quinta-feira, 28 de abril de 2022

BREVE NOTÍCIA FAMILIAR

 

Elmar, Miguel e Rosália, em Francinopólis, onde moramos, no início da vida de casados de meus pais. Meu pai assumiu seu cargo no DCT nessa cidade, então povoado de Papagaio.

BREVE NOTÍCIA FAMILIAR


Elmar Carvalho


BREVE NOTÍCIA FAMILIAR (*)

 

Domingo passado, recebi de meu pai breve anotação manuscrita, feita a meu pedido, sobre os nossos avoengos. Ele registrou apenas o que sabia de memória, sem consulta a registros de livros cartorários e outros alfarrábios. Muitas informações contidas nesta nota estão nos livros Vultos da História de Barras, de Wilson Carvalho Gonçalves, e em O Ponta-de-Rama e Ruas, Avenidas e Praças de Piripiri, ambos de meu primo Fabiano Melo, de onde as colhi. Meu pai tinha apenas treze anos de idade quando foi chamado ao gabinete do diretor do tradicional Colégio Diocesano, do qual era aluno interno, numa época em que pouquíssimos piauienses conseguiam cursar o antigo ginásio.

Para que se tenha uma pequena ideia de como era restritivo, excludente e elitista o sistema de ensino, basta dizer que muitos de seus antigos colegas se tornaram governadores, senadores, deputados, magistrados e detentores dos mais altos cargos públicos do Estado. Foi chamado, logo após concluir a prova parcial do dia 30 de setembro de 1939, para receber do diretor, padre Chaves — que depois se tornou um dos maiores historiadores do Piauí —, a impactante notícia de que seu pai havia morrido. Era filho único do terceiro casamento de meu avô. Padre Chaves, que conheci e que concedeu a mim e ao jornalista Domingos Bezerra excelente entrevista, que publiquei na revista Cadernos de Teresina, editada pela Fundação Cultural que leva o seu nome, foi afetuoso e cuidadoso ao dar a notícia, proferindo palavras de conforto e resignação; recomendou que meu pai fosse repousar.

Meu avô tivera oito filhos do primeiro consórcio e nenhum do segundo. Diante desse inesperado acontecimento, papai voltou para Barras, a chamado de sua mãe, e só veio a concluir o ginásio muitos anos depois. Meu avô paterno chamava-se João de Deus Nascimento; era filho de Emiliana e Silvestre Ribeiro do Nascimento. Graças a seu esforço e labor, fez prosperar uma gleba de terra, situada na data Luiz de Souza, e conseguiu amealhar algumas reses, engenho de cana e casa de farinhada. Era respeitado em sua localidade e na cidade de Barras, onde era muito conhecido. Para que se tenha uma ideia de sua personalidade marcante, basta que eu conte dois episódios de sua vida.

Certo dia, uma de suas noras deu-lhe a notícia de que o marido estava em namoro com uma mulher da redondeza. Meu avô chamou um agregado de sua confiança e se dirigiu até certo ponto, perto da casa da amante de seu filho, de onde dava para ouvir as gargalhadas e arrulhos dos dois pombinhos, nos colóquios e conciliábulos amorosos. Constatada a infidelidade cometida pelo rebento, ficou de tocaia. Quando ele retornava para casa, abordou-o de forma enérgica e lhe disse que, se voltasse a “pular a cerca”, iria aplicar-lhe uma sova caprichada, de que ele jamais esqueceria. Não se soube da surra, porque não mais se soube de transgressão do rapaz. Eram os costumes severos da época, de fortes reprimendas.

Morava, na vizinhança, uma parenta de meu avô, creio que sobrinha, cega de nascença e entrevada, como se dizia antigamente. Levava a vida a cantar hinos religiosos e a rezar, em perpétua vigília e penitência. Meu avô, falecido em 1939, pedira para ser enterrado perto de sua cova. Talvez tenha sido recebido por ela, sarada de seus males, coberta pelo manto de glória e beatitude que deve ornar os que levaram uma vida de sofrimento, renúncia e conformação. No cemitério campestre da chapada de Luiz de Souza, perto de faveiras, sambaíbas, paus-d’arco e pequizeiros, repousam, lado a lado, os restos mortais de meu avô João de Deus e dessa parenta, que aceitou com fé e resignação o sofrimento que lhe coube, e que viveu como um anjo, a orar e a entoar cânticos e “excelências” a Deus.

Meu avô conheceu minha avó na cidade de Barras, onde ela morava em companhia de seu irmão Elpídio Lucas Furtado de Carvalho. Chamava-se Joana Lina de Deus Carvalho e nascera em Piripiri. Era filha de Miguel Furtado do Rego e de Isabel Lina de Carvalho. Muitas décadas após meu pai deixar o seu pago, fui com ele conhecer o local onde nascera, que fica a poucos quilômetros da cidade de Barras. Vi meu pai tomado de profunda emoção, com os olhos marejados, a olhar o olho-d’água de sua infância, que ainda corria perene, a rever o buritizal da várzea e o morro verdejante onde se erguera outrora a casa de seu pai.

Meu bisavô paterno, Miguel Furtado do Rego, era filho de Antônio José do Rego e Francisca Furtado de Albuquerque Cavalcante; Antônio José era filho de Antônio José do Rego Castelo Branco e Ana Maria de Jesus; Antônio José era filho de Francisco José do Rego Castelo Branco e Auta Inês de Castro. Minha trisavó Francisca Furtado de Albuquerque Cavalcante era filha de Inácio Furtado de Albuquerque Cavalcante e Maria Vicência de Albuquerque Cavalcante, que era filha de Luís Furtado de Albuquerque Cavalcante e Rosaura Muniz Barreto, filha de Aleixo Muniz Barreto. Luís e Rosaura foram figuras ilustres no território que veio a constituir o município de São Miguel do Tapuio, e que pertencera à vila de Marvão (Castelo do Piauí).

Isabel Lina de Carvalho, minha bisavó paterna, era filha de Alexandre Carvalho de Almeida e Salutina Rosa de Jesus, segundo consta no site Family Search (acesso em 25/06/2026).Existem dois ou três homônimos de meu trisavô Alexandre Carvalho de Almeida. Um deles era irmão de José Carvalho de Almeida, casado com Francisca Castelo Branco; outro era neto desse mesmo José e de Francisca. No livro Enlaces de Família – Uma Genealogia em Construção (v. I), de autoria de Valdemir Miranda de Castro, consta que existiu ainda outro Alexandre Carvalho de Almeida, filho de José e de Francisca. Assim, parece razoável supor que esse meu ancestral — considerando que sua filha Isabel Lina teria nascido em 1860 — poderia ser filho ou sobrinho de José, mas não poderia ser o Alexandre irmão de José, que teria nascido aproximadamente em 1770, nem o Alexandre neto de José, que nasceu em 1850. Em consequência, esse meu ancestral seria descendente de Antônio Carvalho de Almeida (1.º do nome) e de Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco, segunda deste nome.

Meu avô materno chamava-se José Horácio de Melo, nascido no lugar Campestre, município de Piracuruca, no dia 5 de agosto de 1893, e falecido em 13 de agosto de 1965. Era filho de Horácio Luiz de Melo e Antônia Quitéria de Carvalho. Horácio Luiz era filho de Antônio Luiz de Melo (este, filho de Onofre José de Melo e Cecília Maria das Virgens, oriundos de Pernambuco e fundadores da Casa do Desterro, em Piracuruca) e Hygina Rosa de Menezes. Antônia Quitéria tinha como pais os primos Marcos José de Carvalho e Quitéria Leopoldina de Carvalho. Marcos José era filho de José Eusébio de Carvalho e Josefa Odória de Oliveira; e Quitéria Leopoldina era filha de João Bartolomeu de Carvalho e Mariana Rosa de Castelo Branco. José Eusébio e João Bartolomeu, naturais de Granja (CE), eram filhos de Domingos José de Carvalho e Quitéria de Brito Passos. Minha avó materna chamava-se Maria Carlota e era conhecida como Paroara, dizem que por causa de sua tez alva e rosada como essa flor. Pertencia a velhas estirpes de Piracuruca, entre as quais Sousa e Mendes. Morreu jovem, quando minha mãe tinha apenas onze anos de vida.

Por essa razão, mamãe foi morar com sua tia, irmã de seu pai, Maria Cristina Lima de Melo. Com a morte desta, passou a morar com sua prima Mirozinha, minha madrinha, até casar-se com meu pai. Devo muito a essa madrinha, que me emprestava, por intermédio de meu pai, os livros da biblioteca do Grupo Escolar Valdivino Tito e os de seu próprio acervo. Mamãe não guardou traumas nem mágoas de sua orfandade, nem de ter morado com esses parentes. Pelo contrário, tinha quase veneração por sua tia e por sua prima, e lhes dedicava devoção de filha e irmã. Quando falava delas, era sempre com saudade e respeito.

Nunca tive paciência para empreender pesquisa histórica, e muito menos genealógica, que acho importante, mas um tanto tediosa, de modo que desejei fazer apenas um breve registro, para que meus descendentes e irmãos conheçam um pouco de nossos ancestrais. Aliás, meu pai, homem humilde, mas altivo a seu modo e no bom sentido da palavra, sempre foi avesso a empáfias e blasonarias de presumidas e pretensas nobiliarquias genealógicas, sabedor de que todos somos pó e de que ao pó da terra voltaremos. Só me falou, com mais detalhes, de nossos avoengos quando eu já tinha cinquenta anos de idade, por sinal em Piripiri, terra a que somos ligados por laços de sangue, no Auditório Osíris Neves de Melo, quando eu representava várias academias a que pertenço, a convite da professora Clea Rezende Neves de Melo, na solenidade em que foram lançados um livro dela e outro meu, Lira dos Cinquentanos.

Meu pai, ainda bem moço, veio para Campo Maior, onde trabalhou na Casa Inglesa. Posteriormente, ingressou no antigo Departamento de Correios e Telégrafos (DCT), através de concurso público, no ano de 1958. No início de sua vida de casado e de servidor público, morou no povoado Papagaio, hoje cidade de Francinópolis, por cerca de dois anos. O DCT transformou-se em ECT, e meu pai terminou indo para Parnaíba, onde por vários anos chefiou a agência local dessa empresa. Mas, amante inveterado e incondicional de Campo Maior, terminou regressando mais uma vez à minha terra natal, onde, aposentado, joga dominó todos os dias com os irmãos Vicente, Antônio Wilson e Chico Andrade. Minha mãe consagrou todo o seu esforço e dedicação a cuidar do marido e dos filhos. E como cuidou!...

 

(*) Este texto foi extraído do livro Diário Incontínuo. Foi publicado originalmente na internet, em março de 2010, em meu blog. Posteriormente, através de novas informações, obtidas em sucessivas pesquisas, foi substancialmente aumentado e reformulado. Esta republicação do texto foi feita hoje, dia 29/06/2026.

REFERÊNCIAS:

Vultos da História de Barras, de Wilson Carvalho Gonçalves.

O Ponta-de-Rama, de Fabiano Melo

Ruas Avenidas e Praças de Piripiri, de Fabiano Melo

Os Carvalho de Almeida do Piauhy, de Gilberto de Abreu Sodré Carvalho

Antepassados – genealogias patrilineares de minha mãe e de meu pai, de Gilberto de Abreu Sodré Carvalho.

Enlaces de Família: uma genealogia em construção, de Valdemir Miranda de Castro

Fenelon Ferreira Castello Branco e Castello Branco – Ontem e Hoje, de Homero  Castello Branco.

Obra Reunida, ed. APL, de Pe. Cláudio Melo.

Biografia de Pessoa Anta, de Pe. Vicente Martins, publicada na Revista Trimensal (1917) do Instituto do Ceará.

Siará Grande: uma Província Portuguesa do Nordeste Oriental do Brasil - Vol. I, de Francisco Augusto de Araújo Lima.

José Eusébio de Carvalho Oliveira, artigo de Reginaldo Miranda, publicado no blog Poeta Elmar.

Casa do Desterro, artigo de Valdemir Miranda de Castro, publicado no blog Poeta Elmar.

Site Family Search.

Site Parentesco.

Blog Poeta Elmar.


5 comentários:

  1. Adorei ler essa história pois valorizo muito laços e entrelaços familiares… parabéns pela riqueza da semente que foi seu avô produzindo tantos frutos especiais, incluindo vc, caro escritor amigo.

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  2. Elmar.vc sabe que Elpidio lucas e Joana Batitaeram meus avós paternos.

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  3. Boa noite Elmar, belo texto e linda história dos avoengos. Quando foi essa foto de você com seus pais? Lembrei-me do início dos anos 80, quando o conheci já como chefe dos Correios na Praça da Graça.

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  4. Linda história dos nossos antepassados e das cidades do Vale do Longá. Tenho carinho enorme por Piripiri, cidade que conheci aos 15 anos, por convite de um amigo de escola, e onde passei por situações juvenis boas que até hoje me lembro.

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  5. Obrigado pelo acesso e comentário, caros amigos.

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