quarta-feira, 22 de abril de 2020

Bernardo Pereira Gago

Casa da Torre. Fonte: Google


Bernardo Pereira Gago

Reginaldo Miranda*

               Foi Bernardo Pereira Gago, um personagem importante no devassamento e conquista do território piauiense, mas que ficou ofuscado pela presença do irmão primogênito, o coronel Francisco Dias d’Ávila, assim como pela ausência de descendência em linha direta. Ele custeou equitativamente com seu patrimônio e integrou, ao lado do irmão primogênito, as tropas pioneiras que no encalço dos índios gurgueias, descobriram, conquistaram e desceram pelas cabeceiras do rio de mesmo nome, no ano de 1674, assim como de outros vales ribeirinhos do sul do Piauí. E, também, conforme se verá mais à frente, foi aquinhoado com um quarto das sesmarias concedidas em solo piauiense, durante o século XVII.

               Mas quem foi este personagem importante, sempre mencionado mas pouco conhecido de nossa história? Bernardo Pereira Gago, nasceu no ano de 1654, na Casa da Torre, situada no litoral norte da Bahia, sendo batizado em 2 de agosto daquele ano. Era filho[1] do capitão de ordenanças e cavaleiro fidalgo da Casa Real, Garcia de Ávila (1622 – 1675) e de sua esposa Leonor Pereira[2], esta falecida em 13 de junho de 1686, sendo sepultada na capela da Torre.

               Pelo costado paterno era descendente de uma grande geração de conquistadores do sertão, renomados militares, ricos sesmeiros e abastados criadores, os Senhores da Casa da Torre. Essa geração teve início com o português Garcia d’Ávila, o primeiro do nome, e a cada geração foi prestando relevantes serviços no processo de colonização e assentamento da base colonial portuguesa, inclusive nas guerras de conquista e manutenção do território, tanto contra as mais diversas nações indígenas quanto contra holandeses e franceses, assim fazendo-se merecedora de honras e privilégios. Como resultado adquiriram patentes militares, títulos nobiliárquicos e conquistaram imensas áreas de terras que se transformaram no maior latifúndio da colônia portuguesa e, provavelmente, de toda a América. Foram seus avós paternos Francisco Dias de Ávila e Ana Pereira, estes casados em 8 de junho de 1642, sendo ela filha de filha de Manoel Pereira Gago e de sua esposa Catharina Fogaça. Por aquela linha, era bisneto de Isabel d’Ávila, falecida em 18 de outubro de 1593, com 39 anos de idade, e de Diogo Dias, este falecido em 10 de novembro de 1597, com 45 anos de idade, filho de Genebra Álvares[3] e Vicente Dias, cavaleiro da Casa Real; por fim, trineto do pioneiro fundador de Tatuapara, o português Garcia d’Ávila e da índia tupinambá, Francisca Rodrigues.

               Foram seus avós maternos, a baiana Catharina Fogaça e o lusitano Manoel Pereira Gago, de quem herdou o apelido familiar, sendo este natural de Vila Nova do Porto, em Portugal, passando ainda menino[4] para a cidade da Bahia; também pais da bisavó paterna do biografado, por ter havido casamento de tia com sobrinho. Este avô era considerado “gente honrada de Porto Seguro”, na expressão de frei Jaboatão[5], onde vivia abastadamente e como nobre, porém, não tinha origem ilustrada, não tendo sido encontrada informação das origens genealógicas em Portugal, o que dificultou o nobilitamento dos netos. Desde cedo fez-se aliado da Casa da Torre, sendo amigo de longa data e procurador do velho Garcia d’Ávila, de quem recebera como legado pelos bons serviços terras no vale do rio S. Francisco. Mais tarde fez-se protetor do neto deste, Francisco Dias d’Ávila, o velho, a quem defendeu contra a cobiça dos monges do Mosteiro de São Bento e zelosamente o fez casar com sua filha Ana Pereira[6].

               No entanto, parece que Bernardo Pereira Gago foi um menino frágil, sem a vigorosa saúde do irmão Francisco Dias d’Ávila, neto, porque menores são os registros sobre a fase inicial de sua vida. Enquanto o irmão desde a mocidade acompanhava o pai em suas andanças pelo sertão, no combate ao elemento indígena, na busca de minas e na conquista de terras, sobre ele calam os registros históricos até agora analisados. Certamente, acompanhou o genitor em algumas dessas diligências, como era o costume da época, fazendo entradas pelo rio São Francisco. Deste são inúmeros os registros. Porém, parece que a sua maior atividade nos anos da mocidade foi a administração das muitas fazendas e o zelo com os rebanhos de gado bovino e cavalar, entre outros. Enquanto o irmão se dedicava mais à carreira militar ficou ele encarregado da administração do patrimônio familiar, comercializando o gado para sustentar a soldadesca e as campanhas pelo sertão, inclusive na luta para expulsão dos holandeses de Pernambuco.

               Em face desses feitos em conjunto com o de seus familiares, em 1657, juntamente com seu pai, o capitão Garcia d’Ávila, os irmãos Francisco Dias d’Ávila, neto, e Catarina Fogaça, neta, assim como o padre Antônio Pereira, seu tio materno, requereram e obtiveram do governador de Sergipe d’El Rei, Jerônimo de Albuquerque, 10 léguas de terra cada um, perfazendo um total de 50 léguas, no sertão do rio S. Francisco. Em 16 de outubro de 1658, o governador de Pernambuco, André Vidal de Negreiros, concedeu-lhes mais uma extensa sesmaria com limites imprecisos, do rio S. Francisco acima, começando das terras povoadas até a última aldeia dos índios moipiras e, para a parte do norte, até a serra do Paripe, tomando por pião as serras que ficam junto do mesmo rio, fronteiras ao sul do Salitre. Esta última sesmaria foi concedida como recompensa pelo fornecimento de gado às tropas que lutaram contra os invasores holandeses.

               Porém, um fato eloquente que vai inserir o nome de Bernardo Pereira Gago em nossa história, foi a pioneira entrada que fez pelas cabeceiras do Gurgueia e a conquista pelo rio baixo até sua foz, em companhia do irmão e de outros sócios[7], no verão de 1674. Tudo começou com o levante dos índios gurgueias no sertão do rio São Francisco e a obtenção de licença[8] para fazer a guerra ofensiva contra aquela nação indígena. Formaram tropa composta por cem homens brancos armados, acrescida de mulatos, negros e indígenas aliados, com o auxílio de outros criadores. Durante um ano e meio ocuparam-se nessa guerra e conquista da bacia do Gurgueia.  Em princípio, entram pelo vale do rio Salitre acima, encontrando a caminho aqueles indígenas rebelados. Então, enfrentam o primeiro combate, dividindo-se os indígenas em hordas guerreiras combatendo por terra, munidas de arco e flecha, enquanto índios canoeiros, com as mesmas armas, os apoiavam pelo rio. Foi um momento dramático, em que ambos os lados mostraram seu valor. No entanto, porque a disparidade de armas era enorme, depois de muitas baixas recuam os valentes indígenas pelo rio São Francisco acima, alcançando Santo Sé, mais tarde o rio Verde e o rio Grande, subindo por este último até à barra do rio Preto. Em seu encalço seguiam os sanguinários soldados da Casa da Torre.  Não havia descanso, nem mesmo para curar os feridos. E os gurgueias recuavam, não por covardia, mas porque desconheciam guerra naquele nível, nunca tendo combatido contra armas de fogo. Muitas eram as baixas e numerosos os feridos. Buscavam tempo para refazer as forças. No entanto, contra eles seguiam as tropas de Francisco Dias d’Ávila e Bernardo Pereira Gago, porque sabiam que aquele momento poderia ser o da vitória total. Queriam a qualquer custo liquidar o inimigo para abrir caminho a novas conquistas. Nessa altura, a horda indígena que seguia em fuga não era formada somente pelos guerreiros, mas também por suas mulheres, idosos e crianças, o que muito os atrasava. E subindo pelo rio Preto acima, provavelmente, depois de longa marcha torceram pela vereda do Sapé, de onde por menos de três léguas alcançaram as vertentes do riacho Fresco, que deságua na lagoa de Parnaguá, formadora de um rio perene e de curso mediano, com vale fértil e campinas verdejantes. No encalço desses indígenas, Bernardo Pereira Gago, ao lado de seu irmão e de muitos soldados, seguindo esse aludido caminho das águas descobriram aquele rio que passaram a chamar de rio dos Gurgueias, em alusão à nação indígena que, sem a intenção, os levou àquela descoberta. As mesmas nascentes, por veias diversas, na cumeada da serra, derramam água para os dois lados formando córregos que correm para a bacia do São Francisco e para a do Parnaíba. É o caminho das águas interligando as grandes bacias hidrográficas do norte-nordeste do Brasil, que permitiu desde tempos imemoriais o percurso das mais diversas nações indígenas em movimento migratório desde a bacia do rio São Francisco, que desce das montanhas de Minas Gerais até o litoral nordestino; e pelas vertentes do rio Parnaíba se interliga à bacia do Araguaia-Tocantins e, consequentemente, à hinterlândia amazônica. Mais tarde, esse caminho seria percorrido pelos bandeirantes, sertanistas e colonizadores que alargaram nosso território, a exemplo de nosso biografado.

               E nessa conjuntura dramática em que muitas foram as perdas, perecendo os doentes e feridos no caminho, somente têm descanso os gurgueias com o cair das primeiras chuvas, depois de sete meses de peleja, porque recuaram às suas moradas em busca de abrigo os conquistadores da Casa da Torre. Então, puderam os indígenas respirar em paz e recuperar as forças enquanto os conquistadores também refaziam as suas, preparando-se para nova investida. Em princípio do mês de maio do ano seguinte, com o fim das águas, Bernardo Pereira Gago e seu irmão Francisco Dias d’Ávila, estão novamente à frente de cento e vinte cavaleiros armados com armas de fogo e muitos índios aliados em tropas pedestres, inclusive os missionados por frei Martim de Nantes, estabelecendo arraial militar no sertão do Pajeú. Depois de rastejarem os gurgueias por seis ou sete dias de marcha contínua, através de agrestes e caatingas, surpreendem a tribo espavorida e faminta, destroçando-a em ligeira peleja. Foi no dia 30 de maio de 1675, em que os gurgueias se renderam aos soldados da Casa da Torre, sendo presos e manietados. No entanto, dois dias depois, vai ser escrita uma página indigna de nossa história, porque sob fútil pretexto degolam eles 400 indígenas desarmados, presos e famintos, reduzindo à escravidão mulheres e crianças. Parece mais que, por motivo de segurança, queriam livrar-se dos homens guerreiros e de quebra, não se comprometerem com alimento para tantas bocas famintas.

               Porém, os conquistadores da Casa da Torre ainda permanecem em campanha durante todo o restante do verão, em busca dos indígenas remanescentes, conforme informou o coronel Antônio da Silva Pimentel, que os ajudou com homens e mantimentos. Esclareceu que a campanha, tendo começado em abril ou maio de 1674, demorou um ano e meio[9], tendo as tropas percorrido mais de 120 léguas, matando muitos índios porque se não quiseram reduzir à paz. E, assim, completaram o devassamento e conquista do rio a que chamaram Gurgueia, em alusão aos indígenas massacrados. De fato, ao seu final, em 27 de novembro de 1675, Francisco Dias d’Ávila, que comandava a tropa de que o irmão fazia parte, vai ser promovido à patente de coronel de infantaria das mesmas ordenanças (AHU. Bahia, verbete 4224).

             Como recompensa da campanha, em 13 de outubro de 1676, o governador de Pernambuco, D. Pedro de Almeida, concede a Bernardo Pereira Gago, Francisco Dias d’Ávila, Domingos Afonso Sertão e Julião Afonso Serra, todos sócios na conquista, quarenta léguas de sesmaria em quadra, a ser dividida entre eles em partes iguais. Foi esta a primeira concessão de terras na bacia do rio Gurgueia e, consequentemente, no território piauiense, ao que se seguiram muitas outras.

              Em 30 de janeiro de 1681, foi feita outra concessão de igual tamanho aos mesmos sócios, pelo governador Aires de Souza e Castro. Em 29 de dezembro de 1683, mais uma concessão de doze léguas a cada um, feita pelo governador D. João de Sousa. Em 13 de outubro de 1684, novamente este mesmo governador de Pernambuco, D. João de Sousa, concedeu a cada um dos mesmos sócios, entre outros, mais “dez léguas a cada um, resolvendo em todas as Datas, caatingas e terras inúteis de criar gado, com cuja declaração, que se vê nas mesmas sesmarias, compreendendo estas, duzentas quarenta e duas léguas em quadra, pode ser, que seiscentas léguas não sejam bastantes para preencherem as léguas concedidas em campos e terras próprias, para a criação e conservação dos gados”. Por fim, o mesmo governador concedeu vinte léguas em quadra a cada sócio, em 23 de outubro de 1684.

               De certa forma, essas excessivas concessões, algumas com subterfúgios para alargá-las, como a penúltima, era a compensação da Coroa pelo empreendimento por eles realizado. Mais terra conquistada resultava em mais fazendas e, consequentemente, mais impostos para o erário real. Assim, todos ganhavam com a conquista, menos os indígenas massacrados. Essas terras recebidas em sesmarias eram arrendadas a posseiros que as cultivavam e nelas situavam fazendas mediante o pagamento de rendas anuais. A constituição desse latifúndio iria assinalar indelevelmente a formação histórica do Piauí, com repercussões até os dias de hoje em sua vida política e administrativa.

           Conforme demonstrado, Bernardo Pereira Gago viveu durante toda a sua existência de forma nababesca, comandando imenso latifúndio, de onde auferia vultosa renda paga pelos sesmeiros a quem arrendava as suas terras. Esse pagamento era quase sempre de dez mil reis anuais por cada fazenda. E ainda comandava as suas próprias fazendas, no vale do rio São Francisco, de forma que era um dos homens mais ricos do Brasil, só igualado aos parentes, sócios e alguns poucos outros conquistadores. Além das suas próprias conquistas, que já eram suficientes para torná-lo excessivamente abastado, ainda herdou terras dos genitores e do tio, padre Antônio Pereira.

               Faleceu Bernardo Pereira Gago, no fastígio da fortuna, em 1689, com apenas 35 anos de idade, sem deixar descendência. Foi seu herdeiro universal o irmão de sangue e alma, Francisco Dias d’Ávila, coronel de infantaria e companheiro de lutas memoráveis.

__________________

* REGINALDO MIRANDA, advogado, membro titular da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.

[1] Possuía dois irmãos, o primogênito Francisco Dias d’Ávila e a caçula Catarina Fogaça, esta casada com Vasco Marinho Falcão, sendo ele o irmão intermediário.
  
[2] Tia do esposo.

[3] Filha da índia Catarina Álvares com Diogo Álvares, o Caramuru.

[4] PT/TT/MCO/A-C/002-006/0034/00126. Mesa da Consciência e Ordens, Habilitações para a Ordem de Cristo, Letra F, mç. 34, n.º 126.

[5] Jaboatão, 1889, p. 88. In: BANDEIRA, Moniz. O feudo: a Casa da Torre de Garcia d’Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

[6] BANDEIRA. Op. cit.

[7] A tropa tinha por imediato Domingos Rodrigues de Carvalho. Domingos Afonso Sertão e Julião Afonso Serra, também comandaram um troço de combatentes.

[8] A licença foi concedida pelo capitão-general do Estado do Brasil, Afonso Furtado de Castro do Rio Mendonça, visconde de Barbacena.

[9] Em sendo assim, como confirma a data da patente dada a Francisco Dias d’Ávila, a chacina dos gurgueias deu-se no ano de 1675, e não 1676, como anotou frei Martim de Nantes.   

A santa casa dos horrores



A santa casa dos horrores

Pádua Marques
Romancista, cronista e contista

Pedro Firmino Pedrosa, de Água Doce, no Maranhão. O homem de estatura baixa, cabelos encaracolados, olhos agateados e com sinal de ter feito uma viagem comprida, estava acompanhado de um menino de seus oito anos, magrinho, e que estava vestido de calção curto, uma camisa de chita de mangas compridas, calçado de tamancos e carregando no ombro uma trouxa de pano, falou em voz baixa, mas firme, olhando pra moça muito feia e miúda que estava atrás de uma mesa grande e escura e que sem muita vontade ia anotando tudo, quase sem levantar a cabeça.

Era pouco mais do meio do dia, hora do almoço e da oração das freiras. Estava o homem vindo do Maranhão e o menino seu filho, de nome Estevão, na sala pequena e baixa da Santa Casa de Misericórdia naquele dia 12 de março de 1936. Os dois fizeram uma viagem difícil e cheia de atropelos, um dia e meio de canoa, suportando noite e frio da madrugada, sem colocar uma coisa de comida na boca que fosse até saber de alguém mais entendido na Parnaíba sobre o que o menino estava sofrendo e que os remédios caseiros de sua avó Paulina e até pajelança de índios não conseguiram descobrir do que se tratava.

Estevão havia tempos aparecido com umas manchas escuras pelo corpo, nas costas e entre os dedos das mãos e agora aquilo já incomodava. Era o terceiro de cinco filhos daquele pescador de caranguejos vindo do Maranhão. O jeito era vir bater nas portas de Parnaíba. Pedro Firmino mal sabia que dentro de pouco tempo seu filho seria separado dele, da mãe e dos irmãos e nunca mais voltaria pra sua terra. Estevão seria pra os médicos da Santa Casa de Misericórdia, um leproso.

Pedro Firmino enquanto esperava o médico pra ver o menino, ficou olhando aquele movimento de começo de tarde no hospital. E o menino ali, atrás dele, rente às suas pernas, triste, cabeça baixa, os olhos distantes e como se pedindo alguma coisa, um gole de água, um pedaço de bolo. De lá do fim do corredor de piso de tijolos claros, mas encardidos, veio um gemido alto. A moça feia disse que era de uma criada que havia se queimado ou foi queimada pela dona com uma panela de água ou de angu quente. Falou que era pra doente ficar calma, que doutor estava chegando.

Numa das quatro enfermarias estavam uma mulher, de seus quase quarenta anos de idade e o filho rapaz de uns vinte, cobertos dos pés à cabeça, se vendo de frio. Aqui e ali tossiam e colocavam a cabeça pra fora da rede pra cuspir dentro de um penico de esmalte. Os dois chegaram fazia tempo do Ceará, região de Camocim. Estavam enfraquecidos. Pedro e o filho foram caminhando pelo corredor e mais lá na frente, onde a sala se abria num largo, estavam dois negros deitados em redes. Um deles, o mais jovem, fez menção de conhecer o pescador, mas se conteve. O outro não deu importância às visitas e voltou a dormir.

Os dois estavam ali internados depois de uma briga feia que virou a região do Cheira Mijo, nos Tucuns, de cabeça pra baixo por causa de uma briga por uma mulher da vida quando à custa de faca ou navalha o mais novo colocou as tripas do mais velho pra fora. Mas o negro valente e mais novo saiu da briga com uma pancada de cacete no meio das costelas.  Tão logo melhorasse ia ser interrogado e preso. Pra isso tinha ali perto um soldado de prontidão, que por falta do que fazer estava olhando o chão sem encontrar nada que fosse.

Perto deles estava outro doente, homem de pouco mais de cinquenta anos, gemendo muito, escuro, barba ficando branca, nu da cintura pra cima. Tinha uma enorme ferida em carne viva na altura do peito esquerdo. Tinha sido vareiro no rio Igaraçu por mais de trinta anos. Sabia que ia morrer. Do lado e embaixo da rede havia um penico encardido cheio de sangue pisado.

Estevão caminhou um pouco à frente, curioso pelos gritos que vinham de dentro de uma sala nos fundos da outra enfermaria, à esquerda. Pedro deixou que se adiantasse e o seguiu de perto. Lá chegando viram um homem muito pálido, de olhos fundos, quase nu, gemendo e chorando, se contorcendo de dores. Era tanta dor que pedia pra morrer! O pescador de Araioses acompanhado do filho, este coberto de medo, arriscou saber do que era aquele mal, porque tanta dor que ninguém dava jeito.

A mulher ao lado, gorda e de cabelos negros e lisos disse que o marido havia sido esporado por uma arraia numa pescaria de lagoa na Barra do Longá. Haviam chegado um dia antes. Doutor Cândido já havia visto o estrago e o calcanhar estava muito inchado. Só Deus podia livrar aquele coitado de ter o pé cortado. O que seria da vida deles, meu Deus? Só Deus e Nossa Senhora pra dar jeito!

A Santa Casa de Misericórdia de Parnaíba ficava num largo campo de areia solta entre o Alto do Cemitério e os Tucuns, de terreno pantanoso e baixo pra os lados do Igaraçu. Muita gente não gostava de passar perto. Aquelas terras pertenceram tempos atrás ao malvado, soberbo e ranzinza coronel Pacífico da Silva Castelo Branco, morto há quase cinquenta anos. Diziam os mais velhos que ali naquele imenso terreno foi senzala de uma de suas fazendas e que as lembranças davam que muito negro morreu maltratado.

Quando coronel Pacífico morreu em 1889, na sua fazenda de Buriti dos Lopes, veio de canoa o corpo pra ser enterrado em Parnaíba, mas muito inchado, pesado, já fedendo, acabava caindo da embarcação, mas era trazido de volta pelos seus escravos. Contavam também que quem passasse do lado do hospital, naquela escuridão tamanha, ouvia uns cinco assobios de arrepiar dos pés à cabeça e que iam se distanciando e se via uma ponta acesa, igual se alguém estivesse fumando um charuto. Pedro e Estevão continuaram andando pelo hospital sem que ninguém incomodasse.

A moça feia da entrada estava ocupada demais com quem estivesse chegando ou preparando a sala do doutor, que dentro daquela tarde iria fazer as consultas. Da enfermaria das mulheres que acabavam de parir veio um choro de menino novo. Logo na entrada estava numa cama baixa, acompanhada do marido, uma moça, quase menina, de seus dezessete anos. Seria mãe do segundo filho e pelo que contou o futuro pai, ouvido dos médicos, a criança estava atravessada na bacia. Pelo visto a mãe ainda haveria de sofrer muito.

Passaram por um corredor e viram um menino de seus doze anos com o rosto todo encalombado, deformado, parecendo um bicho, um lobisomem. Coisa de meter medo. A mãe disse preocupada e triste que tudo aquilo era coisa de malinação. De brincadeira no mato com uns pariceiros. Assanhou uma casa de abelhas, no Macacal. Pai e filho, Pedro e Estevão olharam aquilo e saíram de cabeça baixa e foram pra frente da Santa Casa olhar o movimento da rua. Se não desse pra serem atendidos daqui a pouco seria melhor esperar pelo outro dia. O jeito era procurar um lugar pra comer e dormir. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

DIÁRIO - 21/04/2020




DIÁRIO
[Cunha e Silva Filho e a Literatura Piauiense]

Elmar Carvalho

21/04/2020

            Em certo dia de 1990 conheci, em Amarante, sua terra natal, o professor, erudito, crítico literário, cronista, memorialista e ensaísta Francisco da Cunha e Silva Filho.

            Eu estava hospedado num hotel, instalado num velho e solarengo casarão, situado quase ao pé da escadaria do Morro da Saudade, que assim chamo em homenagem ao excelso poeta Da Costa e Silva, cujos extraordinários poemas passei a conhecer a partir do final de minha meninice, e depois, com mais intensidade, do início de minha juventude. Eu fora participar de um evento lítero-cultural.

Aliás, ao longo de muitos anos estive nessa cidade várias vezes, e sempre me é muito agradável retornar a essa aprazível e encantadora cidade, e essas visitas estão registradas em várias crônicas memorialísticas que escrevi, e no meu poema Amarante. Me é sempre agradável rever suas ruas e becos tortuosos, seus vetustos solares, suas praças ajardinadas, sua graciosa e elegante matriz, a atraente beleza dos rios, e a moldura azul e sinuosa das serras, que o poeta nostálgico do azul cantou.

            Ao dar uma volta pela cidade, sem dúvida em companhia do Virgílio Queiroz, professor, escritor e poeta amarantino, o encontrei num dos casarões da Avenida Des. Amaral, que se limita com o morro e com o rio Parnaíba, em suas extremidades. Não sei quem nos apresentou; talvez tenha sido a Sônia Setúbal, sua irmã.

Sei que iniciamos uma rápida conversação sobre literatura, na qual lhe informei que cometia versos, e participara de algumas coletâneas e antologias. Ainda no fulgor e no entusiasmo de minha juventude, prometi lhe enviar, pelos Correios, já que ele morava no Rio de Janeiro, onde exercia seu mister magisterial, cópia de minha participação na coletânea “Poemágico – a nova alquimia”, com prefácio de Assis Brasil, da qual eu fora um dos organizadores. Nessa ocasião ele disse haver gostado do meu nome literário, que o achava forte e bonito.

Ele tinha ido a Amarante, para fazer uma visita ao túmulo de seu pai, que falecera sete dias antes. O velho professor Cunha e Silva fundara o Ateneu Rui Barbosa, que relevantes serviços prestou à Educação do município até 1947, data de sua mudança para Teresina, onde continuou a exercer o magistério, e deu continuidade a sua vocação jornalística e literária, tendo vindo a integrar os quadros da Academia Piauiense de Letras. Homem de largas leituras, exerceu o magistério e a literatura com proficiência e dignidade.

À noite, perto do cais do Parnaíba, voltamos a nos encontrar. Entre outros, estava em minha companhia o contista e romancista José Pereira Bezerra, no auge de seu entusiasmo e de sua potencialidade literária, que entrou em erudita discussão com o Cunha e Silva Filho, em que este parecia se divertir com a veemência quase acirrada com que o Bezerra defendia as suas ideias e preferências na seara literária.

De volta a Teresina, imediatamente enviei, como havia prometido, a separata de minha participação no Poemágico. Poucos dias depois, recebi dele, através da ECT, um belo e desvanecedor artigo, diria pequeno ensaio, sobre a minha poesia. Para encurtar este registro, devo dizer que, posteriormente, sobre vários livros coletivos de que participei ou sobre os de minha exclusiva autoria, o Cunha escreveu vários estudos introdutórios ou manifestações críticas, percucientes, argutas e elucidativas.

Em todos esses anos mantivemos correspondência mais ou menos assídua, pelos Correios e depois pela internet, através de e-mails. Tanto em prefácios como em artigos avulsos, são vários os estudos ensaísticos que Cunha e Silva Filho dedicou à minha poesia, sobretudo, mas também à minha prosa, mormente às minhas crônicas, pequenos ensaios e discursos acadêmicos. E muito me honrou o seu ensaio literário sobre o meu romance Histórias de Évora, que lhe serve de prefácio.

Por tudo isso, lhe sou muito grato, e me sinto feliz com a amizade e a admiração recíproca que cultivamos ao longo dessas três décadas. Nas poucas vezes em que veio ao Piauí, estive com ele e com sua esposa Elza. Estreitei amizade com os seus irmãos Sônia e Evandro (falecido). Evandro era um leitor voraz, inteligente, atualizado, e muito perspicaz em suas observações críticas, sendo, algumas vezes, algo mordaz, mormente em relação aos falsos valores literários. Um outro seu irmão, Winston Roosevelt, é um mestre consagrado da estatuária piauiense, sobretudo em bronze.   

A partir de 1990, acompanhei a ascensão magisterial e literária de Cunha, quase diria uma vertiginosa espiral para o alto, não fora eu lhe conhecer as suas lutas e esforços nessas suas atividades. Sempre no campo da literatura, fez mestrado, doutorado e pós-doutorado. Com essas conquistas, pôde exercer o magistério superior. Publicou um dos mais importantes ensaios sobre a poesia de Da Costa e Silva, o nosso nunca assaz proclamado poeta maior, um dos maiores ou melhores poetas do Brasil, como o considera o meu amigo Geraldo Magela Meneses, digno juiz federal, mas amante inveterado de nossa literatura.

Posso afirmar, sem medo de estar errado ou a cometer injustiça, que Cunha é um dos que mais escreveram artigos, dissertações, teses e ensaios sobre autores piauienses, muitos coligidos ou transformados em livros. E isso não é fácil, requer esforço, argúcia e criatividade, porquanto vários desses autores nunca antes haviam sido objeto de estudo. Escrever sobre autores nacionais, de dilatada fortuna crítica, objetos de ensaios, monografias e teses sobre sua obra, é fácil; basta que se diga com palavras próprias o que outros já disseram ou escreveram.

Porém, escrever sobre autores provincianos, esquecidos pelos leitores e críticos, sobre quem nunca ninguém fez sequer uma pequena resenha, requer trabalho, pesquisa, meditação e muito poder de observação e perspicácia. E isso Cunha o fez muito bem, pelo que merece todas as nossas homenagens.

Tratou nesses trabalhos dos aspectos intrínsecos da obra desses literatos, seguindo os postulados da nova crítica, mas sem deixar de fazer uso, quando isso servia para iluminar a matéria analisada, das lições da boa crítica impressionista, nos moldes de um Álvaro Lins. Nunca maltratou ninguém em suas judiciosas críticas, pois preferia deixar os medíocres em seu canto, quietos e esquecidos. Todavia, não fazia concessões, e só louvava os que, no seu entendimento, como no dizer do poeta Torquato, merecessem ser louvados.

Não bastasse tudo quanto disse, construiu uma bela obra literária, contida nos seus livros  Da Costa e Silva: uma leitura da saudade (Teresina: Editora da UFPI/Academia Piauiense de Letras, 1996); Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação (Rio de Janeiro: Editora Quártica, 2009); As ideias no tempo (Teresina: APL/Senado Federal, 2010) e Apenas memórias  (Rio de Janeiro: Quártica, 2016).

No seu blog “As ideias no tempo”, ao longo de alguns anos, vem publicando primorosos artigos, elucidativos ensaios literários e excelentes crônicas, algumas de cunho memorialístico, que enfeixados formariam um notável livro, de interesse para a cultura e a literatura brasileira e piauiense.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

INTROSPECÇÃO




INTROSPECÇÃO

Chico Acoram Araújo
Escritor e poeta

Catucando meus próprios pensamentos,
vejo que nesses tempos tão penosos
Divinas provações e sentimentos
remeterão pra fatos tais danosos.

Mas, em contrapartida, ensinamentos
sei que virão, embora que custosos
ensejarão bonanças e proventos
pra que novos dias sejam venturosos.

Depois da paranoia e medo da morte,
uma mão invisível do Supremo
Deus tocará no âmago das gentes

de tão boa vontade e de ação forte
resgatarem o mundo desse extremo
egoísmo dos homens indecentes. 

Fonte: Folhas Avulsas

domingo, 19 de abril de 2020

Seleta Piauiense - Cid Teixeira de Abreu

Fonte: Google


Pipa

Cid Teixeira de Abreu (1937 – 2004)

Na tarde de maio
uma pipa passeia o azul
sem compromisso do cerol

apenas quer a altura
desvelar o espaço
no rolo da linha
pelos dedos do menino

apenas quer voar
como o menino
do outro lado do cabresto
que empina sonhos
em cabeçadas arriscadas

Fonte: Antologia dos Poetas Piauienses, org. Wilson Carvalho Gonçalves    

sábado, 18 de abril de 2020

A MORTE E A CEGUEIRA DE KETY

Chagas Vieira


A MORTE E A CEGUEIRA DE KETY 

Elmar Carvalho

Fui cortar as minhas cada vez mais ralas e raras madeixas com o irmão maçônico Chagas Vieira. Desde 1971, ele exerce sua atividade em Teresina. Conheço-o desde a segunda metade da década de 1980, quando eu trabalhava na extinta SUNAB. Ele trabalhava no Salão Piauí, pertencente ao senhor Felinto Lima, já falecido. Em 1998, fundou seu próprio estabelecimento, o Salão do Povo, situado na rua Rui Barbosa, 441, perto do antigo supermercado São Gonçalo, onde hoje funciona um templo da Igreja Universal.

Durante alguns anos, ausentei meus cabelos de sua tesoura e navalha, por mudanças de hábito e circunstâncias. Há alguns anos, voltei a integrar sua clientela. Antes de adotar posição estática, para ele melhor exercitar as suas habilidades de escultor capilar, pedi-lhe que me repetisse a história de sua cadelinha. Chamava-se Kety e era uma pequinês, pequenina, peluda e de brancura imaculada.

Quando Chagas saía para o trabalho, ela o acompanhava até a porta da rua. Ficava triste, aguardando o seu retorno, quando ia esperá-lo à porta, e ficava se achegando a ele, até ser colocada no colo. Tinha muito amor a seu dono, e a recíproca era verdadeira, na mesma intensidade. A cadelinha chegava ao ponto de comer no mesmo prato dele, com a sua cúmplice permissão complacente.

Teve longa vida, para os padrões caninos. Aos dezessete anos cegou, primeiro de um olho e logo em seguida do outro. Com a cegueira, a cachorrinha, por alguma espécie intuitiva de pudor, ou por receio de incomodar seus donos ou por simples higiene, passou a se esgueirar pelas paredes, como tateando, em busca de alguma saída para fazer suas necessidades fora da casa.

Numa dessas buscas, saiu para a rua, quando foi tragicamente colhida pelas rodas de um carro, que lhe esmagou a pequenina cabeça. O irmão Chagas providenciou-lhe o enterro, no quintal da residência. Mas pela casa ainda vaga a lembrança e a saudade de Kety, que se mantém viva na retentiva amorosa de seus donos.       

30 de abril de 2010

quinta-feira, 16 de abril de 2020

DIÁRIO - 16/04/2020

Fonte: Google



DIÁRIO 
[Um pesadelo e um sonho]

Elmar Carvalho

16/04/2020

            Na madrugada desta terça-feira, em sonho, eu estava à direção do que me pareceu ser um jipe escuro. Fora do veículo fazia sol, mas dentro parecia noite, pois pouco eu enxergava em seu interior. Para meu espanto e terror, tentei frear, para reduzir a velocidade, mas não conseguia alcançar o pedal dos freios. Verifiquei que não podia desacelerar, já que a velocidade era constante, e eu não tinha acesso ao acelerador, e sequer tinha controle sobre a direção.

            Minha mulher gritava ao meu lado, para que eu tivesse cuidado, e parasse o carro, mas eu não a enxergava, uma vez que a escuridão dentro do jipe era absoluta. O fato é que eu não tinha o menor controle sobre a velocidade, frenagem e direção. Percorria as ruas de uma cidade desconhecida, de quarteirões perfeitamente simétricos, como um tabuleiro de xadrez.

Creio que ante o inelutável, ou seja, a falta de controle (de minha parte que sonhava) sobre o sonho, a minha parte não sonhadora tomou a única providência possível: me fez acordar. Não sei se é verdade, mas há quem afirme que se uma pessoa sonhar que morre dentro do sonho, de fato morreria. Morreria dormindo.  

Eu não tenho uma interpretação para esse pesadelo. Contudo, arrisco uma: suponho que o carro descontrolado seria a covid-19, sobre a qual não exerço nenhum controle, exceto me manter recluso em minha casa. Mas isso não seria uma injustiça contra essa doença? Não seria uma supervalorização da pandemia, dando-lhe uma dimensão que efetivamente não tem, inclusive a de me causar pesadelo.

Já o sonho desta madrugada foi muito diferente e agradável. Estava eu à margem do Açude Grande de Campo Maior, que pouco parecia com o real. Quando olhei ao longe, em direção à Serra Azul, a mimosa Serra de Santo Antônio, notei que estava bem mais alta e muito mais perto. E se estendia em torno do açude e da cidade, formando quase um círculo perfeito, como se fosse um imenso anfiteatro. Apesar de próxima, se mantinha azul como uma opala. Não tive tempo de me espantar ou de me extasiar, pois logo acordei.

Não farei nenhum exercício interpretativo, exceto o de que a carrego sempre comigo, e que é um sonho recorrente, fonte de inspiração de alguns versos líricos e elegíacos que fiz: “Ao longe, nas manhãs de inverno, / a serra cachimbava suas névoas. (...) As águas mortas do açude / tudo viam e tudo refletiam. (...) / E a serra se erguia do plano descampado / cachimbando suas névoas / para um céu que sequer olhava.”              

quarta-feira, 15 de abril de 2020

POEMITOS DA PARNAÍBA


POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charges: Gervásio Castro



21.           Bernardo Carranca

Bernardo Carranca
com sua carranca de artesanato
artefato – mas não
arte de fato – de cantor/ator/à toa
atropela uma música
com seus gemidos e grunhidos e ganidos.
E canta: “De noite eu rolo
na cama...” E sai rolando, se enrolando
se contorcendo e se retorcendo pelo salão
por entre mesas e pelo chão
– bailarino de mola
sem molejo de cintura –
criador e criatura
de sua própria loucura.



22.           Zé Bispo

O “milionário” Paulo Afonso
coiceou com um seco não
o boêmio e compositor Zé Bispo,
quando este lhe foi dar
um filho como afilhado.
Bispo, numa música em que dizia
que o Deus do “milionário” era
o mesmo seu e que o ouro
dele não o levaria ao céu,
sua branda mágoa de protesto
nas placas de bronze do tempo lavrou.
O ouro de Paulo Afonso
como o orgulho e a soberba
pelo ralo da vida se foi.
A música de Zé Bispo
cantando na boca do povo
é folha verde/viva que a voragem
do vento do tempo não levou.



23.           Conde Falido

AristorRatos
AristocraRia de
ba(r)rão falido
de (es)conde de (ex)conde
de (vil)conde de (vis)condes
de barrão/barrado/borrado
conde falido = falo k ido
conde falado = falo alado mas depenado
conde falecido = falo de morto
conde falingus = falo da língua



24.           Maria Onça

– Maria Onça!
– Onça é a tua mãe,
filho de uma égua.
A cara feia de Maria
transformava-se na
carranca de uma onça.
Não de uma onça pintada,
não de uma onça rajada,
mas de uma onça
pobre, feia e desbotada.
E Maria Onça seguia
como um bicho acuado
por entre os apupos
da molecada.
E Maria Onça chorava
no meio da molecada.



25.           Cego Bento

Não morrerás,
meu quimérico e homérico cego.
Um mito não morre:
um mito se encanta e permanece.
Teus dois percursionistas
são dois anjos da guarda
de asas dissimuladas.
Um te abriga com a sombra
de seus olhos também sem luz.
O outro é tua estrela guia,
que te conduz em tua noite sem dia,
pelas trevas espessas de teus olhos,
como um Virgílio da nova mitologia.
Não morrerás,
não por seres Bento,
mas por teu talento.
A música escorre de teus dedos,
saltita sobre os teclados,
palpita e resfolega no fole,
cabriola no molejo moleque
do leque da sanfona,
evola-se pelos ares,
remexe as ondas dos mares,
sacoleja as folhas dos palmares,
se quebra e se requebra pelos bares
e remelexe no chamego e aconchego dos pares.
Não morrerás, cego Bento.    

terça-feira, 14 de abril de 2020

A linha de sangue




A linha de sangue

Pádua Marques
Contista, romancista e cronista

Sebastião e Simplício vieram da parte de cima avisar que o doutor engenheiro Miguel Furtado Bacellar estava chegando ao acampamento e eles tinham que esconder as garrafas de aguardente que estavam dentro dos matulões. Se ele pegasse os homens bebendo e se embriagando no acampamento, decerto que seriam mandados embora e até presos. Os outros homens, dois ou três, foram se levantando e tomando o rumo dos petrechos de serviço, os facões, foices e machados e tomando o rumo do mato. 

Uns mais à frente foram se limpando da areia do mato nos calções encardidos e mais outros foram derramando a bebida que havia sobrado daquela festa no local de trabalho. Logo em seguida chegou junto com outros altos funcionários, uns cinco ou seis, o engenheiro Miguel Furtado Bacellar. O encarregado do acampamento veio dizer que tudo estava em ordem, o serviço ia correndo bem e os homens estavam muito determinados, prontos pra acabar aquele serviço e esperar as novas ordens vindas lá de cima.

Foi chegar e foi olhando como estavam os cassacos. Olinto trouxe pra perto o filho Pedro, um meninote de uns quatorze anos de idade. O pai, agora doente, tossindo, enfraquecido, levou pra derrubar mato junto com ele. Livrou de mandar pra o Arsenal de Marinha, no Curre, feito o outro, Simão, de dezesseis anos pra mais, e que dele não se sabia se ainda era vivo, morto ou se ganhou o mundo. Nos momentos em que o pai se danava a tossir e escarrar sangue, o menino corria no saco e vinha de lá trazendo uns panos pra limpar.

Miguel Furtado Bacellar passou demorado pelo acampamento de palha naquele meio de mato. Veio tomar pé dos serviços. Os homens ficaram se olhando e esperando as ordens pra continuarem o serviço. Onofre, rapaz solteiro, vindo do Perypery, estava inquieto. Havia deixado a mãe viúva e duas irmãs. O que recebia era guardado pra fazer uma casinha no Bebedouro, em Parnaíba, terra onde pra ele, corria muito dinheiro. Ao seu lado estava Anísio, vindo de João Peres, Maranhão, casado há uns cinco anos com Maria do Livramento, uns dois anos, na Tutoia. Quando se embriagava se punha a cobrir a mulher de nome feio e lhe cobrava ciúmes.

Honorato, como sempre estava um pouco afastado. Caboclo de uns quarenta anos, baixo, sisudo, arredio, entroncado. Diziam que era do Maranhão, São Bernardo, e de lá estava fugido depois de ter matado um sujeito muito rico com uma mão de pilão e que vivia ameaçando sua família. Criava um cachorro, chamado Peixe, com quem andava pra cima e pra baixo, até dormindo com ele e ali de longe ouvia e via o movimento e as conversas do engenheiro e seus auxiliares.

Perto dos outros e sentado num tronco grande de sabiá, estava Pedro Ernestino, um negro retinto, vindo de Igarassu, no Pernambuco. Tinha as mãos grandes, peito largo, um dente de outro na frente e uma cicatriz no cano do braço. Alto e desconfiado com tudo, andava armado de faca no cós da calça encardida. Era, dizia, pra acalmar quem bulisse com ele. Já havia estado pelo Amazonas e pelo Pará, de onde saiu corrido só com a roupa do corpo. Miguel Furtado Bacellar entrou e ficou frente a frente com o velho Eleutério, quase cego de um olho, de pouco mais de cinquenta anos e mascador de quina. Em respeito pela idade o engenheiro, de pouco mais de quarenta anos, lhe apertou a mão e bateu de leve em seu ombro.

O mais velho do acampamento estava acompanhado dos dois filhos, João e Pedro, seus meninos, como dizia. Os meninos de seu Eleutério passavam o tempo de serviço de derrubar o mato entre a Parnaíba e Amarração, cantando embolada. Um dizia uma trova e o outro respondia na mesma pisada! Eram a alegria daqueles homens rudes, famintos e com sede, nus da cintura pra cima e armados de foices, facões, machados, se defendendo de sezão, toda sorte de doenças. Aquela teimosia de Miguel Furtado Bacellar, que coisa mais sem sentido! Meses, dias sob o sol e a chuva, espantando mosquitos, mordidos por marimbondos e abelhas, comendo feijão com carne salgada e farinha seca, angu de milho.

Homens que passavam semanas e meses longe de suas famílias. E aquelas três malditas léguas entre a Parnaíba e Amarração, naquela mata perigosa, a ponte de ferro vindo da Inglaterra pra ser montada no rio Portinho, onde morreram dois homens afogados e que ninguém deu conta.  E ali perto alguns desses homens já fazendo casas de taipas no caminho da linha de ferro, na altura do Buraco dos Guaribas e mais pra cima, entrando de Macacal pra dentro. Aquele serviço que, ao que parecia, nunca teria fim! 

Naquele dia de setembro de 1916 o acampamento dos cassacos nos serviços de mato na Estrada de Ferro Central do Piauí, estava entristecido. Silício, um companheiro, de uns trinta anos de idade, vindo de Piracuruca, morreu se esvaindo em sangue depois de ser mordido por uma cobra. Era um dos poucos que sabia ler, escrever e assinar o nome. Quando estavam descansando, ele se punha a escrever no chão com um graveto, fazendo cálculos de quanto tinha em dinheiro. Agora estava morto.

Não teve masca de fumo ou outras beberagens que dessem jeito. Ainda tentaram levar em lombo de um burro pra Santa Casa de Misericórdia, mas o veneno foi mais rápido. Morreu babando e com a língua de fora. Pedro, filho de Olinto, o ainda menino, ficou olhando tudo aquilo, mas agora não podia ter medo. Horas depois estava brincando com a cobra morta pelos cassacos. Aquela morte de Silício foi uma comoção entre aqueles homens. O corpo foi enterrado ali mesmo.

Nos seus pertences foram encontradas duas mudas de roupas, uma navalha, um pão de sabão, uma caderneta com anotações dos dias trabalhados e uma quantia em dinheiro. O encarregado saiu perguntando sobre quem sabia de algum parente dele em Parnaíba. Era de Piracuruca. O dinheiro recolhido entre suas coisas foi levado pra ser guardado no escritório e depois levado pra sua terra.  Entre os homens agora voltando à calma e ao serviço, ficou silenciosa aquela pergunta nos olhos de, quando aquilo, aquela obra iria acabar.               

REFLEXÕES SOBRE A VIDA

Fonte: Google



REFLEXÕES SOBRE A VIDA

Bem-Hur Sampaio
Parnaibano, bacharel em Economia, funcionário aposentado do Banco do Brasil

Certo dia durante o recolhimento em minha residência, por ocasião da quarentena que eu e minha esposa estamos cumprindo por conta do Covid-19, espontaneamente comecei a divagar sobre a existência humana.

Devo esclarecer que as reflexões que me ocorreram naquele dia sobre a vida foram, em sua essência, à luz da Doutrina Espírita. Gostaria de adiantar que, embora sendo de berço católico e atualmente seguidor do kardecismo, respeito todos os credos religiosos.

Comecei a ver como nossa vida pode ser comparada a um livro, onde Deus é o autor e nós os protagonistas da obra. Ao criar a obra Ele, assim como todo pai, deseja um final feliz para seus filhos.

Graças à sua bondade infinita Ele, embora detenha o controle sobre o enredo do livro, dá-nos o livre arbítrio das ações que comporão o “script” da obra. Mas, como assim? Sim, Ele pode a qualquer instante interromper a obra. Não sabemos o que o destino nos reserva, mas sabemos  que um dia e a qualquer hora nossa existência terá um fim.

Pois bem, temos a oportunidade de tornar os capítulos do livro das nossas  vidas mais interessantes, cheios de emoções e realizações. Valores capitaneados pelo Amor, como a gentileza, amizade, tolerância, generosidade, trabalho e caridade, dentre tantos outros, tornarão o livro inesquecível.

Temos o protagonismo nas mãos, mas dependeremos dos fatos e das personagens que se entrelaçarão ao longo da trama, o que tornará o livro mais instigante. Ao longo da nossa jornada, algumas personagens deixarão de nos fazer companhia e outras serão incorporadas,  proporcionando-nos múltiplos aprendizados.

Como é bom termos  a certeza de que estaremos vigiados e protegidos por Ele nos momentos de dúvidas, tropeços  e demais dificuldades da vida. Isso nos tornará mais fortes, esperançosos e confiantes num epílogo feliz.

Quão compensadora será a sensação de deixar como legado um livro que servirá de inspiração para outras pessoas!   

MINHA CASA, MEU MUNDO


Fonte: Google


MINHA CASA, MEU MUNDO

Everardo de Oliveira-Parnaíba-PI
Cel. PM-PI

Nesse período coroniano a vida segue. Acordo cedo, faço as orações de rotina e a primeira refeição do dia; começo com as minhas reflexões e vejo o checklist dos afazeres para deixar a casa em ordem. Abro o WhatsApp e vejo uma mensagem: “Após uma semana de quarentena, esposa acha que o marido é gente boa”, minha nossa, ironia ou não, mas achei como a nossa sociedade estava dispersa, a família não sem encontrava mais em casa, principalmente nos horários das refeições, como faziam nossos ancestrais.

E pensava eu que já tinha visto muitas coisas com meus cinquenta e poucos anos, mas percebi que nada tinha, nunca havia testemunhado tanta caridade, solidariedade e paradoxos nesse velho mundo: logo de início onde moro, avisos nos elevadores em que condôminos se colocam a disposição de vizinhos idosos e/ou com dificuldades de locomoção para fazer algumas compras e outras atividades, que em outros momentos até fingem estarem ao celular para não cumprimentar o vizinho no elevador; a Rússia levando equipamentos de proteção individual para os EUA, quem poderia imaginar uma cena dessa? A entrada da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, sendo higienizadas três vezes por semana; em São Paulo, na favela de Paraisópolis, cestas básicas sendo distribuídas e pessoas sendo cuidadas em domicílio; na França, um dos povos mais civilizados do mundo, no entanto agora brigando por comida em supermercados; em Teresina, os moradores de ruas sendo colocados em abrigos (Verdão) para serem  cuidados, que muitas vezes são tão esquecidos ou até mesmos invisíveis aos nossos olhos; e os ricos sendo atendidos pelo SUS e outros até morrendo por conta desse mal.

Já sabia que a morte era democrática, mas nem tanto assim, um plebeu como eu correr tanto risco com o “corona vírus” quanto à Rainha e Príncipe da Inglaterra, o Papa e o Presidente dos EUA, seria quase impossível isso acontecer...E se o “covid 19” estivesse somente na região pobre do planeta, na América do Sul ou no continente Africano? Oh meu Deus, como seria: os ricos desses países viajando para praias paradisíacas dos EUA, outros visitando a Torre Eiffel em Paris ou até mesmo na Quinta Avenida em New York, para fazer compras; os milionários, com suas lindas famílias, em seus jatinhos rasgando os céus para irem para algum lugar seguro no outro lado do mundo e enviando mensagens para nós mortais aqui nas Terras de Cabral, que estariam lamentando tudo isso. Mas Deus é justo e bom e não quis assim, todos são iguais perante às leis Dele.

E com esses meus vinte e três dias de isolamento social, pelo menos uma mudança já tive, sai de samango para ter as madeixas do Rei Roberto Carlos, transportando-me aos primórdios, deslocando-me das cavernas da Serra da Capivara em São Raimundo Nonato para as cercanias para pegar alimentos no Mercado do Mafuá, como se estivesse caçando como minha velha lança e meu tacape.

Por isso, o mundo não será mais o mesmo depois desse vírus, o orgulho e a vaidade serão carcomidos nessa batalha mundial. Sem dúvidas, os teólogos têm razão, quando dizem que dentro de cada ser há uma centelha divina, basta aquecer para que ela acenda.  Estou como um navegante da Barca de Noé, herói bíblico, e apenas esperando que as águas baixem e um pombo traga um galho seco nos pés como prova que não haja mais riscos para eu voltar para casa. E que, Deus na sua infinita bondade e misericórdia sempre esteja conosco, e que isso não é ainda o fim, concordando com o Poeta Elmar Carvalho, quando ele diz: “Mas essa pandemia, suponho, é apenas um “cascudo” ou cocre, apenas uma forte admoestação. Talvez, caso não aprendamos a lição, uma segunda onda venha com uma letalidade muito maior”.  

segunda-feira, 13 de abril de 2020

DIÁRIO - 13/04/2020



DIÁRIO
[Homo deus e nenhum tempo para Deus]

Elmar Carvalho

13/04/2020


             Logo de início, quero deixar bem claro que não desejo dar ao registro de hoje nenhuma conotação religiosa e apocalíptica ou escatológica. Pretendo apenas fazer algumas observações e constatações de forma muito sintética, referentes às últimas quatro décadas. Não irei julgar ninguém e tampouco irei dar lições de moral a quem quer que seja; deixarei que o leitor, se o quiser, se dê a esse mister.

            De muito tempo a essa parte, o marido e a mulher são empregados, com as exceções que sempre existem. Em consequência, os filhos são cuidados e educados pelos avós, pelas creches, pelas escolas, por empregadas, cuidadores, parentes ou são criados “soltos”. Não sei como são aplicadas as instruções morais, éticas, religiosas e como é feita a disciplina e o estabelecimento de limites. Noto que a intolerância, o uso de drogas e os crimes têm aumentado bastante nas últimas décadas.

            As músicas e as letras dos dias atuais, em sua maioria, são um “espanto” e um escárnio, e muitas fazem apologia ao sexo pelo sexo, às bebedeiras, ao culto ao corpo, sobretudo às bundinhas grandes e malhadas, subindo e descendo em frenético rebolado, e às outras formas de hedonismo. As pessoas, na quase totalidade, desde que acordam, ficam agarradas aos aparelhos eletrônicos, tais como televisão, rádio, celulares, aparelhos de som e de jogos... Acho que poucos oram, e quando o fazem é de forma apressada e mecânica.

            No trânsito, predominava a pressa e a intolerância. Imperava a inquietação dos que não tinham tempo, e que agora se quedam em casa, com todo tempo do mundo, reféns de seu próprio medo, mascarados de uma espécie de carnaval esdrúxulo e extemporâneo. O cometimento de crimes por motivos egoísticos, como vinganças, estupros, latrocínios, furtos e assaltos, ganharam proporções assombrosas, e parece que aumentam a cada momento. Grassam o gigantismo do ter e o raquitismo do ser. Segundo Lao-Tsé “Não há pecado maior / Do que o excesso da ganância”. O culto ao luxo, às joias caras, ao dinheiro e à gula parece adquirir mais adeptos a cada minuto.

A cortesia, a bondade e a caridade vão perdendo espaço, embora com notáveis exceções, enquanto os shoppings, os bares, os restaurantes e as academias de malhação vão ganhando novos frequentadores. Os templos do consumismo vão prosperando, e os de verdade, minguando. E como faz falta o Profeta Gentileza e o seu grande estandarte, em que eram listadas as virtudes de sua pregação.

Deixo que o leitor medite sobre a questão das drogas, lícitas ou ilícitas. Muitos não conseguem viver em paz sem o uso de medicamento, e outros só dormem sob o efeito de soníferos. Poucos conseguem viver em silêncio ou fazer alguma meditação. Sempre, sempre e sempre um aparelho eletrônico tem de estar ligado.

Muitos se achavam imprescindíveis e poderosos, senão mesmo insubstituíveis. Anoto que os cemitérios estão cheios de insubstituíveis e valentões. Vem crescendo o número dos que orgulhosamente se proclamam ateus. Parece que os cientistas, hoje, têm vergonha de se declararem crentes em um Ser Supremo. Neste ponto, sigo Einstein, que proclamou: “Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é que tudo é um milagre. Eu acredito nessa última”. Aliás, alguns desconfiam que são deuses, ao passo que muitos outros têm certeza. Não é por acaso que o Homo Deus é um dos livros mais vendidos. Ocorre que o homem está muito, mas muito mesmo, infinitamente distante de ser Deus.

Da televisão e dos jornais o sangue jorra aos borbotões. A maioria dos programas noticiosos são feitos apenas de notícias sensacionalistas, e quanto mais sangrentas, melhores. Pequeno espaço é reservado para a arte e a cultura. A literatura, a pintura, a escultura, a dança, o teatro pouco ou nada são divulgados. Quando o fazem, é apenas para uma música de gosto duvidoso (ou de nenhum gosto ou simples mau-gosto), a que já fiz referência. O altruísmo e a generosidade, que ainda existem, não são noticiados, ao menos para que sirvam de estímulo e de exemplo. Peço perdão se cometi algum exagero ou injustiça.

Aí, de repente, um invisível vírus, um “virusinho” de nada fez grande parte da humanidade entrar em férias coletivas, através das quarentenas em todos os continentes e países, tirando todo mundo de seu nicho ou zona de conforto. Não irei falar nas consequências econômicas. Sei que os acidentes de trânsito e a poluição diminuíram. Os poderosos, imprescindíveis e insubstituíveis puderam descansar em suas casas, ou estão em leitos de hospitais. Espero que reflitamos e nos tornemos melhores, quando sairmos do distanciamento social. Não disse voltarmos à nossa rotina, porque desejo que criemos novas e melhores práticas e costumes.

Deixo a seguinte pergunta e advertência: e se no futuro vier um vírus mais contagioso e mais letal?

E mais esta: e se vier “apenas” um simples vírus de computador, mas que apague todos os sistemas, todos os programas, todos os sites governamentais e particulares, todas as redes sociais, de tal sorte que ficássemos somente com uma tela em branco, ou nem mesmo isso?

Como dizia o padre Raimundo José Airemoraes Soares (1933), grande erudito e poliglota, professor da UFPI e membro da Academia Piauiense de Letras, pelas “ondas sonoras” da rádio Pioneira, em seu programa A  cidade medita: “Medita, cidade!” Faça a sua reflexão, e tire as suas próprias conclusões, amigo leitor.