segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A ARTE DE TRADUZIR

Fonte: Google


A  ARTE  DE  TRADUZIR

Alcenor Candeira Filho

     A arte de traduzir não consiste simplesmente na substituição de palavras de um idioma por palavras de  outro, mas no trabalho consciente da passagem de um texto para outra língua, exprimindo um cunho artístico.

     A tradução de um texto poético, principalmente, requer   grande habilidade artística, exigindo do tradutor a assimilação do espírito do texto original e profundo conhecimento dos segredos  do seu do seu aspecto formal, a fim de que possa alcançar não somente a equivalência semântico-expressiva, mas sobretudo o equilíbrio nos efeitos sonoros.

     Tratando das dificuldades que surgem no ato/arte de traduzir obra literária, Kurt Clason  -  citado em FENOMENOLOGIA DA OBRA LITERÁRIA por Maria Luíza Ramos  -  exemplificou a questão com uma passagem de GRANDE SERTÃO: VEREDAS, em que está dito que os cavaleiros passavam “feito faca, feito  flexa, feito fogo”. A tradução literal destruiria a imagem acústica presente na frase, pois desapareceria a aliteração fricativa que, seis vezes repetida, traz conotação de velocidade. Preferiu então o tradutor substituir as palavras do original, de modo a “criar” nova imagem acústica dentro de mesmo campo semântico estabelecido por Guimarães Rosa. E a frase transformou-se em “Wie die Welle, Wie der Wind, Wie der Wille”, ou seja, “como a vaga, como o vento, como a vontade”.

     A transformação efetuada no texto alemão através da alteração de palavras do original não configura exemplo do aforismo italiano  -  “traduttori, traditori”  -,  significando em verdade que o tradutor penetrou com intensidade no espírito do romancista, captando-lhe o pensamento tal como vivido interiormente.

     Reconhecendo o mérito das traduções feitas pelo poeta parnasiano Raimundo Correia, diz Ledo Ivo: “A tradução de um poema não é a mesma coisa que a tradução de um compêndio científico, , cujos conceitos podem ser facilmente transportados para outro idioma. Trata-se, em verdade, de um operação que embora parecendo transplantar o sentido fiel do texto, só pode ser praticada com a utilização de um verdadeiro arsenal criador; é o domínio das equivalências sonoras, de ritmo que se muda em encantação, da imagem que que se funde simultaneamente em melodia e conceito”.

     Guilherme de Almeida, numa de suas “notas” às FLORES DAS FLORES “FLORES DO MAL” DE BAUDELAIRE, em que traduziu, ou melhor, recriou, recompôs, restaurou em Português vinte e um poemas do poeta francês,  -  reportando-se ao segundo verso (Tu fais l’effet d’um beau vaisseau qui prend le large) da segunda estrofe do poema “Le Beau Navire”, que reputa um dos mais belos da poesia francesa, , declara que esse alexandrino pode ser lido, livremente,  como dois versos de seis sílabas, três de quatro ou seis de duas, considerando que, assim sendo, “não seria honesta uma re-criação legítima desse verso, senão conservando rigorosamente todos esses mesmos caprichosos efeitos”. E confessa que para conseguir um trabalho satisfatório na tradução desse verso, levou meses para atingir os mesmos efeitos rítmicos, morfológicos e rimáticos constantes do alexandrino original. Eis o primor da re-criação de Guilherme de Almeida: “És tal e qual a nau quando ao mar-alto larga”, que, como o original, pode ser sentido em três formas rítmicas, que podem ser configuradas assim:

               1º)  - - - - - / - - - - - /
              2º) - - - / - - - / - - - /
              3º) - / - / -/- / - / - /

correspondendo, respectivamente, em termos estrófico-métricos a:

     1º) um dístico de versos hexassilábicos:
              “És tal e qual a nau
              quando ao mar-alto larga.”

     2º) um terceto de versos tetrassilábicos:
              “És tal e qual
              a nau quando ao
              mar-alto larga.”

     3º) uma sextina de versos dissilábicos:
             “És tal
             e qual
             a nau
             quando ao
             mar-al-
            to larga.”

     Vamos ver agora como uma tradução qualquer de texto poético, alicerçada na lei do menor esforço, perde a grandeza de obra de arte. Pra tanto, confrontemos o seguinte texto de IRACEMA, de José de Alencar, com a respectiva tradução feita por Maria Torres Frias:

                          “Verdes mares que brilhais como líquida
                  esmeralda aos raios do sol nascente, perlogando
                  as alvas praias ensombradas de coqueiros.”

     Na tradução:

                          “ Verdes mares que brillan como líquida
                  esmeralda  a los rayos  del sol nasciente, prolongando
                   as alvas praias ensombrecidas por los cocoterros.”(1)
      
           A ideia do original foi efetivamente mantida na tradução. Mas traduzir obra literária exige mais que a simples assimilação da mensagem do original. O leitor do período traduzido jamais sentirá a sublimidade, a melodia, a beleza poética da produção do escritor cearense. Poesia é a sublime forma de beleza, é o conjunto de palavras exprimindo musicalidade. O ritmo melódico, no texto de José  de Alencar, constitui-lhe toda a grandeza. E esse ritmo não foi atingido no texto-tradução. No texto alencarino estão implícitos cinco heptassílabos, em perfeita harmonia, com apoio rítmico obedecendo ao esquema

                       - - / - - - /

enquanto no texto em espanhol se encontram, respectivamente, um hexassílabo, um heptassílabo, dois octossílabos e um decassílabo, numa combinação tão desarmoniosa que nos faz lembrar as palavras de Voltaire: “Infelizes os que fazem traduções literais, que traduzindo cada palavra enervam o sentido! É nessa hora que se pode dizer que a letra mata e o espírito vivifica.”              


(1)     Vi o pararelo, mas sem os comentários que farei em frente, em  TEORIA LITERÁRIA, de Hênio Tavares, Belo Horizonte,  Editora Itatiaia Ltda. 5ª edição, 1974, p. 22.   

domingo, 4 de agosto de 2019

LIVRAMENTO: PEDRA E ABSTRAÇÃO

Sede da antiga Fazenda Ininga, hoje propriedade de Paulo de Tarso Libório


LIVRAMENTO: PEDRA E ABSTRAÇÃO
(roteiro sentimental de José de Freitas)

Elmar Carvalho

Que é Livramento?
            Livramento
é uma revoada de santos,
anjos e meninos sobre um morro
que também voa.
Onde, agora, o morro?

O morro continua lá
e em minha memória incessante,
escalado por
                        meninos que são anjos
do além do bem e do mal.

No morro as quedas
ficaram suspensas
entre o cair e o voo
por milagre ou magia,
ou simples brincadeira
de algum anjo travesso.

O visgo que visgava
os vim-vins de minha infância
ainda me visgam àquele
sítio de sonho
mais que sonho:
                 sonho acordado.
Os santos ainda estão lá,
em pleno vôo de pedra e abstração
e de prodígio que não assombra
em seu enigma desvendado.

Em mim permanece
mais forte que nunca
o gosto mais que gostoso
das frutas que furtei
dos quintais franqueados
em pródiga dádiva.

Sinto ainda sempre e agora
uma ampulheta derramar sobre mim
o frescor macio da areia e a sombra
verdoenga da mangueira,
e me trazer intacta e completa
a minha mais feliz meninice.

Recordo o açude
em que fui tão menino
como não mais pude
ser, desde então.
E do açude
os criolis ainda me chegam
em seu sabor acredocetravoso
de infância e recordação ...

As partidas de futebol
ainda se repetem em minha memória:
videoteipe que não se cansa
de se repercutir
em seu interminável repeteco.

No chalé, medrosos,
os fantasmas ainda se abrigam
e se escondem dos vivos.
Antigos, baratas passeiam
e ratos rondam por entre
os móveis do nunca mais.

A cidade continua a mesma,
eu continuo o mesmo
e no entanto ambos mudamos
e continuamos os mesmos
no eterno retorno de nós mesmos.   

sábado, 3 de agosto de 2019

O aniversário do rei e do porco

Fonte: Google


O aniversário do rei e do porco

Pádua Marques
Escritor e jornalista
Da Academia Parnaibana de Letras

Havia dezenove anos que fora autorizada pelo bispo do Maranhão que se criasse algumas paróquias na capitania do Piauí, entre elas a de Nossa Senhora da Graça, esta em Parnaíba e construída pela família Dias da Silva. Naquele domingo de 13 de maio de 1820 a vila estava em festa pelas comemorações dos 53 anos do rei dom João VI. Simplício e o Senado da Câmara estavam recebendo as representações de Viçosa do Ceará e do Maranhão. De vez em quando saía na janela e dava vivas ao rei e ao príncipe herdeiro dom Pedro.

Simplício fazia de propósito aquela festa toda. Se vingava da desfeita, de oito anos atrás, em julho de 1812 quando encabeçou uma relação de pessoas pedindo ao soberano de que a residência do governador da capitania fosse mudada de Oeiras pra Parnaíba, chegando a oferecer dinheiro de sua fortuna pra construir o palácio, pelo que não foi atendido, assim como a questão da alfândega. Mas agora era hora de mostrar quem mandava, embora já começasse a ver a pobreza se avizinhando.

Pra festa foram mortos cinco bois e duas vacas, dez porcos, uma infinidade de galinhas. Mandou vir de São Luiz cinco barris de vinho e dois de aguardente, conhaque. Nas cozinhas de casa e na de pessoas da família e vizinhos, as negras cozinheiras não largaram a barriga do fogão desde o sábado. Era carne assada e cozida e feijão misturado com os miúdos. Muita fruta, farinha, abóbora cozida, milho verde cozido e assado. Pela manhã houve missa solene na igreja de Nossa Senhora da Graça e no largo da casa as barracas com muita comida e bebida, uma fartura de dar inveja a festa de governador.

Também vieram de São Luiz, no Maranhão, cinco caixas de fogos de artifício, que seriam queimados após a missa da noite no largo da igreja e na frente da casa de morada dos Dias da Silva.  Na igreja dos pretos, do outro lado do largo, houve muito batizado e casamento. E pra animar a festa do rei dom João, veio um circo inteirinho. Grande Circo Venice, de Amedeo Picelli di Puntto. Vinha com cães adestrados, palhaços, cantores, anão equilibrista, engolidor de espadas, mulher barbada. No meio da missa os três escravos violoncelistas da casa de Simplício tocaram peças sacras. Logo na boca da noite começaram a chegar os convidados.

No cais do Porto Salgado as embarcações estavam embandeiradas. Era um sobe e desce de gente de Tutoia e povoados, vindo render homenagens ao rei dom João na pessoa de Simplício Dias da Silva. E vai que naquele movimento de todo dia, que não parava nem aos domingos, um homem com seu menino foi chegando no início da manhã, de canoa, com alguns porcos pra vender no mercado da rua Grande. Mal pisou em terra firme já foi abordado por Elias, escravo da confiança de Simplício Dias. Aqueles animais seriam pra servir de comida aos convidados!

O dono dos porcos quis criar confusão alegando pobreza e o único bem que tinha pra vender e levar algum tostão pra dentro de casa. Teve resposta que nem encompridasse conversa. Eram ordens lá de cima, de seu governador e senhor Simplício Dias da Silva. Sem ter pra onde correr e a quem pedir justiça, o homem caiu das carnes. Entregou os quatro porcos pra Elias e se retirou de cabeça baixa. Logo mais estaria bebendo aguardente, comendo feijoada e dando vivas ao rei com cara de porco.

Quando soube do ocorrido, já era passado o almoço e os porcos já estavam era servindo de comida lá no largo da igreja e na frente de casa. Deu nele raiva aquele malfeito do negro. Chamou Elias e perguntou quem deu ordens pra usurpar os porcos do caboclo. Tremendo feito menino com medo de relho nos couros, se coçando todo, o escravo disse que tinha sido o senhor seu rei dom João! Seu rei? E desde quando negro tinha rei?

Depois de coçar a cabeça Simplício meteu a mão no bolso e não encontrando nada mandou que fosse procurar no meio da praça o dono dos porcos.  Mas antes cuspiu no chão de tijolos. Antes de secar queria o dono dos porcos na sua frente. Dom João VI bem que podia ter outros defeitos, ser tratante e falso, mas nunca seria ladrão! E ele, Simplício Dias da Silva nunca haveria de ser alcunhado de pegar no alheio, muito menos porcos.    

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

PALMA DE GATO


PALMA DE GATO

(Crônica de Pádua Santos)

     
Quando escrevi a crônica intitulada “O Enterro”, onde tratei das peripécias de dona Zezita Sampaio (mulher do Almirante Gervásio Sampaio, irmão do meu bisavô, Antônio Sampaio), deixei registrado que aquela importante matrona, nas suas badaladas eleições para prefeita de Buriti dos Lopes, já fazia uso de uma geringonça que desagradava os que restavam derrotados nas campanhas políticas das quais ela saia vencedora. E ali eu perguntava: (- Oh afamada “ronqueira” de boca faminta de pólvora! Por onde andas, nestes tempos de modernos fogos? O teu ronco foi um tormento para os opositores. Passastes vários dias em atividade depois daquele resultado! Calava-te apenas pelo período suficiente para a recarga de mais um estampido que lembrava as bombardas da Batalha do Jenipapo...).

      E não é que, logo depois da publicação da referida crônica, um amigo me presenteou com tal aparelho, já bastante gasto pela ferrugem, mas ainda capaz de trazer à lembrança interessante cena de um passado político recheado de aventuras!

Aliás, todo passado político tem suas histórias e, não raro, histórias pitorescas, como a que agora passo a contar:

         O Dr. Mão Santa, quando iniciou na vida pública, não tinha este nome. Era conhecido na cidade como “Doutor Francisco”. Nome que, apesar de próprio e de ser o mesmo de um dos santos mais milagrosos do Céu, não lhe rendia a quantidade desejada de votos. Como ele nunca foi bobo e para demonstrar sua sabedoria política perante seus opositores que às vezes lhe consideram louco, abraçou a alcunha “Mão Santa”, e com ela derrotou velhas lideranças consolidadas, partidos renomados e terminou por vencer vários pleitos importantes.

                Mas não é somente o nome que faz a liderança. Os políticos de carreira sempre necessitam de amigos que lhes deem sustentação. Aqueles que vestem sua camisa e botam o pé na estrada, caminhando ao seu lado e rezando na sua cartilha - são os chamados “cabos eleitorais”.

                Mão Santa, dentre outros que lhe ajudaram, logo no primeiro pleito onde logrou êxito, contou com a ajuda de Francisco Bernardo de Souza Neto, bastante conhecido pelo apelido de “Palma de Gato”.

                Este cidadão, já falecido, sabia fuxicar com fácil sorriso nos lábios e penetrava com facilidade em todos os partidos da época, principalmente nas hostes dos “Silva”, então opositora, porque ali teria iniciado na arte de cabalar.

                Certo dia, em um grande comício no local conhecido como Balão da Guarita, Mão Santa chamou o seu franco escudeiro Palma de Gato, quando faltavam poucas horas para o início da concentração, lhe deu algumas magras cédulas - porque nesta época ainda era pobre -  e ordenou que fossem comprados três foguetes tipo canhão.

                O primeiro deveria pipocar no momento em que o patrão subisse no caminhão-palanque; o segundo quando encerrasse a fala dos políticos menores, geralmente vereadores, seus suplentes e alguns entusiasmados e convencidos presidentes de associações de bairros. E o terceiro, e último, logo que Bernardo Carranca – quem sempre animava por cobrar mais em conta – cantasse a última música para ter início o longo discurso do próximo Prefeito.

                Estes três foguetes de apreciável tiro – daí a lembrança da estrovenga da saudosa Zezita Sampaio – deveriam funcionar como um convite ao povo parnaibano para uma mudança que, segundo pregava, se fazia por demais necessária.

                Mas ocorreu que somente os dois primeiros estampidos foram ouvidos naquela noite.

                Quando chegou o esperado momento do último tiro, com o Carranca já calado, juntando suas esquisitas partituras; o orador já de microfone na mão e o povo em relativo silêncio, esperando a frase inicial que seria, como sempre, uma louvação a Deus, Mão Santa sentindo que nada pipocava no Céu parnaibano, deu uma virada, afastando a boca do microfone, para dizer, em voz baixa para alguns papagaios de pirata que lhe cercavam naquele momento:

                 - Filho da puta, o Palma de Gato! – bebeu de cachaça o meu terceiro foguete!    

domingo, 28 de julho de 2019

NATUREZA VIVA

Fonte: Google


NATUREZA VIVA

Elmar Carvalho

Contemplo meu presente de Natal:
dunas, veleiros, coqueiros e um mar
entranhados num frasco de água mineral.
Ah! vontade de me ir pelo ar ...

Resta-me esta ressaca.  Marulhos de Sonrisal ...   

sábado, 27 de julho de 2019

BREVE NOTÍCIA FAMILIAR

Miguel e Rosália, meus pais


BREVE NOTÍCIA FAMILIAR

Elmar Carvalho

Domingo passado, recebi de meu pai breve anotação manuscrita, feita a meu pedido, sobre os nossos avoengos. Ele registrou apenas o que sabia de memória, sem consulta a registros de livros cartorários e outros alfarrábios. Muitas informações contidas nesta nota estão nos livros “Vultos da História de Barras”, de Wilson Carvalho Gonçalves, e em “O Ponta-de Rama” e “Ruas, Avenidas e Praças de Piripiri”, ambos de meu primo Fabiano Melo, de onde as colhi. Meu pai tinha apenas treze anos de idade quando foi chamado ao gabinete do diretor do tradicional Colégio Diocesano, do qual era aluno interno, numa época em que pouquíssimos piauienses conseguiam cursar o antigo ginásio.

Para que se tenha uma pequena ideia de como era restritivo, excludente e elitista o sistema de ensino, basta que eu diga que muitos de seus antigos colegas se tornaram governadores, senadores, deputados, magistrados e detentores dos mais altos cargos públicos do estado. Foi chamado, logo após concluir a prova parcial do dia 30 de setembro de 1939, para receber do diretor Padre Chaves, que depois se tornou um dos maiores historiadores do Piauí, a impactante notícia de que seu pai havia morrido. Era filho único do terceiro casamento de meu avô. Padre Chaves, que conheci e que concedeu a mim e ao jornalista Domingos Bezerra excelente entrevista, que publiquei na revista Cadernos de Teresina, editada pela Fundação Cultural que leva o seu nome, foi afetivo e cuidadoso ao dar a notícia, proferindo palavras de conforto e resignação;   recomendou que meu pai fosse repousar.

Meu avô tivera oito filhos do primeiro consórcio e nenhum do segundo. Diante desse inesperado acontecimento, papai voltou para Barras, a chamado de sua mãe, e só veio a concluir o ginásio muitos anos depois. Meu avô paterno se chamava João de Deus Nascimento; era filho de Emiliana e Silvestre Ribeiro do Nascimento. Graças a seu esforço e labor, fez prosperar uma gleba de terra, situada na data Luiz de Souza, e conseguiu amealhar algumas reses, engenho de cana e casa de farinhada. Era respeitado em sua localidade e na cidade de Barras, onde era muito conhecido. Para que se tenha uma idéia de sua personalidade marcante, basta que eu conte dois episódios de sua vida.

Certo dia, uma de suas noras, deu-lhe a notícia de que o marido estava de namoro com uma mulher da redondeza. Meu avô chamou um agregado de sua confiança e se dirigiu até certo ponto, perto da casa da amante de seu filho, de onde dava para ouvir as gargalhadas e arrulhos dos dois pombinhos nos colóquios e conciliábulos amorosos. Constatada a infidelidade cometida pelo rebento, ficou de tocaia. Quando ele retornava para casa, o abordou de forma enérgica, e lhe disse que se voltasse a “pular a cerca”, iria aplicar-lhe uma sova caprichada, de que ele jamais esqueceria. Não se soube da surra, porque não mais se soube de transgressão do rapaz. Eram os costumes severos da época, de fortes reprimendas.

Morava, na vizinhança, uma parenta de meu avô, creio que sobrinha, cega de nascença e entrevada, como se dizia antigamente. Levava a vida a cantar hinos religiosos e a rezar, em perpétua vigília e penitência. Meu avô, falecido em 1939, pedira para ser enterrado perto de sua cova. Talvez tenha sido recebido por ela, sarada de seus males, coberta pelo manto de glória e beatitude que deve ornar os que levaram uma vida de sofrimento, renúncia e conformação. No cemitério campestre da chapada de Luiz de Souza, perto de faveiras, sambaíbas, paus-d'arcos e pequizeiros, repousam, lado a lado, os restos mortais de meu avô João de Deus e dessa parenta, que aceitou com fé e resignação o sofrimento que lhe coube, e que viveu como um anjo, a orar e a entoar cânticos e “excelências” a Deus.

Meu avô conheceu minha avó na cidade de Barras, onde ela morava em companhia de seu irmão Elpídio Lucas Furtado de Carvalho. Chamava-se Joana Lina de Deus Carvalho e nascera em Piripiri. Era filha de Miguel Furtado do Rego. Era sua mãe Izabel Lina, de antigas estirpes cearense e piauiense.   Muitas décadas após meu pai deixar o seu pago, fui com ele conhecer o local onde ele nascera, que fica a poucos quilômetros da cidade de Barras. Vi meu pai tomado de profunda emoção, com os olhos marejados, a olhar o olho-d'água de sua infância, que ainda corria perene, a rever o buritizal da várzea e o morro verdejante onde se erguera outrora a casa de seu pai.

Meu avô materno se chamava José Horácio de Melo, nascido no lugar Campestre, município de Piracuruca, no dia 5 de agosto de 1893, e falecido em 13 de agosto de 1965. Era filho de Horácio Luiz de Melo e Antônia Quitéria de Carvalho. Horácio Luiz era filho de Antônio Luiz de Melo e Hygina Rosa de Menezes. Meu trisavô Antônio Luiz de Melo era filho de Onofre José de Melo e Cecília Maria das Virgens, oriundos de Pernambuco e fundadores da Casa do Desterro, situada na então Freguesia de Nossa Senhora do Carmo de Piracuruca. Desse casal descendem os Melo do Vale do Longá (Piracuruca, Batalha, Barras, Piripiri e Campo Maior). Antônia Quitéria tinha como pais João Bartolomeu de Carvalho e Mariana Rosa de Carvalho. Eram do município de Piracuruca. Minha avó materna se chamava Maria Carlota, e era chamada de Paroara, dizem que por causa de sua tez alva e rosada como essa flor. Pertencia às famílias Sousa e Mendes, de Piracuruca. Morreu jovem, quando minha mãe tinha apenas onze anos de vida.

Por essa razão, mamãe foi morar com sua tia, irmã de seu pai, Maria Cristina Lima de Melo. Com a morte desta, passou a morar com sua prima Mirozinha, minha madrinha, até casar-se com meu pai. Devo muito a essa madrinha, que me emprestava, através de meu pai, os livros da biblioteca do Grupo Escolar Valdivino Tito e os de seu próprio acervo. Mamãe não guardou traumas e nem mágoas de sua orfandade, e nem de ter morado com esses parentes. Pelo contrário, tinha uma quase veneração por sua tia e por sua prima, e lhes tinha uma devoção de filha e irmã. Quando falava delas, era sempre com saudade e respeito.

Nunca tive paciência para empreender pesquisa histórica e muito menos  genealógica, que acho importante, mas um tanto tediosa, de modo que desejei fazer apenas um breve registro, para que meus descendentes e irmãos conheçam um pouco dos nossos ancestrais. Aliás, meu pai, homem humilde, mas altivo a seu modo e no bom sentido da palavra, sempre foi avesso a empáfias e blasonarias de presumidas e pretensas nobiliarquias genealógicas, sabedor de que todos somos pó e de que ao pó da terra voltaremos. Só me falou, com mais detalhes, de nossos avoengos quando eu já tinha cinquenta anos de idade, por sinal em Piripiri, terra a que somos ligados por laços de sangue, no Auditório Osíris Neves de Melo, quando eu representava várias academias a que pertenço, a convite da professora Clea Rezende Neves de Melo, na solenidade em que foram lançados um livro dela e outro meu, o Lira dos Cinqüentanos.

Meu pai, ainda bem moço, veio para Campo Maior, onde trabalhou na Casa Inglesa. Posteriormente, ingressou no antigo Departamento de Correios e Telégrafos - DCT, através de concurso público, no ano de 1958. No início de sua vida de casado e de servidor público, morou no povoado Papagaio, hoje cidade de Francinópolis, por cerca de dois anos. O DCT virou ECT, e meu pai terminou indo para Parnaíba, onde por vários anos chefiou a agência local dessa empresa. Mas, amante inveterado e incondicional de Campo Maior, terminou regressando mais uma vez a minha terra natal, onde, aposentado, pratica dominó todos os dias com os irmãos Vicente, Antônio Wilson e Chico Andrade. Minha mãe consagrou todo seu esforço e dedicação a cuidar do marido e dos filhos. E como cuidou!...

OBSERVAÇÃO: o vertente registro foi acrescido, posteriormente, por informações contidas no trabalho Casa do Desterro, da autoria do genealogista e historiador Valdemir Miranda de Castro, publicado em 21.08.2015 no blog poetaelmar.blogspot.com.br, que faz parte do seu livro em elaboração A colonização do Vale do Longá.

18 de março de 2010   

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Recebimento de medalha da Medalha do Centenário da APL




Recebimento de medalha da Medalha do Centenário da APL (*)

Organizar um grêmio literário nos moldes existentes em vários outros Estados, foi o propósito abraçado por um grupo de intelectuais da época, sob a liderança de Lucídio Freitas, que se criou a 30 de dezembro de 1917, a  Academia Piauiense de Letras, com o objetivo de desenvolver e apoiar todas as manifestações da cultura piauiense.

O número de cadeiras, inicialmente, era de dez, alcançando, por fim, quarenta como nas demais congêneres. Várias expressões da literatura de nosso Estado ali se imortalizaram, dentre estes o florianense J. Miguel de Matos, nascido, como o próprio gostava de dizer, na rua do Molambo, a nossa rua 7 de Setembro.  Outro que também ali teve assento foi João Coelho Marques, homenageado agora no volume 8 da Coleção Florianenses.

A honraria da Medalha do Centenário da Academia Piauiense de Letras se deve, com certeza, ao trabalho desenvolvido na organização, edição e divulgação da Coleção Florianenses, parte de maior destaque da Fundação Floriano Clube, a que me dedico com todo carinho de filho desta terra.

Quero, aqui, registrar ao poeta Elmar Carvalho, autor da indicação do meu nome, o agradecimento profundo, fazendo-o extensivo ao colegiado da Academia por sua aprovação. Peço-lhe caro poeta, levar meu desejo aos dignos integrantes da Academia Piauiense de Letras que eu possa dividir a honra da Medalha do Centenário com todos os companheiros participantes da Fundação Floriano Clube.   

(*) Discurso pronunciado por Cristóvão Augusto de Araújo Costa, no dia 6 de julho, na sede da Fundação Floriano Clube, por ocasião do lançamento da Coleção Florianenses, quando lhe foram entregues a Medalha e o Diploma do Centenário da Academia Piauiense de Letras.

domingo, 21 de julho de 2019

MULHER NA LAGOA DO PORTINHO

Fonte: Portal Litoral Notícias/Google


MULHER NA LAGOA DO PORTINHO

Elmar Carvalho

Na tarde antiga
de sol e bruma
de luz e penumbra
as dunas mudaram
de cores e formas.

Os belos olhos esplendentes –
pálidas  cálidas opalas ou
esmeradas esmeriladas esmeraldas –
da mulher bonita
de sinuosas dunas e viagens
furta-cores furtaram
outros tons e sobretons.

Ainda guardo a memória viva
daquela tarde morna e morta
e ainda vejo aqueles olhos vivos
furtando furtivos cores e atenção.

E os olhos e as formas curvilíneas
permanecem intactos no tempo
que em mim não passou.

E a mulher, acaso passou,
nos escombros das formas
transitórias da beleza?...   

quinta-feira, 18 de julho de 2019

As lágrimas da vaca




As lágrimas da vaca

Elmar Carvalho

Muitos dizem gostar de passarinhos. Mas os aprisionam numa gaiola. É uma estranha maneira de gostar, sem dúvida. Quem ama não mata nem maltrata. E isso vale para os feminicidas e passarinheiros.

Desde menino minha mãe nos advertia, a mim e a meus irmãos, para que não maltratássemos os passarinhos e os outros animais. Com efeito, nunca tivemos a cultura de engaiolar aves, com exceção de um casal de papagaios, que foi dado de presente a minha mãe, e que ela criou com todo mimo e carinho até seu falecimento. Os dois louros pareciam felizes, até mesmo no brilho e na vivacidade do olhar, e nas cantigas festivas que aprenderam a cantar.

A música “Assum Preto”, cuja letra é de Humberto Teixeira, foi imortalizada pelo genial Luiz Gonzaga, de sorte que é um dos primeiros libelos contra os maus-tratos aos animais. Esse pássaro é o nosso conhecido chico-preto, de canto sofisticado e melodioso. Na canção perpassa o destino cruel dessa ave canora: furavam-lhe os olhos para que ela assim pudesse cantar mais e melhor. Nela é dito que o assum preto cego vivia solto, mas sem poder voar, e que era preferível “Mil vezes a sina de uma gaiola / Desde que o céu, ai, pudesse olhar”. Não só olhar, claro, mas pudesse, livre, leve e solto, voar e planar na dimensão azul e quase infinita do céu; e pousar nas palmeiras e nas frondosas copas das grandes árvores, comendo livremente as frutas e sementes que mais lhe apetecessem.

Foi ao ouvir um comentário televisivo sobre a crueldade de se engaiolar pássaros, que minha mulher me contou a história comovente que lhe narraram a respeito de uma vaca. Obviamente eu conhecia a história de uma macaca, que, ao se defrontar com a espingarda que lhe era apontada, exibiu o filhote que conduzia, não no intuito de salvar a própria vida, como se ele fora um escudo, mas como se dissesse ao caçador: “Tenha piedade desse indefeso inocente, que mal começa a viver... Se você me matar, quem irá cuidar dele?” Consta que o caçador abandonou para sempre essa atividade.

Sempre achei que alguns animais, ao menos os que interagem com o homem, têm alguma espécie de raciocínio e inteligência, não digo sequer inferiores, mas talvez apenas diferentes dos nossos, que fazemos tantas loucuras e maldades e nos classificamos como inteligentes e racionais. Para que loucura e maldade maior do que as guerras étnicas ou religiosas? Que deus aprovaria uma guerra por sua causa ou por causa de uma simples cor de pele?

Pois Fátima me repassou, com viva emoção na voz embargada, a seguinte história: Havia um homem, parente de sua amiga, cuja profissão era matar gado bovino. Era um verdadeiro carrasco de bois. Às vezes enfileirava várias reses, e as ia matando uma a uma, uma vendo a antecedente ser abatida. Abro aqui rápido parêntese: às vezes sinto boiar nos olhos desses animais a névoa de uma profunda e resignada tristeza.

Também tenho conhecimento de que quando algum boi morre, os outras, na hora da melancolia crepuscular, se aproximam do local, e emitem plangentes mugidos, como se estivessem a prantear, saudosos, o companheiro morto, como se lhe prestassem uma homenagem póstuma, como nós humanos fazemos através de necrológios e panegíricos, e do cantochão das “excelências”, às vezes até fingidas e pagas, como no caso das lamentações das carpideiras. Já ouvi até falar de casos em que a boiada presta sentida homenagem, com os seus tristes mugidos, a um fazendeiro ou vaqueiro morto, desde que lhes tivessem estima e amizade.

Numa das vezes em que o nosso “el matador” bovino cumpria o seu macabro e triste mister, uma vaca se aproximou dele e dobrou os joelhos dianteiros, como se estivesse, ajoelhada, a lhe pedir clemência ou perdão por uma culpa que não tinha em sua natural   inocência. Levantou a cara para ele, e o carrasco pôde ver então o que jamais imaginara poder contemplar: do rosto da vaca escorriam lágrimas profusas.

O homem, comovido e cheio de remorso, não cumpriu pela primeira vez o seu dever profissional. E jurou a si mesmo que, daquele momento em diante, jamais mataria outra rês. Conseguiu outro emprego, e cumpriu fielmente o seu juramento.   

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Ativista do movimento negro em Parnaíba participa de evento nacional na Paraíba

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Ativista do movimento negro em Parnaíba participa de evento nacional na Paraíba

Pádua Marques
Jornalista e escritor

O educador, escritor e ativista do movimento negro Marciano Gualberto A. N. Júnior, teve seu trabalho científico intitulado “Asès da Justiça: Contra genocidas de nossos terreiros e descentralização do opressor”, aceito na XI Semana Nacional de História, que será realizada de 27 a 30 de agosto na Universidade Federal de Campina Grande em Cajazeiras, Paraíba.
Este trabalho trata sobre a intolerância com as religiões de matrizes africadas. O evento contará com a presença de grandes nomes da História como a professora e doutora Mary Del Priori e professor doutor Daniel Aarão Reis. O evento é patrocinado e divulgado pela ANPUH, Associação Brasileira de Historiadores.
O estudante do curso de História da Faculdade Internacional do Delta teve seu trabalho aceito pela terceira vez consecutiva e vai defender a produção intelectual para ser publicada nos anais do evento nacional.    

terça-feira, 16 de julho de 2019

A múmia que dormiu na casa de Simplício Dias na Parnaíba

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A múmia que dormiu na casa de Simplício Dias na Parnaíba

Pádua Marques
Jornalista e escritor
Da Academia Parnaibana de Letras

Já era boca da noite quando o escravo Elias entrou pela porta dos fundos da casa de Simplício Dias naquele sábado de julho de 1824 pra avisar sem mais tardança que o capitão de um navio francês insistia em falar com o governador da Parnaíba sobre a chegada de uma encomenda que por certo haveria de interessar, uma múmia egípcia.

Simplício naquele momento ao saber da chegada de Elias com noticia de que havia coisa grave ocorrendo no cais, tratou logo de chamar o negro a um canto. O navio francês, Le Prince de Bourbon, comandado por Emile Bornett, vindo do Egito e com escala no Marrocos, havia aportado em Tutoia a caminho de São Luiz e pedia permissão pra entregar uma encomenda ao coronel Simplício Dias da Silva.

E a encomenda, dada o valor e sendo coisa de chamar atenção, não poderia ser desembarcada em plena luz do dia. Simplício mandou o negro de volta com a ordem de que o desembarque da múmia seria pela madrugada antes da mudança de maré e com pouca gente por perto. Deu ordens a Elias de que reunisse logo uns quatro homens de sua confiança pra aquela faina. Havia comprado através de um negociante grego no Cairo aquela que seria a joia da sua loja, a múmia de uma criança, com o que pretendia abrir uma casa com mercadorias do Oriente na Parnaíba.

Pela madrugada os negros chegaram sem fazer barulho e tendo Elias como guia e encarregado do serviço foram depois no rumo do Porto Salgado pra desembarcar a múmia e guardar no prédio da esquina. Deu tudo certo. A madrugada com pouco movimento no cais e o silêncio do outro lado da Ilha de Santa Isabel fizeram com que dentro de pouco menos de meia hora aquela que seria a peça mais valiosa da loja de antiguidades estivesse guardada no armazém.

Simplício, tamanha a curiosidade pelo objeto comprado do Egito, mal dormiu naquela noite e na madrugada. Dia nascido, bem a criadagem de pé e mandou Elias abrir o armazém na parte de baixo do prédio da esquina. Queria ver com aqueles olhos que um dia a terra haveria de comer, uma peça da história da humanidade e que só ele e seu dinheiro podiam comprar.

Seria admirado e temido por toda a região, em São Luiz, Recife, Rio de Janeiro. Finalmente se vingava da ingratidão de dom Pedro I por não ter aceitado seu presente, para as filhas, as princesas Januária, Paula e Francisca, um cacho de bananas feito de ouro maciço e com pedras de rubi nas pontas! Se vingava por estar sendo agora perseguido e sendo acusado de tramar a queda do Império. Os dias, cinco de uma semana, foram passando e a loja da esquina sempre fechada começou a chamar a atenção.

Certa noite, já entrando em agosto, Elias foi na ponta do pé ver como estava a carga, uma peça belíssima de madeira e ornada com cenas de batalha. Foi ver, mas sem o direito de chegar perto e de tocar. Tinha o tamanho de menos de uma braça. Viu a peça e do jeito que entrou calado e se pelando de medo, foi saindo. Apenas Simplício e ele sabiam do que se tratava. Quando saiu na porta do armazém na esquinada da rua Grande, por volta de umas duas horas, achou de tanger um cachorro que dormia enrodilhado. O bicho nem se mexeu. Pegou um pau e fustigou de novo. Nem a pau. Nesse momento lá embaixo no cais uma sineta tocou duas vezes. Com aquele sinal Elias se arrepiou dos pés à cabeça.

Saiu olhando pra os lados em direção dos fundos e foi se aquietar. Mais daqui a pouco haveria de já estar de pé antes que Simplício acordasse. Era lei e ele tinha que cumprir. Mas quando na volta passou pelo cachorro viu que estava morto. Tratou de tirar aquela coisa dali antes de amanhecer. Lá pelo meio do dia foi chamado pelo capitão do porto, Sebastião de Seixas. Dois negros que haviam levado nas costas a encomenda pra o governador Simplício Dias da Silva naquela madrugada, estavam mortos.

Morreram escumando pela boca e se coçando sem que nada desse jeito. Não tinha sido nada de briga entre eles ou coisa de comer. E assim começaram a aparecer e acontecer outras coisas dignas de se meter na cabeça de que aquela múmia trazia coisa ruim pra dentro de casa. Simplício começou a ficar encasquetado com tanta coisa acontecendo dentro de sua casa.

Aquele cachorro, agora dois negros da estiva mortos sem causa, uma sua sobrinha caiu da escada e quebrou as costelas, o armazém ficou de uma hora pra outra infestado de ratos e de morcegos. Sem dar ciência à família e aos amigos, ao chefe de polícia, noutra madrugada Simplício Dias da Silva mandou que pegassem aquele troço e jogassem ou queimassem bem longe. Mas com medo de se repetir com ele o ocorrido com os negros estivadores, Elias acabou foi jogando no barranco do Porto Salgado no lado contrário a alfândega.  

domingo, 14 de julho de 2019

Seleta Piauiense - Alcides Freitas

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ALMA PIAUIENSE

Novo Anjo

Alcides Freitas (1890 – 1913)

Ouço-te passo leve, ouço-te a melodia
Dos pantufos de seda a cantar no ladrilho
Uma estranha canção de sonho e de magia
Voz do vento, ao luar, nos penachos do milho...

E essa música, Flor, que me prende e extasia
No vago encanto azul de um celeste estribilho...
Ah! mistério bendito! Esquisita harmonia!
Perco o rumo; não ando; e é-me doce o empecilho...

Ouço-te o passo leve... Uma flauta que canta;
Um grego monocórdio um rito acompanhando;
Ânsias de carne moça e suspiros de Santa...

Ouço-te o passo leve... Ai! Amor por quem és!
Dá que eu viva, a sorrir, como um Anjo, escutando
A guitarra de luz que vibra nos teus pés!?...

Fonte: Antologia dos Poetas Piauienses, de Wilson Carvalho Gonçalves  

sexta-feira, 12 de julho de 2019

DESPEDIDA DE CADA DIA

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DESPEDIDA DE CADA DIA

CUNHA E SILVA FILHO

            A vida é um romance machadiano, e, fosse citar um dos títulos, não hesitaria em citar Dom Casmurro (1899). Nesta crônica, direi por quê. Quero me prevenir de conceitos livrescos ou solenemente eruditos ou highbrow à Aldous Huxley (1894-1963) que tantas vezes nos atrapalham e nos desviam para a ausência de pensamento próprio ou de natureza antropofágica.

            Está o mundo muito livresco e a acumulação é gigantesca. Há teorias para tudo até para baboseiras aplaudidas aqui e alhures e, se falo em alhures, falo do exterior, dos outros países desse planeta ruidoso e com traços apocalípticos, de vez que, numa palavra, o que muda é só a língua, traço, de resto, que não se modificou por causa da conhecida Torre de Babel sobre a qual até linguistas, como Mario Pei (All about language London: The Bodley Head, 1956, p. 9) não deixam de fazer uma alusão ainda que não seja para corroborar a existência ou não do fato.

            A alma humana (William Shakespeare, 1564-1616, e o próprio Machado de Assis ( 1839-1908), mutatis mutandis - que não me deixem mentir - é tão igual quanto todos nós que nos chamamos, amiúde e com alguma arrogância mal disfarçada, de humanos. Que humanos podemos denominar uma pessoa que, por querer disputar ficar com uma cadeira num local e não o conseguindo, mata estupidamente uma outra que desejava também a mesma cadeira?

            Quanto de humano temos em nós em ações brutais e selvagens como estas? Quanto de verdadeiramente humano somos todos nós? Não sei. Talvez ninguém o saiba. Há uma descida de esgotamentos e exaurimento de traços solidários na natureza humana que há tempos está nos igualando a monstros sociais, tanto em indivíduos ditos escolarizados quanto em pessoas sem instrução.

             Vejam as duas imagens emblemáticas do que estou tentando passar-lhe aqui, caro leitor. Uma é a conversa dos coveiros da tragédia Hamlet (c. c,1598-1604, ou "provavelmente", segundo Otis & Needleman,  in An outline - history of English   literature, 4 th edition. Vol. 1: To Dryden. New York: Barnes  & Noble, 1965, p. 204),  obra que, sem peias na língua, nos dá a justa medida do que somos e fazemos jus ao pulvis sumus. A outra é da daquela fieira de notícias de falecimentos, ao longo dos capítulos do romance Dom Casmurro, já mencionado.

             Ora, tanto numa imagem quanto noutra o ponto comum, desponta uma luz sem argumentos contraditórios. Somos aparentemente alguma coisa apenas enquanto vivemos. E entre a vida e a morte, o fio é muito tênue, inesperado, repentino, provocador da surpresa, do inacreditável, de um abrir e fechar dos olhos, do que não imaginávamos que seria assim ou assado, alegre ou triste, barulhento ou silencioso.

            Tanto quanto a imagem introspectiva de que, em idade provecta, por dentro nos achamos ainda moços e prontos até para amar uma ou mais vezes, temos a sensação de que, na vivência do presente, do que por mais de uma vez chamei de primado do presente (embora dando a esse sintagma um sentido diferente, o de privilegiarmos só o instante vivido em detrimento dos dois outros tempos, o passado e o futuro, que também são realidades ponderáveis e latentes ), temos a forte sensação de que não morreremos.

            Não há ninguém que não tenha experimentado essa sensação de eternidade, sensação que localizo mais nos momentos de nossas vidas mais felizes e mais inebriantes. Essa sensação de eternidade nós é muito cara em algumas fases de nossas vidas dado que ela tem o seu tanto de fuga momentânea ao sentimento da finitude da nossa curta e imprevisível travessia do começo ao fim.

            Contudo, a quem leu uma obra e outra, é o próprio narrador machadiano e os coveiros de Hamlet que, volta e meia, nos vêm à lembranças e que mostram que a vanitas vanitatis e o pulvis sumus, ao final e ao cabo, ali estão nos alertando que a vida é breve e que os humanos e os desumanos hão de, uma vez ou outra, ser forçados a engolir a efemeridade de nossos vícios, oportunismos, indiferenças, preconceitos, mesquinharias, hipocrisias, atos vis e abomináveis.

            No mundo em que vivemos, sob o signo do imediatismo, do hic et nunc, somos um tanto meio iludidos pelo dinâmica da multiplicidade de incidentes e acidentes que nos tomam de assalto a mente já por si mesma atolada pelos apelos ao presente utilitarista e dionisíaco.

           O homem se mostra sem tempo e azo de pensar em si mesmo, muito menos deixando o hedonismo escapar para um reflexão metafísica em direção a um mergulho denso, profundo, visceral, voltado para questões como a transitoriedade dos homens, dos objetos e das coisas que nos cercam e, ao contrário, nos fazem ver, diante de nós, não mais pessoas, porém interesses imediatos e inconfessáveis.

          Vida material, amizades datadas ou descartáveis, prazeres, nos quais campeiam as futilidades, a superficialidade, as “mentiras convencionais de nossa civilização”, momentâneas de bons dias insossos, beijos e abraços virtuais, muitas vezes vazios de sentidos, mero ritualismo de protocolos sociais e handshakes do mundo do business, gestualidades mecânicas, verdadeiras as sensaborias pós –modernas.

          Não é de causar espécie quem mesmo no último dia de despedida o ritual, sobretudo no mundo da high society, se revista da suntuosidade nas vestimentas e nos gestos sombrios exigidos pelas convenções sociais com indefectíveis óculos escuros de grife a prantear quem também na vida passou ou agiu da mesma forma e com os mesmos privilégios.

          Assim caminha a humanidade, deixando atrás de si o diálogo final dos coveiros shakespearianos sobre o destino dos homens e os capítulos machadianos assinalando fleugmaticamente a nota fúnebre de seus personagens - perdedores ou vencedores -, tragados pelo voracidade do tempo.