domingo, 12 de abril de 2020

OBVIEDADES SOBRE O VÍRUS




OBVIEDADES SOBRE O VÍRUS

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                Começo com aquele cidadão que chegou à sábia conclusão de que obviedade é algo que todo mundo sabe, desde que saiba a resposta; graças a seu descortino literário, escrevendo sobre isso, vendeu milhões de seu livro, tornando-se best-seller aqui e alhures; foi também ele que disse, como se óbvio fosse, que não pensamos como pensamos que pensamos.

                Seria, de fato, óbvia essa assertiva? Entendo que, por mais que estudos empíricos, não axiomáticos, experimentais, mesmo filosóficos, auxiliados por estatísticas sociológicas, encomendadas ou não, tentassem comprovar tal tese, não conseguiriam, simplesmente porque resta quase impossível a qualquer indivíduo saber a resposta exata que daria se alguém lhe questionasse sobre no que aqueloutro estaria pensando. A não ser que o pensador estivesse hipnotizado ou, de alguma forma, induzido a falar a respeito daquilo em que estivesse pensando, somente seriam conhecidos seus pensamentos, a partir do momento em que ele os publicasse ou verbalizasse; apenas e tão somente observando aspectos físicos ou comportamentais do ser pensante, não se poderia ter certeza absoluta de que ele pensou ou não como pensou que pensou.

                E se o escritor tivesse querido dizer, naquele pensamento que encerrou o primeiro parágrafo, que não é o que penso que não é conhecido dos outros, mas o resultado do meu modo de pensar, é que, obviamente, não resultaria no pensamento-chave de um grupo, do qual fizesse parte e ao qual fosse dado pensar sobre um tema ou situação comum a todos? E daí?

                Continuando com as filosofices, e ainda falando em pensamento, modo de pensar. Outro fato que, por algum tempo, mesmo quem precisava dizer que era óbvio, já que, desde sempre, ainda que negasse ou negaceasse, teimosa e inexplicavelmente essa obviedade, não houve como esconder a verdade que lhe escancarava, foi sobre a condição – digamos, existencial, ontológica, do vírus. A princípio diziam que ele não era um ser vivo, apenas um aglomerado de material genético, que precisava, para proliferar ou “procriar”, sair de seu estado de catalepsia, hibernação, migrar em seu parasitismo zoótico (se o vírus não é vegetal nem mineral, logo, seria animal?), de um hospedeiro.

                Todos os estudiosos e, mesmo, os curiosos que teimaram em considerá-lo um “ser” “não vivo”, jamais deixaram de afirmar, tampouco, ousaram contrariar uma verdade científica irrefutável: que ele, o vírus, é algo como um bolinho genético composto de DNA ou RNA. E Genética, eu, a gramática e algumas obras científicas, ao tempo em que descobrimos que, vocabular e etimologicamente, deriva do termo grego génesis e do latim genese – formação dos seres, desde a origem -, também soubemos que, enquanto ramo de estudo, é a parte da ciência que trata da transmissão das características hereditárias dos seres vivos; ou seja, cuida da hereditariedade, estrutura e função dos genes, além da variação entre esses seres; enfim, busca compreender os mecanismos e leis de transmissão das características através das gerações.

                Para a Ontologia, ser é aquilo que existe, tem vida, ocupa espaço existencial, física, materialmente, ou de forma intangível ou imponderável; logo, fortalecidos por essa tese filosófico-metafísica, conclui-se que o vírus é um ser muito vivo.

                Deixados os arrazoados justificadores para trás, gostaria de encerrar o questionamento sobre a condição de ser vivo do vírus, apelando, então, para os lugares-comuns – havidos por retóricos e teólogos como fontes inesgotáveis de argumentos, fundamentos e provas para qualquer assunto ou discussão – ditos e replicados por tantos, hodiernamente: o interesse da ciência, o primeiro, não é eliminá-lo, enquanto gênero ou espécie, empreitada improvável para qualquer estudioso ativo, mas fragilizar, exterminar, acabar, enfim, tirar a vida – obviamente, só se tira algo de quem o tem – dos que estejam vindo à tona para incomodar, tolher a paz, precarizar a saúde, pôr fim à existência de tantos seres humanos e/ou não.     

Seleta Piauiense - Everaldo Moreira Veras




Moinho

Everaldo Moreira Veras (1937 – 2011)

Todos os dias me suicido,
invento dores e palavras absurdas,
é a fórmula que escolhi para me multiplicar.
Começo quando começa o dia,
estou eu sempre me recomeçando.
Faço assim porque tenho pressa,
pode ser que eu morra
antes do fim do mundo.
Além do mais,
a noite não espera
e guardo muito cuidado com ela porque,
no seu silêncio extremo,
está a perdição que me alimenta.
Percorro os caminhos como um navio,
desses que carregam fantasmas.
Vou repartindo o tempo,
ora estou na luz,
ora no escuro maior.
É assim a contradição que estabeleço
para que ninguém me encontre
nem tampouco imite o meu sofrer.
Escondo,
dentro de mim,
no peito,
um moinho.
No centro dele sou duro como ferro.

Fonte: Jornal de Poesia 

sábado, 11 de abril de 2020

O Judas da Guarita


O Judas da Guarita
Pádua Marques Contista, cronista e romancista

Olegário estava colocando o nome do prefeito Ademar Neves num pedaço de saco de estopa pra depois, daqui a pouco dar os últimos ajustes no boneco do Judas que estava guardado nos fundos da casa. Agora faltava vestir com um paletó velho, conseguido pela mãe Rosa na casa de doutor Mirócles. Era desse jeito todos os anos desde quando se meteu a fazer aquela festa na Guarita, em meio daquele deserto de areia e com casas de barro cobertas de palha de carnaúba. 

Sua mãe Rosa todo ano saía uns dois meses antes, ainda em janeiro, procurando entre as famílias ricas de Parnaíba alguém que desse uma roupa velha, fora de uso, uma camisa, calça, paletó, sapato, gravata, pra que seu filho Olegário vestisse o Judas pra queimar no sábado de Aleluia, passada a Semana Santa. Era coisa de vir gente de tudo quanto era canto pra ver e se divertir. Na morte do Judas tinha refresco de maracujá, de limão, abacaxi, bolo de tora, bolo de milho, broa, chá de burro, café, cocada, macaxeira e milho cozidos, canjica, pamonha, tudo em quanto. 

Vinha gente do Macacal, dos Campos, Tucuns, Curre, Tabuleiro, do Alto do Cemitério e até de dentro da rua, os filhos de gente rica. Vinha essa gente assistir a queima do Judas e que todo ano levava o nome de alguém detestado pelo povo, um intrigado, um político da Parnaíba. Aquela era uma festa pra se esperar pelo próximo ano. E feita com apuro. Olegário fazia tudo sozinho. Muitas das vezes costurando e enchendo o boneco a noite inteira. Enchia de serragem, maravalha ou mulambo. Tudo servia. E naquele ano de 1933, Olegário estava era zangado com o prefeito Ademar Neves!

Olegário tinha pouco mais de vinte e quatro anos. Filho do carroceiro vindo do Sobradinho, Manuel, o Mano, com dona Rosa, que sofria dos nervos a ponto de só viver enfurnada e com a cabeça enrolada de pano, tinha ainda as irmãs Antonia e Maria José. De vez em quando Rosa em dias de crises, quando só faltava correr e acordar a Guarita toda, ia bater na Santa Casa atrás de algum alívio pra aquele sofrimento sem fim. Mas nesses tempos o filho era de viver entretido com as brincadeiras. 

Quando não era com a brincadeira de boi em junho, era com o diabo de Judas na Semana Santa! Uma vez ou outra aparecia algum colega e mais outro pra ajudar. Aí se formava aquela comandita toda da Guarita, gente ali de perto do Rio Grandense e que era afamada na Parnaíba inteira. Todo ano corria a notícia de que Olegário do Mano ia botar o Judas e a inquietação era saber quem seria o homenageado. 

O menino que agora era homem e dono de dois jumentos e oito ancoretas, nunca foi de querer saber nada com escola. Do pai ouvia que escola era coisa de filho de rico, de seu Roland Jacob, Franklin Veras pra cima. E que seus filhos estando de bucho cheio e tendo uma rede pra dormir não carecia de muita ciência, coisa muito além não. Olegário, menino, foi levado pela mãe Rosa e pela madrinha Cecília pra se matricular no Miranda Osório, mas refugou logo a tentativa de aprender a ler e escrever. Rosa agora botou numa escola do bairro, ali perto, mas ele foi com as irmãs por pouco tempo. Terminada a aula, era de sair correndo na frente delas, gritando, dizendo que estava com dor de barriga ou com febre e que não voltava mais. 

No outro dia a mãe ia bater na porta de doutor Cândido, na Santa Casa, procurando saber do que se tratava. O doutor examinava aqui e ali e não encontrava nada de doença e longe dele, cochichando, dizia pra Rosa que o menino estava com manha, preguiça. E se continuasse daquele jeito era pra mais na frente ir pra Marinha ou acabar indo pra o Acre, onde tinha só índio que comia gente! 

E a coisa acabava ficando por aquilo mesmo. E assim cresceu Olegário até encontrar seus jumentos e as suas ancoretas. Olegário fazia tempos havia se metido a botar água nas casas. Fez o pai fazer negócio com dois jumentos e umas ancoretas, oito ao todo, e ia pegar água na lagoa do Bebedouro pra vender nas casas da gente que tinha dinheiro, na linha ferro, mais pra baixo, nos rumos do Alto do Cemitério e que agora corria o risco de acabar seu serviço porque Ademar Neves estava calçando tudo quanto era rua, enquanto a Guarita ficava na pobreza. 

Mas quem seria o Judas daquele ano de 1933? Pouca gente adivinhava. E foi essa dúvida, essa inquietação que até o chefe de polícia de Parnaíba ficou preocupado. Mandou uns informantes ficarem nas proximidades da Guarita dia e noite, ouvindo raparigas, bêbados, vagabundos, enfim, assuntando aqui e ali com os vizinhos de Olegário do Mano. Mas era o prefeito Ademar Neves, chamado por Olegário de Camaleão Velho, o escolhido pra ser queimado no Sábado de Aleluia. 

Naquele ano estava o inverno bom de água. As obras da estrada de ferro levavam muita gente a se mudar da Guarita, dos Tucuns, Curre e do Bebedouro pra beira da linha no Macacal. O incômodo lá eram as muriçocas! Muita gente dizia de boca cheia que a Guarita tinha os dias contados, que era lugar onde nem pra morrer haveria de prestar porque era coberta de areia e lá nunca teria nada! No dia da queima do Judas, no Sábado de Aleluia, amanheceu pros lados do Catanduvas com umas nuvens escuras. Olegário mal meteu a cara na porta foi ficando preocupado. 

E lá pelo meio da tarde começou a chover. Todo o movimento esperado pra aquela festa foi pra dentro de casa. E foi chuva pra mais até de noite. Chuva de ninguém se atrever a meter a cara na porta. Chuva regada a relâmpagos e trovões. Coisa de fazer cachorro e menino se mijando de medo. De uma hora pra outra a Guarita ficou um lamaçal só. E lá no largo, naquele terror de chuva, perto do Rio Grandense, Olegário do Mano junto com dois colegas tentando subir aquele boneco todo vestido de terno de linho, gravata marrom escuro, de sapatos lustrados, com o nome e a cara de Ademar Neves. O Judas foi ficando pesado de tanto levar água e eles não conseguiram que subisse. O jeito foi deixar o prefeito largado no chão.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

DIÁRIO - 10/04/2020




DIÁRIO
[Aniversário, Kindle e um susto]

Elmar Carvalho

10/04/2020

            Ontem fiz 64 anos de vida. Como não tenho o hábito de comemorar meus aniversários natalícios, nada me custou permanecer em meu distanciamento social, eufemismo criado, nestes tempos de expressões politicamente corretas, para a quarentena imposta pela covid-19. De qualquer maneira, como o próprio nome indica, aniversário acontece todos os anos.

Mesmo assim, a Fátima pediu uns quitutes por serviço de entrega domiciliar, e fizemos pequena comemoração, apenas com a presença dela, de minha filha Elmara, do seu namorado, o Felipe, e deste aniversariante sessentão. Em termos de aniversário, comemorei apenas o de meu meio século, o de meus 55 anos e o de quando me tornei um sessentão. Como dizem os sarcastas, entrando agora na casa dos 64, não sei nem bem se é de fato uma casa ou se apenas um pardieiro, ou, na melhor das hipóteses, uma tapera. Por ser um número redondo, talvez comemore os meus 65.


Alguns poucos e bons amigos, confrades e parentes me parabenizaram através de telefonemas, torpedos, e-mails e mensagens por whatsapp. Entre eles, pedindo desculpa por involuntária omissão, e sem seguir (necessariamente) a ordem de recebimento: Homero Castelo Branco, Maria, Reginaldo(s) Costa e Miranda, César e Simone, Natim Freitas, Teresinha Queiroz, Ben-Hur Sampaio, Maria José, Josélia, Nilva, João Miguel, Gelvan Lisboa, Cid de Castro Dias, Walter Lima, Felipe Mendes... Também fui parabenizado pelo grupo de whatsapp da Academia Piauiense de Letras, mas não pude responder, por não ser usuário desse sistema de rede social, porém o faço aqui e agora. A todos muito obrigado pela lembrança, de todo coração.

Ainda ontem sofri um grande susto. Caí na besteira, não sei por que, de tentar fazer a configuração de meu aparelho de leitura Kindle, da Amazon. Numa barbeiragem ou vacilo indevido, optei por comandar a configuração inicial do dispositivo, e isto me custou o sumiço de minha biblioteca virtual, de mais de quinhentos livros, o que, além do transtorno, implicaria na “queima” de uma pequena fortuna. Para mim, seria uma verdadeira calamidade, uma vez que hoje leio muito mais através do Kindle, do que por meio de obras físicas.

Tentei manter minha calma, ao pensar que os livros deveriam estar no empíreo, isto é, numa “nuvem” virtual, e que, portanto, eu poderia resgatá-los. Um tanto ansioso, fiz algumas tentativas fracassadas. Mas, insistindo, pelo método do “erra acerta”, consegui trazer para o Kindle a minha biblioteca, quando já era bem tarde da noite. Para me tranquilizar e me fortalecer espiritualmente, pedi logo um novo e-book.

Tratava-se de “Tao Te Ching – o livro que revela Deus”, da autoria de Lao-Tsé, texto integral, 5ª edição (2006), publicado pela Martin Claret, tradução e notas de Huberto Hohden. Enfeixa 81 breves poemas, alguns um tanto herméticos, por conterem paradoxos e antíteses ou por tentarem sondar o insondável, conhecer o incognoscível, ou auscultar o inaudível e inescrutável.

Alguns versos, tal a beleza sintética de que se revestem, são verdadeiros aforismos e lições de bem-viver. Desses aforismos e lições transcrevo apenas três, que seguem abaixo:

                 Grande, porém, és Tu, de quem tudo vem / E a quem tudo volta.   
             Tudo o que existe egressa do Ser / E regressa ao Ser.
              O único desejo do sábio / É não ter desejos.     

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A COVARDIA DE UM JUIZ

Fonte: Google


A COVARDIA DE UM JUIZ

Valério Chaves
Des. Inativo do TJPI

     

         Ao longo da existência do homem a história da humanidade tem sido palco de muitos regimes de terror, de infames práticas punitivas e de muitos crimes que pelo rigor de seu simbolismo, pela importância do réu ou pela coragem ou covardia do juiz ultrapassam o tempo e dividem a própria História.

         Nesse contexto, poderíamos mencionar como exemplos baseados nos registros históricos, os assassinatos do imperador romano Júlio Cesar, Abraham Lincoln, Mahatma Gandhi, John Kennedy, Martin Luther King, John Lennon, Osama Bin Laden e tantos outros.

         Neste período de celebração do Mistério da Liturgia Pascal bem que poderíamos evocar ainda aquele que é considerado o maior crime da humanidade cujo processo de prisão e julgamento do réu, culminou na Paixão e Morte de Jesus Cristo pregado na cruz onde passou para o Pai a vida nova da Ressurreição.

         Com efeito, a condenação de Jesus Cristo, sem fundamentação jurídica e ausência de culpabilidade, serviu não só para indignar seus discípulos e seguidores cristãos, mas também para fazer de Pôncio Pilatos um símbolo de juiz covarde e submisso ao medo de perder o cargo de representante do imperador romano Tibério Cesar, ao permitir que a sentença condenatória de um Réu inocente fosse ditada pelos naturais do mundo da Galileia.

         A pusilanimidade fez de Pilatos um histórico patrono dos chamados julgamentos alternativos do nosso tempo – aqueles que diante de um caso concreto, o juiz admite a coexistência de duas ordens jurídicas e interpreta a lei como um parâmetro genérico sem compromisso com as provas dos autos.

         Pôncio Pilatos sabia que o processo criminal contra Cristo estava repleto de nulidades, como o uso de falsas testemunhas, julgamento noturno, sem direito a recurso e execução da sentença durante a Páscoa – que na época era proibido pelas leis  judaicas. Mesmo não vendo em Jesus crime algum, e, temendo trair o imperador Tíbério, preferiu lavar as mãos e condenar à morte de cruz o Cordeiro da Páscoa acusado de blasfêmia, de não pagar impostos a Cesar, de se proclamar rei, fazer milagres e perturbar a ordem pública.

         Os historiadores relatam que tudo aconteceu por uma questão histórica advinda da inveja das facções judaicas estimuladas pelos líderes fariseus que dominavam o Sinédrio, mas acredita-se que se Pilatos tivesse agido com autoridade e fiel à sua convicção da inocência do Réu, como ele mesmo reconheceu dizendo: “Sou inocente do sangue deste justo”, o povo não teria arrogado o direito de praticar o maior crime judiciário da era cristã.

         A lição bíblica diz que “há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” (Provérbios, 14:12).

         No caso de Cristo, Pilatos foi um juiz tíbio agindo sob os interesses políticos do império romano. Para a Justiça de nossos tempos fica a advertência para aqueles que pretenderem seguir o exemplo de Pilatos. Estes, certamente não estarão salvos do mesmo ferrete que imolou Jesus, porque como disse Ruy: “Não há salvação para o juiz covarde”   

quarta-feira, 8 de abril de 2020

DIÁRIO - 08/04/2020

Fonte: Google
Fonte: Google



DIÁRIO
[O bem-te-vi de Batista Rios e o passarinho de Bernardes]

Elmar Carvalho

08/04/2020


            Estava eu posto em sossego, nesta quarentena covidiana, placidamente conversando ao telefone (celular), com o amigo João Batista Rios, diácono católico e juiz inativo, falando de assuntos de altas indagações teológicas, tais como destino e livre arbítrio, por sinal questões antitéticas, quando de súbito, com certa ansiedade expressa na voz, ele me pediu licença, pois iria salvar um bem-te-vi, que estava a se afogar em sua piscina.

            Após um ou dois minutos retornou, talvez um tanto ofegante, para a continuação da conversa. De imediato, lhe perguntei se ele conseguira salvar a avezinha, que é de minha máxima estima, como em outra oportunidade explicarei. Fiquei feliz por ele me responder afirmativamente. Como ele tenha acrescentado que ficara molhado, lhe pedi para interrompermos o telefonema, mas ele disse que não, que logo depois iria mesmo tomar banho na piscina. Sobre o restante da conversa, retornarei a ele, daqui a alguns dias, neste diário.

            Ao longo de alguns anos, tenho observado o canto e o voo dos bem-te-vis. São passarinhos valentes, ágeis, velozes, quando têm de enfrentar outras aves. Têm bela e vistosa plumagem e alegre canto. Seu refrão de advertência é para nos lembrar das coisas erradas que fizemos ou fazemos às ocultas: “Bem te vi!”

            Penso que esse bem-te-vi que o Batista Rios salvou estava prazenteiro, a voar e a cantar, quando sentiu sede e resolveu tomar um gole d’ água na bela piscina de meu amigo. A piscina não deveria estar cheia até a borda, de modo a lhe permitir o recolhimento da água de sua beira. Assim ele, mestre das acrobacias e coreografias aéreas, fez um voo rasante, e, quiçá, por um milimétrico erro de cálculo, sofreu o acidente, que quase lhe custou a vida, não fora a providencial intervenção de meu amigo.

            Desse acidente aéreo, meu pensamento, em altas revoadas, lembrou-se de uma leitura antiga do notável escritor clássico Pe. Manuel Bernardes (1644 – 1710), que apesar da erudição e linguagem castiça, tinha um estilo sóbrio, ele que era um mestre ímpar de narrativas e apólogos, contudo sem as cintilações feéricas, quase fogos de artifício, da retórica e estilística do Pe. Antônio Vieira (1608 – 1697). Ambos eram lisboetas e podem ser considerados contemporâneos.

            Eu era ainda menino quando li o texto de Bernardes, a que fiz referência. Farei, como se diz com certa redundância e ênfase, uma apertada síntese. Antes, porém, quis reler o texto em sua íntegra. Procurei-o no livro Nova Floresta (seleção), Clássicos Jackson, volume XXIX, edição de 1965, que tem um longo e erudito prefácio de Múcio Leão, no qual colhi preciosas informações sobre a vida e a obra de Manuel Bernardes.

            No texto preambular, fiquei sabendo que ele fora sepultado na vetusta igreja do Espírito Santo, em cujo túmulo o padre Antônio dos Reis mandou gravar o seguinte epitáfio, de sua autoria:

“Os potuit Coelo sculptor tibi reddere: mores
Mentem, animum calamo  reddit ad ipse suum.”     

            Encontrando uma única tradução truncada e/ou sem nexo no doutor Google, e não tendo mais o saudoso professor, erudito e latinista José de Ribamar Freitas para me socorrer, a quem recorria em situações análogas, recorri ao ex-seminarista e diácono João Batista Rios, que, por sua vez, apelou para os bons serviços do parnaibano Dr. Antônio Carlos Machado, professor de latim da Escola de Filosofia e Teologia do Seminário Maior de Fortaleza, que produziu a seguinte tradução do epitáfio acima copiado: “Foi possível ao Céu que o artista que ele era retrocedesse no mais íntimo do seu ser."

            No e-mail em que enviou sua tradução ao magistrado João Batista Rios, o professor Antônio Carlos Machado, dando, a meu ver, correta interpretação ao epitáfio, acrescentou as seguintes e elucidativas palavras:

“Pelos escritos, ele retrocede o comportamento, a mente, o espírito para o seu estado original.

Para compreender isso, eu pesquisei a biografia dele e, pelo que entendi, ele veio a falecer numa condição de total demência. Ele fora um brilhante teólogo, mas recusava-se a escrever as suas doutrinas, sendo obrigado pelos superiores a fazer isso. No entanto, essa violência psicológica gerou nele uma espécie de trauma, ele entrava em aflição, talvez em estado de choque, quando ouvia alguém lendo os seus escritos. Os seus confrades achavam que era o demônio perseguindo-o por causa de suas virtudes. Aos poucos foi perdendo a lucidez, até que foi proibido de celebrar a missa (certamente porque confundia as coisas – fez-me lembrar do Frei Agostinho, que saltava e esquecia partes do ritual da missa).

Assim, o epitáfio resume, em breves palavras, essa situação de sua vida: um intelectual brilhante que inexplicavelmente perde a lucidez e retorna ao estado infantil.

Bem, foi isso o que eu entendi do epitáfio do Padre Manuel Bernardes.”

         Não tendo encontrado a narrativa no livro acima referido, fui encontrá-la na excelente Antologia Escolar Portuguesa, organizada por Marques Rebelo, 1ª edição, datada de 1970, publicada pela FENAME – MEC. Com dinheiro dado por minha saudosa mãe, lhe adquiri um exemplar no início de minha adolescência, que li, embevecido e exultante, e reli várias vezes, mas depois o perdi, não sei em que circunstâncias. Muitos anos após, consegui um outro, dessa mesma edição, que estou a manusear.

            Sem mais delongas, vamos ao resumo anunciado: um monge, de poucas luzes e um tanto obtuso, ao ouvir a leitura do salmo que dizia ser mil anos para Deus como o dia de ontem, que já passou, ficou muito admirado e sem entendê-lo. Orou, com muito fervor, para que o Onipotente lhe desse a sua compreensão. Nisso chegou um passarinho, que, revoando e cantando maviosamente, o levou até uma árvore das cercanias, onde pousou. Após o que lhe pareceu um breve instante, a avezinha foi embora, o que o entristeceu em demasia.

Retornou ao monastério, em que notou algumas modificações. Não foi reconhecido por nenhum dos monges. Levado ao abade, após várias perguntas e respectivas respostas, este resolveu consultar os anais e registros históricos da Ordem; verificou-se que, pelo cotejo das informações com os livros, mais de trezentos anos se passaram desde a sua saída. O monge compreendeu, de imediato, a interpretação do salmo, e logo a seguir morreu, em beatitude. 

A igreja do Espírito Santo, em que foi sepultado Manuel Bernardes, foi destruída em 1755 pelo grande terremoto que abalou Lisboa. Uma nova e bela igreja foi erguida em seu lugar; mas esta também foi destruída por um outro terremoto. Semelhante a Camões, nem na morte seu corpo teve sossego.

Nos dois anos que antecederam sua morte, Manuel Bernardes perdeu as luzes dos olhos e do entendimento, morrendo cego e louco. Em virtude da perda gradativa da lucidez, foi proibido de celebrar o Santíssimo Sacrifício da missa, rude golpe que o fez derramar lágrimas amargas. Talvez com a sua inconsciência, Deus o tenha querido poupar do sofrimento da morte.      

segunda-feira, 6 de abril de 2020

POEMITOS DA PARNAÍBA


POEMITOS DA PARNAÍBA

Elmar Carvalho



17.           Pacamão

– Eu sou um monumento
anatômico e biotônico
onde a lenda se mistura com a realidade;
onde o homem se confunde com o mito.
E neste instante, sinto-me
forte como um elefante!
– Cadê a tromba? – perguntou um gaiato.
– Está aqui – retrucou Paca/mão na braguilha.
Pacamão: pacamônicos folclores
de ditos repetidos pela boca
do povo – arma de repetição
deflagrando gargalhadas.



18.           Expedito Maciel

Enchia galões de gasolina
até a borda de cerveja
para beber e banhar.
Comprava defuntos frescos
para fazer o enterro.
O caixão seguia de carroça,
enquanto a banda tocava
por entre goles de aguardente.
Acendia charutos cubanos
com cédulas de cinco mil réis.
Dirigia carro importado dos EUA
vestido com roupa de estopa
de saco de açúcar.
Expedito Maciel,
Howard Hughes da Parnaíba,
milionário e excêntrico,
perdulário e esquizofrênico,
filho pródigo de si mesmo.



19.           Luse

Sua saia rodada
sua saia rodando
era uma festa de
cores e folhas e flores
nas festas de que gostava.
Das pontas estelares de seus dedos
saltavam saltitantes valsas
pelos tec-tec teclados do piano.
Hoje ela estendeu um arame
nas pontas da lua nova,
colocou uma estrela e toc-toc
toca berimbau.



20.           Mário Reis

Vulgo Mário Bola, tinha
a graça de um tatu bola.
Orfeu de novos carnavais
carregava o encantamento
dos sopros (marítimos) que
transformava em música em
sua gaita – caixa de mágico som.
Entre a música e a fofoca
uma piada de recheio.

domingo, 5 de abril de 2020

Seleta Piauiense - Hardi Filho



NUDEZ

Hardi Filho (1934 - 2015)
                                                                                                                                                       
estamos nus
e tentamos nos cobrir
com rezas regras e diários panos.

estamos nus e meio tortos
capacitados à opacidade

inconsequente de gestos restritos.
nossas mãos uma sobre a outra (ou sobre a Bíblia)

tentam uma proeza impossível:
esconder a flor ridícula
aqui nos conduziram
a ação mal cometida
a ração não dividida
a razão invertida
dos
comuns marginais corretos pobres ricos leigos e togados

estamos nus/carentes de nudez humana.
a faca do pudor nos rasga os olhos
e não cegamos
setas de culpa nos atravessam o coração
e não nos perdoamos
o raio da sentença nos atinge

e não morremos
estamos nus e imunes.  

Fonte: Portal Antonio Miranda

sábado, 4 de abril de 2020

DIÁRIO - 04/04/2020


Fonte:Google


DIÁRIO

Elmar Carvalho

04/04/2020

            No dia 14 de março, sábado, data em que decidimos suspender nossas reuniões semanais da Academia Piauiense de Letras, para grande satisfação minha, recebi do confrade Cid de Castro Dias um exemplar do seu belo e excelente livro “Alberto Silva: 100 Limites”, com a devida dedicatória manuscrita, que é enriquecido por um magnífico e iluminador prefácio de Zózimo Tavares, cujo título já é uma espécie de síntese do livro – “Um inventário de grandes obras”.

            Cid nasceu em São Raimundo Nonato em 25 de janeiro de 1942. Filho de Manoel da Silva Dias e Ester de Castro Dias, cursou o primeiro grau em sua cidade natal, no Ginásio Dom Inocêncio, e o segundo (antigo Científico), em Salvador (BA). Fez o curso de Engenharia Civil na Universidade Federal do Ceará, concluindo-o em 1968.

Logo em seguida, passou a morar em Teresina, onde ingressou no quadro efetivo da Secretaria de Obras Públicas do Estado, na qual exerceu cargos de direção, tendo sido subsecretário dessa pasta nas duas gestões do governador Alberto Silva (1971 – 1975 e 1987 – 1991). Pertence às Academias Piauiense de Letras, de Ciências do Piauí e Piauiense de Engenharia, da qual é um dos fundadores.

            Embora não seja um literato em sentido estrito, é um legítimo escritor, porquanto as suas várias obras, vertidas em estilo fluente e escorreito, são revestidas das principais qualidades de uma boa redação, tais como concisão, clareza, perfeita ordenação de ideias e atraente conteúdo. Entre outras, publicou as seguintes: “Os caminhos do Rio Parnaíba”, “Piauí – Projetos Estruturantes”, “Piauhy – das origens à nova Capital”, “Piauí – obras que desafiam” e “Engenharia Piauiense”.

            Em “Os caminhos do Rio Parnaíba” demonstra que esse curso d’ água, outrora muito usado no transporte de passageiros e mercadorias, é o mais importante patrimônio natural de nosso estado. Refere os principais estudos e projetos, que visavam à sua revitalização e navegabilidade, bem como o seu uso de forma sustentável, em projetos de irrigação assim como no abastecimento d’água de várias cidades ribeirinhas, tanto do lado do Piauí como do Maranhão, entre as quais importa citar Ribeiro Gonçalves, Uruçuí, Floriano, Barão de Grajaú, Amarante, Timon, Teresina, União, Miguel Alves, Luzilândia e Parnaíba.

            No livro/álbum “Engenharia Piauiense”, no tocante à construção de grandes obras públicas, além do destaque dado a Alberto Silva, são vistos com realce os governantes Saraiva, Chagas Rodrigues, que modernizou e descentralizou a administração estadual, Dirceu Arcoverde e Lucídio Portella.

Antônio José Saraiva, que assumiu o governo do Piauí com apenas 27 anos de idade, construiu Teresina, quase que só com a cara e a coragem, como se costuma dizer, tal o seu ímpeto e audácia, pois pouca ajuda recebeu do governo imperial; pode ser considerado, por haver estimulado comerciantes, construtores e novos moradores etc., uma espécie de precursor do que hoje se denomina parceria público-privada.

Nesse livro – “Engenharia Piauiense” – foram estampadas mais de seiscentas fotografias das obras públicas construídas por governadores e prefeitos de Teresina, desde Saraiva aos dias atuais.  

            Nos seus notáveis livros sobre a engenharia piauiense discorre sobre as principais obras públicas do Piauí. E o faz com muita percuciência e propriedade, graças a seu conhecimento técnico e experiência profissional.

Em virtudes dos importantes cargos que exerceu na Secretaria de Obras Públicas, sem dúvida teve acesso a muitos projetos e discussões técnicas, sobretudo quanto ao planejamento, execução e controle, até porque no exercício do cargo de engenheiro fiscal tinha a prerrogativa e o dever de analisar projetos arquitetônicos, cálculos estruturais, planilhas de custo e materiais etc., para verificar, nas vistorias, se as obras estavam sendo executadas de acordo com as especificações contratuais da licitação.

Portanto, os seus livros são enriquecidos com descrições e especificações técnicas, e documentados com importantes fotografias de seu acervo pessoal, bem como pelas cedidas por notáveis fotógrafos de sua amizade pessoal. Também são permeados por observações sobre o contexto histórico e urbanístico da época, bem como, em alguns casos, são traçadas breves considerações históricas sobres essas grandes obras públicas, contemplando certos detalhes e episódios, alguns interessantes ou anedóticos, ao tempo em que consignam a biografia de consagrados arquitetos e engenheiros piauienses.

No seu livro “Piauhy – das origens à nova Capital”, que foi considerado pela Secretaria de Educação como paradidático, concentrou os principais fatos e feitos notáveis da História do Piauí, tais como o desbravamento, povoamento e colonização, em que tomam vulto as antigas figuras históricas da Conquista, entre as quais Domingos Afonso Mafrense, Domingos Jorge Velho, Francisco Dias de Ávila (e a influência da Casa da Torre), e Bernardo de Carvalho e Aguiar, último mestre de campo da Conquista do Piauí e do Maranhão, fundador da fazenda Bitorocara, que deu origem a Campo Maior.

Ainda na parte dedicada ao período colonial, o livro se debruça sobre a instalação da Freguesia da Mocha, em que se destacam os padres Miguel de Carvalho e Tomé de Carvalho. O primeiro pode ser considerado, creio, o precursor da historiografia piauiense, sobre cuja “Descrição do Sertão do Piauí”, no meu livro “Bernardo de Carvalho, o fundador de Bitorocara”, tive o ensejo de dizer: “O padre Cláudio Melo considera esse documento como um dos mais importantes para os estudiosos de História do Piauí, e que deveria ser de manuseio constante.” O segundo foi vigário da velha Freguesia de Nossa Senhora da Vitória “por 39 anos ininterruptos”, desde a sua instalação em 1697, como está consignado na página 119, “dedicado exclusivamente ao seu rebanho, que se achava espalhado num vasto território”.

Na sucessividade dos fatos narrados nessa obra, merecem destaque a saga de Mandu Ladino, figura (quase) legendária, que se tornou o principal líder de uma espécie de confederação indígena, na luta contra os colonizadores, a criação e instalação da Capitania do Piauí, a luta pela Independência do Brasil em terras piauienses, que bem merece um lugar fulgurante na História do Brasil, porque aqui realmente houve sacrifício e derramamento de sangue, sobretudo no caso da Batalha do Jenipapo.

Além de tratar da Balaiada, da administração e biografia do Visconde da Parnaíba, dos governos do Piauí no segundo reinado, da gestão de José Antônio Saraiva e as suas tratativas e providências para a criação e instalação da nova capital (Teresina), a obra tem um “resumo cronológico da história do Piauí (1676 – 1850) e um anexo, em que são transcritos vários e importantes documentos, entre os quais citarei apenas três: o testamento de Domingos Afonso Sertão, um sobre a fábrica de laticínios e o testamento do Conselheiro Saraiva.

O outro livro a que desejo fazer referência especial é o “Alberto Silva: 100 Limites”, com o qual Cid de Castro Dias presta homenagem ao governador que fez as mais importantes obras públicas do Estado, graças a seu dinamismo e criatividade. Alberto recebeu grandes homenagens, na época em faria cem anos de idade, entre as quais a Medalha do Centenário e sem dúvida o livro de Cid, e o biográfico da autoria de Zózimo Tavares, presidente da Academia Piauiense de Letras, da qual o homenageado fazia parte. Teve a sorte de receber essas homenagens quando a sua lembrança era ainda marcante, quase como se estivesse vivo, quando ainda era um mito na memória do povo piauiense.

“Alberto Silva: 100 Limites”, no seu formato 21 cm x 30 cm, é praticamente um álbum, tal o número de fotografias, gráficos e ilustrações com que o autor documenta e esclarece os fatos e dados que expõe. Tendo ocupado importantes cargos nas duas administrações de Alberto Silva, terminou por lhe angariar a amizade e a confiança, tendo com ele conversado, em certos períodos, quase diariamente. Nessa condição, foi uma testemunha ocular e privilegiada da história, tendo sem dúvida ouvido muitas histórias de bastidores, jocosas algumas, outras sérias.

É um inventário das grandes obras de Alberto, disse Zózimo, no prefácio. É a sua biografia através do concreto, da argamassa e do asfalto, digo eu agora. Sim, porque nesse livro, através de texto e fotografias, estão os monumentais prédios que ele erigiu, as belas e bem iluminadas avenidas por ele rasgadas e as grandes rodovias asfaltadas por ele construídas, entre as quais a chamada de o grande Y, bem como as extensas redes de eletricidade. Não irei enumerar essas obras; elas estão por aí, como se diz, e estão no livro de Cid. O certo é que elas contribuíram para que Teresina se transformasse na bela capital, que é hoje, e tivesse os invejáveis polos de Educação e de Saúde, que atraem alunos e pacientes de outros estados.

Cid de Castro Dias, membro destacado da Academia Piauiense de Letras, é um escritor e historiador notável. Suas obras podem ser inscritas entre as principais da historiografia do Piauí e da engenharia de nosso estado.   

sexta-feira, 3 de abril de 2020

EMOÇÃO NO CIRCO



EMOÇÃO NO CIRCO

Elmar Carvalho

                      Para João Miguel e Elmara Cristina
                                                                              
Pelas mãos tenras
de meus filhos
a magia do circo me chegou.

Atropelado por emoção e saudade
meu coração foi atirado de
lado              a                         lado
pelas piruetas de
         capetas e palhaços
infiltrou-se nos malabares
e me trouxe meu pai e o circo
encantado de minha infância.

As lágrimas escorriam
e eram estrelas e vaga-lumes
que pingavam da cartola
ensopada de um mago...

A lembrança de meu pai
assomou da sombra do passado
suavemente sentou-se ao meu lado
tomou-me as mãos
as mãos de uma criança. 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

O PATO E O FAZ-TUDO

Fonte: Google

                  

O PATO E O FAZ-TUDO

Elmar Carvalho

Após o término da audiência, o senhor Valdemiro Sousa confessou-me ser uma espécie de faz-tudo, pois é cabeleireiro, encanador, marceneiro, pedreiro, lavrador, e talvez mais alguma coisa que eu possa haver esquecido. Disse-lhe que ele era um polivalente, e lhe perguntei se poderia contar a anedota do pato. Demonstrei-lhe que um pato faz muitas coisas, como andar, nadar e voar, mas que nenhuma dessas atividades ele faz com eficiência.

Tem chouto lento, pois tem as pernas curtas, os pés em forma de palmas ou pás e o corpo pesado e um tanto parecido com o casco de um barco, o que lhe faz ser algo desengonçado; o voo é curto e rasteiro, o que não lhe dá muita vantagem no caso de uma fuga; o seu nado, embora gracioso, é lerdo, o que lhe torna uma presa fácil de um predador como um jacaré, por exemplo.

Sousa, entendendo o meu recado brincalhão, não lhe passou recibo e nem se deu por achado, e imediatamente respondeu, bem-humorado, que fazia bem-feito as coisas que fazia. É claro que temos o chamado homem de sete instrumentos, que geralmente não é exímio em nenhum deles ou, na melhor das hipóteses, só domina um ou dois, mas dificilmente vindo a ser virtuose ou mestre.

Elevado ao paroxismo, o especialista é aquele que sabe tudo de nada, e o generalista é o que sabe nada de tudo. Ora necessitamos das profundidades abissais e quase obscuras de um especialista, ora precisamos da visão rasa, mas ampla e geral de um mestre das superficialidades. O mundo é composto e plural, e assim o devemos aceitar.  

28 de abril de 2010