quarta-feira, 10 de julho de 2019

Coleção Florianenses nº 8: um belo e festivo lançamento


Fonte: Floriano News/Google


Coleção Florianenses nº 8: um belo e festivo lançamento

Elmar Carvalho

Sábado passado, seis de julho, por volta de uma da tarde, em companhia de meu irmão Antônio José, segui com destino a Floriano, para participar da solenidade de lançamento do anuário, na verdade um livro de mais de 370 páginas, denominado Coleção Florianenses (volume 8), todo em papel couchê, com inúmeras fotografias, organizado por Cristóvão Augusto Soares de Araújo Costa, Rosenilta Maria de Carvalho Attem e Teodoro Ferreira Sobral Neto. Os grandes homenageados da edição foram uma centenária carnaubeira, tombada em 2018, vítima de um impiedoso vendaval, e o saudoso professor Luiz Paulo de Oliveira Lopes, que fora um dos mais entusiasmados membros da Fundação Floriano Clube.

Atendia convite do amigo Cristóvão, um dos seus organizadores e membro da Fundação, que o editara. Iria lhe entregar o Diploma e a Medalha do Centenário da Academia Piauiense de Letras, como representante do presidente Nelson Nery Costa. Tenho a honra de ser o autor da proposta de concessão da honraria, que lhe foi outorgada a unanimidade pelos membros da Assembleia. Cristóvão, após a morte do jornalista e escritor Deoclécio Dantas, tornou-se o presidente vitalício do Sinédrio do Riverside, roda de conversa de que faço parte, na verdade um conselho consultivo e deliberativo de assuntos aleatórios e outros mais.

Do Hotel Maktub, em que nos hospedamos, fomos a pé, eu e meu irmão, conhecer o local do evento, e fazer um lanche. Perguntei a uma jovem que passava onde ficava a sede da fundação e a lanchonete mais perto. Ela indicou a rua e a direção, que por sinal ficava perto de onde estávamos. Acrescentou que estava indo para a lanchonete, e que poderíamos acompanhá-la.

Ao saber de minha missão, disse que era nora do senhor José Bruno dos Santos e filha de dona Maria Amélia, que no dia seguinte lançaria um livro e tomaria posse de uma cadeira na Academia de Letras e Belas-Artes de Floriano e Vale do Parnaíba, de que fazemos parte eu e seu sogro, sendo este o seu presidente. Como eu estivesse defronte a um velho e imenso sobrado, perguntei se acaso ele pertencera aos ancestrais do meu amigo José Demes, funcionário do Banco do Brasil, compositor e instrumentista, tendo ela respondido afirmativamente.

Conheço Bruno dos Santos há muitos anos e tenho conhecimento de suas lutas e biografia. Fez parte do MDB histórico, e ouvi alguns de seus pronunciamentos pelo rádio, em minha meninice, no horário eleitoral, no final dos anos 60, começo dos 70. Diz-se jocosamente que os emedebistas históricos do Piauí cabiam num fusca. Eram eles Josípio Lustosa, Celso Barros Coelho, padre Solon Aragão, Manoel Veloso, João Mendes Nepomuceno, Manoel Nogueira Lima Filho, Severo Maria Eulálio, Filadelfo Freire de Castro, Bruno dos Santos, como dito, e outros que não me acodem à memória de imediato.

Bruno foi deputado estadual e prefeito de Floriano. Quando foi diretor da Comepi, fez duas obras da mais alta importância cultural: criou o Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado (dentro do qual, como presidente da UBE-PI, consegui uma página cultural denominada “Textos e Pretextos”) e publicou duas notáveis obras do poeta popular Hermes Vieira, que entrevistei, com Domingos Bezerra, para a revista Cadernos de Teresina, da qual fui editor. Já conhecia o grande poeta através do Almanaque da Parnaíba, e dele guardei os versos de um poema sobre o lobisomem, que cito de memória (e, portanto, sem exatidão): “A feiura nele é tanta / Que até mesmo ele se espanta / de se ver tão feio assim”.  

Saindo da rápida digressão, em que presto singela homenagem a José Bruno dos Santos, volto a falar da solenidade de lançamento da Coleção Florianenses, na qual ele se encontrava presente. Fui recepcionado por Cristóvão Augusto, que já se encontrava autografando exemplares do anuário. Ele me mostrou detalhes do velho Floriano Clube, e me levou para ver umas excelentes maquetes, que são a memória fiel e em miniatura de antigos prédios da cidade, alguns já demolidos. Pedi-lhe que retornasse à sessão de autógrafos. Encontrei uma pessoa, que disse se chamar Antônio Carlos Torres, que é uma memória viva de Floriano. Disse possuir todos os números da Coleção, e ter comparecido a todos os lançamentos. Prestou-me informações sobre todos os painéis estampados nas paredes da sede da Fundação, que contam muito da história cultural da cidade, sobretudo da área musical, com seus grandes instrumentista e conjuntos.

Compunham a mesa de honra altas autoridades do estado e da cidade, entre as quais o prefeito Joel Rodrigues, o bispo emérito Dom Augusto Rocha, o presidente da Fundação Floriano Clube, Teodoro Sobral Neto, e o ex-deputado federal B. Sá. Após fazer a entrega do diploma e da medalha outorgados pela APL ao amigo Cristóvão Augusto, fiz conciso discurso, em que enalteci as suas qualidades pessoais e o seu trabalho e o de seus companheiros em prol da memória histórica e cultural de Floriano, além de comentar a coletânea biográfica que estava sendo entregue ao público ledor. Enfatizei que algumas de suas peças biográficas poderiam ser consideradas verdadeiros ensaios, como a produzida por Alcebíades Costa Filho, ilustre historiador e meu velho conhecido, sobre seu pai, que despontava como um notável líder operário, quando o seu trágico assassinato lhe interrompeu a carreira, cujos augúrios a anunciavam como auspiciosa.

Parte do que disse foi uma espécie de resumo do que escrevi para a contracapa do volume 5 da Coleção, que segue abaixo, na íntegra:

“A Coleção Florianenses, já em seu quinto número, editada pela Fundação Floriano Clube e sendo sua organização capitaneada por Cristóvão Augusto Soares de Araújo Costa, pode ser considerada um misto de revista, anuário e almanaque, pela diversidade de autores e matérias, algumas pequenas, outras com características de verdadeiros ensaios biográficos. Versam diferentes temáticas, mas todas relacionadas a Floriano. Quase todos os textos são ricamente ilustrados por fotografias, que os documentam, tomando, algumas vezes, o status de ensaio ou reportagem fotográfica. Neste número (cito apenas como exemplo), há uma sequência delas sobre velhos carnavais e folguedos juninos, que nos fornecem a nítida imagem de costumes e sociabilidades de outrora, quase sempre singelos e mesmo ingênuos.

Os perfis biográficos, alguns longos e profundos, em que o caráter e o ideário do biografado são fixados, retratam não só florianenses ilustres, mas também notáveis piauienses e brasileiros, que lhe prestaram bons e inestimáveis serviços, como o barrense Raimundo Artur de Vasconcelos, signatário da lei que elevou a povoação à categoria de cidade. Entretanto, não apenas as figuras proeminentes da história oficial são objetos desses estudos, mas também pessoas humildes, que fizeram ou fazem parte da paisagem humana da comunidade; nessa seara figuram profissionais liberais, mestres dos mais diversos ofícios, artesãos, artistas, poetas e intelectuais, além daqueles que se celebrizaram como figuras ditas folclóricas, pelos episódios engraçados, jocosos de que foram protagonistas, mercê de sua verve ou de seu espírito brincalhão.

A coletânea, logo em suas páginas iniciais, registra as “Curiosidades Florianenses”, tanto através de textos, como de anúncios publicitários e “santinhos”, todos fac-similados, para que o leitor possa ter noção de uma época sem internet, sem redes sociais, em que o tempo parecia escoar com maior lentidão. Nas páginas finais, sob o título de “Verdades, boatos e mentiras contadas na barbearia do Zé Venâncio e no bar do Sinhozinho”, foram relatados os “causos” e as façanhas pitorescas e hilárias de pescadores, caçadores, boêmios, cachaceiros e outros mentirosos e fanfarrões, todos integrantes e enriquecedores da mais legítima fauna folclórica florianense.

Na capa de todas as edições aparece, de forma emblemática e simbólica, a porta principal do Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara, que originou Floriano. Pode-se dizer que ela é o portal por onde entrou, fulgurante em sua glória, a Princesa do Sul. É o seu pórtico inaugural e o seu Arco do Triunfo.”

Os biografados na Coletânea, foram ainda homenageados através de banners e de slides, projetados por data show, além de que suas qualidades e feitos foram sintetizados pelos apresentadores da solenidade. Não bastasse isso, a família de cada um deles teve um representante, que discorreu sobre os fatos marcantes de sua vida, de sorte que a história, a sociologia e os costumes de Floriano foram enaltecidos por diferentes pessoas e familiares. Todos se referiram ao extraordinário serviço prestado pela Fundação Floriano Clube em prol da preservação da memória florianense, sobretudo à Coleção Florianenses, graças à dedicação e esforço de seus organizadores, Cristóvão Augusto  Soares de Araújo Costa, Teodoro Sobral Neto e Rosenilta Maria de Carvalho Attem. 

Nesse ponto, não posso deixar de lembrar o poeta Antônio Veras de Holanda, que clamou em versos aos poetas do porvir: “Lembrai-vos de mim. / Afastai do meu túmulo o anonimato da morte.” Esses versos, literalmente lapidares, estão inscritos na lápide de sua sepultura, em cemitério florianense. A Coleção Florianenses, cumprindo esse testamento literário do saudoso vate, estampou a sua biografia no seu volume nº 5, assim como vem retirando do esquecimento outras ilustres personalidades, que já não eram lembradas ou que não eram conhecidas pela geração atual.

Foi uma esplêndida festa cultural e literária. Em Cadernos de Lanzarote li, em alguma parte, que Saramago já se dava por satisfeito quando a um evento literário compareciam, salvo engano, mais de setenta pessoas. Pois na festa de lançamento do nosso anuário foram contadas 365 pessoas, fora outras que escaparam à contagem ou que chegaram depois, de modo que se acredita que compareceram em torno de quatrocentas. Importa dizer que foram vendidos inúmeros exemplares, o que não acontece no Piauí e nem mesmo do Brasil.  

Foi, repito, uma esplêndida festa cultural.

terça-feira, 9 de julho de 2019

A moeda pra Nossa Senhora da Graça



A moeda pra Nossa Senhora da Graça

Pádua Marques
Escritor e jornalista
Da Academia Parnaibana de Letras

Simplício Dias estava pedindo pressa naquelas obras da alfândega da Parnaíba, já autorizada pelo rei dom João VI há dois anos. Ele descia de casa no rumo do cais do Porto Salgado, acompanhado do escravo Elias. Andava entusiasmado com o movimento no porto e naquela manhã saía pra ver de perto o serviço na nova repartição. Não era lá de deixar o sobrado e a companhia de dona Isabel Thomásia, sua mulher, dos filhos e dos criados.

Não era de gostar e nem poder mais andar pelo meio da rua na Parnaíba. Já temia pela vida e evitava o de sempre, alguém pedindo isso ou aquilo, um adjutório pra um filho estudar em São Luiz ou no Recife, um batizado ou casamento, uma vaga no serviço de sua casa ou das repartições do governo, essas coisas. Mas naquela manhã achou de sair depois do café e seguiu pela rua até o cais. Lá estavam os barcos e canoas, vindos de Tutoia no Maranhão, e de Ilha Grande de Santa Isabel, desembarcando tudo em quanto era tipo de mercadoria.

E naquele sobe e desce de gente, de negros e embarcadiços nus da cintura pra cima dando no meio da canela, aos gritos, o cheiro forte de aguardente, suor, farinha e de sacos úmidos de maresia, Simplício ia se aproximando do cais e o movimento ia crescendo. Ao verem aquele homem tão importante e tido como poderoso aquela gente ia abrindo caminho e os de mais posses e projeção tirando os chapéus naquela reverência costumeira.

Elias era um negro baixo, de pouca graça, os caroços dos olhos amarelados, como quem teve dordolhos, com pouco mais de quarenta anos. Foi presente de um compadre de São Luiz, no Maranhão. Tinha só um braço e caxingava da perna direita. Contava que aquele aleijão foi coisa de uma briga com um paraense por causa de serviço no cais. Andava a pouco menos de dois passos de Simplício sempre que o patrão saía à rua. Por dentro da calça de algodão ordinário, uma enorme faca. Mas que ninguém lhe imaginasse sem um braço não ter destreza.

Simplício ia sendo cumprimentado aqui e ali mais na frente cumprimentando um capitão de navio, um dono de carga de algodão, oficiais da Marinha e gente mais de feição e bem vestida, vinda de São Luiz e até da França entre os embarcadiços. Mas no meio daquele mundo de gente não andavam mulheres. A rua e o cais eram de homens e para os homens.

Simplício e Elias estavam quase chegando à esquina do porto, pra direita, em direção à alfândega quando de longe um negro se abaixou pra pegar alguma coisa no chão. Olhou pra um lado e pra o outro e foi logo colocando a moeda no bolso. Mal deu tempo da moeda esquentar na mão calosa. O coronel da vila da Parnaíba viu e apressou o passo. Antes que o negro se perdesse no meio dos outros estava perguntando quem era e quem era seu dono.

Sem resposta de imediato e tomado pelo susto o negro ficou arquejando de medo. Achou ou roubou aquele dinheiro? Achado não era roubado, calculou responder. Mas se limitou a dizer que quando era achado por um cativo e esse cativo não tinha dono, o achado era de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. E Deus estava na igreja e a igreja estava lá no alto e era do senhor Simplício Dias da Silva, por merecimento governador da Parnaíba!

Disse daquele jeito submisso de quem pedia amparo. Logo, aquela moeda era do coronel. Tremendo feito uma vara de pé de sabiá verde, o negro baixou a cabeça e foi logo entregando o achado pra Simplício Dias, que no tempo de um piscar de olho colocou a moeda no bolso da calça.

Elias ao ver o rosto de seu dono coberto de suor foi logo pegando um lenço de algodão meio encardido e o enxugou. Era sua função além da segurança pessoal ser serviçal de cuidados extremados. Simplício ainda olhou pra um e pra outro como que mandando que concordassem com sua medida e foi saindo devagar em direção às obras da alfândega naquele final de novembro.

O negro estivador, que até bem pouco tempo estava achando que tinha sorte demais na vida com a moeda, foi saindo e se perdendo no meio dos outros. Simplício agora estava dando ordens no meio dos operários na obra da alfândega. Um pouco longe do cheiro de sacos de algodão, de fumo e carne seca naquele cais cheio de mercadorias empilhadas pra embarque. Meteu a mão no bolso e se sentiu satisfeito. Olhou pra Elias e deu um resmungo curto.

Pra que negro com dinheiro? Pra gastar com mulher da vida e com aguardente, fumo pra mascar e depois sair caçando confusão até ser preso e levar surra amarrado em tronco? Deixasse aquela moeda em quem sabia e conhecia valor de dinheiro! Negro não sabia valor de dinheiro! Negro não sabia nem rezar um Pai e Nosso e queria ficar com dinheiro? Dinheiro era da santa, Nossa Senhora da Graça. Lá no cofre estava seguro.   

domingo, 7 de julho de 2019

AMARANTE

Fonte: Google


AMARANTE

Elmar Carvalho

doce amaro
         pródigo
         avaro amarante
         ante-amar-te
         anti-amar-te
antes sempre após
agora
sem agouro sem demora
sem pressa e sem presságio
        pé ante pé
        perante tuas casas sonolentas
diante das fráguas das serras
que descerras em cortinas de azuis
                        descortinas neblinas
na paisagem – plumagem/brumagem fixada
na retina retentiva redentora do poeta
                        amarante
                        amaranto de
memórias atávicas de catimbós
murmúrios ancestrais de urucongos
requebros lascivos de velhos congos
resquícios longínquos de quilombos
encravados em abissais cafundós
dos antepassados cativos altivos dos mimbós
            perante ti
            amarante
a água escorre lacrimal
pela sinuosidade do morro da saudade
deságua na desembargador amaral
            e de val em val
               de sal em sal
boceja nas bocas de lobo dos esgotos
gargareja nas gargantas gosmentas dos gargalos
            mergulha e deriva singular
nas águas plurais do parnaíba
            amarante
            perante ti
            imperante
o vento verdeja agreste nos ciprestes
rumoreja aguado nos aguapés
sacoleja sem leste oeste
a copa fagueira das faveiras
            tuas tardes tardas dolentes amaras
                        abres das janelas
                        debruçadas em melancolias
            e alicias e (re)velas
as moças nas modorras mormacentas macilentas
em que delicias cilicias e acalentas ...   

sábado, 6 de julho de 2019

Fazenda Paraíso

Fonte: Portal Entretextos


Fazenda Paraíso

Renato Castello Branco
Historiador, romancista e memorialista

Quando chegamos à fazenda, o sol abrasava no zênite. Ali, na ilha dos Mulungus, já se estava a apenas cinco quilômetros do oceano. Mais um pouquinho e o rio desaguaria no estreito e desértico litoral piauiense, de estranha beleza. Então era uma sucessão de praias infinitas, alvas dunas e coqueirais, batidos eternamente pelo vento nordeste.

Atracamos no porto das Canoas, e seguimos pela picada que conduzia à casa de telha, no alto do barranco. De longe avistei, antes de tudo, o secular pau d’água de minha infância, abrindo sua imensa galhada. No alto, empuleirado em seus galhos pujantes, o jirau de troncos de carnaúba, de onde vínhamos olhar o Parnaíba desfilando suas águas. Lá iam as águas rolando, arrastando galhos de árvores, balseiros, verdes moitas flutuantes, que o rio arrancava das margens, de algum barranco. Às vezes, caíam em funis, rodando, rodando, até afundar. Certa feita eu vira um desses funis, em época de enchente, empolgar uma canoa, girando-a, girando-a, num irresistível sorvedouro, até arrastá-la para o fundo. Os canoeiros, grandes nadadores, conseguiram escapar. Entregaram-se às águas deixaram-se levar sem resistência, para só então escaparem, afastando-se a nado. Ai! Saudades de minha infância, das brincadeiras com os primos e os filhos dos agregados, caçando passarinhos, montando cavalo em pelo, banhando nas águas do rio! Subíamos a pé pela margem alguns quilômetros. Depois lançávamos à corrente e vínhamos descendo as águas, nadando ou boiando agarrados a um tronco.

Caminhamos mais um pouco, galgamos o barranco e divisamos a casa de telha, com seu varandão ocupando toda a frente. Lá estava o letreiro, pintado em letras primitivas, numa chapa de madeira: Fazenda Paraíso.

Quando alcançamos o alto do barranco, a cachorrada da fazenda veio a nosso encontro, latindo e abanando o rabo, hesitante entre ser agressiva ou acolhedora. Atrás deles logo divisei Cazuza, inconfundível após cinquenta anos de ausência. Envelhecido como envelhecem os sertanejos, curtido de sol e chuva, humilde e simples, e ao mesmo tempo com inata dignidade. Abraçamo-nos. Ou melhor, a princípio abracei-o eu, ele inibido e duro, braços tesos, entre os meus. Depois prevaleceu seu coração e se desfez em ternura, abraçando-me também.

Mal entramos na velha casa da fazenda, repleta de memórias, larguei no quarto minha sacola, bebi um copo de água fresca do pote, retirando-a com uma caneca de alumínio de longo cabo, e convidei Cazuza para tomarmos um banho no rio. Ele riu com um riso maroto de garoto apanhado em flagrante. E descemos juntos para o porto das Canoas. Tiramos a roupa e atiramo-nos n’água, nadando, espadanando, como fazíamos em criança. Ficamos um longo tempo dentro do rio, pendurados na borda de uma canoa, conversando. Falamos da infância, dos animais, do cavalo Dois de Ouro, da eguinha Melindrosa, nossa amante, do touro zebu Monte Negro, dos cachorros Rompe Nuvem e Vai-ou-Racha. Eles eram parte do nosso mundo e nossa vida, como velhos companheiros inesquecíveis, nossa versão nordestina do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Já agora éramos apenas dois velhos, amigos, recordando uma infância comum.

Voltamos para a casa de telha onde Sensata, a mulher de Cazuza, nos esperava com uma panelada, com pirão escaldado. Na panela, afloravam tripas e miúdos de boi, pedaços de linguiça e partes de chouriço. Assustei-me com a perspectiva de ingerir um prato tão rico. Mas não quis desapontar Sensata. Servi-me do mínimo essencial para não ferir sua susceptibilidade de quituteira famosa.

Lembrava-me de Sensata em menina. Quem a visse hoje – murchos os olhos, murcho o busto, murcha a boca sem dentes – não poderia imaginar o que ela fora na adolescência, sua beleza agreste, seu viço, seus modos provocantes.

Um dia meu avô apanhara Sensata e Cazuza se bolinando atrás de uma moita de murici. Enxotou-os aos brados, ameaçando-os com terríveis punições. Mais tarde, porém, surpreendi-o, bem humorado, contando a cena à minha avó. Minha avó, ao contrário, ficou chocadíssima e mandou chamar dona Perpétua, mãe de Sensata, para contar-lhe o ocorrido, o que lhe valeu uma surra de umbigo de boi.

Depois do almoço espichei-me numa rede de tucum, armada na varanda, para descansar. Nas ripas do telhado, de troncos de carnaúba, lagartixas desfilavam, balançando as cabecinhas. Mais adiante, uma casa de marimbondo-chapéu, redonda e chata. Um beija-flor invadiu a varanda, pairou no ar com as asas vibrando invisíveis, e desapareceu como um clarão. Pouco a pouco, adormeci.

Fonte do texto e da foto: Portal Entretextos.

Publicado originalmente em janeiro de 1988, na edição 28 da revista Globo Rural.  

quinta-feira, 4 de julho de 2019

ZEFERINO E A MATEMÁTICA MODERNA


Fonte: Google
Fonte: Portallider/Google


ZEFERINO E A MATEMÁTICA MODERNA

Elmar Carvalho
  
No meu périplo campomaiorense, por ocasião da inauguração do Memorial e da sede da Academia Campomaiorense de Artes e Letras revi o Zeferino Alves Neto, um guerrilheiro da cultura e agora blogueiro. Foi meu professor de matemática, creio que em 1969, no meu primeiro ano do antigo curso ginasial, no único ano em que estudei no Colégio Santo Antônio, de que foram fundadores, entre outros, os velhos mestres padre Mateus, professor Raimundinho Andrade e o juiz Hilson Bona.

A seguir, estudei o segundo ano ginasial na cidade de José de Freitas, da qual guardo ótimas lembranças. Fiz o terceiro e o quarto ano, de volta a Campo Maior, no Colégio Estadual, que hoje, com muita justiça, tem o nome do professor Raimundinho Andrade.

Devo dizer que Zeferino, o ZAN, foi o único professor de matemática de que não tive medo, e observo que foi através de suas aulas o meu primeiro contato com a então chamada Matemática Moderna, cheia de sinais gráficos, desenhos geométricos e noções de conjunto, e outros artefatos pavorosos.

Sempre tive terror dessa matéria, e por isso escrevi em versos:  A matemática / me enlouquece: / por isto meu pensamento / salta de mais infinito / a menos infinito (…).   Alguns professores dessa disciplina aparentam ter certa inclinação para o sadismo, e parecem se comprazer com o medo que infringem aos discípulos. ZAN sempre foi um humanista, um guerreiro do bem, e não torturava seus alunos com ameaças e perspectivas de reprovação.

Como em 1975 deixei definitivamente Campo Maior, com minha ida para Parnaíba e depois Teresina, por décadas o perdi de vista. No começo dos anos 2000, quando lancei meu livro Rosa dos Ventos Gerais em Brasília, voltei a vê-lo, uma vez que ele foi a essa solenidade cultural. Depois, consegui rastreá-lo através dos mares internéticos.

Com o seu retorno a nossa cidade natal, tenho-o visto mais amiúde. Conversamos algumas vezes. Em seus comentários em blogs e sites, nota-se o seu apurado senso de humor e a sua preocupação com a cultura e o bom andamento da administração pública. Além de escritor, radialista, jornalista, blogueiro, é eminentemente um homem de teatro, tanto como teatrólogo, como também na qualidade de ator e diretor.

Embora a sua veia humorística esteja sempre afiada e armada, noto-lhe a preocupação constante em não ferir as pessoas, mas apenas em divertir-se e diverti-las. Portanto, o caríssimo ZAN sempre será Zeferino, mas jamais Zé Ferino, para fazer um trocadilho cretino, e continuar no meu rimar genuíno, sem perder o tom e o tino.  

17 de março de 2010

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A batalha das cocadas na frente da casa-grande

Fonte: site da APAL/Google


A batalha das cocadas na frente da casa-grande

Pádua Marques
Escritor e jornalista

A miséria estava batendo agora na porta da frente de casa da família de Simplício Dias da Silva desde quando o imperador dom Pedro I lhe virou as costas por causa de seu envolvimento e obediência cega ao juiz de fora João Cândido de Deus e Silva e gente do Pernambuco e do Ceará, que agora queriam uma república pra o Brasil. O antes senhor da Parnaíba, que recebia nobres, estudiosos, comerciantes interesseiros e até piratas na sua casa, amargava o desprezo político e a pobreza, a ponto de sua mulher, dona Isabel Thomásia ter arranjado um negro pra vender cocadas na porta de casa.

A cozinheira, tão logo passava a hora do almoço, se punha a fazer as cocadas pra que tão logo amanhecesse o dia vinha o negro da casa, Pano Véi, lá de dentro com o tabuleiro forrado com um pano de sacos pra esquina da rua Grande, esperar a freguesia de embarcadiços, soldados, gente de repartições públicas e quem descia ou subia nas canoas indo pra Tutoia no Maranhão. Isso de domingo a domingo. Vez por outra dona Isabel e o marido, agora doente, ficavam na janela de cima olhando o movimento embaixo.

Por volta das nove horas, já o sol queimando o lombo dos negros que trabalhavam no porto lá embaixo, Pano Véi já estava em serviço fazia tempo. Olha a cocada! Olha a cocada! E nesse sentido só desmontava aquele negócio quando já não tinha nenhuma cocada e o que sobrava era algum farelo. Corria pra dentro da casa-grande e ia prestar contas com a dona do negócio. Quando muito, recebia um tostão, que logo iria ser gasto lá embaixo no cais com um mercado de cachaça ou de fumo.

No outro lado da rua a família Miranda Osório era um tormento pra o antes todo poderoso e destemido Simplício Dias da Silva. Desde o assassinato de Raimundo em 1812 e a recusa de Simplício em ser governador do Piauí, as coisas andavam de mal a pior pra família. Dívidas, traições e tudo o mais se acumulavam naquela casa de paredes encardidas. Na igreja nem ia mais por causa da inchação nas pernas e sentindo uma dureza no pé da barriga. E agora mais aquela, de até na venda de cocadas da mulher encontrar um concorrente, o negro Mão de Pilão.

Tanto um quanto outro eram negros ainda novos beirando quando muito, os trinta anos. Mão de Pilão talvez fosse até mais velho. Mas quem era que iria se preocupar com idade de cativo? Talvez pra criar sua empresa que lhe garantisse um tostão pra aguardente, arranjou com seu dono um ponto pra venda de frutas na frente de casa de Miranda Osório. E em pouco tempo já vendia muita manga, bananas, limões doces, melancias, abacates, fumo de mascar e rapé, doce de leite e cocadas.

Pano Véi estava começando a ficar com raiva daquele negócio. Trabalhava que nem um burro botando água pra o senhor tomar banho, limpava a igreja, a frente da casa, o quintal, cortava um galho de árvore, fazia uma limpeza nos cemitérios da família, enchia os potes da cozinha e ainda de manhãzinha tinha que torrar a cabeça naquele terror de sol vendendo cocada pra dona Isabel na esquina! Se quebrasse alguma cocada e tendo que voltar pra dentro do tabuleiro ou algum freguês não pagasse, era castigo na certa.  Era vida de cão aquela sua! Agora me vinha Mão de Pilão, com tabuleiro de frente com mais coisas pra vender e lhe tirando freguesia! Ia fazer um bonito com aquele negro.

Mão de Pilão ficava de lá olhando o movimento e falando alto toda a lista do que vendia. Olha o limão doce! Olha a manga, olha a manga! Olha a cocada de coco fresco! Aqui tem rapé e tem fumo! Três tostões, três tostões e é pra acabar!  Os fregueses iam e vinham. Passavam e acabavam comprando isso ou aquilo. O negro suado e satisfeito ia colocando num caixa de madeira o apurado e cantando uma canção alegre, aprendida com as mulheres da vida lá embaixo no cais do porto.

Pano Véi esperou dar mais movimento na rua Grande, justo quando acabava de atracar no cais do Porto Salgado uma canoa vinda da Tutoia, no Maranhão, carregada de lenha. Era carga pra casa de Simplício e outros principais da Parnaíba. Havia vendido pouco sua a cocada naquela quinta-feira. Enquanto isso Mão de Pilão, de lá, aproveitava quem estava subindo o barranco e gritava ainda mais alto, intimando, fazendo troça com ele.

O negro enjeitado da casa de Simplício Dias foi se aproximando do tabuleiro de Mão de Pilão com as duas mãos cheias de areia. Esperou um freguês pagar e ir se retirando com umas frutas. Jogou areia por cima como se fosse chuva. A areia caiu direitinho em cima das cocadas de Mão de Pilão. O nome feio comeu. Filho dessa, filho daquela. Acabaram se atracando. Foram ao chão e as vaias acompanharam. Foi cangapé pra todo lado e pra cima dos tabuleiros. As frutas, o rapé e o fumo em frente da casa de Miranda Osório, enfim, tudo que tinha no tabuleiro de Mão de Pilão se espalhou. Reboliço dos diabos.

Foi o bastante pra aparecer gente de tudo quanto era lado vinda da frente da matriz, do cais e de tudo mais. Por sorte não puxaram facas. Veio milícia e prendeu os dois negros arruaceiros. Sabendo de quem eram, foram cada um levados aos seus donos. Simplício ficou sabendo do ocorrido logo depois da dormida do almoço. Pano Véi levou uma pisa de umbigo de boi e teve a comissão do dia confiscada. Simplício Dias da Silva, mesmo já sem saúde, não queria ninguém com valentia e autoridade maior que a dele na Parnaíba. E muito menos partindo de negros!   

terça-feira, 2 de julho de 2019

Lançamento de Coleção Florianenses - nº 8



Na oportunidade a Academia Piauiense de Letras entregará a Cristóvão Augusto Soares de Araújo Costa, membro da diretoria da Fundação Floriano Clube, e um dos organizadores da coletânea, juntamente com Rosenilta Maria de Carvalho Attem e Teodoro Ferreira Sobral Neto, a Medalha e o Diploma do Mérito Centenário. O anuário vem prestando relevantes serviços à memória histórica de Floriano e do Piauí.

Na contracapa do volume a ser lançado, disse o escritor e jornalista Paulo Chaves: "... a Coleção Florianenses traz agora seu oitavo número, o volume 8, recheado por 27 perfiz biográficos raros. Dentre estes, o querido e brilhante Luiz Paulo de Oliveira Lopes, historiador e professor meritoso, que agora desfalca pela vontade divina o grupo devotado que tão bem organiza a Coleção".

O DIA EM QUE MATEI FONSECA MENDES

Elmar Carvalho, Rubem Freitas e Antônio Gallas, no começo dos anos 1980, na Praça da Graça


O DIA EM QUE MATEI FONSECA MENDES

Pádua Marques
Joranlista e escritor

Por uma deferência especial do jornalista e secretário municipal Arlindo Neto (Arlindo Leão), recebo mensalmente, em primeira mão, o Jornal O Piagüi Culturalista, um jornal alternativo voltado para literatura, arte e história. Em o  Piagüi Culturalista encontramos, contos, crônicas, poesias e fatos da história da Parnaíba e do Piauí.

Ao folear a edição deste mês de junho que me foi entregue bem de manhãzinha pelo Arlindo Leão, deparei-me com uma crônica do escritor Pádua Marques relatando sobre o dia em que ele, Pádua Marques tinha matado o Fonseca Mendes.

Fonseca Mendes, brilhante  jornalista, poeta e escritor,  oriundo do Maranhão,  assim como eu, trabalhamos juntos no Jornal Norte do Piauí, nos anos 1970. 

Aos sábados, após recebermos o famoso "vale" corríamos para o bar da tia Noemia Cerveira (também de Tutóia)  para degustarmos uma deliciosa "loura suada" com um tira gosto de torresmo ou qualquer outra guloseima.  O Bar ficava na Rua Almirante Gervásio Sampaio por trás da Antiga AABB, hoje Caixa Econômica, na mesmo rua onde ainda funciona a redação do Jornal Norte do Piauí.

Mas, vamos deixar de lero-lero  e ver o que interessa: a crônica O DIA EM QUE MATEI FONSECA MENDES do colega escritor e acadêmico Pádua Marques:

                      (Antônio Gallas)

Eu havia chegado em Parnaíba e estava passando pela sucursal do O Dia, dirigida pela diligente Marize Assunção. Não ganhava um tostão com isso, mas pra não perder o gosto e a tarimba de escrever fui ajudar aquela nova amiga. O Trabulo Júnior havia me chamado em Teresina, mas chegando lá ele olhou pra mim e me vendo negro, feio e magro certamente duvidou que eu fosse jornalista de formação. Insistiu pra que eu ficasse, mas vendendo assinatura de jornal.

Voltei decepcionado, mas não deixei a amiga na mão. Continuei ajudando com alguma noticia aqui e ali. Ainda era o tempo da máquina de escrever e alguma coisa que acontecia aqui em Parnaíba levava uma semana pra ser registrada em jornal porque não tinha ainda televisão. A Marize, lá pelo final do ano, me incumbiu de representar o jornal num coquetel oferecido pra imprensa pela Caixa Econômica Federal, festa organizada pelo Rubem Freitas.

No coquetel encontrei, ali na praça da Graça, o Osmar Dias, única pessoa que conhecia, por ele ser amigo de minha irmã e ser simpatizante do Inovação. Ele me apresentou a algumas pessoas, entre elas, o Zé Luiz e o F. Carvalho, que à época andavam fazendo muito sucesso com o Correio do Povo, um jornal pequeno, quinzenal, do tamanho de uma folha de papel sulfite e que muito me lembra o Opiagui. Dava um trabalho danado pra fazer.

Entre discursos, homenagens e coisa e tal, falaram nos jornalistas veteranos e aqueles que haviam morrido. Lembro muito bem de ouvir discursos do Renato Bacelar sobre seu pai Raul e Fonseca Mendes. Meu erro foi não prestar atenção e ouvir errado. Ainda naquela noite e já entrando pela madrugada conheci outras pessoas de rádio e de jornais. Na volta à sucursal na segunda-feira, redigi uma matéria falando sobre a festa e a Marize mandou pra Teresina.

Na matéria falei do coquetel, dos homenageados e dos mortos. Entre os mortos estava Raimundo Fonseca Mendes. Na sexta-feira o O Dia chegou e, no canto direito, lá em cima na página dois estava minha matéria. Dois parágrafos apenas, mas que me deixaram muito satisfeito, feliz mesmo. Mal sabia o que estava por vir, uma tremenda barriga. Depois fui convidado pra ajudar o F. Carvalho e o Zé Luiz no Correio do Povo. A redação ficava no Edifício Anelle, atrás da Caixa Econômica.

Um belo dia à tarde, estava eu debruçado no parapeito e olhando pra quem passava na Gervásio Sampaio, quando quem vejo? Raimundo Fonseca Mendes em carne e osso, a passos lentos e de camisa xadrez. Entrou na galeria onde sua filha Rita Holanda tinha uma loja, um salão de cabelereiro, algo assim, perto do escritório do Thote Ibiapina. Fiquei sem chão debaixo dos pés.

Mas não disse nada pra ninguém. Se fosse hoje, com as redes sociais e até mesmo no tempo em que a televisão tinha grande alcance, meu erro teria sido suficiente pra um processo por danos morais e materiais e com direito a uma baita indenização. Mas saiu

apenas num jornal e já naquele tempo ninguém se importava com o que saia em jornal, principalmente se fosse de Parnaíba. Raimundo Fonseca Mendes morreu mesmo de morte morrida.

Fonte:Blog do Professor Gallas

domingo, 30 de junho de 2019

Manhã prestes a abrir

Fonte: Gloogle


Manhã prestes a abrir

Celso Pinheiro (1887 – 1950)

Manhã prestes a abrir o cálice doirado!
Na casinha de palha andam todos alerta.
Pois antes que a manhã seja uma rosa aberta,
Há de este amor surgir o fruto iluminado!...

Dona Flor com o semblante heril transfigurado,
Tem anseios de mãe... A parteira desperta,
Pitando o seu cachimbo, aguarda a hora certa,
E me diz que não tenha o mínimo cuidado!...

De súbito, porém, a sombra de um perigo...
Eu, pálido, a tremer, minha alegria tolho,
E vou ver o Dr. — velho médico amigo!

Mas ao volver ao lar me comovo e confundo:
Ela, ingênua, a sorrir, mostrando-me o pimpolho,
Sugere-me votivo o seu nome — Raimundo!...  

Fonte: site Escritas

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Simplício Dias à espera de Napoleão Bonaparte na praia da Pedra do Sal

Fonte: Google


Simplício Dias à espera de Napoleão Bonaparte na praia da Pedra do Sal

Pádua Marques
Jornalista e escritor

Se pudessem dizer pelo menos alguma coisa, um nome feio por menor que fosse e não parecesse ofensa e insubordinação, aqueles soldados famintos, com sede e os pés cheios de bolhas certamente diriam que o capitão Simplício Dias da Silva, aos trinta e cinco anos, estava fazendo papel de palhaço em cima daquelas pedras e com os olhos vidrados pra dentro do mar, na praia imensa e sem vida da Pedra do Sal, naquela manhã de fevereiro de 1808.

Tudo porque o governador da capitania do Piauí, Carlos César Burlamaqui, que passava o dia lá na distante Oeiras limpando as unhas com a ponta de um punhal e de vez em quando fumava um cigarro filado de um cabo puxa saco, cismou de mandar pra Parnaíba um estafeta, instruindo o capitão Simplício Dias da Silva de que ficasse com os olhos bem abertos porque o Piauí corria o risco de ser invadido pelo general e imperador Napoleão Bonaparte, à época com trinta e nove anos.

Burlamaqui recebeu notícias de que a França havia riscado Portugal do mapa da Europa e tudo indicava que o príncipe dom João corria risco de ser preso e até morto em Lisboa, se não desse a qualquer hora com a família nas costas da Bahia, o que realmente acabou acontecendo. Vinha de mala e cuia com um monte de ministros e de assessores. Instruía o governador ao comandante militar sobre a defesa do litoral piauiense e confiava na perícia do parnaibano. Simplício se encheu de moral e armou logo de manhã uma confusão na cozinha porque a criada não havia cozido os ovos e o leite não havia chegado.

Depois de calçar as botas lustradas a esmero, fardado e medalhado, descendo pra frente da casa de morada, reuniu a tropa, nada mais que uns trinta soldados rasos, dois oficiais e uns cinco escravos como pessoal da logística. Marchar até a distante praia da Pedra do Sal, umas quatro léguas e meia de Ilha Grande de Santa Isabel pra dentro, esperar que aparecessem os franceses, que segundo alguns fofoqueiros da praça da Graça, seriam comandados pelo próprio imperador, que ao que constava, muito queria conhecer o delta do Parnaíba e principalmente o porto dos Tatus.

Simplício Dias da Silva naquela manhã estava com a cachorra! Mandou perfilar a tropa e a banda executar o hino de Portugal e aquela música do Airton Senna. Depois subiu as escadas à procura de dona Isabel Thomásia pra dar algumas instruções, em caso de ocorrer algum infausto na campanha. Os negros iam levando em grandes caixas de madeira, a farinha, a carne seca e nas ancoretas a água pra beber. Só e não tinha outra coisa não. Os soldados armados com espingardas velhas de encher pela boca, estavam um aqui e outro ali reclamando porque não haviam recebido as diárias.

Foi emocionante e ao mesmo tempo triste a expedição dos voluntários da Parnaíba que iriam enfrentar Napoleão Bonaparte e os seus soldados naquela que se chamaria a Batalha da Pedra do Sal. Choro e ranger de dentes. Ranger de dentes mesmo era pra os escravos tendo que levar na cabeça e nos ombros todos aqueles apetrechos, aquela arrumação toda sabendo que iriam voltar com a cara calçada de vergonha. Atravessaram o Igaraçu e entraram de ilha adentro. Simplício e os oficiais montados a cavalo e os soldados a pé e ainda cantando, que era pra ninguém ficar mangando ou reclamando uns dos outros. Castigo era meia dúzia de bolo de palmatória de número dois, aquela que tem um furo no meio.

Depois de cinco horas de marcha batida havia gente arrenegando de ter deixado o bem bom da caserna! Um sol de rachar os miolos. Carnaúba pra tudo que era lado e depois as enormes dunas de areia quente queimando o solado dos pés. Levaram um dia inteiro nessa arrumação. Simplício de vez em quando olhava pra trás pra ver se alguém estava fazendo corpo mole ou querendo correr no rumo do Labino. Ao final da tarde avistaram as pedras enormes. Os animais, os soldados e os negros estavam enfadados, mas ninguém reclamou ou deu um piu! O pessoal da logística foi logo tratando de montar as barracas onde iriam dormir o capitão Simplício Dias e os oficiais.

Passaram dez dias esperando um sinal que fosse vindo do mar. Comendo carne seca com farinha branca e bebendo água racionada. Ninguém tomava banho. Nos três primeiros dias os soldados passavam o dia marchando e recebendo instruções de combate. Mas do quarto dia em diante, como ninguém era de ferro e nem via e nem ouvia um sinal de vida, uns foram saindo e ganhando as pedras, outros pescando, outros fazendo poesia.

E outros se danaram a escrever os nomes de esposas, namoradas, amantes e casos nas pedras. Era letra de tudo quanto era jeito e tamanho. Anita, Solange, Marilda, Pretinha, Diane, Lucineide, Socorrinha, Angélica, Bruna, Fransquinha, Lurdinha, Patrícia, Rebeca. Encheram as pedras de declarações de amor, corações e de nomes. Simplício fazia que não estava vendo nada. Passava o dia riscando o chão de areia fofa com um graveto e mandando os oficiais menores procurarem o que fazer ou indo até a parte da cozinha de campanha olhar pra dentro das panelas.

A água e a paciência dos soldados estavam acabando, mas ninguém reclamava de nada. Tinha soldado que estava achando aquilo uma beleza que não iria nunca mais se repetir tão cedo. Simplício Dias da Silva começou a ficar impaciente e desmotivado. Olhava pra aquele mundo de água salgada e não via um sinal de nada. Já começava a criar uma escuma nos cantos da boca quando chamou todo mundo e mandou que debandassem. Napoleão deve ter desistido com medo. Só podia ser!  

quinta-feira, 27 de junho de 2019

O calango à francesa

Fonte: Google



O calango à francesa

Pádua Marques
Jornalista e escritor

Simplício estava feliz, embora por dentro com o coração aos pedaços. Havia tempos que sentia e via sua fortuna e opulência saindo de dentro de casa e indo parar na mão de agiotas em São Luiz. Tudo por conta das investidas que achou de dar nas tramas da política, as intrigas com vizinhos por causa do irmão Raimundo, assassinado quase na porta de casa e de brigar por terras que não eram suas e nem seriam de seus descendentes.

Constance e Apolinaire Dabreux chegaram numa canoa larga puxada a remos por doze negros, vindos da Tutoia, no distante Maranhão. Era por volta do meio dia quando subiram o barranco que dava para a casa de Simplício Dias da Silva e sua família. A francesa subiu numa liteira carregada por dois criados enquanto o marido foi montado num cavalo pequeno.

Simplício e dona Isabel receberam os visitantes ainda na parte de baixo do sobrado de paredes encardidas, de dois andares, no meio entre um outro de esquina e a igreja, de frente para um campo de areia onde a vista mal alcançava. A mulher do anfitrião brasileiro estava vestida sem muita ostentação. Não era bonita. Morena, baixa, rosto latino e tinha uma verruga embaixo do lábio. Em Constance causou uma certa repugnância, mas se conteve. A filha, uma menina de seus onze anos, de pouca presença.

Era o que se esperava de uma criança nascida e criada naquele lugar de pouca gente civilizada, com as poucas ruas cheias de soldados, homens rudes e negros suados, embarcadiços e negras nos mais diferentes ofícios. Constance tão logo subiu as robustas escadas de madeira para acomodar a bagagem, trouxe na volta uma caixa. Chamou a menina e entregou pedindo que abrisse o presente. Uma bonita boneca de porcelana, olhos pintados de azul e cabelos humanos.

Uma joia na frente daquelas suas de pano ou de sabugo de milho feitas pelas criadas. Recebeu e tratou de se retirar sem agradecer. Era acanhada demais e mais ainda com estranhos. Para dona Isabel Thomásia, um xale negro de renda espanhola e um corte de seda azul turquesa. Simplício havia ganhado de presente de Apolinaire Dabreux um rico estojo de escrita com tinteiro de prata e cuja tampa era de cristal da Boêmia.

Os dois homens agora conversavam na janela de cima do segundo piso enquanto olhavam o serviço dos negros lá embaixo no cais. Olhando em volta, nada era verdade do que Constance ouviu pela boca de outros franceses encantados com a América do Sul. Simplício e sua família estavam arruinados. A pobreza começava a bater na sua casa pela porta dos fundos e a cozinha era testemunha. Mas com o casal estrangeiro, Simplício quis fazer bonito.

Na missa de domingo, Constance e Apolinaire Dabreux, Simplício Dias e dona Isabel Thomásia ficaram na parte reservada aos principais. Após a demorada celebração foi ordenado que entrassem três negros, todos jovens, entre quinze e vinte anos. Era a orquestra de que tanto Constance e o marido ouviram falar ainda no porto de Marselle, de que um rico comerciante no Piauí mantinha às suas custas. Executaram duas peças sacras curtas e saíram silenciosos. Estavam vestidos com roupas ordinárias e mal cortadas. Mas um detalhe chamou a atenção, estavam descalços.

Apolinaire Dabreux acompanhava a música dos escravos com os olhos fechados, a mão na boca escondendo uma certa surpresa e reprovação. Como podia numa terra daquela, distante da sua França e da civilização, alguém à custa de muita teimosia e violência meter na cabeça daqueles negros um rasgo de arte, uma arte que só era possível e vinda da Europa? Simplício olhava para o casal francês como que procurando aprovação. Estava radiante.

No almoço, servido na parte de baixo do sobrado, a mesa estava farta. Fazia muito tempo que isso não acontecia. A louça estava limpa, os talheres lustrados à custa de muita areia lavada e sabão de coco. Bananas, mangas e laranjas vindas do distante Maranhão, carne de gado ensopada, perus e galinhas assados, vinho do Porto e água de coco. Constance ficou admirada com aquela bebida. Apolinaire não demonstrou muito gosto pela novidade. Mas bebeu um copo.

De repente, assim do nada, todos sentados em volta da mesa enquanto a criadagem trazia e retirava pratos, entra um calango. Simplício, que vinha convalescendo de umas bolhas nos pés, foi o primeiro a dar sentido. O lagarto feio, pele entre o negro e o cinzento e que quando parado ficava balançando a cabeça, atarantado, correu para debaixo da mesa e quase se perde embaixo dos vestidos das mulheres. Gritos e mais gritos se ouviram. Os criados vieram com pedaços de pau e cabos de vassoura tentando achar e espantar o bicho.

Já nesse instante as duas mulheres haviam subido as escadas e estavam muito aflitas. Um calango. Simplício se pôs a dizer para Apolinaire Dabreux como era viver numa terra ainda cheia de animais venenosos e até de vez por outros selvagens. O francês ia ouvindo tudo, concordando e consigo pensando. Não, aquela terra perdida da América do Sul iria apenas ser outra Jamaica, Haiti e Cuba. Não e nunca seria como a França! Na sua França jamais se teriam calangos à mesa.