CARTA-LOUVAÇÃO A NOTURNO DE OEIRAS E OUTRAS EVOCAÇÕES (*)
Prezado poeta ELMAR CARVALHO,
Acabei de ler o seu livro, “Noturno
de Oeiras e outras evocações”, que você, a pedido de minha querida irmã
Anatália, gentilmente me enviou.
Li-o de uma tacada, como se diz, pois
não faz mais de uma semana que o recebi.
Li mais rápido que de costume, não
para me desincumbir do compromisso de dar alguma satisfação ao autor, mas o li
assim, vorazmente, porque o livro, por seus vários méritos, me aguçou o
interesse.
Logo no início da leitura, lembrei-me do
ensinamento da escritora americana, Susan Sontag, em seu Questão de Ênfase.
Ensaios: não há livro digno de ser lido se não for digno de ser lido várias
vezes. Não tive nenhuma dúvida de que
”Noturno...” devia ser lido, merecia ser lido, não uma, mas várias vezes. E é o
que está sendo feito, poeta.
Além das virtudes próprias do livro, que
são tantas, ele me dá, de lambujem, mais uma satisfação e um encantamento:
rememorar Oeiras, retornar a Oeiras, reviver Oeiras.
O livro é Oeiras encadernada, viva,
palpitante. Ele me levou a Oeiras, de onde saí ainda bem jovem em busca do
conhecimento que ela não poderia mais me dar. Mas não sei, não sei...
Fico pensando, poeta, se Oeiras, hoje uma
insofrida saudade, não teria me ensinado o pouco que hoje sei (ou penso saber)
da vida e do mundo. Oeiras teria sido a
minha universidade não oficial, pois ela, abrigando tantos professores
titulares de vida, de experiência e plenos de generosidade, poderia, sem
dúvida, ter ensinado muito e muito mais ao menino que fui e ao homem que seria.
Se, como dizem, o menino é o pai do
homem, este menino de Oeiras, se por lá tivesse ficado, hoje teria muito mais
para dar e transmitir a este adulto que
agora lhe escreve. Mas, infelizmente, vi-me obrigado a cabular as aulas
oficiadas pela mestra Oeiras, mas a ela sempre volto, pouco fisicamente, mas a
todo tempo em que o tempo da memória e do afeto me permite.
Seu livro trouxe Oeiras a Belo Horizonte,
trouxe-a a mim, com sua rotina modorrenta, suas tradições, seus odores, os meus
amigos de infância, a escola e seus Mestres, suas lendas e ajudou-me a me
recompor, a fazer uma remontagem emocional da nossa Oeiras. E logo me vejo em Oeiras, menino, quem sabe
de calças curtas, na Vila do Mocha, assustado com os fantasmas que perambulavam
( e ainda perambulam) pelo Sobrado Velho (sobrado dos Ferraz?), pelos
becos e
pelos Cemitérios, velhos os dois.
Você, poeta, com sua arte e inteligência,
recriou-me Oeiras, inteirinha. Tão
animado fiquei que, por conta própria, tomei a liberdade de inserir, na sua
moldura oeirense, os doidos de minha infância, os doidos de Oeiras: Antônio
Bocão (seu Tonho), Ana Ruça, Dorête, Zé Doidim, Claro, e Sabino. Os alfenins de
que você fala, levou-me a Sancha, vizinha nossa, que sabia fazê-los como
ninguém, brancos, gostosos, macios, exatamente como você aponta no Noturno de
Oeiras.
“Noturno de Oeiras”... Como comentá-lo?
Tudo já foi dito sobre o poema e eu estaria tão só chovendo no molhado. Mas não
resisto em comentar o verso “onde músicos falecidos acordam sons delicados”.
Acordar (tecer acordes) e acordar (sair do sono). Magistral essa ambiguidade
poética. Porque os músicos de Oeiras eram famosos por sua sensibilidade e
destreza em compor e tecer pautas de rara beleza.
Mas esses músicos também, com o pretexto
de seus versos, acordaram em minha memória e lá estou eu assistindo-os,
embevecido, no coreto da antiga Praça da Bandeira, a praça mais bonita de
quantas pude ver. Lá estão eles: Osíris (no trombone de vara), Levi (no
pistom), seu Lico (no tambor), Tabaqueiro (nos pratos), Doca (na tuba). Esses e
tantos outros, afora a atividade individual, reuniam-se na noite de toda quinta-feira
para um espetáculo de musicalidade e talento com uma das bandas (eram duas) de
que Oeiras dispunha.
Possidônio Queiroz é um capítulo à
parte. Dono de raro talento para a
música (tocava flauta) e as letras, possuía um conhecimento enciclopédico e uma
capacidade invulgar de ser gentil e obsequioso. De todos os oeirenses, do mais
letrado ao mais simples, exalava admiração e respeito pelo homem e pelo artista
Possidônio.
Pois bem, o seu “Noturno...” é arte de
fina e rebuscada engenharia literária e poética, é um régio presente às letras
piauienses e à história e à memória de Oeiras.
O progresso, poeta, tem o defeito de compartimentar a história,
confinando-a nos limites de uma nesga de tempo vivida por determinada geração.
Digo de outra forma: em termos de memória, as gerações só têm compromissos com
o seu tempo. É necessário, de uma forma
ou de outra, resgatar o tempo passado, tecer um liame vivo entre o ontem e o
hoje, ensinar aos homens de agora a importância do exemplo e dos valores das
gerações passadas.
Seu livro, poeta, é essa linha luminosa
trafegando entre Oeiras atual, moderna (ou modernizada) e Oeiras dos sobradões,
dos seixos nas ruas, dos Passos, da Casa da Pólvora, da Cadeia Velha, da Casa
do Visconde, do Pé de Deus e do Diabo, das Igrejas, do relógio da Matriz (“com
o mostrador roído pela pátina”), do Grupo Escolar Costa Alvarenga e do Ginásio
Municipal Oeirense (nos quais estudei), das quintas (ainda se dizia “quintas”!)
do Cel. Orlando (meu avô), de “seu” Tibério Siqueira e Morena (grandes amigos),
do meu tio João Ribeiro (Santa Rita), dos umbus do Condado e de dona Clarice,
do Poço dos Cavalos (onde quase me afoguei), do Morro do Leme, dos Urubus, da
Sociedade...
Tempo em que os comerciantes fechavam
suas lojas às 11h e só retornavam ao trabalho às 14, depois de uma tranqüila e
reconfortante sesta. Naquele tempo todos sesteavam, só o velho relógio da
Matriz insistia em manter-se acordado, repetindo suas “badaladas punhaladas” de
susto e compromisso.
Tempo de homens e mulheres imperecíveis,
cartilhas vivas nas quais, menino, aprendi um pouco (ou muito) do bê-a-bá da
vida. É preciso, poeta, que as gerações atuais não se esqueçam das que se foram
e o seu livro é um chamado a esse não-esquecimento, a essa reverência ao
passado tão rico de homens e mulheres e das lições escritas e repetidas por
eles.
É preciso que não nos esqueçamos de Joel
Campos, Bembém, Xé, Edul, João Burane, Zé Sá, Raimundinho Sá, Pedro Ferrer,
Pedro Sá, Luiz Rego e Odete, Gerson Campos e sua saudável irreverência, Orlando
Carvalho e Anatália (meus avós maternos), Yaiá (minha avó paterna), Paulo de
Tarso e Iolanda (meus pais), Mário Freitas e dona Conceição, Mãe Tonha, dona
Sinhá e Iara (dos queimados), Antônio Gentil (da “casa das doze janelas doze
donzelas”), de Galeno e Julieta, dos Tabaqueiros, de “seu” Natu e dona Darinha,
de Zé Lopes, do Cônego Cardoso, do Mons. Leopoldo, de Tiborão e dona Cocota,
minha mestra, vivíssima, graças a Deus.
Pedro Ferrer Mendes de Freitas, Pedro
Ferrer do seu livro, jornalista e escritor dos bons, Ferrezinho para a família,
Farroz para a molecada da nossa infância e meninice. Neto de um outro Pedro
Ferrer, um dos homens mais elegantes, finos e gentis de minha época, um dos
grandes amigos de minha família e, em especial,
do meu pai.
Mas já escrevi muito, poeta, muito além
do que devia. É que seu livro e seu acendrado amor por Oeiras transformaram
você num amigo de longa data, aquele que nos dá total liberdade pra conversar,
sem limites de tempo.
Muito obrigado pelo livro, vou relê-lo
várias vezes, sempre em busca do prazer, do enriquecimento e conforto que sua
leitura me dá.
Abraços afetuosos do amigo e admirador,
Elisabeto Ribeiro Gonçalves
(*) Tomei a liberdade de colocar esse título no texto da magnífica carta que o Dr. Elisabeto Ribeiro Gonçalves me enviou, através de e-mail, que muito me desvaneceu e honrou.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirVelho Beto,
ResponderExcluirLi sua carta ao poeta Elmar de um só fôlego, como é comum dizer-se quando algum escrito é de tal modo agradável que o leitor não consegue parar por um minuto que seja. Que coisa, como é que Você, Bessim (assim o chamávamos), guarda tantas lembranças!? Pra mim é um achado ler algo que traga tantas lembranças, pois vivo delas, sem tirar nem botar. Nunca esqueço seu jeito de ser, sobretudo do humor. nem de nossa turma, em que se destacava o impagável Pedro Amador Martins Maranhão, o Pedim, que o mano José Wilson, quando sacristão, pagava para bater as doze badaladas do meio-dia no sino da Matriz, isso, é bom frisar, depois das correspondentes do velho relógio de Liverpool, cidade que também deu Os Beatles. Pedim certa vez, num domingo de mil novecentas e tantas lembranças, como gostava de dizer o poeta Gerson Campos para referir-se a algo inesquecível, tomou um porre e foi à sessão das 8 (20 horas) do Cine. Chegou, sentou-se e começou a sentir náuseas, num crescendo que não conseguiu se segurar. Terminou vomitando nas costas do parceiro que estava na cadeira da frente, o também inesquecível Raimundo Lopes, que não gostou, como era de se esperar, e disse: "ô decepção! Pedim vai curar essa 'russaca' em casa, vei!!!" Pois é, querido e inesquecível parceiro, como diz verso de Paulinho da Viola no seu antológico "Sinal Fechado": "precisamos nos ver por aí!" Grande abraço, cara!
Ferrezim de João Burane