| Imagem elaborada pela IA GPT |
GALO
Elmar Carvalho
O galo
navalha as trevas
e o
silêncio da noite com seu canto
e desperta o sol e o corneteiro
para o incêndio e
o toque da alvorada.
Poeta, contista, cronista, romancista, memorialista e diarista. Membro da Academia Piauiense de Letras. Juiz de Direito aposentado. *AS MATÉRIAS ASSINADAS SÃO DE RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES, E NÃO TRADUZEM OBRIGATORIAMENTE A OPINIÃO DO TITULAR DESTE BLOG.
| Elmar, aos 70 anos, visto por Gervásio Castro |
Recebi, na segunda-feira, dia 06/04/2026, via WhatsApp, a
bela e criativa ilustração acima, de autoria de Gervásio Castro, um dos maiores
chargistas brasileiros. O mimo, além de seu inestimável valor intrínseco,
serviu-me, ainda, de estímulo para escrever o poema abaixo. Não farei
comemoração festiva; não haverá regabofe. Para marcar meus “setentanos”,
reeditarei Confissões de um juiz, com alguns acréscimos, e publicarei Paragens
& Miragens – encantos e quebrantos do Piauí.
E hoje, vale dizer agora, acabo de receber do grande Gervásio Castro esta outra magnífica charge:
| Os astronautas voltam de uma viagem em torno da Lua, e eu completo mais uma volta em torno do Sol, através da magia da arte de Gervásio Castro |
EPIGRAMAS DE UM NOVEL SETENTÃO
Elmar
Carvalho
Meus amigos
e inimigos,
eu lhes
anuncio que entra em cena
este novo
alquebrado setentão,
talvez bobo
da corte de um bufão,
ou este
velho Quixote,
de escudo no
braço e espada na mão.
Entro agora
na casa dos setenta,
sem saber ao
certo se entro
numa casa ou
apenas na tapera
de quem já
não alimenta ilusões,
de quem já
nada espera.
Barco
embriagado,
barco
egresso de Sagres,
a tropeçar
nas ondas,
a dançar
furioso a Dança dos Sabres.
Sem armas e sem elmo,
em minha nau já não fulguram
os esplêndidos fogos de Santelmo.
Vislumbrei,
nos umbrais do inferno,
a dantesca
tabuleta:
“Aqui cessa
toda esperança.”
Já não tenho
primavera, só inverno.
Mesmo assim,
em minha alma dançam
as alegrias
e alvíssaras
de um parque
de criança
que nos
trapézios se balança.
Aos setenta,
reencontrei a criança
que fui e
que vive em minha lembrança,
a inverter a
marcha da ampulheta,
a sonhar com
o céu e outra tabuleta:
“Aqui
principia toda esperança.”
Teresina, 9
de abril de 2026
Quando foi
ontem (08/04/2026), fui presenteado com este excelente acróstico, da lavra do
poeta Walter Lima:
0904.01
Já não o
vemos como homem-original
Ostenta uma
pose mais imponente
Sendo bem
visto como aquele Cacto
Evoca também
um símbolo de sua terra:
Em relação
às Letras Justiça Ordem
Lembra
outros aspectos da enorme estátua-viva:
Maravilhoso
tratável belo Cacto do Bandeira
Atravessa
anos, eras de histórias contadas
Recebe do
Divino dádivas: soma de anos.
Mais que
nome marcado representativo
Excepcional
exemplo de figura humana
Logra o
merecido troféu-vaticínio –
Os filhos
gerou, livros escreveu, árvores CARVALHO plantou
Evoé POEta!
W.Lima.
RP, SP, 09.04.2026.
Anteriormente, já havia sido homenageado pela revista Piauí Poético, edição nº 40, editada pelo poeta Claucio Ciarlini, cuja capa segue abaixo:
Finalmente, como coroamento dos textos acima, acabo de
receber uma carta eletrônica do irmão maçônico Sales Palha Dias, na qual ele se
revela um exímio missivista, de linguagem fluente e escorreita, e que segue
abaixo:
Amigo Elmar,
Celebrar o seu aniversário é reconhecer uma vida que não apenas passa - mas permanece, pela marca que imprime no tempo e nas pessoas.
Poeta de sensibilidade rara, juiz de conduta íntegra e escritor de pensamento lúcido, você reúne, com naturalidade, qualidades que poucos conseguem harmonizar: _rigor e humanidade, cultura e simplicidade, firmeza e delicadeza._
Sua trajetória honra a palavra que escreve e a Justiça que sempre exerceu - e, mais que isso, dignifica a amizade daqueles que têm o privilégio de conviver com você.
Receba, neste dia, meu abraço sincero e respeitoso, com votos de saúde, serenidade e contínua inspiração - para que siga sendo, como é, presença que eleva, exemplo que orienta e voz que permanece.
Feliz aniversário!
Palha Dias.
Para pingar o ponto final de diamante ou para fechar esta postagem com chave de ouro, segue abaixo um belo poema do amigo Carlos Dias, altoense da melhor cepa, ainda por conta de meu natalício:
EL - MAR
Ao poeta Elmar Carvalho
Quero hoje abraçar
E lhe dar meus cumprimentos
Pela data salutar
Que o amigo nesse tempo
Está alegre a festejar.
Sessent’anos de poesia
Brotada do coração,
Rimando com maestria
E muita elocução.
Só quem sabe “faz ao vivo”,
Já dizia o Faustão!
Nas suas águas vertentes,
Trilhadas de ano a ano,
Registrando com a pena
E singrando sem engano,
Lembra o nobre magistrado
Plena imagem do oceano.
Continue, vate inspirado,
Poetando com fervor,
Premiando nosso mundo
E escrevendo com ardor,
Pois você, da pátria-letra,
É um Desembargador. 📝
Carlos Dias, seu criado.
Altos-PI, domingo, 12.04.2026; 07:53 h.
| Imagem elaborada pela IA GPT, a meu pedido. |
CHUVA E APAGÃO
Elmar Carvalho
Após o recesso natalino e minhas
férias, retornei na segunda-feira, pela manhã, a Regeneração, para reassumir
minhas funções. Quando abri a geladeira, logo notei que não havia energia
elétrica. Tomei conhecimento de que desde domingo o fornecimento desse serviço
fora interrompido. Ou seja, estava havendo um apagão em grande área do médio
Parnaíba.
Todos lembram que importante
autoridade federal garantira que o Brasil não corria risco de sofrer novo
apagão, como ocorrera anos atrás, quando grande e importante parte do
território nacional ficara sem o serviço de fornecimento de energia elétrica.
Acontece que eu vi na internet que, desde o famoso apagão que assombrou os
brasileiros, o nosso país já sofreu dezenas de vários apagões de menor escala.
Não preciso lembrar que no Piauí,
sobretudo nas pequenas cidades, o serviço de energia elétrica é muito ruim,
tanto em termos de voltagem, como de oscilações e interrupções, que por vezes
se prolongam por várias horas. No caso do problema em Regeneração, o
fornecimento retornou por poucas horas na segunda-feira, voltando a faltar de
novo, para somente ser restabelecido depois do meio-dia de terça-feira.
Deixo que o leitor se encarregue
de calcular e imaginar os prejuízos que a população sofreu, no tocante a
conservação de alimentos, impossibilidade de uso de aparelhos eletrodomésticos,
interrupção de serviços públicos, inclusive de fornecimento de água e
telefonia, fora os danos causados ao comércio, sobretudo os que vendem produtos
perecíveis ou os que precisam de energia para prestação de serviços.
Na tarde de segunda-feira, caiu
forte chuva, que se prolongou noite adentro. Houve um pequeno temporal, com o
vento uivando nas folhagens, perto de minha casa. Fui ao terraço para
contemplar o espetáculo da natureza. As árvores se retorciam, bracejavam em
louco requebrado e bramiam, sob os açoites da ventania. Na terça-feira também
choveu muito.
Lembrei-me de Ribeiro Gonçalves,
onde trabalhei durante quase quatro anos. Certa feita, depois de uma viagem de
mais de doze horas de ônibus, cheguei à agência no momento em que caía uma
chuva de média intensidade. Como não havia serviço de táxi e não havia nenhum
carro nas proximidades, tratei logo de enfrentá-la de peito aberto. Segui para
o fórum, onde residia em pequeno apartamento destinado ao juiz. Foi uma semana
de chuva, em que fiquei o tempo todo na repartição, apenas fazendo o percurso
do gabinete para o apartamento, e vice-versa.
Essa chuvarada de Ribeiro
Gonçalves terminou me sendo benéfica, porque me inspirou um poema de difícil e
longa gestação. Fazia tempos que regurgitavam em meu cérebro algumas ideias,
algumas metáforas, comparações e onomatopeias, mas os versos teimavam em não
querer passar para o papel, ou para a memória e virtualidade do computador.
Contudo, vendo essa demorada chuva ribeirense, ouvindo o seu batuque no
telhado, a semente do poema terminou por rebentar, e os versos floriram do
jeito como eu os desejava, refertos de córregos, pululantes de
pulutricantes cachoeiras, cantantes como
rãs, espumantes como corredeiras nos dorsos das pedras.
Encerrando este registro, digo
que a chuva de Regeneração me fez lembar o jornal A Luta, de Campo Maior, em
que publiquei texto de minha autoria pela primeira vez; esse semanário estampou que a energia da
CEPISA era como bode, se arreliava com água. E note-se que esse reparo foi
escrito ainda na primeira metade da década de 1970. Invocando o rifão popular,
pergunto: será se tudo continua como dantes no quartel de Abrantes? Ou, pior,
será se tudo continua – para usar outro anexim – como a cantiga da perua: pior,
pior, pior...?
9 de fevereiro de 2011