segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

A NOTÁVEL POESIA DE CLÓVIS MOURA

Clóvis Moura em 1961   Fonte: Google

Abertura do Colóquio Poético Clóvis Moura
Elmar Carvalho pronuncia sua palestra
Abertura do Sarau Poético em homenagem a Clóvis e a Da Costa e Silva
Numa das Estações do Museu das Letras
Casa Odilon Nunes, onde fica o Museu das Letras


A NOTÁVEL POESIA DE CLÓVIS MOURA

 

Elmar Carvalho

 

1° MOVIMENTO – ABERTURA

 

Sendo eu um cidadão amarantino por vocação, devoção, coração e por livre e espontânea vontade de mim mesmo, mas também o sendo por Título de Cidadania, para glória e gáudio meu, é para mim uma incomensurável honra falar do imenso poeta Clóvis Moura, ainda mais porque sou o titular da cadeira 35 da Academia de Letras do Médio Parnaíba, da qual é ele o patrono.

Tive a satisfação de estar em Amarante, em várias oportunidades. Sempre a admirei pelo seu folclore, pelas suas danças portuguesas e rodas de São Gonçalo, pela sua beleza bucólica, arquitetônica e paisagística, e pelos seus valorosos poetas, que a cantaram e louvaram. Dessa forma colhi o ensejo para escrever o meu poema Amarante. Isso foi uma ousadia muito grande, depois de Da Costa e Silva e Clóvis Moura terem escrito magníficos poemas sobre esta bela e aprazível urbe, referta de beleza e emoldurada pelas serras e pelos rios Parnaíba, Canindé e Mulato, quase podendo ser considerada uma encantadora ilha fluvial. Na crônica Recuerdos de Amarante, escrita há algumas décadas, tive o ensejo de dizer:

“A primeira vez que visitei Amarante foi em meados da década de oitenta, quando estive nessa cidade na condição de fiscal da extinta SUNAB. Embeveci-me com a sua beleza. Li os versos do poeta, estampados em placa de bronze. Era a cidade azul do poeta, das serras azuis, do céu mais azul, das águas azuis de seus três rios. Afinal, Amarante é quase uma ilha paradisíaca, rodeada pelos rios Mulato, Canindé e Parnaíba, o hoje decrépito Velho Monge, tão grandes são as atribulações que lhe causam com as queimadas e desmatamentos, já denunciados pelo excelso poeta, muitos anos atrás. Vi suas casas antigas, que nos fazem viajar no tempo, que nos fazem retornar a uma época mais morosa, mais amorosa e mais manhosa. Nessa ocasião, hospedei-me em uma pousada, antigo solar, que parecia habitada por antigos fantasmas de afogados e poetas. De madrugada, quando acordei, fazia frio e caía uma chuva fina. Senti uma forte vontade de urinar. Tentei resistir, pois o banheiro ficava distante, tendo que percorrer um comprido corredor até chegar a esse anexo. Resisti também porque estava com certo medo, por causa da lembrança de almas penadas, que talvez vagassem pelas alcovas e alpendres do vetusto casarão. Contudo, a necessidade fisiológica foi mais forte, e tive que ir ao mictório. Quando lá cheguei ouvi uns gemidos penosos, doridos, como se partissem de um moribundo. Não urinei direito, e voltei quase correndo, imaginando que aqueles gemidos, que aqueles ais doloridos bem poderiam ser de almas penadas, os fantasmas dos poetas e dos afogados. No dia seguinte, qual não foi a minha surpresa, quando soube que no quarto perto do banheiro dormira um casal em plena lua de mel. Em lugar de dormira, retifico para passara a noite. Então, num lampejo, compreendi que as minhas almas penadas, eram duas almas ‘penando’ na volúpia ardente dos esponsais.”

Em minha gestão como presidente da União Brasileira de Escritores (1988/1990), promovi uma campanha para que os restos mortais do poeta Antônio Francisco da Costa e Silva fossem inumados em sua terra natal. Usei como fundamento o seu pedido, expresso na última estrofe de seu soneto Amarante: “Terra para amar com o grande amor que eu tenho! / Terra onde tive o berço e de onde espero ainda / Sete palmos de gleba e os dois braços de um lenho!” Infelizmente a campanha não obteve sucesso, mas ainda acho que eu estava fazendo a coisa certa. Em sua terra, seu túmulo seria visitado e admirado pelos seus conterrâneos amarantinos e piauienses. Dez anos atrás, o meu amigo e poeta Virgílio Queiroz, com o meu apoio, tentou retomar essa empreitada, mas novamente fomos vozes clamando no deserto da indiferença do poder público.  

Da referida crônica, citada acima, retiro ainda a seguinte passagem:

“O professor Marcelino Leal Barroso de Carvalho, que foi meu mestre no curso de Direito, na Universidade Federal do Piauí, e que hoje é o diretor geral do conceituado Instituto Camillo Filho, depois de ter feito brilhante carreira no magistério superior piauiense, houve por bem lançar o meu livro Lira dos Cinqüentanos em Amarante, da qual é ilustre filho. O evento aconteceu dentro da parte cultural da festa religiosa da Irmandade do Divino Espírito Santo, cujo ritual sacro ele ressuscitou, uma vez que essa tradicional festa religiosa estava adormecida há várias décadas. O lançamento de meu livro aconteceu num casarão secular, na avenida Desembargador Amaral, em noite memorável e agradabilíssima, em que notáveis personalidades amarantinas compareceram, entre as quais os amigos Álvaro e Raimundo Luís Cutrim, Geraldo Majella Nunes de Carvalho, vindos especialmente de Teresina para esse fim. Foi exibido, na oportunidade, o documentário Elmar Carvalho – O Poeta e seus Labirintos, em que ocupa lugar de merecido destaque a velha e graciosa urbe do médio Parnaíba. Foram distribuídos aos presentes baners do poema de louvação (a) Amarante. Um deles, devidamente emoldurado, encontra-se exposto no museu da Casa Odilon Nunes.

            Numa tarde agradável de um tempo que não sei fixar no calendário comum, mas apenas no do espírito, da emoção e da saudade, encontrava-me com o poeta Virgílio Queiroz, no cais do Velho Monge, bebericando umas pingas com água tônica, quando inesperadamente, como um sortilégio, veio uma ventania que sacudiu as faveiras, debaixo das quais estávamos. As favas secas começaram a emitir um som de chocalhos e de maracás. Foi como se aquele som evocasse uma época muito antiga e ancestral, em que os índios perlustravam aquelas terras, aquelas serras azuis encantadas e perlongavam o curso sinuoso do Parnaíba.

            Ainda hoje escuto a música encantatória dos maracás daquelas faveiras e a dança requebrada do arvoredo. E ainda perpassa em minha pele o afago daquele vento, que ninguém sabe de onde veio, que ninguém sabe para onde foi...”      

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o poeta Clóvis Moura e vê-lo a pitar o seu inseparável e emblemático cachimbo. Cheguei a lhe enviar, pelo velho Correio, algumas cartas, que ele prontamente respondia, pois era um homem bom e educado. Em algum dia do ano de 1997, creio, recebi um exemplar do periódico LB – Revista da Literatura Brasileira, edição n° 6, um volume magro, de apenas 45 páginas, enviado pela saudosa amiga Clea Rezende Neves de Melo, escritora e professora universitária em Brasília. Em sua capa, ela escreveu pequeno recado, me chamando a atenção para a página 33, na qual constava a seção 4 Poetas do Piauí. Eram eles Da Costa e Silva, H. Dobal, Clóvis Moura e Elmar Carvalho. Não sei quem colocou este pigmeu no meio desses gigantes do parnaso piauiense. Penso, talvez, tenha sido Clóvis Moura, mas jamais poderei ter certeza quanto a isso. Como uma homenagem a esse grande bardo brasileiro, transcrevo um dos poemas de sua autoria, constante na revista:

MINHA VOZ

 

Minha mãe deu-me um cravo cristalino

quando nasci. Guardei-o na garganta.

Por isto a minha voz parece o eco

de todo sofrimento que não canta.

Com isto a minha voz se fez desejo

dos surdos-mudos, das mulheres mancas.

É o plenilúnio dos abortos tristes

e o girassol dos cegos que não andam.

Minha garganta já sentiu o travo

da palavra guardada e não ditada

por causa dos fonemas mutilados.

Há na voz desse cravo que não toca

um desfilar de mortos e de enterros

e gritos por silêncios soterrados.

 

2° MOVIMENTO – SÍNTESE BIOGRÁFICA E O SOCIÓLOGO

 

Clóvis Moura nasceu em Amarante; quanto a isso não há dúvida. Mestiço de branco e de afrodescendente, dizem que entre seus ancestrais existiria um barão prussiano. Contudo, a sua data de nascimento é um emaranhado de contradições. Vejamos o que escreveu o grande ficcionista e crítico literário Assis Brasil, na antologia A Poesia Piauiense no Século XX:

“A Enciclopédia de literatura brasileira (Afrânio Coutinho, org.) registra a data de nascimento de Clóvis Steiger de Assis Moura como sendo 1929 e o dicionário de Raimundo de Menezes, 1925, ambos no dia 10 de junho na cidade de Amarante. Na antologia Mão Dupla (1994), o poeta nasceu no dia 1 de junho de 1928. O poeta sai cedo da terra natal, pois estuda até o segundo ano ginasial no Colégio Santo Antônio, dos Irmãos Maristas, em Natal, Rio Grande do Norte.

‘O resto foi autodidatismo’, registra Menezes, mas naquela Enciclopédia fala-se num diploma de Filosofia (1950). Nos dois livros que temos em mãos do poeta, Argila da memória (2ª edição/1982) e Flauta de Argila (1992) nada consta sobre a vida do escritor, embora o estudo introdutório de M. Paulo Nunes ao último. Tampouco os dicionários de Adrião Neto e Wilson Carvalho falam sobre a vida de Clóvis Moura.”

Essas contradições e lacunas apontadas pelo notável romancista e crítico piauiense Assis Brasil parecem indicar que o escritor era um tanto infenso à vaidade, já que, ao que tudo indica, pelos livros que Assis cita e por outros que tenho em meu poder, ele não costumava divulgar a sua biografia.

O certo é que, com diploma ou sem diploma, ele foi sociólogo, ensaísta, poeta, historiador e jornalista. O livro Duelos com o infinito, publicado pela SEDUC e FUNDAC, em 2005, também não traz dados biográficos, senão breve comentário na orelha, da lavra de Aluysio Mendonça Sampaio, do qual retiro este pequeno trecho: “(...) dotado de enorme talento e cultura, fez-se polígrafo, publicando contos e sobressaindo-se como um dos melhores poetas nacionais”.

Um texto sobre Clóvis Moura, publicado na revista Presença, ano XX, nº 34, 2005, sem indicação de autoria, informa que Clóvis Moura nasceu em 1925, em Amarante, mas que “mudou-se cedo para Salvador, Bahia, onde construiu sua juventude, iniciando, ainda na década de 40, militância política de esquerda. Seja como for, conforme citação anterior, o nosso Assis Brasil informa que ele teria estudado até o segundo ano do ginásio em Natal, Rio Grande do Norte.

Em rápida pesquisa internética, também encontrei desencontros com relação ao dia de seu nascimento, todavia todas as informações davam o ano como sendo 1925. Até prova em contrário, considerando a maioria das informações, creio seja razoável aceitar como sua data de nascimento o dia 10 de junho de 1925.

Um texto que me pareceu confiável, publicado no sítio da Sociedade Brasileira de Sociologia (acesso em 23/11/2023), na seção Bionotas, titulado Clóvis Moura, da autoria de Fábio Nogueira (UNEB), afirma que ele nasceu em 10 de junho de 1925, em Amarante. E que foi na cidade de Juazeiro (BA), nos anos 1940, “que deu início à escrita de seu mais conhecido livro, Rebeliões da Senzala, publicado pela Editora Zumbi, em São Paulo, em 1959”. Portanto, era ainda bem jovem, quando começou a escrever esse livro. Essa mudança constante de endereço residencial, creio, se devia ao fato de o seu pai ser funcionário da Fazenda Nacional (Receita Federal). Radicou-se em São Paulo em algum momento dos anos 1950.

Nesse trabalho de Fábio Nogueira, há importantes considerações teóricas e analíticas sobre a obra sociológica de Clóvis Moura e sobre como ele interpretava o que seria um quilombo. Aliás, Clóvis esteve na sua Amarante, ou na segunda metade dos anos 1980 ou nos anos 1990, para fazer pesquisa na comunidade de pretos Mimbós, durante algumas semanas, porém não sei se as suas análises, interpretações e conclusões se encontram em algum trabalho de sua lavra, e se esse estudo acaso teria sido publicado.

Para mostrar a sua importância e a sua autoridade sobre os seus estudos e pesquisas, na seara da negritude brasileira, transcrevo o seguinte parágrafo do estudo de Fábio Nogueira:

“Radicou-se em São Paulo a partir dos anos 1950. Vinculou-se ao círculo de intelectuais comunistas que orbitavam em torno de Caio Prado Júnior e colaborou com as Revistas Brasiliense e Fundamentos. Clóvis Moura divergiu da linha política e teórica hegemônica no PCB o que o fez ingressar, em 1962, no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Moura atuou na imprensa paulista como redator e crítico literário em jornais como Diário da Noite, Diário de São Paulo, Última Hora e Folha de São Carlos e, ao mesmo tempo, produziu obras sobre a contra-violência do escravizado como elemento ativo na desagregação do modo de produção escravista. Em 1975 funda o IBEA – Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas (IBEA) e estende a sua interlocução a intelectuais norte-americanos e africanos. Integrou, em 1974, a delegação brasileira que participou da Conferência de Cultura Negra em Dakar, no Senegal, organizada sob os auspícios de Leopold Senghor (1906-2001), presidente daquele país e uma das principais referências do movimento da Negritude francófona. Participou de encontros acadêmicos nos anos 1970 no Panamá, Porto Rico e Estados Unidos. Em 1977 publicou Negro: Bom escravo, mau cidadão? obra que condensa os reflexos do escravismo à sociedade capitalista competitiva e a ideologia do negro como “mau cidadão” que tinha por finalidade justificar barragem social deste, assim como, a negação de direitos sociais como saúde, educação, acesso à terra e aos direitos trabalhistas. Nesta obra relaciona os processos de resistência ao escravismo de uma perspectiva comparada dialogando com suas expressões em outros países da América Latina e do Caribe. Clóvis Moura contribuiu particularmente ao campo da sociologia histórica e da sociologia do conhecimento sendo autor de dois livros emblemáticos a este respeito, A Sociologia posta em questão (1978) e as injustiças de Clio: o negro na historiografia brasileira (1990).”

No referido trabalho, Fábio nos informa que Clóvis efetivamente cursou Filosofia, Ciências e Letras, nos anos 1940, no período em que morou em Salvador. Todavia, somente nos anos 1980 recebeu o Título de Notório Saber, concedido pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo. A obtenção desse título lhe possibilitou funcionar como examinador em bancas de mestrado e doutorado na USP e na UNICAMP. Na década de 1980 participou de um amplo círculo de intelectuais, do qual faziam parte, entre outros, Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Jacob Gorender, Vivaldo Costa Lima, Yeda Pessoa de Castro, Manuel Correia de Andrade etc.

Na Revista Presença, acima referida, o escritor Eneas Athanázio publicou a matéria A Escravidão de A a Z, na qual nos é informado que “depois de trinta anos de pesquisas incansáveis e solitárias, enfrentando toda sorte de dificuldades, o cientista social Clóvis Moura (1925/2003) concluiu sua obra Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, publicado pela Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP)”.

Eneas Athanázio nos explica que a obra contém mais de 800 verbetes, distribuídos ao longo de 440 páginas; que muitos abordam fatos importantes da história da escravidão negra no Brasil, e que muitos traçam o perfil biográfico de importantes abolicionistas. Alguns dos verbetes são longos, para o padrão de um dicionário, e são quase um artigo ou pequeno ensaio. Outros temas são estudados, como os referentes a trabalho, alforria, instrumentos de tortura, costumes, religião, danças etc. Em seu projeto inicial, Clóvis pretendia incluir verbetes sobre a escravidão indígena, mas desistiu por não haver no Brasil uma consistente bibliografia sobre esse assunto. Foi um trabalho que requeria, talvez, uma equipe de pesquisadores, mas que foi realizado por um único homem.

Na seara da poesia, publicou as seguintes obras: Espantalho na feira, Argila da memória, Flauta de Argila, Âncora no Planalto, Manequins Corcundas e Duelos com o infinito, o qual, segundo seu “orelhista” Aluyzio Mendonça Sampaio, é uma antologia, “que ainda mais se qualifica pela inclusão de novos poemas, inéditos ou publicados na imprensa literária”.  

Para finalizar esta parte, citarei as principais obras sociológicas de Clóvis Moura: Rebeliões da Senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas (1959), O negro: de bom escravo a mau cidadão? (1977), Os Quilombos e a Rebelião Negra (1981), Sociologia do Negro Brasileiro (1988), A Dialética Radical do Brasil Negro (1994), A Sociologia Política da Guerra Camponesa de Canudos – Do desaparecimento de Belo Monte ao MST (2000), A encruzilhada dos Orixás: problemas e dilemas do negro brasileiro (2003) e Dicionário da Escravidão Negra no Brasil (2004).

Após duelar com o infinito, Clóvis Moura empreendeu sua viagem rumo ao infinito em São Paulo, no dia 23 de dezembro de 2003.     

 

3º MOVIMENTO – CONSIDERAÇÃO SOBRE A POESIA DE CLÓVIS MOURA

 

Nos vários livros que tenho sobre a Literatura Piauiense e Brasileira – tais como história da literatura, dicionários, antologias e mesmo dois livros de poemas de Moura – não encontrei nenhum comentário sobre a sua poemática, exceto uma brevíssima apresentação da autoria de M. Paulo Nunes, em que encontrei apenas esta passagem, de caráter crítico:

“Lendo este belo e comovente livro sentimos que, se em Da Costa e Silva a identificação com a cidade natal é feita através do sentimento de exílio, presente em sonetos como Saudade ou Amarante, em Clóvis Moura ela se faz porosamente pelos sentidos, pelas vivências, pela memória, pela reconstituição proustiana de um mundo perdido, mas guardado intacto na lembrança.”

Assim, o que a seguir eu disser sobre a sua arte poética, para honra minha ou para minha vergonha, sairá exclusivamente de minha cabeça, por minha conta e risco, e os equívocos deverão ser a mim atribuídos, e a mais ninguém. São as atribulações e consequências de eventual ou pretenso pioneirismo.

Mesmo o livro Duelos com o infinito, com poemas de sua autoria, publicado postumamente, não traz nenhum comentário de natureza crítica, exceto esta informação, da autoria de Aluysio Mendonça Sampaio: “este Duelo com o Infinito, no qual se reúnem poemas já publicados nos livros anteriores, em seleta que ainda mais se qualifica pela inclusão de novos poemas, inéditos ou publicados na imprensa literária”.

Portanto, em se tratando de uma antologia de 256 páginas, enfeixando poemas de seus livros anteriores e outros (poemas) inéditos, é uma expressiva amostragem de toda a sua obra poética.   

Alguns de seus poemas são metrificados e apresentam rimas, embora sem o espartilho da rigidez parnasiana. Podem ser encontradas redondilhas maior e menor. Em nenhum dos textos encontrei versos que contenham calão ou que possam ser rotulados como de mau-gosto, mesmo os de conteúdo sensual.

Também os seus poemas políticos ou sociais são sóbrios, contidos, e em momento algum descambam para um tom panfletário, e tampouco para um timbre de escancarado proselitismo ideológico ou de doutrinação política, embora Clóvis Moura tenha sido militante do PCB e, depois, do Partido Comunista do Brasil – PCdoB.

É sabido que a poesia contém muito mais desvio de linguagem do que a prosa, mormente por causa de sua escrita mais metaforizada, por seu alto grau de simbolismo, de imagens, de comparações, e de concisão, além de que utiliza em maior grau as figuras de estilo, as aliterações, as rimas, as coliterações etc. Fora o fato de que alguns poetas têm tendência deliberada ao hermetismo, em maior ou menor intensidade.

Com isso podem surgir dificuldades na interpretação dos poemas. Em minha condição de poeta, considero que um poema seja muito mais rico ou eficaz, quanto mais possibilidades de interpretação possa suscitar, conforme a experiência do leitor, sua vivência, suas leituras, sua inteligência e criatividade. Particularmente, fico contente se o leitor tiver uma interpretação diferente da minha, se ele descobrir aspectos e nuanças que eu próprio não tenha visto em algum poema de minha autoria. Por outro lado, um bom poema pode ser rico em sentidos conotativos e em jogos de palavras, que remetam à polissemia, conforme o objetivo e o talento do poeta.   

No poema Desarticulações Ferozes observo um nítido surrealismo, de difícil interpretação, em que se pode vislumbrar uma linguagem algo apocalíptica, mas de grande beleza, como nestes versos:

Um sonho de leopardo amarelo

está se condensando, um pedaço de memória felina

desdobra-se em nuvem de ácido amarelado.

Os dentes do rinoceronte trituram carne de cabritos

Monteses. E os dromedários contam libras esterlinas

sentados em uma palmatória. (...)

Esse mesmo poema, em outra parte, mais adiante, de forma insólita, surpreendente, adquire uma coloração epigramática, revestida de uma espécie de humor, com algo de nonsense:

A mulher que dança can-can

ficou apavorada com o ruído das espingardas

e suicidou-se com perfume francês

depois de beijar a boca do alemão desconhecido.      

Em muitos de seus versos sentimos perpassar inquietações, ainda que de forma implícita, ante as grandes indagações metafísicas sobre o sentido da vida, em que o poeta parece perquirir até sobre o destino de um inseto; em que parece tentar, como Drummond, escancarar as engrenagens da máquina da vida e do mundo, para lhes descobrir os mistérios e segredos e, quem sabe, desvendar os enigmas da vida e da morte, conforme se pode ver nestes versos do poema Interrogativo:

Quantos anos vive um vaga-lume?

Será que a sua luz, depois da sua morte

continuará iluminando pequenos caminhos

e veredas incontaminadas?

Será que ela se extingue com a sua morte?

Muitos poetas, críticos e teóricos acham que um poema deve causar no leitor alguma estranheza, algum espanto e certa perplexidade. Muitas imagens e metáforas do nosso vate são inusitadas, extravagantes e inesperadas, como se pode comprovar nos versos abaixo (do poema Por que ninguém falou?):

Dentro da noite alguém chegou.

Tinha nas mãos um facho que sangrava

e não era luz. Mas, sangue, simplesmente.

O poema Fábula sem animais, que, não obstante o título, refere alguns animais, como um bicho-da-seda, a encasular o sonho, um calangro de sal, a fazer gestos e caretas no espelho do espetáculo, parece ser uma verrina ou catilinária sutil, em quase surdina, contra os crimes e pecados dos gananciosos, dos usurários ou agiotas, e, sobretudo, das mazelas do capitalismo selvagem. Estes versos me parecem sintetizar o texto em comento:

Depois da queda, o grito da vingança,

o apanhar das urzes, o velório do

avião que despencou na neve:

o sangue que esguichou manchou o dólar.

No poema acima comentado, aparecem trechos lavrados num surrealismo hermético, de difícil exegese, frutos talvez da chamada escrita automática, em que o poeta, de forma quase mediúnica, deixa jorrar o seu pensamento ou inspiração, sem lhe analisar a racionalidade ou a lógica, ou, quiçá, sejam filiados à vertente do onirismo, em que a realidade se mistura com a estranheza mágica de um sonho, conforme vislumbrei nestes versos:

O sangue ensanguentado de uma estrela

lavou o frigorifico do espelho;

foi a mensagem que o governo deu

à casa de misericórdia dos camelos.

Lua e sentença foi elaborado em prosa e verso, mas em prosa rítmica e altamente metaforizada, com imagens insólitas, de grande beleza, todavia de conteúdo social, em que o poeta nos parece advertir que o ser humano é um “antropófago”, que o homem é o lobo do próprio homem. Vejamos, como exemplificação, essa pequena parte de um dos trechos em prosa: “A lua. Somente a lua espreita, é um cata-vento que tem dentro de si a rosa dos ventos de todos os loucos. É o horóscopo dos gnomos que obstruíram o canal uretral da princesa que acordou no vácuo”.    

Agora, passarei a tratar, de forma breve, do longo poema Argila da memória; longo, sobretudo, para os dias apressados de hoje.

Em suas páginas preambulares, o próprio autor o rotulou como sendo uma “Rapsódia dedicada à cidade de Amarante, no Piauí”. Por essa razão, o vejo como um poema longo, contudo composto de vários poemas (ou segmentos) menores, de inúmeras temáticas e formatos, inclusive de poemas em prosa, mas de alta voltagem lírica e metafórica.  

Sem dúvida essa “rapsódia” é também uma espécie de crônica memorialística e uma viagem de retorno espiritual, sentimental e poético à sua cidade natal, a nossa encantadora e encantada Amarante, que o grande Da Costa e Silva, impregnado da mais pungente saudade cantou, exilado por força de seus estudos e de suas funções públicas. Creio estes versos comprovem o que acabo de dizer:

            Aí me encontro. A música da noite

diz dessa origem humilde. Qual espelho

confidente, solerte, deslumbrado.

Dizem que nas matrizes encontramos

a sombra que ficou de quando éramos.

Em sua dicção evocativa, percebemos a beleza da paisagem, o encantamento de seus rios, de suas margens, das serras azuis dacostianas. Mas nem por isso são esquecidos o pranto da família, a canção do vizinho, a percepção de que sofremos, “a humilhação, a infâmia, / a corrupção do encanto / e a morte da pureza”. Como se pode ver, essas memórias se revestem, muitas vezes, de dolorosa pungência.

Em pinceladas altamente elegíacas o poeta chora a decadência da cidade, a sua tristeza, que, todavia, persistem, nos parentes que estão morrendo, nos defuntos que repousam lado a lado, nos tatus que perfuram o cemitério, nas enchentes do rio. Não posso deixar de transcrever estes poucos versos:

há cheias, invasões, o rio sobe,

Chega ao muro dos despojamentos

E a cidade permanece.

Em grande parte dessa rapsódia, em versos límpidos, claros, contudo, elegíacos, o vate lamenta as suas perdas, as moças que não se casam e que, “salpicadas de desejos, definham”. Quase toda a obra é permeada de excelentes versos, recheada de lindas e melancólicas metáforas, que nos comovem e nos enchem do êxtase da estética do sublime.

Os hábitos familiares, os costumes, as superstições, as crendices, os tabus, os preconceitos, a religiosidade, a igreja e o padre que ouve os pecados da cidade, nada escapa à crônica saudosista e ao olhar perscrutador e arguto do bardo, como nesta brevíssima passagem:

... As andorinhas sujam a hora sagrada.

E a lua nova salpica de lobisomens as sombras das gameleiras.

Em versos pungentes, mas de inefável beleza, o bardo canta o rio, as suas enchentes caudalosas e assustadoras, os seus redemoinhos ou sorvedouros traiçoeiros, que tragaram a vida de muitos meninos inocentes, os gargarejos das águas, a ânsia dos afogados, o esplendor das moças que com o rio se casaram. No meio dos vários poemas, de diferentes metros e formas, se encontra um excelente soneto, que me sinto compelido a transcrever na íntegra:

O Rio Parnaíba

Gargarejo de mortes de afogados

e brilho de luar sobre o silêncio

ruídos sem barulho de asas brancas

invisíveis na esteira do mistério.

 

Embarcações fantasmas com seus remos

violando o espelho da corrente

e a história dos antigos moradores

que perlustraram a estrada do degredo.

 

Nas margens as perguntas os inquéritos

o tiro a interjeição e a morte cinza:

gargalhada de álcool nas bodegas.

 

A indiferença escorre como gosma

e o rio na derrota da incerteza

leva faunas estranhas no seu ventre. 

Argila da Memória, conquanto seja uma rapsódia permeada de pungente saudade e melancolia, por sua beleza ímpar, comovente, parece ser o canto de exaltação e de louvação de Clóvis Moura à sua cidade. É um grande poema, uma espécie de épico moderno, não pelo seu tamanho, mas por sua magnífica beleza e impacto emocional que nos causa.

Como já disse, não encontrei nos livros de que disponho, e são muitos, nenhum comentário crítico sobre a notável poesia de Clóvis Moura. Dessa forma, penso ter dado um fraco e modesto pontapé inicial ao estudo de sua obra poética. Espero que outros desenvolvam trabalhos, com mais vigor e beleza, sobre o grande poeta, e possam marcar um belo “gol de placa”, que não pude, por falta de preparo e competência, fazer.   

 

4º MOVIMENTO – PEQUENO FINAL

 

Concluo esta palestra, evocando a memória dos grandes poetas Clóvis Moura e Da Costa e Silva, com as mesmas palavras com que iniciei minha crônica Recuerdos de Amarante, na qual relato fatos acontecidos há mais de 35 anos:

“Tenho gratas recordações da encantadora e bucólica Amarante. Quase diria que algumas remontam à minha infância, através dos belos versos de Da Costa e Silva, que sempre me comoveram, quando falava da igreja branca, do bando de casas estampadas na paisagem verde, dos saudosos mugidos dos bois de sua terra, dos rangidos plangentes dos engenhos, ou ainda do Velho Monge, alongando suas barbas brancas, feitas de água e espuma. Da Costa é um poeta que ainda hoje me comove e encanta. Tanto que, quando presidi a União Brasileira de Escritores do Piauí, porfiei em trazer seus restos mortais para a sua Amarante. Na campanha, como um dos mais fortes argumentos, usei os seus versos imortais, em que ele pedia para ser sepultado em plagas amarantinas, quando disse que ali tivera o berço e que ali esperava ter “sete palmos de gleba e os dois braços de um lenho”. Lamentavelmente a campanha não obteve êxito, mas ainda acho que eu estava no caminho certo. Em sua terra, seu túmulo seria um monumento, e seria visitado e reverenciado pelos seus conterrâneos amarantinos e piauienses.”

Agora, nos aproximando de 2025, quando Clóvis Moura fará o seu Centenário e serão comemorados os 140 anos do nascimento de Da Costa e Silva, não seria o momento apropriado para ser construído em sua cidade natal um Museu/Mausoléu/Memorial a estes dois magníficos poetas amarantinos e brasileiros?

Deixo a pergunta e a sugestão aos detentores do Poder Público de Amarante e do Piauí.

 

(*) Palestra proferida por José Elmar de Mélo Carvalho, no dia 1º de dezembro de 2023, em Amarante, no Museu das Letras, dentro do evento Colóquio Poético Clóvis Moura, promovido pelas entidades Confraria Camões, Observatório da Língua Portuguesa, Museu do Divino, Academia de Letras de Amarante e Academia de Letras do Médio Parnaíba. 

domingo, 3 de dezembro de 2023

MOISÉS

Fonte: Google

 

MOISÉS


Elmar Carvalho

 

Escravo,

não sou escravo da submissão

e meu último adeus será uma corrida

com os pés fora da corda-bamba.

Escreverei

um manifesto assinado

com o sangue de cada um,

com o suor de todos,

todos mocinhos

de um filme sem mocinhos.

Escarnecerei

os muros e os tetos das prisões

porque são exceções de um regime de

exceção.

Escangalharei

as portas do céu

e os portões do inferno

e soltarei a liberdade. 

           Parnaíba, 02.04.78

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Colóquio Poético Clóvis Moura

 


Admirável mundo dos palavrões e calões


 

Admirável mundo dos palavrões e calões


Fabrício Carvalho Amorim Leite


Avisa-se, leitor sensível, que a crônica adiante inclui palavras depravadas e pecaminosas (sobretudo para os falsos moralistas); insultuosas, perversas e da mais alta maldade e periculosidade. E, pede-se às crianças que saiam do ambiente.

De fato, minha introdução ao sedutor universo dos palavrões e calões ocorreu na infância, com o tio Xixita. Este, no conforto de um Chevrolet Caravam, acionava a buzina ao menor sinal de barbeiragem dos outros motoristas. Em seguida, um p*ta que o pariu, vai à m*rd*, burro, jumento, t*b*cudo ou xibungo, demostravam, assim, a sua notável erudição.

Infelizmente, com a chegada do ar-condicionado veicular, tio Xixita perdeu o posto de xingador mor e de alto escalão da família. E o Caravam foi para o cemitério dos car*lhambeques.

Vejam bem, os xingamentos dele não desaparecerem. Foi por culpa do abafamento do som, trazido pelos vidros elétricos das janelas dos carros, o querido Titio Xixita perdeu o portentoso título.

Agora, tudo que lhe resta é arregaçar as mangas com punhos cerrados, mostrar a língua para aumentar a f*leragem e, tal como um mestre no ofício, exibir o torto dedo médio aos coleguinhas motoristas. Isso, sem bofetadas, claro.

Para mim, o titio foi um visionário, espécie de Henry Ford dos calões, com colhões e muitos cabelos na venta (que é sinal de cabra macho e brabo), daqueles que, mesmo a ferro e fogo, venceram o fodástico mundo das aparências e convenções.

Do seu jeito, extravasava os seus inventivos sentimentos, já que, antes da terapia dos calões automobilísticos, era um sujeito que sempre estava em apuros e partia logo para a porrada.

E, pelo visto, titio deixou discípulos na família. Já que apreendi muito com o professor, tão e tanto que, num dia desses, ao topar numa pedra, soltei logo um f*d*-s*, f*o da égua e c*ralhos o f*dam!

Desgraçada pedra que me lascou o dedão do pé direito. Fiquei furibundo, de nariz torcido (e dedão também), como um cão raivoso (palavrõezitos).

Mesmo assim, quando o dedão ficou melhor, fui ligeiro andar a coçar o c* pelas esquinas, fazer cera, versos à Lua, andar a flaino, a preguiçar e a mandriar no boteco até entornar o caneco...

(*) cronista e contista.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

TRÊS IRMÃOS EM TRÊS TEMPOS


                      

TRÊS IRMÃOS EM TRÊS TEMPOS


Elmar Carvalho

 

Recebi o livro “A Medicina, a Família e as Letras”, da autoria de Paulo Ferreira, de caráter autobiográfico. Nele, o autor conta a sua vida, desde o nascimento até a sua carreira vitoriosa de médico e de empresário do setor de saúde. Conheci o Paulo e seus irmãos Clemilton e Gilberto Ferreira, desde nossa adolescência e juventude.

 

Com eles mantive amizade e respeito recíprocos. Gostava de ouvir a gargalhada reverberante e altissonante do Clemilton, quando via ou ouvia alguma coisa engraçada. Certa feita, ao chegar a uma bodega, cumprimentei os presentes, e dirigindo-me a ele disse que ele era um gigante, um verdadeiro cavalo batizado.

 

Ele, no mesmo instante, respondeu-me que não, que apenas batizava os cavalos. Todos riram da resposta, e o Clemilton mais que todos. Não perdi o rebolado, como se diz, e retruquei: - “Então corre, vai buscar água, e batiza-te primeiro a ti mesmo, pois tu és o mais cavalo de nós”. Todos acharam graça do meu repente, inclusive o Clemilton, que disse eu não ter mesmo jeito, e querer ganhar sempre.

 

Ele, que nessa época, começo dos anos 70, fazia o curso de Técnica Agropecuária no famoso Colégio Agrícola de Teresina, foi abordado por um vizinho para fazer o diagnóstico de uma vaca que havia morrido. Respondeu que não poderia fazer tal coisa, porquanto se o animal estava morto só poderia fazer a necrópsia, e soltou o estardalhaço de sua vibrante gargalhada.

 

Quando foi trabalhar como técnico em agropecuária ganhou fama logo no início de sua carreira. Havia uma rês magérrima, quase à morte, pois se recusava a comer. Outros técnicos e veterinários examinaram a vaca e não conseguiram descobrir a doença. O nosso bravo Clemilton também foi chamado para solucionar o problema. Logo ao chegar, pediu que atravessassem um pau na boca do animal. Meteu-lhe a mão garganta adentro, e remexeu-a, atentamente e de forma circunspecta, de um lado para outro.

 

Descobriu um caroço de mucunã, entalado em sua garganta, mas o escondeu na mão, para valorizar o seu trabalho. Logo que pôde, guardou o caroço no bolso da calça, de forma discreta, de modo que ninguém visse. Depois, aviou uma receita para desinflamar a garganta bovina. E esperou o resultado. Depressa soube que o animal voltara a comer e que se encontrava completamente restabelecido. Ganhou fama de ser o maior “veterinário” da região e de ser quase milagroso.

 

O Gilberto é mais sisudo, embora também tenha senso de humor. De boa voz, rítmica entonação e de bom poder argumentativo, tornou-se respeitado advogado criminalista. Foi atuante e dinâmico líder estudantil, sendo um dos fundadores da AUCAM (Associação dos Universitários de Campo Maior). Presidiu a Casa do Estudante Pobre do Piauí, situada na Rua Rui Barbosa, em Teresina. Em sua gestão foi inaugurado o anexo, que fica por detrás do bloco antigo. Professor de História, certamente essa disciplina lhe serve para enriquecer e ilustrar a sua retórica forense. Foi, durante algum tempo, uma das lideranças proeminentes do PDT.

 

Quanto ao Paulo, veio para Teresina, onde cursou o 2º Grau e se formou em Medicina. Graças a seu esforço e tino administrativo e empresarial, construiu, aos poucos, mas sempre de forma segura, sem endividamentos temerários, o Hospital das Clínicas de Teresina. Dentro de seu planejamento e possibilidades, foi expandindo a área construída, com novos anexos e melhoramentos, e hoje pode ser considerado um dos grandes empreendedores de Teresina.

 

Já se prepara para construir um shopping na zona norte da capital, mais precisamente num grande terreno que possui na frente do HCT. Não duvido que esse empreendedor logo dará a Teresina um novo centro comercial; coisa, aliás, de que a capital já está precisando. Não deixou, contudo, de ser aquele rapaz simples, afetivo, amigo dos amigos, de sorriso largo e franco, além de ser o médico humanitário e vocacionado que é.

29 de junho de 2010

domingo, 26 de novembro de 2023

SONATA EM DOR MAIOR (*)

 

Fonte: Google

SONATA EM DOR MAIOR (*)


Elmar Carvalho

 

A mesa está posta,

mas os pratos estão vazios.

O meu povo não tem

talheres, nem colheres,

por isso come com

as mãos o que não

existe nos pratos.

O meu povo vota em

eleições para presidente

da república (de estudantes),

            mas sonha votar

            na eleição para

            Presidente da República

            Federativa do Brasil.

O meu povo deseja bater

palmas para as estátuas dos

            heróis libertários.

            Mas como se as mãos

            e os pés estão atados?

Em 1888 acabaram com a

escravidão no Brasil. Mas que escravidão?

            Se antes os escravos eram pretos,

            hoje são de todas as cores,

e cantam com raiva a “Esparrela do Brasil”. 

           Parnaíba,13.10.78

(*) Como é fácil de se notar, este é um poema "datado", mas, de certa forma, ainda é atual, se considerarmos certas mazelas do Brasil de agora, como, sobretudo, certas condições de trabalho, análogas à de trabalho escravo, e a miséria ainda reinante.

domingo, 19 de novembro de 2023

ALEGORIA DA FOME

 

Fonte: Google

ALEGORIA DA FOME


Elmar Carvalho

 

A pobreza um dia

bateu à minha porta

sob a forma de um menino

magro, sujo e maltrapilho.

E catou com suas mãos esquálidas

o sujo conteúdo

de meus sacos de lixo.

Foi quando eu saía

para o trabalho.

O menino, ou antes, um

bicho assustado correu.

Fui no seu encalço

em minha moto uivante.

O menino correu ainda mais,

varou cercas de arame farpado,

penetrou no terreno baldio por entre

arbustos espinhentos e urtigas,

com olhos e gestos de terror,

como se eu fosse espancá-lo.

E eu somente queria dizer

que ele podia catar o lixo.

Apenas não espalhasse

o resto do lixo

sobre a calçada.

Mas o meu pequeno irmão

feito bicho espavorido

tem medo dos outros bichos

que se dizem seu irmão.

E o meu irmão tem razão.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Flagrantes da Expedição da APL a Pedro II

Fonte: Google

 

Flagrantes da Expedição da APL a Pedro II

 

Elmar Carvalho

 

Conheci a imperial cidade de Pedro II no final dos anos 1970, em plena juventude, numa viagem meio intempestiva e aventureira, que fiz de motocicleta, quando morava em Parnaíba. Ela era, então, uma linda e pequena urbe, bucólica e aprazível, de clima ameno, com um acanhado comércio. Com os seus casarões solarengos, ainda bem preservados, no entorno da Praça da Matriz, parecia uma cidade extraída de uma pintura magnífica.

Agora, passados mais de quarenta anos, me surpreendeu a pujança de seu comércio, inclusive com ampliações de imóveis e novas construções, ao longo de uma larga e bela avenida. Dez anos atrás, a revi novamente. Durante este decênio notei que ela cresceu muito. Perguntei a algumas pessoas a que atribuíam esse rápido progresso.

O notável economista Felipe Mendes me disse ser uma das causas o repasse de verbas federais, sobretudo a partir do governo FHC. Troquei ideias a respeito com o confrade Reginaldo Miranda, e chego à conclusão que outras causas devem ter contribuído, entre as quais: peculiaridades e atrativos locais, que atraíram o turismo, atividades agropecuárias, hortifrutigranjeiros, artesanato, extração e comercialização de opala etc. Deixo a palavra final com os economistas e estudiosos do assunto.  

À noite de sexta-feira, dia 10, dentro da meta de interiorização da Academia Piauiense de Letras - APL, houve a solenidade de nossa entidade, em parceria com a Prefeitura e a Academia Pedro-Segundense de Letras e Artes – APLA, ocorrida no Memorial Tertuliano Brandão Filho. Compuseram a mesa de honra Zózimo Tavares, presidente da APL, prefeita Elisabete Brandão, deputado Wilson Nunes Brandão, Pedro Barros, presidente da APLA, professora Fides Angélica, secretária geral da APL, Socorro Rios Magalhães, Viriato Campelo, vice-reitor da UFPI, Des. Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, presidente da Academia de Letras da Magistratura Piauiense, e Carlos José de Oliveira Santos, presidente da Câmara Municipal de Pedro II. Fonseca Neto, na qualidade de 1º secretário da APL, proclamou em alto e bom som as efemérides da Academia.

A professora Socorro Rios Magalhães fez uma excelente palestra, sobre o tema “Literatura Piauiense: Formação do Sistema Literário Estadual”, em que discorreu sobre os primórdios de nossa literatura, com as manifestações isoladas de escritores e poetas, como Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, Leonardo de Carvalho Castelo Branco e José Coriolano de Souza Lima, até a formação de nosso sistema, com a existência do trinômio autor, obra e leitor. Em sua palestra de recepção à APL, o acadêmico (da APLA e da APL) Wilson Brandão abordou importantes fatos da história de Pedro II, bem como citou as mais ilustres figuras históricas do município, em diferentes campos de atividade, entre as quais Wilson Andrade Brandão, seu pai, que foi presidente da APL, jurista, historiador, autor de vários livros, professor da UFPI, secretário de Estado da Cultura e deputado estadual em vários mandatos.

Após a solenidade, participamos de um farto banquete na residência do casal Elisabete e Wilson Brandão, em que houve animado sarau poético-musical. Comidas e bebidas saborosas e variadas, houve à vontade. Logo à entrada, o confrade Plínio Macedo destacou que fomos “recebidos literalmente com um tapete vermelho”. Depois, pude notar que não fora apenas um “literal tapete vermelho”, mas também um metafórico tapete vermelho, pela fidalguia como fomos tratados e acolhidos. Sentei-me perto de Valério Carvalho, que já conhecia de vista, e do Raimundo Nunes, casado com Lourdes Amélia, irmã de nosso anfitrião.

Entabulei com os dois “vizinhos” uma profícua conversa sobre genealogia piauiense e sobre figuras ilustres de Floriano, terra natal de Valério. Logo que cheguei, este se interessou em folhear o meu minúsculo opúsculo “O Poeta e seu Labirinto”, uma seleta de apenas 21 poemas de minha autoria. Disse-lhe que não precisava ler os poemas, mas apenas o ensaio, nele contido, sobre a minha poesia, da lavra do professor Carlos Evandro Martins Eulálio. Tive a honra de autografá-lo ao Valério, que no dia seguinte me deu a auspiciosa notícia de que sua esposa, a médica Luciana, o havia lido na íntegra.

No sábado, cedo, fomos visitar o Mirante do Gritador. Passamos por três importantes povoados, que já começam a formar uma conurbação entre si e a cidade de Pedro II. Do mirante vimos uma deslumbrante paisagem, cercando um pequeno grupo de casas e um balneário. Em certo ponto do mirante, parece que o vento passa por uma espécie de boqueirão, e faz com que objetos leves levitem e não caiam no despenhadeiro.

O poeta Ernâni Getirana foi escalado para fazer uma breve palestra sobre a geografia e geologia do entorno. Ele nos explicou que ali, outrora, existira um mar. Acredita-se que o mesmo cataclismo que formou a serra da Ibiapaba, teve como consequência a formação do Morro do Gritador e teria escorraçado a água para a região de Luís Correia. Falou das lendas locais e do episódio que teria dado origem à denominação Morro do Gritador. Um jovem, que corria em perseguição a uma rês, teria sofrido um acidente e caído no abismo, arrastado pelo laço com que prendera o animal. Ao cair, soltara um grande grito, que reverberara nas pedras, através de sucessivos e amplificados ecos. Sugeri ao poeta uma outra versão, pela qual os gritos eram do pai, desesperado, à procurara do filho perdido. Isso me fez lembrar um poema de Mário de Andrade, sobre a Serra do Rola-Moça, cujos versos finais transcrevo:  

Ai, Fortuna inviolável!

O casco pisara em falso.

Dão noiva e cavalo um salto

Precipitados no abismo.

Nem o baque se escutou.

Faz um silêncio de morte,

Na altura tudo era paz ...

Chicoteado o seu cavalo,

No vão do despenhadeiro

O noivo se despenhou.

 

E a Serra do Rola-Moça

Rola-Moça se chamou.

Após, retornamos à cidade para conhecer ou rever as vetustas casas, em estilo colonial, da Praça da Matriz, em que se encontra um belo busto de Dom Pedro II, que declarou, que, se não fosse imperador, gostaria de ser professor. Exerceu com dignidade as atribuições (e consequentes atribulações) de seu cargo. Também vimos na sala de reunião da prefeitura um grande e esplêndido quadro, em que esse soberano foi retratado em perfeito trabalho de pintura. Infelizmente, não se sabe ao certo quem o pintou. Acredita-se tenha sido uma freira, professora de arte, do Colégio Sagrado Coração de Jesus, de Teresina, há cerca de 100 anos, que por modéstia não lhe teria aposto sua assinatura.

Ao atravessarmos a praça, o poeta Getirana nos avisou que no próximo ano pretende fazer um evento em seu espaço cultural Cruviana. Disse-lhe que desejava isso acontecesse numa noite enluarada, de forte cruviana, para que eu pudesse tomar uma generosa talagada da calibrina artesanal Cruviana, tendo como tira-gosto uma saborosa curvina.

A Jaqueline Nobre nos informou que iríamos ver as famosas redes, do artesanato local. Adverti que, já cansado da maratona, iria apenas me deitar numa rede, para melhor olhar minhas “redes sociais”. Ao chegarmos ao mercado, optei por ir tomar umas duas cervejas na boa e erudita companhia do confrade e amigo Carlos Evandro, no andar de cima, bem ventilado, que funciona como uma praça de alimentação. Visitamos também uma oficina e loja, em que as opalas eram lapidadas e transformadas em joias, onde ouvimos explicações sobre as minas, a extração das pedras e esse trabalho artesanal.  

Ao passarmos por uma floricultura, o amigo Fonseca Neto apontou para uma linda planta, com lindas flores roxas, quase esmaltadas, que disse ser um getirana. Não pude deixar de me lembrar do poeta, que ostenta esse florido nome. Também, por causa da cor dessas flores, me lembrei de um outro bardo que, já idoso, talvez nostálgico de sua mocidade, escrevera estes versos, acaso queixoso dos vívidos tempos idos e vividos:

E a saudade,

Que dizem ser roxa,

Ó como é bom lembrar

Um belo palmo de coxa.

Após deixar o local das redes e das rendas, eu disse para um grupo de amigos, que a uma “redeira”, que apenas poderia me enredar, eu preferiria uma “rendeira”, que tem renda, como o nome indica, embora pudesse ficar preso nos labirintos dos bilros e almofadas. Sorrimos, e voltamos ao hotel, para almoçarmos e retornarmos a Teresina. Antes, porém, vi o Des. Oton Lustosa com duas garrafas. Ao cumprimentá-lo, ele me disse que se tratava da cachaça artesanal Cruviana. Como eu lamentasse não a ter comprado, ele, gentilmente, me ofertou um dos frascos; disse-lhe que só a beberia quando fizesse uma forte cruviana em Teresina, quando a degustaria com um tira-gosto de curvina. Ele me informou que curvina, hoje, só as há, quiçá, na lagoa de Parnaguá.  

Fizemos uma boa e rápida viagem de retorno, sem nenhum incidente e acidente, ao menos dignos de nota, de modo que este escrivão dá por encerrado este breve relato.    

domingo, 12 de novembro de 2023

CIDADE GRANDE

 

Fonte: Google


CIDADE GRANDE


Elmar Carvalho

 

Dando (m)urros

no vazio

por causa da dor

                   da doidice

da vida

da vivida mediocridade

entre as ruas

                nuas sujas tristes

as ladras

     ladram como cães

e os cães

gemem como homens.

Na (c)idade

do lobo

o lobo-homem

é o lobisomem

      do homem.

Tudo é

ferro feio (en)ferrujado

ferindo feridas

já abertas.

Na cidade

na cilada

das suas ruas

surgem (g)ritos

lavados em sangue

lavrados a ferro e fogo.

Soltam berros

soltam (b)urros

prendem os b’rros

que incomodam.

Na cidade grande

onde não existe

pôr-de-sol

o homem gira e pira

       sem (gira)sol

       sem (guarda)sol.

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Na Feira Literária de Caxias


Frederico Torres, Inaldo Lisboa e Elmar Carvalho

 

Na Feira Literária de Caxias

 

Elmar Carvalho

 

Estive em Caxias, alguns anos atrás, em duas ou três ocasiões. Pude ver as suas belas e velhas igrejas e os seus vetustos casarões e sobrados, que parecem ser o vestígio de uma época de fastígio econômico, sendo necessário dizer que a cidade se reinventou através do setor de serviço e comércio, como ocorreu com a nossa Parnaíba. Como não poderia deixar de ser, em seguida arrematei o passeio, indo à Veneza caxiense.

Em 7 de junho de 2011 publiquei em meu blog o meu texto “O Pantheon de Caxias”, em que falo um pouco de seu patrimônio arquitetônico, de sua história e dos velhos poetas e escritores, que são homenageados na Praça do Pantheon.

No panteão são destacados Vespasiano Ramos (e a sua sede ardente pela samaritana de seu imortal soneto), Francisco Dias Carneiro, industrial e poeta, que prefaciou um dos livros da poetisa piauiense Luíza Amélia de Queiroz, Coelho Neto, que “batizou” Teresina com o título de Cidade Verde, e Gonçalves Dias, o grande poeta nacional, o verdadeiro fundador de nosso Romantismo, pela qualidade de seus versos. Em tempos idos, conheci os boêmios e intelectuais Vitor Gonçalves Neto e Cid Teixeira de Abreu, professor da UFPI, poeta de excelente linhagem e fina tessitura, ambos visceralmente ligados a Caxias e Teresina.

Neste ano, em que se comemorou o Bicentenário do excelso poeta de Canção do Exílio, integrando comitiva da Confraria Camões, pronunciei uma palestra sobre o imenso bardo, na sede da Academia Caxiense de Letras. Falei sobre sua vida e comentei sua obra literária. Estavam presentes notáveis professores, escritores, historiadores e poetas de Caxias, entre os quais Eziquio Barros Neto, Wybson Carvalho, Erlinda Bittencourt, Francigelda Ribeiro e Edmilson Sanches. Da Confraria, entre outros, se encontravam na solenidade Nílson Ferreira, seu presidente, Jessé Barbosa, Frederico Rebelo e eu. Coroando tudo, à tarde, perto de nosso retorno, ainda tomei uma pinga no Bar do Cantarelli, reduto irredutível de intelectuais e boêmios. O proprietário ganhou esse honroso apelido em homenagem ao Flamengo e seu legendário goleiro, do qual é torcedor fla-nático. Posteriormente, participei de uma live, promovida pelo Institut Cultive Suisse Brésil, em que discorri sobre os poemas dramáticos de Gonçalves Dias, a qual se encontra disponível no You Tube.

Por último, fui convidado para ser debatedor na mesa-redonda “Interfaces entre a dramaturgia e a literatura”, juntamente com o escritor e professor Inaldo Lisboa, cineasta e dramaturgo. Foi um dos vários eventos artísticos e culturais da VI Feira de Literatura, Cultura e Turismo da Região dos Cocais – FLICT, e que teve a mediação do escritor e poeta Frederico Rebelo Torres.

Mesmo não sendo um homem de teatro, posto que não sou ator, diretor ou dramaturgo, resolvi enfrentar o desafio. Tentei encontrar, através das lojas internéticas, um livro sobre o assunto específico, mas não tive êxito em minha procura. Decidi, então, apelar para as lembranças de minhas leituras esparsas, ao longo de minha vida, e para o que aprendi com as poucas peças teatrais, a que assisti.

Na minha parte expositiva do debate, resolvi incluir o cinema, que considero filho da literatura, mas, talvez, sobretudo do teatro, conquanto seja fruto de sofisticada tecnologia, com o uso de muitos efeitos especiais e outros truques, e tenha cenas e cenários, mais amplos, mais flexíveis, mais dinâmicos. Ambos precisam de atores, de diretores e de um roteiro ou peça. Assisti a filmes e “dramas” ainda na minha meninice, porque havia em minha cidade o meu Cinema Paradiso, no caso o meu saudoso e inesquecível Cine Nazaré, e os circos mambembes de minha infância, que encerravam seu espetáculo com alguma peça teatral, muitas vezes tragédias lacrimejantes, a que meus pais me levaram algumas vezes.

Resolvi, em minha fala, ficar adstrito ao tema, sem entrar em digressões outras, sem tergiversações ou temas transversais. Como se diz, fui direto ao ponto proposto e dele procurei não me afastar. Dessa forma, falei dos pontos de contato entre o teatro e a literatura. Fiz o cotejo de suas afinidades e divergências, de suas vantagens e desvantagens comparativas, de suas limitações e possibilidades.

Disse que, no teatro ou no cinema, o assistente tem que acompanhar o seu tempo, a sua duração, e não pode “dar asas à imaginação”, uma vez que o cenário, as personagens e os sons são mostrados, no palco ou na tela, ao passo que na literatura o leitor pode imaginar o aspecto e detalhes de uma paisagem, as feições e a voz da personagem etc., e pode diminuir o ritmo da leitura, para melhor entendimento e reflexão. Evidentemente, deixei claro que o público ledor é cada vez menor, ao passo que o teatro, o cinema e os audiovisuais se tornam cada vez mais atraentes, mais aliciantes, com um público consumidor cada vez mais vasto.

Fiz a viagem a Caxias em companhia de meu amigo Frederico Rebelo Torres, que chamo de Dom Frederico de las Torres, bom camarada que me deu carona, e que não vive encastelado em altas torres ebúrneas. No parque ambiental, onde ocorria a Feira, contamos com a solicitude da professora universitária Francigelda Ribeiro e do poeta Wybson Carvalho, que faziam parte da organização da FLICT, realizada no período de 17 a 19 de outubro do corrente ano.

E constatamos que a Feira se tornou um acontecimento literário muito grande, poderoso e de alta qualidade, com dezenas de eventos realizados a cada dia, tais como palestras, debates, entrevistas e lançamentos de livros, e que efetivamente promove a literatura, os escritores e os poetas, dando-lhes visibilidade, porquanto conseguiu atrair razoável e interessado público.  

domingo, 5 de novembro de 2023

GALO MAGRO

Foto meramente ilustrativa   Fonte: Google

 

GALO MAGRO


Elmar Carvalho

 

Galo Magro

         não tinha

         penas multicores

         não tinha canto

         nem encanto

         não tinha crista

                  nem cristais de prata.

Sim, senhores, porque Galo Magro

        era apenas o apelido

        de um menino pobre,

        de um menino feio,

        de um menino com fome,

        de um menino sem nome,

como milhares de

outros meninos do Brasil.

        Galo Magro

        jogava bola

mas um dia

para driblar a fome

encravada no seu bucho

ainda menino foi ser

motorista de táxi.

        Um dia,

        um dia como

        outro qualquer,

        um dia simples

sem exuberância de sol

e sem adorno de nuvens

um homem mandou

que o Galo Magro

fizesse uma corrida

        à passagem do

        “Vai-não-Volta”.

        E o Galo Magro

        foi e não mais voltou.

Foi encontrado morto

        com o olhar de

        vidro absorto

        fitando o vazio

        do sem futuro.

Foi encontrado morto

        com os olhos tristes abertos

        fitando talvez a quimera

da vida perdida de quem nada espera

da vida perdida

de pobre diabo

completamente morto

morto ainda em vida

de morto morto e acabado.

 

                (Uma rosa rubra de sangue coagulado

                brilhava muito viva e linda em seu

                peito frágil de Galo Magro magro.)

sábado, 4 de novembro de 2023

Poeta da Estação ou Helano, o último heleno

Fonte: Google/Maria Luselene

Vieira Jr. e Helano Lopes



 

Poeta da Estação ou Helano, o último heleno

 

Elmar Carvalho

 

No dia 28 passado, sábado, ainda cedo, fui a Campo Maior. Tinha o compromisso de cumprir uma missão na Academia Campomaiorense de Ciências, Artes e Letras. Iria proferir o discurso de recepção ao acadêmico Gildário Dias Lima. Fui em companhia de Fátima, do escritor e crítico literário Carlos Evandro Martins Eulálio e de sua esposa Rita.

Tendo chegado com boa antecedência, fiz o contorno do mimoso e pequenino Açude Grande, sem pressa, e me dirigi à velha Estação Ferroviária da cidade, que se encontra em estado de quase abandono, e já um tanto deteriorada. Nesse prédio funcionava o célebre Museu do Zé Didor, que seria referido em meu discurso, por ser o antecessor do novel acadêmico Gildário.

Vi a vila de casas, onde residiam funcionários e militares do BEC, que contribuíra para a construção da via férrea da antiga Estrada de Ferro Central do Piauí - EFCP, vinda da outrora Amarração, hoje Luís Correia. Ali, ainda vi desfilar uma velha “maria fumaça”, cujos penachos de fumaça e vapores, além das negras ferragens e engrenagens, me despertavam certo pavor. Vi também a Praça da Estação, outrora bonita, bem conservada, com seus monumentos ornamentais. Precisa ser restaurada, para que readquira a sua antiga beleza. Nela, à noite e ao ar livre, nos anos 1960, eram exibidas películas cinematográficas.

Como não poderia deixar de ser, me lembrei do Poeta da Estação, o Helano Lopes, que, em alusão ao seu nome, chamo de o “último heleno”. Sabia que logo mais iria revê-lo na solenidade de posse, como de fato revi e cumprimentei com efusão. Após pronunciar o meu discurso, retornei a meu lugar, na plateia. Helano sentou-se ao meu lado e me parabenizou pelo discurso, com vívido entusiasmo. Em seguida, sacou um pedaço de papel e começou a escrever de forma concentrada. Ato contínuo, me repassou o seguinte texto, que para mim vale mais do que certas homenagens:  

“És o alfaiate

Na arte de escrever –

Que hábil prazer

Tens ao alinhavar

As palavras no cerzir

Dos diversos fatos –

Bordando ágil

As formas poéticas

Orquestrando

A rima na harmonia

Do ser pleno e sereno

Poeta mor!... vibrante

Filho de Campo Maior

            ESPECIAL

Ao irmão e poeta

ELMAR CARVALHO”

Em seguida vem a data e a sua assinatura personalíssima, que é uma verdadeira obra de arte, sob a qual colocou seu epíteto literário – POETA DA ESTAÇÃO.

Não bastasse isso, o irmão e poeta Helano Lopes, no grupo de WhatsApp da ACALE, postou o seguinte comentário, que muito me desvaneceu, com o qual encerro este arremedo de crônica:

“O discurso de Elmar me fez, fazer de improviso um curto poema num limitado pedaço de papel que saquei de minha carteira. Fiz este, ladeado pelo titânico aedo Elmar! Nobre e fidedigno confrade e irmão maçônico. Um naipe raro e magnânimo da plêiade campomaiorense. Um alfaiate do dom de escrever e falar. Atento ao seu magnífico discurso, vi e ouvi alinhavar com maestria os tópicos dos fatos que iam sendo expostos por este. Cerzia com habilidade e plena sabedoria as palavras, as expressões e sinônimos no âmago da plateia atenta.  Que glória! Nobre vate, sentir e ver ressoar nos meus tímpanos o som orquestrado de tuas palavras.  Gratidão Mestre! Shalom! Poeta da Estação. Bairro Estação.  01/11/2023; 09:45.”

Só me resta dizer: Muito obrigado, poeta Helano, por suas esplêndidas e generosas palavras. Deus lhe pague!  

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Dia de Finados

 


DE MÃOS DADAS (*)

Fonte: Google

 

DE MÃOS DADAS (*)


Alcione Pessoa Lima

 

Não é costume meu buscar qualquer caminho...

Não sou indiferente ao sol dourado,

Mas, o meu olhar prefere o escarlate do fim da tarde,

Mesmo fugindo da agonizante despedida...

Abraçado à flor que cumpriu sua missão: enfeitar o mundo e perfumar vidas.


O que me faz esperar até a última claridade

É a felicidade de poder guardar aquela imagem

E mesmo quando a memória me faltar, o inconsciente revelar-me.

No fundo da alma toda a beleza do fim. 


Não prevalecerá a saudade, mas o sorriso e o toque,

E o cheiro do amor espalhado...mesmo da pétala murcha...


Quando de volta, ao cair da noite, não será a escuridão o meu guia...

O brilho no olhar, o sorriso que abraça, as marcas do aconchego

Serão perenes, como o amor envolvente de mãe e filho.


(*) O poeta fez esse texto nos últimos dias de sua mãe.