quarta-feira, 6 de abril de 2022

ALGUMA POESIA

Fonte: Google


ALGUMA POESIA


José Expedito Rêgo


Drummond, ainda em vida, dizia não se considerar o maior poeta do Brasil. Ele era modesto. Os grandes homens, de real valor, são, via de regra, humildes. Bernard Shaw não era, nem Voltaire, exceções por certo. Não acredito porém que fosse por falta modéstia que o poeta de Itabira não se julgava o maior. Era sinceridade. Explicava: “Não há maiores poetas, há poetas”. Citava outros que achava muito bons: Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Manoel Bandeira. Cada qual na sua época, em diversas escolas literárias, seguindo tendências diferentes, mas todos grandes. 


Realmente, Bilac, dentro de sua maneira de encarar a arte poética, atingiu a perfeição. Sua poesia era inspirada, correta na forma, de inigualável beleza e sensibilidade.  Quem não recorda o Ouvir Estrelas?  Casimiro de Abreu, poeta da infância brasileira, nunca me esqueço dos Meus Oito Anos: “Oh! Que saudades que tenho...” E a Canção do Exílio: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá...”. São versos que caíram na boca do povo, todo mundo sabe de cor.  Manuel Bandeira teve também momentos de rara inspiração e realização estética.  Mas, no meu fraco entender, nenhum outro poeta brasileiro dominou tão bem a arte de fazer versos como o paraibano Augusto dos Anjos. Ele encontrava a palavra exata, para colocá-la no lugar certo, em versos de metrificação rigorosa e cadenciado ritmo, usando rimas do melhor efeito, tudo dentro de impecável harmonia: 


“É a meretriz que de cabelos ruivos, 

colérica, soltando hórridos uivos,

na mesma esteira pública recebe,

entre farraparias e esplendores,

o eretismo das classes superiores

e o orgasmo bastardíssimo da plebe.”


A poesia de Augusto nada tem de romântica. É realista, muitas vezes brutal: “Um urubu pousou na minha sorte!” Claro que não podia ser popular.  Seu linguajar é difícil, erudito, requer leitura atenta:


“... também das ditomáceas da lagoa

 a criptógama cápsula se esbroa...”


Na verdade, Drummond deve ser o maior de nosso tempo. Em cada época, dentro diferentes concepções da beleza, na arte poética, tivemos nomes tão grandes quanto o dele.   

terça-feira, 5 de abril de 2022

Um poema de Walter Lima

 

Fonte: Google

1705.01

 

Walter Lima

 

Maria, a concebida, renome de 14 gerações,

Atrás temos Davi, Abraão, Moisés, Noé, Adão.

Reunião de tantas gerações para se chegar no

Inexplicável feito inicial.

A história da Criação assim se deu:

 

Desde a Gênesis de tudo quando

Ele na sua infinita perfeição

Reformulou o que não era Nada,

Infinitamente calculou, mediu imensidões

Somou, multiplicou, pôs tudo e

Mais um tanto no nivelamento, ocorreu

As divisões entre Céus e Terra, firmamento,

Reuniu Sabedoria na criação das estrelas, astros.

 

Sim, na Terra dia a dia Fez criação de

Ilimitadas espécies, animais, peixes, insetos...

Lua, Sol, planetas, astros, tudo em seu lugar. Por último

Veio à lume o ser perfeito, Adam e da costela saída

A Madam, perfeição total, o ser “mulher”.

“Descansou Deus quando viu tudo que fez era bom.”

MD.

17/05/2019.   

domingo, 3 de abril de 2022

Seleta Piauiense - Hermes Vieira

Fonte: Google


Lamentos de Mãe-da-Lua


Hermes Vieira (1911 - 2000)


"No sertão, nos matagais,

Quando vai no céu a lua

E nas fontes cristalinas

O luar meigo flutua,

Um silêncio agreste e doce

Deixa tudo extasiado;

Pelo espaço enluarado.

 

E uma voz dolente ecoa

Essa voz que dissimula

Uma dor a gargalhar,

É notória no sertão

Pelas noites de luar.

 

É a voz da Mãe-da-Lua

A chorar o ausente esposo

Que, segundo afirma a lenda,

teve um fim misterioso.

 

Era um pobre lenhador;

Certa vez, indo lenhar,

Por motivo inexplicável,

Não voltou mais ao seu lar.

 

Mãe-da-Lua, em desespero,

Coração angustioso,

Atirou-se pelas brenhas

A procura do esposo.

 

Andou muito, mas, debalde:

O marido não encontrou,

E por isso nunca mais

A cabana ela voltou.

 

E depois, num ramo nu,

Sob um manto de luar,

Outras aves encontraram

Mãe-da-Lua a soluçar.

 

Não querendo a infeliz ave

Pelas outras ser zombada,

Logo o pranto simulou

Numa triste gargalhada.

 

E num galho, solitária,

Mergulhada no luar,

Ela ainda continua

Com seu triste gargalhar.

 

Como oculta a Mãe-da-Lua,

Gargalhando os seus tormentos,

Muitos riem, assim também,

Ocultando os sofrimentos". 


Fonte: Cecordel, acesso em 03/04/2022

sexta-feira, 1 de abril de 2022

A catirina e o helicóptero americano

 


A catirina e o helicóptero americano


Pádua Marques

Jornalista, contista, cronista e romancista

 

Noite dessas, coisa de pouco tempo, eu já estava me preparando pra entrar debaixo dos panos quando de repente entrou pela janela de meu quarto uma catirina. Entrou e fez zuada batendo as asas em volta da lâmpada. Depois voou no sentido das roupas dependuradas e dos meus livros na estante.

E fez aquele reboliço todo e o certo é que levou quase meia hora pra que eu pudesse colocar a insolente de janela pra fora fazendo com que voltasse pelo mesmo caminho por onde entrou. Então me larguei a pensar e recordar cá comigo os distantes dias de minha infância. Fazia muito tempo que eu não encontrava cara a cara com esse inseto tão interessante. Eu até já dava como outra espécie em extinção!

Catirina é inseto de inverno. Aqui pra nós, de tempos de chuvas e dos alagados. E na minha recordação de menino a gente ficava por um bom tempo pelos campos do bairro de Fátima correndo atrás das catirinas pra pegar e depois amarrar com uma linha. A captura não era nada fácil. A gente via e vinha pisando devagar. Um pé atrás do outro, mas bem devagar pra que ela não percebesse e voasse justo em cima da hora. Porque senão tudo estaria perdido.

Não se podia fazer zuada, não podia falar baixo e muito menos alto. A gente ficava como se estivesse numa pescaria. Sem dar um piu que fosse. Passava tempo esperando ela pousar na cabeça de um toco, num fio de arame ou numa touceira de pés de mussambê, pé de capa-bode, numa mata de sabiás, ali pra os lados do Pedro Agostinho, vizinho onde hoje é o mercado municipal, entre as ruas James Clark e Madeira Brandão.

Pedro Agostinho era agregado do doutor Mirócles Veras  e tinha muitos filhos. Os dois maiores, o Zé da Onça e o Burra Cega, que era caraolho, depois de homens feitos seguiram a carreira de carroceiros. Ente os melhores lugares pra se pegar catirina , um era no Campo do Jaboatão, time criado pelos três filhos do João Surubaca, o Chico, o Raimundo, o conhecido Nabor e o Pedro, conhecido pelo apelido de Rádio. Depois vinha o Pelebreu, filho de dona Maria de Holanda, meus irmãos Daschagas e Luís, o Teninha, e outros mais, como o Canequinho, cunhado do Zezé Boi. Era lugar onde também se jogava muita carniça.

Mas era uma alegria medonha, um encantamento, quando depois de uma chuva e na volta do sol naquela campina, um dos quatro ou cinco meninos conseguia pegar a catirina segurando firme pelo rabo. E aquele barulho das asas transparentes batendo no campo aberto e cheio de poças de águas, era uma coisa extraordinária! E a gente ficava olhando aquele inseto de cabeça imensa e com aqueles olhos esquisitos. Nós caçávamos catirinas pra mostrar coragem e valentia uns pra os outros.

Depois o menino caçador levava pra casa ou pra onde o grupo estava brincando. Mas aquele brinquedo vivo logo iria perder o interesse e a gente achava de soltar e deixando que tomasse seu rumo. Ela iria já sem forças pousar num galho e ir depois embora. Tinha gente de nós que até guardava em caixa vazia que fossem de sapatos, de Maisena, em latas de Leite Ninho, dentro de uma garrafa. Mas a bichinha acabava era morrendo de tanta judiação.

E lá no bairro de Fátima tinha uma moça de nome Francisca, que ninguém sabe qual a razão, se devido sua magreza ou porque gostava de andar em tudo quanto era festa, ficou conhecida por Catirina. Não fazia mal pra ninguém. Mas o final de semana era dela! Queria era saber onde ia ter uma festa, um bazar animado por uma radiola, o equipamento eletrônico mais moderno pra aquela época, fosse nas Casas Populares, nome do hoje Nova Parnaíba, se no Curre, na Guarita, nos Campos!

Depois que a gente foi ficando grande e sabendo das coisas e dos segredos da ciência pelos livros, ficamos sabendo que o nome daquele inseto é libélula. Libélula, calcule só. Nome feio que nada tinha a ver. Pra mim nunca deixou de ser catirina! Bom mesmo era pegar mais de uma, duas, três, quatro. Coisa que levava tempo e paciência.

A gente dava até nomes pra elas. Depois soltava no aberto do Campo do Jaboatão ou lá pra os lados do Bariri ou na rua de casa ou lá na beira da linha de ferro, indo pra o Catanduvas, e deixava que saíssem voando e se batendo umas nas outras amarradas de linhas pelos rabos. Pareciam helicópteros americanos de desembarque de tropas naqueles dias de nossas vidas, quando a gente via as fotografias na revista Cruzeiro ou na Realidade durante a guerra do Vietnam. 

quinta-feira, 31 de março de 2022

SOBRE SOGRAS E MADRASTAS

 

Foto meramente ilustrativa    Fonte: Google

SOBRE SOGRAS E MADRASTAS


Elmar Carvalho


O grande Machado de Assis disse que teria meia dúzia de leitores. Ora, se Machado que era o Machado dizia isso, que direi eu? Bem, o fato é que um de meus poucos leitores, no caso o professor Nelson Rios, de Regeneração, dizendo que amanhã será o dia do sogro, e que ele gosta muito do seu, o senhor Raimundo Rodrigues Coimbra, pediu-me escrevesse alguma coisa sobre esse nosso parente por afinidade.

Inicialmente, devo dizer que nunca fui dado a escrever poemas de circunstância ou a pedido. Nunca tive habilidade para isso, mas desta feita abrirei uma exceção, mesmo porque o texto será em prosa. Por falar em parente por afinidade, se realmente houvesse afinidade, entre genro e sogro, sem dúvida seria uma grande dádiva e bênção. E se houvesse amizade, melhor ainda.

O fato é que não escolhemos nossos parentes, simplesmente nascemos em determinada família. Já os amigos, não; nós os escolhemos, pelas afinidades, pelas identidades, simpatia e admiração. Diz-se que os opostos se atraem. Isso pode ser verdade na física, no eletromagnetismo, mas não creio ser na amizade e nem no amor. Por que um homem bom e de bem seria amigo de um bandido, sobretudo perverso? Não creio haver motivo para isso, mesmo porque um homem mau e do mal não é amigo de ninguém, mas apenas cultiva os seus interesses e finge amizade, na defesa de suas conveniências momentâneas.

Agora, a mulher ou o marido são escolhidos por nós. Consequentemente, vamos ser genro ou nora de um parente de nosso cônjuge, que ele não escolheu, e que veio de contrapeso com o casamento. A Bíblia diz que, quando uma pessoa casa, deixa o pai e a mãe, para ir ser carne da mesma carne de outra pessoa. Claro, o texto sagrado não está recomendando a ninguém o abandono de seus pais, mas advertindo-o de que a sua preocupação, em primeiro lugar, deve ser com a família que irá constituir, principalmente com a vinda dos filhos.

No Brasil, seja por brincadeira ou por preconceito, as sogras são estigmatizadas, e consideradas verdadeiras megeras, vítimas das mais sarcásticas piadas. Em outros países, essas parentas afins são consideradas uma espécie de segunda mãe, e até são chamadas e tratadas como tal. No Brasil, talvez a sogra seja considerada uma espécie de mãe postiça, e muito desse preconceito venha de velhas estórias infantis, em que as madrastas maltratavam os enteados, sendo que uma delas enterrou uma orfãzinha, que, com um fio de voz, sumida e chorosa, vinda das entranhas da terra, pedia ao capineiro de seu pai para não lhe cortar os cabelos, que haviam nascido e crescido do ventre da terra.

Esse conto cortava o coração dos lacrimejantes pequenos que o ouviam. Há o ditado popular que diz: “Mateus, primeiro os meus”. Quiçá, em muitas mulheres, haja mesmo uma nítida preferência pelos seus filhos do que pelos enteados, mas isso não pode ser generalizado. Muitas madrastas foram mães extremosas para os enteados, e cuidaram deles com todo o desvelo de uma mãe de verdade.

A mesma coisa sucede em relação a sogros e sogras: muitos são verdadeiros pais para seus genros e noras, e lhes dedicam um verdadeiro amor familiar. Estimo que o meu leitor Nelson Rios, professor de matemática, mas versado em Humanidades, nesse aspecto seja um privilegiado, por ter um sogro de sua máxima estima e benquerer. 

9 de março de 2010  

quarta-feira, 30 de março de 2022

O sertão e a saudade em dois livros

 




Recebi ontem, pelos Correios, enviados pelo instrumentista, cantor, compositor e poeta José Paraguassú, os livros Sertão Encantado, de sua autoria, e Saudades da Infância, da lavra de sua esposa, Dina Paraguassú.

Os livros foram bem impressos, têm belas capas e trazem páginas preambulares, que registram a impressão de leitura, com comentários críticos e biográficos, de autores diversos, entre os quais José Bruno dos Santos e Adrião Neto.

Sobre o primeiro, diz o seu autor: “Sertão Encantado é a história contada em versos e prosas da minha experiência e vivência no sertão. Eu  não nasci no sertão, foi o sertão que nasceu dentro de mim”. Com essas palavras, José Paraguassú demonstra a sua ligação visceral e guimarães-rosiana com os encantos e feitiços sertanejos e catingueiros.

CARTA A UM CERTO GESTOR PÚBLICO



CARTA A UM CERTO GESTOR PÚBLICO


Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

 

                Saudações, senhor gestor municipal. Sei que o pronome de tratamento que lhe deveria dispensar, fosse acatar as normas gramaticais e sintáticas da última flor do Lácio para esse tipo de vocativo, seria um excelentíssimo; mas qual o quê? Que de excelente, notável ou notório tem feito vossa senhoria – a propósito, parece já mais que ideal, também essa forma de tratamento ou, talvez nem dela se faça merecedor, por não pouca razão e motivos – por essa entidade estatal cuja administração lhe caiu às mãos que, até agora, mostraram-se modorrentas ou pouco afeitas ao exercício do trabalho exigido? Acaso estaria o senhor despreparado para exercê-lo? Não? Então, a que se deve tanta reticência protelatória?

                Segundo disse seu companheiro de cédula eleitoral, ainda em tempo de campanha, a instituição cujo povo lhes delegaria o comando integral, não se bancava em termos de arrecadação tributária própria, gastava mais do que obtinha em receitas, estava, pois, quebrada; há que se dizer, por oportuno, não ser verdadeiro  o estado de falência pregado por seu auxiliar, e se torcer para ter sido meramente demagógica a afirmação de que as aplicações de recursos seriam inferiores às origens, pois isso significaria a existência fática de crime, haja vista, contabilmente, ativo e passivo terem que se equivaler; todavia, se arrecadação superior a gastos e/ou dispêndios for um privilégio, poucas cidades brasileiras são detentoras dele; a maioria é bancada pelos fundos constitucionais e outros complementos financeiros públicos disponibilizados pela União; mas, a despeito de essa lengalenga, há que se dizer que a cidade que receberam para administrar, comparada a tantas outras país afora, estaria acima da média, se não autossuficiente, longe das condições que assolam muitas de suas congêneres; tanto que sempre se manteve entre as melhores em se tratando de educação e saúde públicas, referência mesmo, em certos casos; adredemente, não seria cabotinice nem leviandade de não eleitor, afirmar que, à caça dos votos que conduziriam o senhor ao comando dela, lançou-se vossa senhoria, voluntária e, espontaneamente; portanto, se há alguém com direito a reclamar, e muito, não é o prezado; portanto, pare de fingir que visando ao céu, ganhou o inferno. Hora de se lançar ao trabalho, cidadão.

                Agora, falarei sobre o desmantelamento administrativo propriamente dito, observável sem grande esforço visual ou mental, por qualquer cidadão minimamente atento. Parece um desejo ignóbil, inexplicável, autocrático, tirânico, talvez – não venha dizer que é para melhorar a mobilidade no trânsito – dessa lógica padecemos em governos anteriores -, essas estapafúrdias reengenharias intervencionistas em importantes vias que unem áreas muito populosas, e que culminam, sim, por facilitar congestionamentos e aumentar a recorrência de acidentes -,  ilhar determinadas regiões da cidade; no bairro Morada do Sol, só para citar um exemplo, é como se o poder público quisesse impor a seus moradores o castigo de não lhes permitir chegar e/ou sair, com celeridade e segurança, de seus lares para o centro de suas ocupações laborais; se não, por que as instituições de trânsito têm buscado eliminar quase a totalidade dos retornos e conversões de alguns logradouros, como os da avenida Dom Severino, da Homero Castelo Branco – pegando apenas um trecho – até o balão final daquela via pública, sem oferecer alternativas viáveis? Está, praticamente, sem conversões simples à esquerda quem naquela trafega naquele logradouro. O que deveria fazer para melhorar a mobilidade e o deslocamento dos habitantes da área servida pelas ruas e avenidas citadas? Uma alternativa elementar seria tornar acessível,  reparando ou substituindo o péssimo pavimento das ruas Mundinho Ferraz, Senador Luís Gonçalves, paralelas à dom Severino: isso diminuiria o fluxo em parte desta via; nem ousaria exigir tal gentileza para com a rua Assis Veloso que, além de ainda estar com a pavimentação poliédrica da década de oitenta, do século passado, portanto, há quase quarenta anos e, por conseguinte, em péssimas condições físicas, vez ou outra serve de desvio de tráfego e trânsito para outras vias, como aconteceu dias atrás, quando ela recebeu de uma de suas vizinhas, que passava por reparos no sistema de fornecimento de água, grande parte do fluxo de caminhões, ônibus, excetuando-se aviões e trens, até barcos, pequenos iates e embarcações do tipo jet ski, por ela trafegaram rebocados por pesadas camionetas; com o sobrepeso imposto ao velho e caquético pavimento, coitada da rua, passaram a nela ser recorrentes os vazamentos na rede de água; a propósito, a concessionária do serviço, seja para colocar na gestão do senhor mais um senão, seja porque fora contagiada por sua modorra e passividade, tem sido bastante negligente e/ou despreocupada com os necessários reparos, que, mesmo após insistentes reclamações dos moradores, demoram semanas para serem feitos.

                A princípio, havia pensado em tecer críticas e reclamações mais ácidas sobre temas como saúde, educação, segurança, transporte, dentre outros, mas não o farei agora, tantos são os cidadãos insatisfeitos, arrependidos da má decisão eleitoral tomada que, recorrentemente, vêm se manifestando, onde podem, a respeito da falta de atenção e de interesse do senhor para com as necessidades da população; citá-las, possivelmente, só recrudesceria a falta de paciência com sua gestão.

                Despeço-me esperando que algum discernimento e tino administrativo lhe sobrevenham, de modo que, imbuído deles, possa olhar com maior atenção o que ocorre a seu redor, torne-se mais operoso em suas atribuições, e zele pelo órgão ao qual, apesar de o senhor diagnosticar como canceroso metastático, espontânea e, voluntariamente, arvorou-se a dele querer cuidar. Faça-o, pois, da melhor forma possível; aplique-lhe a medicação adequada. Que Deus lhe (e nos) proteja, amém!          

Ave sem asas

 


Ave sem asas


Sousa Filho

  

Ó,  ave sem penas!

Como queres voar?

Se,  sequer ...

Se sequer tens penas?

Se sequer tens pena de ti?

Ó, pseudo-ave...

Como voarás?

Vã ilusão!   

terça-feira, 29 de março de 2022

ANTÔNIO CABELIM: CORAÇÃO E BRAÇOS DO BAIXÃO DO UMBUZEIRO (PI)





ANTÔNIO CABELIM: CORAÇÃO E BRAÇOS DO BAIXÃO DO UMBUZEIRO (PI)


Por Eduardo Pontin 

Fotos: Francisca Sousa





Quando perguntado em que Era havia nascido, Antônio Raimundo Torres, popularmente conhecido por Antóim Cabelim, costumava responder: “Na Era da fome”. Uma maneira de dizer que havia nascido em 1932, ano das mais severas secas do Piauí, retratado inclusive no conto “32” do grande escritor picoense Fontes Ibiapina. Cabelim foi homem pra tudo. Não foi rei porque pelas bandas do interior do Piauí todos são senhor de seu próprio destino, mas foi muito mais que rei. Foi braços, mãos, mente e coração do povoado que ainda hoje é conhecido pelo poético nome de Baixão do Umbuzeiro, município de Wall Ferraz, antiga localidade chamada de Ilha Estadual, no Centro-Sul do Piauí.


Antônio Cabelim nasceu no povoado Riacho, que hoje faz parte do município de Floresta do Piauí. Foi o primeiro de muitos filhos de José Raimundo Torres e Izabel Vicença da Conceição, a Belinha. Para escapar da fome, com pouco tempo o casal se mudou com Antônio Cabelim ainda criança mais outros filhos para o povoado Cajazeiras, município de Picos. De lá, conforme a família ia aumentando, a peregrinação continuava para outros povoados da região, como Baixi, em Paquetá.



O apelido Cabelim vem de seu avô, o cearense Raimundo José Torres, o primeiro da família a bater em retirada rumo ao Piauí em busca de terras onde a chuva fosse mais clemente. Com cabelo ralinho, não tardou para o povo o sair chamando Raimundo Cabelim. Com o povo é assim, o defeito mais vistoso se transforma no apelido da pessoa. O apelido “Cabelim”, Raimundo passou para o filho, que passou para o neto que já passou para o seu bisneto.

Ainda jovem, Antônio Cabelim encontrou o amor de sua vida, Dona Pequena, e botou na telha que ia se casar, mesmo sem um tostão furado. Peitou família, e, assim como na quadra da Lezeira, dança mais popular da região, disse a tua mulher: “Minina, tu qué, eu quero/Tua família num qué/ Ti assustenta a tchia palavra/Se arrebenta quem quisé”.



E assim foi feito! O casal morou 4 meses no povoado Cajazeiras e 8 anos no povoado Carnaúba, mas quando Cabelim deu pra conhecer o Baixão do Umbuzeiro, se encantou como se tivesse encontrado a terra prometida. Num negócio louco que envolvia entrada e prestações, comprou um terreno e arrochou o pau, brocando e limpando o lugar para construir a casa que seria o lar da sua família. 

Ao chegar com Dona Pequena no Baixão do Umbuzeiro em fins dos anos 1950, o povoado era algo como Fontes Ibiapina descreveu no romance “Tombador” (1971): “Quando ali chegaram, não havia vivalmas para remédio por aquelas bibocas. (...) era um mundão folote de terras. Mas inculto, seco de tinir durante o verão. E desabitado. Só aquele chapadão sem fim, e pronto”. Mas Antônio Cabelim não esmoreceu, assim como o personagem Bernardino do romance de Fontes: “Aquilo era que era ser homem de sangue no olho! Estudou o problema com gosto e carinho. Mediu, palmo a palmo, circunstâncias e possibilidades. Adereçou os apetrechos. E meteu os peitos”.



Por esse período, enquanto construía a casa, morou de julho a outubro debaixo de um grande pé de juazeiro junto com a esposa, a filha primogênita Inácia e o filho que haviam pego pra criar, Zé Cabelim. Dormiam em rede. Dona Pequena relata que certa noite viu um movimento ziguezagueado num dos troncos do pau e avisou Antônio Cabelim, que pediu que ela aquietasse e dormisse. Eram cobras. Nada aconteceu a ninguém.

Pouco depois, já com um cômodo da casa construído, Antônio Cabelim se mudou com a família e firmou residência no Baixão do Umbuzeiro, terra que com inverno bom chegava a dar 40 quartas de feijão.



Cabelim trabalhou duro na roça e foi adquirindo pedaços de terra. Protegia suas propriedades com cercas feitas de pedras. Com suas mãos, ia pegar as pedras no mato, que eram transportadas no lombo de jumento e depois as colocava, uma por uma. Ainda hoje as cercas de pedra estão lá, de pé. 


Cabelim trabalhou de sol a sol e passou a dominar todas as etapas de produção do que sua família necessita para viver. Sua casa foi construída com adobes que ele mesmo fazia, retirando barro da natureza, o misturando com estrume de gado e os juntando com os pés. Depois de ganhar consistência, colocava o barro em formas para adquirir o formato de tijolo e o botava para secar ao ar livre. As vigas de sua casa são de árvore de carnaúba. As telhas são de barro e ele mesmo as fez. Não comprou nada, fez tudo com as próprias mãos.



Com o entendimento que adquiriu fazendo sua própria casa, Cabelim começou a receber empeleitas para construir casas no Baixão do Umbuzeiro, o que fazia com extremo cuidado e competência, a um preço justo.


Também não comprava nada do que ele e sua família comiam. Plantava o arroz e o feijão. Da plantação de macaxeira, produzia farinha de goma em sua casa de desmancha para ter beiju o restante do ano. Quando a situação apertava, Cabelim ia buscar caça do mato: tatu; peba; lambu; rolinha etc. Aos poucos, foi adquirindo pequeno criatório de gado, bode, porco e galinha.

Produzia o currulepe que ele, sua mulher e filhos calçavam. Também confeccionava o surrão de couro para armazenar os legumes dos invernos bons e ruins. Em tropa, ia tangendo animais e percorria grandes distâncias para vender e comprar mercadorias como farinha e feijão. Muitas foram as viagens até os Picos de pés. 



Antônio Cabelim foi um dos primeiros homens a movimentar a economia local do Baixão do Umbuzeiro, contratando trabalhadores para roça. Pessoas hoje com pouco mais de 40 anos contam que davam um jeito da enxada quebrar para terminar o trabalho do dia, pois ninguém segurava o rojão do velho Cabelim, que trabalhava até o sol dar seu último suspiro do dia.

Antônio Cabelim tinha um coração enorme. Quantas não foram as pessoas que iam lhe tomar dinheiro emprestado para tentar a sorte em São Paulo sem nenhum juros. Inclusive, muitas dessas pessoas lhe davam o calote, o que era sempre perdoado por ele. Cabelim e Dona Pequena tiveram uma filha, Inácia, e criaram mais dois, Zé Cabelim e Toinha. Sem contar os inúmeros agregados, a casa vivia cheia com muitas bocas para alimentar. 



Mas sua casa era lugar de fartura, pois com o seu trabalho na roça conseguia tudo o que precisava para sustentar os seus. Antônio Cabelim, além de ser humano sem igual, foi um homem de visão. Pensou e amou o seu Baixão do Umbuzeiro, terra de onde nunca saiu nem imaginou deixar para viver as ilusões da cidade grande.

Na mesma casa que construiu em fins de 1950, hoje em 2022 ainda não há televisão ou internet. Assim, mesmo nos dias atuais quase todas as noites filhos, netos e bisnetos de Cabelim e Pequena se reuniam na ponta de terreiro de sua casa para conversar e ouvir as estórias de trancoso que o velho sabia contar como ninguém. 


Seu Cabelim e Dona Pequena ainda hoje preferiam dormir em redes paralelas, sustentadas nos troncos de carnaúba, na sala. Mesmo com geladeira em casa, nunca se desfez do pote de barro, que vive devidamente abastecido para quando a energia acabar não faltar água fresquinha. 


Mesmo com fogão a gás, nunca dispensou o fogão a lenha, que inclusive era muito mais utilizado. 


Já com idade avançada, gostava de ficar sentado no alpendre de sua casa nos finais de tarde, esperando as poucas cabeças de gado que lhe restavam pra remédio chegarem. Elas pareciam reconhecer o seu dono, pois ficavam ali na cerca, à espreita. Quando alguém brincava que queria comprar o seu gado, ele dizia que não vendia, e justificava: “o gado é a corda do meu coração”.


Cabelim viveu para os seus e para o Baixão. Aos 80 anos foi acometido pelo Mal de Alzheimer. Não largou o trabalho, o trabalho é que largou ele.

Cabelim tinha um bom-humor contagiante, era um contador de histórias fino. Embora sem estudo, possuía vocabulário rico, vivíssimo, com imagens poéticas de dar inveja a poetas eruditos. Tudo o que fez aprendeu vivendo, na prática, observando e tentando fazer.



A história de Antônio Cabelim não é única, ela é um retrato de boa parte do povo piauiense e nordestino de outrora, que com grande coragem e disposição, enfrentou a vida com gosto de gás e transformou o mundo ao seu redor com as suas próprias mãos.

Antônio Raimundo Cabelim partiu desse plano aos 89 anos, no dia 27 de março de 2022, mas está vivo em seu amado Baixão do Umbuzeiro, povoado que pode ser definido pelos versos poéticos do grande Cantador de Viola picoense Barrazul, que ele tanto admirava:


“Orgulhoso eu sou por ter nascido

A três léguas de Picos, a Oeste

Clima quente, distante do agreste

Entre os morros da Data Boqueirão

No recanto mais pobre do sertão

Nos carrascos mais secos do Nordeste”.


domingo, 27 de março de 2022

Seleta Piauiense - Adail Coelho Maia

 


O mal do peito

 

Adail Coelho Maia (1909 – 1962)

 

Estou enfraquecendo, estou murchando,

Rumo ao termo final dessa existência

Para o mal que em meu peito está minando

Não posso mais dispor de resistência.

 

Só confiado, pois, na Onipotência,

Fico a esperar e não sei mesmo quando,

Acharei, nos recurso da Ciência,

Alívio ao mal que está me torturando.

 

Dentro de mim alguma coisa dói

É o mal do peito que me está roendo

É o mal do peito que em meu peito rói!

 

Sofrendo assim de um mal, que não tem jeito,

Contrito, lentamente irei morrendo,

Com o “mal do peito” dentro do meu peito.

 

Fonte: O Lira do Sertão – Sonetos, Coleção Centenário, APL, 2ª ed., 2019.    

sábado, 26 de março de 2022

PÃO E CIRCO



PÃO E CIRCO


José Expedito Rêgo


Na Roma antiga quem mandavam eram os patrícios, os senhores da terra e suas riquezas. Mas esses senhores precisavam do povo em geral, escravos ou libertos, que lhes concedia apoio político e de onde recrutavam seus exércitos, as poderosas legiões que servirem à conquista do grande Império. Para ganhar a simpatia popular, apelaram à política do pão e circo. O Coliseu, o grande circo romano, era o local máximo de divertimento. Ali o povaréu delirava apreciando as lutas entre feras, entre gladiadores, assistiam ao massacre de cristãos por leões famintos. Os sábios patrícios preocupavam-se bastante para que não faltasse alimento às populações. Assim conseguiram conduzir por longos anos o vasto domínio.


No Brasil, há um arremedo parcial da política romana. Aqui, procura-se divertir o povo com futebol e carnaval. Todas as capitais de Estados possuem bons estádios de futebol e o Maracanã é o maior coliseu do mundo. Não é à toa que esses campos esportivos trazem, todos eles, nomes de políticos.


Quanto ao carnaval, há uma pequena inversão. O povo é participante e a assistência é formada por turistas e outros ricaços que podem adquiri os caros ingressos para os camarotes dos sambódromos. Hoje em dia, os componentes das escolas de samba são menos foliões do que trabalhadores das empresas de turismo.


Os donos da terra, entre nós, esquecem-se, no entanto, de uma coisa importante para manter o povo submisso: a alimentação. Sabemos que a fome real e a subalimentação cobrem boa parcela da população brasileira. E o que se faz para melhorar a situação é deixar apodrecer, nos armazéns do Estado, milhares de toneladas de grãos, por desleixo, burocracia, pouca vergonha, maldade cretinice.


O império romano, muito mais poderoso do que os donos do Brasil, terminou esfacelando-se por lutas internas e invasões exteriores de bárbaros.


O Brasil continua de pé porque o povo é dócil, incapaz de uma revolução de verdade e não existem bárbaros em redor. Ao contrário estamos cercados de nações irmãs, tão pobre quanto nós, subdesenvolvidas e tristes.   

quarta-feira, 23 de março de 2022

Miragens da Serra da Capivara

 


GLÓRIA TARDIA



GLÓRIA TARDIA


José Expedito Rêgo (1928 - 2000)


O egoísmo, a inveja e o preconceito da maioria das pessoas fazem com que indivíduos de valor não sejam reconhecidos em vida e alguns somente consagrados vários anos depois da morte. João Sebastião Bach, um dos maiores gênios musicais de todos os tempos, pioneiro de novas técnicas em composição, teve sua maravilhosa obra divulgada e consagrada mais de cem anos depois de seu falecimento, quando foi retirado do fundo do baú esquecido entre trastes, a partitura da PAIXÃO SEGUNDO O EVANGÉLHO DE SÃO MATHEUS, considerada pelos entendidos uma das músicas mais lindas e perfeitas jamais compostas. Deve-se a Mozart, outro gênio da arte de Orfeu, o reconhecimento e propagação da música de Bach mundo afora.


Um quadro de Vicente Van Gogh vale atualmente milhões de dólares. E esse grande pintor holandês teve uma vida atormentada pela pobreza e pela doença, sem que ninguém desse valor às coisas que pintava, tidas na época como loucas e incompreensíveis. É verdade que era neurótico e os quadros refletiam seu estado mental. Mas Freud já mostrou que a obra de arte é a sublimação de impulsos inconscientes recalcados. O fato de artista ser doido e cortar a própria orelha num acesso loucura, não tira o valor do que pinta ou compõe. Van Gogh fez pior ainda, deu um tiro no peito, vindo a falecer em 29 de julho de 1890.


Aqui no Brasil vimos a grande escritora goiana, Ana Linz dos Guimarães Peixoto Bretas, mais conhecida por CORA CORALINA, lutar contra o ineditismo durante anos. Tinha mais de setenta quando conseguiu que publicassem seu primeiro livro, POEMAS DOS BECOS DE GOIÁS E ESTÓRIAS MAIS, hoje consagrado. Agora, depois de sua morte, a Universidade de Goiás pensa em fundar a Casa de Cora Coralina, um museu que relembre a vida e a obra da poetisa que descobriu a beleza na simplicidade.

Na apresentação da 4ª. edição de seu primeiro livro ela diz: “Vai, meu pequeno livro. Que possa sobreviver à autora e ter a glória de ser lido por gerações que hão de vir, de gerações que vão nascer.”


É claro que será lida para sempre quem escreve com tanto realismo e sentimento a morte de um boi:


“Eu vi

o boi deitado, exausto.

Pisado. Mijado. Sujo. Escoiceado.

Quartos escolhidos. Juntas dobradas. Cabo inerte.

Olhar vidrado.

Vencido.

Encosta na paleta a cabeçorra enorme.

Começa a morrer.

Morre devagar... dias, noites...

Arrancos inúteis.

Mugido parco. Lúgubre...

Estrebuchar de agonia."

terça-feira, 22 de março de 2022

Vitrine poética



Vitrine poética 


Sousa Filho (*)

 

        No último sábado (19/03/22), tive a honra de participar de um evento denominado Vitrine poética, em homenagem ao dia da poesia. O acontecimento foi muito bem organizado pelo poeta e produtor cultural, o meu amigo Carlos Pontes, um guerreiro no que se refere às artes.

        É importante salientar que o evento Vitrine poética ocorreu no Parnaíba Shopping, teve como curador o poeta Carlos Pontes; como apoiadores: Mambembe, O Piaguí, Centro Musical Parnaíba e o Ateliê Poético; e contou com poetas e poetisas de várias faixas etárias, numa grande interação entre gerações. Além disso, o público compareceu em bom número.

          Nesse contexto, pude conhecer pessoalmente e reencontrar vários amigos e amigas do grupo de poesias denominado Ateliê poético, conduzido de forma altamente democrática pelo meu amigo e poeta Daltro Paiva.

          Devo enaltecer aqui a poeta Rosinha Maciel, que se deslocou de sua cidade (Chaval) para nos honrar com sua poesia. Parabéns, Rosinha. Você é uma guerreira. Fazendo justiça, Parnaíba vive uma efervescência na poesia desde o lançamento da Coletânea Poética Versania (2017) organizada pelo amigo Claucio Ciarlini. Ele é professor, escritor, editor do jornal O Piaguí, membro da Academia Parnaibana de Letras e da Academia Mundial de Letras da Humanidade, entre outras atividades culturais.

          É imprescindível que eu fale aqui dos jovens e excelentes poetas e poetisas da novíssima geração.  Eles são o presente e o futuro da nossa poesia, dentre os (as) quais cito: Pedro Horácio (poeta mirim), Ana Beatriz, Carolina Ciarlini, Ely Batista, Eren Soares, Layza Lunê, Moisés Carvalho, Roberto Vinício  e  Thamires Gonçalves. Todos possuem um grande talento.

          Outro fator preponderante foi a presença dos poetas já conhecidos tais como: Adriana Martins,  Alexandre César,  Carlos Pontes, Claucio Ciarlini,  Daltro Paiva, Edna Santos, Jailson Jr.,  José Marcelo (meu amigo e irmão de longa data), Jota Cunha, Leonardo Silva, Lu Campos, Morgana Sales (além da poesia,  Morgana nos honrou com sua belíssima voz), Rosinha Maciel e Sousa Filho.

          Acredito que cabe aqui um agradecimento especial ao amigo Carlos Pontes pela iniciativa de promover esse grande evento. Na ocasião, os editores da Editora Tremembé Alexandre César e Amanda Silva, doaram alguns exemplares da coletânea poética Piauí Poético. Além disso, a poeta Rosinha Maciel nos presenteou com exemplares do seu livro Entre a lua e o mar.

           Assim, posso afirmar que o Vitrine Poética foi uma grande homenagem ao dia da poesia. Fica aqui o meu respeito e gratidão a todos os poetas e poetisas que fizeram parte desse evento. Espero que outros produtores culturais sigam o exemplo do amigo Carlos Pontes e promovam novos encontros poéticos como esse. Viva a poesia.


(*) Luiz Gonzaga de Sousa Filho é professor, poeta e cronista.    

segunda-feira, 21 de março de 2022

domingo, 20 de março de 2022

SOU ASSIM



SOU ASSIM


Alcione Pessoa Lima


No meu horizonte, ainda brilha um sol.

E consigo ver, tão nítida, a majestosa linha do tempo...

Virando a página do dia.


Se há um verão, lágrimas secarão minha retina...

Como uma fonte que revela suas pedras e tropeços...

Os recomeços, na persistência de um amor vivido.


E sinto esse amor, um prazer, em repouso.

Com toda a clareza, senão dos sábios, mas de um aprendiz.

De ninguém desprezo a sapiência adquirida com os anos vividos...

Embora sempre atento à criança dando seus primeiros passos. 


Cada cor é como um caminho que me leva a entender as diferenças...

O silêncio é um livro aberto a me ensinar a arte da audição,

Arquivando os sentimentos mais puros, no coração.


Nunca tive um olhar piedoso, tampouco a vaidade da filantropia...

Desprezo a estrada larga, sinalizada, que me retira o desejo de descobridor...

Não me desvio dos espinhos pra colher a flor.

Se é melancólica a minha alegria, será sempre uma festa, a minha dor.


Não quero a alforria dos sofrimentos, tampouco, a eternidade dos felizes!   

quinta-feira, 17 de março de 2022

Chá das 5: O Folhetim de Clodoaldo Freitas

 


FÉ, AMOR, ESPERANÇA...



FÉ, AMOR, ESPERANÇA...


José Expedito Rêgo


Não tenho fé. Não consigo professar nenhuma das religiões por mim conhecidas. Ter fé é uma questão de sentimento, independe da razão. A lógica dos homens não pode provar ou negar a existência de Deus. Afirmar que todo relógio tem necessariamente um fabricante leva à indagação de quem criou o fabricante e que fabricou o criador, numa interminável cadeia. Só a dúvida é real. Claro que Deus pode existir, mas nós, pobres mortais, nada sabemos a respeito dele. Alguns podem senti-lo, tenho inveja desses.


Mesmo sem fé, procuro amar o próximo. Na profissão que exerço torna-se fácil. Durante quarenta anos de medicina, tive muita raiva, fiz talvez alguma maldade, mas a cota de bem que espalhei foi grande. Os pobres de Oeiras e Floriano podem atestá-lo facilmente. Um amigo disse-me certa vez que me admirava porque pratico o bem sem ter esperança de recompensa, além da morte; ao contrário dos religiosos que agem na expectativa de ganhar o céu. Isso me lembra Bertrand Russel, para o qual Sócrates, o grande filósofo grego, demonstrou imensa coragem ao ingerir a cicuta, a que foi condenado, conversando tranquilamente com seus discípulos, ensinando-lhes a doutrina da alma imortal. Entretanto, continua Russel, Sócrates provaria maior coragem, se tivesse bebido o cálice de veneno, na certeza de que a morte é o fim de tudo.


Acredito na bondade natural dos homens. Não é preciso o prêmio de um paraíso para que sejamos bons. Não almejo retribuição, neste mundo ou outro. Procuro ser bom porque gosto.


Tenho esperança. Apesar da maldade que vemos ainda espalhada pelo mundo, o homem encontrará um dia a paz do bem viver. Há momentos em que tudo parece perdido, mas sempre uma luz brilha à nossa frente. O ser humano tem melhorado bastante através dos tempos. Se voltarmos algumas páginas da história, veremos que houve maiores desgraças, o homem já foi perverso e ruim. Calamidades como o massacre de cristãos nos primeiros anos do Império Romano, não mais existirão. Não veremos outra vez os dias da Inquisição ou dos navios negreiros. O extermínio de judeus pelo nazismo é uma página definitivamente ultrapassada. Não mais teremos, no Brasil, ditaduras militares, ao que tudo indica.


Um moderno maniqueísmo, sem deuses nem demônios, fará que o bem finalmente vença o mal. O homem compreenderá um dia o amor é o caminho único para a felicidade. Pena que não viverei para presenciar esse final ditoso. Talvez ele só aconteça quando nossa espécie tiver para outro planeta. 

terça-feira, 15 de março de 2022

Leão sem juba

 

Ao contrário do que diz em seu texto, o poeta é um leão jubado, e ainda por cima alado


Leão sem juba


Sousa Filho (*)

 

Sou um Leão sem juba

Sou um leão sem dentes

Sou um leão sem nada

Sequer, sombra do que fui...

... um dia...

Sou um rei sem trono

Sou um rei sem súditos

Sou um rei sem coroa

O que serei amanhã ?!

Talvez eu seja sombra do que fui

Talvez,  nem isso...

Talvez  , nem uma coisa, nem outra.

Quem dera, eu tivesse  juba;

Quem dera, eu tivesse dentes;

Não quero súditos...

Quem dera, eu fosse...

... Tudo?

E tu? Quem és?


(*) Luiz Gonzaga de Sousa Filho é parnaibano, professor, poeta e cronista. SOUSA FILHO, como é mais conhecido, escreve em várias vertentes, uma vez que não se prende a nenhum estilo específico. Sua poesia é plural. Publicou poemas em várias coletâneas e periódicos, entre os quais o Almanaque da Parnaíba. 

segunda-feira, 14 de março de 2022

MESTRE PAULO NUNES, CULTURA E DIGNIDADE


 

MESTRE PAULO NUNES, CULTURA E DIGNIDADE

 

 Francisco Miguel de Moura*

 

          Escrever sobre o Prof. Paulo Nunes não é fácil. Por isto me proponho apenas a desenhar uma simples crônica em memória de sua pessoa e de sua formidável cultura. Cultura, saber e prática, com dignidade, exemplos que fizeram parte de sua vida, fosse pública ou na luta comum de cada dia.

 

          Por testemunho, quando cheguei em Teresina, com o desejo de aqui permanecer, no final de 1964, encontrei um Estado onde as manifestações culturais estavam praticamente em silêncio. Foi através do meu colega do Banco do Brasil, O. G. Rego de Carvalho, que soube do passado de Paulo Nunes, dos seus dotes de apaixonado pelas letras. O. G. Rego de Carvalho formara, com ele e outros literatos da época. o grupo que veio a chamar-se de “Meridiano”, por causa da revista do mesmo nome que editavam. O Prof. Paulo Nunes, creio que em virtude de sua função no Ministério da Educação, morava em Brasília. E outros da sua geração, como H. Dobal e Raimundo Santana, também haviam saído do Piauí para outros lares.  Então, nós, “os novos”, eu, Hardi Filho, Herculano Moraes e Tarciso Prado fizemos o nosso movimento cultural, criando o CLIP (Circulo Literário Piauiense). E logo depois viria, do interior, o Cineas Santos, que começava a aliciar os “mais novos”. Foi assim o começo da ressurreição cultural do Piauí.

 

          Mais, sem muita demora, chegava o Prof. Paulo Nunes, de volta ao Piauí. E imediatamente colocou a si a tarefar de avivar o Conselho Estadual de Cultura, órgão cultural que já existia, mas não funcionava. Reconhecendo o valor de Paulo Nunes, que, de Brasília, já vinha lutando pela criação da Universidade Federal do Piauí, o Governo do Estado o chamou para a Secretária de Cultura do Estado, que acabava de ser criada. Naquele momento, os “clipianos” e os “mais novos” já levantavam a voz (não obstante a terrível ditatura de 1964). Surpreendi-me, certo dia em que Paulo Nunes me convidou para fazer parte do Conselho Estadual de Cultura como membro-suplente. Com a sua atilada capacidade de descobrir as pessoas mais capazes e influentes na área da cultura, começava a chamá-los para o seu trabalho, os literatos e artistas. Lembro-me também da primeira vez que eu fora a Brasília. E ele, Paulo Nunes, foi ao hotel onde eu e D. Mécia nos hospedamos e convidou-nos e nos levou para um jantar em seu apartamento.

 

          Na verdade, eu aceitei os seus convites porque sentia o valor de Paulo Nunes. E o seu chamado passou a ser era uma ordem para mim.  Depois de algum tempo me tornei um membro efetivo do CEC-PI, onde ele me incumbia de muitas tarefas. No Conselho, tive os melhores dias de minha vida literária, sempre apoiado por ele. Assim também apoiava os outros membros. Paulo Nunes foi um homem de inclusão do que era necessário, do que valia a pena. Sua palavra era ouvida com satisfação, como de um mestre, o que foi em toda sua vida, onde quer que estivesse.

 

          Para mostrar que minha opinião sobre Paulo Nunes é ampla, acrescento o depoimento do jornalista Roberto Carvalho da Costa, de Brasília, após o anúncio do panegírico pela na Academia Piauiense de Letras:

 

          “Se eu estivesse em Teresina, com certeza iria à solenidade. Sempre nossas conversas foram momentos de muito proveito. Ele dizia: Roberto, você é bem informado e informativo. Sabia que nós, os experientes, somos de mais conhecimento. Nunca discorde desta verdade...  Ele era profundo conhecedor não só da literatura brasileira, mas também da portuguesa. Tinha predileção por Júlio Diniz, Eça de Queiroz, Gil Vicente, Antero de Quental e outros.  Paulo Nunes será sempre lembrado e querido”.

 

          Confirmamos que era ele um grande leitor das melhores obras da literatura brasileira e da de Portugal. Comentava com facilidade as obras de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado e tantos mais, que seria impossível citar, além dos clássicos universais. Apraz-nos citar Gustavo Flaubert, Marcel Proust, Dostoiévski, Tolstói e Gabriel García Marques, os nomes mais frequentes de suas conversas. Assim, em artigos simples, comentava, com maestria, os famosos acima mencionados, entre outros. Também, em alguns momentos, escrevia sobre os nossos piauienses, que não eram muitos, mas com precisão e clareza. Falava sobre Alceu de Amoroso Lima e muitos outros críticos e historiadores da educação e da literatura brasileira, como se estivesse conversando com ele. Sua memória era fabulosa e trazia a beleza da frase e a precisão do conteúdo. E jamais esquecia os momentos importantes das letras do Brasil e do exterior.

 

          Para resumir, Paulo Nunes nos deixa a imagem viva de uma grande figura humana e de escritor.  A comprovação do que digo, certamente será encontrada na leitura de seus livros editados pela Academia Piauiense de Letras, além do que ficou nos jornais e sobretudo na “Revista Presença”, órgão do Conselho Estadual de Cultura.

 

--------------------------

 

 *Francisco Miguel de Moura, membro da Academia Piauiense de Letras, poeta e escritor. Matéria escrita em Teresina-PI, em  09/09/02/2022.