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"Fotos antigas," se não é a retomada da poesia de Elmar Carvalho, deve ser entendido como um lampejo feliz de um temperamento poético visceral independente de o autor voltar ou não a praticar o verso.
Num e noutro caso, pouco importa. O que se deve assinalar é que o poema
em apreço não diminui os poemas já escritos, publicados e muito analisados.
Foram esses poemas já escritos que o tornaram um dos poetas mais conhecidos e
admirados da lírica piauiense contemporânea.
Trazendo a público este poema após alguns anos de jejum sem escrever poesia,
o nível de qualidade, todavia, a meu ver, não caiu absolutamente. Escolheu o
tema do "ubi sunt?" que em Elmar é algo recorrente, sobretudo agora
que vive a plena maturidade de escritor.
Uma vez, afirmei que todo bom poeta possui algo em comum: ser bom poeta
e a um só tempo ser diferente um do outro. O mesmo, diria, vale para outros
artistas fora do universo da palavra, como pintores, músicos, escultores,
dançarinos etc. O que os une é o talento, o preparo técnico, o domínio da
linguagem literária, o conhecimento de sua arte, a visão do mundo.
"Fotos antigas" é um poema que me emociona como leitor e como
analista de literatura. Nele os versos lhe parecem ter vindo naturais,
espontâneos, plenos de sentimentos nostálgicos, de imagens de um passado ainda
vivo na memória que não deseja o esquecimento, visto que é matéria armazenada
lá no fundo do coração do vate.
Elmar é um poeta que elegeu como um dos temas preferidos a reconstrução
da paisagem antiga, das pessoas, dos objetos e construções que, seja na cidade,
seja no meio rural, que mudaram de fisionomias, físicas ou psicológicas, nos
tempos atuais, ou desapareceram na voragem do tempo.
Sua lírica, em decorrência do tempo devorador, canta e lamenta a perda
das imagens diversas e situações de outrora que o seu espírito jamais aceitou
no confronto com os tempos apressado atuais. São imagens que lhe povoaram e
ainda povoam na retina sem limite espaciotemporal.
No fundo da saudade, por vezes em solene tom elegíaco, o poeta,
dialogando com outros poetas de gerações diferentes, não deixa escapar uma
dolorida crítica à modernidade. Talvez nesse aspecto haja algo nele que se
aproxime da saudade dacostiana: o fundo romântico do qual nunca se livrou nem
um nem outro. Em Paulo Machado, outro poeta de alta qualidade, percebi essa
escavação no tempo procurando o seu resgate, em bela notação lírica, de uma
cidade amada, Teresina.
Gostaria muito de me estender mais sobre o poema agora vindo a público.
Porém, deixo registrado, nessa primeira leitura, o quanto me agradou a leitura
desse poema, um convite ao mundo admirável da saudade e sem pieguice fácil.
Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2017.
Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2017.
Cunha e Silva Filho
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