terça-feira, 16 de abril de 2019

Baurélio Mangabeira



Baurélio Mangabeira

Reginaldo Miranda (*)

                Benedito Aurélio de Freitas, por alcunha Baurélio Mangabeira, nasceu às dezoito horas do dia 18 de julho de 1884, na fazenda “Pau d’arco”, Município de Piripiri, filho de Aureliano de Freitas e Silva e Izabel de Freitas e Silva. Era seu avô paterno o notável padre Domingos de Freitas e Silva, o principal fundador da cidade de Piripiri e dona Jesuína de Freitas e Silva; e materno Porfírio de Freitas e Silva e dona Joana de Freitas e Silva (Na declaração de seu nascimento, por ele feita, informa que nasceu em 19 de junho de 1890, na cidade de Piripiri).

Órfão de mãe desde o nascimento, vez que a genitora morrera no parto, e de pai desde os cinco anos de idade, foi criado sob os cuidados da tia e madrasta Carolina Rosa da Silva, tendo em vista seu pai depois de viúvo ter convolado novas núpcias com uma cunhada, como a anterior sua sobrinha, com quem teve mais três filhos. Sem pai e sem mãe, transcorreu sua meninice sem muito regramento, desde cedo correndo solto nos arredores de Piripiri, banhando em riachos, subindo em árvores, armando arapucas para apanhar aves e fazendo outras estripulias típicas de menino de fazenda. É quando foi aberta pelo professor Nelson Francisco de Carvalho, uma escola de primeiras letras para alfabetizar as crianças de Piripiri, que até então não existia. O menino Benedito Aurélio foi mandado imediatamente para essa escola, surpreendendo o mestre pelos rasgos de inteligência. Concluída essa etapa, aos 12 anos de idade, foi enviado pelo avô Porfírio de Freitas e Silva para a cidade de Barras, onde concluiu os estudos primários, os únicos cursados em escola regular, prosseguindo como autodidata.

Completada a maioridade, muda-se para a cidade de União, “onde começou a trabalhar em misteres humildes e depois como balconista na farmácia Guerreiro, daquela cidade. Daí passou para a farmácia do Sr. Tersandro Paz, em Floriano e Teresina. Nessa última, que então era o melhor estabelecimento no gênero, neste Estado Baurélio habilitou-se como farmacêutico prático e conseguiu juntar um pecúlio regular, com o qual começou a comprar livros. Em seguida surgiu pela imprensa publicando sonetos líricos amorosos, mas que chamavam atenção (...) pela cadência, ritmo e beleza de imaginação”. Em toda a sua vida, foi essa a fase em que esteve mais equilibrado financeiramente. Por esse tempo se qualificava como farmacêutico licenciado.

Todavia, “à proporção que ia ingressando no Parnaso e que o estro se desenvolvia calorosamente com aspectos panorâmicos de belezas transcendentais, ia o poeta afrouxando a dedicação ao trabalho quotidiano”, entediando-se até abandoná-lo completamente e entregar-se de vez à boêmia, primeiro em Parnaíba e depois em Teresina e outras localidades, consumindo todas as suas economias. Entregou-se ao vício do alcoolismo e tabagismo. Desde então, passou a viver com dificuldades financeiras.

Na poesia iniciou-se seguindo a tendência naturalista defendida por Mauricio Le Blande e Émmile Zola. Somente depois, impressionado com a leitura das poesias satíricas de Bocage, tornou-se humorístico e causticante. Por esse tempo, publica Sonetos Piauienses(1910), panfleto de versos humorísticos e agressivos. Nessa ocasião, lembra Alarico José da Cunha em seu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, principal fonte dessas notas e autor das citações entre aspas, que “um dos atingidos pelas sátiras do poeta, ameaçou-o de um surra em plena rua de Teresina. Tendo conhecimento da desagradável promessa, Baurélio dirigiu-se ao Chefe de Polícia, (...), solicitando que este providenciasse no sentido do seu agressor adiar a surra por uma semana, pelo menos, a fim de poder ele terminar um serviço que havia começado”. Felizmente, a tal promessa não se concretizou e nosso poeta pôde continuar circulando livremente pelas ruas de Teresina.

Sobre esse volumeto de versos de tiragem reduzida, hoje completamente desaparecido, assim registrou o jornalista Elias Martins, redator-chefe do jornal O Apóstolo:



“Do inteligente moço B. Freitas que, em nosso meio é conhecido pelo pseudônimo Baurélio Mangabeira, recebemos um pequeno livro, Sonetos piauhyenses, fineza que agradecemos.

‘Não nos sobra espaço para uma apreciação cabal do trabalho do sr. B. Freitas; mas da ligeira leitura que fizemos, vimos que ali há sonetos escritos com inspiração.

‘São versos puramente piauhyenses, vazados alguns em feio realismo. Não nos soube bem aquele mau gosto do autor em escolher cenas indignas de reprodução, de preferência a outras tão belas que não só estimulariam o estro, como salpicariam de graça e candura as páginas de um livro. Achamos extravagante a predileção do autor que, pode ser, doutra vez, procure inspirar-se em coisas mais limpas” (O Apóstolo, 10.7.1910).  



Esse julgamento severo daquele órgão de imprensa, certamente deve-se ao caráter satírico da publicação.

Alarico José da Cunha, no indicado discurso de posse lembra também a engenhosa e interessante versão do poeta para o seu pseudônimo. Porque sua desditosa mãe houvera feito uma promessa para São Benedito, santo de sua predileção, mas este os abandonara à própria sorte, desprezou o nome do taumaturgo, mas em reverência à veneração da mãe conservou o B inicial e etimológico que, junto com a palavra Aurélio, parte do nome de seu pai e do grande imperador filósofo Marco Aurélio, deu em resultado a palavra vibrátil, elegante e sonora Baurélio. E porque o sobrenome Freitas pouco lhe dizia, substituiu-o por Mangabeira, nome de uma árvore que por aqueles dias era fonte de riqueza no Piauí, produzindo magnífica borracha. Para ele, Baurélio Mangabeira, significava poder, sabedoria e riqueza – os três principais fatores do progresso e da civilização.

Jornalista andarilho, repentista e tribuno ardoroso, andava com um prelo portátil e em qualquer parte onde estivesse editava seu jornal A Jornada, periódico ambulante que manteve por vários anos, sendo ele sozinho e a um tempo, redator, revisor e tipógrafo. Redigia, compunha, executava clichês de madeira para ilustrar o jornal e, afinal, o imprimia. Modelava também em zinco e era exímio desenhista, pintor, xilógrafo e escultor. Colaborou também nas revistas Alvorada(1909), Litericultura(1912), Via Lucis (1913, pertencente ao Grêmio Literário Abdias Neves, de Teresina) e nos jornais A Chaleira, O Porvir, O Norte, O Grito, A Letra e O Periperi. Consagrado na literatura, em 1917 participou da fundação da Academia Piauiense de Letras, tomando assento na cadeira n.º 6.

Contraiu matrimônio, um tanto retardado, em 21 de junho de 1927, na fazenda Sentinela, do termo de Alto Longá, onde exerceu o cargo de juiz distrital, com a senhorita Raimunda de Oliveira Freitas, filha do capitão Possidônio Otaviano do Nascimento e de sua esposa Feliciana Oliveira do Nascimento, residentes naquele termo. Do consórcio deixou os seguintes filhos: Francisco de Assis Freitas, nascido em 1928 e falecido na cidade de Piripiri, com treze anos de idade, em 21 de dezembro de 1941; Maria de Lourdes Oliveira Freitas, nascida em 23 de julho de 1931, na cidade de Piripiri; e, José Henrique de Oliveira Freitas, nascido em 15 de maio de 1933, na casa de residência de seus genitores, situada à Rua Lisandro Nogueira, cidade de Teresina.

Para Alarico da Cunha, “Baurélio Mangabeira foi sempre um torturado na sua peregrinação terrena e uma vítima da indiferença do meio. Mantinha, entretanto, uma verve chistosa e humorística, com a qual disfarçava gostosamente os seus pesares ou ‘as tormentas da vida’” (CUNHA, Alarico José da. Discurso de Posse. Revista da APL n.º 17. Teresina: Imprensa Oficial, 1938).

Faleceu Benedito Aurélio de Freitas, o popular poeta Baurélio Mangabeira, em sua residência situada na Rua Clodoaldo Freitas, cidade de Teresina, à uma hora da manhã de 16 de abril de 1937, com quase 53 anos de idade, sendo o corpo sepultado no cemitério São José. Falando à borda de seu túmulo, na tarde daquele mesmo dia, e em nome da Academia, disse o consagrado poeta Celso Pinheiro:



“É finda a tua missão! Desabotoaste em flores de carne e flores de espírito. O sentimento é ainda uma força eterna, inextinguível. Não foi em vão que sofreste. Dor é imortalidade...

‘Serviste ao coração e à inteligência. O teu esforço foi coroado com o azul dos céus. Honraste a Deus. Sê em paz. Com o fósforo do pensamento acenderemos hoje, em tua honra, a vela de uma lágrima, grande iniciado da religião do Silêncio!...

‘Sê em paz...” (Rev. APL n.º 16 – Dez./1937. P.183/189).

Em 1914, durante confraternização de seu aniversário natalício, compôs esse soneto, citado pelo Prof. Mardoqueu Marques, seu amigo, em panegírico feito na sessão de 24 de maio de 1937:



NA MINHA DATA



Nessa terna ilusão da vida flórea,

Armaram-me a facão, à foice, à enxada,

Para limpar os rumos dessa Estrada,

Que levam a gente sã à Eterna Glória.



Passo vista aos rebanhos. A Alvorada

Desata a minha rede e cita a história

Da gente parva, torpe, merencória,

Da gente fartamente acanalhada.



Amolo a ferramenta. Sigo o prumo...

Canaviais desmanchando em níveo sumo,

Tirando aos parreirais sangue africano...



Faço na terra impávido mistério!

- Tanto povo a passar p’ro cemitério,

E eu caladinho faço mais um ano!



Em homenagem à jovem esposa, publicou este outro soneto:



Naquela tarde lírica e serena,

Cheia de encanto e dúlcida visão

Eu te senti, mirífica falena,

Dentro do meu sensível coração...



Por terras do Longá, paragem amena,

Eu cavalgava no arenoso chão,

Perante a nívea lua do sol na arena...

Verdes, espessos matos do sertão



Foi quando ouvindo os pássaros cantando,

Que meus olhos de bordo foram olhando

O pátio da fazenda Sentinela...



E estavas tu, senhora feiticeira,

No terreiro da casa hospitaleira,

Ó divina mulher! Criatura bela!

                  (A Jornada, 25.9.1927. IN: MATOS, J. Miguel. Os fundadores. 2.ª  Ed. Teresina: APL, 2018)



Ainda como mostra de sua produção literária, seguem alguns poemas:




FAZENDA



Dorme tranquilo o campo esmeraldino

Logo que a noite cai sobre a morada;

E o tempo calmo como um bom destino

Ronda a noturna região sagrada.



Cantam rios de fluido cristalino

Perante humana vida sossegada

Quando em momento lúcido, divino,

Surge da treva fulva madrugada.



As aves chilram despertando a gente!

O vaqueiro aboiando à luz nascente,

Desce ao curral de gordas vacas mansas.



No pátio da fazenda urra o novilho!

A vaca lambe o pequeno filho

Sobre o vasto sertão cor de esperanças.

                                      (MATOS, J. Miguel. Os fundadores. 2.ª  Ed. Teresina: APL, 2018).



REVELAÇÕES



Não julgues que, se a sorte não maldigo,

Seja porque minha alma não sofreu

Os travos da desgraça – agro castigo,

Que dizem vir do inferno ou vir do céu.



Pouco tempo meu pai viveu comigo:

Cinco rápidos anos e morreu.

E minha mãe, com lágrimas te digo,

Dentro de algumas horas faleceu.



Escuta lá: Nos cemitérios vastos

Os ossos de meus pais devem estar gastos

Pelo tempo que tudo estraga e rói...



Olha: quem nessa estrada cai,

Sem ter mãe, minha filha, e sem ter pai,

Há de sentir o quanto a vida dói...



CANÇÃO



É da luz dos teus olhos, luz que eu amo,

Que vem todo este amor à alma que tenho...

Os teus olhos no meu refletem a flux,

                         Doce luz!

- Dois rouxinóis cantando num só ramo:

Doce ideal da vida em que me empenho.



Do róseo dos teus lábios, cor que eu amo,

Vem todo este prazer à alma que tenho...

Unamos, minha flor, teus mornos lábios

                       Nos meus lábios...

Dois rouxinóis beijando-se, num ramo:

Doce ideal no amor que em mim contenho.



Dos contornos dos seios, seios que amo,

Vem todo o amor que em mim contenho.

Unamos o teu peito no meu peito...

                       Doce leito!

- Dois rouxinóis unidos, num só ramo:

Doce símbolo da vida que não tenho.



Noivo – envolvido em tétrica tardança...

Louco! Penso que às vezes me detestas.

Prende-me à rósea detenção do seio...

                 Doce enleio!

- Quando virás, ó última esperança,

Trajando o verde augusto das florestas!.

                      (Diário do Piauhy, Teresina, 10.5.1914).



PALINÓDIA

                    Aos meus irmãos Totônia, Chiquinha e Aurélio.



Quando eu morrer, sensíveis criaturas,

Filhas de Carolina e Aureliano,

Dispenso as vossas lágrimas tão puras,

E o vosso amor por mim, tão soberano!



            Isolem-me entre estranhas sepulturas,

            Que este é o prazer real de que me ufano.

            Oh, me não chorem ternas criaturas!

            Morto não penso e disso me não engano.



Vossa virtude e a de meus pais não mancho!

Deixai-me lá no verdadeiro rancho,

- Palácio sepulcral da Eternidade.



          Deixai-me sossegar! Deixai-me só!

          O coração do morto desce ao pó

           Como um monstro insensível à saudade!

                                    (O Apóstolo, 1.10.1911).



POR QUE FOI?



Por que foi terna luz da minha vida,

Encanto, sedução, doce ventura,

Que me levaste à dor, à desventura,

Ao frio, à treva, onde não medra a vinha?



Por que foi, terna luz que em mim fulgura,

Encanto, sedução, grandeza minha,

Que me negaste a festival ventura,

Dando-me triste vida que eu não tinha?



Por que foi, luminosa luz celeste,

Encanto, sedução, visão radiosa,

Que eterna dor e pranto à alma me deste?



Por que foi que eu, sofrendo esse tormento

Odiar-te não pude, alma de rosa.

Nem também te apagar do pensamento?!

              (A Pacotilha, Maranhão, 19.12.1919).





FOLHA DE MEU DIÁRIO



Amigos – não os achei na vida minha,

Até triste momento em que hei vivido,

Pobre sorte a que eu tenho. Ninguém tinha

Posto reparo assim que eu tenho tido.



Já tinha eu reparado em minha vinha,

Que a bondade é rebento mal nascido,

Que a lhaneza é uma droga que se vinha,

Que se torna em vinagre mal curtido.



Neste século repleto de ambição,

Cheio de indesejosos e cretinos

Fechemos o capítulo da razão!



Fechemos o capítulo da Virtude!

Este século presente, meus meninos,

Inda ilude a vocês mas não me ilude.

                         (A Pacotilha, Maranhão, 24.3.1920).





SONETO



Sóis que andam a rondar as infinitas

Zonas infinitíssimas, astrais,

Castiguem, astros do bem, os animais

Que andam compondo legiões malditas.



Ah! Ser humano – és mísero demais...

Nasces cantando os hinos das desditas,

Morres sentindo n’alma átras vinditas

Que Deus concede aos pálidos mortais.



A lei de Jeová deu p’ra ser lida,

Perturba a humanidade pela dor,

E é mais ou menos isto –infame sorte!



1º art. – a luz saudando a vida!

2º art. – o mal sagrando o amor!

§ § finais – sombras de morte.

                             (A Pacotilha, Maranhão, 2.10.1914).



ESPERANÇAS



Batem à porta rude das Chimeras,

Em breve, as Esperanças foragidas!

E dos Sonhos sonhados noutras eras,

Resta o cortejo de ilusões vencidas.



Hão de findar p’ra sempre as Primaveras...

E o tempo a evoluir, em arremetidas,

Há de trazer-nos úmidas Taperas...

E esperanças revivem noutras vidas!



Em fuga as ilusões que alimentamos...

E o nosso Amor em fuga, porque andamos

Comboiando fatais desesperanças...



E neste rumo, aos trambolhões e aos trancos,

Vamos em busca dos cabelos brancos,

Para esquecer as mortas Esperanças...

                         (O Pharol, Cuiabá, 29.5.1909).

   
(O presente texto foi publicado inicialmente nos jornais Notícias Acadêmicas, Setembro/2010 e Meio Norte, 29.10.2010. Foi ampliado pelo autor).

______________________

(*) REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Atual presidente da Associação de Advogados Previdenciaristas do Piauí Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br     

domingo, 14 de abril de 2019

Seleta Piauiense - Hermínio Castelo Branco



Um ajuste de casamento num serão de farinhada
(Fragmento)

Hermínio Castelo Branco (1851 - 1889)

(...)

Ligeiro o rodo percorre
Sobre o forno fumegante,
Impelido com mestria
Pelo braço do João Bento,
Conhecido entre os roceiros
Pelo tio – João Quadria.

Uma mulher quarentona,
Junto dum cocho sentada,
Tendo nas mãos a peneira
Se remexe, diligente,
Sacudindo a urupema,
E separando a crueira.

Na tacaniça do rancho,
Sibila a roda cortante,
Sobre os eixos discorrendo,
Entre os pulsos vigorosos
De dois roceiros robustos,
Na matraca rebatendo.

No banco do cevador,
Orgulhosa do trabalho,
Naturalmente escanchada,
Uma matuta gorducha,
Aplica no caititu,
Grossa mandioca raspada.

Grita a raiz comprimida
Sob os dentes da rodeta,
A seiva longe esguichando;
E chove a massa gomosa,
Pelas esteiras do cocho,
Alvas colunas formando.

A cevadeira reclama
Outro cofo de mandioca,
Que nas pernas agasalha,
Tendo, antes, o cuidado
De arranjar sobre as coxas
As dobras duma toalha.

Entretanto os puxadores,
Deixando, por um momento,
O férreo veio da mão,
Limpam bagas de suor,
Amarrando na cintura
A camisa de algodão.

Grande tulha de raízes,
No centro do ranchozinho,
Se eleva à cumeeira,
Reforçado pelos cofos,
Que se despejam cantando,
Conduzidos na carreira.

Velhos, moças e rapazes,
Sem ordem, sem distinção,
Ali, em roda, sentados,
Sob apostas inocentes,
Raspam mandioca ligeiros,
Com seus quicés amolados.

Dum lado numas gamelas,
Três mulheres ocupadas,
Com os braços seminus,
Em tirar a tapioca,
Espremendo a fresca massa,
Para fazer os beijus.

No terreiro, bem varrido,
Sobre a branca e fina areia,
Pela lua prateada,
Os meninos, reunidos,
Brincam no joão-galamarte
Em confusa gargalhada.

Eis o quadro meu leitor,
Que apresento, fielmente,
A teus olhos pouco afeitos
A essa vida inocente
Do matuto, honesto, honrado,
Que trabalha no roçado.

(...)

Fonte: Lira Sertaneja, 1988, Projeto Petrônio Portella/Academia Piauiense de Letras   

sábado, 13 de abril de 2019

ÉTICA E MORAL: VIRTUDES MAIORES DO SER HUMANO



ÉTICA E MORAL: VIRTUDES MAIORES DO SER HUMANO       

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)
      
                Andamos tão descrentes de tudo e desacreditando de todos, que fatos publicados pela mídia, ouvidos ou sabidos em decorrência de processos interativos ou comunicativos, interpessoais, importantes ou não, quando não os descartamos, sumariamente, não têm sido motivo para reflexões mais sérias. Se lhes interessam, os menos céticos até tentam confirmar informações vindas de fontes sobre as quais não deveriam recair quaisquer dúvidas, ou ainda que disseminadas por pessoas ou veículos de prestígio e/ou idoneidade, pretensamente, inquestionáveis.

                Parece, se formos levados a considerar, ao pé da letra, determinadas intervenções feitas por pessoas ou entidades, em que possam estar em julgamento aspectos éticos ou morais, que ninguém mais pode ser diferenciado ou prestigiado pelo uso que faz ou pela valorização que atribui a tais preceitos. Ou seja, virtudes morais e éticas poder-se-ia, infelizmente, tomar, hoje, por algo que não mais separa os homens bons e probos, dos cafajestes, bandidos ou amorais. Tão poucos, no entendimento de muitos, possuem-nas que, por isso, não passam de exceções residuais. Melhor considerar a todos vítimas da falta de ética ou de valores morais, do que se arriscar colocar a mão no fogo em defesa dos que não padecem de essas falhas existenciais. É como se disséssemos – concordando com George Bernard Shaw, para quem o segredo do sucesso é ofender o maior número de pessoas -, sem que com isso pudéssemos estar ofendendo os bons, que melhor e muito mais fácil seria colocar a todos nos mesmos nichos ou situações; desse modo, não lograriam êxito os que ousassem se ofender por não quererem estar posicionados ou entre os indivíduos indignos de respeito ou credibilidade, já que todos estariam reunidos, senão pelos defeitos morais e éticos, não por suas virtudes, o que tornaria ninguém melhor ou pior do que seus pares.

Fato é que não existe um ranking ao qual alguém possa reivindicar, naturalmente, um posicionamento compatível com seu grau de idoneidade moral e ética, e isso fica patente a partir do momento em que as pessoas, para ganharem tempo ou não se preocuparem, passam quase a não reconhecer méritos morais e éticos em quem quer que seja.

                Para comprovar e, aproveitando o ensejo, encerrar este arrazoado, pretendemos dar exemplos de como andamos igualando todo mundo pelo que a humanidade tem de pior: a falta de ética e o abandono aos princípios morais que devem nortear o homem em suas inter-relações e interações com seus pares.

Como funcionário público que, no exercício de suas funções, por dever de ofício, embasado em critério moral ou ético inquebrantável, tem a obrigação de guardar sigilo sobre os fatos, os documentos e as ações que orientam, disciplinam, controlam nosso mister laboral, temos visto o órgão para o qual prestamos serviços colocando em cheque a intrínseca e racional naturalidade daqueles princípios éticos e morais, quando, a despeito do fato de havermos, ao tomar posse e entrar em exercício funcional, jurado cumprir as leis, regulamentos e regimentos que norteiam a profissão que abraçamos, vez ou outra, ou melhor, tantas vezes, reiteradamente, emitindo instruções, orientações, portarias, memorandos, enfim, documentos que tentam nos ensinar mais do que seja moral e ética, a nos comportar segundo ditames que aqueles instrumentos legislativos e administrativos lecionam a respeito dos mesmos. Parecem desconfiar os homens, alguns de entre nós mesmos, funcionários, colegas de profissão, gestores, de que, sem a formalização ou oficialização de normas que, coercitivamente, nos orientem e induzam a agir, moral e, eticamente como cidadãos e profissionais ilibados, probos e honestos, não conseguiremos sê-los.

                Outro exemplo. O presidente da República, em um decreto fresquinho, que entrará em vigor no dia internacional do trabalho, vem determinando aos servidores públicos federais como se dirigir, oralmente ou por escrito, a quase todas categorias funcionais de trabalhadores e funcionários públicos, exceto a turma do poder judiciário, ministérios públicos e de outros entes estatais: deveremos tratar a todos por “senhor” ou “senhora”. Vossa senhoria, vossa magnificência, doutor, ilustríssimo, digno ou digníssimo, respeitável, excelência ou excelentíssimo, somente se os que assim quiserem ser tratados, dispensarem-nos compatível tratamento. Ou seja, estaremos sendo antiéticos se não seguirmos tal norma legislativa. Fato é que, enquanto perdemos tempo com demagogia, picuinhas e cerimonialismos, o mundo pensa em coisas mais sérias.

                Enfim, quiséramos estar corretos ao considerar que os homens nascem predestinados a ser moral e eticamente honestos, que o convívio social com aqueles que não valorizam tais princípios é que estraga a muitos; também desejaríamos estar certos se disséssemos que as pessoas precisariam, sim, ser segregadas ou reunidas por suas diferenças e semelhanças em aspectos vários, dentre eles, os princípios morais e éticos aceitos, conhecidos e, racionalmente, respeitados por todos que, independentemente, de normas ou regras esdrúxulas, descabidas, reconhecem-nos como indispensáveis à prática da convivência em sociedade.   

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Uma praça da Academia Parnaibana de Letras



Uma praça da Academia Parnaibana de Letras

Pádua Marques, cadeira 24 da APAL


Se eu tivesse que pedir um favor ao prefeito Mão Santa, este pedido seria bem simples. Ele que tem sido tão cuidadoso com a estética da cidade de Parnaíba ao construir e inaugurar praças para o lazer dos nossos filhos, certamente que não se furtaria a este meu pedido, que tenho certeza não é tão dispendioso.

Certamente quando a prefeitura tivesse recursos para tal, visto que neste momento a atenção está voltada para a reconstrução de ruas, casas e regiões alagadas pelas chuvas. Porque sendo escritor e membro da Academia Parnaibana de Letras, creio que abraçaria com toda a atenção este meu pedido, que o faço em nome de todos os membros.

Que em se construindo uma praça, que este espaço de passeio das mães e pais com seus filhos e por aqueles que às vezes pedem recolhimento para a leitura de um livro ou jornal, que esta praça se chamasse Praça da Academia Parnaibana de Letras.

E que na sua inauguração cada membro, tendo condições de saúde ou que quisesse, plantasse uma muda de árvore da variedade a seu gosto. Seria uma forma de deixar para as futuras gerações, netos, bisnetos, a população em geral, aos amigos que devem  lembrar sempre o nosso nome, quem fomos, eternizados por uma árvore.

Humberto de Campos talvez quando plantou no quintal de sua casa aquela castanha de caju nunca imaginou que ainda hoje, transformada em árvore, é objeto de veneração por todos os parnaibanos e turistas e pesquisadores.

Sei que as pessoas, até mesmo dentro da nossa entidade de cultura hão de achar fantasiosa esta minha ideia. Sinceramente eu gostaria que daqui a muitos e muitos anos, cinquenta, cem anos ou mais, meus descendentes  ao passear por alamedas tão bem arborizadas pudessem à sombra de um ipê, mangueira, castanheira ou outra espécie, ler um livro de minha autoria.    

quarta-feira, 10 de abril de 2019

HOMENAGEM A PÁDUA RAMOS




Com a presença de fiéis, acadêmicos,  secretários do  governo municipal,  e amigos do extinto,  foi realizada ontem ao meio-dia, na Catedral de Nossa Senhora da Graça,  em Parnaíba, missa em  intenção da alma do economista Pádua Ramos,   pela passagem do Sétimo Dia de seu falecimento.


Apesar da inconveniência do horário, meio dia, quando muitas pessoas, inclusive acadêmicos, ainda estão em seus trabalhos, a missa teve uma boa participação.
A Academia Parnaibana de Letras se fez representar pela presença do seu presidente   José Luiz de Carvalho, do secretário geral Antonio Gallas e dos acadêmicos Alcenor Candeira, Roberto Cajubá, Dilma Ponte e  Israel Correia que   na ocasião representou o seu pai, acadêmico e ex-presidente da APAL  dr. Lauro Correia.

Antes da benção final os avisos e mensagens dos que não puderam comparecer. Valdeci Cavalcante informou que devido compromissos em Brasília não poderia estar presente em Parnaíba nesta data. A professora e acadêmica Christina de Moraes Souza foi representada pela acadêmica Dilma Ponte.

Em seguida o acadêmico e  Secretário da Chefia de Gabinete da Prefeitura de Parnaíba Israel José Nunes Correia usou da palavra para fazer uma homenagem ao parnaibano  e homem público falecido em Fortaleza na data de 02/04/2019.

Eis como se pronunciou Israel Correia:

BREVES PALAVRAS SOBRE ANTONIO DE PÁDUA FRANCO RAMOS

Em Parnaíba, aos  dias do mês de fevereiro de 1935, o penúltimo dos filhos do casal Raimundo Ramos Vieira e Hermilia Franco Ramos nasceu e, ao completar 20 anos de idade, partiu para Fortaleza, deixando firmes laços de amizade na cidade com as famílias Correia e Velloso, mas o jovem Pádua  Ramos –  acima de tudo e de todos –  viajou certo de cultivar amizade e veneração eternas pelo professor que considerou legendário, o professor de português, José Rodrigues, o qual não só o influenciou, mas toda uma geração de parnaibanos.

A simpatia de José Rodrigues ao integralismo, fez Pádua Ramos e João Paulo dos Reis Velloso, amigos católicos, líderes do movimento integralista nesta cidade, sendo fundadores de um Centro Cultural integrante de uma Federação dos denominados Centros  Culturais da Juventude (CCJ)  os quais eram ligados ao Partido de Representação Popular (PRP) liderados por Plínio Salgado.

Quanto ao Partido de Representação Popular, Pádua  Ramos não ingressou em suas fileiras. Apenas participou de reuniões domingueiras. Não tinha a vocação para a política partidária. Interessava-lhe  a política cultural.

João Paulo foi o amigo que lhe emprestou os livros de Plínio Salgado para leitura e,  no meio integralista, Pádua denominou-se “Águia Branca”.

Outro decisivo mentor de Pádua Ramos foi Alberto Silva que o agregou  ao mais íntimo grupo de administradores a serviço de seus projetos políticos, desde passagem por cargo público no Ceará.

Por seu mérito pessoal e por confiança nele depositada por Alberto Silva que apresentou suas credenciais a Virgílio Távora, Pádua Ramos ocupou a presidência do Banco de Desenvolvimento do Estado do Ceará e do Banco do Estado do Ceará (BEC).  A esse tempo, não era apenas bancário, pois já receberá inscrição de número 15 do Conselho de administração do Ceará.

Participou, no Piauí do governo de Alberto Silva, em seus dois mandatos. No primeiro deles, nos anos 1970, titular da Secretaria de Planejamento, foi responsável pela criação da Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí, a fundação CEPRO, inigualável centro irradiador da inteligência Piauiense.

No segundo do mandatos, retornou a Teresina para exercer a presidência do Banco do Estado do Piauí.

Inclui-se em seu currículo, a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, onde respondeu por operações da SUDENE  vinculadas ao FINOR –  Fundo de Investimento do Nordeste e ( honra nossa)  Academia Parnaibana de Letras da Qual foi membro por ser autor de importantes livros sobre as políticas públicas e de planejamento social: ” em busca do â

Ângulo Alfa”  e ” Manual de Desenvolvimento Social e Econômico do Município” talvez os mais relevantes.

Em sua última fase da excepcional trajetória, brilhou como consultor de empresas e governos (estaduais e municipais).

Certamente Plínio Salgado deu grande contribuição para personalidade de Pádua Ramos que não morreu sem deixar registrada  sua sugestão para a juventude brasileira estudar o movimento integralista, lendo duas obras do líder que o  fascinou e que considerou o brasileiro mais preparado para exercer a presidência do Brasil.

A ler ” Direitos e Deveres do Homem” e  “Psicologia da Revolução”, Pádua Ramos iniciou “construção” de um verdadeiro cidadão; de um  intelectual digno da Ciência e da Arte;  de um focado e produtivo gestor público;  e de um sensato efetivo consultou

ANTONIO DE PÁDUA FRANCO RAMOS Terminou seus dias sendo orgulhoso homem integralista,  mas o meu pessoal orgulho sempre foi o de conviver, ainda que por breve período da minha vida, com esse homem integral: um homem que se dedicou à Religião; à Estética; e, ao social!

IGREJA

Fonte: Site da APAL / Fotos: José Luiz

domingo, 7 de abril de 2019

Rio Surubim

Foto: Luselene Macedo


RIO SURUBIM (*)

José Francisco Marques
Professor, cronista e instrumentista

Rio Surubim, saudade das “maçãs” inalcançáveis que não peguei, emergidas sob a sua abundante correnteza. Das densas matas ribeirinhas exploradas por puro ímpeto juvenil. Das acrobacias ao me jogar ao rio, da ponte desafiadora que a mim aparecia. Rio Surubim que me levava ao “Cantinho”, esconderijo secreto de minhas dores. Rio Surubim que levou/lavou mágoas, enfim.

Hoje te mostra imponente outra vez, talvez a me procurar alucinado na profusão de tuas infindas águas. Rio, meu rio que sempre traz na sua fluência a minha melancolia que nunca estancou.

Nota: Cantinho era a fazenda que meu pai possuía na época.   

(*) Acabei de receber o texto acima, da lavra do amigo Zé Francisco, com foto anexa de Luselene Macedo, do blog Super Campo Maior, e já o repassei aos frequentadores de nosso sítio virtual.

Seleta Piauiense - José Henrique Licurgo de Paiva

Fonte: Google


Queixas

José Henrique Licurgo de Paiva (1842 - 1887)

Não me queixo dos outros só gozarem
Os prazeres do mundo encantador,
Nem maldigo a ninguém, de inveja infame,
Por no baile inspirar a muito amor.

Não me queixo da vida que outros levam,
Nem de nunca num baile delirar;
Não me queixo! Talvez até dou graças!
Gosto mesmo já pouco de bailar!

Só me queixo do fado que me segue,
Negro fado, meu Deus! Que não tem fim!
Que me arranca na vida as longas penas
Da esperança gentil do serafim.

Não me queixo, meu Deus! Do mundo inteiro
Ser feliz, quando eu sofro em solidão!
Não me queixo! Só sinto é que, tão moço,
Viva em gelo meu pobre coração!

Dá, Senhor, que esta vida não perdure,
Que eu não morra no ermo a que me impus;
Seja embora depois sacrificado,
Chore ao peso depois de imensa cruz!     

sábado, 6 de abril de 2019

Escritor Itamar Abreu Costa agora é imortal da Academia Piauiense de Letras



O médico José Itamar de Abreu Costa tomou posse como novo imortal da Academia Piauiense de Letras em solenidade na noite desta sexta-feira 05 na Assembleia Legislativa do Estado do Piauí.

Durante a formação da Mesa de Honra a professora e acadêmica Dilma Ponte foi convidada para tomar assento como representante da Academia Parnaibana de Letras e também, representando as demais Academias presentes ao evento.


O discurso de recepção foi feito pelo médico psiquiatra e acadêmico Humberto Soares Guimarães.

Além da escritora Dilma Ponte,  os acadêmicos  Breno  Ponte  de Brito ,  Valdeci  Cavalcante ,  Altevir  Esteves ,  Anchieta Mendes de Oliveira e Elmar Carvalho, todos  membros da Academia Parnaibana de Letras.

  

Itamar foi eleito para Academia Piauiense de Letras em Dezembro do ano passado e ocupará a cadeira de nº 18, cujo patrono é José Lustosa da Cunha Paranaguá (Marquês de Paranaguá) (1821- 1912).
Os ocupantes da referida cadeira foram os seguintes:

1º Ocupante: José Félix Alves Pacheco (Félix Pacheco) (1879-1935)

2º Ocupante: José Burlamaqui Auto de Abreu (1899-1978)

3º e último ocupante : Herculano  Moraes da Silva Filho (1945 – 2018)
  

O novo imortal é graduando em medicina pela Universidade Federal do Pará, tem  um vasto currículo de serviços prestados ao Piauí, principalmente na área médica,  sendo um dos mais respeitados cardiologistas do Estado. Fundou o hospital Itacor que atende pacientes de várias partes do país, principalmente dos Estados nordestinos. 

Fonte: BPG. Fotos: BPG/DPB. Edição: APM Notícias.   

SUGESTÕES PARA UM MELHOR CONHECIMENTO DOS ESCRITORES BRASILEIROS REGIONAIS


SUGESTÕES PARA UM MELHOR CONHECIMENTO DOS ESCRITORES BRASILEIROS REGIONAIS

Cunha e Silva Filho

RESPOSTA A UM IMPORTANTE ARTIGO DO ESCRITOR E POETA GEOVANE MONTEIRO SOBRE A POSSIBILIDADE DE TORNAR MAIS VISÍVEIS ESCRITORES BRASILEIROS DE TALENTO QUE AINDA PERMANECEM ILUSTRES DESCONHECIDOS NACIONALMENTE:

Um artigo que mais parece um manifesto de um moço ficcionista piauiense, que é o Geovane Monteiro.Seu artigo pertence àquele tipo de escrita que nos obriga a prestar atenção ao que ele acentua, enfatiza e chama à razão, ao debate, às discussões pertinentes e momentosas. Sim Geovane. V. nos leva, assim, àqueles pontos nevrálgicos da questão maior: como saber lidar com a minimo espírito de justiça com os escritores regionais, deles alguns de grande valor que ainda não ultrapassaram o apartheid (pegando o seu gancho vocabular) do eixo Rio -São Paulo e de outros estados com intensa produção literária? Precisamos desregionalizar os escritores menos conhecidos e procurar meios de os levar à visibilidade do público brasileiro.Para isso, teremos que enfrentar uma batalha difícil e cheia de meandros conexionados com a realidade editorial brasileira, e com todos os óbices ainda a serem superados nessa luta contra o anonimato. Creio que as universidades deveriam se empenhar nessa campanha de fazer uma espécie de intercâmbio, através de encontros, conferências ou seminários, de escritores regionais menos conhecidos e os aproximarem dos estudantes do ensino médio e superior. O próprio MEC deveria jogar um papel importante nesse sentido, alocando recursos e estabelecendo estratégias e logística a fim de tornarem essas metas em realidades que só fariam avançar o conhecimento de todos os envolvidos - escritores, alunos, professores, pesquisadores - para a diversidade de nossos talentos ainda pouco ou nada visíveis no cenário cultural-literário nacional. Esse assunto precisa ainda ser amadurecido junto a outros interessados nessas novas descobertas de bons e ótimos autores brasileiros. Deixo, pois, em aberto essas sugestões.

NOTA: VEJA ABAIXO O ARTIGO DO ESCRITOR GEOVANE MONTEIRO

Das amenidades

Sempre a história dos literatos injustiçados. Pior quando lembramos dos superestimados em detrimento dos bons autores que inexistem a um público leitor menos acanhado - isso quando lhes resta ao menos o acanhado na figura do pequeno ciclo de amigos. Nesse cenário, também a crítica especializada parece buscar no midiático a rigor, salvo raras exceções, o sentido de ser, porque "não lhe há outra saída".

Hoje, com o infindo espaço virtual para publicações, não seria razoável desconsiderar o intento hercúleo de um mapeamento, mesmo sério, sem as inevitáveis lacunas, mas que não justificam uma elitização. Se antes havia os " missionários do cânone", imaginemos agora com tantas produções nas redes sociais especialmente em espaços mais particulares como blogs e sites. Entanto, o mercado editorial no geral, sob a conveniência da " difícil tarefa da demarcação" contempla - e por que não lembrar de seu marketing digital, seu controle de dados!?- deliberadamente aqueles que escrevem com o carisma para um público maior, e nem sempre a qualidade das obras faz a diferença nesse processo . Os, digamos, mercadológicos - inclusive quanto a estratégias de tertúlias com grandes divulgadores culturais. Estou frizando uma realidade existente quando nem se imaginava um dia haver a era digital. Resultado nada negociável : uma aritmética ainda maior de bons e dedicados autores fora de cena....

A esse respeito, aludiu o crítico literário Cunha e Silva Filho, uma exceção de crítico honesto porque não falacioso, em seu ensaio intitulado Os autores desconhecidos e outras reflexões sobre literatura brasileira :" Todas as histórias literárias são incompletas, lacunosas e por vezes injustas e, ao procederem assim, privam o leitor de entrar em contato com os autores dignos de reavaliação. Carecemos, em nossa historiografia literária, de uma obra que se destinasse a propiciar uma visão em síntese, mas de amplo espectro da literatura brasileira de autores contemporâneos e que abarcasse pelo menos da última década do século passado até os dias atuais. Poderia ser um trabalho coletivo". Mas como nem tudo são espinhos, Cunha me informa, nessa mesma fonte, que há um trabalho com propósito menos segmentário em "Ficção brasileira contemporânea", de Karl Eric Shochhollhammer, livro que registra nomes de autores mais novos. Que surjam muitos outros navegadores sem medo de piratas federais!

Uma outra intercessão interessante me veio do escritor João Pinto, quando arrisca que os estados poderiam divulgar seus artistas locais desde as universidades às escolas públicas através, por exemplo, da adoção de obras de autores locais. Eis uma sóbria e simples e fácil política pública que custaria iniciativa sem ônus, já que escritores já são divulgados. Seria uma troca ( melhor falar em prioridade, para eu não cair no pecado do rigor) sem nenhum risco, senão salvar muita gente boa do anonimato inclusive local. Sim, na melhor das hipóteses, um pequeno número de escritores longe dos ares Sul/ Sudeste são conhecidos somente em suas províncias, em seus rincões - a exemplo de Nauro Machado, H. Dobal e Assis Brasil, entre outras tantas grandes figuras praticamente desconhecidas do grande público. Quando muito, alguns deles seguem pelos ventos como apenas nomes e não autores. Ventos sem os dribles nas comodidades ideológicas, nas convenções históricas, nos discursos geopolíticos em que o tempo já disse.

Quem mais ganharia com o fim do" apartheid literário" com a " proteção das fronteiras" seria o horizonte de leitores, no sentido de um incentivo a mais à leitura, já que novas propostas na luta com as palavras nos levariam às diversas realidades no viés da ficção. Assim, literatura não seria apenas conteúdo de vestibulares, ordem dos bispos dos grandes centros.

Mas então, se podemos visualizar iniciativas de percurso tão básicos, sem complexidades alguma, embora a médio ou a longo prazo e não absolutamente corrigíveis em razão das infindas manifestações anunciando o tempo; no raso do pensamento, no discurso até piegas, por que a resistência com o que é tão possível, tão previsível? Por que divulgar, repetir aqueles que já são festejados no país inteiro pela grande mídia? Até quando tudo estará restrito ao insumo do mercado? Os artistas locais, num dia de sorte, teriam então que estudar o mesmo evangelho da autoajuda, do empreendedorismo, e de tudo que se busca para o carisma business? Acontece que cantar a São Luís, versejar sobre o calor e a cajuína de Teresina (esquecendo aqui o estrelato de um Caetano) não justificariam os Paulo Leminskis e os Thiagos de Mello da vida.

O negócio então é ser visceral em si e pronto!? Até porque ser visceral é indiferente a circunstâncias. Não se trata de consolo, mesmo enquanto os muitos obstáculos durem... Escrever não espiritualiza tal qual fazer uma prece em secreto dentro do quarto!? Eis o off price!

( G. Monteiro a 24. 03. 2019)   

quinta-feira, 4 de abril de 2019

A existência de Deus e os seus planos



A existência de Deus e os seus planos

Elmar Carvalho

Releio, pela enésima vez, este texto de Epicuro: “Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?”

Nunca me inquietei com essas indagações, e sempre tive resposta para elas. Apenas nunca externei o que sempre esteve em minhas convicções e fé. Enfrentarei a problematização da primeira parte da citação e tentarei encontrar uma resposta. Em momento algum Epicuro negou a existência de Deus. Portanto, a admitiu. Aliás, todas as perguntas partem do pressuposto de que Deus existe. Faz tempo venho adiando escrever uma crônica, que forceja em meu cérebro, louca para ser dada à luz da publicidade. Escrevê-la-ei agora, e com ela tentarei responder aos questionamentos epicurianos.

Quando fiz minhas primeiras viagens aéreas, tinha muito medo, e sequer olhava para as belezas que poderia ver da janela, fosse uma bela e verdejante colina ou uma caprichosa enseada marinha, ou fosse o celestial alumbramento das nuvens, nas quais gostaria de deitar e rolar. Entendi que esse medo de nada adiantava, já que eu era forçado a enfrentar a viagem. E se houvesse algum acidente, de nada me valeria essa inquietação. Portanto, era inútil, e apenas me incomodaria durante o voo.

Além do mais, considerando que avião é o meio de transporte mais seguro, exceto elevador, eu apenas sofreria por algo que dificilmente iria acontecer. Por outra parte, raciocinei que o avião fora construído por quem sabia o que estava fazendo, por quem tinha conhecimento, ciência, experiência, e a mais avançada tecnologia e os mais adequados e sofisticados materiais.

Também pensei com os meus botões: quem o pilotava sabia o que estava fazendo, estudara, tinha um plano de voo e igualmente seria vítima de eventual erro que cometesse, pelo agiria sempre com responsabilidade e prudência. Assim, decidi confiar, mesmo porque não poderia fazer outra coisa, uma vez que resolvi entrar na aeronave.

Da mesma forma, para responder às indagações do filósofo, direi que Deus, cuja existência ele admite no enunciado de seu silogismo, tinha e tem pleno conhecimento de sua obra e, certamente, tem um plano maravilhoso e perfeito, como só podem ser as obras divinas. O que sucede é que nossa inteligência e nossos conhecimentos são diminutos, para que possamos entender a mente e a inteligência infinita de Deus, como igualmente não conhecemos os pormenores de seu plano. 

Ora, quanto mais o homem tenta perscrutar os umbrais do infinito, do infinitamente grande, mais novas grandezas ele descobre no espaço sideral. E, quanto mais se volta para o infinitamente pequeno das partículas e da mecânica quântica, mais se surpreende com subpartículas cada vez menores e cada vez mais sutis.

Até já disse, num de meus poemas, que atingi o infinito ao ficar infinitamente pequeno. Dessa forma, entendo que não devemos nos preocupar com as indagações do velho Epicuro. Confiemos no criador da aeronave, que é Deus, e confiemos no plano de voo do piloto, que também é Deus. Talvez Ele, que é perfeito, não tenha desejado criar uma obra pronta e acabada, mas uma em construção, em permanente marcha para a perfeição, apesar dos momentâneos e aparentes retrocessos.

E, no final dessa odisseia, que é a própria existência, chegaremos ao porto final, sãos e salvos, puros e redimidos, recolhidos ao corpo místico de Deus, como pequeninos agasalhados em colo aconchegante e protetor.

Para finalizar, considerando que Epicuro fez várias perguntas, seguindo as pegadas e as lições de Lavoisier, quero fazer apenas uma: será se algo ou alguém que obteve a existência poderia algum dia perdê-la, ou haverá apenas uma transformação existencial, uma nova dimensão do existir, do ser? Sem ansiedades, confiemos e esperemos. Em Deus.   

10 de março de 2010

segunda-feira, 1 de abril de 2019

O Q U E É N O V E L A

Fonte: Google

O Q U E É N O V E L A

Alcenor Candeira Filho


1.    E T I M O L O G I A

palavra do italiano “novela”
(vinda do latim “novellus, a um”)
derivando depois para “enredado”
e daí “narrativa enovelada”.

COMENTÁRIO
     As três formas básicas de ficção são romance, conto e novela, que se caracteriza pela sequência de histórias que se interligam.
     O poema acima se divide em seis partes. Na primeira  - “Etimologia”  -  título e texto já dizem tudo


2.   A Ç Ã O

     novela: fundamentalmente
     multívoca, polivalente:
     série de unidades dramáticas
     ligadas todas entre si
     fieira de contos encadeados
     com início, meio e fim.

COMENTÁRIO
     Poema de versos octossílabos com rimas paralelas e alternadas.
     Os versos se referem a algumas características da novela:
     -  multívoca: apresenta vários núcleos dramáticos
     -  células dramáticas interligadas
     - enredo linear.


3.       E S P A Ç O    E    T E M P O
      
     ausência de unidade espacial
     e tempo presente, aqui e agora,
     marcado quase sempre po relógio
     ou por convenção social.

COMENTÁRIO
     Poema com rimas encadeadas e paralelas: a-b-b-a
     - espaço: múltiplo
     - tempo: predomínio do presente.


4.       L I N G U A G E M
    
     direta metáfora,
     simples, despojada:
     só vai o narrador
     ao ponto que importa.

COMENTÁRIO

     Poema de versos em redondilha menor e rimas consoantes
emparelhadas.
     A linguagem deve ser objetiva, concisa, clara, simples.


5.      T I P O L O G I A

     de cavalaria, na idade média;
     depois bucólica e sentimental;
     além de histórica, e de picaresca
     - novela de mistério e policial.

COMENTÁRIO

     Os tipos mencionados nos versos são incompletos, mas talvez os principais.
     Observar o emprego de rimas alternadas (a-b-a-b), sendo uma consoante (média/picaresca) e outra toante (sentimental/policial).
     No DICIONÁRIO DE TERMOS LITERÁRIOS, Massaud Moisés comenta sobre os tipos de novela:

      “Quanto às novelas de cavalaria, nasceram
      na Idade Média, em consequência da
      prosificação das canções de gesta. As novelas
      sentimentais remontam a ‘Dáfnis e Clói’ (século
      (século III a. Cristo), mas só foram continuadas
      no século XIV, graças a Boccacio  (‘Ninfale d’Ameto’, 1341 ou 1342). 
      (...) A novela picaresca iniciou-se, como vimos,
      pela ‘Vida de Lazzarillo de Tormes y de sus
      Fortunas y adversidades’, de autor anônimo, e
      Atingiu o ápice no século XVII, com ‘Gusmán
      de Alfarache (1599), de Matco Alemán,
      ‘Rinconetee y Cortadilho’ (1613), de Cervantes.
      (...) A novela histórica, que se caracteriza pela
      recriação do passado remoto ou recente por
      meio de documentos verídicos, principiou com
      ‘Waverley’ (1814), de Walter Scott. (...) A mais
      recente caracterização da novela é a policial ou
      de mistério, iniciada por ‘The Murders in the Rue
      Morgue’ (1841), de Edgar Allan Poe.”
    
   6.  C O N C E I T O    E    EXEMPLIFICAÇÃO

                                          rolo
                                   que se desenrola
                                   menos que o romance
                                   e mais do que o conto.

                                         
                                   bem além do mar
                                         com
                                   “Amor de Perdição”
                                   Camilo Castelo
                                   no gênero é o tal

                                        
                                   no Brasil amado
                                   o baiano Jorge
                                         com
                                   “Quincas Berro Dágua”
                                   não conhece igual.     

COMENTÁRIO

     Novela é a série de histórias interligadas.
     Como exemplos de grandes novelistas são citados Camilo Castelo Branco e Jorge Amado, com as respectivas obras no gênero.: “Amor de Perdição” e “A Morte e a Morte de Qincas Berro Dágua”.