terça-feira, 7 de setembro de 2010

QUARENTA ANOS DE SUCESSO LITERÁRIO

WILTON PORTO


“Seleta em verso e prosa” foi o último livro publicado pelo poeta parnaibano Alcenor Cadeira Filho. É uma coletânea em comemoração a quatro décadas do poeta projetando uma literatura de muita qualidade. Alcenor está entre os destaques da poesia piauiense e seu nome já deu saltos mais longínquos: voa Brasil afora.
Nesse livro, Alcenor Candeira Filho contempla trabalhos, em sua maioria, publicados em outras obras dele. Ele escolheu escritos – em poesia ou não – que ele considera como mais lidos e que lhe marcaram como homem das letras.
O poeta, como professor de literatura, e com uma sensibilidade arrebatada, vem fazendo obras de uma significância incomum. Com a capacidade de poetar e conhecedor das limitações de muitos estudantes, ele produz poesias que nos colocam diante de conhecimentos de como manejar a literatura, dos caminhos que temos de seguir para, não só escrever, como também entender, os passos a serem dados para traçarmos uma literatura que satisfaça.
“Em Teoria do texto”, o literato nos brinda com informações importantíssimas. E acreditem: o faz com poesias belas, numa musicalidade que chama a atenção e numa poesia vigorosa. Informa sobre reportagem; romance com sua estrutura de narrativa, classificação, o foco narrativo, quais os tipos de personagens, fala e espaço, tempo e desfecho; como se fazer um conto; uma novela, com sua etimologia, ação, espaço e tempo, linguagem...
No subtítulo POEMA, o professor nos lembra, por exemplo, que o poema não pode prescindir do “significado”: conceito, conteúdo, valor, significação. “Significante”: a imagem acústica associada a um significado e que forma um signo lingüístico.
A junção de significado com significante, lapidados com harmonia, geram a poesia, que através do verso deve sobrepujar o poeta. Ou seja, a poesia deve ser tão bem trabalhada, a ponto de ganhar mundo. Não é o poeta que eleva a poesia, é a poesia que eleva o poeta. Um poeta só arranca muitos aplausos, quando a poesia que leva ao público é destacada por todos. E Alcenor usa da expressão: “sobrevive ao poeta”
Para o poeta parnaibano, a melodia é indispensável, assim como a ideia “tão livre quanto o vento”. Uma poesia que não faça bem aos ouvidos, palavras que não geram imaginação visual e nem levem ao pensamento real, não é poesia. Assim, o poeta tem que fazer dos versos um “código para ser decodificado” pelo leitor.

A VIDA

nasc
ente
cresc
ente
do
ente
po
ente

PEDRA DO SAL

Pedra do Sal
porta do céu
porto do cio
pista do sol
no sal azul

As poesias concretas de Alcenor encerram melodia, têm significado e significante, são livres como o vento, beleza visual, nos abrem a mente para a imaginação em busca de uma decodificação.
A primeira poesia – Vida – mostra a trajetória da vida: nascemos, crescemos, ficamos doentes e morremos. Este é o núcleo do pensamento do autor. Está nas entrelinhas que, entre o nascer e o morrer (poente), muita coisa acontece. O ato de crescer, nos leva a passarmos por muitos trabalhos, conflitos, até chegarmos à doença ou outro meio para nos empurrar para o desencarne.
Na segunda poesia, o vate descreve sobre uma Pedra do Sal como tapete chamativo para o erotismo. Quem está nos braços da amada, deixando fluir por todos os poros o erotismo do momento, se encontra no céu. A beleza daquela praia, com as pedras à beira do mar, não tem como negar que não seja um porto do cio! Pista do sol (e que calor nesse momento! Que suor se misturando!) no tempero do amor (sal azul) que encanta e satisfaz os amantes!
Os “Poemas elegíacos” são momentos de finíssima inspiração. Ali o poeta se elevou a alturas inimagináveis. Eu não saberia dizer qual a mais bela. Umas são mais profundas no trabalhar os versos. Outras, o bardo está mais sensível à morte do pai, que todos sabemos, fora de forma trágica.
O soneto “No cemitério”, que irá abaixo, me toca por demais. Sinto muita emoção ao lê-lo. O poeta ali, junto à mãe, que contrita eleva o pensamento aos céus. Está lembrando o marido que partira sem breve aviso, sem apresentar doença. Fora de uma forma que não dá para se explicar e entender. Olhar preso no etéreo todo azul, o poeta deveria estar angustiado pela morte do pai e o sofrimento da mãe. As lágrimas naquele momento desafiavam o infinito. A dor sublimava a musa. “A campa, a escuridão, o isolamento são o retrato de que é nada o tudo”.
E como o é! Perder já é uma luta contra a saudade e solidão. Perder por assassinato bárbaro é perceber que tudo fora construído se desmoronou! Então, tudo se transforma em nada. A própria vida perde o valor.

De Parnaíba no velho Cemitério,
Á tarde, de meu pai junto à lousa,
Mamãe e eu... Ela reza qualquer cousa,
Com o meigo olhar fitando o azul etéreo;

E eu, sem conter em mim da fé a força,
Quero descortinar todo o mistério
Que diante de nós, ali, repousa,
Em silêncio mais frio que o de ascetério.

E, enquanto minha mãe segue rezando,
Às alturas eu solto o pensamento;
Porém, de súbito, paro... e, chorando,

Descubro, só, naquele vale mudo,
Que a campa, a escuridão, o isolamento
São o retrato de que é nada o tudo.

O livro SELETA EM VERSO E PROSA, de Alcenor Candeira Filho, é daqueles que todo escritor tem que ter na estante e pesquisado com constância por estudantes.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



O CORCUNDA E SUAS ALMAS

Elmar Carvalho

Chamava-se Perácio Pinto Pereira. Mas os amigos íntimos o chamavam simplesmente de PPP ou Pereirão, quando estavam mais efusivos nas rodas de cerveja. Ele parecia gostar do aumentativo. Integrara a Força Expedicionária Brasileira – FEB. Nas paradas de 7 de setembro, desfilava na avenida Frei Serafim, a ostentar as brunidas medalhas de herói. Guerreara na Itália e ficara com neurose de guerra. Sempre fora um tipo excêntrico, fanfarrão e falastrão. Também tivera a sua dose de herança genética da esquizofrenia, que atacara vários membros de sua família. A doença progredira, com a guerra e com a idade. Quando voltou da Itália, lecionou Geografia e História no Colégio das Irmãs, por pouco tempo. Certo dia, em que as alunas adolescentes estavam a fazer algazarra nas cadeiras de trás da sala, durante a aplicação de prova, Pereira, em linguagem desabrida, como era do seu feitio, com seu vozeirão tonitruante, mandou que elas fizessem silêncio, senão mandaria “pau na retaguarda”, no sentido de que as reprovaria. As alunas se sentiram ofendidas com a linguagem metafórica do mestre, e foram se queixar para a irmã diretora do educandário, e o certo é que Perreira foi exonerado do cargo.

Após esse episódio burlesco, que faz parte de seu anedotário, foi lecionar no Domício. Em suas aulas, contava piadas, com o seu jeito extrovertido e expansivo. Às vezes, com nítido exagero, contava as suas verídicas e supostas proezas nas batalhas contra o fascismo italiano. Contava detalhes, quando falava em esguichos de sangue e em pedaços de cérebros estilhaçados. Suas excentricidades e esquizofrenia progrediam a olhos vistos. Certa ocasião, quando narrava um episódio de guerra de que teria sido protagonista, sentado em cima da mesa, e não à mesa, como seria o usual, um aluno irreverente lançou pela janela uma forte bomba de São João, que certeiramente foi parar debaixo da mesa. Quando o artefato estourou, Pereira se jogou ao chão, e saiu rolando para debaixo de uma carteira, gritando a pleno pulmões: “Soldados, entrem nas trincheiras, o inimigo está atacando!” Somente com muito esforço, o diretor conseguiu acalmá-lo e convencê-lo de que não havia guerra; que estava na época dos festejos juninos, e um aluno gaiato, ainda não identificado, jogara um traque poderoso na sala de aula.

Com a velhice, além da loucura, que então já era acentuada, Pereira adquiriu uma proeminente corcunda. Andava bastante curvado. Parecia um pequenino Atlas, a carregar o mundo nas costas. Um dia lhe perguntaram sobre a causa de sua corcunda. Pereira olhou fixamente o interlocutor, e com ar sério e compungido, imerso em sombrios pensamentos, como se estivesse impregnado de remorsos e sofrimentos, respondeu que não tinha corcunda; que andava curvado pelo peso das almas dos homens que matara em Monte Castello. E saiu a cantarolar uma linda e triste melodia italiana.

DECÁLOGO


GISLENO FEITOSA
Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

Perguntas formuladas por Elmar Carvalho


1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

Quando criança, aprendi as primeiras letras na casa do escritor José de Alencar, pois meu avô era o responsável pela manutenção da mesma, em Messejana. Meu avô lia para mim as obras deste imortal cearense e eu escutava embevecido. Depois fui para o Seminário da Prainha, em seguida para Maranguape e finalmente para o Mata Galinha (hoje Dias Macedo, onde fica o Castelão). Estudei latim, grego e literatura com os padres. Era estudar e rezar, em regime de internato.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

Não me considero um literato. No Seminário eu produzi alguns trabalhos que foram premiados e isto me incentivou a pensar em escrever. Meus escritos, como na maioria das pessoas, ficavam engavetados.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

Fui influenciado por membros da minha família como o meu bisavô que escreveu a “Genealogia da Família Feitosa”, pelo Padre Neri Feitosa, um tio que tem mais de trinta livros publicados e pelo Professor Aécio Feitosa, primo e padrinho, autor de diversas obras com passagem pela Bélgica e pelo Canadá. Eles me deram muita força na minha juventude.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

Como disse, não sou literato, contudo o lançamento dos meus dois trabalhos que contaram com a expressiva ajuda do Acadêmico Herculano Moraes, me emocionou. Nenhum deles era para ser um livro (quando muito, um opúsculo), mas, após a coleta do material, Herculano resolveu editá-los.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

Como disse anteriormente, com a ajuda inestimável do mestre e amigo Herculano de Moraes.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

O principal é o último “Gisleno Feitosa...em verso e prosa”. Outros trabalhos estão sendo preparados: “Cachet” com orientações para as clientes do consultório. Se eu conseguir meu intento de publicar duas obras que estão quase prontas, aí então poderei dizer que sou um literato. Uma diz respeito ao estudo dos seios (Seios ou não Seios?) e outra é um resgate histórico sobre a vida de um médico francês chamado Samuel Pozzi.

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

Não gosto de opinar sobre aquilo que não conheço profundamente, mas pelo que tenho escutado dos escritores amigos, há uma deficiência de estímulo aos que desejam produzir obras aqui no Piauí, principalmente os não muito conhecidos e desapadrinhados. Aqui, entre nós, existe gente interessada em ajudar àqueles que queiram se dedicar à causa literária. Posso citar os Professores Cineas Santos, Luís Romero, Wellington Soares, Nilson Ferreira, Professora Jasmine Malta e muitos outros, bastando que o interessado seja realmente “interessado”.

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

Merece um lugar de destaque. Fico feliz quando, no SALIPI, autores reconhecidos internacionalmente como Afonso Romão de Sant'Anna, Laurentino Gomes, Zuenir Ventura ou Ignácio de Loyola Brandão, fazem referência ou mesmo rasgados elogios a Fontes Ibiapina, Mário Faustino, Hermínio Castelo Branco, H. Dobal, Da Costa e Silva, O. G. Rêgo, Assis Brasil, Elmar Carvalho e tantos outros. Porém, nomes mais recentes e menos divulgados, mas não menos importantes como Enéas Barros autor de “Parabélum”, “O Turco e o Cinzelador” e “15:50” e Sérgio Idelano Matos autor do romance “Somos Todos Velhas Fotografias” merecem o nosso respeito e a nossa admiração.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

A internet é um veiculo que permite acelerar a busca a livros que outrora não tínhamos como conseguir. Permite a leitura de livros on-line e a compra de e-books. Baste citar a importância do site “Domínio Público” onde encontramos obras maravilhosas, disponíveis a qualquer hora.

10 – Como e por que se fez literato?

Não me fiz, mas tenho esperança, antes da senectude ou de partir, em publicar uma obra que deixe marcada a lembrança da minha passagem por este chão cáustico que ferve o sangue nas veias, torra os miolos, mas nos acolhe aconchegante, como a um filho pródigo.

CEMITÉRIO DO SERTÃO


No retorno, fotografei um cemitério campestre, abandonado na solidão e no abandono do abandonado semi-árido. Com o êxodo rural, é muito provável que até as almas tenham se exilado daquele campo santo do sertão. E já não entoem os miseres e excelências nas noites mortas do ermo. (Trecho extraído do Diário Incontínuo, publicado neste blog no dia 22 de junho, sob o título CORREDORES, UM LAGO NA CAATINGA.)

ARMAZÉM DO PÓ


Não, não, caro internauta. Não se trata do que possa parecer à primeira vista. Não se trata de estabelecimento de alguma favela de morro carioca, até porque não se vê na foto nem favela nem morro. Não se trata, portanto, de nenhuma ousadia explícita de algum audacioso traficante. É apenas um armazém que compra pó de cera de carnaúba, que foi no passado uma das maiores riquezas do Piauí, e de Campo Maior, em particular, em que os coronéis da carnaúba imperavam na política e na sociedade.

sábado, 4 de setembro de 2010

AMAD’AMOR

ELMAR CARVALHO


Eu te amo.
Eu te (ch)amo.
Eu sou tua (ch)ama.
Eu te des’gosto.
Eu te ado(u)ro.
Eu te douro.
Eu sou teu (m)ouro/mourão.
Eu sou teu tes’ouro.

És minha ama’da.
És minha d’ama.
E neste jogo de (d)ama
o xeque-mate é um Pirro/pirrônico
em que o vencido é vencedor
e o escravo é senhor.

Somos um laço:
tu me (en)laças,
eu te (en)laço.
Somos um cadafalso
onde somos vítima,
carrasco e baraço.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SEM RUMO

CUNHA E SILVA FILHO
Para Cunha e Silva Neto


Em qualquer parte estaremos. A vida, algumas vezes, nos dá o seu sem-sentido. Vago sortilégio nos empurra para algum lugar, conhecido ou não. Quem é o responsável pelos nossos rumos e andanças baudelairianos ou, em outros sentidos e latitudes, cesarioverdianos? “Pensamento de um Ocidental”. Que lindo, estranho e comovente poema!
Vejo largas ruas de Curitiba, Ruas que, na sua maioria, não conheço pelos nomes, nem pela exatidão topográfica. Dá trabalho para se conhecer uma cidade maior. No Rio de Janeiro foi a mesma coisa. Penei por mais de um mês pra poder me posicionar no tocante às ruas do Centro e este, a meu ver, não é tão grande assim. Apanhei, contudo, aprendi, não obstante os nomes de algumas delas ainda me confundam.
O mesmo diria de Teresina, onde vivi quinze anos consecutivos, pois, em Amarante, minha terra natal, só morei na infância de três anos. Hoje, a bela Cidade Verde”, tão sabiamente cantada em verso pelo poeta Hardi Filho, desconheço nos seus desdobramentos progressistas. Só a velha parte do Centro me é agora familiar. A nova Teresina, a sua nova periferia, os seus novos bairros e construções verticalizadas, isso tudo me é estranho e nesse mapa atualizado me perco. Invejo os que puderam acompanhar-lhe o crescimento sem perder por isso o bonde, não o da História, mas o da urbe.
Ruas curitibanas. São ruas pelas quais já passei muitas vezes, entretanto, na confusão automobilística, por elas cruzo e recruzo tentando em vão ( o grande Eça diria “debalde”) situar-me. Nunca fui bom de mapas e muito menos de assunto relacionado a espacialidade, ao contrário de minha mulher, que, uma vez visto um local, logo o guarda com a sua invejável memória, assim como o faz com respeito a números de telefones e celulares. Quanta memória que não tenho! Em compensação, minha capacidade retentiva se distingue potencialmente para armazenar palavras. Oh, como as guardo tão bem e, amiúde, até sei quando as vi pela primeira vez e mesmo nos contextos lingüísticos nos quais as aprendi!
Gosto de palavras, em especial das que desconheço. Elas me dão a medida correta de quanto somos, vocabularmente, pobres e desamparados.Uma vez uma professora de língua inglesa me contou que um colega dela, também professor dessa disciplina, sabia praticamente todas as palavras de um dicionário inglês-português. Suponho que de tamanho médio, porquanto reter os milhares de verbetes de um dicionário desk-type me parece descomunal e impossível, tendo em vista que esses gigantes lexicográfico contêm milhares de cross-refrences, ou seja, armazenamento só possível a um computador.
Na realidade, esta crônica, como se vê, não tem rumo. Será que tem sentido? A se ver pelo titulo, portanto, pela sua função catafórica, não tem com certeza. “Pouco me importa”, nesta situação aquela frase fina do diálogo entre o sedutor capitão Rett Butler, galã de “E o vento levou.”, no papel desempenhado pelo ator Clark Gable e Scarlet O’Hara, aquela linda e estouvada personagem vivida pela atriz Vivien Leigh. Não havia mais volta para uma possível reconciliação de um grande amor na tumultuada vida do belo par romântico.
Quem dita o rumo de uma crônica é o momento epifânico do ato da escrita. Só ele detém a autonomia deste mistério das palavras no papel ou na tela do computador. Só ele sabe por que me abalanço a alinhar à mão e, depois, a digitar no teclado, nesta meio cálida tarde de Curitiba, por sobre esta escrivaninha do quarto de minhas netinhas, estas divagações passageiras sem destino , forçando a mão e o pensamento a moldarem, na folha branca, alguma forma de comunicação íntima e unilateral, de vez que não estou cogitando aqui da figura do leitor ideal ou de qualquer classificação teórico-narratológica. Quem me dera pelo menos alcançasse o reduzido número de leitores de um certo romance de Machado de Assis!
O pensamento sem rumo ainda me empurra para o lado cultural curitibano e chego a uma conclusão que talvez, por sua natureza, se estenda a outras capitais brasileiras: a de que as histórias literárias, regionalmente falando, são tão fascinantes e enriquecedoras quanto as do conhecido eixo hegemônico Rio-São Paulo. Todas têm suas histórias específicas, suas “questões coimbrãs”, suas defasagens cronológicas em comparação com os centros culturais dominantes, todas têm seus nomes ilustres, suas figuras mais em evidência no passado e no presente,seus lances de virtudes e de vícios e, por último, suas costumeiras injustiças contra alguns escritores. A vida literária dessas antigas províncias, seus episódios mais conspícuos que merecem os registros dos historiadores locais, mantêm entre si enormes semelhanças com os outros estados do país.
No Paraná, recortando o tempo de rupturas poéticas do fazer literário canônico, não se pode esquecer o nome de Paulo Leminski, da mesma maneira que, no Piauí, não se pode esquecer de H. Dobal, Mário Faustino ou, nas suas pretensões iconoclastas, de Torquato Neto.Em Curitiba, fiquei sabendo que Leminski (1944-1989) é autor de um romance experimental chamado Catatau, que, no meu juízo, precisa de ser mais divulgado. Me pus, desse modo, a par daquilo que não conhecia da história literária contemporânea paranaense, para mim só mais evidente através dos poetas Tarso da Silveira, Emiliano Perneta e Rocha Pombo, este último como poeta, não como autor de uma Historia do Brasil, um volume da qual havia na biblioteca de meu pai. De curitibanos já conhecia, os críticos Andrade Muricy, Temístocles Linhares, Wilson Martins e, na ficção contemporânea, o mais conhecido deles nacionalmente, o contista Dalton Trevisan.
Da mesma forma, esse recorte regionalista me faz pensar naquela antiga idéia de “ilhas culturais” ou regiões geográficas, em número de sete (Amazônia, Nordeste, Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro concebidas pelo ensaísta e ficcionista gaúcho Viana Moog, formulação esta hoje algo ultrapassada, dados os seus vínculos tainianos ( clima, região e meios de produção) de unidades literárias separadas do conjunto geral da literatura brasileira, diante dos avanços das mídias atuais, tornando cada vez mais estreito o contato entre estados brasileiros, e mesmo assim longe ainda está do desejável ideal de reciprocidade.
Na minha deambulação mais recente levei comigo duas antologias, uma de autores franceses e outra, de ingleses e norte-americanos, uma obra de filosofia pra não filósofos e um livro de poemas, Onde humano (Teresina, PI, editora Nova Aliança, 2009, 114 p.) do jovem piauiense Luiz Filho de Oliveira, obra cuja leitura concluí em Curitiba e que me causou forte impressão.
No geral, pouco li do que levei, mas , em terras estranhas, os planos tornam-se sem rumo, tal como o título do cronista.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


AristorRatos
AristocraRia de
ba(r)rão falido
de (es)conde de (ex)conde
de (vil)conde de (vis)condes
de barrão/barrado/borrado
conde falido = falo k ido
conde falado = falo alado mas depenado
conde falecido = falo de morto
conde falingus = falo da língua

A VIAGEM

ALCIONE PESSOA LIMA

Soltas as mãos...mesmo sob resistência...presos pelo coração.
Um olhar pensante...uma fotografia de tão longe...
E lá está compondo uma nova paisagem...
Talvez em um trem...um presente: a felicidade!
Ou sob uma imensidão...
Pode estar também em uma tulipa, cuja gota de orvalho dela caindo transforma-se em uma janela para alma.
Um cheiro de civilização...um sonho, luzes da ribalta revelando a bailarina na ponta dos dedos...Um momento de êxtase.
Lugares nunca vistos...desejos realizados...
Um olhar que brilha, filmando tudo, até o passado...
Em um encontro consigo mesmo...
Gostoso relembrar essa viagem que nunca fiz
Pois, na beira do cais da vida, é possível realizar esse sonho,
Que comigo um dia se apagará.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



1º de setembro

OS BICHANOS

Elmar Carvalho

Dias atrás, a Francisca Maria descobriu três gatinhos, que o dono abandonou, covarde e sorrateiramente, na frente de minha casa. Os meninos do colégio defronte, principalmente as garotas, olhavam os bichanos com simpatia, mas ninguém se dispunha a levá-los para criar. Mas terminaram sendo acolhidos, um a um, através de incentivos recíprocos de colegiais. Isso me fez lembrar a grande quantidade de gatos abandonados, que vagam por entre os túmulos e alamedas do cemitério São José, uma das mais antigas construções de Teresina. Não sei de que sobrevivem os bichanos do campo santo. Por associação de ideias, recordei-me de uma reportagem televisiva, que narrava o episódio de um gato extremamente apegado ao dono; quando este faleceu, o bichano passou a residir em seu mausoléu. Não se sabe como, entre as centenas de sepulturas da imensa necrópole, o animal conseguiu localizar a de seu dono. Entre as hipóteses aventadas, falou-se de que o gato se guiara pelo olfato, através do qual rastreara o cheiro do falecido. De minha parte, não descarto a possibilidade de que esse animal possa ter outros sentidos, que desconhecemos, algo como uma intuição afinada, uma espécie de sintonia fina ou mesmo um sexto ou sétimo sentido. Sempre se falou que gatos são meios misteriosos e que teriam sete vidas.

Soube, tempos atrás, que um fato interessante aconteceu no velório de um primo de meu pai, chamado Gonçalo Furtado de Carvalho. Esse parente nascera em Piripiri, mas se radicara em Esperantina, onde se tornara uma pessoa estimada, graças ao seu bom caráter e serviços prestados. Deixou um livro de poemas. Tinha ele um gato, de raça afamada pela beleza. O bichano lhe tinha verdadeira veneração, e era correspondido na mesma intensidade. Quando Gonçalo faleceu, o bichano como que participou do velório. De tardezinha, na hora da saída do cortejo fúnebre, o gato inesperadamente saltou para cima da urna funerária, e começou a beijar com sofreguidão o tórax de Gonçalo, como se estivesse se despedindo. Ou como se pretendesse acordá-lo. Parecia saber que não mais o veria, e quisesse, dessa maneira, externar, da forma mais carinhosa e sentida que podia, a sua homenagem, gratidão e amor. Creio que quem mereceu tão enfática e comovente homenagem de um ser, que muitos chamam de bruto, só pode ter sido um homem verdadeiramente bom.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



31 de agosto

O GRITO

Elmar Carvalho


Atravessamos dias difíceis, conturbados, em que o egoísmo impera desabrido. Já tive ocasião de dizer que o egoísmo em excesso é o pai de todos os vícios, é a matriz de todos os pecados, é o estopim de crimes hediondos. Esse sentimento pode levar o indivíduo a cometer assalto, estupro e latrocínio. Por que? Porque se o indivíduo não tiver outros sentimentos e virtudes, que freiem o seu egoísmo e egolatria, poderá cometer esses crimes e pecados, porquanto o que lhe interessa é a satisfação de seu desejo, de sua vontade. Deseja ter uma mulher, a terá, ainda que para isso tenha que estuprá-la; deseja ter dinheiro, obtê-lo-á, ainda que para tal fim tenha que assaltar alguém ou tenha que matar o seu semelhante. Estamos numa época de muito hedonismo, em que o que interessa é o prazer, ainda que a altos custos, como o uso de drogas ou a agressão à suscetibilidade do outro. Vemos a cada passo os intolerantes, os que não aceitam limites, nem mesmo de um simples semáforo ou o limite de velocidade ou regras de trânsito. São os que têm de passar de qualquer maneira, mesmo arriscando sua própria vida ou, o que é pior, pondo em risco a vida dos outros. Muitos começam dentro de casa, quando forçam seus pais a lhes dar sempre mais, quando ficam a exigir cada vez mais supostos direitos, sem dar a mínima atenção aos seus deveres, mesmo os mais primários. Começam, muitas vezes, com pecadilhos que vão crescendo, que vão aumentando até que se tornam uma montanha de pecados cabeludos, que não raras vezes constituem crimes hediondos. Falei tudo isso como um prelúdio estridente para contar o que se segue.

Faz poucos dias dias minha mulher viu uma cena, quase diria dantesca, no estacionamento de um dos shoppings da capital. Um jovem, já adulto, insistia de forma intransigente para que sua mãe lhe fosse comprar um objeto, que ele dizia ser barato, posto que custava R$ 60,00. A mulher se recusava a ir, dizendo não ter dinheiro disponível. Mas ele não aceitava um não como resposta, e continuava a insistir para que sua mãe fosse comprar o objeto de seu desejo consumista, sempre martelando na tecla de que era um produto barato, uma vez que custava “apenas” a bagatela de R$ 60,00, como se ele, ao considerar arbitrária e unilateralmente um objeto barato, passasse a ter automaticamente o direito de possuí-lo, ainda mais às expensas de sua mãe. A senhora, já começando a gritar, disse-lhe que iria gritar. E como ele continuasse a persistir a mulher, transtornada, completamente fora de controle, emitiu um grito agudo, estridente, um grito de desespero, de desamparo, um grito de socorro, um grito de dor espiritual e de revolta, que ecoou pelo estacionamento, que atroou pelos ares em busca de anjos e santos. Creio que o grito foi semelhante ao que o pintor Edvard Munch tentou expressar no quadro que leva esse título. Ou seria mais semelhante ao que o sublime poeta Rainer Maria Rilke imaginou, quando disse na primeira das Elegias de Duíno: “Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria?” Suponho que algum anjo deve ter acolhido o grito dessa mãe desesperada, dessa mãe impotente ante a incompreensão do filho, que na verdade era o seu algoz.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



O ESPANTALHO CHARLES BRONSON

Elmar Carvalho

João Ribeiro era um caboclo muito trabalhador, e sempre ganhava as disputas sobre quem capinava mais rápido, quando eram feitos mutirões desse tipo de serviço, através de troca de diária ou troca de serviço. Esse é o sistema pelo qual um campesino trabalha para outro, para que este trabalhe para ele em outra oportunidade. Todos na localidade Morro Branco gostavam de trocar serviço com ele, porque sempre saíam ganhando, uma vez que João, seja para si ou para outra pessoa, era sempre disposto e despachado.

As chuvas foram boas. Bem distribuídas. Fortes, mas não torrenciais e tempestuosas, de modo que sua roça era uma verdura só. O milho já começava a embonecar, com os pendões despontando em alguns pés de milho. O feijão já principiava a botar os brotos, de onde nasceriam as favas. E o arrozal era só beleza; um verde maravilhoso se espalhava pela várzea. Até parecia arroz de presépio, sem uma falha sequer. Os cachos começavam a se desabotoar. Algumas melancias já amadureciam, assim como os melões. As pessoas admiravam a beleza e a fartura daquele roçado. Mas logo João notou que os passarinhos já revoavam sobre sua roça. Certamente, estavam a comer os grãos mais precoces. Por isso, resolveu encomendar a mestre Amaro, o mais afamado fabricante de Judas da região, um espantalho. Levou uma calça comprida e uma camisa de seu filho mais novo, ambas em bom estado, pois queria um boneco bonito. Recomendou ao artesão que fizesse um espantalho bem feito, com todos os órgãos dos sentidos bem acabados. Queria umas orelhas bem feitas, como orelhas de anjo, e uns olhos bem vivos e bem abertos, pois desejava que o seu “vigia” de pano cumprisse bem sua missão.

No dia da “inauguração” do boneco, resolveu fazer uma verdadeira festa, com a presença de seus filhos pequenos e das outras crianças do povoado. Sua mulher compareceu, juntamente com três amigas. Levaram sucos e até mesmo refrigerante, que era considerado um luxo na região, só usado raramente e com parcimônia nos dias de festa. Havia bolos doces e salgados. Levaram até mesmo pudim e creme. Partiram algumas melancias e melões que já estavam maduros. João estava feliz e levou um litro de vinho. Mandara fazer uma estaca de madeira de lei, devidamente lavrada e com uma cruzeta, para afixar o seu espantalho. Ficou com pena dele, e resolveu colocar-lhe na cabeça seu próprio chapéu, para não deixá-lo exposto ao sol cada vez mais inclemente. Ainda bem que a camisa do boneco era de mangas compridas, o que lhe daria mais proteção contra o sol e os mosquitos. Após tomar dois copos, achou por bem batizar o espantalho e fazer um discurso em sua homenagem. Molhou-lhe a cabeça com meio copo da bebida, e lhe deu o nome de Charles Bronson, seu ídolo televisivo, o homem mais valente que já conhecera. No discurso, não esqueceu de dizer que o seu espantalho seria o vigia mais valente, destemido e esperto da região; tão valente quanto o verdadeiro Charles Bronson.

No início, as aves temeram a presença do boneco. Contudo, começaram a notar que ele ficava o tempo todo no mesmo lugar, e que não movia os braços, a não ser muito levemente, quando ventava forte. Depois, perceberam que ele não girava a cabeça; que ficava olhando fixamente numa única direção. Uma ave mais esperta e mais afoita começou a comer os grãos mais distantes do boneco, e que ficavam por detrás dele. Como não reagisse, ela e as companheiras foram se aproximando dos grãos que lhe ficavam mais próximo. Até que de todo perderam o respeito e passaram a comer os cachos que ficavam aos pés dele, e à sua frente.

O espantalho começou a ficar cada vez mais triste, à proporção que a ousadia e o desrespeito dos passarinhos aumentavam. Seu dono já não lhe dava mais atenção e já não o prestigiava como no começo. Começou ele próprio a vigiar o roçado, juntamente com seus filhos. Soltavam tiros com a velha espingarda bate-bucha e disparavam foguetes, para espantar as aves que lhe desmoralizavam. Sua indignação e tristeza chegou ao auge no dia em que um insolente e sarcástico bentevi, num deboche sem precedente na biografia de qualquer espantalho, defecou em sua cabeça. Nessa ocasião não mais tinha chapéu, pois João Ribeiro, vendo que seu vigia já não merecia confiança, o retirara para dar a um de seus filhos, que lhe ajudava a espantar os pássaros. Charles Bronson, que o dono já chamava de covarde e “calça-frouxa”, chorou amargamente. Chorou e pediu ao anjo da guarda dos espantalhos que o libertasse daquela vergonha e humilhação. O anjo se apiedou do seu sofrimento e o transformou num duende protetor da fauna e da flora. Tornou-se o mais perfeito protetor das árvores pequenas e dos passarinhos, sua especialidade.

No dia seguinte, quando João e seus filhos vieram vigiar a roça, não mais encontraram o espantalho. Como era época da malhação de Judas, acharam que algum menino traquina da localidade o havia retirado para servir de Judas. João pensou que seria uma destinação bem empregada para um espantalho que não cumprira o seu dever, chegando ao ponto de ser cagado na cabeça por um pássaro irreverente. Um dos filhos de João, o menorzinho, descobriu uns passos na lama, e jurou que eram as pegadas do boneco; que tinha certeza disso, pois a chinela fora sua. Todos zombaram dele. Afinal, onde já se vira espantalho se libertar do tronco e sair caminhando por aí?...

sábado, 28 de agosto de 2010

DECÁLOGO


CLEA REZENDE NEVES DE MELO

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

Sou filha do poeta, Osiris Neves de Melo que, por sua vez, é irmão de Antônio Neves de Melo, sobrinho de Abdias Neves e Eudóxio da Costa Neves, todos pertencentes à Academias de Letras do Piauí. Meu pai, de acordo com as nossas idades, estimulava a leitura dos clássicos.Iniciei muito cedo com o estímulo dele, de livros infantís, a infanto-juvenis.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

Na infância. As Irmãs do Colégio de Piripiri onde eu era interna estimulavam as competições entre alunas de interpretação de textos literários. Tomei gosto, passei a escrever poesias,crônicas e paródias.Com o falecimento da escritora, Judith Santana e a carência deixada por ela em Piripiri,nos bampos da pesquisa e historiografia me fizeram ingressar, também, na historiografia.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

Sim, primeiramente, da família de escritores, depois por meio da leitura. Passei alguns anos em Teresina em casa dos tios Des. Arimatéa Tito e Edith Tito. Em convivência com o primo, A.Tito Filho ,admirava-lhe a inteligência, aprendi muito com ele. As minhas maiores influências literárias, das inúmeras leituras, com certeza são:Cecília Meireles, Florbela Espanca em língua portuguesa, Garcia Lorca e Rubén Darío, em língua espanhola.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

Sem dúvida ver os meus livros serem pesquisados e estudados em Piripiri, participar de inúmeras gincanas estudantis e ver o meu trabalho reconhecido em Brasília quando eleita para duas academias da capital federal.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

Com aquela luta por que passa o escritor brasileiro, pagando em parcelas, mas recebi apoio da Prefeitura de Piripiri, com dois prefeitos, que adquiriram livros para as Escolas Municipais.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

Livro é como filho, difícil de escolher pela importância que cada um teve dentro de um contexto a que me propunha. São iguais.

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

Como não resido no Piauí, à distância é difícil opinar sobre esta questão

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

Como na época de Abdias Neves em que ele não participou do Simbolismo brasileiro dado o distanciamento cultural em que se encontrava o Piauí, nosso Estado tem autores a nível de outros estados federativos, mas nem todos conseguem uma patamar mais alto.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

A rapidez da comunicação, o grande número de acessos à paginas da internet até mesmo em pequenos centros por meio de blogs, portais, acho de uma importância fundamental para divulgação da obra e do escritor.

10 – Como e por que se fez literato?

Primeiramente, por uma necessidade interior de criar, de produzir, de dividir aquele meu mundo, minhas emoções, minhas ideias, depois, ajudar a minha cidade a sair do marasmo cultural a que estava condenada.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO (*)


AMÉLIA BEVILÁQUA

Amélia Carolina de Freitas Beviláqua nasceu na fazenda Formosa,em Jerumenha, no Piauí, no dia 7 de agosto de 1860, filha do Desembargador José Manuel de Freitas e de D. Teresa Carolina da Silva
Freitas. Amélia teve nove irmãos. Deixou a terra natal ainda criança, indo morar em São Luís (MA), onde o pai era juiz de direito e posteriormente presidente da província. Ali passou parte da infância e também iniciou sua educação, concluindo-a em Pernambuco. Amélia casou-se com o jurista Clóvis Beviláqua no dia cinco de maio de 1883.
Morou, inicialmente, em Alcântara, cidade onde seu esposo assumiu a promotoria pública. No ano seguinte, após o casamento,o casal mudou-se para Recife. Em 1906, o casal Clóvis e Amélia Beviláqua passou a morar no Rio de Janeiro, local em que a escritora faleceu, em 17 de novembro de 1946. Eles tiveram quatro filhas. Amélia Beviláqua iniciou cedo sua vida literária, quando estudante em São Luís. Colaborou com o jornal do colégio, publicando contos e poesias. Em 1889, publicou trabalhos em jornais de Recife e na Revista do Brasil de São Paulo. Atuou, também, como redatora oficial da revista Lyrio, de Recife, em 1902. Foi ocupante da cadeira 23 da Academia Piauiense de Letras e patrona da cadeira 48 da Ala Feminina da Casa Juvenal Galeno-Ceará. De sua obra, constam crônicas, contos e poesias e romances – todos eles publicados em diversos jornais e revistas do país.
(*) Charge e texto de João de Deus Netto.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


O “milionário” Paulo Afonso
coiceou com um seco não
o boêmio e compositor Zé Bispo,
quando este lhe foi dar
um filho como afilhado.
Bispo, numa música em que dizia
que o Deus do “milionário” era
o mesmo seu e que o ouro
dele não o levaria ao céu,
sua branda mágoa de protesto
nas placas de bronze do tempo lavrou.
O ouro de Paulo Afonso
como o orgulho e a soberba
pelo ralo da vida se foi.
A música de Zé Bispo
cantando na boca do povo
é folha verde/viva que a voragem
do vento do tempo não levou.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



25 de agosto

A MORTE DA BARATA

Elmar Carvalho

Ontem uma barata, por várias vezes, tentou tocar-me os pés. Eu os batia, enxotando-a, mas logo ela investia novamente. A insistência desse inseto, pavor das mulheres em geral, acabou por me torrar a paciência. Devo dizer que faz alguns anos não gosto de eliminar nenhum tipo de ser vivo, nem mesmo baratas, moscas e grilos. Aliás, já fiz uma crônica em que tratei de um grilo. Godofredo Rangel, antes de mim, escreveu um texto sobre o caso de um grilo, em que ele, para dar liberdade a esse impertinente e enfadonho cantor, o conduziu para o quintal. Seu gesto caridoso, porém, foi fatal ao inseto, porquanto ele terminou indo parar no papo de uma faminta e gulosa galinha. As cigarras foram cantadas em verso e prosa; em fábulas, e em sonetos de Olegário Mariano. Um dos personagens de Kafka, como é sabido por todos, acabou por se metamorfosear num inseto. Tornou-se página antológica, recolhida em muitas seletas, o capítulo XXXI de Memórias Póstumas de Brás Cubas, no qual a personagem ficou incomodada com a presença de uma grande borboleta, pelo simples fato de ela ser negra. Um golpe de toalha encerrou sua vida. A personagem, em irônica autocomplacência, ainda se perguntou, como atenuante, por que não era ela azul. Recentemente, ao vivo e em cores, como se dizia outrora, ou em tempo real, como se fala agora, viu-se o presidente Barack Obama, em piparote certeiro e fulminante, abater uma mosca que lhe importunava durante uma filmagem de televisão.

Mas, como eu dizia, faz muitos anos que não gosto de tirar a vida de nenhum ser, por menor que ele seja, mesmo nocivo, como aranhas e caranguejeiras. Não me sinto bem em fazê-lo. Contudo, como a personagem machadiana, terminei ficando aborrecido com a insistência da barata em querer lamber-me os pés. Resolvi fulminá-la com leve golpe de chinela japonesa. Brandi a arma sem raiva e a contragosto, sem muita vontade de eliminá-la. O inseto ficou completamente imóvel, de forma que o dei como morto. Em seguida, o afastei para um canto do compartimento, onde ficou de patas e papo para o ar. Para minha surpresa, hoje à tarde, não mais vi o menor vestígio dele. Dizem que é um dos animais mais resistentes, e talvez seja o único espécime que sobreviveria à radiação de uma guerra nuclear. Sendo assim, é bem possível que tenha mesmo resistido ao golpe de minha alpargata. Melhor assim. Mas se assim não foi, que descanse em paz.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



24 de agosto

ROLINHA FOGO-APAGOU

Elmar Carvalho

Nos últimos dias, aqui em Regeneração, ou lá em Teresina, ao amanhecer, ou ao crepúsculo, tenho ouvido o cantar dolente de uma rolinha fogo-apagou. Muitos poetas têm cantado os passarinhos. Muitos têm se comparado a uma ave canora. Manuel Bandeira, em mais de um poema, falou nas andorinhas. O nosso H. Dobal fez versos às golondrinas e também ao sabiá. Este último foi cantado por Gonçalves Dias, que o colocou no alto de uma palmeira. Alguns fazem crítica, alegando que sabiá não pousa nessa árvore. Não sei se a crítica procede; o que sei é que daria uma bela imagem: a plasticidade do sabiá agregada a uma linda palma de coco da praia ou mesmo de coco babaçu, e melhor ainda se fosse um imponente buritizeiro, pejado de brônzeos frutos. O cronista Rubem Braga também teve por tema esse passarinho de tão belo e aflautado canto.

Voltemos à fogo-apagou. Seu nome é a onomatopeia de sua cantiga. Pode ser entendido positivamente, como regozijo por um incêndio que tenha terminado; ou negativamente, como o fogo vital que se tenha transformado em cinzas e tristeza, como o facho emborcado do simbolismo das catacumbas e cemitérios. Seu canto, quase cantochão monocórdio, de timbre grave, sonoro, severo, solene, mesmo ao amanhecer, que é sempre alegre, traz certa ponta de tristeza. Quando ouço esse canto ao por-do-sol, a melancolia me tomba na alma, me impregnando de suave tristeza, que aceito sem nenhum problema, pois todos temos os nossos momentos sombrios. Manuel Bandeira já advertia para que procurássemos amar a nossa tristeza, que um dia aprenderíamos a amá-la.

O canto dessa rolinha me fez recordar minha infância. Acostumado com o movimento e o burburinho da cidade, nas poucas vezes em que fui passar uns poucos dias de férias em Ameixas, zona rural de Barras, ao ouvir esse cantar tão dolente, tão melancólico, ficava saudoso de minha casa, sobretudo do aconchego de meus pais. Ao entardecer campestre de então, quando tudo parecia que se ia finando, esse canto tão sentido, tão magoado, me caía na alma como punhais, que me feriam de uma tristeza acachapante e de uma saudade avassaladora. Mas esse canto, para mim tão tristonho, tão desconsolado, tem uma beleza inefável, como a beleza que persiste nas ruínas dos monumentos, nos escombros do que já foi belo, nas rugas das deusas envelhecidas.

O AMOR

Alcione Pessoa Lima


A vida nos deixa tão perto e tão longe do que desejamos...
Mas o coração aproxima, alheio aos vendavais...
Sentimentos fazem parte do nosso senhorio e podemos escondê-los, lapidá-los, devolve-los...
Um olhar pode dizer tudo, até contrastar as pulsações de um coração...
As mãos podem retrair-se para não tocar o objeto do desejo...
A boca, calar e resmungar...
Mas a certeza de que o amor é fiel encoraja...e faz ver tudo belo, perfeito, possível...
Uma palavra, apenas, sela o início ou recomeço: SIM.
E tudo parece simples.
O amor é mágico! Por isso eterniza-se.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS

DOIS MUQUIRANAS

Elmar Carvalho

João Pedro viveu até os dezoito anos de idade na zona rural de Cabrobó. Desde bem novo, o pai o explorou o máximo que pôde. Primeiro, em serviços mais leves, como levar água e comida para ele e seus outros filhos mais velhos. Depois, o fazia buscar água em cacimbas distantes, escanchado sobre uma rústica cangalha, com duas ancoretas de cada lado, a cavalgar um lerdo jumento. Quando atingiu catorze anos, foi para a roça, para fazer os serviços menos árduos, como semear e fechar a cova, apanhar garranchos etc. Aos dezesseis, já taludo, pois era um caboclo fornido, entroncado, embora de baixa estatura, foi posto para fazer todos os serviços, inclusive os de derrubada, a manejar um machado, e os de capina, agarrado ao cabo da enxada. Inteligente, com alta dose de esperteza, razão pela qual era considerado ladino, sentiu que seria um quase escravo de seu pai, até constituir sua própria família. Sabia que seria mais um matuto a amargar um trabalho estafante e de parco rendimento. Assim, mesmo contra a vontade do pai, quando fez dezenove anos, resolveu tentar a sorte na sede do município.

Começou a trabalhar num armazém, que vendia cereais e outras mercadorias a grosso. Também foi explorado a valer. Era um faz-tudo. Estivador, quando pegava os sacos pesados, deles de mais de 50 quilos, tanto para carregar, como para descarregar os caminhões. Varredor, no início e no final do expediente. Mas, muito vivo e trabalhador, foi ganhando experiência e a confiança do patrão, que lhe tinha certa estima, a estima que um homem tem pelo seu burro de carga. Sentiu que tinha de ter sua própria independência, seu próprio negócio. Mas não falou disso para ninguém, pois temia olho gordo e a desconfiança do patrão. Este terminou lhe oferecendo um pequeno quarto no fundo do empório, mesmo porque lhe fazia economizar despesas com vigilante. Em contrapartida, João Pedro se livrava do aluguel do cubículo em que morava. Também o patrão, para agradá-lo, lhe fornecia, diariamente, um prato de comida, trazido de sua casa, que ficava perto. Claro que a refeição era composta por muito arroz e feijão e apenas dois pequenos pedaços de carne de segunda ou terceira. Já era, naturalmente, muito econômico, e com o objetivo de montar sua própria quitanda passou a roer as unhas, como diz o ditado. Poupava quase todo seu salário. Nada de farras, nada de cabaré, nada de mulheres. Era tudo poupado, ainda que, às vezes, as tripas ficassem a roncar, queixosas da pouca comida. Arranjou uma namorada, e logo notou que ela era trabalhadora e também muito econômica. Quando amealhou o suficiente para iniciar um pé de bodega, pediu as contas e se estabeleceu na praça de Cabrobó. Tratou de casar e de explorar a mulher, que era muito prendada, e fazia quitutes diversos, bolos e doces, que ele vendia na pequena mercearia, tão pequena que as pessoas chamavam de casca de coco. Para não me alongar, na década de 1960 tornou-se o mais importante merceeiro da cidade, sendo considerado um dos homens ricos da comunidade, embora com a pecha de extremamente sovina, miserável mesmo.

O único homem que se ombreava a ele, em riqueza e sovinice, era o velho Ildefonso Polidoro, que tinha veleidades intelectuais e era considerado inteligente, além de dono de uma conversa agradável, desde que nada gastasse com os ouvintes, nem mesmo aguado cafezinho. Quando se encontravam palestravam um pouco, sobre amenidades e sobre o comércio local. Passaram a ser amigos, conquanto não se frequentassem. Para se ter uma ideia do quanto Polidoro era apegado aos metais, basta que eu conte um fato anedótico, porém verídico, de que ele foi protagonista. Quando precisou de novo empregado, achou que deveria encontrar um que fosse uma espécie de 3 em 1, ou seja, um servidor multifuncional, como hoje se diz. Ele mesmo se encarregou de fazer o teste seletivo. O candidato tinha que ter noções de contabilidade, ter boa redação e ainda possuir habilidade para vendedor, para que sempre tivesse o que fazer, e o salário pago tivesse uma boa recompensa para a firma. Apareceram quatro candidatos que diziam preencher os requisitos. Fora outras perguntas e questões, que me dispenso de comentar, havia a principal, que consistia em indagar do candidato o que ele faria com um diminuto retângulo de papel, que lhe era apresentado. Os dois primeiros disseram não imaginar o que poderiam fazer com tão insignificante retalho. O terceiro, porém, não titubeou, e logo disse que seria suficiente para embrulhar pedras de isqueiro, que então estava na última moda. Foi aprovado e admitido imediatamente no emprego. Esse episódio basta para que se tenha uma ideia do perfil de Ildefonso Polidoro.

Um dia, com o crescimento da amizade, João Pedro, por volta de sete e meia da noite, resolveu visitar Polidoro. Bateu a aldraba, que não precisava de energia elétrica e não precisaria nunca de conserto. O dono da casa perguntou quem era, e abriu a porta ao receber a resposta. A sala de visitas estava completamente escura, sem luz elétrica ou outra qualquer. João Pedro perguntou o motivo de tamanha treva. O dono da casa disse que estava sozinho, que não estava fazendo nada, e portanto não precisava de iluminação, até porque estava apenas pensando na vida e nas coisas. Acrescentou que, como a visita não era de cerimônia e um não precisava ficar olhando para a cara do outro, poderiam ficar no escuro, para não haver desperdício desnecessário. Conversaram durante quase uma hora, quando o visitante anunciou que já ia embora. O dono da casa, num gesto de magnanimidade e lhaneza, resolveu acender as luzes, como prova de sua amizade e deferência para com o colega e amigo. Estarrecido, percebeu que João Pedro arriara as calças. Um tanto chateado, perguntou o motivo desse procedimento estranho. O visitante, sem nenhuma alteração de voz, candidamente respondeu que, como estavam sozinhos e em completa escuridão, resolvera economizar os fundos da calça, que já estavam um tanto puídos.

domingo, 22 de agosto de 2010

NOTÍCIA CULTURAL

Danilo Melo, José Hamilton, Assis Brasil e Alcenor Candeira Filho

Sucesso do II Salão do Livro de Parnaíba

F. Carvalho

O II Salão do Livro de Parnaíba (Salipa) foi encerrado com clima de comemoração na noite deste sábado, 21 de agosto, após a palestra “Outras margens da mesma língua”, do escritor angolano Ondjacki, assistida por mais de 600 pessoas no auditório da Associação Comercial ou através de um telão e uma televisão, instalados ao lado. O sucesso do evento foi destacado pelo prefeito José Hamilton Castelo Branco que ressaltou o interesse do público que lotou o auditório durante as palestras e na área dos estandes das editoras e livrarias, montados na Praça de Eventos do Porto das Barcas. Ele também destacou o alto nível dos palestrantes e das apresentações artísticas levadas ao espaço do Salipa e manifestou o interesse do município em investir mais no incremento da festa literária parnaibana, na edição de 2011. José Hamilton ressaltou que o sucesso do II Salipa é resultado da parceria da Prefeitura com a Fundação Quixote, que repassa experiência à equipe do município encarregada pelo evento, formada pelas secretarias de Cultura, Comunicação, Educação e Chefia de Gabinete. O presidente da Fundação, professor Luiz Romero Lima, foi representado no encerramento pelo professor Welligton Soares, um dos fundadores da instituição, que também se declarou satisfeito com os resultados.

Instituído no ano passado, o Salão do Livro de Parnaíba ampliou o sucesso da sua primeira edição, com aumento de público visitando os estandes, assistindo as apresentações artísticas e participando de oficinas e bate-papos literários. “O Salipa é o único evento em Parnaíba que além de lotar um grande auditório, ainda acomoda pessoas diante de um ambiente com telão e outro com televisão, transmitindo as palestras”, ressaltou o secretário de comunicação, professor F. Carvalho, um dos organizadores do Salipa. O interesse dos parnaibanos pelos livros demonstra a viabilidade da festa literária parnaibana, na opinião do prefeito José Hamilton.

Entre os palestrantes do II Salipa estiveram Salgado Maranhão, Cinéas Santos, Danilo Melo, Amparo Coelho, Manuel Domingos Neto, Márcia Tiburi, Fonseca Neto, Diva Figueiredo, Luiz Romero Lima, Antônio José Fontinele e o angolano Ondjacki. Entre os artistas que se apresentaram estavam Besouros da Silva, Soraya Castelo Branco e Patrícia Melodi. Nas três noites de palestras, o publico foi recebido no auditório por apresentações artísticas, como chorinho, voz e violão e saxofone.

Na sala de bate-papo literário foram lançados os livros “A cor da palavra”, de Salgado Maranhão; “Por um triz”, de Welligton Soares; “(In)Certos Versos e Alguma (P)Rosa”, de Danilo Melo; “O Morro da Casa Grande”, de Dílson Lage; ”Representação e identidade cultural do vaqueiro no cinema novo”, de Halan Silva; “Conjunto Histórico e Paisagístico de Parnaíba”, uma produção coletiva de iniciativa do Iphan; “Memorial da Virgem”, de autoria do ex-ministro João Paulo Reis Veloso; “O que os netos dos vaqueiros me contaram”, de Manuel Domingos Neto; “Parnaíba na história da aviação”, de Tércio Solano Lopes” e Tom do dom da dor”, do poeta Wilton Porto.

O Salão do Livro de Parnaíba recebeu caravanas de escolas públicas e particulares para visitação aos estandes e participação nos bate-papos literários palestras.

BERNARDO DE CARVALHO E AGUIAR E A VILA DA PARNAHIBA

Vicente de Paula Araújo Silva - “Potência”


Capa do livro do historiador Pe. Cláudio Melo sobre Bernardo de Carvalho e Aguiar

Nasceu em Vila Pouca de Aguiar (Portugal), filho do nobre Antonio Silvestre de Aguiar e faleceu em 1730, em São Bernardo (MA). Ao chegar ao Brasil, domiciliou-se na Bahia, onde constituiu família casando com Dona Mariana da Silva, com a qual, teve os filhos Miguel de Carvalho Aguiar e Dona Antônia Aguiar, que se casou com o Sargento-Mor, Manuel Xavier. Iniciou suas atividades militares em meados de 1690, por intermédio de José Garcia da Paz, que havia recebido de Dom Frei Manuel da Conceição, Bispo de Pernambuco, governador interino da Capitania de Pernambuco, a missão de combater os Percatís, que estavam provocando danos e desassossegos aos moradores do sertão das Rodelas. Ali, em lutas sua bravura destacou-se.
Ainda no verão de 1690, aventureiros lusitanos, pernambucanos e baianos, passaram a ocupar os vales oriental e ocidental da Ibiapaba, onde missionários jesuítas haviam pacificado os índios. Então, os Crateús, sentindo-se oprimidos pela invasão colonizadora, fizeram fortes ataques a esses curraleiros, que atemorizados pediram socorro ao Governo do Brasil.
Diante desse fato, Iniciou-se então, a participação do Capitão Bernardo de Carvalho e Aguiar na região , que chegou ao campo de operação, vindo pelo sertão das Cajazeiras, conseguindo a pacificação daqueles selvícolas, possibilitando o aldeamento dos mesmos pelos padres da Companhia de Jesus. Daí, veio o seu prestígio junto aos selvícolas da região, pois sabiam que ele não usava a prática da época em que era permitida a escravização e venda de presas de guerra. O seu intuito, era afastar o gentio das proximidades das fazendas ocupadas pelos curraleiros lusitanos, baianos e pernambucanos. Vendo reais possibilidades de ganhos econômicos, resolveu também criar currais de gado . Assim, instalou-se inicialmente, em cabeça do Tapuio (São Miguel do Tapuio), de onde seguiu em 1694 para o lugar onde hoje é a cidade de Campo Maior e posteriormente para São Bernardo (MA). É considerado o fundador dessas cidades.
Em 1696, morava na Faz. Bitorocara, no rio do mesmo nome, com 04 negros, quando recebeu a patente de Cap. mor de infantaria da Ordenança do distrito da Cachoeira – BA. Mais tarde, foi elevado a patente de Coronel do mesmo regimento. Ao se instalar em Bitorocara, convidou no ano de 1696, o missionário jesuíta Pe. Ascenço Gago, para fundar no lugar,uma missão jesuíta, a qual foi instalada no final daquele ano.
Antonio da Cunha Souto Maior, comandante da Campanha anti-indígena do Governo do Maranhão,em 1708, com a Patente de 1º Mestre de Campo do Piauí, pediu a colaboração de Bernardo Carvalho, e nas suas terras fez o seu acampamento, onde o mercedário Frei Manuel de Jesus e Maria, passou a ser o responsável pela implantação da fé cristã. Após esse fato, o então Coronel, Bernardo de Carvalho, desvinculou-se da hierarquia pernambucana, ficando a serviço do Maranhão. Após, quatro anos de atividades desastrosas junto aos índios que lhe eram fiéis e desentendimentos com o seu irmão então Capitão-Mor, Antonio da Cunha Souto Maior, o primeiro Mestre de Campo do Piauí, foi assassinado por aldeados, incitados por Mandu Ladino, em 12 de julho de 1712. O Capitão-Mor, seu próprio irmão, foi denunciado como principal suspeito pelo mando.
Após o assassinato de Antonio da Cunha Souto Maior, a revolta dos índios espalhou-se na região, então os fazendeiros do norte em reunião, redigiram um abaixo assinado indicando o Coronel Bernardo de Carvalho e Aguiar, para substituir o sinistrado, ato aprovado pelo governador do Maranhão, Cristóvão da Costa Freire , em 30 de dezembro de 1712, com a assinatura de sua Carta Patente como Mestre de Campo.
Entretanto, em 20 de setembro daquele ano, antes de receber a Carta Patente, iniciou as operações de combate ao gentio rebelado. Depois da caça aos anacês em fuga e de muitas escaramuças com prisões, mortes e recuperação de bens seqüestrados de curraleiros, já retornando da área da Ibiapaba, chegou a ribeira do rio Piracuruca , onde teve notícias de que os índios Araíós e Anapurus, haviam atacado a chamada Vila da Parnaíba, capitaneada na época por João Gomes do Rego Barros.
Então, reunindo a sua tropa disponível e reanimando-a das canseiras das lutas travadas, rumou para a povoação atacada, com a finalidade de socorrer os parnaibanos aflitos. A respeito dessa empreitada, o padre franciscano Frei Lino Demescent , se referiu ao Mestre de Campo, escrevendo o trecho a seguir – doc.13/01/715 : “ E vendo a desolação que nos tinha feito o gentio, pelos seus repetidos incursos e cercos, matando-nos alguns homens e quantidade de cavalos e eguas, roubando a seu Missionário, profanando a Igreja e, com uma sacrílega temeridade, cortando as narinas dos santos, se resolveu, com todo o rigor do tempo, a mandar, como o fez, uma bandeira escolhida de sua tropa, me escolhendo por Capitão dela. Partindo aos 8 de dezembro”.
Logo depois do envio desse aparato militar, o experiente Mestre das Conquistas, seguiu com outros comandados e juntando a tropa sob seu comando, avançou ao confronto com os sublevados, resultando positivamente a sua ação..
Após o resgate da vila, o Mestre de Campo teimava em perseguir os nativos, no delta do Parnaíba, mas atendendo a conselhos de colaboradores, optou em enviar uma proposta de paz aos índios , que responderam nada quererem com os brancos, mas sim viverem nas suas terras, sem o nosso comércio. Pediram apenas um sacerdote para morar com eles e lhes administrar o sacramento. Os moradores da vila, acharam viável a posição dos mesmos e assim, Frei Lino Demescent, ficou com eles durante um ano, quando curraleiros da região da Parnaíba e do Ceará, não se contentando com índios livres próximos a eles, forçaram a saída do mentor espiritual cristão, encerrando o primeiro aldeamento no delta parnaibano. Após 11 anos desse fato, esses selvícolas foram aldeados por missionários jesuítas, sob custódia maranhense, fato que resultou na perda da maior parte deltense do rio Parnaíba para o estado do Maranhão.
Sabe-se que apenas uma ordem superior não foi cumprida prontamente pelo arrojado militar. É que a mando da metrópole, se fazia necessária a prisão dos proprietários do sítio Buriti dos Lopes, por questão que envolvia a invasão dos mesmos às terras dos índios Tremembés. Talvez pela amizade e respeito a família pelo fato de ser lusitana como ele, essa missão não foi cumprida. Posteriormente, um membro dessa família – Antonio de Oliveira Lopes – solicitou a confirmação no posto de Sargento-Mor da Vila de Nossa Senhora de Monserrate da Parnaíba, em substituição ao português Manuel Peres Ribeiro, ato consumado em 07 de maio de 1724.
Tudo isso, é estória que tem a ver com a história da Parnaíba.

DA SÉRIE:
ESTÓRIAS A RESPEITO DA HISTÓRIA DA PARNAÍBA

sábado, 21 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Meus pais, Rosália e Miguel, em viagem saudosista a Francinópolis, antigo povoado Papagaio, onde moraram em 1957/1958, no início do casamento.

21 de agosto

AINDA JOSÉLIA

Ontem, quando vinha a Parnaíba, com a missão de fazer a apresentação de Manuel Domingos Neto e de seu livro “O que os netos dos vaqueiros me contaram”, resolvi passar pela casa de meus pais em Campo Maior, sobretudo com o objetivo de lhes entregar cópia da crônica que publiquei neste Diário, datada do dia 17, sob o título “A morte de Josélia”, uma vez que eles não são navegantes da internet, na qual fora publicada. Talvez nisso tenha havido certa dose de recôndito e dissimulado sadismo sentimental e vaidade artística, que nem Freud saberia explicar. É que meu pai é muito emotivo e eu sabia que derramaria lágrimas. Enquanto esperava a refeição num restaurante de Piracuruca, liguei para minha mãe. Ela me informou que papai chorou copiosamente, e lhe leu, com voz embargada e entre lágrimas e soluços, a crônica elegíaca sobre a morte de minha irmã. Posteriormente, já em Parnaíba, após ter cumprido minha missão literária no SALIPA, verifiquei que no meu blog havia um comentário de minha filha Elmara sobre esse texto, em que ela se declarou emocionada, sobretudo na parte em que narrei o sofrimento de meus pais. Havia um outro, da lavra do escritor e professor Cunha e Silva Filho, do qual, algo cabotinamente, pinço o seguinte trecho: “A sua querida Josélia teve o destino dos que se vão cedo e têm sua biografia brutalmente interrompida (…) A poesia, ou a crônica poetizada, como esta que lhe dedicou de corpo e alma, tem suficiente poder de tornar sua irmãzinha sempre viva e doce, e bela e alegre junto de você e de sua família”. Com efeito, ela não é apenas uma fotografia na parede, como no poema de Drummond. Continua muito viva na memória e na saudade de nossos pais e de todos aqueles que a conheceram e lhe tinham estima e amizade.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

NOTÍCIA CULTURAL

Márcio Freitas, Elmar Carvalho e Neto Leal, presidente da Câmara Municiapal de Regeneração, durante a solenidade de posse de Elmar na ALMP, ocorrida em Amarante

POSSE DE MÁRCIO FREITAS

No próximo domingo, às 10 horas, o advogado e escritor Márcio Freitas, natural de Oeiras, tomará posse na Academia de Letras do Médio Parnaíba, cujo presidente é o literato Virgílio Queiroz. A solenidade acontecerá no auditório da Câmara Municipal de Regeneração, terra natal da consorte do empossando. Márcio Freitas passará a ocupar a cadeira nº 25, cujo patrono é Nestor Moreira Ramos, e tem como último ocupante Osvaldo Soares do Nascimento. O discurso de posse está a cargo do advogado e historiador Reginaldo Miranda, atual presidente da Academia Piauiense de Letras, que escreveu o mais importante livro sobre a História de Regeneração. Sem dúvida será uma bela festa de letras e cultura, em que certamente serão proferidos dois belos discursos. Segue abaixo um breve currículo do Dr. MARCIO ANTONIO SOUSA DA ROCHA FREITAS.

MARCIO ANTONIO SOUSA DA ROCHA FREITAS nasceu em 04 de novembro de 1966 em Teresina. Filho de Benedito da Rocha Freitas Filho (advogado e natural de Floriano) e Maria de Jesus Sousa Freitas (advogada e natural de São Pedro do Piauí).
Cidadão Regenerense e Florianense.
Bacharel em Direito pela UFPI. Bacharel em Engenharia Agronômica pela UFPI. Especialista em Gestão de Recursos Hídricos e Meio Ambiente. Especialista em Perícia e Auditoria Ambiental. Mestre e Doutorando em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Pesquisador bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí – FAPEPI.

Professor Efetivo de Direito Ambiental, Direito Agrário, Direito Urbanístico e Direito Administrativo da Universidade Estadual do Piauí – UESPI, do Instituto Camillo Filho, da Faculdade Novafapi e da Escola de Ensino Superior do Floriano (atualmente licenciado para cursar doutorado).
Assessor técnico da Promotoria de Meio Ambiente da Procuradoria Geral de Justiça/ Ministério Público do Estado do Piauí.
Presidente da Fundação Médio Parnaíba para o Desenvolvimento Sustentável do Meio Ambiente e do Agronegócio (com sede em Regeneração). Presidente da Fundação Velho Monge (com sede em Teresina).
Membro do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Teresina – CONDEMA.
Representante Regional da Associação Brasileira de Recursos Hídricos – ABRH e da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES.
Diretor de Assuntos Trabalhistas e Jurídicos do Sindicato dos Engenheiros do Estado do Piauí – SENGE.
Consultor Jurídico da Associação de Proteção aos Animais – APIPA.
Ex-Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção do Piauí e Presidente da Comissão de Defesa do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos.
Ex-Conselheiro do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia – CREA-PI e Coordenador da Comissão de Defesa do Meio Ambiente.
Fundador e Editor do Jornal Folha da Vila.
Ex-Secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Regeneração.
Ex- Professor do Colégio Agrícola de Regeneração.
Editou a Legislação de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, escreveu mais de 100 pareceres técnicos para a Curadoria do Meio Ambiente, publicou mais de 10 artigos científicos sobre meio ambiente e recursos hídricos.
Tem inéditos os livros: Normas de Proteção do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de Teresina; Aspectos Jurídicos do Gerenciamento Costeiro; Ações e Pareceres sobre Meio Ambiente.
Diretor da Academia de Ciências para Regeneração. Mantenedor do Ponto de Leitura de Regeneração.
Advogado e ambientalista.
(Freqüenta Regeneração há mais de 27 anos)

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Bernardo Carranca
com sua carranca de artesanato
artefato – mas não
arte de fato – de cantor/ator/à toa
atropela uma música
com seus gemidos e grunhidos e ganidos.
E canta: “De noite eu rolo
na cama...” E sai rolando, se enrolando
se contorcendo e se retorcendo pelo salão
por entre mesas e pelo chão
– bailarino de mola
sem molejo de cintura –
criador e criatura
de sua própria loucura.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO




18 de agosto

A ÁRVORE

Elmar Carvalho

Era por volta de sete e meia da manhã. Tudo bem claro, mas nada de excesso de luminosidade. A temperatura estava agradável; nada de calor, nem de frio. Contudo, eu não estava feliz naquele momento. Estava um pouco preocupado, por causa de coisas que não dependiam de minha vontade. Coisas que dependiam dos outros e das circunstâncias para serem resolvidas ou melhoradas. De repente, atentei para a beleza daquela árvore. Todo dia passava por ela, mas nunca havia reparado em sua nobre beleza. Embora não se destacasse por ser de grande porte, era altiva e copada. Seu verde era incomum, peculiar; tinha tonalidades ímpares. Suas folhas eram lustrosas, e pareciam ser de uma textura levemente esmaltada. Conforme as folhas estivessem contra ou a favor da luz solar, atingiam diferentes gradações esmeraldinas. Às vezes pareciam foscas, outras vezes, translúcidas. Algumas pareciam espelhos verdes, a refletir a luz do sol; daí a intensidade com que brilhavam. A folhagem da copa era densa, fechada, e se recortava contra o límpido azul do céu daquele dia, em que apenas alguns fiapos de nuvens se esgarçavam tênue e esparsamente. Pela primeira vez percebi suas flores. Eram grandes e belas. Algumas mal começavam a desabrochar. Outras estavam no apogeu de sua beleza madura e completa. Algumas ainda não eram; eram apenas botões, que ainda haveriam de se desabotoar em pura magia, no esplendor de sua glória. As pétalas róseas formavam uma espécie de coroa em torno de uma bolota, que certamente era o embrião do fruto que viria. As pétalas centrais pareciam ter uma franja dourada, arremate de pura e caprichosa ourivesaria. Aquelas gradações de verde e de brilho eram como que o símbolo da esperança, que nos deve alimentar a cada dia. Os diferentes estágios das flores, de broto a botão, de botão a flor, de flor a fruto, me fazem lembrar as etapas de nossa própria vida. Mesmo as flores que se não convertem em frutos são frutos; frutos de beleza e graça. Naquela árvore abençoada colhi o fruto da esperança, e segui confiante e já restituído a mim mesmo em minha integralidade. Rilke, na primeira das Elegias de Duíno, falava de uma árvore sobre a colina, que a cada dia poderíamos rever. Desejo que essa árvore possa sempre ser vista e revista, e se mantenha distante dos golpes brutais de um machado.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Pintura de Rogério Albino

17 de agosto

A MORTE DE JOSÉLIA

Elmar Carvalho

No domingo, Dia dos Pais, fui a Campo Maior. Na casa paterna encontrei a minha irmã Maria José, que passou a minhas mãos um envelope contendo vários recortes de jornais, que ela cuidadosamente colara num papel de boa qualidade, de modo que esses recortes estavam em perfeito estado de conservação. Eram pequenas notas tipográficas, do final da década de 1970, dos jornais Folha do Litoral, Norte do Piauí e O Estado. A maioria continha poemas de minha autoria, do final de minha adolescência. Alguns desses textos, embora não os renegue, não os recolherei em livro. Havia breves notas sobre o lançamento do livro Galopando, primeira obra a agasalhar meus versos, e que mais me causou emoção, por isso mesmo. Também faziam parte do opúsculo os poetas Paulo de Athayde Couto, Josemar Neres, Paulo Couto Machado e Rubervam Du Nascimento.

E havia, no meio dessa relíquia de celulose, duas notas sobre o trágico acidente automobilístico em que faleceu minha irmã Josélia, no apogeu de sua beleza e na plenitude de suas quinze primaveras. Ali estava uma elegia que escrevi sob o impacto de sua morte, e que se encontra estampada no meu livro Rosa dos Ventos Gerais. No meio desses velhos papéis, havia um texto manuscrito, de que já não tinha a menor lembrança, vazado em nervosa prosa poética, em que eu extravasava as minhas emoções ao ferir essa tragédia familiar. Ela faleceu no dia 2 de julho de 1978, e mal completara quinze anos de vida. Era bela. Era alegre. Era cheia de vida. Sua alegria era verdadeiramente contagiante. Exercia feliz e natural liderança sobre suas amigas. Soubemos que no último dia de aula, quando viriam as férias de julho, ela abraçou todos os seus colegas de classe, um a um, meninos e meninas, e lhes disse que fazia aquilo porque lhes desejava umas férias tão alegres como as que ela teria. Também escreveu num caderno uma breve crônica em que pedia que, quando morresse, fosse posto um ramo verde sobre seu túmulo. Parecia ter a premonição de que morreria no verdor dos anos. E um ramo verde apareceu no local em que ela foi sepultada. E – quem sabe? - talvez as suas férias, em outros infinitos páramos de Deus, tenham se convertido numa eterna festa de paz e beatitude.

Recordo muito bem. Eu estava sob uma das traves do estádio de futebol de Buriti dos Lopes, em minha posição de goleiro, quando vi umas moças virem em minha direção. Reconheci que eram umas amigas de minha família e de minhas irmãs. Logo, salvo engano, a Clotildes Duarte me disse que minhas três irmãs haviam sofrido um acidente, mas que estavam bem. Quando percebeu que eu havia assimilado o golpe, acrescentou que não iria me enganar; que a Josélia havia morrido, e que seus parentes iriam me levar a Parnaíba, para eu ficar ao lado de meus pais. Soube, depois, que meu pai, homem extremamente emotivo e sentimental, ao saber da notícia estendeu-se no solo, prostrado, arrasado. Um de meus irmãos teve a presença de espírito e inteligência emocional para cantar uma música religiosa da predileção dele, que dizia para a pessoa segurar na mão de Deus e ir em frente. Imediatamente, o velho levantou-se e criou forças para fugir do desespero. Minha mãe, que sob certos aspectos sempre fora mais forte e mais contida que meu pai, ficou arrasada, e ficou prostrada por vários dias. No dia seguinte, o meu amigo Antônio Gallas escreveu uma de suas Crônicas da Cidade, dedicada a Josélia, que era sua aluna. O texto foi lido por Gilvan Barbosa, de bela e vibrante voz. Dessa época, o poeta Jorge Carvalho encontrou entre os pertences e pequenas lembranças de sua mãe um pequeno impresso, em sua memória, que me repassou de forma muito atenciosa através de e-mail. O diretor dispensou os alunos do Colégio Comercial, onde minhas irmãs estudavam, e eles encheram a catedral, de onde saiu o cortejo fúnebre em direção ao Cemitério da Igualdade, de nome tão sugestivo quanto apropriado.

Tentei ajudar a levar o caixão. Mas como o senti pesado, embora minha irmã fosse tão leve em sua beleza esbelta, em sua espiritualidade alegre. Acho que ele me pesou na alma, porque eu sabia que aquela era uma viagem de onde não se regressa jamais. A não ser na saudade dos que nos amam, dos que sentem a nossa falta. Certamente por isso, meu pai mandou gravar numa placa, que contém a imagem de seu rosto eternamente jovem, os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do pensamento!”