domingo, 9 de fevereiro de 2025

ETERNO RETORNO


 

ETERNO RETORNO


Elmar Carvalho

 

memória:

lâmina de desassossego

cornucópia insana insaciável

a jorrar o passado

que não morre nunca

sempre ressuscitado

no eterno regresso

a nós mesmos.

 

ó emoções redivivas

e ampliadas

das sensações

de nervos expostos

nas carnes pulsantes

de um passado

sempre lembrado.

 

recordações

que dão e são vida

de becos escuros, sem saída

de amores

            hoje boleros

                     bolores em flores

de ilusões perdidas

que se fazem dores

na florida ferida da saudade.

 

evocações

de dribles esquecidos

de gols frustrados e acontecidos

de um jogo que nunca termina

de uma malsinada sina sinuosa

de lágrimas caudalosas

incontidas, vertidas

das vertentes profundas

do peito – porto

sem tino e sem destino

feito somente de desatino.

 

as mulheres amadas

na juventude fugaz

            não envelhecem

            não se corrompem

            não morrem jamais

preservadas intactas e belas

na câmara ardente

incandescente da memória.

 

recordações de fantasmas

que já nos abandonaram

de amigos mortos

que nos acompanham

cada vez mais vivos

de sustos e gritos

de proscritos e malditos

de agouros e assombrações

de desdouros e sombras vãs, malsãs,

oriundos dos porões escavados

nos subterrâneos dos sobrados

       subterfúgios e refúgios

da memória.

 

O passado poderoso e renitente

retorna e continua vívido e presente

se contorcendo se retorcendo

       e se reacontecendo.

            Teresina, 23.12.94

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Crônica à guisa de prefácio

 



Crônica à guisa de prefácio

 

Elmar Carvalho

 

Conheci Paulo Couto em março de 1977, quando iniciávamos o curso de Administração de Empresas no Campus Ministro Reis Velloso (UFPI – Parnaíba). Esse campus, então, era pequeno e bonito, situado no final da Avenida São Sebastião, que hoje se prolonga para muito além.

No início do curso, como eu ainda não tivesse transporte próprio, peguei carona algumas vezes com o Paulo Couto, que usava o fusca branco de seu pai, o ilustre e erudito professor Lima Couto. Desse modo, fui várias vezes a sua casa, um sobrado que ficava no Bairro Nova Parnaíba, perto da Avenida Capitão Claro, em local próximo ao vetusto Cemitério da Igualdade. Várias vezes conversei com o velho mestre Lima Couto, sobre diversos assuntos, mas sobretudo sobre educação, literatura e poesia.

Fiquei sabendo que ele admirava Abgar Renault e o poeta norte-americano Longfellow, do qual fizera tradução. Também era admirador do poeta e místico indiano Tagore. O mestre falava de modo cadenciado, rítmico e tinha boa dicção, com gestos que pareciam reger a musicalidade de sua fala, e às vezes se expandia em seus entusiasmos, quando recitava algum poema.

Para meu gáudio gostava do que eu publicava nessa época, mormente no jornal Folha do Litoral, cujos arquivos infelizmente se perderam, e com isso se perdendo muito da memória política, administrativa e literária de Parnaíba, o que muito lamento. Às vezes a nossa conversa se dava no belo jardim da casa, debaixo do caramanchão, em que eu sentia o agradável cheiro de rosas, lírios e outras flores. Guardo boas e emocionadas lembranças desse competente e benemérito educador.

Na sala de aula, o culto magistrado Walter Miranda de Carvalho, barrense como meu pai, fazia, algumas vezes, referência a esses poemas que eu publicava no Folha do Litoral, e dessa forma o Paulo e os demais colegas tomaram conhecimento dessa minha vertente literária. Neste ponto, é interessante que eu transcreva o que disse o próprio Paulo Couto, em seu livro Poesias e Crônicas (2020):

“Nos anos 70, quando iniciei o Curso de Administração de Empresas na UFPI, Campus Reis Veloso, tive um colega de turma chamado Elmar Carvalho. Tenho boas lembranças de todos os colegas, mas com Elmar foi diferente. Ele era poeta e numa das muitas conversas que tivemos, ele ficou sabendo que eu tinha escrito algumas poesias. O Elmar me levou na gráfica do Jornal Norte do Piauí e lá eu conheci o proprietário Mário Meireles. Minha primeira poesia publicada foi nesse jornal.”

A partir dessa época, o Paulo passou a publicar suas crônicas e poemas no jornal Norte do Piauí, e, um pouco depois, no Folha do Litoral, onde passou a ter coluna própria, denominada Cosmo, em que publicava seus textos em prosa e versos. O jornal era semanal ou hebdomadário, como alguns gostavam de dizer, com alguma pose e certa afetação.

No final dos anos 1970, eu e o Paulo participamos de alguns eventos e publicações literárias. Marcamos presença nas coletâneas Poesias do Campus, Salada Seleta, Galopando e Em Três Tempos, juntamente com outros poetas, entre os quais posso citar Alcenor Candeira Filho, V. de Araújo, Kenard Kruel, Adrião José Neto, José Luiz de Carvalho, Ednólia Fontenele, Josemar Neres, Rubervam Du Nascimento e Paulo Machado.

Contudo, no começo dos anos 1980, o Paulo e eu fomos aprovados em concursos públicos, ele para o Banco do Brasil e eu para fiscal da Sunab, razão pela qual ele foi residir em Elesbão Veloso e eu em Teresina. Por esses motivos, nos perdemos de vista, e só nos encontramos muito esporadicamente, cada um a enfrentar os seus percalços, que a vida nos vai ofertando, sem que os procuremos, e lutando pela criação e educação de nossos filhos.

Alguns anos depois, já aposentados, e tendo o Paulo voltado a residir em Parnaíba, voltamos a nos encontrar pessoalmente ou através das facilidades (virtuais) da internet, mormente proporcionadas pelo WhatsApp.

Ele voltou a se interessar por literatura e empreendeu alguns projetos literários e culturais, sobre os quais falarei de forma resumida: criou o Clube dos Poetas Mortais, que mantém um festejado grupo de WhatsApp, promove eventos culturais e de congraçamento, realiza saraus e lives etc.; e publicou os livros Poesias e Crônicas (2020) e Textos em Fatos e Fotos (2022), em que também coligiu textos de Vitor de Athayde Couto e José de Lima Couto.

E agora nos surpreende com este novo livro, titulado Anos 70 na Folha do Litoral. Nele reúne crônicas, artigos, entrevistas e poemas, alguns publicados no Norte do Piauí e, a maioria, no Folha do Litoral, em que manteve a coluna Cosmo.

Suas crônicas e artigos são curtos, concisos, claros e objetivos, como recomendam os melhores manuais de redação, e sem torcicolos, pulutricas e firulas literárias. Refletem os questionamentos impostos pela condição humana, referem os fatos da época, relatam acontecimentos ou histórias interessantes, comentam filmes, livros parnaibanos, certos costumes e brincadeiras da época, bem como as principais notícias e fatos da cidade, do Piauí e do mundo.

Também relatam a movimentação cultural de jovens intelectuais e tecem comentários sobre os jornais alternativos da cidade, entre os quais o Inovação (fundado por Reginaldo Costa e Franzé Ribeiro) e o Querela (editado pelo Fernando Ferraz). Algumas de suas crônicas têm um viés memorialístico, e abordam episódios de sua infância e adolescência. A obra enfeixa ainda algumas importantes entrevistas, umas das quais com o poeta e escritor Alcenor Candeira Filho. Enfim, os textos tratam de múltiplos e importantes assuntos.

Seus poemas têm a beleza da simplicidade, e destilam sentimentos e emoções, todavia sem nunca descambar para a pieguice. Alguns criticam o que deve ser criticado e louvam o que deve ser louvado, como no dizer de Torquato Neto, uma de suas admirações literárias. Neles sentimos o pulsar da vida, sobretudo o amor que tudo permeia e que tudo deve nortear. Mas também se referem às frustrações, às injustiças, que sempre nos atingem, ainda que indiretamente. Outros são poemas que nos instigam a pensar. E outros nos comovem, pelo que têm de pungente, humano e lírico.

Todos os textos foram publicados nos anos de 1977, 1978 e 1979 nos jornais Norte do Piauí e, sobretudo, Folha do Litoral, em sua coluna Cosmo. O livro trata de tudo, versa (quase) todos os temas.  

Quem compulsar com atenção suas páginas vai conhecer muito da Parnaíba dos anos 1970, mormente nos aspectos de sua história social, administrativa, cultural e literária, quando Parnaíba se reinventava e se preparava para superar os estertores do extrativismo.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

AUTOAPRESENTAÇÃO

 



AUTOAPRESENTAÇÃO


Elmar Carvalho

 

eis como sou

            neste instante único

            (após o qual já

            serei um outro):

 

um homem que rema

            no seco contra

            a corrente das águas

 

um homem que usa

            a gravata como

            se fora um baraço

            nas horas de opressão

 

um homem que escreve

            torto por

            linhas certas

 

um homem que sobe

            e teima contra

            a lei da gravidade

 

            eu sou aquele

que aprendeu

a pecar para

ter a humildade

de não ter uma

virtude

 

            eu sou aquele

que jogou roleta

russa com o tambor

cheio de balas e

apostou contra a

sorte

           

           eu sou aquele

            que lutou para

            não ser

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

AS CAPAS CARDINALÍCIAS

 




AS CAPAS CARDINALÍCIAS


Elmar Carvalho

 

Recebi recentemente o livro titulado Contos, de José de Ribamar Freitas, do qual fui aluno na UFPI. Tenho procurado cultivar a sua amizade, talvez um pouco por egoísmo, pois com isso tenho desfrutado de sua conversa agradável e tenho procurado sorver sua erudição. As ficções, como não poderiam deixar de ser, são escritas no estilo elevado e austero do mestre, naquela linguagem clássica, que nada fica a dever a Antônio Vieira ou Manuel Bernardes.

 

Dizia Mário de Andrade que conto é o que se chama conto. Com essa resposta, talvez, pretendesse dizer que um conto deve contar algo; ou que um texto que narrasse alguma coisa teria que ser considerado um conto. Com efeito, os textos da obra de Ribamar Freitas, nessa interpretação, são legítimos contos, porque são narrativas, porque contam uma história, porque descrevem acontecimentos e fatos imaginários.

 

O mestre tem uma imaginação fértil, poderosa, e sabe criar o suspense, ao prender a atenção do leitor, com a descrição do ambiente, com a intercalação de episódios menores, porém importantes, com a caracterização psicológica e física da personagem, com diálogos atraentes, em que as suas criaturas revelam o seu espírito e a sua cultura.

 

Ribamar Freitas teve a ousadia intelectual de cometer um longo conto histórico, quase uma novela, cuja personagem principal é nada mais nada menos que o célebre rei Dom Sebastião, desaparecido na Batalha de Alcácer-Kebir, em terras africanas, cujo cadáver nunca foi encontrado, o que fez surgir a lenda e o misticismo do Sebastianismo, em que os portugueses sonhavam com o retorno dele à governança de sua pátria.

 

O mestre fez um belo trabalho de pesquisa, e soube urdir a ambientação e a linguagem da época, sem descurar do contexto histórico em que o texto está inserido. A capa não poderia ser mais atraente em sua singeleza: em letras brancas, encimando-a, vê-se o nome  completo do autor, José de Ribamar Freitas, e no meio, em letras maiores e níveas, o título CONTOS, tudo vazado sobre um fundo vermelho.

 

Essa capa vermelha me fez recordar o tratamento gentil que o mestre Ribamar Freitas dedicou a meus humildes livros, que lhe autografei em sua portentosa biblioteca. Entreguei-lhe a segunda edição de Rosa dos Ventos Gerais, que tem um belo estudo dele sobre figuras de linguagem que tenho usado em meus poemas, e conversamos um pouco.

 

Quando eu já me preparava para descer os degraus de sua cobertura, o mestre me fez voltar, e me chamou para ver onde ele iria colocar o exemplar. Acompanhei-o, entre apreensivo e curioso, até um dos compartimentos de sua avantajada biblioteca. O mestre, apontando para o alto de uma das estantes, exclamou: “É ali, entre os poetas ilustres do Piauí, que vai ficar o seu livro”. Não irei, nesta ocasião, ter o cabotinismo de declinar os nomes dos poetas que lá estavam.

 

Depois, em novo critério de arrumação bibliotecária, ele houve por bem colocar meu livro entre outros que tinham textos seus. Não lhe disse, mas é claro que preferia que ele ficasse no lugar que lhe coubera anteriormente. Porém, tempos depois, como uma compensação de que não me acho merecedor, o professor Freitas mandou colocar capas duras, protetoras, vermelhas, sanguíneas, com letras e ornatos dourados, em meus livros. Pareciam vestes talares e cardinalícias, a cobrir a simplicidade de Rosa dos Ventos Gerais e Lira dos Cinqüentanos.

 

Após essa nova indumentária, ele os depôs entre os seus aedos prediletos, em lugar de destaque. Fiquei com a leve desconfiança de que o Mestre, em lugar de me homenagear, queria me matar de emoção. Afinal, já não sou mais nenhum garoto.

 

Devo acrescentar que um gesto espontâneo e sincero como esse tem para mim muito mais valor do que certas medalhas e comendas, que se azinhavram e desbotam ao longo de pouco tempo.    

13 de outubro de 2010

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Como foi que tudo começou

 

Participei, juntamento com Paulo Couto, de todas as coletâneas e periódicos, que ilustram a vertente postagem. [Elmar Carvalho] 



Como foi que tudo começou

 

Paulo de Athayde Couto

 

Nos anos 70 quando iniciei o Curso de Administração de Empresas na UFPI, Campus Reis Veloso, tive um colega de turma chamado Elmar Carvalho. Tenho boas lembranças de todos os colegas, mas com o Elmar foi diferente. Ele era poeta e numa das muitas conversas que tivemos, ele ficou sabendo que eu tinha escrito algumas poesias. O Elmar me levou na gráfica do Jornal Norte do Piauí e lá eu conheci o proprietário Mário Meireles. Minha primeira poesia foi publicada nesse jornal.

Depois eu conheci a gráfica do Jornal Folha do Litoral. Foi outro jornal que passou a publicar minhas poesias. Na época meu pai professor José de Lima Couto tinha assinatura de todos os periódicos editados em Parnaíba. Eu sempre lia esses Jornais. Por acaso eu vi uma crônica que me chamou a atenção, escrita por um primo meu. A partir daí, comecei a escrever crônicas sempre incentivado pelo meu pai. Tive por um bom tempo uma coluna chamada “Cosmo” na Folha do Litoral.

Aí conheci o Bernardo Silva, o jornalista Rubem Freitas e o jornalista Batista Leão que na época era gerente do Jornal e da Rádio Educadora de Parnaíba. Na Folha do Litoral eu lembro do “Xixinó”, um dos funcionários que faziam o trabalho artesanal da montagem das páginas do Jornal. Também tinha o Batistinha que era gerente da Folha.

Nesse periódico, cheguei a fazer, a título de colaboração, a revisão de páginas que seriam impressas.  Estávamos em plena Ditadura. Vários jornais alternativos surgiram na época. Colaborei com poesias e crônicas em alguns deles e participei de algumas antologias poéticas.  


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

A ontologia poética de J. L. Rocha do Nascimento




A ontologia poética de J. L. Rocha do Nascimento


Elmar Carvalho


No domingo, às 14 horas, ao retornar a minha residência, recebi da portaria do condomínio um exemplar do livro de poemas Ontologia do Ser, devidamente autografado, que seu autor, o ilustre magistrado J. L. Rocha do Nascimento me havia deixado.

O poeta tem se dedicado sobretudo à contística, na qual tem merecido lugar de destaque, com seus contos breves, às vezes brevíssimos, lavrados algumas vezes em legítima prosa poética. J. L. integrou o grupo de contistas denominado Os tarântulas, do qual também faziam parte o José Pereira Bezerra, Airton Sampaio e Leonam (Manoel de Moura Filho).

José Pereira prestou um relevante serviço à Geração 70 ou do Mimeógrafo, ao escrever seu livro Anos 70: Por que Essa Lâmina nas Palavras?, editado em 1993, pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, quando eu era presidente de seu Conselho Editorial. Em sua contracapa tive a oportunidade de dizer:

“É um livro de capital importância para a plenitude do conhecimento da Geração Mimeógrafo, que se firma como uma das mais robustas gerações literárias piauienses, tanto em termos quantitativo, como qualitativo. Indispensável para a perfeita compreensão do fenômeno literário ocorrido nos anos 70, também conhecido como literatura marginal ou alternativa, pela maneira segura e profunda com que aborda o tema. Vertida numa linguagem enxuta e elegante, esta monografia é um balanço geral e detalhado, senão também uma verdadeira radiografia dessa produção cultural.”    

J. L. é um dos mais notáveis membros dessa geração, mormente como contista, mas também como poeta, o que agora se comprova com essa sua obra poética, recentemente publicada. Em rápida leitura, pude vislumbrar em seus poemas um viés existencialista, assim como um timbre de perquirições filosóficas, em linguagem emocionalmente contida e concisa. Em seus versos perpassam breves e sutis intertextualizações, que podem passar despercebidas a um leitor desatento. Portanto, o contista é também um poeta competente e criativo.

Segue a apresentação do livro, feita pelo seu próprio autor:


Apresentação

Em Sobre os sonhos e outros diálogos, livro que reúne uma série de entrevistas concedidas a Osvaldo Ferrari, Jorge Luis Borges diz que não sabe se existe uma diferença essencial entre a poesia e a prosa, exceto, diz ele, pelo que sustentava Stevenson ao afirmar que a prosa seria a forma mais difícil da poesia. Para ele, Borges, não há literatura sem poesia.

Assim como a grande maioria dos escritores, comecei com os poemas. Tempos depois, fui picado pelo aguilhão da narrativa breve, muito provavelmente pelo fato de pertencer a uma geração de escritores forjada a partir dos anos setenta, época em que surgiu no Brasil um “boom” literário cuja maior expressão foi o conto. Essa, pois, a razão pela qual passei a me dedicar mais à prosa, optando pela narrativa breve. Essa opção, contudo, provocou danos colaterais: o encobrimento do poeta que, como saída, encontrou na prosa poética do contista um modo de se revelar, ainda que indiretamente.

Depois de publicar quatro livros de contos, resolvi que já era hora de compartilhar com o público leitor parte dos poemas que escrevi ao longo dos anos. Muitos deles eu mantive guardados apenas para o meu, digamos assim, “consumo” próprio, o que inclui os familiares. Sobre uma porção bem menor, alguns poucos, raros amigos, tiveram acesso.

Nesse tempo todo, apesar de possuir material suficiente para compor pelo menos três livros, publiquei um único poema, o mesmo que republico aqui como elemento pré-textual: Manifesto, cuja publicação original ocorreu na obra intitulada Descartável, uma coletânea de poemas organizada pelo professor, escritor e poeta piauiense Cineas Santos no longínquo ano de 1979.

Tomei a decisão de colocá-lo neste livro em forma de epígrafe, preservando a redação original, por duas razões. Prestar uma homenagem, resgatando-o, essa a primeira delas. Afinal, se este livro, essa a principal leitura que faço, é um estudo poético sobre o ser e o seu sentido, esse mesmo ser meio que já se revela no poema escrito há mais de quarenta anos. A par disso, tem a função de nunca deixar de lembrar. Sendo certo que o poema deve ser lido no presente com os olhos do passado, não devemos esquecer que num passado bem recente, alguns saudosistas tentaram reviver tempos obscuros. Trata-se, portanto, de um alerta: lembrar para não esquecer jamais.

Ontologia do ser é, portanto, passados mais de 40 anos da publicação de Manifesto, o meu primeiro livro de poesia. Ou pelo menos é como eu o estou chamando. Como no livro predomina o discurso direto, é possível que seja recepcionado como poemas em prosa. Quando não, como prosa poética, o que, de resto, já venho fazendo há algum tempo. Um ou outro não importa, mesmo porque, para lembrar Clarice Lispector, essa coisa de gênero também não me pega.

A propósito, outro escritor que também se mostrou indiferente a essa divisão foi Baudelaire, que, sendo desenganadamente poeta, publicou Spleen de Paris, que ele próprio chamou de pequenos poemas em prosa. Contudo, qualquer um que se atreva a lê-lo ainda preso à rígida classificação de gênero, dirá que são rigorosamente textos em prosa.

No mais, se Mário de Andrade disse que conto é tudo aquilo que o autor chama de conto, por que não dizer que poesia é tudo aquilo que o autor chama de poesia? Mesmo porque, como disse Borges, não há literatura sem poesia.

Para além dessas discussões sobre gênero, creio que, em relação à temática, não há dúvida de que existe um fio condutor comum que atravessa todo o livro: o existencial. Daí se dizer que, em síntese, o livro é um estudo poético sobre o ser e o seu sentido.

Fico então na expectativa de que Ontologia do ser seja bem recebido pelo leitor que, sem muito esforço, perceberá que muito do contista poderá ser encontrado no poeta. O raciocínio contrário também é verdadeiro. E se é verdade que todo ser é o ser de um ente que só existe no seu ser, é possível dizer que, no meu caso, a relação entre o poeta e o contista é semelhante à que existe entre o ser e o ente. Cabe ao leitor dizer quem é quem.

O autor.

Teresina, 19 de fevereiro de 2024.

 

Aproveito para também publicar a “orelha” de Ontologia do Ser:

Ontologia do ser é um livro atravessado por um fio condutor temático comum: o existencial. Na sua maioria, os poemas são uma reflexão sobre a vida, o existir e, de resto, sobre o mundo. Diz-se ontologia porque a sua questão primeira é o ser e o questionamento sobre o seu sentido. Trata-se, em síntese, de um estudo poético sobre o ser e o seu sentido, assim como sobre o modo de ser do indivíduo no mundo no qual foi jogado e sua angústia diante da finitude para a qual nem sempre está preparado. Indicativos desses questionamentos (ou dessa presença) se fazem sentir logo na abertura do livro com o poema Eu e os vários de mim, onde a questão central é a (não)descoberta do próprio ser, e se agudiza em Angústia heideggeriana. Nele, o autor, ao trabalhar com as diferentes dimensões do tempo, diz nas entrelinhas que o maior desafio do ser-no-mundo é fazer com que o presente não seja apenas um tempo estéril sem memória e sem projeto. E é aí que reside a sua maior angústia.

domingo, 26 de janeiro de 2025

VIDA IN VITRO


 

VIDA IN VITRO

 

Elmar Carvalho 

                                                     

andavas pelas ruas de outrora

à procura de ti mesmo

que se encontrava aos pedaços

bêbedo nos bares

aos trancos e barrancos

se arrastando pelos lupanares

tortuosamente andando

pelas ruas tortas.

 

eras infante e juntavas varapaus

no sonho maluco de tocares

a lua cheia que depressa minguava.

 

levantaste a túnica da freira

não por sacrilégio ou impudência

mas apenas para constatares se

ela possuía duas pernas e dois

seios como todas as mulheres.

 

eras infante e quebraste

o joão teimoso, não por maldade,

mas para descobrir o misterioso

mecanismo de sua teimosia.

 

não, não eras doido, não eras lúcido,

eras apenas um translúcido menino.

 

escondias tuas vergonhas, tuas frustrações

e teus medos, como todos nós, como se esconde

lixo debaixo dos tapetes de luxo.

 

recordas a menina que te golpeou

com um não, apenas por capricho e maldade.

 

recordas a garota que te amava

e que desdenhavas talvez por capricho ou vingança.

eras poeta e criaste uma quimérica

amada imortal e imaginária, inatingível

em sua torre de marfim.

ela talvez também te quisesse,

mas a fizeste intocável.

 

enternecido, lembras-te da empregadinha

que bolinaste, e que por bondade, amor

ou desejo não te denunciou, com alaridos

e gritos histéricos, estridentes.

 

eras jovem e te julgavas alexandre

e bonaparte, senão mesmo um deus,

e já seguravas a coroa de ouro e o cetro

e já acariciava tua fronte o louro triunfal.

 

tudo eram conquistas e tudo conquistavas.

 

eras jovem e eras frágil

e te sentias impotente quando

contornavas as calçadas de ouro dos hotéis de luxo

ou quando avistavas a menina rica e bela,

com as suas jóias e as suas roupas elegantes e caras.

não sabias de seus desejos, de suas ânsias

e doenças e de seus nojos de si mesma.

talvez ela te amasse, mas o teu orgulho

a fez afastar-se de ti. 

 

ainda procuras o trolley que desviaste

com teus amigos, para uma aventura sem fim

até que os trilhos paralelos

se tocassem no infinito.

 

ainda assistes a filmes de bang-bang

só para sentires a emoção do tempo

em que teu pai te levava para o reino

encantado e mágico do velho cine nazaré

que em tua memória ainda remanesce.

 

sentes ainda o cheiro dolorido e pisado dos alecrins

da paixão do senhor morto, do horto das agonias,

das chagas vermelhas, maceradas, da túnica

roxa, brilhante, da coroa de espinhos, dos cravos,

não os de cheiro, mas os de ferro, que ferem...

eras infante, então, e como sofreste

e como fizeste sofrer tua mãe, madona,

mater dolorosa e pietá sofrida e consoladora

de teus sofrimentos de então e de sempre.

 

buscas os cheiros embriagantes dos

brancos lírios de são josé e das rosas vermelhas

do velho caramanchão de antigamente.

os lírios se transformaram em cálices

de amargura e nas rosas depositas

o orvalho de tuas lágrimas pelo mundo

perdido num canto escuro do passado

e que não restauras, nem mesmo no

terceiro ou no sétimo dia de tua agonia.

 

a magia da música e dos álbuns de família

te trazem alegres e pungentes recordações

e te fazem viajar no tempo e no espaço

do turbilhão das mesmas emoções.

 

solitário, no silêncio da noite

pensas nos segredos, vícios

e incestos existentes na cidade,

nas feridas abertas pelos mais acerbos sarcasmos

e nos espasmos de brutais e homéricos orgasmos.

 

passeias pelos becos e logradouros do passado

e eles te conduzem ao tempo

que buscas em desespero.  

            

perdido e cego caminhaste pelos labirintos,

teseu e minotauro de teu próprio destino,

nos confrontos que travaste com teu ego.

 

esfinge e édipo, não decifraste

teu enigma, e em vão buscaste

as pitonisas de outrora e de agora,

e inutilmente foste teu próprio ilusionista.

mas eras sábio e em algum momento

te reencontraste, ao te tornares

mais simples e mais puro,

malgrado as pedras, os lodos e as quedas.

 

em vão tapaste os ouvidos

para as palavras que te feriram

e inutilmente selaste a boca

para as palavras ferinas que proferiste.

 

não, não eras anjo nem demônio,

eras apenas um deus de barro

e teu sonho secreto e sagrado

foi sempre a transcendência

mas decepado de uma das asas

foste sempre um anjo torto coxo

capenga no a esmo voo sem pontaria.

 

procuras ainda a pedra azul

de tua serra encardida.

 

esperas ainda no pátio da igreja

o ônibus que sempre vinha

demasiado cedo ou demasiado tarde.

 

lamentas a namoradinha jovem e esbelta

que envelheceu e engordou.

debalde procuras a sua cintura

para ternamente lhe pousares as mãos.

antes não mais a tivesses revisto.

 

ainda buscas a namoradinha

de uma noite de verão – ou inverno,

não importa, nada mais importa agora.

 

caim arrependido, pedes perdão:

já não suportas o onisciente olho do senhor.

 

sofres pesadelo pela matemática

que te torturava, e acordas suado, ansioso.

 

procuras o batente da calçada de outrora

onde te cevaste nos lábios e nos seios da amada.

 

reencontraste a mulher que te amou

sem esperança, em face de tua indiferença,

e chafurdaste em sua carnívora rosa de carne,

talvez para feri-la novamente,

agora com a fúria e com o tédio.

 

devias estar feliz. realizaste teus sonhos

de consumo. tens uma boa mulher.

teus filhos são maravilhosos. tens

um bom emprego. no entanto ainda

não estás saciado. esperas um milagre

mas não sabes se os milagres ainda existem.

 

estás perdido: tens inveja de deus

e não sabes se é virtude ou pecado.

 

equilibrista, caminhas com teus malabares

e alforjes por uma corda-bamba estendida

de menos infinito a mais infinito.

 

caminhas para a morte.

muitos dos teus amigos já são mortos

e te procuram com insistência.

 

infante, desejavas crescer

para realizares os teus sonhos de conquista.

adulto, queres retornar ao país de tua infância.

 

não sabes o que queres.

queres apenas morrer, esquecer.

queres viver eternamente num mundo

que não é o teu.

 

contudo, tens esperança

e agora teces um poema sem fim

com o novelo infinito de tua vida

que se desdobra do nada ao tudo...