domingo, 25 de janeiro de 2026

AS MOSCAS E O TEMPO

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AS MOSCAS E O TEMPO


Elmar Carvalho

 

Moscas douradas

copulam no ar

e tecem teias

com fios longos de pensamentos,

que se perdem

em passado sem história

e em futuro sem

perspectivas.

Moscas vermelhas

copulam no chão

e as mulheres

surgem no matagal

e as camas estremecem

nas alcovas.

Moscas azuis

copulam no céu:

só existem

anjos e arcanjos

onde a matéria

não existe.

            Pba, 02.04.78 

O amigo Evonaldo Cerqueira deu a seguinte interpretação a esse poema:

"Uma vez, ouvi o Professor Luiz Romero Lima dizer que os poemas, ao serem publicados, não são mais do poeta. A interpretação é  livre e cabe a qualquer um. Pois bem, desculpe-me a audácia. 

 Num panorama "sociomundial" (nem sei se essa palavra existe), as moscas douradas seriam os reinos nas colônias, sem uma história e com um futuro sem perspectivas (por exemplo, os astecas...).

As moscas vermelhas (sem conotação política e mero uso de cores) teriam os pés no chão, com produtividade (a figura materna das mulheres)numa proliferação mais popular: camas estremecem nas alcovas. 

E as moscas azuis (plano superior) na eterna geração da humanidade encarnando num plano físico, no eterno ciclo: nascer, morrer, retornar..."

*         *         *

E o professor e escritor Marcondes Araújo o parafraseou, de forma algo jocosa, da seguinte forma:

Maniqueísmo das moscas

As moscas sugerem poemas

Mas também certa arrelia

Ora solução, ora problema

Cada momento uma valia

As que reciclam o nutriente

Mas tem “mosca de padaria”.


Ajudam a eliminar detritos

Polinizam reprodução das plantas

É um gesto bondoso e bonito

Atitude que encanta

Conforme está escrito

Parece bendita e santa.


Mas o outro lado da vida

Pautado na ciência e crença

Conduz a uma sequela desvalida

Pois contamina e traz doença

Então mosca está dividida

Entre o ódio e a querença.


Altos, 26/01/26

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