sábado, 16 de outubro de 2010

NOTÍCIA CULTURAL




POSSE NA ACADEMIA PIRIPIRIENSE

O presidente da Academia de Ciências, Artes e Letras de Piripiri – ACALPI, jornalista e escritor Willekens Van Dorth, já enviou convites para a posse do artista plástico Luís de Assis Silva (cadeira nº 22, patrono Tomás de Sousa Meneses) e José Elmar de Mélo Carvalho (cadeira nº 39, patrono Raimundo de Freitas e Silva). O discurso de recepção do primeiro ficará a cargo do acadêmico e juiz de Direito João Bandeira do Monte Filho, e o do segundo, será proferido pela magistrada e acalpiana Regina Coeli Freitas. Na oportunidade, será homenageada, com a Comenda do Mérito Data Botica, a banda Os Dragões, pelos relevantes serviços prestados à cultura. A solenidade acontecerá na Câmara Municipal de Piripiri, às 19 horas. A apresentação musical ficará sob a responsabilidade de DIFI. A escritora e pesquisador Clea Rezende Neves de Melo esticou sua temporada piripiriense para prestigiar a solenidade da ACALPI, entidade da qual foi uma das fundadoras.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

MOMENTOS DE SPLEEN


CUNHA E SILVA FILHO


Não pense o leitor que o spleen dos românticos do século 19 acabou em definitivo. Não, não acabou, pelo menos pra mim, de quando em quando, me bate à porta e vem com toda a força. Da mesma forma, não sei se o verdadeiro spleen romântico que assolou os espíritos dos jovens poetas ocidentais daquele século só a eles dizia respeito.
Julgo que não, pois com intensidade ele me vem ao meu pequeno mundo interior, e me deixa em desalento à maneira do “mal do século”. Vem de uma tristeza que não tem uma explicação maior, já que o sentimento de descrença se nutre do instante presente, do fortuito, de certas ilusões e desilusões inconfessáveis nos períodos difíceis da existência.
O Brasil é um país que atualmente vai melhor na economia, na vida dos menos favorecidos, e tão quanto ou mais na dos favorecidos pelo berço de ouro, pelo grande capital.
No entanto, o país não vai bem politicamente, sobretudo porque, avaliando ângulos da vida brasileira, o quadro que dele tenho é patético. Essa avaliação me leva à seguinte constatação: cada vez mais sinto que os homens, que deviam unir forças em direção a genuínas convicções, se dividem inescrupulosamente, falseando verdades e fatos de quem está no poder, e o mais grave é que, de lado a lado, pouco de grandeza humana se oferece de bom.
Os homens estão divididos, a sociedade está se tornando errática do ponto de avista político. Isso não é um fato novo. Vem de longe. Vem de sempre, aqui e além-fronteiras.. Sem limites e sem tempo. Questão universal. O país, em todos os seus momentos mais problemáticos, sempre mostrou divisões espúrias, contraditórias, inconciliáveis. Todos pensam a partir do seu próprio umbigo, e o umbigo humano é pleno de vaidades.
Não há, a meu ver, saída para essa clivagem político-ideológica – raiz da condição irreconciliável. As duas margens do rio não se entendem. Há que procurar uma saída para uma “terceira margem”, a daquele personagem roseano. Não se confunda terceira margem com terceira via.
A pós-modernidade cada vez mais está confusa, pois ela se alimenta das superposições espaciais, temporais, das assimetrias, da indiferença e, principalmente, do individualismo exacerbado. E mais: ela sobrevive não da transparência, mas das zonas cinzentas. Não aprecia a claridade solar, mas a penumbra, o lusco-fusco. Filia-se ao caos, promove-o e, assim, mantém-se no domínio de si própria.
Nessa ambiência de superposições, de aberturas e fechamentos pra todos os lados, na contrafação, no jogo das aparências de supostas verdades, a nossa era, o nosso tempo, o temo presente, o “homem presente” drummondiano, se vai desgastando, esfacelando-se no que há de mais lídimo na existência: o respeito à verdade, ao relacionamento entre os indivíduos.
A nossa contemporaneidade deu as costas à autenticidade das pessoas. Ninguém é visto mais em sua pura verdade humana. Nos tornamos servos da indiferenciação dos gestos, das ações. Tudo se fragmentou, até o amor que de virtuoso passou a exercitar o mero interesse gerado pelo endeusamento dos bens do parceiro. Amor contratual. Amizade contratual. Sexo contratual. Não se quer mais a amizade genuína, incondicional, desinteressada. Não se quer mais o amor do tempo do Romantismo. Vive-se hoje a ausência quase completa da elevação dos sentimentos. Onde estão os amigos, que não mais nos querem? Fugiram para os seus nichos, para suas torres de marfins, para seus castelos medievais. Hoje, só vejo a multidão sem rosto, apressada, anônima. Estou perdido no meio dela e por isso, vivo o outono do spleen tardio.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO



          
III

No “Canibalismo dos Objetos”
degluti o teu sapato
como se fora teu pé.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


13 de outubro

AS CAPAS CARDINALÍCIAS

Elmar Carvalho

Recebi recentemente o livro titulado Contos, de José de Ribamar Freitas, do qual fui aluno na UFPI. Tenho procurado cultivar a sua amizade, talvez um pouco por egoísmo, pois com isso tenho desfrutado de sua conversa agradável e tenho procurado sorver sua erudição. As ficções, como não poderiam deixar de ser, são escritas no estilo elevado e austero do mestre, naquela linguagem clássica, que nada fica a dever a Antônio Vieira ou Manuel Bernardes. Dizia Mário de Andrade que conto é o que se chama conto. Com essa resposta, talvez, pretendesse dizer que um conto deve contar algo; ou que um texto que narrasse alguma coisa teria que ser considerado um conto. Com efeito, os textos da obra de Ribamar Freitas, nessa interpretação, são legítimos contos, porque são narrativas, porque contam uma história, porque descrevem acontecimentos e fatos imaginários. O mestre tem uma imaginação fértil, poderosa, e sabe criar o suspense, ao prender a atenção do leitor, com a descrição do ambiente, com a intercalação de episódios menores, porém importantes, com a caracterização psicológica e física da personagem, com diálogos atraentes, em que as suas criaturas revelam o seu espírito e a sua cultura. Ribamar Freitas teve a ousadia intelectual de cometer um longo conto histórico, quase uma novela, cuja personagem principal é nada mais nada menos que o célebre rei Dom Sebastião, desaparecido na Batalha de Alcácer-Kebir, em terras africanas, cujo cadáver nunca foi encontrado, o que fez surgir a lenda e o misticismo do Sebastianismo, em que os portugueses sonhavam com o retorno dele à governança de sua pátria. O mestre fez um belo trabalho de pesquisa, e soube urdir a ambientação e a linguagem da época, sem descurar do contexto histórico em que o texto está inserido. A capa não poderia ser mais atraente em sua singeleza: em letras brancas, encimando-a, vê-se o nome completo do autor, José de Ribamar Freitas, e no meio, em letras maiores, e também níveas, o título CONTOS, tudo vazado sobre um fundo vermelho.

Essa capa vermelha me fez recordar o tratamento gentil que o mestre Ribamar Freitas dedicou a meus humildes livros, que lhe autografei em sua portentosa biblioteca. Entreguei-lhe a segunda edição de Rosa dos Ventos Gerais, que tem um belo estudo dele sobre figuras de linguagem que tenho usado em meus poemas, e conversamos um pouco. Quando eu já me preparava para descer os degraus de sua cobertura, o mestre me fez voltar, e me chamou para ver onde ele iria colocar o exemplar. Acompanhei-o, entre apreensivo e curioso, até um dos compartimentos de sua avantajada biblioteca. O mestre, apontando para o alto de uma das estantes, exclamou: “É ali, entre os poetas ilustres do Piauí, que vai ficar o seu livro”. Não irei, nesta ocasião, ter o cabotinismo de declinar os nomes dos poetas que lá estavam. Depois, em novo critério de arrumação bibliotecária, ele houve por bem colocar meu livro entre outros que tinham textos seus. Não lhe disse, mas é claro que preferia que ele ficasse no lugar que lhe coubera anteriormente. Porém, tempos depois, como uma compensação de que não me acho merecedor, o professor Freitas mandou colocar capas duras, protetoras, vermelhas, sanguíneas, com letras e ornatos dourados, em meus livros. Pareciam vestes talares e cardinalícias, a cobrir a simplicidade de Rosa dos Ventos Gerais e Lira dos Cinqüentanos. Após essa nova indumentária, ele os depôs entre os seus aedos prediletos, em lugar de destaque. Fiquei com a leve desconfiança de que o Mestre, em lugar de me homenagear, queria me matar de emoção. Afinal, já não sou mais nenhum garoto. Devo acrescentar que um gesto espontâneo e sincero como esse tem para mim muito mais valor do que certas medalhas e comendas, que se azinhavram e desbotam ao longo de pouco tempo.     

terça-feira, 12 de outubro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


12 de outubro

 A VELHA E A NOVA CASA

Elmar Carvalho

Após 25 anos morando na mesma casa, com o mesmo número telefônico, que foi apenas acrescido compulsoriamente de um três antecedendo o prefixo original, me mudei para nova casa. Posso dizer que, dentro do que é possível a um ser humano nesta passagem terrena, fui feliz, a meu modo. Meus dois filhos nasceram nesse período, e, portanto, passaram a infância e a juventude nessa casa. Tive bons vizinhos, dos quais tenho boas recordações e nenhuma mágoa. Espero que a recíproca seja verdadeira, e creio que o seja; pelo menos o Batista Vasconcelos me externou a sua saudade antecipada, quando soube que estávamos perto da mudança. Segundo acredito, o ser humano não é uma obra perfeita e acabada, mas em permanente construção. Somos a construção, e somos, em parte, nossos próprios construtores. Disse em parte, porque muitas coisas que nos acontecem e nos influenciam e nos dirigem e movem não dependem de nós. Os arrogantes e os tolos, não aceitam essa hipótese. Eles se “acham”, e acham que estão no controle e no comando de tudo, quando, muitas vezes, um vendaval transforma em pó tudo que eles construíram. Um minúsculo inseto, ou menos ainda, uma simples bactéria pode nos destruir ou nos arruinar a saúde. Já pouco desejo e já não alimento ilusões, a essa altura de minha vida. Quando cheguei a minha nova casa, disse a minha mulher que não mais me mudarei, a não ser para o campo santo. O Didi, um rapaz bom e simples, que nos ajudava na mudança, e que nos prestava serviços e aos nossos vizinhos durante todo esse tempo no conjunto habitacional onde morávamos, ou por brincadeira ou porque a ideia da morte o perturbe, disse que pensava eu estar me referindo a uma futura chácara no campo.

O homem vem para esse mundo e nada traz, como todos sabemos. Deixa esse mundo e nada leva, como também é evidente, tanto que existe um aforismo que diz não ter bolso a mortalha. Por isso, já não desejo fazer esforços em acumular bens e coisas, que nos dão muito trabalho e despesas, na conservação, reforma, revisões e com os locais em que ficarão, sem falar nos tributos, nas taxas, tarifas e na inveja que, às vezes, provocam. De certo modo, tenho inveja do caracol, que é a sua própria casa, que carrega para onde vai. Não é espaçoso e nem perdulário, ocupa apenas o espaço de seu próprio corpo gelatinoso e compacto. Quando morre, seu corpo sem osso, quase etéreo, quase espiritual, parece evolar-se, deixando a concha limpa e vazia, na qual o mar parece marulhar e murmurar cantigas inefáveis. Como disse, me fui construindo na velha casa, tentando desbastar meus defeitos, e a casa também se foi construindo, se adaptando a novas necessidade, através de ampliações e reformas. Nela moraram nossas duas cachorrinhas, que estranharam a mudança. Todavia, já se adaptaram porque o lar das cadelinhas somos nós, que somos a família delas. Elas estando conosco estarão bem, estarão felizes, como estão. Nesses 25 anos fui ampliando minha biblioteca, que ainda quero conservar por algum tempo, até doar os livros para umas duas bibliotecas públicas, em que eles possam servir a um número maior de pessoas. Aos poucos, irei trazê-los para perto de mim novamente, como hoje trarei mais alguns. Trouxe as recordações, trouxe as saudades, mas impossível trazer a concretude das paredes, dos quartos, da sala. Espero que eles sirvam a outras pessoas, como me serviram. Posso dizer que é uma casa abençoada. Afinal, nunca sofreu um único assalto. Peço a Deus que abençoe minha nova casa. E os arcanjos dirão no azul: Amém!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


TRÁGICA CASTIDADE

Elmar Carvalho

Lindalva Lima, após concluir o curso de normalista voltara ao seu pago natal, para lecionar no antigo ginásio. Era filha de Epaminondas Lima, o maior comerciante de Estanhado, de cujo município era prefeito pela terceira vez. A moça fazia jus ao nome: linda e alva, de cabelos louros e olhos azuis. Era considerada a mais bela moça do lugar. Alta e esbelta, caminhava como se desfilasse, com a elegância de uma quase etérea princesa. Além de bela, era delicada e simpática, e era, sem dúvida, a mais cobiçada jovem da cidade, tanto pelos seus dotes físicos e espirituais, como pelo invejável cabedal de seu pai, que além de político e próspero comerciante, era o mais rico fazendeiro da região, tratado como coronel, uma vez que comprara patente da guarda nacional.

Em sua ida diária para o colégio, passava pela casa de Gervásio, um louco manso, que, quando estava melhor, era quase lúcido. Podia ser considerado, nessas ocasiões, como um fronteiriço entre a demência e a sanidade. Invariavelmente, Lindalva lhe dava bom dia e lhe atirava o seu mais lindo e simpático sorriso. Gervásio a olhava amorosamente, enlevado, quase como se vislumbrasse uma deusa inalcançável, que mal pisasse a concretude dura da terra. Ela logo lhe percebeu os olhares amorosos, e não pode deixar de se regozijar com o sentimento que despertara. Um pouco por brincadeira um pouco para alimentar o fogo da paixão que ardia em Gervásio, começou a tratá-lo como “meu noivo”. Em sua debilidade mental, em sua inocência de menino grande, ele começou a acreditar que de fato ela era sua noiva, e comentava com as pessoas sobre isso, sem notar os sorrisos de zombaria e incredulidade do interlocutor. Passou a considerá-la sua noiva, e a chamá-la como tal.

Logo a notícia se espalhou na cidade; Lindalva noivara de verdade. O felizardo era o doutor Manoel Torres, médico recém chegado a Estanhado. Passeavam de mãos dadas, na praça central. Estavam sempre juntos, a dançar nas festas ou aos beijos num dos bancos do jardim público. Não tardou muito, e alguém contou a Gervásio, que “sua noiva” noivara de fato com o médico solteiro, que acabara de vir trabalhar no município. Gervásio ouviu atônito, com os olhos esbugalhados, sem querer acreditar, gritando, por várias vezes, que não, não e não. Depois, como adquirindo subitamente a lucidez começou a chorar copiosamente, sacudido por fortes e sentidos soluços. Foi uma cena pungente, patética, que cortou o coração do jovem brincalhão que lhe dera a notícia. Nos dias seguintes, o louco notou que a moça agora o tratava de forma diferente. Mal o cumprimentava. Já não lhe sorria e nem o chamava de noivo. Quase não o olhava. Já não lhe acenava, a sacudir os graciosos dedinhos. Gervásio sofreu em silêncio. Nunca mais sorriu e pouco era visto na rua. Vivia trancado em seu quarto, imerso em mutismo e solidão. A mãe lhe notou a profunda tristeza. Dizia que o filho estava com uma “mofina”, talvez vítima de mau olhado ou quebranto. Chamou uma rezadeira afamada, que não conseguiu lhe debelar a imensa tristeza, hoje chamada de depressão. Quanto mais o dia do casamento de Lindalva se aproximava, mais Gervásio se recolhia e entristecia. Não comia, não bebia e definhava assustadoramente. Parecia desejar morrer.

Na véspera do casamento, num impulso trágico, vítima de sua insanidade e depressão, Gervásio foi visto mexendo na caixa de ferramentas de seu pai, que era o mais prestigiado barbeiro da cidade. Sua mãe notou que ele levava algo nas mãos. De repente, ela ouviu um grito lancinante de dor, como o uivo de um animal mortalmente ferido. Viu a braguilha do filho toda manchada de sangue. Logo viu caído no chão o membro sexual dele, como um trapo inútil. Ouviu o louco dizer que se não fora de Lindalva, não seria de mais ninguém. Levado às pressas para o hospital, o médico Manuel Torres conseguiu estancar-lhe o sangue, e salvar-lhe a vida. Somente depois, soube que fora o motivo daquela trágica castidade, que o pobre se impusera, como expiação de uma culpa que não tinha. Gervásio morreu solteirão, até porque não tinha a indispensável ferramenta para consumar um casamento. E ainda, de quebra, ficou com o pejorativo apelido de “sem penca”, com que a irreverência impiedosa dos moleques lhe mimosearam.

ANTOLOGIA DO NETTO

TEXTO E CHARGE: JOÃO DE DEUS NETTO


ALCIDES FREITAS

Alcides Freitas nasceu em Teresina, em 4 de julho de 1890. Estu¬dou no Liceu Piauiense, cursou Humanidades e, terminado o curso, em 1906, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Bahia. Na defesa da tese de doutorado, na área de Fisiopsicopatologia, produziu um texto - Da Lágrima - que já revelava o grande poeta que existia dentro de si, pois era muito mais afim à literatura do que à ciência. A tese foi publicada em 1912, o mesmo ano da edição do livro Alexandrinos, escrito em parceria com o irmão Lucídio Freitas.
Publicado em outubro de 1912, o livro Alexandrinos mereceu elo¬gios de críticos de renome nacional, como Osório Duque-Estrada, autor do Hino Nacional Brasileiro, José Veríssimo, Clóvis Beviláqua e Laudemiro de Menezes. Também os piauienses, como Zito Baptista, An¬tônio Chaves, Abdias Neves e Cristino Castelo Branco, aplaudiram a obra de estréia do poeta.
Conta a professora Socorro Rios Magalhães que, antes mesmo do lançamento do primeiro livro, os jovens poetas Alcides Freitas e Lucídio Freitas já gozavam de grande prestígio entre os conterrâneos. "A par do pendor pelas letras, demonstrado desde a infância, e dos estudos superiores feitos fora do Estado, eram ainda filhos de Clodoaldo Freitas, naquele tempo já uma legenda no meio intelectual e político do Piauí", destaca a professora.

Fonte: TAVARES, Zózimo. Sociedade dos Poetas Trágicos. Vida e obra de 10 poetas piauienses que morreram jovens. 2ª ed. Teresina, Piauí: Gráfica do Povo, 2004. 122 p.
Colaboração de Elmira Simeão, página publicada em julho 2007.

sábado, 9 de outubro de 2010

OBSERVATÓRIO DA VIDA

ALCIONE PESSOA LIMA


Em união com a vida sinto a felicidade...
Embalada por uma canção de amor.
Na minha serenidade é tão certa
quanto a promessa de um botão de flor...
Inspiro o tempo e a criação. Expiro o medo.
Conheço o enredo da solidão.
E afasto-me do ruído do mundo...
Que bom poder sentir as curvas e sinuosidades do caminho
E me desviar dos espinhos como uma criança...
As raladuras farão as cicatrizes necessárias.
Talvez toda essa viagem seja o que há de melhor.
Emoldurada, a vida é um quadro que gosto de apreciar.
Se tão de perto, embaça o meu ponto de vista.
Se mais de longe, consigo perceber sua harmonia.
Essa a razão de jamais perder a esperança
E estar sempre disposto a reacender o espírito.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


II

Ó mulher amada
de tristes olhos perdidos parados
que o rito de tua gênese divina sublima
de busto transparentemente dissolvido
na neblina de agreste solidão
que toma a forma de teus seios
de teus seios que tomo em minhas mãos
de teus seios que são laranjas e maçãs.
E teus seios se fazem vales
pelas vertentes das nádegas.

TORRE DE BABEL

PÁDUA SANTOS
APAL – Cadeira 01

Fernando Castro

“Por isso foi chamada Babel, porque ali o Senhor confundiu
a língua de todo o mundo. Dali o Senhor os espalhou por toda a
terra.” (Gn 11.9)

A PRAÇA DA GRAÇA - local mais conhecido, mais visitado e mais lembrado do centro da cidade de Parnaíba, sempre teve, tem, e terá suas histórias, suas lendas e suas memoráveis mentiras. Ali, segundo informação dos mais velhos, existiu uma frondosa e famosa mangueira que por muito tempo teria emprestado sua larga e bondosa sombra às mais diversas conversas e fuxicos de gerações passadas.

Tempos depois, e também tempo passado, em uma de suas esquinas, o saudoso Cine Teatro Éden abriu e fechou suas portas – portas de paraíso, como insinua o nome; portas fechadas para sempre, ou melhor: portas lacradas por força da televisão e engolidas pelas bodegas de vender balangandãs.

Ali naquela praça, e na hora que terminava a sessão das 18h e 30min do velho Éden, iniciavam-se os rodeios humanos mais famosos da história parnaibana. Os homens volteavam em uma direção e as mulheres em sentido oposto. Em cada encontro, um piscar de olhos ou outra frescura qualquer. As mulheres andavam sempre em bando de três ou quatro, ou do tanto permitido pelas pistas circulares. Sempre de mãos dadas e sorridentes, iam se mostrando aos homens que preferiam não circular e optavam em ficar parados, usando os postes de iluminação como escora, mas obrigatoriamente fumaçando – quem não fumava era considerado “baitola”, e as propagandas de tabaco eram sempre bonitas e convidativas, constantemente estampadas em todos os meios de comunicação.

Estas caminhadas em círculo, repetidas em todos os finais de semana, terminavam na hora em que as famigeradas tertúlias da AABB tinham início, ou impreterivelmente às 22 horas, quando as mulheres, obrigatoriamente acompanhadas de um parente mais velho, geralmente um irmão, os “comedores de cocadas”, dirigiam-se às suas residências deixando que os homens, aqueles que tinham algum dinheiro, procurassem o rumo de um cabaré geralmente localizado na Coroa, hoje Bairro do Carmo, ou então na Nova Parnaíba, que nesta época era quase toda desprovida de calçamento. Os mais “lascados”, era assim que se chamavam aqueles sem posses, rumavam à Guarita, atualmente Bairro São Francisco. Ali, além das mundanas baratas, geralmente se deparavam com a polícia ou com a ponta de uma peixeira afiada. Os finais de noites destes namoradores da praça nunca foi um saudável lazer para um jovem sexualmente enamorado, mas era esta a lição que recebiam por herança e como demonstração de machismo dos seus antepassados.
Dentre tantas outras coisas que se abriram e se fecharam ao longo daquele quadrilátero, ou mais precisamente nas suas esquinas, uma não será facilmente esquecida, pelo menos enquanto permanecer vivo o último pinguço que um dia sentou-se, conversou e embriagou-se nas mesas de um inesquecível e simpático bar que imperou, nas décadas de 60 e 70, e que se localizava bem ali, sob o número 723, na esquina formada pela dita praça e pelo início da Rua Riachuelo.

Ali acontecia tudo aquilo que informa o primeiro livro do Pentateuco, no que diz respeito ao excerto citado à epígrafe, ou seja: ali, dado ao excessivo consumo de rum, acontecia a Babel, muitos falavam de uma só vez e poucos ou ninguém entendia o que era dito. Com o passar do tempo e por tê-los “espalhado o Senhor”, muitos partiram para lugares distantes e raramente nos visitam. Outros partiram para lugar mais distante ainda e não nos visitarão nunca mais. E quanto “à torre”, esta sempre se fazia presente, principalmente na mesa do Gervásio, que por coincidência é também artista do desenho, tal qual seu irmão Fernando, que por sua vez, é parceiro na feitura deste livro*, como autor das ilustrações que acompanham as crônicas.

Gervásio, por ser o mais inteligente e o mais hábil no manejo do copo, me parece que melhor sabia dosar sua cuba libre colocando mais coca, mais limão e menos rum. Não ficava facilmente embriagado e, à moda da época, ia amontoando, equilibradamente, os copos vazios um dentro do outro para que, ao final, o garçom fizesse a contagem. E assim, quem passava nas proximidades do saudoso botequim, que tinha o sugestivo nome de Bar Fortaleza, podia facilmente visualizar, em aparência vitrificada, aquela histórica e contrabalançada Torre de Babel.

* O livro aqui referido terá o título de “Crônicas Ilustradas”, conta com a parceria do artista plástico Fernando de Castro e, salvo novo entendimento, será lançado por ocasião do próximo SALIPA.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


6 de outubro

 PANEGÍRICO COM PITADA DE HUMOR

Elmar Carvalho

O advogado Daniel Gonçalves, que foi meu colega no curso de Direito, na UFPI, recordou alguns dos nossos condiscípulos. Disse que o Terceiro e o Luís Meneses haviam falecido. Eram dos mais velhos da turma, porém bem relacionados. Com referência ao primeiro, eu gostava de dizer que ele podia ser o terceiro até para a sua mãe, mas que para mim era o primeiro. O segundo, foi vice-prefeito de Timon. Meses atrás o vi na Clínica Lucídio Portella, em companhia de familiares. Algo me disse que sua situação parecia ser grave. Agora, soube que morreu. Era filho do senhor Meneses, colega de meu pai nos Correios, em José de Freitas, quando lá moramos, durante um ano e poucos meses. Nesse período, meu pai trouxe para nossa casa um prato de fina iguaria, na hora do almoço, dizendo que se tratava de um pombo. Dividiu com a família. Comi com entusiasmo e sofreguidão. Meu pai me perguntou se eu havia gostado. Respondi que sim. Perguntou que gosto tinha. Disse-lhe que era semelhante ao de uma galinha. Meu pai sorriu, e disse que havíamos comido uma gia, preparada pelo senhor Meneses. Não me dei por achado, e pedi mais. Não havia mais. Ainda hoje sinto o gosto mais que gostoso daquela gia, magia gastronômica preparada pelo Menesão, pai de meu falecido colega de farto bigode a la Sarney.

Por causa de minha tirada com o Terceiro, lembrei-me de uma outra, esta relacionada com o professor Cordão, de quem não tive a honra de ser aluno. Ia eu descendo o Alto da Jurubeba, ou seja, a colina da igreja de São Benedito, quando o avistei dentro de seu automóvel. Apesar de conhecê-lo da Academia Piauiense de Letras, inclusive tendo ido a sua posse, que por sinal fora muito concorrida, não tinha intimidade com ele. Mas ao vê-lo, me veio o impulso de fazer uma brincadeira. Nessa época, ainda jovem, eu perderia o amigo, mas não perderia a piada. Abordei-o da seguinte forma: “Professor, o senhor pode ser Cordão para sua mulher, para seus filhos, para seus netos, mas para mim o senhor é um cabo, cabo de aço, e se for cordão, é cordão de ouro!” Hoje, mais amadurecido, ou mais velho, se o leitor preferir, não sei se tiraria essa pândega com alguém mais velho, com quem não tinha maior proximidade. De Cordão, além do magistério e do profissional da saúde, na área da bioquímica, resta a lembrança imperecível de um homem que foi bom, e que prestou inestimáveis serviços no campo da assistência social, como um voluntário que envidou relevantes esforços em prol dos excepcionais, sobretudo por ter liderado a APAE por vários anos. Paraibano, fez por merecer os títulos honoríficos de cidadão teresinense e piauiense. Era formado em Bioquímica e Farmácia. Morre o homem e fica a fama, diz a música da velha guarda. E fica o exemplo, acrescento eu.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO




5 de outubro

O GOLEIRO E O POETA

Elmar Carvalho

Neste domingo, falei ao telefone com Roberto Veloso. Foi meu colega no curso de Direito, na UFPI. Fiz parte de sua chapa, que concorria ao Diretório Central dos Estudantes. Embora bem votados, perdemos a eleição. Após o término da faculdade, foi ser promotor de Justiça no Maranhão. Atuou na Comarca de São Bernardo, onde conheceu meu amigo Antônio Gallas Pimentel, jornalista e escritor, então empregado do Banco do Brasil naquele município. Posteriormente, logrou êxito no concurso para juiz federal. Pediu remoção para o Piauí, onde esteve pelo período de poucos anos, porquanto resolveu retornar ao Maranhão. Nessa sua temporada piauiense, voltamos a nos reencontrar algumas vezes, em eventos maçônicos, solenidades do Poder Judiciário e em atividades futebolísticas. No esporte, atuava predominantemente como goleiro, no time da AMAPI, tendo eu sido seu reserva na curta temporada em que retornei às práticas pebolísticas, tanto porque ele treinava mais, como pelo fato de que é bem mais novo do que eu, sem descartar a justificativa de que antiguidade é posto, e ele era mais antigo na equipe. Certa feita, ao contar esse fato a uma pessoa, cujo nome já não recordo, esse amigo, revelando ter um legítimo espírito sarcástico, disse-me que dava por visto a minha qualidade de golquíper, uma vez que eu era reserva do Roberto, que não era nenhum “aranha negra”. Contudo, contesto: eu e o Roberto Veloso éramos bons goleiros, e não tenho notícia de termos tido alguma indigestão em virtude de termos engolido algum “frango” escandaloso. Ao telefone, revelou-me estar abandonando o esporte.

Algumas vezes conversei com ele sobre cultura e literatura. Quando eu dizia alguma irreverência ou ironia, Roberto soltava uma retumbante gargalhada, em sua maneira simpática, espontânea e expansiva de ser. Na viagem que fez para conhecer as nascentes do Parnaíba, na campanha de preservação do Velho Monge, contaram-me que ele, dentro do barco, ao passar pela ribeirinha Comarca de Ribeiro Gonçalves, em que fui juiz, teria recitado uns versos de minha autoria. Se não estou enganado, isso foi à noite, e os versos eram do meu poema Noturno de Oeiras; ele, com a sua voz grave e profunda, empostando-a para um timbre quase fantasmagórico, dizia que era meia noite, e metade era silêncio, metade, solidão. Por outras pessoas, inclusive pelo Dr. Ivanovick Pinheiro, defensor público desta minha atual Comarca de Regeneração, tenho conhecimento de que ele sabe de cor trechos de poemas meus. Devo dizer que numa época em que poucos leem, mormente poesia, que se queda como a mais tímida e a mais esquecida das artes, isso termina sendo um grande elogio, sobretudo por não ser de corpo presente, em obediência aos hipócritas salamaleques das convenções sociais. Mandei-lhe um e-mail, com o endereço de meu blog. Respondeu-me que o visitaria, e que me considerava um grande poeta. O “grande” fica por conta de sua bondade e estima. Como prova do que acabo de contar, ao telefone recitou-me vários versos de meu poema Auto-Apresentação, no qual digo que joguei roleta russa com o tambor cheio de balas e que apostei contra a sorte. Contou-me que, ao recitar esses versos em sala de aula, um aluno, em aparte irreverente, retrucou que o revólver batera catolé. É uma grande alma, e sabe apreciar e reconhecer os dons e os méritos dos outros.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


O CHAPÉU ESFAQUEADO

Elmar Carvalho

Na cidadezinha de Livramento, naquele final de tarde, o tenente Antão Rezende estava entediado. Nunca mais ocorrera um homicídio, nem mesmo uma simples briga, com socos, tapas e pontapés. Sentado num tamborete, à sombra do prédio da delegacia, olhava a paisagem seca de outubro, que a colina e o terreno baldio lhe permitiam ver, ao longe. Tinha pouco estudo. Mal terminara o primário, mas possuía muita experiência e sabedoria de vida. Tinha o prestígio político da família e o apoio do chefe de Polícia do Estado. Embora a época fosse a do auge da ditadura Vargas, em pleno vigor a chamada “Polaca”, o Antão não se considerava autoritário nem atrabiliário, conquanto muitos o tachassem de linha dura. Olhava o cajueiro, vergado de flores e frutos grandes e amarelos. Nem uma folha se mexia, no tempo seco e quente. De repente sentiu a canícula nordestina afagar sua pele, num beijo fugaz e ardente, como a baforada de uma fornalha. Ao longe, avistou um caboclo a cavalo. Na frente da delegacia, diariamente, passavam os rurícolas, que vinham de Boa Vista vender seus produtos e comprar coisas na cidade, ou à procura de tratamento no pequeno posto médico. A brisa começou a se transformar num vento mais forte. O céu começou a escurecer rapidamente. Tudo parecia prenunciar uma daquelas extemporâneas chuvas, que o povo chamava de chuva dos cajus. O delegado notou que o matuto vinha um tanto apressado, com o cavalo esquipando na terra nua.

Quando o cavaleiro já se aproximava da frente da delegacia e cadeia pública, veio um pé de vento mais forte e derrubou-lhe o chapéu de palha. Um tanto aborrecido, o homem desceu da montaria e foi buscar o chapéu, que o vento arrastara durante alguns metros, até deixá-lo enleado numa pequena touceira de mato. Repôs o objeto na cabeça. Colocou o pé no estribo e fez força para subir. Quando já se preparava para passar a perna esquerda para o outro lado da sela, nova ventania carregou o chapéu, desta vez para mais longe, até o empecilho de uma cerca de arame farpado. Agoniado, já com uma ponta de raiva, foi buscar o chapéu, que só colocou na cabeça, quando pegou as rédeas do animal. Ao colocar novamente o pé no estribo, como se fosse uma birra ou uma brincadeira de mau gosto, um vento forte, quase um redemoinho, fez o chapéu empreender um belo voo, a rodopiar e a planar como se fosse uma grande ave ou um pequeno disco voador. O sombreiro do matuto foi pousar a poucos metros de onde estavam o delegado e o cabo Felismino, de alcunha Cascavel. O caboclo, afogueado, quase apoplético, ainda mais porque tomara um quarteirão de pinga na bodega de Zé Lima, na entrada da cidade, não respeitou as autoridades, e puxou da bainha uma grande faca, do tipo peixeira, afiada a capricho, como se fosse uma navalha de barbeiro, e desferiu várias facadas no chapéu, que até fazia dó.

O delegado, que tudo observava, não vacilou um segundo, e incontinenti mandou o cabo Cascavel prender o caipira, e dar-lhe um chá de cadeia de 48 horas, para que ele acalmasse os nervos e respeitasse a presença da autoridade. Quando indagado, por parente do caboclo, sobre o motivo da prisão, respondeu que quem fazia aquela maldade com o seu próprio chapéu, que só lhe fazia o bem, ao defendê-lo do sol, seria capaz de fazer muito mais, quando contrariado, contra o seu semelhante. Se algo fizera alguma coisa errada, teria sido o vento; que ele costurasse de facadas o vento, e não o chapéu. Mandou que Cascavel guardasse o sombreiro esfaqueado, como prova do crime. Porém, cautelosamente, houve por bem não instaurar o inquérito. Podia ter pouco estudo, mas não era besta. Aliás, se considerava sábio e justo, a distribuir o que considerava ser a sua justiça salomônica.

CÁRCERE PRIVADO: UM TRECHO DO COTIDIANO

DANIEL C. B. CIARLINI


            Pode até parecer loucura, peço que me creiam: Não é! Na madrugada de hoje aconteceu algo que julgo além do comum, e isso me atormentou deveras. Passavam das duas horas, creio eu, não deu tempo de conferir no relógio (também, que a escuridão não ajudava), e após concluir alguns apontamentos, ler algo pendente, resolvi, por bem, a fim de amenizar, quem sabe (tudo me parecia incerto), o peso da insônia, entregar-me aos não-chamados de meu aposento noturno. Não afirmo que me foi uma experiência infeliz, tampouco aterrorizante, como é na concepção de alguns; digamos ser, o que vivi por aqueles instantes, algo transcendental (seria esta a palavra?) e inconstante... Incoerente? Não sei. É sabido que só se entende o que quero dizer quem um dia passou por um momento tão singular como este que estou a vos relatar e que eu resumiria numa só palavra: Único; já que tudo que impressiona, em primeira instância, marca e se torna inesquecível. Com as luzes apagadas, apenas ao som de um simples ventilador que parecia esforçar-se a embalar meu sono, de repente, fui pego por vozes e gritos de sofrimento. Elas participavam de minha mente como que de maneira alucinógena. Pareciam tão presentes, tão reais que não me desacredito da estória que se lapidava..., parecia, sim, meu cérebro as absorver aos fluídos onipresentes de uma transmissão involuntária. Naqueles poucos minutos, entregue a uma inquietação que soerguia minha essência tão despedaçada pelo perceptível, tomei de uma caneta, um papel, dantes à deriva, e assim escrevi o seguinte descerramento:

            O homem era impaciente. Gritava com a filha como se a coitada tivesse a noção da rudeza de um adulto. Suas palavras ásperas entrecortavam-se aos choros e embargos temerosos; o sujeito afrouxava de suas calças o cinturão. Não iria bater na menina, pelo menos era o que pensava inicialmente, porém, observar aqueles olhos infantis apavorados, banhados de lágrima e suor, com os pulmões faltando o fôlego, já tão incontido, parecia-lhe algo para lá de aprazível. “Sou um monstro?”. Ele não era normal, e talvez nem soubesse. A fim de aterrorizar ainda mais a inocente alma, desferia inúmeros golpes pelas laterais que circunscreviam o miúdo ser. Tremia-se. Não era assim coisa tão boa, pelo menos para alguém que se julgue normal, observar aquelas pequeninas mãos que de tão trêmulas, a cada chicotear (como que prevendo serem as suas carnes as próximas vítimas dos ataques), demonstravam não apenas um nervosismo, mas desespero; era impossível aperceber-se dos detalhes. O que se via, em tal cena, nas mãozinhas, a que me refiro, era somente o róseo do anel de plástico e a pulseira brilhante de um falso ouro esverdeado; aquele, veio de brinde na bonequinha que ganhou dos avós no último natal...

            - Mas paizinho, por favor...
            - Cala a boca, sua moleca – e um novo e ensurdecedor chicotear chilreava naquele velho assoalho.
            - Juro, pai, – sem conseguir pronunciar as palavras, prosseguia a garota – juro que nunca mais, nunca mais, pai, vou incomodar o senhor com os assuntos de meus livros...
            - Você sabe o que significa 100 reais, mocinha? Sabe quanto dá isso de dinheiro?
            - Não paizinho, mas é que...
            - ... Isso é uma fortuna – a voz dele não era amena, era rude, uma tremenda gritaria. Pingos de saliva voavam em direção aos olhos da menina, que, de tanto medo, esforçava-se em não pestanejar. Poderia, ele, o seu pai, achar aquilo um insulto: “a saliva é minha, é do seu pai; tem agora nojo do seu pai, Gabriela?” – Você tem que me respeitar, sua moleca – e outra chicotada atingia o piso.

            Gabriela era um a menina dedicada, de família simples, nunca teve a oportunidade de estudar em bons colégios – a rede pública era um desastre.  Nunca teve, sequer, um livro que não fosse emprestado ou a título de devolução, a cada final de ano, à escola; mas naquela tarde, a garota, que de uns tempos para cá tinha tomado um enorme apreço pela leitura, havia pedido, com orçamento em mãos, uma meia-dúzia de clássicos da literatura mundial, ao que o pai a teria repreendido:

             - Isso é coisa de desocupados, menina. Vai, vai... Vai brincar de bonecas, vai! Vai arrumar alguma coisa para fazer na cozinha.
            - Mas pai, eu queria tanto... Pensei que por meu aniversário ser na próxima semana eu pudesse ter ao menos um.
            - E você veio aqui me fazer chantagem, é garota?
            - Não pai...
            - ... É sim! Você está ficando igualzinha à sua mãe. Quanto custa essas porcarias?
            - Noventa e seis reais...
            - ... Quanto?! Não ouvi direito!
            - Noventa e...
            - Está maluca?! Você acha que dinheiro é encontrado na lixeira, por acaso, menina? E outra: Acha mesmo que vou desembolsar todo esse valor para comprar de livro? Ah! Faça-me o favor...
            - ... Mas papai, aprendi na escola que livro é cultura, é o maior investimento que se faz ao crescimento de uma pessoa.
            - Crescimento?! Investimento?! Ah! Grande porcaria mesmo, Gabriela, o que faz alguém crescer bem nesta vida são apenas duas coisas, preste bem atenção: Boa comida (e para isso já ralo muito para colocar dentro de casa) e dinheiro no bolso; o cara só vale o que tem!
            - Mas pai, é que eu pensava...
            - ... Você não deve pensar é em nada. Isso, já te disse, é um absurdo, compreende? Não baixe a vista, estou falando com você, olhe para mim. E quer saber de outra coisa? Essa sua carinha de choro, de menina desabrigada, de que perdeu alguém num desastre de avião e não sabe o que fazer, de que está morrendo, já está me irritando. Por favor, – ele repreendia com mais veemência – por favor, repito, Gabriela, saia já da minha frente antes que eu perca as estribeiras de uma vez só e te machuque de verdade, por hoje basta – e como se não bastassem os leves insultos e repressões à própria filha, conclui: – Sai daqui que, abusado hoje, não quero mais nem ouvir a sua voz fina irritante.   

            Gabriela parecia desiludida. Cabisbaixa seguiu o caminho do modesto quartinho que tinha nos fundos da casa. A esperança em se ler o desejado esvaia-se perdido na enorme vontade de debruçar-se em algo que julgava o maior anseio... “Tantos, tantos, meu Deus, podem comprar um livro, mas gastam com besteiras, é a grande diferença: Quem tem não quer e quem não tem só sonha afogado nas ilusões”, ela pensava (seria aquele um pensamento infantil? Por certo, Gabriela estava além do seu tempo...). Lembrava da mãe, do quanto era carinhosa, do quanto a tratava como uma verdadeira bonequinha de pano... Uma lágrima escorria pela sua face quando as costas da mão direita a espalhou exacerbadamente, numa mistura de lágrima, nacarada tez e restos de maquiagem... A menininha crescia e, em flashes, recordava de Gardênia feliz, na penteadeira, conversando com ela, ao tempo em que se aprontava para dormir ao lado do pai, que naquele tempo era outro: Escova, perfume, pó-de-arroz... Agora entendia que tudo aquilo era vaidade, uma vaidade não-moderna, uma vaidade tão rara hoje em dia – era a sua mãe um modelo. A sua querida e amada mãe, pura e angelical – quanto orgulho sentia...

            - Mamãe a senhora é tão bonita...
            - Você acha, filha?
            - Sim eu acho, parece um anjo...
- Ah, é?
-  E quando passa batom fica parecendo uma deusa.
            - Ah, minha linda, muito obrigada! Mamãe te ama tanto, sabia?
            - Eu também, mamãe.
            - Olha, filha, nunca esqueça de uma coisa: As mulheres têm que saber se cuidar.
            - Hum...
            - As mulheres nunca devem perder a essência feminina, a essência de se ser mulher, delicada. Nunca nos devemos negar.
            - Delicada, mamãe?
            - Sim, querida, e ser delicada não significa ser fraca, significa ser mulher. As mulheres são muito fortes, mais até que os próprios homens, você haverá de um dia saber quando estiver na idade certa.
            - A senhora gosta muito de se cuidar, não é verdade?
            - Claro, querida, toda mulher que se preze nunca perde a postura, veja eu, por exemplo, durmo sempre linda ao lado de seu pai, e isso faço com o maior gosto, ele é um homem maravilhoso... – e o sorriso puro da mãe esvaia-se, como fumaça, da memória.

            - Gabriela ainda está acordada?
            - Estou me aprontando para dormir, “paizinho”...
            - Não quero saber, apague essa luz, vou contar até dez...
            - Espera só um minutinho pai...
            - Um...

            Corria contra o tempo.
Rapidamente, depois de todo aquele devaneio de lembranças, olhava para todos os lados como que querendo se situar, saber o que estava mesmo procurando: “o que, o que mesmo, meu deus... Ai! Me ajude, pai celestial...”.

            - Dois...

            Dizia baixinho, consigo mesma:
           
            - Certo, tudo aqui: Camisola, lençol...
            - Três...
            - ... Meu relógio! Tenho que tirar meu relógio, papai detesta que eu durma com ele no braço...
            - Quatro...
            - Ai! Os meus dentes! Não, não posso escová-los mais, não tenho mais...
            - Cinco...
            - ... tempo!
            - Tá bom, já estou indo!
            - Seis...
            - Que saudades de mamãe...
            - Sete...
            - Estou desligando...
            - Oito... Muito bem! Vá dormir, amanhã temos um dia muito grande pela frente.

            A lua descia, o sol surgia, e mais uma vez o ciclo da vida era reiniciado.

domingo, 3 de outubro de 2010

MULHER NA LAGOA DO PORTINHO

ELMAR CARVALHO



Na tarde antiga
de sol e bruma
de luz e penumbra
as dunas mudaram
de cores e formas.

Os belos olhos esplendentes –
pálidas cálidas opalas ou
esmeradas esmeriladas esmeraldas –
da mulher bonita
de sinuosas dunas e viagens
furta-cores furtaram
outros tons e sobretons.

Ainda guardo a memória viva
daquela tarde morna e morta
e ainda vejo aqueles olhos vivos
furtando furtivos cores e atenção.

E os olhos e as formas curvilíneas
permanecem intactos no tempo
que em mim não passou.

E a mulher, acaso passou,
nos escombros das formas
transitórias da beleza?...

sábado, 2 de outubro de 2010

A SAFRA ESTÁ ACABANDO

CUNHA E SILVA FILHO




Para aqueles adolescentes do meu tempo que, pelo menos, em Teresina, no Piauí, (e acredito que em outros lugares do país, ou mesmo em outros países) costumavam ir ao Rex ou ao Theatro 4 de Setembro, na Praça Pedro II - o locus amoenus das lindas meninas que lá frequentavam -, ou dela eram habitués, para dar-se uma tonalidade nostálgica a essa escrita, em seus círculos de mãos dadas sob o olhar atento e conquistador daqueles rapazotes, os filmes americanos, sobretudo, de aventuras, de caubóis, na linguagem da época, chamado por aqueles jovens de “soldado contra índios, históricos ou românticos, então denominados “filmes de amor”, eram a rotina do entretenimento maior aos sábados e domingos. 
Durante os dias de trabalho, pais ou filhos davam uma espiada nos cartazes anunciando os próximos filmes a serem exibidos nas manhãs, matinês ou à noite.Oh, como se amava ir ao cinema naquela época! É claro que havia filmes brasileiros, as chanchadas de Oscarito e Grande Otelo, os filmes com Zé Trindade, os de amor com Cil Farney e sua parceira Eliana e, na Páscoa, a velha fita, sempre repetida por muito tempo, da Paixão de Cristo, com aquela velha imagem tremendo e gasta. Não se podia também esquecer os filmes de Superman, do “Gordo e o Magro”, de Bud Abbot e Lo Costello, de Tarzan (sobretudo com John Weismüller,Lex Barker, Gordon Scott) os filmes mexicanos com Arturo de Córdova, os franceses, com Alain Delon, Brigitte Bardot, os italianos, com Gina Lollobrigida, Sofia Loren, Amedeo Nazzari, Marcello Mastroniani, os filmes da lindíssima austríaca Romy Scnheider, o magnífico filme de Fellini, “A dolce Vita”. Isso para não se falar dos grandes ídolos de Hollywood, os galãs da nossa época e da época de nosso pais. Eram tantos e hoje inesquecíveis: Gary Cooper, Clark Gable, John Wayne, Alan Ladd, Tyrone Power, Burt Lancaster, Kirk Douglas, Jeffrey Hunter, Victor Mature, William Holden, Marlon Brando, James Dean, Paul Newman, Rock Hudson, Robert Taylor - paixão de mamãe -, sobretudo do filme “A ponte de Waterloo” com a belíssima Vivian Leigh, Não vou enumerá-los todos nem me alongar com os nomes inesquecíveis de lindas atrizes americanas e de outras procedências.
Vou-me deter num que faleceu anteontem, Tony Curtis, nome artístico de Bernard Schwartz, considerado pelas minhas amigas mais velhas de então como o mais belo de todos, verdadeiro Apolo para o olhos suspirosos daquelas jovens. Com os seus belos olhos azuis, seu rosto bem definido, sua elegante cabeleira negra e sedosa, seu corpo esguio, seu olhar brincalhão, Curtis conquistou milhares de corações femininos. Nenhuma jovem, bela ou menos bela, faltava a um filme com Tony Curtis.
Os jovens, em casa, até procuravam, inclusive eu, imitar o corte do cabelo do galã, nascido em New York a 3 de junho de 1925, filho de pais húngaros, imigrantes pobres que foram se instalar no bairro do Bronx. Naquele tempo, quem imaginaria ver, tantos anos depois, o belo Curtis velho e em cadeira de rodas? Pois Tony Curtis, arrebatador de tantos corações no mundo, envelheceu. O tempo é implacável. A velhice chega, muda a fisionomia, despoja a beleza, a pele fina, a rigidez, os movimentos rápidos e harmoniosos daquele que fez num de seus mais de cem filmes o papel de um trapezista cheio de encanto de sedução.
Curtis, segundo dados de sua vida, casou seis vezes, era namorador, tipo playboy, meteu-se em apuros com drogas e álcool. Uma vida cheia de emoções e aventuras amorosas – esse é o tributo que todo grande galã por vezes paga ao seu destino.
Por duas vezes, fora indicado para um Óscar pelo seu desempenho no filme “Quanto mais quente melhor”, com a artificialmente louríssima e sedutora Marilyn Monroe e pelo filme “Acorrentados” (1958). Ao deixar de interpretar, dedicou-se com êxito à pintura, que lhe rendeu boas somas em dólares e exposições de quadros no Metropolitan Museum of Art, de Nova York.
Sua primeira esposa foi a bonita Janet Leigh. A última era-lhe mais nova uns quarenta anos.
Curtis, segundo vi pela TV, numa última entrevista desejava uma coisa: que nunca fosse esquecido. Não o foi, pelo menos para mim e seguramente pra outros brasileiros e estrangeiros. Este supergalã, entretanto, confessou ter um pequeno complexo. Quando alguém numa entrevista, falando-lhe dos dotes físicos com que a natureza o prodigalizara, declarou, naquele jeito muito seu de olhar de garotão envelhecido, que gostaria de ter mais alguns centímetros de altura. Nem precisava se soubesse que, no mundo inteiro, no seu pleno vigor físico e estético, milhares de fãs dariam a vida para conquistar-lhe o coração.
A sua lembrança ficará para sempre guardada através de muitos de seus filmes, como “Houdin” (1953, “Trapézio (1956), “Spartacus” (1960) e outros, não tão famosos mas que me deixaram saudades. De dois me lembro apenas que interpretava o papel de um piloto, de outro era um cavaleiro medieval. O seu desejo de ser lembrado se cumpriu.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

E AMIGOS DE VERDADE FICAM PARA SEMPRE EM NOSSOS CORAÇÕES...

HORÁCIO LIMA

Foto surrupiada, através da internet, do blog Bitorocara, do amigo Netto (link ao lado). É uma forma de homenagear o jornal A Luta, em que comecei a publicar meus textos, aos 16 anos de idade. Octacílio Eulálio era um dos colaboradores e incentivadores do periódico. (Elmar)


Andou por aqui em junho nos festejos um amigo que não via há uns bons trinta e tantos anos. Desses amigos que reencontramos através do blog Bitororocara. Antes de vir trocamos e-mail. Ele me dizia que viria porque queria me reencontrar depois de tantos anos. Trouxe consigo uma foto que eu já nem me lembrava mais que existia, de quando nos encontramos em São Paulo, capital, nos idos dos anos 70. Horácio é o nome dele, irmão do De Paula, velhos companheiros do sofrimento de fazer o saudoso jornal A LUTA, junto com Severo, Carioca, Milanês e quantos outros. Na última vez que nos vimos aqui me deu um texto escrito num papel, do qual transcrevo trechos onde fala de fatos que eu não me lembrava mais, como quando ele começou a trabalhar no jornal como gráfico. (Zeferino Alves Neto - ZAN)

Existem pessoas em nossas vidas que nos deixam felizes pelo simples fato de terem cruzado nosso caminho.
Às vezes por ter me dado um minuto de sua atenção e me ouvido falar de minhas angústias.
E amigos de verdade ficam para sempre em nossos corações, assim como as pegadas na alma são indestrutíveis.
Nesse caminho cruzei com Zan e num momento de impulso lhe abordei na sua bicicleta ali próximo ao Mercado Velho.
Foi um impacto de improviso, pois meu objetivo era lhe pedir uma vaga para trabalhar no Jornal A Luta. Zeferino concordou em conversar comigo no dia seguinte lá na sede do jornal, seria o meu primeiro emprego na cidade. Fui para casa com essa expectativa.
Cheguei ao jornal ali na avenida José Paulino nas primeiras horas da manhã do dia seguinte, logo depois chegou o Zan, cabisbaixo e coçando repetidas vezes os seus primeiros fios de barba branca, dirigiu-se ao canto da sala onde estava uma surrada e velha vassoura de palha de carnaúba que me entregou e disse:’comece por aqui varrendo a sala’... eu não me intimidei e obedeci a sua determinação.
Se naquele dia e momento eu tivesse ouvido um não, talvez fosse a minha maior decepção e frustração, tanto era o meu desejo de ingressar, talvez eu tivesse um dom natural de escrever e ler poesias e me admirava as matérias publicadas no jornal.
Guardo com gratidão e honradez esse gesto de atenção e bondade do Zan, ressaltando que na época do jornal A Luta, trabalhávamos com as ferramentas herdadas de Gutemberg, pois não tínhamos a tecnologia de BillGates.
Tínhamos sim, naquele jornal, muita energia de corpo e alma, coragem, diligência, zelo, ânimo, vigor, esforço individual e comprometimento com a população local, cuja redação era composta por Totó Ribeiro, Octacílio Eulálio, Zeferino Alves Neto, Ernani Napoleão, Zé Branco, José Miranda Filho, Áurea Paz, Jesus Araújo, Jesus Paz, Teresinha Nascimento e tantos outros. Resumindo: adentrei-me no berço da cultura campomaiorense.
Caro Zan, é muito gratificante quando alguém não fale um Não e te dê uma oportunidade e com o passar dos anos, esse seu gesto de bondade ficou fixado na minha memória e na história do jornal A Luta.
Entendo que cada ser humano tenha o seu sentimento diferenciado e você fez a diferença a meu favor.
Se eu não tivesse ingressado no jornal ou ouvido uma negativa , talvez hoje, não tivesse aqui relatando essa pequena história real de vida e gratidão.
A minha última colaboração e empreitada pelo jornal A Luta, deu-se em janeiro de 1973, quando deixei a rua Cel. Eulálio Filho, antiga casa do Estudante, com profundas saudades e tristezas, dali para frente um futuro incerto e hoje sabido.
Caro Zan, a vida não é uma corrida, mas sim uma viagem que deve ser desfrutada a cada passo. Lembre-se, caro Zan, ontem é história, amanhã é mistério e hoje é uma dádiva, por isso se chama PRESENTE

Horácio,
Junho/2009


GRANDE HORÁCIO, VOCÊ ME DEU UMA FACADA NO PEITO, COMPANHEIRO...

Nesta foto que tiramos no Parque da Luz, em São Paulo, por volta de agosto de 1973, em que estamos além de mim e você, os conterrâneos Miguel Ribeiro, Carlos Amaral e Dora Ibiapina, quanta lembrança daqueles tristes anos de sofrimento naquele fim de mundo que era e é São Paulo, eu magérrimo, me recuperando de uma gripe de quase me leva pro túmulo (talvez não tenha morrido porque apareceu lá na quitinete em que dividíamos nossa saudade apareceu o Dora Ibiapina fazendo aqueles bolinhos de farinha com ovo que aos poucos me levantaram as forças pra que os remédios que eu tomava fizessem efeito...) Dora deve ta no céu com aquele seu jeitão tranqüilo e sorriso maroto de amigo e companheiro... Miguel e Carlos estão por aqui por perto. Você continua heroicamente resistindo em São Paulo. Cara, é impossível controlar as lágrimas enquanto digito este texto. Sinal de que ainda estamos vivos e viveremos por mais uns decênios, pelo menos... (ZAN)