. Peço que aqui seja
afixado o retrato desse destemido e altivo herói, ainda que simbólico,
imaginário ou idealizado, legendado com a síntese de seu perfil, lavrado pelo
Mons. Chaves, que foi o seu grande e incondicional admirador.
Aqui, neste centro histórico de Campo
Maior, outrora, nos festejos de Santo Antônio, a bandinha do Antônio Músico
(Antônio Bona Neto) atacava com o dobrado Capitão Caçula e outros dobrados e
marchas, sob lágrimas coloridas e
encantadoras da pirotécnica; aqui, outrora, existiu a primeira igreja de Santo
Antônio do Surubim, erguida pelo Marechal de Campo Bernardo de Carvalho e
Aguiar, último Mestre de Campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão, fundador
de currais, igrejas e cidades, entre as quais a nossa amada cidade, a velha e
quase mítica Bitorocara.
Aqui, nesta bela Praça Bona Primo,
felizmente, ainda podemos ver o vetusto casarão solarengo da professora
Briolanja Oliveira, que abriga a nossa Academia, e que agora há de acolher e
agasalhar o acadêmico Gildário Dias Lima, com o aplauso caloroso de todos nós e
o afeto amigo de seus pares.
Seja bem-vindo e adentre o velho e
histórico solar, hoje casa de Ciências, Artes e Letras.
(*) Discurso proferido por José Elmar de Mélo Carvalho,
em recepção ao acadêmico Gildário Dias Lima, em solenidade da Academia
Campomaiorense de Ciências, Artes e Letras – ACALE, ocorrida no dia 28 de
outubro de 2023, no plenário da Câmara Municipal de Campo Maior.
segunda-feira, 30 de outubro de 2023
O dia em que Saci Pererê deu um pau na turma do Halloween
O dia em que Saci Pererê deu um
pau na turma do Halloween
Pádua Marques (*)
Fazia tempo que todo mundo
esperava e finalmente aconteceu ali na baixada do São Luiz Gonzaga, próximo da
casa do bispo. O encontro do temido Saci Pererê com aquele pessoal da Nova
Parnaíba, os Halloweens, todos filhos de gente de dentro da rua e metidos a
ricos. Eram uns cinco, se muito. Mas eram tudo rabo de burro. Gente que pro dê
cá essa palha vivia aos bandos insultando com gracejos as filhas alheias
mulheres, velhos, aleijados, essa gente que ia e vinha do Macacal no rumo da
Grarita e dos Tucuns
Viviam esperando uma oportunidade
pra bater no pobre morador do Macacal e que vivia de casa pra o trabalho numa
oficina mecânica na rua Vera Cruz. Saci Pererê era aleijado, mas trabalhava
muito na oficina do padrinho, seu Gervásio Coelho. O motivo da malquerença era
uma brincadeira de mau gosto de alguns rapazes filhos de famílias dito ricas no
Nova Parnaíba, ver o pobre Saci correr com uma perna só.
Saci Pererê era de paz, não mexia
com ninguém, mas tinha uma vantagem de ser um grande capoeirista. Quem ensinou
pra ele essa arte de seus antepassados ninguém até hoje soube dizer na
Parnaíba. Muito feio, andava de calção vermelho e usava com um gorro na cabeça,
na oficina era considerado um exemplo de funcionário e nos finais de semana era
o goleiro no time do Cristal no Bariri.
Tinha já uns dezessete anos,
negrinho taludo, mas tirando o aleijamento era muito querido por todos os
vizinhos no Macacal e colegas de trabalho. Morava com a mãe, dona Dica, uma
agregada dos Campos Veras, uma negra velha lavadeira de roupa, de canela fina,
rosário de contas no pescoço, que costumava de vez em quando ir até a quitanda
do velho Zacarias comprar um quarteirão de querosene pra alumiar a pequena casa
de barro de duas portas, duas três janelas e apenas um quarto.
Naquele dia da briga, do encontro
entre os Halloweens e o negro Saci Pererê o bairro Nova Parnaíba fedeu a cão
sapecado! Tudo por volta do meio-dia, hora em que o negro Saci Pererê subia na
hora do almoço pra casa. Vieram dois pela frente e três por trás os maiores,
tudo no tope de quinze anos. Fecharam Saci Pererê. O mais afoito, um moleque de
cabelos acobreados, com um pedaço de pau na mão, gritou pro aleijado correr
dentro.
Ele de onde estava não se mexeu.
Tentou abrir caminho. Um segundo fechou a passagem entre o muro da casa do
bispo Dom Felipe Conduru Pacheco até a calçada. Saci Pererê recuou e procurou
em vão uma pedra. Mas naquela altura o terceiro, um moleque franzino e de cara
ossuda lhe deu um chute nas costelas. O chute fez Saci Pererê se abaixar. Na
volta o aleijado deu um voo por cima dos dois mais próximos e já caiu
derrubando o quarto, um dos maiores, que estava ali mais pra observar.
A partir daquele instante foi
vista uma das maiores e mais extraordinárias brigas de rua perigosas já
acontecidas na cidade de Parnaíba. Saci Pererê, uma figura das mais conhecidas
do Macacal estava ali no Nova Parnaíba em desvantagem brigando com cinco rapazes.
Foi cangapé, rabo de arraia, estrelinha pra ninguém botar defeito.
Nessa altura vinha passando uma
mulher puxando uma menina e ao invés de procurar ajuda pra acabar com aquele
contenda, ficou foi olhando se tremendo toda. Era uma briga desigual, quatro
rapazes tentando bater em um pobre aleijado! Saci Pererê calculava os golpes e
ia se defendendo. Saci lutava com a fúria de um cachorro doido. Os agressores
abriam roda a foram fechando. E foi juntando gente na rua, os estudantes do
Ginásio São Luiz Gonzaga jogando areia e até aposta estava sendo feita.
Foi coisa de uma meia hora de
luta desigual. Quatro contra um! Saci estava cansado, sem seu gorro, todo
coberto de areia, mas não desistia. E foi chegando mais gente, uns tentando
apartar a briga, outros deixando, os gritos, os assobios, nomes feios, filha
dessa e filho daquele, mata esse negro aleijado, faça isso com o pobre não!
Alguém se lembrou de bater na
porta da casa de Dom Felipe Conduru Pacheco, que naquele momento ainda devia
estar chochilando depois do almoço, outro mais adiante pensou no prefeito
Acrísio Furtado ou do outro lado nos Campos na igreja de São Sebastião, de
padre Roberto Lopes. E a briga ia engrossando o movimento do Nova Parnaíba. No
meio daquele alvoroço sem tamanho, alguém já estava no caminho da casa da dona
Dica.
E aqueles rabos de burro, meninos
de boas famílias, que não queriam nada na vida, de pais metidos a políticos
importantes, muitos corretores de negócios nas grandes firmas comerciais na rua
Grande, insultando em plena luz do dia um pobre negrinho aleijado, trabalhador
de uma oficina de seu Gervásio Coelho! Que já nem se importavam com a presença
de tanta gente. Coisa de chamar a atenção de toda a Nova Parnaíba!
Saci Pererê estava cansado, sujo
de areia, quase nu, suado, tinha perdido sua hora de descanso do almoço, mas os
cinco rapazes do Nova Parnaíba, esse era filho de doutor fulano de tal, aquele
mais lá, sobrinho do professor sicrano, esse aqui era filho de dona beltrana e
assim as identidades iam aparecendo.
Os rapazes tinham levado uma
surra e tanto. Felizmente não houve sangue. Passava de uma hora da tarde, muita
gente voltando pra seus serviços no centro de Parnaíba. A briga só acabou com a
chegada de um tocador de tuba da Banda Municipal que tirou o cinturão e saiu
cobrindo todo mundo. Correu gente batendo o pé na bunda, tanto os brigões
quanto quem fazia plateia. O cinturão foi descendo nas costas, no espinhaço,
nas pernas, onde fosse pegando. O músico não queria conversa e nem de saber
quem era esse ou aquele. Todo mundo já pra suas casas! E Saci Pererê, que
tratasse de tomar vergonha e deixasse de procurar briga com filhos de
autoridades!!
*Pádua Marques, romancista,
cronista e contista. Membro efetivo da Academia Parnaibana de Letras e do
Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba.
domingo, 29 de outubro de 2023
AUTOBIOGRAFIA
| Fonte: Google |
AUTOBIOGRAFIA
Elmar Carvalho
Após seguir os mais ásperos
caminhos,
Napoleão avesso, eu próprio
me coroei
com uma coroa de cravos e
espinhos.
Subi montes, rompi charcos,
atravessei grutas sem luz,
com os ombros esmagados
ao peso de férrea cruz.
Em noites de névoas e
luares
sofri e cantei perdido nos
lupanares.
Em dias de sol escaldante e
incandescente,
fui casto Dante
e Baudelaire delirante e
indecente,
pelas tardes mornas de ressacas
e orgias.
No Olimpo a que subi em busca
dos mitos, à procura de
Zeus,
pregaram-me numa cruz onde
puseram irônica tabuleta:
“Rei dos Judeus”.
Por frígida e pálida manhã,
envolto em solidão e
neblina,
rasguei e perdi minha toga
purpurina.
Cheio de ódio e de amor,
sorvendo taças e mais taças
de bebida balsâmica e malsã,
nos bordéis de Eros, nos
templos de Pã,
e nos palácios dourados de
Mefisto,
onde sucumbo e resisto,
no meio de mentira e
desengano,
fui Satã,
fui Cristo,
fui Humano.
Te. 17.11.95 – 04:25h
quarta-feira, 25 de outubro de 2023
O ABANDONO DO JERICO SARNENTO
| Fonte: Elmar Carvalho |
Elmar Carvalho
Quando saía, à tarde, para minha
caminhada, deparei-me com um jumento à porta de minha casa. Parecia cansado,
com aspecto doentio, como se estivesse à morte; deu-me a impressão de haver
sido covardemente abandonado pelo dono, para morrer em local distante, e não
lhe dar o trabalho de se desfazer do cadáver.
Apresentava feridas no corpo. Seu
pelo era falhado, amarfanhado, sem brilho, como se tivesse sarna ou outra
doença semelhante. Era magro, como se passasse fome, e tinha as patas tortas,
em virtude, talvez, de já haver sofrido algum acidente, provavelmente de
trânsito. Roçava o pelo no poste, certamente na intenção de mitigar as coceiras
da pele sarnenta. Quando me aproximei, para fotografá-lo, me olhou, com
resignação, mas sem medo. Talvez esperasse alguma bordoada, recordando-se de
algum fato passado.
Outrora, os jumentos eram
queridos e respeitados. Eram úteis, seja para o transporte de carga, seja para
o de pessoa. Tem muita força; desproporcional para o seu porte. Por isso, eu os
comparo a um pequeno trator, com tração nas quatro patas. Hoje, numa época em
que quase toda família possui um carro ou uma motocicleta, seja de primeira ou
de quinta mão, os jericos foram “encostados”, mesmo na mais remota zona rural.
Os carroceiros preferem um burro,
que é maior, tem mais força e é mais
veloz. Muitos jegues vivem abandonados, à margem das estradas, correndo risco
de vida e pondo em risco a vida dos motoristas e motoqueiros. A respeito do
jumento, já escrevi uma crônica, da qual extraio o seguinte trecho:
“É um animal dócil e paciente.
Segundo a tradição, foi o escolhido para conduzir a Virgem Maria e o Menino
Jesus, na fuga para o Egito, evidentemente com a presença de São José, na
constituição emblemática da Sagrada Família. Provavelmente tenha sido a sua
proverbial docilidade, mansidão e humildade a razão dessa escolha e honraria.
Como a maioria desses animais
ostenta uma mancha sobre as pás dianteiras, considera o povo simples, na voz da
lenda, que essa marca é o sinal milagroso e honorífico do xixi com que lhe
ungiu o Salvador, como uma forma de homenagem e gratidão pelo serviço prestado.
Depois, encerrando apoteoticamente sua participação na Bíblia, foi o escolhido
por Cristo para conduzi-lo em sua entrada triunfal em Jerusalém”.
Quando retornei da caminhada, vi
o jerico mais animado, a provar que a vida é forte, surpreendente e dinâmica, a
pastar o renitente e insolente capim de burro, que nascera, quase por milagre,
por entre as pedras do calçamento. Depois, não mais o vi. Não sei que rumo terá
tomado. E jamais saberei que destino a vida ainda lhe reserva, além da
ingratidão daqueles a quem serviu.
(Do livro Diário Incontínuo, registro do dia 19 de junho de 2010)
domingo, 22 de outubro de 2023
MUSA MEDUSA
sexta-feira, 20 de outubro de 2023
CORREDORES, UM LAGO NA CAATINGA
César Carvalho, Zé Francisco Marques e Elmar Carvalho Foto: Antônio José
CORREDORES, UM LAGO NA CAATINGA
Elmar Carvalho
No domingo, fomos eu, meus irmãos
César e Antônio e o Zé Francisco Marques à barragem dos Corredores, distante
cinquenta quilômetros da cidade de Campo Maior. Deixamos a estrada asfaltada,
que vai para Castelo e São Miguel do Tapuio, e seguimos por uma carroçável. Em
certo ponto, encontramos um grande rebanho de gado bovino, tocado na retaguarda
por dois vaqueiros, cada qual em seu cavalo, devidamente paramentados, como nas
músicas de Luís Gonzaga, o inesquecível Rei do Baião, com seus ternos de couro,
ou perneira e gibão, além do indispensável chapéu de couro, que lhes protege
dos espinhos e galhos secos do agreste.
Fiz questão de assinalar que os
vaqueiros estavam a cavalo porque hoje não é rara a figura dos vaqueiros
motorizados, a campearem em suas barulhentas motocicletas, de buzinas
estridentes, que já não usam o bucólico e melancólico aboio, que parece tanger
e amansar as reses. Conduzi a picape lentamente, enquanto os bois se afastavam
do leito da estrada, de modo que pude passar sem nenhum problema.
As vacas seguiam
pachorrentamente, imperturbáveis, como impassíveis matronas. Nada lhes
apressava o passo nem lhes alterava a elegância do andar, quase desfile. As
corcovas dos novilhos se destacavam, a balançar de um lado para outro, ao
compasso da marcha. Nesse percurso a gente se depara com a beleza seca, árida,
agreste da caatinga, que nos faz recordar as histórias e fotografias de Lampião
e seu bando de cangaceiros.
Na paisagem plana do tabuleiro,
recoberto pelas gramíneas e capim mimoso, surgem os arbustos da mata rala e a
beleza agressiva e espinhenta dos mandacarus, xiquexiques, macambiras e
coroas-de-frade, e esparsas moitas de mufumbo, de folhagem densa, a alegrar a
aridez da paisagem, em que repontam a graça dos leques das carnaubeiras.
Algumas cabras pastavam, enquanto outras buscavam a sombra de alguma árvore
mais copada, como nos poemas de Dobal.
O lago de Corredores é um mundão
d'água, insolitamente perdido e encravado na sequidão das pedras e da caatinga.
Para não termos o trabalho de armar nossa barraca, nos dirigimos a uma palhoça
que se encontrava desocupada. Pelos cocôs espalhados, logo vimos que ali se
abrigavam caprinos, à noite. Quando nem bem nos acomodamos, logo chegou um
homem, numa motocicleta, a nos perguntar se não desejávamos alguma coisa.
Percebemos que ele queria marcar território e faturar algum dinheiro.
Encomendamos uns espetinhos, e demos como pago o nosso tributo.
Ao som de boa música, degustamos
um delicioso tira-gosto que trouxemos, a contemplar sem nenhuma pressa a beleza
do lago e dos morros que lhe dão forma e ornamento. No retorno, fotografei um
cemitério campestre, abandonado na solidão e no abandono do abandonado
semiárido. Com o êxodo rural, é muito provável que até as almas tenham se
exilado daquele campo santo do sertão. E já não entoem os miseres e excelências
nas noites mortas do ermo.
22 de junho de 2010
quarta-feira, 18 de outubro de 2023
domingo, 15 de outubro de 2023
AMOR CIGANO
| Fonte: Google |
AMOR CIGANO
A cigana jogou as cartas da
sorte
e leu afagando as linhas
tortuosas
que sulcam a palma de minha
mão.
Falou sussurrando
de ascensões e naufrágios
entrevistos nos presságios.
Prometeu um grande amor
que breve encheria meu
vazio coração.
Enfeitiçou-me e se evadiu
por ondulosas colinas
cheias de margaridas e
rosas,
eritrinas e neblinas.
E me deixou repleto o coração
apenas de urtigas e saudade
a cigana leviana que leu
e releu a palma de minha mão.
quinta-feira, 12 de outubro de 2023
BULLING E OUTRAS MAZELAS HODIERNAS
| Fonte: Google |
BULLING E OUTRAS MAZELAS
HODIERNAS
Elmar Carvalho
Fui convidado pelo professor
Alexandre Mota a proferir hoje, na Unidade Escolar ABC da Alegria, uma palestra
para os alunos e seus pais, a respeito de disciplina e do respeito que o
estudante deve ter para com seus mestres. Estavam presentes, entre outros, a
diretora, professora Rejane Helal, a presidente do Conselho Tutelar, Márcia
Rejane, o presidente do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente,
senhor Raimundo Inês, o assessor jurídico da Prefeitura, Dr. Hilton Araújo.
Obviamente, falei sobre disciplina,
respeito, hierarquia, amor, etc. Mas, sobretudo, enfatizei o fato de que se o
aluno não presta atenção às aulas, ao que o professor está explicando, quem
mais se prejudica é ele próprio, uma vez que o mestre irá receber o seu
vencimento normalmente. Falei que, até para ser gari do município, vigia de uma
praça, o interessado teria que ser aprovado em concurso público, e lhes disse
que mesmo as empresas da iniciativa privada fazem os seus testes seletivos,
inclusive com relação ao uso da informática.
Chamei-lhes a atenção para o fato
de que somente através do estudo eles poderão obter uma melhor condição de
vida. Entretanto, deixei claro que a disciplina, a orientação, os conselhos e
mormente os exemplos devem partir, em primeiro lugar, do seio da família, e
desde os primeiros anos de vida, pois quando o jovem é acostumado a não ter
limites nem freios dificilmente os aceitará após os doze anos de idade.
Contudo, deixei claro que, numa
época em que, em muitos casos, a mãe e o pai trabalham fora de casa, há que
haver também a contribuição da escola na educação dos jovens. Todavia, quando o
jovem não teve essa base educacional em casa se torna muito difícil a
contribuição dos mestres, porquanto essa criança ou adolescente já está
acostumada a não ter limites, a não ter regras de convívio.
Hoje, vê-se falar em bullying e
em professores acuados e intimidados por alunos. Talvez isso seja provocado
pela falta da presença ativa dos pais na criação, orientação e disciplinamento
dos filhos. Tenho dito e repetido que se a sociedade não está boa é porque as
famílias, em geral, não estão boas, pois o que é a sociedade senão a soma de
todas as famílias?
Provavelmente, numa época de uso
avassalador de audiovisuais, internet, celulares, etc., a escola precise
repensar seus métodos e equipamentos para melhor atrair a atenção do corpo
discente. Suponho deva ser inserida na grade curricular uma disciplina que
ensine ética, cidadania e noções ecumênicas de religião, pois todas as
religiões pregam o bem, a caridade, a generosidade e a fraternidade.
Além disso, a escola e o poder
público precisam ocupar o jovem com esporte, literatura, música, artes
plásticas, dança, teatro, gincanas culturais, etc., para tirar o jovem do ócio
nocivo, que pode levar às drogas e à prática de atos infracionais. Não sendo da
área pedagógica e esportiva, pouco sei; mas sei que algo de novo precisa ser
feito. Como não poderia deixar de ser, falei no amor, em Cristo e em Deus.
(Extraído de Diário Incontínuo, 16 de junho de 2010)
terça-feira, 10 de outubro de 2023
As três engomadeiras do Curre
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As três engomadeiras do Curre
Pádua Marques
Contista, cronista e romancista
Naquele fim de tarde de sexta-feira, já o sol quase se pondo pra os lados da Ilha Grande de Santa Isabel, a ainda menina Noca ficou parada na frente do portão da casa do advogado Felício Nogueira, esperando ser atendida. Vinha trazer as roupas lavadas e engomadas da casa de um dos homens mais ricos e ditos de fama de Parnaíba, um homem conhecido até fora do Brasil, que falava vários idiomas, conhecia terras estrangeiras e diziam alguns, que era casado com a filha de um ministro de Getúlio Vargas.
Noca bateu palmas duas vezes. Depois mais uma vez. E foi aí que a porta se abriu e lá de dentro saiu um homem muito elegante. Logo atrás vieram duas meninas, com idades entre dez e doze anos, lindas, louras. As meninas olharam pra mocinha na calçada e sem darem importância voltaram de onde vieram. A entregadora de roupa engomada ficou alta do chão com aquela visão repentina. Felício Nogueira perguntou seu nome e muito educado, quis saber como estava sua mãe, a dona Nonata.
A mocinha vinda do Curre, nas brenhas da Guarita e perto da lagoa do Bebedouro, quase derruba o tabuleiro com as roupas. Noca havia atravessado a Parnaíba inteira naquele cair de tarde. Olhou rápido aquele homem fino, bem afeiçoado e vestido com as roupas que ela e as irmãs levaram e engomaram na semana passada. Sentiu até uma grande satisfação pelo que fazia. Foi quando Felício Nogueira abriu o enorme portão e mandou que ela fosse pela calçada até a porta da cozinha.
Lá encontrou a criada, uma negra magra e sem graça, debruçada na mesa cortando uns legumes ou alguma outra coisa de comer, talvez uma torta, pra o jantar na casa de Felício Nogueira. De onde estava deu pra ouvir as duas meninas brincando em algum cômodo na parte da frente. Mas não ouviu voz de mulher. Sem muito o que dizer, Noca entregou o tabuleiro de roupas pra mulher, que na mesma hora seguiu pra dentro de um quarto em pouco depois.
Noca disse que sua mãe, Nonata, lá do Curre, mandava entregar a roupa lavada e engomada da semana. A cozinheira de doutor Felício Nogueira nem prestou atenção naquela puxada de conversa da mocinha. Foi logo tirando do bolso do vestido duas cédulas de dinheiro pra o pagamento do serviço. Noca ainda pensou pedir um copo com água, mas achou melhor não arriscar. Foi voltando por onde veio e já no portão viu a rua larga, as casas enormes com jardins bem cuidados daquela gente rica da Parnaíba.
A volta pra casa foi igual as outras em que veio entregar a roupa lavada e engomada nas casas dos ricos. A areia grossa do chão entrando pelo solado dos pés e batendo no tamanco gasto pelo uso. Noca agora pensava e recordava que esteve muito próximo, dentro mesmo, da cozinha de uma família rica, família que comia tudo do bom e do melhor todos os dias e de vez em quando até uma torta de sardinha em lata. E sua boca encheu de água de desejo de comer sardinha em lata. Ela, a mãe e as duas irmãs certamente nunca haveriam de comer sardinha em lata.
Em casa no Curre, a vida de sempre. Depois de um dia puxado com o ferro de brasa pra frente e pra trás em cima das roupas, ficar no cair da noite na porta da rua e ver de longe o carroceiro Simão, seu vizinho, chegando de um dia de trabalho na praça do coronel Jonas, e os negrinhos seus filhos correndo pra receber um agrado. Dona Cecília, sua mulher, vinha lá de dentro chamando pra que entrassem. Nas outras casas de taipa e baixas indo em direção da lagoa do Bebedouro, aqui e ali uma janela aberta deixando ver de longe uma lamparina acesa. E vindo da beira do alagado aquela zoada dos grilos incomodando a chegada da noite na Parnaíba.
A velha Nonata andava se queixando das vistas. Em chegar a noite e se punha a reclamar que não enxergava um palmo à sua frente. Era um sacrifício alcançar a rede na hora de dormir. O jeito era pedir pra Benedita ou pra Francisca que lhe levassem pra camarinha. Se bem que Benedita, a mais feia das três, naquela altura da noite havera de estar mascando fumo na porta da cozinha. Era mania dela e ninguém que se metesse. O jeito era chamar Francisca.
Francisca. Serena, alva, de pouco falar e muito menos reclamar de alguma coisa. Nasceu pelos poderes de Deus e de São Francisco. Nonata quase morre. Naquela altura da vida de Nonata o marido já havia morrido depois de ser mordido por uma cobra quando pescava numa tarde na beira da lagoa do Bebedouro. Quincas chegou a trabalhar com o seu Cortez no Igaraçu quando a Parnaíba estava com bastante movimento e corria dinheiro no Porto Salgado com as firmas de coco babaçu e cera de carnaúba.
Depois as coisas pioraram e ele foi mandado embora com uma mão na frente e outra atrás. E a agora viúva, Nonata ficou sozinha e criando as três filhas debaixo de toda sorte de dificuldades. Mas prometeu a São Francisco que, quando a filha fosse grande e ela Nonata ainda com sustança nas canelas, havera de ir ao Canindé e entrarem as duas de joelhos até o altar. Mas o tempo foi passando e as dificuldades crescendo. A viúva de Quincas do Cortez teve que trabalhar como engomadeira junto com as filhas, naquela altura já umas mocinhas.
O certo é que entre uma lavagem de roupa aqui e outra ali, Nonata foi sendo conhecida por todas as famílias do centro de Parnaíba. Lavava e engomava. E de quinze em quinze dias as filhas Benedita, Noca e Francisca vinham nos fins de tarde com os enormes tabuleiros de roupas descendo no meio das areias fofas da Guarita no rumo da casa do coronel Jonas Correia, do seu Ernani Prado, do comerciante Antônio Tomás, do doutor Mirócles Veras e outros mais, como o advogado Felício Nogueira.
Um dia já no final de setembro, quando muita gente em Parnaíba já marchava a pé ou ia de caminhão pra o Canindé, uma viagem sofrida e cheia de perigos, Francisca disse pra Nonata que era chegada a hora de ela pagar a promessa sozinha. Iria ao Canindé e na porta da igreja iria caminhar de joelhos até o altar. Havera de pagar a promessa pelas duas. A mãe já estava em fundo de rede e ela, a filha mais nova, que passou aquele tempo todo guardando uma moeda aqui e outra ali pra aquela viagem, não tinha como escapar. Se juntou a umas famílias e outras pessoas e numa manhã foram a caminho do Ceará.
Seriam dias e dias dormindo ao relento, parando aqui e mais ali na frente, comendo farofa de carne seca e alguma banana, bebendo água guardada em quando de passagem por alguma povoação. Mas a sorte de Francisca estava traçada. Pelo caminho os romeiros da Parnaíba iam se juntando a outros e aquela multidão ia seguindo. Mas entre aquela gente havia uma mulher que vendo Francisca nova e alva, achou que a moça era mulher da vida. E numa noite enquanto todos descansavam, a mulher possuída por um ciúme sem sentido, correu a mão numa faca e golpeou Francisca várias vezes. Dias depois toda a Parnaíba ficou sabendo que uma das três filhas da engomadeira Nonata, moradora do Curre, havia sido assassinada no caminho de Canindé.
domingo, 8 de outubro de 2023
FLAGRANTES
quinta-feira, 5 de outubro de 2023
QUASE QUASÍMODO
| Yashin, eleito o melhor goleiro do mundo |
QUASE QUASÍMODO
Elmar Carvalho
Acabei de assistir ao jogo da
Seleção Brasileira contra a da Coreia do Norte. Jogo morno, sem lances
emocionantes e sem nenhuma jogada excepcional. O Brasil venceu pelo magro
placar de 2 a 1, com gols de Maicon e Elano. O grande goleiro Júlio César,
atualmente considerado o melhor do mundo, que vinha há várias partidas sem ser
vazado, praticamente não teve trabalho. Quase que o seu trabalho consistiu
apenas em tentar impedir o gol que sofreu.
Terminei por me lembrar dos meus
tempos de golquíper, sobretudo dos tempos em fui jogar algumas partidas no
campo do Rabo da Gata, que ficava perto do pontilhão da estrada de ferro, no
bairro que depois passou a se chamar Paulo VI. Os filhos do falecido Luís
Pinto, dentista prático e funcionário dos Correios, organizavam um time com o
pessoal das imediações da chamada “rua da pista”, no trecho próximo de onde
moram o senhor Brito e o doutor Zé Laurindo, e acertavam os jogos com o time da
região do outro lado do açude, como se dizia.
Numa dessas vezes, o Otaviano
insistiu para que eu não fosse, no intuito de que eu atuasse no campinho do
Leopoldo Pacheco, como de costume. Mas eu me sentia honrado com a confiança que
o Luís Pinto Filho, o seu irmão Deus Luís, que, brincando, chamava de diabo
Luís, e os seus companheiros depositavam em mim, como goleiro, e aceitei o
convite; até porque eu já tivera algumas atuações muito boas no campo do Rabo
da Gata, a fazer umas voadas acrobáticas e cinematográficas.
No auge da empolgação de meus
dezessete anos, quando eu vi o atacante Garrafinha se aproximar com a bola
dominada para me fuzilar com um “tirambaço”, já que ele era habilidoso, não
vacilei e corri velozmente para me arremessar a seus pés e bloquear o chute.
Esse atleta, ou por certa maldade ou por imprudência ou porque já não houvesse
mais tempo de se desviar, chutou fortemente e me atingiu o rosto em cheio.
Creio que cheguei a ter um leve
desmaio. Vi, enevoados, os jogadores curvados sobre mim, preocupados com a
gravidade do acidente ou incidente pebolístico. Foi a mais grave contusão de
minha vida. Isso me tornou mais prudente e mais precavido, para não mais me
arriscar desnecessariamente.
No dia seguinte, quando o
Otaviano foi me chamar para o jogo no Leopoldo Pacheco, tomou um grande susto
quando abri a janela de meu quarto, e ele viu o meu olho direito com um coágulo
sanguíneo e a área próxima inchada e com um grande hematoma. Dizia ele que eu
parecia o Quasímodo, ou seja, o Corcunda de Notre Dame, ou outro protagonista
de um filme de terror.
15 de junho de 2010
domingo, 1 de outubro de 2023
AMOR
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AMOR
Elmar Carvalho
Áspero e macio
este amor feito
só de cio.
Amor que de tão puro
não tinha pudor
que de tão forte
sem motivo se partiu.
Amor que de tanta vida
era também morte
que de tanto sangrar
era faca que se fez ferida.
Amor que renascido
se consumia em sua via
de agonia.
Te. 04.12.89
