domingo, 15 de dezembro de 2024

UM LANCE DE BÚZIOS

Fonte: Google

 

UM LANCE DE BÚZIOS


Elmar Carvalho

 

O grande búzio

soltava seu super sopro

feito de sonho e ilusão

e soprava suas conchas multicores

seus búzios bizarros e bizantinos

que saíam se iam e se esvaíam

transformados em flores

borboletas e besouros

que entravam em outra dimensão

pelo portal – pórtico triunfal –

de outro grande búzio

e voltavam a ser conchas e búzios

do além-mar da morte.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

QUATRO MINICONTOS

 



QUATRO MINICONTOS

Elmar Carvalho

Os quatro contos abaixo foram publicados na Revista da Academia, ano XXII, 3ª edição, dezembro de 2024, publicada pela Academia de Letras da Magistratura Piauiense, presidida pelo Des. Brandão de Carvalho. A revista foi organizada e coordenada pelo cantor, comediante e apresentador de TV Octavio César, assessor da presidência da ALMAPI.

                MARECHAL


            Vi-o muitas vezes a percorrer as ruas e praças de Évora. Metido em velhas fardas que lhe davam, algumas vezes esfarrapadas e amarrotadas, não andava, marchava. Com um velho quepe na cabeça, parecia participar de um desfile na caserna. Certa feita, em meados de 1980, entrou em minha repartição. Os colegas mais brincalhões foram logo tirando lorotas com ele, chamando-o de soldado, que para ele tinha uma conotação pejorativa e de menoscabo. Vendo que eu não sorria, veio até onde eu estava e disse baixinho: “Eles não sabem quem eu sou... Sou alta autoridade do planalto”. Pedi-lhe, então, que lhes perdoasse, tendo ele assentido. Perdi-o de vista; achei que tivesse ido para outra cidade. Muitos anos depois soube que passara a morar no abrigo para idosos. Fui visitá-lo. Recebi a informação de que fugira, dois dias antes. Como certos animais que voltam para morrer no lugar em que nasceram, o velho Marechal fora morrer em seu pago, no meio dos seus.


            Roberto Carlos 



            Seu nome era Raimundo, mas desde que enlouquecera, dizem que por causa de uma paixão não correspondida, adotara o “nome artístico” de Roberto Carlos. Um dia, em minha adolescência, vi-o nas calçadas altas da Zona Planetária, bem na esquina de Júpiter, o principal “planeta”. Fazia mímicas para ninguém ou talvez para o vento ou para espíritos que só ele via. Simulava segurar um microfone; acenava para a turma do gargarejo e para “ouvintes” do fundo da inexistente plateia. Fazia meneios, trejeitos e requebros dignos de um pop star.

Julguei fosse mais feliz do que eu, imerso na ilusão de sua loucura. Muitos anos depois perguntei ao acadêmico e psiquiatra Humberto Guimarães se o Raimundo, o nosso popular Roberto Carlos, não seria mais feliz do que qualquer um de nós, porquanto ele viveria na melhor realidade que imaginara para si. Humberto disse-me que não, pois quando um louco melhora de sua doença e volta a piorar, e sente que vai perder a consciência de si mesmo, sofre muito. Em minhas palavras e interpretação: é como se ele sentisse o aniquilamento de seu mais profundo eu; é como se fosse a morte da consciência de seu verdadeiro eu.


Tobago 



A primeira vez que o vi, ele se encontrava no Bar Carnaúba. Fazia gestos e esgares. Acenava e fazia reverências, como se estivesse cumprimentando alguma pessoa no recinto. Não o conhecia e jamais ouvira falar dele. De repente, olhou em minha direção, e acenou. Respondi-lhe, mas notei que ele não me via. Com efeito, seus olhos vagos fitavam o vazio, talvez o infinito de algum ponto imaginário. Informei-me a seu respeito, e soube que, de segunda a sexta-feira, era um funcionário exemplar do Banco do Brasil, rigorosamente pontual e que nunca faltava, sempre monossilábico, introvertido, ensimesmado. Mas no final de semana se transformava naquele excêntrico e sociável boêmio, a cumprimentar espíritos ou, talvez, os fantasmas de si mesmo. Ou talvez fosse apenas um esquizofrênico dos finais de semana, a evadir-se da rotina e do tédio.


Paru



Quando o ricaço Roland Jacob se deslocava para a capital ou de lá retornava, estacionava seu Land Rover na frente de sua filial da velha urbe. Paru, então, doido manso, ia limpar o carro. Quando indagado a respeito, invariável e laconicamente respondia: "Estou lavando meu carro." Tinha o sonho de ser o prefeito da cidade. A principal meta de sua plataforma eleitoral consistia em levar o riacho Pintadas para Parnaíba e em recompensa trazer o "mar da Parnaíba", como ele dizia com ênfase, a abarcar o mundo com os braços bem abertos. Sem se despedir de ninguém, desapareceu da cidade, como por encanto. Filho da estrada e do vento, nunca se soube de onde vi/era, nunca se soube para onde foi. Ou talvez tenha ficado - encantado. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Moisés Reis sobre Oeiras em Mosaicos

 


Sobre o documentário acima e a sua projeção em Oeiras, em evento em homenagem ao amigo e escritor Ferrer Freitas, recebi o seguinte comentário do estimado amigo e confrade Dr. Moisés Reis:

"Caríssimo confrade Elmar, boa noite! 

Através da Valdira, esposa do meu querido amigo e conterrâneo e parente/irmão Ferrer Freitas, tomei conhecimento da homenagem que ele recebeu através do seu bem elaborado documentário “Oeiras em Mosaicos”. Lamento muito não ter tomado conhecimento, a tempo e hora, da realização do evento cultural, posto que, certamente, teria acompanhado o prezado confrade à minha terra.  Parabenizo-o pelo documentário, sem dúvida, uma homenagem à invicta e vetusta cidade e aos conterrâneos ali citados, entre os quais, por bondade sua, fui lembrado. De fato, se o meu irmão Ferrer, com quem convivo há mais de 50 anos, (agora alcançado por deterioração cognitiva da memória), é a cara de Oeiras, pelo muito que cantou  e exaltou a velha urbe, Vc, Elmar, oeirense por legitima e formal  adoção, também já figura como oeirense de escol, pelo que já fez, no campo cultural, a bem da terra mafrensina."

Em outra postagem, ele acrescentou:

"...Assisti ao esmerado documentário em que realçou personagens oeirenses. Vi o destaque à minha pessoa.  Obrigado! Mais uma vez manifesto-lhe minha admiração e apreço por vc, que tem feito muito pela terra oeirense. Grande abraço"

Não preciso dizer o quanto fiquei grato pelas belas e boníssimas palavras de Moisés Reis, que já exerceu elevados cargos no Piauí, entre os quais o de secretário estadual da Fazenda e o de deputado estadual.

domingo, 8 de dezembro de 2024

A ERO MOÇA

Fonte: Google


A  ERO  MOÇA


Elmar Carvalho

 

A aeromoça

abre os braços

e mostra as saídas

de emergência ...

 

E eu a sonhar

que ela abrisse

as pernas e mostrasse

as entradas de quintessência. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

ENCONTRO DOS RIOS


 

ENCONTRO DOS RIOS


Elmar Carvalho

 

Desejando comer uma piaba frita, fui ao Encontro dos Rios, no local onde o Poti, vindo das ribas do Ceará, depois de passar pelo cânion de Castelo, vai afogar suas águas nas águas do Parnaíba, rebento da longínqua Chapada das Mangabeiras, na região de Santa Filomena. Fui para o restaurante flutuante. Procurei ficar na lateral do recinto, para melhor contemplar as águas e a paisagem.

 

Dali, eu via, na ribanceira da outra margem do Poti, um orgulhoso e solitário buritizeiro acenar suas palmas no alto e para o alto, tendo como pano de fundo a toalha azul do céu. Perto dele, uma mangueira, como rotunda matrona vegetal, espargia sua sombra acolhedora. Numa ilhota, estreita e comprida, os urubus contrastavam o seu negrume solene com o branco absoluto das garças.

 

Contudo, não se misturavam; cada espécime ficava em seu reduto, porém convivendo de forma pacífica, cada qual senhor de seu território. Uma gaivota passou a planar, livre, soberana do espaço, sem nada desejar, sem nada invejar. Tinha o bico, arpão certeiro para fisgar os peixes de que precisasse, e tinha as asas e o espaço para voar e talvez sonhar.

 

Um pescador passou placidamente numa canoa, a conduzir sua bicicleta; ao aportar, já teria à disposição seu outro meio de transporte. Envergava uma camisa do glorioso Flamengo. Senti certa inveja do canoeiro. Talvez de sua canoa ele me invejasse, a degustar minha piaba entre lentos goles de cerveja.

 

Lembrei um poema de Fernando Pessoa, em que o bardo dizia que, ao seguir para Sintra, no seu automóvel Chevrolet, sentiu inveja de um rurícola em sua casinha de pau a pique, em sua vida simples e bucólica; mas que o campônio, da janela, talvez também lhe invejasse o fato de dirigir aquele veículo que tomara de empréstimo. Tudo pelo simples motivo de um não ser o outro.

 

Como já questionou alguém, a outra margem do rio sempre nos parece a mais bela. Quando chegamos ao outro lado, a margem em que estávamos passa a ser a que mais nos encanta. É a eterna inquietação do homem, o desejo de possuir o que não possui, e de não valorizar o que é seu. Disso advém a insatisfação, os desejos espúrios e a ganância.

 

Contam que célebre figura histórica admoestou seu desafeto de que este era muito mais rico do que ele, mas ao mesmo tempo muito mais pobre, muito mais miserável; porque toda a riqueza que o outro tinha não lhe era o bastante, ao passo que ele nada desejava, nada queria, e por isso mesmo era muito mais rico, conquanto tivesse muito menos cabedal.

 

No Encontro dos Rios ainda rascunhei estes versos, que jamais integrarão um poema: “o encontro das águas é um ponto de encontro, mas nesse ponto, muitas vezes, as pessoas se desencontram”. E seguem sozinhas, por estradas diferentes, e não juntas, como as águas do Poti e do Velho Monge. Uma chalana singrava as águas dos rios, no deleite da paisagem, talvez a promover encontros e desencontros, ocasos e acasos.

29 de setembro de 2010

domingo, 1 de dezembro de 2024

POEMA DA MULHER AMADA

 

Imagem meramente ilustrativa   Fonte: Google

POEMA DA MULHER AMADA


Elmar Carvalho

 

Amada mulher fatal

o teu amor embora servido

em pequeninas doses é letal

mas eu o tomo lentamente

como um néctar de veneno

em longos e lentos goles (sereno)

como ópio em lenta mente

 

Mulher amada o teu amor

conquistador e guerreiro me toma de assalto

e nem me deixa a oportunidade

de esboçar o meu espanto

e ensaiar o meu sobressalto

de acrobata perdido em pleno salto

                                                     mortal

mas que antes de um desfecho trágico

como que por milagre se salva

entre magia sortilégio e quebranto

pelo gesto carismático de um mágico

 

Amada mulher fatal

o teu amor devastador

não me deu a chance de optar

entre te querer ou não querer

                Teresina, 07.12.83 – 18:00h

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Mistérios da vida, do tempo e do espaço


 

Mistérios da vida, do tempo e do espaço

 

Elmar Carvalho

 

O acadêmico Jônathas Barros Nunes postou no grupo de WhatsApp  da APL a seguinte fotografia de uma galáxia,

 


 sobre a qual fez o seguinte comentário:

“Colegas, é simplesmente alucinante!

ESTA GALÁXIA  IC1101 É UMA DAS MAIORES JÁ OBSERVADAS ATÉ HOJE, NO UNIVERSO!

 

Os Astrônomos estimam que seu diâmetro seja de milhões de anos-luz, o que faz com que NOSSA VIA LÁCTEA, comparada com ela, seja tão minúscula.

Por outro lado, a IC 1101 está localizada a mais de um bilhão de anos-luz da Terra e contém cerca de 100 trilhões de estrelas.

Tenho por vezes, meditado!  Acho que há um certo exagero quando CARL SAGAN afirma que o ser humano é apenas e tão somente um grão de poeira cósmica atravessado por um raio de luz. Na verdade, acho que não chega a ser nem isso!”

Ante seu comentário, postei o seguinte:

Comandante,

Nessa área, quando a gente pensa que já viu quase tudo,  descobre que ainda não viu quase nada.

Ele, então, retrucou:

“Noite de preamar! Bom dia, Comandante Elmar!

Se non é vero, é Bene trovato!”

Fiz, então, uma série de indagações:

E aí eu me pergunto: como um negócio tão descomunalmente grande poderia sair do nada?

E como o nada poderia criar  algo tão complexo como um ser vivo?

Sequer conseguimos definir ou explicar de forma precisa o que seja a vida.

Essa galáxia é estonteante em sua grandeza.

Estou me deleitando agora com a Enciclopédia Britânica para curiosos, que fala dessas coisas de forma didática.


O nosso corretor automático é surpreendente; quando escrevi deleitando, ele (me) corrigiu para deletando. E aí, diante dessa gigantesca galáxia, eu me senti um nadinha de nada. Kkkkkkk.

O Comandante Jônathas contra-atacou:

“Cmte Elmar, suas indagações fazem sentido.

Acredito que essas mesmas indagações povoaram a mente de Einstein e de Carl Sagan!

Como consequência, o primeiro acabou oferecendo ao mundo a mais bela de todas as teorias físicas modernas: a Teoria da Relatividade Restrita, aos 27 anos de idade, e a Teoria da Relatividade Geral, já com 37 anos. O segundo, Carl Sagan, soube explicar de forma didática algumas das questões mais intrigantes da Ciência, e graças a ele existe hoje um aparelho em funcionamento permanente, noite e dia, vasculhando a possível chegada de algum sinal de vida inteligente no espaço galático.”

Não sendo mais jovem, mas ainda sendo ousado, revidei:

Verdade. E para relaxar, segue um poema de minha autoria, tangenciando essa temática:


EM TRANSE


Superando a relatividade

do tempo e do espaço,

quero não estar ao mesmo tempo

no tempo e no espaço.

Indo além

da barreira do tempo e do espaço,

eu galguei o infinito

ao ficar infinitamente

pequeno.

Projetando-me

além do tempo e do espaço,

eu vi o caos

do nada.

Perdido no

tempo parado

e no espaço desfeito,

vi sangues azuis,

cobras multicores,

lagartas de fogo

e outras alucinações

girando vertiginosamente

em apocalíptica

coreografia.

E eu para sempre

fiquei perdido no

tempo e no espaço

perdidos em vão.

            Pba. 22.09.77

Após quase três horas, em que Jônathas Nunes deve ter entrado em hibernação e altas ruminações mentais, ele arrematou nosso diálogo com chave de ouro, graças à sua grande inteligência e elevados conhecimentos científicos, em que analisou meu poema à luz da física, da metafísica e de sua criativa especulação interpretativa:

“Comandante Elmar,

Bravura de poema!     E como você relata, elaborado em estado de transe!  Vale dizer, com os circuitos neurais, para além do espaço-tempo!

Nessa situação vivida por você na elaboração desse poema, EM ESTADO DE TRANSE, quero crer se tornam aplicáveis algumas das conclusões da Teoria da Relatividade Geral, de que qualquer fragmento de matéria ou energia(massa de repouso zero), viajando a velocidade da luz, 300.000 km/s, o tempo para de passar. Em transe, a sensação é a mesma:   o amigo ter a sensação de que “galgou o  infinito” é a mesma de que o infinito se tornou, durante o transe,  infinitamente pequeno para ele. Uma primeira consequência deste fenômeno incrível é que desde o momento em que um fóton(massa de repouso zero) é produzido até o momento em que é aniquilado, nem sequer uma fração de segundo passa por ele. Mesmo que o fóton seja gerado numa estrela muito distante e viaje através do cosmos talvez por bilhões de anos, pois o tempo para ele, não corre, não passa. Do ponto de vista dele, tal como para uma pessoa no ESTADO DE TRANSE, o universo parece congelado para sempre. O bom dessa história toda é que o fóton nasce e morre sem se dar conta da travessia! Já o fragmento de matéria complexa sai dele vivo, embora sem entender o que fez lá dentro.”    

domingo, 24 de novembro de 2024

ALGUNS HAICAIS


 

ALGUNS HAICAIS


Elmar Carvalho

 

 SIMBIOSE AMOROSA                            

 Eu te amo                                                    

para que me ames                                    

e eu te ame.                                                

 

 ASCENÇÃO                                               

 A chuva caía                                               

e em cada pingo dizia:                              

– Saiba cair.                                                

 

 TROVÃO                                                    

 Nuvens novas                                            

brincando de trocar                                    

tiros de foguete e rojão.                            

 

 AMOR

 Arte de possuir

na mesma medida

em que se é possuído.

 

 CHUVA

 Bênção dos céus

debulhada em bagos

de água.

  

 RELÂMPAGO

 Nuvens novas

a brincar com

fogos de artifício.

sábado, 23 de novembro de 2024

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

NAQUELA MESA


 

NAQUELA MESA


Elmar Carvalho

 

Contou-me Neto Leal, outro dia, que embora seu pai não bebesse, nunca lhe recriminou as libações. Ao contrário, quando estava bebendo, seu velho se sentava a sua mesa, para conversar e lhe fazer companhia. Chegava mesmo a lhe trazer tira-gosto. Sem dúvida, amava o filho e procurava lhe ser útil, agradável e gentil. Certamente, o rebento fez por merecer essas dádivas e considerações paternas.

 

Anos depois, creio que já na maturidade, Leal estava num barzinho, curtindo umas músicas de seresta, quando o trovador cantou a música elegíaca Naquela mesa, de Sérgio Bittencourt, que se celebrizou como jurado do programa de Flávio Cavalcante, por muitos proclamado como o Rei da Televisão. Sérgio imortalizou-se com essa música, sobretudo através do gogó de ouro de Nelson Gonçalves, na qual homenageou seu pai, Jacob do Bandolim, notável virtuose desse instrumento musical, de acordes quase celestiais.

 

Ao ouvir essa melodia, os olhos de Neto Leal marejaram, e ele se retirou do recinto. Seu pai falecera fazia poucos meses. O seresteiro, ao perceber a “mancada”, lhe foi pedir desculpa por ter cantado tão sentida endecha, como diziam as belas letras das músicas de outrora, verdadeiros poemas, de rico conteúdo e de versos rítmicos e elegantes, que se harmonizavam com as bem elaboradas melodias da Velha Guarda.

 

Esse depoimento, me fez lembrar um episódio de que foi protagonista meu amigo Otaviano Furtado do Vale. Acredito que o fato se passou aproximadamente em 1973 ou 74, pois eu devia ter 17 ou 18 anos. Seu pai, o senhor João Capucho, também havia falecido fazia poucos meses. Havíamos tomado umas talagadas de serrana, para esquentar as turbinas, e seguíamos em direção à Praça Bona Primo, à cata de alguma lebre, como dizia célebre colunista social de então.

 

De repente, o velho jovem Otaviano começou a cantar essa música de evocação saudosista ao pai falecido. Nunca esqueci essa cena simples, mas comovente em sua singeleza. Talvez seja uma das maiores homenagens que um adolescente poderia prestar a seu pai. Não foi apenas uma cena patética, sem nenhuma conotação pejorativa a essa palavra, porque sempre que ele vem de visita ao Piauí, posto que mora em Brasília há várias décadas, nunca deixou de rever o jazigo de seu pai, no cemitério São João de Campo Maior.

 

Essa homenagem me faz recordar um belo poema do bardo Manuel Bandeira, em que ele pede ao leitor que fosse à cova de seu pai e rezasse, não pelo pai, mas pelo filho, pois este teria mais precisão. E arremata o poema se declarando “morto ali”. 

28 de setembro de 2010

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Sobre uma obra que já nasce eterna!



Sobre uma obra que já nasce eterna!


Claucio Ciarlini (*)


       Algumas vezes já afirmei isso, mas faço questão de neste espaço repetir: as melhores obras literárias são aquelas que, além de trazerem um rico enredo, ainda conseguem nos transportar para as nossas próprias lembranças. São livros deste naipe, que possuem a força de não só tocar nossas mentes, nos deixando mais sábios, como também alcançar os nossos corações. E isso é uma marca presente na maioria das obras do escritor (e ser humano) Altevir Esteves. Com esta mesma confiança, digo que as próximas páginas, premiado leitor, consistem no auge de tudo que Altevir vem produzindo durante os anos, ao menos no quesito já mencionado, ou seja, o de conseguir atingir nosso intelecto, mas também mergulhar na nossa alma, as nossas sensações. 

“Escapei Fedendo” é um título um tanto cômico, e o livro também o é em alguns momentos, assim como outros lançamentos do autor, sempre trazendo pitadas preciosas de humor. Porém não se engane, consiste apenas em recurso para que a leitura se torne mais prazerosa. O mesmo digo da ação, das aventuras e do suspense contidos nestas linhas muito inspiradas. Artifícios de um experiente homem das letras que sempre consegue nos prender e nos cativar a cada produção. E nesta, em especial e na minha humilde opção, foi a que mais obteve sucesso. Porém, a maior força desta obra, certamente está na parte dramática, nos instantes em que somos pegos de surpresa, por momentos pra lá de emocionantes, lições de vida forte demais para os nossos sentidos não se comoveram durante o processo, fazendo com que as narrativas se tornem eternas, assim como inesquecíveis são as histórias dos grandes clássicos, de Assis Brasil, Fontes Ibiapina, Elmar Carvalho e outros grandes.

Este livro nasce assim, independente da repercussão que ele irá ter, já nasce eterno. Bem idealizado, escrito e organizado. Com um diferencial importante, de que praticamente não há momentos monótonos ou desnecessários. Tudo é muito bem encaixado, nos momentos precisos, fazendo com que nossa atenção seja a todo o tempo mantida. Isso é ṕara poucos. E assim é Altevir Esteves, alguém que sempre consegue em seus livros, tanto nos prender, como nos fazer refletir, emocionar. Dizer mais do que isso, será estragar a experiência, como dizem hoje em dia, seria “dar spoiler”, de uma das mais incríveis obras que já tive contato, e olha que já andei lendo muita coisa nesta vida (além de também ter escapado de poucas e boas).


(*) Escritor, editor e jornalista cultural. Membro da APAL.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

O CANAL DE SÃO JOSÉ EM PARNAÍBA

 

Fonte: Google

O CANAL DE SÃO JOSÉ EM PARNAÍBA

 

Vicente de Paula Araújo Silva

 

      Desde o ciclo econômico do Couro na Villa de São João da Parnaíba, as embarcações de maior porte não tinham acesso ao Sítio dos Barcos, devido a barra do Rio Igaraçu em Amarração, ser muito rasa, como é ainda. A partir dessa problemática, já no século XX, quando foi incrementado o ciclo de exportações de  produtos agrícolas como o algodão, a cera de carnaúba, babaçu, borracha da Maniçoba e outros produtos agrícolas, bem como, a importação de bens de consumo domésticos, que eram negociados ao longo do Rio Parnaíba, os empresários da cidade de Parnaíba, resolveram construir um canal de acesso do Rio Parnaíba ao Rio Igaraçu, evitando o trecho existente no braço do Parnaíba, que passa pela Lagoa do Bebedouro e chega até as proximidades do Riacho Molha Bunda no atual bairro  São José. Visava este projeto, encurtar a distância entre Tutoia e Parnaíba  facilitar à veiculação de embarcações ao Ancoradouro de Tutoia e região do Alto Parnaíba, melhorando assim os seus negócios comerciais no país e exterior, através do porto fluvial de Parnaíba, que na época já era conhecido como Porto Salgado. Sobre o assunto, o Almanack da Parnahyba, edição de 1925, mostra,  em artigo publicado, o seguinte trecho: “ O Porto de Amarração, o Cáes de Parnahyba, o Canal de São José, a navegação fluvial, o transporte por Tutoya, e tantos outros importantes serviços públicos, que homens superiores , como o espírito trabalhador e dedicado de Joaquim Pires, conseguiram iniciar, reduziram-se a essa formidável fonte de afilhadagens e patotas, por onde se escoam, sem proveito algum, centenas de contos dos cofres públicos!”

     Mesmo com as mazelas mencionadas, a abertura do canal foi dada como concluída pelo DNPVN (Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis) na década de 1940, e já existia em 1953, conforme registra o  documento emitido nesse ano pelo Cartório do 1º Ofício da Comarca de Parnaíba - Auto de Arrolamento e Partilha dos Bens deixados pela falecida Raimunda Moreira Cornélio -  assim descrito: “HAVERÁ, para este pagamento, UMA PROPRIEDADE RURAL, denominada Taboleiro, situada na Ilha Grande de Santa Isabel, deste município, na parte agora também conhecida por Ilha do Taboleiro, em virtude de estar separada da dita Ilha Grande por um, naquele tempo, pequeno igarapé, só de inverno e atualmente, um canal trabalhado pelo govêrno e denominado Canal de São José, por onde está se está fazendo a navegação fluvial, propriedade que se limita: - pelo lado Sul,  com um terreno cercado  de Booth & Co. Ltd.; pelo lado Norte com o terreno de Silvestre Moreira Lima; pelo lado Leste, com o rio Igaraçu, e finalmente, pelo lado Oeste, com o referido Canal de São José,...”

     Após a abertura do Canal de São José, a chamada Ilha Grande de João Gomes do Rego “Barra”, foi dividida em duas partes, as quais, atualmente têm as denominações de Ilha do Tabuleiro e Ilha Grande de Santa Isabel, sendo esta última composta por áreas territoriais nos municípios de Parnaíba e Ilha Grande do Piauí.

     É importante salientar que depois da abertura do Canal de São José, por ocasião da celebração do centenário da Parnaíba como cidade, em 14 de agosto de 1944, três demandas econômica eram notáveis para o desenvolvimento do Piauí :  Construção do Porto do Piauí, Continuação do leito da ferrovia da Estrada de Ferro Central do Piauí até Teresina, e a plenitude da navegabilidade do Rio Parnaíba. Hoje, após 80 anos, outras demandas são emergentes, salientando-se o aproveitamento e realinhamento do atual leito da Estrada de Ferro Central do Piauí, até a estrutura portuária em Luís Correia, para consolidação da Zona de Exportação do Piauí.

      O mapa a seguir datado de 1826, mostra como era a situação da Ilha Grande de Santa Isabel, na formatação física do Delta do Rio Parnaíba, antes da abertura do Canal de São José.

 

Fonte: Google

domingo, 10 de novembro de 2024

NO REINO DO SURREAL

Fonte das imagens: Google

 

NO REINO DO SURREAL


Elmar Carvalho



    

           I – FUTEBOL

 

último rei

                        dec/apitado

fiz o gol

                                    da vitória

com minha própria

                                    cabeça

nas traves da guilhotina

(e o goleiro era o carr’asco)



 

           II – BASQUETEBOL

 

tomaram-me

            tudo inclusive

            o óbolo inútil

            o bolo indigesto

            a bola murcha

            a bala de festim

            a balada calada

                              alada

            mas sem voo

mas ainda me sobrou

            cabeça para arrancá-la

            e enfiá-la

            na cesta



 

           III – VOLEIBOL

 

    dei um saque

jornada nas estrelas

     em minha

                                     cabeça

de antemão coroada

            com o louro/ouro

                da vitória

minha cabeça descreveu

            uma parábola

                            bola

                       sangrando

                             bola

                                     singrando

o espaço como um

                                                    cometa

      de cauda sangrenta

(depois a fiz troféu da vitória)

sábado, 9 de novembro de 2024

O SERESTEIRO

Fonte das ilustrações: Google



O SERESTEIRO

Joames 
(Joaquim Mendes Sobrinho)


Dizem que sou perdulário,
Vagabundo e aventureiro, 
Não ligo para o trabalho 
Nem dou valor ao dinheiro, 
Mas eu sou é repentista,
Cantador e seresteiro.

Só tenho por companheiro
Seguindo minhas pegadas
O violão que dedilho
As cordas bem afinadas
Fazendo as minhas serestas
Ao luar das madrugadas.

As ruas abandonadas
Não me oferecem perigo,
A solidão me acompanha,
O vento brinca comigo,
Demoro quando desejo,
Quando não desejo eu sigo.

Vivendo como mendigo
Aos olhos da raça humana,
Tem dia que como um pão,
Outro dia uma banana,
Mas quem me julga infeliz
Redondamente se engana.

Assim entra e sai semana
Sem ter preocupação, 
Meu lar de noite é a rua,
A minha cama é o chão 
De onde eu vejo as estrelas
Cintilando na amplidão. 

Dentro do meu coração 
Não existe devaneio,
Se a barriga está vazia
O meu crânio é sempre cheio
E a minha maior virtude
É não querer nada alheio.

De dia faço recreio
Na sombra dos arvoredos
Sentindo as cordas sonoras
Brincarem com os meus dedos
E à noite faço orações
Contando a Deus meus segredos.

A brisa me conta enredos 
Das mais bonitas histórias, 
Faço poemas pra lua
Olhando as estrelas flores
Gravando os dramas da vida
No pen-drive das memórias.

Eu não corro atrás de glórias
Com Aquiles e Jasão,
Não desejo ser Homero,
Alexandre ou Salomão,
Porque sei que  amanhã 
Serei pó como eles são.

Tocando em meu violão 
Pelas ruas da cidade,
Satisfeito vou cantando
As canções da liberdade 
Sem pensar em desventuras
Nem dar chance pra saudade.

Faço o que tenho vontade,
Porque só desejo o bem,
Sei que a natureza dá 
E às vezes tira também,
Por isso tendo em excesso
Vou doando a quem não tem.

Não discrimino a ninguém,
Nada me fere ou me agita,
Vou vivendo a minha vida
Sem saber o que é desdita,
Buscando a quem me procura
E evitando a quem me evita.

Tenho a viola bonita
Pra viver tocando em paz,
As ruas que me acolhem,
O rocio que a noite traz,
Pra quem não deseja nada
Já é ter coisas de mais.

Nos meus repentes finais
Convido meus companheiros
Poetas e repentistas,
Cantadores violeiros,
Afinem suas violas
E vamos ser seresteiros!