domingo, 8 de maio de 2022

AUTO-APRESENTAÇÃO

Fonte: Google

 

AUTO-APRESENTAÇÃO


Elmar Carvalho

 

eis como sou

            neste instante único

            (após o qual já

            serei um outro):

 

um homem que rema

            no seco contra

            a corrente das águas

 

um homem que usa

            a gravata como

            se fora um baraço

            nas horas de opressão

 

um homem que escreve

            torto por

            linhas certas

 

um homem que sobe

            e teima contra

            a lei da gravidade

 

            eu sou aquele

que aprendeu

a pecar para

ter a humildade

de não ter uma

virtude

 

            eu sou aquele

que jogou roleta

russa com o tambor

cheio de balas e

apostou contra a

sorte

           

           eu sou aquele

            que lutou para

            não ser

sexta-feira, 6 de maio de 2022

UM PESCADOR E SEUS AMORES

Fonte: Google

 

UM PESCADOR E SEUS AMORES


Elmar Carvalho


No sábado passado, tivemos uma bela festa cultural na APL, em comemoração ao Dia das Mulheres. O presidente Reginaldo Miranda passou o comando da solenidade à acadêmica Nerina Castelo Branco, decana da entidade, que proferiu belas e emocionantes palavras em memória de três mulheres, que foram ligadas à cultura, à educação e à Academia.

Foram elas: Lourdinha Brandão, professora, que muito se empenhou na construção do auditório da entidade, na gestão de seu marido, o deputado estadual e professor Wilson Andrade Brandão, cuja família estava representada pelo filho da homenageada, o também deputado Wilson Nunes Brandão; Maria Helena, esposa do acadêmico Jônathas Nunes, cuja beleza espiritual e física, especialmente de seus olhos azuis, foi reconhecida por Nerina; e Magnólia Santana, cuja bondade e espiritualidade foram enaltecidas pela oradora.

Magnólia era casada com o confrade Raimundo Nonato Monteiro de Santana, que, embora seja eminentemente um prosador, leu um belo e comovente soneto, que fez em sua homenagem. Mesmo já idosa, quando vim a conhecê-la, ostentava uma clássica e serena beleza. O poeta Altevir Alencar, célebre declamador de estilo clássico e sóbrio, recitou poemas em homenagens às mulheres.

Como parte integrante da homenagem solene, foi lançado o romance Pedra do Sal – Um Pescador e seus Amores, da autoria da escritora Rita de Cássia Amorim Andrade. Fui por ela escolhido para ser o apresentador. Obviamente, não discorri sobre a narrativa, posto que isso seria semelhante a contar a história de um filme a quem iria assisti-lo. Falei de seu estilo claro, objetivo, escorreito, sem presumidos hermetismos dos que se dizem da vanguarda.

Assinalei os seus diálogos verossímeis, condizentes com a personagem, com a sua cultura e perfil psicológico, mas sem abusos caricaturais de supostos regionalismos e quase dialetos. A narrativa foi quase sempre conduzida em discurso indireto, com o narrador onisciente a perscrutar os pensamentos mais secretos e as intimidades mais recônditas das personagens. Embora a própria autora tenha afirmado que adotou a narrativa linear, observo que ela, em alguns momentos, cometeu o recurso de flashback, quando o  narrador interrompia o momento presente e se voltava para fase do passado da personagem.

O romance é ambientado no litoral piauiense, sobretudo em Pedra do Sal e sua colônia de pescadores, mas com incursões à bela cidade de Parnaíba. Em certas descrições, verdadeiras passagens de prosa poética, a gente fica com a impressão de estar ouvindo o marulho das ondas, de sentir as narinas impregnadas de maresia e como que sentimos o vento a nos acariciar a pele. Seu livro foi como um búzio, que colocássemos no ouvido, para ouvir o simulacro do ruído marítimo. O romance tem como protagonista um pescador de poucas letras, com a sua cultura machista, com as suas contradições e recalques, que se apaixonou, em períodos sucessivos, por duas mulheres elegantes, de nível cultural e social mais elevado, e oriundas de um meio diferente.

Trata desses encontros e desencontros, de paixão e ódio, de amor e desamor. De forma discreta, como é o correto, por ser uma obra de arte, e não um mero panfleto, denuncia as mazelas ambientais. Acolhe as lendas, o lado mítico do lugar, que ainda estão no imaginário das pessoas simples, tanto em relação aos índios Tremembés, que outrora perlongaram o litoral piauiense, como no tocante aos Fenícios, que supostamente teriam estabelecido uma estação portuária em Pedra do Sal, cujos indícios seriam as pedras que dão nome ao lugar.

Até há quem acredite que existiria um túnel a ligar o encantamento de Pedra do Sal ao misticismo de Sete Cidades, que também teriam sido reduto desses célebres navegadores da antiguidade.  Foi uma festa notável, tanto na celebração da mulher piauiense, como por ter sido um grande encontro cultural.  

19 de março de 2010

quinta-feira, 5 de maio de 2022

EXAMES COMPLEMENTARES



EXAMES COMPLEMENTARES


José Expedito Rêgo


Eu sou muito velho. Comecei a clinicar, em Oeiras, antes da criação do INPS. Atendia os “não-pagantes” no Posto de Higiene do Estado e grande parte, também, no meu consultório. Ganhei algum dinheiro de clientes particulares, construí uma casa, comprei o primeiro carro, um jeep de segunda mão. Depois a coisa melhorou, cheguei a possuir um Aero-Willis de quatro portas.


Não quero, entretanto, falar de mim. Desejo apenas mostrar as preferências, no ponto de vista dos doentes, que bem caracterizam as inconstâncias de espírito humano. Naquela época, os serviços laboratoriais eram pagos. A Previdência não estava aberta à saúde. Sendo pedidos exames complementares, o freguês chiava, considerava incapaz o facultativo. Bom era o profissional que interrogava o enfermo minuciosamente, examinava-o com todo cuidado e, em seguida, passava a receita. Nada de testes subsidiários. Citavam o Dr. Isaías Coelho, de Simplício Mendes, velho esculápio experiente, bastava colocar o aparelho no peito do paciente e dizia logo se estava tuberculoso ou com mal de Chagas, seus raios-x eram os ouvidos.


Agora que tudo é por conta do SUS, ninguém mais fica zangado quando são solicitadas pesquisas auxiliares. Muito pelo contrário. Mal o médico termina a inspeção preliminar, vão logo pedindo: – Dr., eu quero fazer todos os exames. Todos os exames são o sumário de urina, parasitologia de fezes e o hemograma, este para ver se estão com “nemia”. Algumas gestantes que fazem o pré-natal na Fundação SESP vão logo dizendo, antes de qualquer pergunta: – Dr., eu só vim aqui para o senhor me dar pedido de “sonografia”. Ainda bem que o SUS limita o número de ultrassonografia, mensalmente. Tendo que esperar mais de um mês para o atendimento, alguns desistem do exame, muitas vezes desnecessário.  

quarta-feira, 4 de maio de 2022

0305.01

Fonte: Google

 

0305.01


Walter Lima

 

“Dê um pequeno passo todos os dias”.

 

Dando um pequeno passo

O homem pisou no satélite-Lua.

 

De passo em passo é que

Chega-se ao compasso.

O compasso se abre

Gra-da-ti-va-men-te grau em grau

Até chegar ao 360°.

 

Na calmaria igual

Dedilhar uma Ave-Maria

“Dê um pequeno passo todos os dias.”

Amém.

 

W.Lima_.

03/05/2022.  

domingo, 1 de maio de 2022

VIDA IN VITRO

 

Fonte: Google

VIDA IN VITRO


Elmar Carvalho

                                             

andavas pelas ruas de outrora

à procura de ti mesmo

que se encontrava aos pedaços

bêbedo nos bares

aos trancos e barrancos

se arrastando pelos lupanares

tortuosamente andando

pelas ruas tortas.

 

eras infante e juntavas varapaus

no sonho maluco de tocares

a lua cheia que depressa minguava.

 

levantaste a túnica da freira

não por sacrilégio ou impudência

mas apenas para constatares se

ela possuía duas pernas e dois

seios como todas as mulheres.

 

eras infante e quebraste

o joão teimoso, não por maldade,

mas para descobrir o misterioso

mecanismo de sua teimosia.

 

não, não eras doido, não eras lúcido,

eras apenas um translúcido menino.

 

escondias tuas vergonhas, tuas frustrações

e teus medos, como todos nós, como se esconde

lixo debaixo dos tapetes de luxo.

 

recordas a menina que te golpeou

com um não, apenas por capricho e maldade.

 

recordas a garota que te amava

e que desdenhavas talvez por capricho ou vingança.

eras poeta e criaste uma quimérica

amada imortal e imaginária, inatingível

em sua torre de marfim.

ela talvez também te quisesse,

mas a fizeste intocável.

 

enternecido, lembras-te da empregadinha

que bolinaste, e que por bondade, amor

ou desejo não te denunciou, com alaridos

e gritos histéricos, estridentes.

 

eras jovem e te julgavas alexandre

e bonaparte, senão mesmo um deus,

e já seguravas a coroa de ouro e o cetro

e já acariciava tua fronte o louro triunfal.

 

tudo eram conquistas e tudo conquistavas.

 

eras jovem e eras frágil

e te sentias impotente quando

contornavas as calçadas de ouro dos hotéis de luxo

ou quando avistavas a menina rica e bela,

com as suas jóias e as suas roupas elegantes e caras.

não sabias de seus desejos, de suas ânsias

e doenças e de seus nojos de si mesma.

talvez ela te amasse, mas o teu orgulho

a fez afastar-se de ti. 

 

ainda procuras o trolley que desviaste

com teus amigos, para uma aventura sem fim

até que os trilhos paralelos

se tocassem no infinito.

 

ainda assistes a filmes de bang-bang

só para sentires a emoção do tempo

em que teu pai te levava para o reino

encantado e mágico do velho cine nazaré

que em tua memória ainda remanesce.

 

sentes ainda o cheiro dolorido e pisado dos alecrins

da paixão do senhor morto, do horto das agonias,

das chagas vermelhas, maceradas, da túnica

roxa, brilhante, da coroa de espinhos, dos cravos,

não os de cheiro, mas os de ferro, que ferem...

eras infante, então, e como sofreste

e como fizeste sofrer tua mãe, madona,

mater dolorosa e pietá sofrida e consoladora

de teus sofrimentos de então e de sempre.

 

buscas os cheiros embriagantes dos

brancos lírios de são josé e das rosas vermelhas

do velho caramanchão de antigamente.

os lírios se transformaram em cálices

de amargura e nas rosas depositas

o orvalho de tuas lágrimas pelo mundo

perdido num canto escuro do passado

e que não restauras, nem mesmo no

terceiro ou no sétimo dia de tua agonia.

 

a magia da música e dos álbuns de família

te trazem alegres e pungentes recordações

e te fazem viajar no tempo e no espaço

do turbilhão das mesmas emoções.

 

solitário, no silêncio da noite

pensas nos segredos, vícios

e incestos existentes na cidade,

nas feridas abertas pelos mais acerbos sarcasmos

e nos espasmos de brutais e homéricos orgasmos.

 

passeias pelos becos e logradouros do passado

e eles te conduzem ao tempo

que buscas em desespero.   

             

perdido e cego caminhaste pelos labirintos,

teseu e minotauro de teu próprio destino,

nos confrontos que travaste com teu ego.

 

esfinge e édipo, não decifraste

teu enigma, e em vão buscaste

as pitonisas de outrora e de agora,

e inutilmente foste teu próprio ilusionista.

mas eras sábio e em algum momento

te reencontraste, ao te tornares

mais simples e mais puro,

malgrado as pedras, os lodos e as quedas.

 

em vão tapaste os ouvidos

para as palavras que te feriram

e inutilmente selaste a boca

para as palavras ferinas que proferiste.

 

não, não eras anjo nem demônio,

eras apenas um deus de barro

e teu sonho secreto e sagrado

foi sempre a transcendência

mas decepado de uma das asas

foste sempre um anjo torto coxo

capenga no a esmo voo sem pontaria.

 

procuras ainda a pedra azul

de tua serra encardida.

 

esperas ainda no pátio da igreja

o ônibus que sempre vinha

demasiado cedo ou demasiado tarde.

 

lamentas a namoradinha jovem e esbelta

que envelheceu e engordou.

debalde procuras a sua cintura

para ternamente lhe pousares as mãos.

antes não mais a tivesses revisto.

 

ainda buscas a namoradinha

de uma noite de verão – ou inverno,

não importa, nada mais importa agora.

 

caim arrependido, pedes perdão:

já não suportas o onisciente olho do senhor.

 

sofres pesadelo pela matemática

que te torturava, e acordas suado, ansioso.

 

procuras o batente da calçada de outrora

onde te cevaste nos lábios e nos seios da amada.

 

reencontraste a mulher que te amou

sem esperança, em face de tua indiferença,

e chafurdaste em sua carnívora rosa de carne,

talvez para feri-la novamente,

agora com a fúria e com o tédio.

 

devias estar feliz. realizaste teus sonhos

de consumo. tens uma boa mulher.

teus filhos são maravilhosos. tens

um bom emprego. no entanto ainda

não estás saciado. esperas um milagre

mas não sabes se os milagres ainda existem.

 

estás perdido: tens inveja de deus

e não sabes se é virtude ou pecado.

 

equilibrista, caminhas com teus malabares

e alforjes por uma corda-bamba estendida

de menos infinito a mais infinito.

 

caminhas para a morte.

muitos dos teus amigos já são mortos

e te procuram com insistência.

 

infante, desejavas crescer

para realizares os teus sonhos de conquista.

adulto, queres retornar ao país de tua infância.

 

não sabes o que queres.

queres apenas morrer, esquecer.

queres viver eternamente num mundo

que não é o teu.

 

contudo, tens esperança

e agora teces um poema sem fim

com o novelo infinito de tua vida

que se desdobra do nada ao tudo...

sexta-feira, 29 de abril de 2022

2904.01



2904.01


Walter Lima


Love

. . . .

Liberdade sempre

Sweet freedom

Céu de infinito azul

Redemoinho de nuvens

Escorrendo livres ao vento

E árvores no deleite

De ares frescos

Em suas frondes.

Liberdade sempre

A Única combinação

Com pipas coloridas

Em céu de maio

E Meninos correndo

. . . .

Freedom

W.Lima_.

29/04/2022.

Imortalidade

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IMORTALIDADE


José Expedito Rêgo


Se existe ou não alma imortal, pouco importa. O que vale é a crença. Se a pessoa acredita piamente na vida após a morte, pauta sua existência na força dessa íntima convicção, é feliz a cada instante. Nas horas difíceis, tem o consolo de sua religião, seja ela qual for. Suporta melhor as dores físicas e morais, confia num Ser Superior a protegê-la sempre e, se nada consegue de bom neste mundo, resta a certeza da bem-aventurança do além.

Ainda que a ruína do corpo seja fim de tudo, dá no mesmo. Até o derradeiro alento, o ser humano consciente, que acredita na perpetuação do espírito, morrerá na certeza da imortalidade. Jamais terá conhecimento de seu engano. Aí está a grande vantagem de ter fé, ajuda a suportar as desgraças, conduz à resignação na hora final.


Os que não tem fé – o meu caso, também podem ser felizes. Sabem que morrer é o fim do tudo e procuram tirar da vida o que ela apresenta de bom, gozando ao máximo os prazeres que nos pode proporcionar. Não me refiro aos gozos eróticos, mas, especificamente, às delícias da criação intelectual, aos momentos sublimes do prazer estético. Enquanto vivos, desfrutamos cada momento de beleza com toda intensidade. A vida é uma dádiva única da natureza, que não se remete jamais, no mesmo indivíduo.

Além da satisfação que lhe dá a posse do belo, resta ao materialista a prática do amor, do amor total. O descrente pode ser tão bom como um fervoroso cristão. Pode amar o próximo como a si mesmo, ser humanitário e prestimoso. Para ele, a imortalidade está na perpetuação das boas obras que pratica e permanecerão na lembrança dos homens, enquanto o mundo for mundo. Isto é a imortalidade. Jamais cairão no esquecimento as obras de Homero e de Platão, as artes de Leonardo da Vinci e Miguel  Ângelo. O teorema de Pitágoras nunca será olvidado enquanto houver na terra um ser inteligente e pode até ultrapassar o limite do mundo em que vivemos, transmitido que foi por intermédio de potentes ondas hertzianas, para o espaço infinito. Pitágoras é, por conseguinte, imortal. Os átomos que, um dia, formaram seu corpo estão atualmente dispersos, perdidos no espaço ilimitado, jamais se organizarão outra vez no ser chamado Pitágoras. Seu pensamento, no entanto, não perecerá.     

quinta-feira, 28 de abril de 2022

BREVE NOTÍCIA FAMILIAR

 

Elmar, Miguel e Rosália, em Francinopólis, onde moramos, no início da vida de casados de meus pais. Meu pai assumiu seu cargo no DCT nessa cidade, então povoado de Papagaio.

BREVE NOTÍCIA FAMILIAR


Elmar Carvalho


BREVE NOTÍCIA FAMILIAR (*)

 

Domingo passado, recebi de meu pai breve anotação manuscrita, feita a meu pedido, sobre os nossos avoengos. Ele registrou apenas o que sabia de memória, sem consulta a registros de livros cartorários e outros alfarrábios. Muitas informações contidas nesta nota estão nos livros Vultos da História de Barras, de Wilson Carvalho Gonçalves, e em O Ponta-de-Rama e Ruas, Avenidas e Praças de Piripiri, ambos de meu primo Fabiano Melo, de onde as colhi. Meu pai tinha apenas treze anos de idade quando foi chamado ao gabinete do diretor do tradicional Colégio Diocesano, do qual era aluno interno, numa época em que pouquíssimos piauienses conseguiam cursar o antigo ginásio.

Para que se tenha uma pequena ideia de como era restritivo, excludente e elitista o sistema de ensino, basta dizer que muitos de seus antigos colegas se tornaram governadores, senadores, deputados, magistrados e detentores dos mais altos cargos públicos do Estado. Foi chamado, logo após concluir a prova parcial do dia 30 de setembro de 1939, para receber do diretor, padre Chaves — que depois se tornou um dos maiores historiadores do Piauí —, a impactante notícia de que seu pai havia morrido. Era filho único do terceiro casamento de meu avô. Padre Chaves, que conheci e que concedeu a mim e ao jornalista Domingos Bezerra excelente entrevista, que publiquei na revista Cadernos de Teresina, editada pela Fundação Cultural que leva o seu nome, foi afetuoso e cuidadoso ao dar a notícia, proferindo palavras de conforto e resignação; recomendou que meu pai fosse repousar.

Meu avô tivera oito filhos do primeiro consórcio e nenhum do segundo. Diante desse inesperado acontecimento, papai voltou para Barras, a chamado de sua mãe, e só veio a concluir o ginásio muitos anos depois. Meu avô paterno chamava-se João de Deus Nascimento; era filho de Emiliana e Silvestre Ribeiro do Nascimento. Graças a seu esforço e labor, fez prosperar uma gleba de terra, situada na data Luiz de Souza, e conseguiu amealhar algumas reses, engenho de cana e casa de farinhada. Era respeitado em sua localidade e na cidade de Barras, onde era muito conhecido. Para que se tenha uma ideia de sua personalidade marcante, basta que eu conte dois episódios de sua vida.

Certo dia, uma de suas noras deu-lhe a notícia de que o marido estava em namoro com uma mulher da redondeza. Meu avô chamou um agregado de sua confiança e se dirigiu até certo ponto, perto da casa da amante de seu filho, de onde dava para ouvir as gargalhadas e arrulhos dos dois pombinhos, nos colóquios e conciliábulos amorosos. Constatada a infidelidade cometida pelo rebento, ficou de tocaia. Quando ele retornava para casa, abordou-o de forma enérgica e lhe disse que, se voltasse a “pular a cerca”, iria aplicar-lhe uma sova caprichada, de que ele jamais esqueceria. Não se soube da surra, porque não mais se soube de transgressão do rapaz. Eram os costumes severos da época, de fortes reprimendas.

Morava, na vizinhança, uma parenta de meu avô, creio que sobrinha, cega de nascença e entrevada, como se dizia antigamente. Levava a vida a cantar hinos religiosos e a rezar, em perpétua vigília e penitência. Meu avô, falecido em 1939, pedira para ser enterrado perto de sua cova. Talvez tenha sido recebido por ela, sarada de seus males, coberta pelo manto de glória e beatitude que deve ornar os que levaram uma vida de sofrimento, renúncia e conformação. No cemitério campestre da chapada de Luiz de Souza, perto de faveiras, sambaíbas, paus-d’arco e pequizeiros, repousam, lado a lado, os restos mortais de meu avô João de Deus e dessa parenta, que aceitou com fé e resignação o sofrimento que lhe coube, e que viveu como um anjo, a orar e a entoar cânticos e “excelências” a Deus.

Meu avô conheceu minha avó na cidade de Barras, onde ela morava em companhia de seu irmão Elpídio Lucas Furtado de Carvalho. Chamava-se Joana Lina de Deus Carvalho e nascera em Piripiri. Era filha de Miguel Furtado do Rego e de Isabel Lina de Carvalho. Muitas décadas após meu pai deixar o seu pago, fui com ele conhecer o local onde nascera, que fica a poucos quilômetros da cidade de Barras. Vi meu pai tomado de profunda emoção, com os olhos marejados, a olhar o olho-d’água de sua infância, que ainda corria perene, a rever o buritizal da várzea e o morro verdejante onde se erguera outrora a casa de seu pai.

Meu bisavô paterno, Miguel Furtado do Rego, era filho de Antônio José do Rego e Francisca Furtado de Albuquerque Cavalcante; Antônio José era filho de Antônio José do Rego Castelo Branco e Ana Maria de Jesus; Antônio José era filho de Francisco José do Rego Castelo Branco e Auta Inês de Castro. Minha trisavó Francisca Furtado de Albuquerque Cavalcante era filha de Inácio Furtado de Albuquerque Cavalcante e Maria Vicência de Albuquerque Cavalcante, que era filha de Luís Furtado de Albuquerque Cavalcante e Rosaura Muniz Barreto, filha de Aleixo Muniz Barreto. Luís e Rosaura foram figuras ilustres no território que veio a constituir o município de São Miguel do Tapuio, e que pertencera à vila de Marvão (Castelo do Piauí).

Isabel Lina de Carvalho, minha bisavó paterna, era filha de Alexandre Carvalho de Almeida e Salutina Rosa de Jesus, segundo consta no site Family Search (acesso em 25/06/2026).Existem dois ou três homônimos de meu trisavô Alexandre Carvalho de Almeida. Um deles era irmão de José Carvalho de Almeida, casado com Francisca Castelo Branco; outro era neto desse mesmo José e de Francisca. No livro Enlaces de Família – Uma Genealogia em Construção (v. I), de autoria de Valdemir Miranda de Castro, consta que existiu ainda outro Alexandre Carvalho de Almeida, filho de José e de Francisca. Assim, parece razoável supor que esse meu ancestral — considerando que sua filha Isabel Lina teria nascido em 1860 — poderia ser filho ou sobrinho de José, mas não poderia ser o Alexandre irmão de José, que teria nascido aproximadamente em 1770, nem o Alexandre neto de José, que nasceu em 1850. Em consequência, esse meu ancestral seria descendente de Antônio Carvalho de Almeida (1.º do nome) e de Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco, segunda deste nome.

Meu avô materno chamava-se José Horácio de Melo, nascido no lugar Campestre, município de Piracuruca, no dia 5 de agosto de 1893, e falecido em 13 de agosto de 1965. Era filho de Horácio Luiz de Melo e Antônia Quitéria de Carvalho. Horácio Luiz era filho de Antônio Luiz de Melo (este, filho de Onofre José de Melo e Cecília Maria das Virgens, oriundos de Pernambuco e fundadores da Casa do Desterro, em Piracuruca) e Hygina Rosa de Menezes. Antônia Quitéria tinha como pais os primos Marcos José de Carvalho e Quitéria Leopoldina de Carvalho. Marcos José era filho de José Eusébio de Carvalho e Josefa Odória de Oliveira; e Quitéria Leopoldina era filha de João Bartolomeu de Carvalho e Mariana Rosa de Castelo Branco. José Eusébio e João Bartolomeu, naturais de Granja (CE), eram filhos de Domingos José de Carvalho e Quitéria de Brito Passos. Minha avó materna chamava-se Maria Carlota e era conhecida como Paroara, dizem que por causa de sua tez alva e rosada como essa flor. Pertencia a velhas estirpes de Piracuruca, entre as quais Sousa e Mendes. Morreu jovem, quando minha mãe tinha apenas onze anos de vida.

Por essa razão, mamãe foi morar com sua tia, irmã de seu pai, Maria Cristina Lima de Melo. Com a morte desta, passou a morar com sua prima Mirozinha, minha madrinha, até casar-se com meu pai. Devo muito a essa madrinha, que me emprestava, por intermédio de meu pai, os livros da biblioteca do Grupo Escolar Valdivino Tito e os de seu próprio acervo. Mamãe não guardou traumas nem mágoas de sua orfandade, nem de ter morado com esses parentes. Pelo contrário, tinha quase veneração por sua tia e por sua prima, e lhes dedicava devoção de filha e irmã. Quando falava delas, era sempre com saudade e respeito.

Nunca tive paciência para empreender pesquisa histórica, e muito menos genealógica, que acho importante, mas um tanto tediosa, de modo que desejei fazer apenas um breve registro, para que meus descendentes e irmãos conheçam um pouco de nossos ancestrais. Aliás, meu pai, homem humilde, mas altivo a seu modo e no bom sentido da palavra, sempre foi avesso a empáfias e blasonarias de presumidas e pretensas nobiliarquias genealógicas, sabedor de que todos somos pó e de que ao pó da terra voltaremos. Só me falou, com mais detalhes, de nossos avoengos quando eu já tinha cinquenta anos de idade, por sinal em Piripiri, terra a que somos ligados por laços de sangue, no Auditório Osíris Neves de Melo, quando eu representava várias academias a que pertenço, a convite da professora Clea Rezende Neves de Melo, na solenidade em que foram lançados um livro dela e outro meu, Lira dos Cinquentanos.

Meu pai, ainda bem moço, veio para Campo Maior, onde trabalhou na Casa Inglesa. Posteriormente, ingressou no antigo Departamento de Correios e Telégrafos (DCT), através de concurso público, no ano de 1958. No início de sua vida de casado e de servidor público, morou no povoado Papagaio, hoje cidade de Francinópolis, por cerca de dois anos. O DCT transformou-se em ECT, e meu pai terminou indo para Parnaíba, onde por vários anos chefiou a agência local dessa empresa. Mas, amante inveterado e incondicional de Campo Maior, terminou regressando mais uma vez à minha terra natal, onde, aposentado, joga dominó todos os dias com os irmãos Vicente, Antônio Wilson e Chico Andrade. Minha mãe consagrou todo o seu esforço e dedicação a cuidar do marido e dos filhos. E como cuidou!...

 

(*) Este texto foi extraído do livro Diário Incontínuo. Foi publicado originalmente na internet, em março de 2010, em meu blog. Posteriormente, através de novas informações, obtidas em sucessivas pesquisas, foi substancialmente aumentado e reformulado. Esta republicação do texto foi feita hoje, dia 29/06/2026.

REFERÊNCIAS:

Vultos da História de Barras, de Wilson Carvalho Gonçalves.

O Ponta-de-Rama, de Fabiano Melo

Ruas Avenidas e Praças de Piripiri, de Fabiano Melo

Os Carvalho de Almeida do Piauhy, de Gilberto de Abreu Sodré Carvalho

Antepassados – genealogias patrilineares de minha mãe e de meu pai, de Gilberto de Abreu Sodré Carvalho.

Enlaces de Família: uma genealogia em construção, de Valdemir Miranda de Castro

Fenelon Ferreira Castello Branco e Castello Branco – Ontem e Hoje, de Homero  Castello Branco.

Obra Reunida, ed. APL, de Pe. Cláudio Melo.

Biografia de Pessoa Anta, de Pe. Vicente Martins, publicada na Revista Trimensal (1917) do Instituto do Ceará.

Siará Grande: uma Província Portuguesa do Nordeste Oriental do Brasil - Vol. I, de Francisco Augusto de Araújo Lima.

José Eusébio de Carvalho Oliveira, artigo de Reginaldo Miranda, publicado no blog Poeta Elmar.

Casa do Desterro, artigo de Valdemir Miranda de Castro, publicado no blog Poeta Elmar.

Site Family Search.

Site Parentesco.

Blog Poeta Elmar.


quarta-feira, 27 de abril de 2022

O Almanaque Biográfico





O Almanaque Biográfico 


Carlos Rubem 


Aldemar Nogueira Tapety está em Oeiras revendo parentes, amigos, velhas paisagens. Assistiu a celebrações da nossa Semana Santa.


Filho do casal Bastinho Tapety e Cecy Carmo. Lembro-me dele jogando futebol como lateral esquerdo do Piauí Esporte Clube, time local, nos anos sessenta.


No final de 1970, embarcou num ônibus de Dona Nanu, rumo ao sul maravilha. Em Sampa, muito se esforçou para ter um lugar ao sol. Trabalhou, estudou, concluiu o curso de Administração. Ingressou na Petrobras, exercia o seu labor na área logística. Prestou serviço nesta empresa pública em várias partes do território nacional.


Na Sexta-feira Santa (16.04.2022), foi fazer uma visita de cortesia a Alice (91) e Amália Campos (98), minhas tias. Na oportunidade, foi convidado a almoçar, no Domingo da Ressurreição, na casa do nosso patriarca, Joel.


Na hora aprazada, ele nos apareceu. A sua presença nos alegrou. Jogamos muita conversa fora no calor do reencontro. Relembramos episódios pitorescos.


O Instituto Barros de Ensino - IBENS, a cada ano letivo, promove uma série de estudos sobre a vida e a obra de poetas, escritores ou músicos oeirenses. Publica-se um Almanaque Biográfico constando as impressões dos alunos, de todas as séries, acerca do homenageado escolhido.


Em 2013, foi a vez de se invocar a memória do literato Benedito Francisco Nogueira Tapety (1890 - 1918).


Durante o rega-bofe, a tia Amália disse para Aldemar que tinha uma lembrancinha a lhe oferecer. No entanto, em seguida iria se recolher, fazer a sesta. Depois faria chegar às suas mãos o tal mimo.


No dia seguinte, enviou-lhe um exemplar da dita publicação versando sobre Nogueira Tapety, com a seguinte dedicatória:


“Oeiras, 19 de abril de 2022


Aldemar, meu ex-aluno, queira aceitar, para lembrar a nossa família este número do Almanaque Biográfico que lembra, que nos faz lembrar com orgulho o nosso tio Nogueira Tapety como orador e poeta, apenas com 27 anos de vida.


Com afeto lhe abraça sua prima Amália Campos.”

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Mestre Ageu (*)

Ageu visto por Gervásio Castro

 

Mestre Ageu (*)


Elmar Carvalho

 

Mestre Ageu

mago das artes escultóricas,

novo rei Midas do antigo mito

a transformar em estátuas

troncos toscos de madeira

com os toques de suas mãos.

Mestre Ageu

Pigmalião dos mágicos toques

faz mais uma escultura:

ninguém se espantaria

se ela gesticulando

lhe desse “bom dia”.

Mestre Ageu

de arte tão exata

que lhe força fabricar

o seu cinzel de cortar.

Mestre Ageu

em sua agrura

agora chora ora e deplora

afagando/abraçando/agarrando

a escultura, sua cria/tura:

o compra/dor a veio buscar.

(*) Ageu Alves de Melo (1931-2022), parnaibano, faleceu no começo da tarde desta segunda-feira (25/04/2022).