O sumiço
das galinhas
Pádua Marques
Contista, romancista e jornalista
Foi ficar sabendo que seu compadre e
amigo de lutas políticas no Piauí, Simplício Dias da Silva, governador da vila
da Parnaíba, estava muito doente, sem força nas pernas, tísico e até já com
dificuldade de falar alguma coisa, que Benevides do Prado, negociante de Chaval,
no Ceará, mandou selar um cavalo e sem piscar os olhos ordenou que Romeu, seu
escravo de confiança, corresse no terreiro da fazenda e trouxesse na sua
presença umas cabeças de galinhas. Era pra o coronel tomar uns caldos e quem
sabe recuperar as forças.
A viagem de Romeu foi sofrida por
aqueles matos secos do início de setembro e saindo de madrugada na direção da
vila da Parnaíba. Em cima do cavalo levava umas dez cabeças de frangas de
primeira pena, ainda não cobertas por galo, canelas limpas, de crista miúda. Aves
de dar gosto até de vender num mercado. As melhores que pode tirar da imensa
criação de Benevides do Prado no distante Chaval. No romper da manhã Romeu
chegou ao largo da casa de morada de Simplício Dias da Silva e, com medo de
causar perturbação, achou de esperar de longe.
Romeu, negro de seus quarenta anos,
trazia no alforje uma carta de Benevides do Prado em que o cearense desejava ao
coronel no Piauí pronto restabelecimento da saúde e falava da carga de galinhas
pra o compadre se alimentar. Recomendava que as franguinhas servissem pra
canjas nos finais de tarde e até que se assim desejasse, antes de dormir, pra
não darem empanzinamento. Era presente seu e se assim desejasse mais, era só
ordenar. E foi o escravo ficar esperando um tempo longo alguém sair da casa de
Simplício Dias da Silva que fez com que tomasse uma decisão.
Tomou o rumo do porto Salgado lá
embaixo e por lá foi visto com o cavalo e as franguinhas por uns marinheiros do
navio Princesa de Belém. Viram as aves e acharam de perguntar ao negro de quem
eram e se estavam à venda. Se vendesse as galinhas eram pra servirem de
refeição a bordo ainda naquela manhã de quarta-feira! Romeu ficou coçando a
cabeça por uns instantes e esfregando as mãos e metendo no alforje se lembrou
da carta de Benevides do Prado. De baixo onde estava respondeu que a carga era
presente de seu dono pra o coronel Simplício Dias da Silva.
Os marinheiros não perderam tempo de
dizer que do jeito que Simplício Dias estava, mais morto do que vivo, não iria
sentir falta e nem ninguém iria dar conhecimento de que umas dez galinhas novas,
vindas do terreiro de Benevides do Prado, em Chaval, iriam fazer falta. Que
vendesse, pegasse aquele bom dinheiro e fizesse uso nas lojas e armazéns da
Parnaíba. Seria dinheiro suficiente até pra que fosse gastar com mulheres e
bebidas nos Tucuns ou na Coroa. Romeu alegou que havia uma carta do seu senhor
pra o coronel dando ciência da carga e desejando pronto restabelecimento.
De novo os marinheiros acharam de
meter na cabeça do negro Romeu que desse um fim na carta. Simplício nem iria
fazer questão de saber. Ficaram jogando preços nas galinhas como se estivessem
num leilão. A aposta já alcançava uma boa soma e sempre coberta por um
marinheiro mais afoito. E naquela disputa foram indo, foram indo, foram indo e
o negro fazendo bossa e criando e encompridando conversa por conta de sua
condição e fidelidade. Vai que alguém reconhece e depois fica sabendo do que
veio fazer na vila da Parnaíba? O sol já estava alto quando finalmente Romeu
aceitou vender as dez franguinhas, presente de Benevides do Prado, do Chaval,
pra Simplício Dias da Silva, na vila da Parnaíba.
Romeu aceitou uns dez tostões pelas
dez franguinhas. O marinheiro desceu da embarcação e veio fechar o negócio. Uma
a uma as dez moedas foram caindo na mão grosseira. O negro, que nunca havia
pegado em dinheiro, estava satisfeito. E não é que tinha jeito pra negociante?
Pegou as moedas e enfiou no bolso da calça. Ainda meio afobado e incentivado
pelo comprador das galinhas, abriu o alforje, retirou a carta e dando mais uns
passos rasgou e jogou os pedaços dentro do rio Igaraçu.
Depois, puxando o cavalo pelo cabresto
tomou o rumo da ribanceira e se perdeu no meio de toda aquela gente do porto
Salgado entre os armazéns, as lojas, as negras vendedoras de frutas e verduras
e os negros carregadores de água pra beber e tomar banho, nas primeiras horas
da manhã. Quando voltasse pra Chaval, daqui a mais um dia, se voltasse, iria
dizer que Simplício Dias da Silva, dado o estado em que se encontrava, nem
fizera mais questão de receber presentes. E sua mulher, dona Isabel Tomásia,
que não sabia ler e nem escrever, apenas recomendou agradecimentos. Aqueles
tostões ele não tinha!
Belíssima crônica histórica.
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