domingo, 31 de maio de 2026

AMOR DE SALVAÇÃO

 

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AMOR DE SALVAÇÃO


Elmar Carvalho

 

O teu grande amor

foi o que te salvou

e me salvou,

pois nos arrebatou

dos amores tentadores

em que seríamos arrastados.

Já que me amavas

eu tive que te amar

para que não sofresses,

nem eu, amiga, por

te ver sofrer.

Não gosto que ninguém sofra

e muito menos tu, amada,

frágil frasco de fragrâncias

e de refrigérios refrescantes

que me ama muito além

do que mereço.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

OCASOS & ACASOS

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OCASOS & ACASOS


Elmar Carvalho

 

Hoje a televisão noticiou que uma pedra, de aproximadamente dois quilos, caiu de um viaduto sobre o para-brisa de um carro que passava, e terminou provocando a morte do passageiro. Se a pedra foi empurrada por alguém, esse alguém deve ser alguma espécie de louco, para fazer uma maldade tão gratuita, já que não poderia saber quem iria ser atingido com o impacto.

 

Seria uma espécie de franco atirador de pedra ou um jogador de roleta russa, mas a apostar na sorte alheia, e não na sua própria, a se comprazer em sua iniquidade gratuita e ociosa, que nenhum bem lhe renderia. E se ninguém a empurrou, trata-se apenas de uma fortuita fatalidade. Acaso o carro viesse alguns segundos mais devagar ou alguns segundos em mais alta velocidade, o desfecho, certamente, não teria sido trágico.

 

Esse episódio me fez lembrar o caso do senhor Martinho, um amigo de meu pai. Muitos anos atrás ele foi bafejado pela sorte, quando foi contemplado com um bom prêmio lotérico. Aproveitou, segundo disseram, para empregar o dinheiro na compra de várias caixas de sabão, para revender esse produto.

 

Acabou não fazendo um bom negócio, e o prêmio de nada lhe serviu, com o dinheiro se lhe esvaindo entre os dedos como num passe de mágica. Em 1975 fomos morar em Parnaíba, e meu pai ficou vários anos sem ver esse seu amigo. No final da década de 80, Martinho conseguiu localizar meu pai, e foi visitá-lo, inesperadamente, em sua casa, onde os dois conversaram longamente sobre assuntos idos e vividos.

 

Poucos dias depois, meu pai soube da tragédia. O carro desse representante comercial foi colhido pelo trem, na passagem de nível entre Teresina e Altos ou entre esta cidade e Campo Maior. A locomotiva passa, se não estou enganado, apenas uma vez por dia, indo para o Ceará, ou voltando desse estado. Se Martinho tivesse parado em algum lugar, seja para tomar um cafezinho, seja para ingerir um refrigerante, o desastre que lhe ceifou a vida não teria acontecido. Ou teria? Não teria sido alguma eventual demora, por qualquer motivo, que fez o carro do senhor Martinho cruzar a BR no exato momento em que o comboio estava a passar? São demais os perigos e os mistérios da vida.

 

Por acaso, quando ele procurou meu pai, após tantos anos de ausência, não estaria com alguma espécie de premonição, a pressentir o ocaso de sua vida? Não sei, e ninguém jamais saberá. Ponto de interrogação e ponto final.

2 de março de 2011

ORIGEM - probalidade de apenas uma proteína se formar por acaso

 



Num dos grupos de WhatsApp de que faço parte, tomei conhecimento do vídeo acima.

Não me contive, e postei o seguinte texto, feito quase de improviso:

Ou seja, em resumo: a probabilidade de o nosso Universo ter sido criado por acaso, ou por mera coincidência, ou de forma aleatória é igual a zero.
Ou seja, o nada não existe. Ou, se existe, o nada é nada mesmo e dele nada sai; o nada não cria nada.
O nada, se muito for, será um zero à esquerda.

Como arremate, do meu poema Deus, Deuses e o Nada transcrevo o seguinte trecho:

I     Ainda que pensássemos

numa sequência de deuses

criados um pelo outro,

o mais recente pelo

mais antigo, e assim,

sucessiva e infinitamente,

ainda assim chegaríamos

até o Deus dos deuses

ou até o caos do nada.

Na última hipótese,

o nada seria um deus,

criador de mitos e de mundos,

e teria que ser reverenciado.

E a esse deus-nada

eu tiraria meu chapéu,

que sequer tenho, mas tiraria.

 

II     Mas o nada não cria nada,

porque o nada é nada — e nada,

somado a nada, é nada,

e multiplicado por nada, é nada.  

domingo, 24 de maio de 2026

Imagem com participação da IA GPT

 

A PONTE NA MEMÓRIA


Elmar Carvalho

 

O vento passavoante

                   pássaro voante

sob o arco-da-velha

sob o arco da ponte.

Baloiça os pés de oitis,

joga confete com suas folhas

e empurra o casario antigo

com suas: arcadas dóricas

                       volutas jônicas

                       ogivas góticas

                       sacadas exóticas

com suas parábolas e abóbadas.

O vento passalígero passalísio

e empurra o casario antigo

que navega parado

no tempo que navega

como um mar que navegasse

sob um navio ancorado

que se deixasse navegar.

Meu sonho de malas prontas

é passageiro e tripulação

do casario – navio que navega

ao se deixar navegar.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

AS MARCAS DO TEMPO

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AS MARCAS DO TEMPO


Elmar Carvalho

 

Nesta segunda-feira, quando eu vinha de manhã cedo para o serviço, o meu carro apresentou problemas na direção hidráulica, no ar-condicionado e no sistema de freios, de modo que resolvi estacioná-lo na cidade mais próxima, enquanto aguardava o reboque. Segundo o mecânico me disse ao telefone, talvez tenha quebrado uma das correias do motor. Parei no acostamento da BR, e fiquei aguardando no comércio de um conhecido meu. Ficamos a conversar sobre assuntos diversos, e sobre o tempo de minha adolescência, em que estive nessa cidade a passeio. Durante a prática, entrou no estabelecimento um homem, aproximadamente de minha idade. Tinha uma cicatriz bem acentuada na testa. Em outro lugar eu não o teria reconhecido, mas ali imaginei fosse determinada pessoa.

 

Consultei meu anfitrião a esse respeito, tendo ele me confirmado tratar-se da pessoa que eu imaginava ser. Mais ou menos em 1972,  quando estive a passeio nessa cidade, esse homem era magro, cabeludo e de boa pele, e era o centro das atenções, por ser o filho do alcaide. Estava quase sempre acompanhado por um séquito de apaniguados. Saturno, o tempo, que nada respeita, em sua insolência desabrida, devastou os seus cabelos, desenhou-lhe os sulcos das rugas e lhe deu a corpulência de certa adiposidade. Não deu mostras de me haver reconhecido, mesmo porque não tive nenhuma aproximação com ele, em nossa juventude, e só o vi à distância. E se me reconheceu, não sei o que deve ter pensado sobre o que o tempo também armou para cima de mim.

 

Essa circunstância me fez lembrar uma outra, de natureza algo tragicômica. Noutra cidade, onde servi, um senhor, casado com uma amiga minha, quis visitar um antigo amigo seu, com o qual trabalhara, no serviço de construção da ferrovia central do Piauí, em sua juventude, várias décadas atrás. Sua mulher, não sei se por causa da distância ou se por algum presságio vindo de sua intuição, o aconselhou a não fazer essa visita. Mas ele, acometido de forte saudosismo e em homenagem à amizade dos velhos tempos, insistiu em fazê-la.

 

Ao chegar à pequena cidade, depois de ter visto o que restou da velha ferrovia e da minúscula estação ferroviária, logo localizou o velho amigo. Marchou para cumprimentá-lo com muito entusiasmo, sorridente, com os braços já abertos para o fraternal amplexo, e com a saudação enfática de entusiasmo e alegria já a lhe escorrer dos lábios. Entretanto, o outro, friamente, apenas disse: “Mas Fulano, tu estás acabado”.

 

O meu amigo, diante da ducha de água gelada, murchou todo, encolheu-se todo como uma bexiga esvaziada, e nada conseguiu articular em resposta. Nem ao menos uma simples indagação comparativa de revide a quem parece não se olhar no espelho: E tu, e tu?.. A minha amiga, em coro com os festivos bem-te-vis, apenas lhe disse, como futura advertência: “Bem que eu te disse, bem que eu te disse...”

1º de março de 2011

domingo, 17 de maio de 2026

AUTOBIOGRAFIA

 

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AUTOBIOGRAFIA


Elmar Carvalho

 

Após seguir os mais ásperos caminhos,

Napoleão avesso, eu próprio me coroei

com uma coroa de cravos e espinhos.

Subi montes, rompi charcos,

atravessei grutas sem luz,

com os ombros esmagados

ao peso de férrea cruz.

Em noites de névoas e luares

sofri e cantei perdido nos lupanares.

Em dias de sol escaldante e incandescente,

fui casto Dante

e Baudelaire delirante e indecente,

pelas tardes mornas de ressacas e orgias.

No Olimpo a que subi em busca

dos mitos, à procura de Zeus,

pregaram-me numa cruz onde

puseram irônica tabuleta: “Rei dos Judeus”.

Por frígida e pálida manhã,

envolto em solidão e neblina,

rasguei e perdi minha toga purpurina.

Cheio de ódio e de amor,

sorvendo taças e mais taças

de bebida balsâmica e malsã,

nos bordéis de Eros, nos templos de Pã,

e nos palácios dourados de Mefisto,

onde sucumbo e resisto,

no meio de mentira e desengano,

fui Satã,

fui Cristo,

fui Humano.

 

Te. 17.11.95 – 04:25h

quinta-feira, 14 de maio de 2026

AS PERIPÉCIAS DA AUTORIDADE

Ilustração criada pela IA GPT

 

AS PERIPÉCIAS DA AUTORIDADE


Elmar Carvalho

 

No domingo, após o lançamento do livro do Fonseca Neto sobre o padre Vicente de Paula, conversei com o médico Humberto Guimarães. Além de psiquiatra respeitado, é um notável escritor e um agradável contador de histórias, em suas conversas, sempre interessantes. Seu livro Abyssus é uma obra de muito valor, em que ele coligiu pequenos ensaios de natureza biográfica sobre notáveis figuras da cultura universal. São textos densos, recheados de informações curiosas sobre essas personalidades, desfiadas em agradável narrativa, que prendem a atenção do leitor. Esses ensaios lhe revelam a admirável erudição, seu preparo intelectual, e sem dúvida seu enorme trabalho de pesquisa, na busca de coletar essa vasta gama de conhecimento.

 

Contou-me ele que certa autoridade dos cerrados piauienses tinha o hábito de dançar, para passar o tempo e driblar o tédio de seu insulamento em longínquo rincão. Indo esse homem a uma festa interiorana, tirou certa moça para dançar. Nesses tempos distantes, as mulheres, ao menos as das plagas mais distantes, não tinham elástico em suas calcinhas, que, comparadas às de hoje, seriam “calçonas”. Essas peças íntimas tinham as peças traseiras e frontais ligadas por laços e/ou botões.

 

A nossa brava autoridade tinha uma dança espalhafatosa, em que ele levantava muito um dos braços, fazendo rápidos giros sobre o eixo do próprio corpo, além de se deslocar por todo o salão em vertiginosa velocidade. Com tantos giros e rodopios, com tantas marchas e contramarchas, com tantos requebros, saracoteados e quebra de asas, além do apressado deslocamento, com passos longos e sacudidos, a sua parceira terminou forçando o laço da calcinha, vindo esta a lhe cair pelas pernas.

 

A descida da veste íntima funcionou como uma espécie de peia de prender animais, dificultando-lhe os passos e fazendo-a despencar. No seu cinematográfico estabaque, terminou arrastando a intrépida autoridade, que lhe caiu por cima, em pleno salão de dança, o que deve ter sido motivo de risos e chacotas, pois a situação inusitada deve ter sido realmente hilária.

 

Na localidade, havia uma jovem, muito bela e muito pálida, o que me fez lembrar as monjas maceradas dos poetas simbolistas. Na escola, na qual a autoridade exercia o magistério, invariavelmente o mestre exaltava a beleza da moça, mas sempre ressaltando a sua palidez, com certa ênfase e impertinência. Chegou ao ponto de lhe receitar umas pílulas, então em voga. Pelo visto, o homem, além de pé de valsa e de forró, professor e autoridade, era também uma espécie de facultativo, como se dizia outrora.

 

Como a palidez da bela jovem continuasse, o nosso herói, em virtude de ela morar em pequena casa, na companhia de um irmão, comentou que ela provavelmente estava sendo “possuída” pelo rapaz, e que sua cor pálida se devia a isso. Ora, naqueles idos, em que as moças se mantinham virgens até o casamento, mormente nos insulados rincões da hinterlândia piauiense, essa suspeita era uma ofensa de extrema gravidade, ainda mais grave por causa do ingrediente da acusação de incesto. 

 

A família da jovem ficou “injuriada”, como se falava no local e na época, e prometeu dar cabo da autoridade. Esta, que morava na dependência de um prédio público, um tanto isolado à noite,  ouviu barulhos estranhos, certa madrugada, como se alguém estivesse tentando arrombar a porta. Sem perda de um segundo, fugiu pelos fundos, e saltou o muro do edifício. Em virtude de seu cargo, conseguiu adquirir um revólver na capital, já que se disse ameaçado de morte. Retornando a sua jurisdição, notou certa feita um movimento estranho, perto de um arbusto, ao atravessar a escura praça da cidade, porquanto não havia luz elétrica e nem era noite de plenilúnio. A autoridade não vacilou, e sem delongas atirou contra o vulto. E o viu cair imediatamente.

 

No dia seguinte, na praça central da cidadezinha, foi encontrado morto um inocente e inofensivo jegue, que costumava aparar os capins da pracinha, podendo ser considerado o seu vigia e jardineiro. Se não fosse uma ofensa aos asnos, muitos poderiam perguntar sobre quem era mais jumento, se o próprio, ou se a autoridade que o abateu.

23 de fevereiro de 2011

domingo, 10 de maio de 2026

MUSA MEDUSA

 

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MUSA MEDUSA


Elmar Carvalho

 

Sem arautos

sem pajens e sem bagagens

inesperadamente chegaste

sem anúncios e sem presságios

egressa de sonhos e miragens

e tão inesperadamente te foste

no mesmo sonho que te trouxe.

E na dor

intrusa que me restou

a Musa se fez Medusa.

 

           Te. 09.08.95 – 1h

quinta-feira, 7 de maio de 2026

AS PINÇAS DE CÂNCER

 

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AS PINÇAS DE CÂNCER


Elmar Carvalho

 

Ontem, a médica Cristiane Napoleão, responsável pela administração da quimioterapia a que me submeti sete anos atrás, disse que eu já posso me considerar curado do tipo de câncer de que fui operado no dia 17 de fevereiro de 2004, pelo cirurgião e oncologista Gil Carlos. Este já me havia dito, algumas semanas antes, que já me posso considerar curado, uma vez que praticamente não há registro de recidiva desse tipo de neoplasia, após sete anos da cirurgia. Em Deus eu já me considerava liberto desse mal.

 

Creio que no começo de fevereiro de 2004, o cardiologista Francisco José Lima, hoje coronel da Polícia, irmão maçom, descobriu que eu estava acometido de forte anemia, e que, certamente, estava perdendo sangue. Recomendou-me que procurasse  meu gastroenterologista para investigar o caso. Procurei o irmão maçom e conterrâneo Valdeci Ribeiro, que detectou o problema, e retirou material para fosse feita a biópsia. Esta descobriu que eu tinha lesões cancerígenas no cólon do intestino grosso. O doutor Valdeci foi direto em dizer-me, na presença de Fátima, minha mulher, de minha irmã Maria José, e de meu cunhado Zé Henrique, que não havia tratamento, e que a única solução era a cirurgia. Era um dia de sexta-feira.

 

Pediu a seu colega Gil Carlos Modesto que desse um jeito de me receber nesse mesmo dia, o que aconteceu. Repetiu-me este médico que a cirurgia era inevitável. Deus me deu forças para não fraquejar nessa adversidade. Assim, diante do inelutável, pedi-lhe, então, que me operasse o mais rápido possível. Ele mandou que eu fizesse determinado exame no sábado, e me internasse no hospital São Marcos, na segunda-feira, que ele faria a cirurgia na terça. Assim aconteceu, e assim foi feita a colectomia parcial.

 

Nesses momentos difíceis, a pessoa percebe a importância dos familiares mais próximos e dos amigos mais chegados, o consolo das palavras fraternas e o poder das orações. Minha mulher concentrou quase todo o seu esforço e energia na recuperação de minha saúde, quase abdicando de si mesma. Quando meu pai me viu passar na maca, ainda sob o efeito da anestesia, derramou profusas lágrimas, quase desesperado, desamparado, no corredor do hospital.

 

Meu pai, durante os seis meses em que fiz o tratamento quimioterápico, rezava fervorosamente durante longos minutos ou mesmo horas. Não preciso dizer que minha mãe também fazia o mesmo, embora de forma mais contida, como é do seu feitio. Minha irmã Maria José ficou muito abalada quando recebeu a notícia da lesão, no consultório médico. Soube que o seu marido, o saudoso Zé Henrique, aparentemente durão, mas de alma boníssima, também verteu lágrimas, quando foi contar o caso a um amigo comum.

 

Como reconhecimento e em sinal de minha profunda gratidão, quero citar alguns amigos, entre vários outros, que se excederam em bondade, nessa hora tão difícil. O saudoso deputado Humberto Reis da Silveira, meu amigo, na legítima e pura acepção da palavra, me visitava todo dia, tanto no hospital como em minha casa. Às vezes, para não me cansar, sequer falava comigo, mas perguntava à minha mulher, pessoalmente, e não por telefone, como é que eu estava. O Reginaldo Ferreira da Costa veio passar várias semanas conosco, para ajudar a minha mulher a cuidar de mim, tanto na administração de medicamentos e compressas, como na vigília durante os dez dias em que fiquei internado. Essa demora se deveu ao fato de que rejeitei a comida hospitalar, e o médico disse que só me daria alta quando eu passasse a aceitar a alimentação.

 

Passei o carnaval de 2004 no hospital, em companhia do Reginaldo, grande admirador da beleza feminina, sobretudo das morenas e das mulatas. Ficava ele a assistir aos desfiles carnavalescos pela televisão, embevecido com os requebros e rebundolâncias faceiras das morenas em flor. Quando, já em minha casa, ele me colocava a compressa, eu via e sentia que ele fechava os olhos e silenciosamente orava. Não quero, nesta oportunidade, usar adjetivos, para qualificar os favores desses amigos; não há dinheiro que os pague e nem palavras que lhes dê a exata dimensão espiritual e sentimental.

 

Vários outros amigos me visitaram e me deram a sua solidariedade. Entre eles, cito a professora Clea Rezende Neves de Melo, que já se preparava para vir me visitar, vinda de Brasília, pois correra o boato de que eu fora desenganado pelos médicos. Aliás, chegou mesmo a circular a notícia de que que eu havia morrido, pois nessa época faleceu o juiz Vilela, daí ocorrendo a confusão.

 

Ó, quão bom é ter bons amigos... Meus amigos, Deus lhes pague!

22 de fevereiro de 2011

domingo, 3 de maio de 2026

Epigrama de um novel setentão

 


AMOR CIGANO

 

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I

AMOR CIGANO


Elmar Carvalho

 

A cigana jogou as cartas da sorte

e leu afagando as linhas tortuosas

que sulcam a palma de minha mão.

Falou sussurrando

de ascensões e naufrágios

entrevistos nos presságios.

Prometeu um grande amor

que breve encheria meu vazio coração.

Enfeitiçou-me e se evadiu

por ondulosas colinas

cheias de margaridas e rosas,

eritrinas e neblinas.

E me deixou repleto o coração

apenas de urtigas e saudade

a cigana leviana que leu

e releu a palma de minha mão.