quinta-feira, 19 de junho de 2014

TEMPOS RIBEIRENSES

Benedito Guimarães, Miguel Carvalho, Elson Antunes, Elmar Carvalho, Barbosa e Aníbal Carvalho, na solenidade de instalação da Fundação Leôncio Medeiros


TEMPOS RIBEIRENSES (*)

Elmar Carvalho

No último dia de fevereiro de 2000, tomei posse como titular da Comarca de Ribeiro Gonçalves, e no mesmo dia retornei a Teresina, em virtude de minhas férias que teriam início em março.

Já nessa primeira viagem, da tela panorâmica da janela de um velho ônibus empoeirado, comecei a observar com muita atenção a paisagem das plagas ribeirenses, tão diferentes dos tabuleiros e descampados, ornados da graciosidade dos talhes esbeltos das dançantes carnaubeiras de minha Campo Maior, dos vastos campos maiores. Via os pequizeiros e os característicos “folhas largas”, de escura e grossa casca rugosa. Contemplava o azul distante das serras a contrastarem com o azul do céu e com o verde do cerrado.



Ao assumir os serviços de minha judicatura, procurei cumprir com zelo, esforço e dedicação as minhas funções, e, sobretudo, com imparcialidade. Os que conheceram o meu trabalho reconhecem esse meu esforço. Sempre busquei ser o melhor juiz que a minha capacidade de trabalho, discernimento, inteligência e limitações pudessem alcançar. Fiz o que, nas circunstâncias e condições oferecidas, me foi possível fazer.

Vários textos de minha autoria, tanto em verso como em prosa, foram concebidos nas viagens entre esta cidade e Teresina, pois enquanto contemplava a paisagem, os bandos de periquitos, a corrida das emas e seriemas e eventualmente outros animais, alados ou não, a minha imaginação muitas vezes entrava em ebulição, em que esses textos, prosaicos ou poéticos, foram gerados.

Observando a paisagem e os animais, bem como as estrelas e as nebulosas, quando a noite aniquilava tudo o mais, foi cometido o meu poema Viagem, que também nasceu nas vezes em que eu ficava na praça principal de Uruçuí, sozinho em um banco, a contemplar o lusco-fusco e o surgimento tímido das estrelas. Esse poema é na verdade uma oração ao Supremo Arquiteto do Universo. O meu poema Canção pastoril de um urbanoide decaído começou mesmo a ser elaborado nessa última cidade, utilizando-me de um lenço de papel oferecido por uma lanchonete da rodoviária.



Por longos anos almejei escrever um poema sobre a chuva, com suas enxurradas e trovões. Esse poema explodiu em meu cérebro num dia chuvoso em que cheguei à agência do Sr. Aarão, em Ribeiro Gonçalves. Como eu desconfiasse de que o aguaceiro não pararia tão cedo, fui a pé, debaixo de chuva, encharcado nos ossos e na alma, dessa parada até o fórum, afagado e quase afogado pelos pingos tão frios. Choveu durante toda a semana, de modo que o meu poema Chuva foi feito, literalmente, debaixo de chuva.

O meu texto A ilha do sonho e do encanto, misto de crônica e conto, nasceu de um sonho que tive dentro do ônibus, quando seguia para minha Comarca, e que terminou abruptamente, no momento em que acordei sobressaltado com um forte solavanco provocado por uma cratera da estrada. É um tanto surreal, mas a realidade, às vezes, é mais surpreendente e onírica do que o próprio surrealismo.

No meu período ribeirense, observando a grande quantidade de carroças existentes em Uruçuí, tracionadas por jumento ou burro, resolvi escrever uma crônica sobre jumento, como era um antigo desejo meu. Fui coadjuvado pelo irmão Elson, que me narrou a história pitoresca e engraçada do fabuloso jegue Pimenta, que, pelo visto, era uma legítima pimenta malagueta e jamais de cheiro.



Nesses tempos ribeirenses, gostava de acompanhar, nas horas de folga, da porta do fórum ou do seu pátio, o voo majestoso e aristocrático dos urubus, suas evoluções graciosas de perfeitos dançarinos aéreos, seu balé irretocável, tendo como teatro a amplidão dos ares e como cenário o azul do céu e o branco das nuvens, e gostava de vê-los pousados em um frondoso e colossal angico branco, que ficava um pouco à esquerda do meu campo de visão, fincado na encosta do morro em frente, em que as casas se dependuravam em hábil e elegante malabarismo. Por isso, quando mataram, de forma estúpida e cruel, uma grande quantidade dessas aves, em Teresina, elaborei, entre aquela cidade e Ribeiro Gonçalves, uma crônica em que vergastei essa chacina monstruosa.

Durante meus quatro anos de Ribeiro Gonçalves, frequentei, com relativa assiduidade, a Loja Maçônica Celso Antunes. Dessa loja maçônica são assíduos frequentadores os poderosos irmãos Elson Antunes, seu atual venerável, irmão de coração de ouro de muitos quilates; Aníbal Carvalho, árvore frondosa, de densa sombra e suculentos e doces frutos, erudito e tribuno inspirado e admirável; Francisco Modesto Barbosa, modesto apenas no nome, mas um gigante na capacidade de trabalho; Joel, pedreiro também na vida profana, a desbastar a pedra bruta que todos nós carregamos; Tenente Wilson, inteligente e espirituoso, a forjar piadas no “repente” do improviso; José Pinto, cordato, entretanto um verdadeiro carcará da maçonaria, a defendê-la com denodo e garra, mas sempre com elevação; Hugo Torres, advogado acirrado e inteligente, empresário, ex-venerável, em cuja gestão foi iniciada a construção do templo físico da maçonaria, posto que o espiritual já existe e é admirável; Ubiratan Ribeiro, que vem se revelando como um maçom dedicado e zeloso, assim como seu filho, Marcos; Joveraldo, sempre preocupado com o seu aperfeiçoamento maçônico, na busca incessante do polimento da pedra, e também com o crescimento da loja, cioso de seus deveres na vida profana. Completando a constelação de maçons vontadosos e dignos, cito ainda Otoni, Gilmar, José Ricardo, Arenaldo, Tomaz, Arimatéia e Cícero. De já peço desculpas por alguma involuntária omissão. Além de mim, maçom que precisa e muito desbastar a pedra bruta, eram maçons visitantes os estudiosos, assíduos e de amplos conhecimentos iniciáticos, verdadeiros mestres e paradigmas de todos nós, os irmãos Antônio Carlos e Ulisses, que exerceram sucessivamente a gerência do Banco do Brasil, dinamizando-a e expandindo-a.

O tenente Wilson sempre era o mocinho, nos episódios anedóticos de que era o protagonista e herói vitorioso. Somente num caso que me contaram, pelo menos na versão contada, o tenente levou a pior. Estava ele muito preocupado sobre se ia chover, como todo nordestino que se preza, quando apareceu uma pessoa vinda de uma localidade rural. Imediatamente o tenente perguntou-lhe se choveria, ao que essa pessoa respondeu, sem titubear: “Ô, Wilson, eu venho é da Bacaba, não é do céu, não!” O tenente ficou perplexo, boquiaberto, sem uma resposta pronta, como era de seu estilo bem humorado.

Tive a subida honra de ter o meu poema Mística transcrito em uma bela placa, que será afixada no templo maçônico, em fase terminal de construção, por iniciativa do então venerável Hugo Torres, e que teve o respaldo posterior do atual venerável Elson e dos demais irmãos.


Antiga sede em casa alugada. Hoje a Loja tem prédio próprio

Nesses tempos ribeirenses, participei de alguns eventos culturais, literários, maçônicos e cívicos, tendo tido a oportunidade de lançar livro de minha autoria, bem como participar do lançamento de outros livros, no caso do escritor e historiador Adrião Neto, cujo evento articulei, com o apoio da maçonaria e da prefeitura. Nesses eventos discursei e entoei versos de minha autoria. Pude pregar o bem, o bom e o belo, que devem ser o desiderato de nossa vida.

Durante minha serventia, a quantidade de processos aumentou muito, com o crescimento dos projetos agrícolas, com a valorização da terra, com as relações comerciais motivadas pela crescente produção de soja. Na verdade, foi uma conseqüência natural do progresso e do desenvolvimento econômico da região.




Para mim foi uma honra servir nesta Comarca onde serviram o grande escritor, ficcionista, folclorista e paremiologista Fontes Ibiapina, juiz digno, honesto, honrado e humilde no trato pessoal, também professor competente, que tive o gáudio de conhecer em Parnaíba, onde exerceu a judicatura literária no jornal Folha do Litoral, e o excelso poeta Júlio Antônio Martins Vieira, célebre e celebrado autor do épico Canto da Terra Mártire, que foi por largos anos emérito professor. Não podendo sugerir o nome de Fontes Ibiapina, que já era patrono do fórum de Cocal, sugeri o nome do poeta, professor e magistrado Júlio Antônio Martins Vieira, através da douta corregedoria de Justiça, na gestão do Des. Osíris Neves de Melo Filho, para que fosse dado ao fórum de Ribeiro Gonçalves o seu nome honrado, cujo nome fora aprovado, por unanimidade, em reunião que convoquei, com a presença do prefeito João Antunes, de representantes da Câmara Municipal e da maçonaria, e de outros segmentos da sociedade. A sugestão foi acolhida, também a unanimidade, pelo Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Piauí.




Eram advogados residentes na Comarca os ilustres doutores Hugo Torres e Benedito Martins Guimarães. Com o primeiro, fiz um passeio na lancha “voadora” do Carlão (Carlos Alberto), venerável da loja maçônica e gerente do Banco do Brasil, que, logo que cheguei para assumir meu cargo, fora promovido para a agência de Picos. Nesse passeio pude ver toda a beleza das margens preservadas do Parnaíba, o imortal “velho monge” do poeta Da Costa e Silva, refertas de verdejantes árvores que se debruçavam sobre o leito do rio, nas quais saltitavam inquietos e simpáticos macacos e as graciosas aves dos cerrados, com seus cantos maviosos. Paramos no remanso de uma pequena ilha paradisíaca, de areias brancas, macias, quase flocos de diáfanas nuvens. Pescamos, digo, o doutor Hugo pescou à sombra de imponente e copada mangueira. Pescou alguns peixes, pequenos é verdade, mas pescou. Não é estória de pescador, não: meninos, eu vi – como asseveraria o poeta Gonçalves Dias. Comemos numa casa de um ribeirinho, num recinto de chão batido, que era também uma rústica sala de aula, cuja professora era a dona da casa. Ali havia um menino, de seus oito anos, que me olhava de vez em quando, com curiosidade, talvez com o imaginário aguçado por estar vendo um juiz em carne e osso, no mister prosaico de comer uma frugal, mas saborosa refeição. Depois, eu soube que o menino comentou, quando o prefeito João Antunes esteve nessa casa, que eu não era como um certo morador da redondeza, que comia uma verdadeira montanha de carne, feijão e arroz, com rápida e admirável voracidade; que eu fazia um prato pequeno, comia devagar e mastigava bem o alimento. Apenas, teve a franqueza infantil de acrescentar que eu deglutira quatro pratos! De qualquer sorte, me elogiou, ao dizer que desejava proceder como eu fizera...



Na minha judicatura nesta circunscrição judicial, fui ajudado, com muita dedicação e boa-vontade, por todos os servidores, que se excederam em esforço e zelo, entre os quais recordo os nomes de dona Conceição, Nilza, Barbosa, Márcia e Toinha, além de dona Marilene, uma espécie de assessora para assuntos aleatórios.

Casa em que se hospedava o saudoso Dr. Benedito Guimarães

Como já falei, o Dr. Benedito Martins Guimarães, ótima e agradável pessoa, com sua cabeleira muito branca, aparentando macios flocos de algodão, era um advogado residente na Comarca. Digo residente na Comarca porque ele se hospedava com o seu sogro, logo no outro lado do rio Parnaíba, numa casa antiga, em cuja frente se erguia uma majestosa árvore, parece-me que amazônica, senão na origem pelo menos no tamanho gigantesco, ao lado de um morro, em cujo cimo se enxergava um abrigo para os bodes. Conversávamos muito, algumas vezes, quando o Dr. Benedito desfiava os seus “causos” pitorescos e engraçados, ou quando debulhava o rosário de suas lembranças, algumas remontando a sua infância. Numa de suas peraltices, foi, literalmente, capar um felino, com uma linha, mas terminou estripando-o, quando suas vísceras foram se desenrolando como um novelo de meada. Uma vez, por um ato falho, chamei o Dr. Benedito de Expedito. Ele me corrigiu, em sua maneira lhana. Respondi-lhe que ele era esperto e ligeiro, e que, por conseguinte, era também Expedito, já que o santo desse nome era exatamente o defensor das causas urgentes. Certa feita, eu e o Dr. Afonso Aroldo fomos convidados por ele para um passeio em sua chalana, pelas barbas aquosas do “velho monge”, com destino a uma de suas propriedades, onde iríamos degustar um bode. Quando chegamos ao ponto de embarque o Dr. Benedito já nos esperava, em companhia do piloto e do “berrante” que iríamos almoçar. Esse caprino desmoralizou o ditado que afirma bode embarcado berrar muito. O bode comportou-se como um lorde. Não esperneou, não berrou e morreu contrito e silencioso como um mártir. Nunca vi caprino mais educado e estoico.



Sem dúvida, atuei, em Ribeiro Gonçalves, em muitas causas importantes e de alta complexidade, como provam várias de minhas sentenças. Entretanto, gostaria de comentar três casos humildes e simples, mas pitorescos e quase anedóticos, revestidos de uma certa dose de humor. Num deles, uma família questionava uma casa. A mãe e as filhas contra o pai. Como ambas as partes fossem paupérrimas e nada mais possuíssem, decidi-me por fazer uma justiça um tanto salomônica, e determinei que o oficial de justiça Barbosa, que na verdade era um “faz-tudo”, inclusive sendo uma espécie de arquiteto prático, promovesse a divisão da casa, da maneira mais funcional e menos danosa, traçando a linha divisória, em que uma das partes ocuparia um lado e a outra parte ficasse, obviamente, do outro lado. A decisão deu certo, pois nunca mais fui procurado por nenhuma pessoa dessa família. Em outra causa, foram discutidas umas bananas. Ora, banana sempre foi tida e havida como algo sem valor, tanto que se fala pejorativamente em preço de banana, em república de banana, em sujeito banana. Nesse episódio, uma mulher destruiu uma pequena plantação de bananeiras, na margem de um rio, alegando ali ser o porto de sua canoa. A vítima ingressou com uma ação indenizatória. Em minha decisão mandei que o serventuário, com a ajuda de um técnico agrícola, fizesse o cálculo de quantas bananas a plantação produziria, e o preço, pelo valor corrente no mercado, total dessas frutas, cuja importância seria acrescida de 20%, a título de multa “pedagógica”.

O advogado do requerente ingressou com embargos declaratórios, alegando que eu omitira vários serviços e despesas feitas pelo seu constituinte. Respondi – declarando a sentença – que se o objetivo do requerente era a produção das bananas e se mediante cálculo eu mandei que estas fossem indenizadas, ainda com o acréscimo da multa, não necessitaria falar em despesas, já que a finalidade dessas era a referida produção. O decisum alcançou o seu desiderato, vez que não houve recurso. O último caso curioso que desejo mostrar é o seguinte: um rapaz fez sua casa perto da residência de uma sua parenta, em terreno desta, sem cerca divisória. Depois de algum tempo, a parenta se agastou com a vizinhança, já não me recordo por qual motivo. Essa senhora se mostrava irredutível e intransigente no desejo de afastar o parente. Apareceu-me o Pedro Trolete, me afirmando que já contribuíra para evitar pendengas judiciais, apaziguando os desafetos, e que se comparecesse à audiência de conciliação resolveria o problema, com uma proposta que faria, apesar de não ser parte. Não obstante a oposição ministerial, permiti sua participação, pois o que me interessava era a solução do conflito, e não o apego a um formalismo a meu ver desnecessário naquele caso e circunstância. O Pedro propôs ajudar o rapaz a construir outra casa, em um mês, em terreno seu. Essa proposta foi aceita pelas partes. Pedro, que não era pedra, mas diamante sem jaça, cumpriu a promessa e o conflito foi solucionado, que é o que interessa à Justiça.

Durante minha estada nesta Comarca, foram representantes do Ministério Público os doutores: Maciel, conhecido como o promotor cantor, pois além de cantor é ainda hábil compositor, já tendo lançado mais de um cd com as suas belas melodias; muito preocupado com questão de saúde, tendo muita cautela com alimento e mudança de temperatura, principalmente por força de ar condicionado, dele dizia, brincando, o doutor Almir, meu antecessor, que ele deveria viver numa “bolha”; sei que vivia no mundo da realidade dos autos e no mundo encantado da música. Afonso Aroldo, um tanto tímido, de natureza humilde, mas um gigante para o trabalho, pois, acumulando mais de uma comarca, muitas vezes o vi varar as madrugadas, debruçado sobre os autos e a digitar os teclados do computador, quase se extenuando no cumprimento do dever. Araína Cesárea, muito preparada, inteligente e de largo conhecimento teórico, igualmente ciosa de seus deveres e prerrogativas funcionais. Com todos eles tive saudável convivência, sem nenhum tipo de animosidade ou exacerbamento de ego ou vaidade, que pudesse prejudicar a harmonia e interdependência que deve haver entre a magistratura e as atribuições ministeriais.

Tive, recentemente, a elevada honra de haver sido comunicado oficialmente, pelo ilustre amigo Adovaldo Medeiros, de ter sido eleito, por unanimidade, para membro honorário da Fundação Leôncio Medeiros, cujas finalidades são educativas, culturais e de promoção social. Essa honraria não alimentará a minha vaidade, mas será um forte estímulo para que eu procure fazer mais e melhor nas minhas áreas de atuação, sobretudo a literária, a que venho me dedicando por quase toda a minha vida, porquanto ela desabrochou em mim quando eu tinha dez anos de idade e até hoje me acompanha de forma incontrastável e determinada.



Pretendia somente deixar Ribeiro Gonçalves por motivo de promoção para uma outra entrância. Acometido de um CA, tive que fazer uma cirurgia (colectomia parcial) e tratamento de quimioterapia; por esse motivo, pleiteei uma remoção por merecimento para uma cidade mais próxima de Teresina, e a consegui, por unanimidade. As ciladas da vida e os desígnios de Deus são inelutáveis, e a eles nos devemos submeter sem relutância, aperfeiçoando nosso espírito com a resignação nobre, diferente do conformismo mesquinho dos que não sabem ou não querem lutar.

Carlos Drummond de Andrade disse que a sua Itabira era apenas uma fotografia pregada na parede, mas como doía. Manuel Bandeira afirmou que iam derrubar sua casa, mas que seu quarto ia ficar de pé, suspenso no ar. Alguém, de forma igualmente feliz, disse que trazia seu torrão natal tatuado na alma. O escritor piauiense Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, naturalmente da mesma família do epônimo desta cidade, dizia que, não podendo permanecer na sua Amarante, a trazia numa fotografia fixada na sala de sua casa.

Inspirando-me em todos eles, direi que trago a aprazível e bucólica Ribeiro Gonçalves no escrínio de minha memória, nos escaninhos das circunvoluções de meu cérebro, no relicário de minha alma e nas gavetas ventriculares de meu saudoso coração.

Miguel Carvalho e Elmar, na travessia de pontão entre Uruçuí e Benedito Leite

(*) Palestra proferida no dia 14.11.04, em Ribeiro Gonçalves, por ocasião da solenidade de instalação da Fundação Leôncio Medeiros, oportunidade em que tomei posse do cargo de membro honorário dessa entidade educativa, cultural e de promoção social.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Na onda da bola


Cunha e Silva Filho

Não vá  o leitor pensar  que sou um expert em futebol. Longe disso. Creio que o interesse pelo futebol no Brasil é algo entranhado como  o samba, o carnaval, as mulheres brasileiras.

Quando  adolescente,  lá em Teresina,  na Rua Arlindo Nogueira esquina com a São Pedro, tudo poderia ter sido diferente se, nas peladas, do lado da Arlindo Nogueira,  eu me saísse melhor nos chutes e nos dribles. "Qual nada!” Mamãe era a primeira a lembrar, tempos depois,  quando   já era adulto, que eu,  não aguentando o lado  mais  violento  do futebol, de repente saía  do jogo quase chorando  por ter levado alguma pancada mais forte na canela. Não gostei desse comentário de mamãe,  por que me expunha  aos risos  de colegas, amigos e  parentes. E eu não suportava  tais confidências. Mexia com os meu  brios de adolescente . mas deixemos isso pra lá que , do contrário,  iria transformar-se em  desabafos  à maneira de Graciliano  Ramos.

Há pouco,  fui chamado pela minha esposa para colocarmos a bandeira brasileira  na grade protetora da varanda do meu apartamento. O meu ato de escrita, pode se chamar com rigor, foi  uma pausa no tempo real  da narrativa, ou seja, o real se intrometeu  na crônica, o que  me faz lembrar daqueles  dois elementos da narrativa  - o interno e o externo -  componentes “dissociados,” expressão do crítico  Antonio Candido, que, segundo  este mesmo critico, se tornavam unificados  já que o externo (a realidade empírica, os fatores sociais, históricos,   biográficos etc) se tornava interno, quer dizer,  passa a fazer parte integral da  compreensão  estrutural  da  ficção, sem  os receios de subordinar-se ao interno ( a linguagem literária, "sistema semiótico  secundário",  a história inventada, as personagens,  o enredo,  o tempo, o espaço, os símbolos,  a imagem,   a metáfora, o ritmo,  os recursos retóricos, tão prezados  pelo pensamento  crítico formalista dos anos  setenta, oitenta do século passado

Depois dessa digressão cansativa ao leitor que espera alguma   fato  surpreendente, leve ou poético no gênero  da crônica,  quero-lhe dizer que há uma hora atrás estive   quase a dar uma volta nas pistas  de ciclistas do belo   Estádio do Maracanã – delícia dos  turistas nacionais e estrangeiros,  principalmente daqueles  tão  aficionados  ao futebol e desejosos de conhecer  o  mundialmente  famoso   estádio. Com um sol  forte pros dias de um mês mais geralmente  frio,  o estádio estava em festa,  com gente circulando por toda a parte externa daquele  “santuário" do futebol brasileiro.

O Maracanã está pronto,  por dentro e por fora, a fim de receber, no domingo duas seleções (deixe-me consultar a tabelinha da Copa do Mundo-20140. Ah, aqui está: no domingo, amanhã: Espanha e Chile. Não irei assistir ao jogo  in loco.  Verei pela TV. O receio é que amanhã possa haver manifestações contra a Copa, digo, contra os gastos  governamentais na construção de estádios ou em  reformas  de estádios. Fora outros  gastos derivados  das exigências da toda poderosa  FIFA. Esperemos que  tudo ocorra  bem dentro do Maracanã e fora dele.

Sou informado  pela TV que o Brasil  está melhor no que tange à vida dos brasileiros. Contudo, essa declaração  da imprensa   internacional  nunca espelha  a verdade mais  funda, i.e., a dos brasileiros  que tanto ainda sofrem  pelas graves  deficiências  já  tão conhecidas dos leitores. Continuam  morrendo pessoas por falta de assistência médica em toda a parte do país. Os transportes de massa  ainda precisam  dar conta da demanda crescente  das megalópoles.

A escola pública (estadual  e municipal –  é bom que lembremos  isso - , está ainda em baixa, tanto na valorização dos professores quanto  na eficácia dos ensino  oferecido. A violência sem freios, a impunidades que lhe é corolário  determinante,   o tráfico,  as drogas, as milícias,  a delinquência de menores e adultos  continuam  livres e fagueiras.

 Essa dimensão do país não pode ser  jogada debaixo do tapete, mas denunciada sempre e sempre aqui e fora de nossas fronteiras. E, last but not least,  a corrupção  da politicagem, que parece  não ter  fim. Esta imagem podre  do Brasil tem que ser levada em conta em  qualquer  análise da sociedade brasileira.

Não queremos um país dividido entre riquíssimos e  miseráveis, que ainda os há pelo Brasil afora.  O que não se pode suportar,  sem protestos   e indignação, é  passivamente ver   jornais ou  pesquisas de estatísticas   no exterior passarem uma imagem edulcorada de meu país. Só quem vive o dia-a-dia do povo brasileiro  pode avaliar  o que aqui se faz, como se faz e por que se faz. É preciso  ter vivência suficiente para   fazer-se uma estimativa  sobre as condições  e os vários aspectos da realidade nacional. O olhar do estrangeiro nem sempre  confirma  a experiência de nosso  quotidiano e de nossas mazelas  em todos os sentidos.


Não podemos   perder a onda da bola. Tentar decifrá-la é matéria  de quem  ama o país de verdade e não na limitada   forma de individualismo burguês refestelado,  bem nutrido, com  já afirmei alhures,  em poltronas macias,    alienante, hipócrita e  mistificador.

terça-feira, 17 de junho de 2014

NAS ASAS DE BRASÍLIA


Edmar Oliveira

Outra vez em Brasília. Desta feita para apresentar o meuTerra do Fogo ao planalto central. No Feitiço Mineiro, num programa duplo com Chico Salles lançando o seu cd com músicas do Sampaio. E Brasília recebeu a gente muito bem. No lançamento do livro, o Chiquinho, da livraria do Chico, um sertanejo de Picos que veio plantar livros na Universidade de Brasília, apresentou minhas letras, do que fiquei muito orgulhoso. Chiquinho é um personagem de um livro que conta a história da Universidade. Ele faz parte desta história e já foi entrevistado do Fantástico como um cultivador da cultura no planalto central do país.

Fui prestigiado pelo Nicolas Behr, o poeta que se confunde com a cidade que escolheu pra cantar. Ele ainda me presenteou com seu Brasília de A a Z, cidade-palavra que mapeia o território afetivo do planalto. Climério e Clodo me trouxeram um abraço que tomei como sendo também de Clésio, a trindade una do São Piauí. A poeta Noélia, atarantada como as quadras da cidade numérica, também me veio abraçar. Sua generosa irmã Fátima, que se chama “de Brasília” e Paulão, que nos batuques evoca o Liga Tripa, são amigos do peito. O também poeta e músico Léo Almeida e sua Josélia lá estavam. Graça Sousa, Nádia, Chico Alves, Dione, Pereirinha, Suzana, Naná, Chacal, Júlio e uma porção de amigos, que citando estes, sou injusto com aqueles. A Nação Piauí que a Raimundinha arrebanhou me fez uma presença especial. Fátima de Deus esteve neste como nos outros dois livros anteriores que apresentei a Brasília. Antônio José Medeiros, ex-secretário de cultura do Estado do Piauí e meu antigo professor das letras, me fez sentir importante. Maravilhosa foi a presença de um usuário da Saúde Mental de Brasília, que declarou acompanhar meu trabalho e veio atrás do meu primeiro livro “Ouvindo Vozes”. O esquecimento do seu nome me deixa endividado com a sua pessoa. Zé Mauro esteve de véspera e Paulo José chegou atrasado, mas veio.

Depois desse preâmbulo, o Chico Salles mandou ver, com músicos de Brasília, o som do Sérgio Samba Sampaio. Seu irmão Vicente e Conca faziam as honras da casa. E a plateia, surpreendentemente, cantava as letras das músicas escondidas do Sampaio. Ele que amou Brasília num blues que é a cara da cidade.

Denise, a viúva do Jorge Ferreira – o empresário da noite Planaltina –, ficou emocionada numa homenagem que lhe prestamos. Coincidentemente Jorge levou meu livro para tentar editar e conseguiu viabilizar um patrocínio para o cd do Chico. Apressado, como era, “queria ir pra Minas, errou o caminho e foi pro céu” nos versos de Climério e não chegou a ver o livro e o cd prontos. Tínhamos que lhe fazer uma justa homenagem no Feitiço, primeira casa do visionário que fez um Mercado Municipal numa cidade que nem município é. Mas Jorge era assim: “de tanto embebedar os poetas virou poeta também” (do poema citado).

Brasília nos foi gentil. E naquela noite voamos em suas asas. Cidade monumento. Segundo as profecias do poeta Nicolas Behr, “no turismo estelar, visitar as ruínas de Brasília é obrigatório para quem está de passagem pelo desabitado Planeta Terra”.   

domingo, 15 de junho de 2014

Seleta Piauiense - Hardi Filho


Esdrúxulo

Hardi Filho (1934)

A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.


O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.


Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio


De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.


Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.    

sábado, 14 de junho de 2014

VAIAS À PRESIDENTE DILMA


VAIAS À PRESIDENTE DILMA

Jacob Fortes

Durante o jogo de abertura da Copa do Mundo realizado no Itaquerão, SP, dia 12 de junho de 2014, viu-se a seleção brasileira ganhar da seleção da Croácia pelo placar de 3 a 1, apesar do pênalti irreal que o árbitro encontrou perdido dentro da sua imaginação. Tal circunstância, porém, não tirou os méritos da seleção canarinho. Viu-se, também, e ouviu-se entre o vozear da turba de torcedores, a presidente Dilma ser fortemente apupada e, principalmente, destratada desabridamente.

Assim como se tornou banal a violência que grassa pelo país afora, mais trivial ainda tornaram-se os xingamentos aos árbitros, aos jogadores, (ainda mais se negros forem) e, agora, a presidente da República.

Vaias, tão somente, expressam dissensões compreensíveis nos regimes democráticos, mas xingos sob a chancela da obscenidade é algo que fere o pudor, é prática que conspira contra as regras mais elementares do decoro. Essas cenas pesarosas fazem supor que os valores e sentimentos humanos vêm se degradando e se diluindo dia a dia. O episódio, aliás, conhecível da mandatária, enseja algumas perquirições: por que as pessoas se detêm nessa linguagem de baixo calão? Onde foram parar as famílias e as escolas que tinham o condão de modelar o caráter e o decoro da juventude? Por que já não existem nas escolas os decálogos cívicos? Por que foram suprimidas do currículo escolar as disciplinas Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira? Do que é feito a escola que fazia a infância frequentar as lições iniciáticas do catecismo e conhecer os postulados básicos da religião. Do que é feito a escola que fazia a criança cantar o Hino Nacional e reverenciar o hasteamento do Pavilhão antes do início das aulas? Do que é feito a escola que assegurava autoridade aos professores e conferia-lhes a toga com que podiam increpar os alunos? Afinal, onde está a raiz desse problema; uma miséria moral, que não para de crescer, responsável por um sem-fim de condutas discrepantes (que já não impactam como antigamente) protagonizadas por brasileiros, sobretudo os que habitam as metrópoles? Por que as escolas se descuidaram da cidadania, do civismo, da ética e priorizam devotamente a dimensão cognitiva, o conhecimento, a qualificação profissional?

Apesar de reprovável, o governo não pode fingir ignorar o significado do acintoso gesto de incivilidade: descontentamento de um povo disposto a externar o seu desgosto em qualquer fórum ou confessionário inclusive nos estádios. Melhor seria que o povo não precisasse vaiar, sequer xingar.   

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Lançamento de “Apontamentos Genealógicos da Família Nunes”


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento do livro “Apontamentos Genealógicos da Família Nunes”, de autoria do Acadêmico Reginaldo Miranda.
A obra será apresentada pelo Acadêmico Wilson Nunes Brandão.



Nelson Nery Costa
Presidente


Data: 14 de junho de 2014
Horário: 10 horas
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)

Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone/ Fax :(86) 3221 1566– CEP.: 64001-490 – Teresina-PI

NESTOR RIOS – A BONDADE ENCARNADA

João Batista Rios, filho de Nestor Rios

NESTOR RIOS – A BONDADE ENCARNADA

Elmar Carvalho

Conheci-o na agência da ECT de Parnaíba, vinte anos atrás. Apesar de não o ver há muitos anos, lembro-me dele sempre, e sempre como um homem bom e de bem. Ele é, por assim dizer, a encarnação da bondade, da bondade simples e natural e humilde, sem ostentação, mas também sem a dissimulação dos hipócritas e fariseus.

Não obstante sua humildade, sua modéstia natural, sua presença era um acontecimento em nosso local de trabalho, quando aparecia para recolher nossa pequenas contribuições financeiras, para os seus velhinhos, amparados pela sociedade dos Vicentinos, de que é membro assíduo e atuante, mesmo com a sua alongada idade. Como ele ficava feliz com os modestos donativos! Parecia haver recebido uma vultosa importância para si mesmo.

A sua bondade, sua lhaneza, sua alegria espontânea e sincera pareciam formar uma aura poderosa em torno de si, como a emoldurar o belo quadro de sua velhice digna e honrada, fazendo com que todos se sentissem bem ou melhor diante de sua pessoa. Talvez fosse um anjo sem a consciência de sua condição de ser angélico, e que por isso mesmo se locomovesse entre nós com tanta e natural simplicidade. Seu carisma era tanto que ficávamos felizes com o seu aparecimento ocasional em busca das esmolas para os seus velhinhos, e por isso dávamos como se estivéssemos recebendo.

Muitos anos depois descobri, através de minha mulher, que um amigo, o Dr. João Batista Rios, que lhe herdou a bondade e a simpatia, era seu filho. Prometi-lhe escrever uma crônica sobre seu pai, crônica aliás que pretendia fazer há muitos anos, mas que, inconscientemente, sempre adiava, talvez porque a personalidade bondosa e simples de Nestor Rios dela não precisasse, o que de fato é verdade.

Por intermédio do Dr. Batista Rios fiquei sabendo que o bom Nestor havia construído um conjunto de casinhas para os seus anciãos. Fiquei imaginando o mistério de como as irrisórias esmolas haviam-se transubstanciado naquelas casas, que acolhem, dando abrigo e amparo, os pobrezinhos. Fiquei imaginando qual o fermento milagroso que fizera crescer as esmolas nas mãos caridosas de Nestor Rios.

E a resposta é simples. É que Deus atua através de nós mesmos, de maneira sutil e suave, sem os alardes da mídia e da propaganda enganosa da falsa caridade.

Deus se manifestara em Nestor Rios, um anjo travestido em pele de ser humano.

(*) Nestor Rios nasceu em 29/03/1913, no município de Marco (CE), e faleceu em Parnaíba, em 9 de junho de 2014, em cuja cidade era radicado desde 1945. Portanto, viveu mais de um século. Era pai de meu amigo e magistrado Dr. João Batista Rios. Praticante da verdadeira caridade, fez parte do grupo dos Vicentinos de Parnaíba. Católico fervoroso, parecia envolvido por uma aura de bondade e vibrações positivas. Recebi a notícia através do amigo Antônio Gallas Pimental, também vicentino.   

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A ética dos trapaceiros


A ética dos trapaceiros

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Dá para gargalhar o episódio. O malandro rouba um automóvel e vai assaltar a farmácia. Regressa apressado com pacote de dinheiro. Tenta localizar o automóvel roubado. Outro ladrão havia levado o veículo. Assusta-se, desespera-se. Teme a chegada da polícia ou cacetadas e chutes da população. Tenta esconder o pacote. Um terceiro assaltante aparece e leva-lhe a grana. O cara de pau ousa dirigir-se à delegacia para denunciar os dois que o assaltaram. Encontra o proprietário da farmácia registrando o boletim de ocorrência, que o reconhece. Algemado, o malandro filosofa: “Delegado, será que eu não tenho direito de roubar para sustentar minha família?”
          O risível episódio de ladrão que rouba ladrão retrata não só uma consciência arruinada dos malandros comuns que infestam a periferia das cidades, mas de pessoas de todos os níveis sociais. Clientes que se aproveitam da balconista distraída para surrupiar produtos. Funcionários, especialmente dos serviços públicos, que inventam doenças e atestados médicos para fugir ao trabalho. Autoridades desleais nas licitações e prestação de contas e receitas.
          A etimologia diz tudo: TRAPACEIRO, termo de origem francesa, TRAPPA, cova para pegar a caça. Sentido figurado: contrato fraudulento. Quer outro? TAPEAÇÃO, do gótico TAPPA, isto é, TAPAR, esconder, calar, encobrir.
          No Brasil, abundam trapaceiros e tapeadores envergando terno e gravata, fala bonita, moralidade protegida com emplastro.
          Há muitas maneiras de trapacear e permanecer ético, driblando a própria consciência. Exemplo clássico encontra-se no livro Atos dos Apóstolos, escrito pelo médico e evangelista Lucas, contando episódios das primeiras comunidades cristãs. Naquela época, cristãos costumavam entregar suas ofertas aos apóstolos, que as distribuíam aos mais necessitados. O casal Ananias e Safira vendera uma propriedade e entregou a oferta a Pedro, mentindo e afirmando que se tratava da metade do dinheiro da venda. Resultado da história? Leia o capítulo 5 do livro. Trata-se de um pecado contra o espírito de Deus, que é só verdade: “Seja o vosso sim, se for sim; não, se for não”.

               Boa parte da história humana se disciplinou por diretrizes religiosas  que atuavam como monopólios na sociedade, com o controle assegurado do pensamento e da ação. Esta situação modifica-se nos tempos modernos com a afirmação da secularização e do pluralismo.  O traço característico desta nova situação é a perda da antiga segurança das estruturas religiosas  que garantiam a submissão de suas populações. Por um lado, há resultados positivos, que geraram paradigmas de condutas nas constituições dos países. Na contramão, o laicismo e iluminismo propagam, até hoje, conceitos de total liberdade de consciência, independente de tradicionais regras éticas e religiosa, como no trato da sexualidade. Tudo pende para o relativismo do “se me agrada, estou certo”. Por essa trilha moral, até assaltante tem suas razões para surrupiar o alheio, inclusive matar.   

terça-feira, 10 de junho de 2014

AURORA MENINEIRA


AURORA MENINEIRA

Jacob Fortes

Sobre o meu corpo e também nos meus modos já não existem sinais visíveis da minha origem: uma cabana, (escassa em mesa, farta em comunhão,) encravada no sopé de uma montanha situada na aba setentrional dos sertões de Euclides. O meu falar, genuinamente matuto, inerudito, afastou-se de mim, furtivamente, assim que percebeu minhas novas amizades: os livros. A minha roupa, empoeirada e fora do esquadro, também partiu; possivelmente envergonhada por ocupar, no guarda-roupas, um lugar que já não lhe pertencia. O meu gestual caipira, tímido, sem traquejo, cedeu lugar a outras formas espontâneas de expressão. As minhas feições, tão tenras quanto às de um botão em flor, com a consumação dos anos foram-se despetalando. Enfim, depois de toda essa metamorfose, em várias dimensões, os meus traços, marcantemente caipira, se desmancharam. Ainda que os distintivos exteriores que fiavam minha condição de roceiro tenham-se diluído, um após outro, a saudade da aurora menineira não desgrudou de mim. Ela, que tanto refresca quanto arde, tornou-se o sacrário das recordações pueris que calibram a minha alma. Cito apenas o desapressado ribeirão Longá, ladeando a montanha, onde eu tomava banho com os meus manos, e o vadiar pelos campos em busca da fruta encarnada, do cardeiro.

Ao meu sertão, não o de hoje, mas aquele, de carne e osso, – cujos habitantes pautavam a cura das suas enfermidades pelo ocultismo — e que tinha o condão de modelar o caráter e o decoro da sua gente, o meu agradecimento por haver-me ofertado uma infância lúdica. Infância que não sabia de onde vinha o que comia. Ainda bem que nessa quadra pubescente da vida fui poupado do aviso de que em certo momento acabaria a gratuidade da infância e começaria o tempo dos compromissos sérios dos adultos, sobretudo perante os padrões sociais ditados pelos citadinos. Nesse período em que durou a validade da infância pude me lambuzar; comum é o nordestino fazer-se homem sem ter sido criança.

Gostaria de detalhar ao leitor os efeitos da saudade dessa quadra de enlevo, porém não me ocorre o modo mais apropriado. Sendo assim, evoco ao céu o nome do gênio analfabeto, Zé da Luz, a quem peço por empréstimo as suas palavras, pois elas têm a medida certa para expressar o remastigar das recordações de uma aurora que foi a sementeira particular de felicidade no alvorecer da minha primavera.

Uma dô já rimuída,
Qui já cançou e num dói
Taliquá cumo as cumída
Qui os boi come e arrimói”

Dileto Sertão, se tu já não vês as tuas marcas em mim é porque elas estão do lado de dentro do meu peito. Mas saiba: nos confins da minha essência habita um caboclo que te devota, que se vê em ti, que faz de ti a sua canção preferida.   

segunda-feira, 9 de junho de 2014

domingo, 8 de junho de 2014

Seleta Piauiense - Francisco Miguel de Moura


Saudade oceânica

Francisco Miguel de Moura (1933)


Na partida, um oceano sem escolta
cala meu peito em descontentamento.
– Vais aonde – eu pergunto – onda revolta?
E ela me corta o coração por dentro.

Sou areia, sou rocha e, em meu tormento,
choro e declamo, e o fogo me devora;
qual vulcão que nos mostra o epicentro,
outro vulcão me nasce aqui por fora.

Na partida, eu prometo consolar-me
do vácuo que me tolhe. E, sem alarme,
no amor a Deus apenas me concentro.

Meu mundo é solidão, é só saudade
de quem levou minha tranqüilidade,
de quem partiu meu coração por dentro.    

sábado, 7 de junho de 2014

O Mundo e o Brasil: um páreo duro


Cunha e Silva Filho

1)     O MUNDO


           Fiquei perplexo com o que li na seção internacional da Folha de São Paulo de domingo  passado. O conteúdo  das notícias que li  me deixaram decepcionado. A esperança que tínhamos, nós ocidentais,  da “Primavera Árabe” se esfumou. As manifestações,  os gritos de clamor dos povos, as vidas perdidas nos embates contra as forças  policiais dos governos  truculentos das nações onde a esperança  parecia  que  ia ser concretizada pela troca de governos  autoritários por governos  democráticos, os desejos  justos   contra  a opressão e a barbárie  praticamente não resultaram em muita coisa.  
 Basta  mencionar   os exemplos da Argélia,  Tunísia, Líbia, Egito,  Síria, Arábia  Saudita, Iraque e Iêmen. Os que realizaram eleições (?)  colocaram no poder  ditadores. Assim, os exemplos da Argélia, do Egito, este último   hoje  governado  por um  presidente  interino; a Síria, que vai  realizar eleições(?) em 3 de junho próximo já conta como  vitorioso o genocida  e ditador Bashar al-Assad; a Arábia Saudita, uma monarquia,  conduz o povo com mão de ferro; o Iraque,  desde a  invasão dos EUA em 2003,   enfrentou  um “ciclo” de violências, onde xiitas  e sunitas  não se entendem, realizou eleições. Resta saber se legítimas ou fraudadas,. Só Deus sabe...
Hoje,  ditadores,  autocratas  falam que,em seus governos,  há democracia, o que nos permite  deduzir que “democracia” no sentido mais lídimo do termo, passa  a ter uma metamorfose  semântica e, o que é mais grave,  de teor pejorativo ou  hilariante.Vai ver que Fidel Castro, Maduro e outros  assemelhados  se definem como  democratas. Como pode haver democracia onde há censura cerrada ou velada?
Tenho observado, em entrevistas de cientistas políticos ou  de pessoas  familiarizadas com  a questões de política internacional, que há um  certa concordância  de entendimento  do que  está acontecendo com  os governos  de algumas nações do  Oriente, do Leste Europeu, da América do Sul e  de alguns países africanos no sentido de que está se revelando ou  constatando  uma estranho   comportamento  político de cunho autoritário respaldado  pelas  suas populações. O povo, assim, aceita o governo  discricionário, elege  os candidatos  a presidentes   com esse perfil  de ditador, naturalmente  pensando – e erradamente,  é claro  – que uma nação precisa de ser  administrada  por  esse tipo de governante.
Esse comportamento dos povos  é preocupante, porquanto   dessa espécie de acordo  silencioso  entre o governo e os seus cidadãos arrisca-se  uma nação  em cair na armadilha  do totalitarismo.
De acordo com uma análise de Roula Khalaf, do Financial  Times, publicada na mencionada  edição  de domingo da Folha de São Paulo, o conhecido  líder militar, Abdel Fattah al-Sisi, tem certa a sua eleição e, conforme disse o analista,   .”.. com aprovação popular esmagadora.” E mais,  até um canal de TV patrocinado  pelos sauditas, retirou do ar Bassem Youssef,  um conhecido  comediante do Egito. Isso para impedi-lo de evitar influenciar   a orientação dos eleitores e a opinião  pública.”   Essa “comédia de uma noite de verão” é o retrato  mais  deprimente  da contrafação política  orquestrada  para  dar vitória a um candidato. O analista, num trecho  do artigo,   chega a  citar  essa opinião , segundo ele, de “muitos egípcios”  “É de um líder forte que o país precisa.”
O que está, na verdade,  acontecendo com  os povos  do mundo? Estão enlouquecendo e pondo, assim, a própria   cabeça  à decapitação?  Para onde estão  lançando os  mais  autênticos  postulados da democracia da Grécia  antiga?


2) O BRASIL
          
           Agora,  leitor,  penetremos  no país do carnaval, sede da bem próxima  Copa Mundial  de  Futebol,  delícias dos fanáticos  matadores   de outros fanáticos  numa  simbiose  que, entra ano, sai ano,  aumenta  a estatística  dos crimes  relacionados a um esporte outrora bem mais  humano, bem menos  milionário, máquina atual  de fazer  uns poucos  jogadores craques   de primeira grandeza e, depois,  transformados  em  businessmen do império  dos cartolas.           
            A pior notícia que ouvi  esta noite  foi a de uma  energúmeno, uma capeta em  forma de humano, que havia arrancado    uma vaso sanitário de um dos banheiros  femininos de um  estádio  de futebol  brasileiro e do alto do estádio o  arremessara em direção a um jovem, possivelmente  torcedor de time  rival, que estava  passando lá embaixo na calçada. O objeto  atingiu  o jovem em cheio e o matara  instantaneamente.
           Em pouco tempo,  o governo  da Dilma, agora na condição de pré-candidata à reeleição,  gastou  rios de dinheiro  construindo  estádios de futebol  pelo país afora,  não se importando  com o estado  escangalhado  dos hospitais  públicos, do transporte  em petição de miséria, da educação pública  em frangalhos,    deixando um povo sofrido e ao deus-dará,  sobretudo em São Paulo,  a cidade mais importante do país, angustiada ainda mais com a escassez de água  para a população  paulistana e a escalada de violência  jamais  vista na história do país, violência que se alastra por toda a nação,  com  pivetes  matando  inocentes de todas as idades e, o que é pior,  sem serem punidos,  sem terem a maioridade penal reduzida.
A falta de controle dos órgãos de segurança  já está levando a um  outro grave problema  criminal: os linchamentos, a lei  feita  por populares,  muitas vezes,  até  matando  inocentes como  foi  o exemplo  de uma jovem senhora  em São Paulo, se não me engano, sacrificada por mãos de populares  ensandecidos tal como  já aconteceu  nos tempos da faroeste  americano, sob a alegação de que ela  seria uma mulher que  sequestrava  crianças para serem  instrumentos de sacrifícios ritualísticos.  A mulher  em questão  era inocente e havia sido  confundida  com a verdadeira criminosa,  cujo paradeiro  ainda se desconhece.O erro foi duplo,  alguém  postou na internet um retrato   falado de uma mulher provavelmente com  alguma  semelhança  com a  inocente  que deixou a família arrasada  para sempre.
        Com tantos gritantes problemas  a serem  minimizados,  o  país ainda  assiste ao escândalo  da compra bilionária  de uma  refinaria  em Pasadena, EUA,  num imbróglio detetivesco que atinge os alicerces da política  petista. E os jornais já andam  falando em outra  compra  cheirando a fraude  envolvendo, se não  incorro em erro,  homens da Petrobrás e o governo. Essas transações,   que não deram  nenhuma   vantagem  aos brasileiros, mas só prejuízos ao Erário  Público,  ainda não foram  bem  justificadas  pelo  governo  em Brasília.
     E, diante de todos esses “malfeitos”, vocábulo do campo semântico petista, assim como o tratamento  cerimonioso   ‘presidenta”  saído das bocas dos aduladores e áulicos   palacianos, como  vai  a pré-candidata, amiga do  “Esse é o cara,” se justificar diante da   opinião  brasileira e nos debates  das campanhas  na corrida presidencial pela televisão e comícios nos quatro cantos  da pátria  amada?

      Estou quase acreditando que o Brasil está  se enfileirando  no mesmo time   dos  “gloriosos”  candidatos-ditadores  que estão  substituindo  a “Primavera Árabe”  por novos  algozes  com pretensões  de  czares  da velha  Rússia  de  Dostoiévski. E me pergunto mais uma vez: quem será, no país, que   deverá ser  calado  para  não cair na mesma  situação  do  comediante  egípcio? Fica no ar a pergunta.     

sexta-feira, 6 de junho de 2014

NO REI DO SURREAL


NO REI DO SURREAL

III – VOLEIBOL

Elmar Carvalho

    dei um saque
jornada nas estrelas
      em minha
                       cabeça
de antemão coroada
        com o louro/ouro
             da vitória
minha cabeça descreveu
                uma parábola
                             bola
                          sangrando
                             bola
                                    singrando
o espaço como um
                                                 cometa
        de cauda sangrenta
(depois a fiz troféu da vitória)     

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Culto ao corpo e à personalidade


Culto ao corpo e à personalidade

José Maria Vasconcelos

          Amarás o Senhor teu Deus, acima de todos e de tudo. Primeiríssimo mandamento, mas o orgulho humano parece não reconhecer os próprios limites ante as forças poderosas que regem o universo. A evolução científica dos tempos modernos vem tentando mascarar a vulnerabilidade humana, física e mental, com exacerbada exploração da autoestima e do poder de abocanhar o mundo.
          A propaganda comercial estabelece um foco comum de serpente sedutora, quando anuncia o produto: felicidade, cliente mais e personalizado, direitos e mais direitos, liberdade total, endeusamento do eu. Observe esse anúncio de bolsas e calçados femininos ostentados por uma bela moça, em página inteira de famosa revista: “Toda mulher tem direito de se libertar de tudo que oprima a liberdade de ir aonde os pés a levaram. Criamos o conforto para você ser você mesma”.
            Robusto bumbum, roliças coxas, rebolados sensuais, frases ocas, pronto, a fruta vira logo celebridade. O culto à mediocridade e ao besteirol, seguido de contratos milionários para eventos festivos, entrevistas e fotos eróticas. Não se trata de filosofia de época, mas de filodoxia descartável. Filodoxia, palavra criada por Platão, significa “amor da glória”, aqueles “amantes da opinião”, em oposição aos “amantes da ciência”dos filósofos. A filodoxia agrada ouvir belas vozes e ver belas cores, mas evita considerar o belo como ser em si, digamos, mais artístico e profundo.
          Egolatria, idolatria, egocentrismo caracterizam a personalidade de muita gente, quase sempre ricos, celebridades, políticos, gestores, artistas e empresários. Dão a alma ao diabo pelo poder econômico ou político, ou adoração a poderosos gurus de alguma ideologia.  Egolatria, o sentimento exagerado de amor a si mesmo. Idolatria, a paixão descontrolada e submissa a alguém de maior força política e celebridade. Egocentrismo, o todo poderoso, egoísta e centralizador dos interesses pessoais. Em tempo de campanha eleitoral, é fácil descobrir os que se encantam com o poder ou se dobram por uma fatia de favorecimentos.
          Culto demasiado à própria personalidade, submissão ao poderoso, o eu como altar das atenções, enfim soberba, “vaidade das vaidades” e subserviência resumem a crônica pobreza de espírito, que abafa a ação de Deus, a causa de infortúnios, depressão e doenças. Excessos de poder e glória já arrastaram celebridades às drogas, conflitos amorosos e ruína moral. Faltou-lhes o exercício da generosidade,  humildade, servir ao próximo, experiência com Deus, da abnegação às idolatrias que regem o mundo.
          Pais precisam, desde cedo, cultivar nos filhos exemplos de grandeza humana, responsabilidade, esforço e mérito, simplicidade de vida mesmo na prosperidade, virtudes cristãs, em vez de instruí-los somente para a competição de poder e exibicionismo social.
          Quando olho as imagens do sistema solar, pelo telescópio Huble, descubro a minúscula Terra, tamanho de um caroço de arroz, a milhões de quilômetros do Sol. Sinto quanto o ser humano ainda precisa saber o sentido de grandeza, arvorando-se senhor de todas as coisas e pessoas. Por aí começa o primeiríssimo mandamento.   

terça-feira, 3 de junho de 2014

A MINHA CAMINHADA COM CRISTO


A MINHA CAMINHADA COM CRISTO

VIRGÍLIO QUEIROZ

Cinco horas, na João XXIII, sigo olhando para os automóveis que parecem voar. Pessoas de diferentes idades passam sem dizer bom dia e seguem um caminho que não vai dar em nada. O certo é que há vida indo e vindo. Sigo cantarolando um tango que nunca aprendi e troco as palavras. De repente, ao meu lado, surge um homem de cabelos compridos, corpo atlético, vestido em uma camisa branca (quase transparente). Ele usa uma barba não muito longa e de uma cor aproximada dos seus cabelos.
Bom dia, Posso caminhar ao seu lado?”. Claro, respondi. Olhei e vi em seus olhos azuis (ou verdes?) uma serenidade que jamais tinha notado em um ser humano.
- Virgílio, hoje o dia está bonito! Aliás, sempre ele é bonito.
- É sempre quando estamos preparados para vê-lo assim.
- É. A beleza está em nossos olhos.
- Eu lhe conheço de algum lugar...
- Deve conhecer. Eu sei que você me conhece...
- Olhando bem... não é possível!
- É possível sim, Virgílio, tudo é possível. Pode acreditar.
- Cara, você é o Cristo!
- Tem gente que me chama assim. Outros chamam Nazareno, Messias, Salvador, Jesus, Elias... (com um leve sorriso no rosto)
- Eu lhe chamo de Jesus. Acho esse nome lindo.
Ele sorriu educadamente e continuamos a conversar. Passamos por taxistas, pessoas velhas ofegantes em decorrência do esforço físico da caminhada, outros que se abarrotavam em um ônibus em direção ao emprego. Um amigo, ao qual dei um bom dia, cochichou com outro colega: “que pena. Esse cara um dia desses era normal, lecionava... e agora falando sozinho... meu Deus, para alguém ficar doido é daqui prali”. Jesus sorriu e disse: “você se importa em ser chamado de louco?”. Respondi-lhe: nem um pingo! Caminhamos não sei quantos quilômetros e nada de cansaço. Em cada passagem sempre tinha alguém que me olhava com pena e comentando que os meus familiares eram irresponsáveis em deixar um homem doente andar sozinho. Passamos em frente a uma igreja onde havia cartazes de curas milagrosas, fortunas imediatas, harmonia no lar... Pela primeira vez eu vi o meu amigo franzir a testa e balançar negativamente a cabeça.
- Virgílio, você acredita nisso?
- Não, não acredito.
- Os vendilhões do templo estão em todas as épocas.
- É verdade Jesus que você esteve na “cabana”?
- Você acredita?
- É possível você está aqui comigo?
- Valeu, cara! Agora, muitos dizem que estão me vendo, que já me viram e isso é conversa fiada. Eu apareço, assim, para conversar com as pessoas, abraçar e dizer que tudo é possível quando se acredita, quando se tem fé.
Continuamos conversando e uma senhora idosa, atravessou com dificuldade e abraçou Jesus, beijando-lhe na face. “Viu, Virgílio, nós não passamos despercebidos (soltou um leve sorriso). “Mestre, não esqueça da minha visita” (disse a velhinha). Jesus acenou.
-  Jesus, mostre-me um caminho... que religião devo seguir?
- Virgílio, eu não tenho religião.
- Não? Como assim?
- O homem não precisa de religião para chegar ao Pai. Precisa praticar bons atos, fazer caridade, amar o próximo...
- Virgílio, já conversamos bem, tenho que ir.
- Tão cedo! Temos tanto para conversar... é difícil se ter um amigo tão inteligente, tão compreensivo... por que você não fica mais um pouco...
- Qualquer dia a gente conversa mais. Podemos até tomar um vinho. Acredite, você é um dos meus.
Não sei como ele foi embora, que rumo tomou, que estrada seguiu. Voltei para casa e o sol começou a sair. Nunca tinha me sentido tão bem. Liguei o som e ouvi o tango que eu nunca aprendi a letra.   

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Perfil de um piauiense construtivo

Perfil de um piauiense construtivo

Des. Valério Chaves (*)


O cenário histórico e cultural do Piauí apresenta muitas personalidades de fulgurante valor intelectual que, embora tenham alcançado projeção além das fronteiras piauienses, jamais tiveram oportunidade de serem cultivadas como referencial do saber nas áreas da política, das letras jurídicas e outros ramos do conhecimento às novas gerações.


Dentre muitos outros, vale destacar: Elias de Oliveira e Silva, João Crisóstomo da Rocha Cabral, Joaquim de Souza Neto, José Burlamaqui Auto de Abreu, Cristino Couto Castelo Branco, Esmaragado de Freitas e Sousa, Higino Cicero da Cunha e Luísa Amélia de Queiroz Brandão.

O primeiro, Elias de Oliveira e Silva, foi lembrado em 2008 pelas faculdades Chrisfapi através de justa homenagem, dando o seu nome ao Anexo do Juizado Especial Cível e Criminal da cidade de Piripiri.

A vida dos homens, como sabemos, constrói-se mostrando o tempo e a sua oferenda, numa imagem de valores e de conquistas, tecendo o fio invisível de cada instante, assentando-se na rotina do trabalho em torno do qual se edifica e enaltece o cenário grandioso da vida e a humanidade cresce.

E foi, sem dúvida, nesse cenário de vida profissional que Elias de Oliveira e Silva deixou-se tentar por quase todas as maneiras de expressão que a ciência e a arte colocam a serviço das ideias. Brilhou e resplandeceu em todos os setores que estiveram ao seu alcance, principalmente na magistratura piauiense, na política, na advocacia, nas letras jurídicas e no jornalismo.

Reportando-se sobre os homens que iluminam, o Desembargador Cristino Castelo Branco, citado pelo jurista e escritor Celso Barros Coelho, em seu livro “Homens de Ideias e de Ação” - 1991, pág. 20), lembra que na história dos homens que iluminam há um rastro de luz que lhes aclara os caminhos. Eles brilham por si mesmos, como estrelas”.

Por sua vez, o professor e pesquisador Arimathéa Tito Filho, escrevendo no Jornal do Piauí, edição do dia 25.06.1972, ao ressaltar a atuação do advogado Elias de Oliveira e Silva, deu o seguinte destaque: “Na tribuna do júri, celebrado de aplausos, argumentador seguro, dominava a plateia, os jurados, terror da acusação quando se encontrava na defesa, terror da defesa quando auxiliava a acusação. Palavra fácil, correta, por vezes, irônica, sustentava conceitos graves com que se revelou grande estudioso da ciência penal”.

Elias de Oliveira e Silva nasceu em Teresina em 15.02.1897, filho de José Antônio da Silva e Luiza Amélia de Oliveira e Silva.

Bacharelou-se em Letras em 1913 e em Direito (1919) em Fortaleza-CE. No mesmo ano exerceu a Promotoria Pública em Teresina onde também lecionou Psicologia, Lógica e História da Filosofia, no Liceu Piauiense, na Escola Normal e na Faculdade de Direito.

Além do magistério, foi Juiz Distrital em Batalha e de Direito em Piracuruca, exercendo depois a advocacia e o jornalismo.

Pertenceu à Academia Piauiense de Letras, da qual foi sócio fundador, em 1917, ocupando a cadeira nº 28 que teve como patrona a poetisa piracuruquense Luiza Amélia de Queiroz Brandão.

Ao submeter-se a concurso para a cadeira de Direito Penal, elaborou a arrojada tese “Criminologia das Multidões”, reeditada pela Editora Saraiva, com prefácio do ministro Bento de Farias.

Regressando a Teresina tentou, sem sucesso, uma cadeira de Deputado Federal. Desiludido com a política, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde teve destacada atuação nos meios forenses. Depois, a convite do filho Eduardo Elias, passou a residir em Brasília sendo advogado do governo do Distrito Federal, atuando ainda nas lides forenses, mercê de sua sólida cultura jurídica.

Com a redefinição constitucional do País, retornou ao Piauí, estabelecendo-se em sua fazenda Aroeira, em Piripiri, passando a fabricar cachaça e rapadura.

No campo das letras publicou importantes obras, destacando-se dentre outras: Ideias do Direito na Filosofia Helênica (1919); Inconstitucionalidade dos Impostos (1920); Crime de Calúnia (1925); Intervenção Federal nos Estados (1930); Homicídio Culposo (1932); Crimes contra a Economia Popular (1932); Crime de Incêndio (1934); e Criminologia das Multidões, estudo que mereceu justificados elogios da crítica literária nacional e estrangeira.

Com toda essa fulgurante trajetória jamais lhe faltaram a sabedoria dos homens adultos, convivendo com a cultura abrangente de autêntico jurista, sem nunca ter buscado a notoriedade fácil das manchetes.

Os últimos anos de sua vida foram dedicados à pecuária numa propriedade no Estado de Goiás, onde faleceu em 15.06.1972 aos setenta e cinco anos de idade, deixando como legado de sua marcante personalidade admiráveis exemplos de honradez e honestidade como magistrado, como escritor e chefe de família.

Oito dias após o seu falecimento (23.06.1972) o Senado Federal prestou-lhe expressiva “Homenagem Póstuma”, através do então senador piauiense e seu ex-aluno, Helvídio Nunes de Barros.


(*) Valério Chaves Pinto – Desembargador Inativo do TJPI   

domingo, 1 de junho de 2014

Seleta Piauiense - Álvaro Pacheco


Lembrança e memória

Álvaro Pacheco (1933)

Tetos brancos, pedras translúcidas
memória: Cristo vestia-se de morto da Semana Santa
e ressurgia depois, nu, mais morto ainda
no esquife de vidro, santificado.

Substância da vida fluindo no mangueiral
e concentrada em pedrinhas coloridas
às vezes tesouros, às vezes bois e bichos
num imaginário curral.

Substância da morte correndo ao pé da noite
e homens discutindo a linguagem inimiga
num país bem próximo.

As matracas dobravam a tristeza.

Em volta, no átrio,
preparava-se a memória
sobrepelizes brancas e pés descalços
e por baixo de tudo os corações
nus e puros, porém condenados.

Ao meio-dia o silêncio se balançava nas redes
por onde escorria uma vida dolente
e na alma inquieta balançavam-se incubados
os tetos brancos, as pedras
e as plantinhas tenras
de um presépio sem futuro.

Ao alto de serra, suas macambiras,
suas palmas e seus cascalhos
numa água cristalina:
as moças se banhavam livres
em seus desejos e nas visões do menino.


Um trajeto difícil volta a esta lembrança
de um tempo restrito de sol e de inverno
fabulações intensas e buscas improváveis
em linguagem seca que não tem memória.