domingo, 18 de março de 2018

Oliveira Neto - Seleta Piauiense



Trovas

Oliveira Neto (1907 - 1983)

Sou poeta e fui vaqueiro
— qualidades bem diversas.
No cavalo fui ligeiro
atrás das reses dispersas.

Tenho saudade das matas,
dos verdejantes baixões,
do feitiço das mulatas
nos pagodes dos sertões.

Adorei as noites belas
neste mundão de meu Deus,
Conversando com as estrelas
luzindo no azul dos céus.

Curtinha está minha vista,
andando estou de bengala!
mesmo que a velhice insista,
só falta de amor me abala!  

sexta-feira, 16 de março de 2018

Juízes avançam em bela mulher casada

Fonte: Google

Juízes avançam em bela mulher casada

José Maria Vasconcelos

Jovens de pernas provocantes, apertados tecidos finos, coloridos, exibem silhuetas das nádegas em movimentos, cabelos longos dançam com sensualidade na caminhada pelo calçadão da Raul lopes. Das matas às margens do rio Poti emana frescor, aflora a libido masculina.

Por essas e outras caminhadas, homens não se rendem aos encantos de uma bela mulher, especialmente quando elas deixam quase tudo à vista. Ou tudo.

A história ocorreu durante caminhada de dois juízes por estrada rural, exatamente quando os dois passavam em frente à chàcara de rico amigo, que costumava convidá-los para manhãs de sol e banquetes. Excitados pelas leis dos instintos, perderam os freios para a Lei do bom senso. Instintos despertam, quando olhares vigilantes da Lei não se encontram por perto para o flagrante.

Dois juízes em caminhadas diárias, não pela Raul Lopes, mas na zona rural, isolados da vigilância da Lei que impõe respeito a mulheres. Especialmente casadas e belas, sujeitas a seduções, como a esposa do rico amigo. “Linda, linda!”- os dois comentavam em secreto. Infeliz homem que se orgulha de expor sua esposa aos apetites da sedução alheia.

Caminhadas por uma estrada rural e frequentes visitas à chácara do amigo rico tinham de provocar, um dia, flagrante cena. Obscena. Inimaginável nos jardins de amigo que os convidava para banquetes e manhãs de sol.

A linda e virtuosa esposa acendeu a libido dos juízes, que passaram a praticar mais caminhadas em frente à chácara, só para ver a bela esposa do amigo circulando pelos jardins da mansão.

Os juízes sabiam os dias em que o esposo se encontrava ausente da propriedade “Estou apaixonado por essa mulher” – dizia um para o outro. Arquitetar uma armadilha diabólica.

A linda esposa costumava banhar-se e perfurmar-se, nas horas de calor, entre as folhagens do jardim. Afinal, na zona rural permite-se nudez explícita, no banho de pleno calor e canícula. Quem possui uma chácara na zona rural de Teresina, sabe quanto é bom posar de Adão e Eva no secreto da mata.

Os dois juízes esconderam-se entre as plantas do jardim da chácara. O perfume e nudez da mulher encheram-nos de tesão diabólica. Eles sabiam que não havia ninguém por perto. As empregadas já tinham ido embora.

De repetente, os dois malandros da Lei sucumbiram à lei das paixões. Os nstintos selvagens avançaram: “Estamos apaixonados. Entregue-se a nós, senão testemunharemos contra você, dizendo que vimos um jovem aqui, depois que você despediu as empregadas!” A mulher, apavorada e trêmula: “Se eu me entregar a vocês, serei condenada e expurgada por adultério. Se eu não me entregar, serei também acusada por falso testemunho. Então, prefiro morrer a pecar contra a Lei do Senhor! Prefiro a morte!”

O dia do julgamento chegou. Sabe o veredicto? Antes, pare sua caminhada habitual pela Avenida Raul Lopes. Leia o capítulo 13 do profeta Daniel, 500 anos antes de Cristo. Ali se lê a bela história da linda e virtuosa Susana, exemplo de esposa fiel à Lei de Deus do que às dos instintos da sociedade perversa e liberal. Instintos diabólicos nunca se refreiam, desde início da humanidade, quando a Lei de Deus não se impõe sobre a lei dos instintos. A geração atual parece reviver a consciência de dois juízes das leis. Mas nunca da Lei de Deus.

quinta-feira, 15 de março de 2018

O rio de Humberto Guimarães



O rio de Humberto Guimarães

Elmar Carvalho


Após o término da solenidade de sábado passado, dia 10, no auditório da Academia Piauiense de Letras, em que foram lançados os livros O prestígio do Diabo, de Assis Brasil, Modernismo & Vanguarda, 2ª série, do professor M. Paulo Nunes, e a Revista da APL, nº 74, e inaugurado o Museu da Cultura Literária Piauiense, de nossa Academia, recebi recado de que o acadêmico Humberto Guimarães me esperava no recinto do Museu para me entregar um livro de sua autoria.

Tratava-se da edição impressa de Rio – caminho que anda (2016), já publicado virtualmente pela Amazon. Transcrevo a amável dedicatória que ele me fez: “Para o confrade Elmar Carvalho – resultado do debate por você incentivado sobre o nosso Rio Parnaíba”. Acrescentou a palavra cordialmente, a assinatura e a data, 10.3.2018. O autógrafo se referia ao seminário “Encontro em Defesa do Rio Parnaíba”, por mim idealizado, que teve o indispensável apoio de Nelson Nery Costa, presidente de nossa APL, e que também contou com a colaboração da AMAPI – Associação dos Magistrados Piauienses e do GOB/PI – Grande Oriente do Brasil/Piauí.  

Nesse seminário, proferi a palestra “Rio Parnaíba – problemas e soluções”, que no meu entendimento, infelizmente, permanece mais atual do que nunca, ou como sempre. Humberto Guimarães, com muito discernimento e propriedade, discorreu sobre “O rio Parnaíba na Literatura Piauiense”, enquanto o deputado federal José Francisco Paes Landim fez a conferência “Em defesa do rio Parnaíba”, em que teve a oportunidade de se referir à sua luta parlamentar em favor de nosso mais importante patrimônio natural.

Como se depreende da dedicatória, o livro de Humberto Guimarães foi resultado de sua conferência no “Encontro em Defesa do Rio Parnaíba”, que só por isso valeu a pena ser realizado, além de ter chamado a atenção para a imensa degradação em que se encontra o nosso mais notável curso d’ água, que nunca mereceu os cuidados de nossos governantes, seja na esfera federal ou estadual. No livro em comento consta que ele corta 21 municípios. Promove o abastecimento d’ água (além da irrigação de plantações) de inúmeros povoados e cidades, entre as quais cito: Ribeiro Gonçalves (torrão natal do autor), Uruçuí, Floriano, Teresina, União, Luzilândia e Parnaíba.

Desde que ingressei na APL, observo o comportamento de Humberto Guimarães. Chega cedo às nossas reuniões, quase sempre portando um livro. Geralmente se concentra na secretaria, para ler ou para conversar com algum confrade. Sua palestra é agradável, por vezes erudita, mas sem empáfia ou ostentação. Sempre tem um “causo” interessante ou anedótico a contar, a que não falta o condimento de saudável bom-humor.

Pude lhe perceber o acendrado amor aos livros, pelo modo como os segura, como os folheia, como os manuseia, quase a afagá-los. Também pelas palavras com que a eles se refere. Em verdade é um bibliófilo em vários sentidos; tanto porque de fato os ama, como também porque é amante inveterado da boa leitura; porque os preserva e porque tem gasto uma boa soma de dinheiro na aquisição de obras raras ou quase esgotadas.

Nas reuniões é sempre comedido ao falar, e quando o faz é quase monossilábico.  Pouco pede a palavra, mas eu bem sei que assuntos importantes não lhe faltariam, assim como tenho ciência de que, quando fala, o faz com propriedade e fluência, como se fora experimentado tribuno. Creio seja isso uma postura natural sua, já que não é por timidez nem por falta de eloquência.

No dia 14.11.04, na cidade de Ribeiro Gonçalves, onde fui juiz por quatro anos, por ocasião da solenidade de instalação da Fundação Leôncio Medeiros, criada pelo amigo Adovaldo Medeiros, em que tomei posse do cargo de membro honorário dessa entidade educativa, cultural e de promoção social, lancei o opúsculo “Tempos ribeirenses”, que enfeixava a minha palestra. Foi nessa oportunidade, em que também foi inaugurada a Biblioteca William Palha Dias, dessa Fundação, que presenciei o nosso Humberto Guimarães pronunciar admirável discurso de improviso, em voz pausada e firme, de perfeita dicção. O seu teor era denso e bem articulado, sem titubeios e vacilações, e se fosse convertido em peça retórica escrita creio não necessitaria de revisão, pois me pareceu irretocável no conteúdo e na correção gramatical.  

Este livro e a obra Abyssus bem demonstram a sua invejável erudição e capacidade de pesquisa, reflexão e poder argumentativo. Em Abyssus aborda grandes temas e biografias da literatura, entrando em pormenores instigantes que somente um grande e erudito leitor enfrentaria, e ainda mais com perspicácia e pertinência. Além de comentar a obra de célebres escritores, por ser competente psiquiatra, também lhes analisa aspectos da personalidade e do perfil biográfico, por vezes encontrando justificativas para suas idiossincrasias e eventuais extravagâncias.

Em Rio – caminho que anda aborda os mais variados aspectos de um curso d’ água. Refere-se, com mais ou menos palavras, aos mais importantes rios do mundo. De alguns descreve os dados corográficos mais peculiares ou relevantes, e episódios históricos ou do povoamento de que foram cenários. O poeta H. Dobal, num de seus textos, dizia que um rio é tão importante que tem nome próprio. Humberto cita as denominações dos mais célebres “caminhos que andam” do planeta. Reporta-se a escritores e poetas famosos que lhes louvaram a beleza e a importância. Transcreve apropriados e elucidativos trechos de alguns desses autores. Em suas 226 páginas sintetizou o que havia de essencial a dizer.

Dedicou uma parte ao Rio Parnaíba. Descreve os seus principais aspectos corográficos. Cita-lhe os afluentes, dedicando preciosas linhas a alguns de seus principais tributários. Dedica um bom espaço às nascentes, transcrevendo esclarecedores trechos de estudiosos de nosso mais importante curso d’ água. Traz preciosas informações históricas, em que trata dos primeiros povos que perlongaram suas margens, dos primeiros ocupantes de suas ribeiras e das povoações que lhe ficam perto. Cita, por vezes transcrevendo-os, os poetas e escritores que o tiveram por tema. E, como não poderia deixar de ser, estuda as suas principais mazelas e as causas de sua ostensiva degradação, de que as coroas de areia, a fina lâmina d’ água e a largura excessiva são o sintoma mais perceptível e evidente.

Em seu estilo de contornos artísticos bem próprios, mas sempre de denso conteúdo, já tratou do Velho Monge (para usar a famosa imagem dacostiana que lhe serve de epíteto), em vários outros textos, inclusive no romance Nas pegadas do rio. Por sua grande extensão, por contornar diferentes acidentes geográficos, por ter passagens estreitas, por formar corredeiras e remansos, por formar o lago da Boa Esperança, por atravessar diferentes florestas, e no final se abrir, como a cauda de um pavão, nas várias bocas do Delta, que lhe serve de encantador arremate, é referto das mais diferentes formas de beleza paisagística.

Assim também a prosa de Humberto Guimarães às vezes é caudalosa e torrencial como um grande e vigoroso rio, às vezes é contida como um rio de planície, com remansos e lagos, outras vezes é calma e mansa como um discreto riacho, e outras vezes é impetuosa e turbilhonante como uma corredeira, mas sempre com muita substância, pertinência e correção vernacular. Porque assim é a vida, inclusive a vida de um rio.     

quarta-feira, 14 de março de 2018

Lançamento de livros na APL



A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para a solenidade de lançamento das obras da Coleção 100 Anos: Antologia da Academia Piauiense de Letras, de Wilson Carvalho Gonçalves e Academia Piauiense de Letras: um pouco da história – um pouco das ideias – de Celso Barros Coelho (Apresentação: Celso Barros Coelho Neto); bem como: Geogina e outros escritos inéditos, de Luíza Amélia de Queiroz e Revista da Academia Piauiense de Letras – nº 74 – Ano XCIX – 2016. 


Nelson Nery Costa 
Presidente 


Data:17de março de 2018 (Sábado)
Horário: 10hs9h 30
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão) Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone: (86) 3221 1566 – CEP.: 64001-490 – Teresina-PI.    

segunda-feira, 12 de março de 2018

Lembranças de outros invernos


Lembranças de outros invernos

José Pedro Araújo
Cronista, romancista e historiador

Quando o dia começa assim escuro, enfarruscado e com o sol totalmente encoberto por nuvens espessas de chuva, me vem a lembranças de invernos passados (assim conhecemos o período chuvoso no nordeste, único inverno que conhecemos), quando as chuvas caíam torrenciais, insistentes, sobre a minha terra. A água despejada à potes enchia rios e igarapés que transbordavam e se espraiavam sobre as várzeas e campos baixos. Às vezes passávamos dias com esse fenômeno benfazejo que traz de volta o verde para as matas ,a alegria aos pássaros, e a fartura aos lares nordestinos.

Quando as primeiras chuvas de dezembro molham a terra, o agricultor sai de casa, enxada no ombro, assobiando melodias alegres pelos caminhos agora húmidos e vão escavacar a terra e jogar a semente sobre o solo apetitoso e ávido por fazê-las engravidar e parir bons frutos. Dois meses depois desse começo esperançoso é época de colher os primeiros produtos: a melancia, o milho, o feijão verde, o melão ou o meluí - pequenos melões ovalados, casca branca e sabor inesquecível de roça nova. Depois virão o arroz e, finalmente, muitos meses depois, a mandioca.

Era nesse período intermediário que a garotada visitava as roças da família ou dos parentes, para um dia muito alegre no campo. Um costume, que acredito ter advindo dos indígenas que habitavam a região, era as pequenas choças encravadas no meio da roça, cercadas pelo milharal e pelo arrozal por todos os lados. Essas pequenas choupanas, de uso temporário, sem paredes e com teto coberto pela palma do babaçu, servem de abrigo para os agricultores durante o período em que a roça estiver em atividade. Ali eles instalam a cozinha provisória (normalmente três pedras grandes e uma trempe sobre elas), penduram redes e constroem pequenos jiraus para servirem de armário ou de assento. E são de uma utilidade à toda prova, dada a alternância de chuvas fortes durante o dia, ou do sol que despeja seus raios inclementes sobre a terra, nem bem a chuva passa. Também servem de paiol para abrigar a colheita farta.

Quando era tempo de melancia ou de milho verde, costumávamos ir para a Preguiça, região onde os Barros tinham as suas propriedades, e ainda as têm. Apesar de muito próxima da cidade, os caminhos se transformavam em verdadeiro desafio para os transeuntes. A água abundante amolecia o barro visguento, enchia as várzeas e engordava os rios e riachos, transformando o curto trajeto em uma prova de resistência e coragem. Depois de superar os atoleiros vinha, em primeiro lugar, o Sucuruiú, um riacho que tomava uma largura muito grande e formava uma correnteza que assustava os visitantes de primeira viagem. Como não havia ponte, passávamos sobre uma pinguela de madeira, de um tronco só, comprida e escorregadia para pés enlameados.

Atravessado esse primeiro obstáculo, tínhamos mais desafios pela frente, pois em determinados trecho do caminho a água chegava à altura do peito, tínhamos que vadeá-la até chegarmos a terreno mais alto. Ai se chegava ao rio Preguiça. Ali a correnteza era mais forte e o processo de superá-lo o mesmo: por sobre uma pinguela de madeira roliça. As águas remansosas do rio impunham mais respeito e temor, mas quem o superasse estaria em breve degustando as melancias mais doces que se podem querer. Ou comer o milho verde mais saboroso de que eu me lembro de já ter saboreado. Milho sem agrotóxico; milho natural, não transgênico, igual ao que os primeiros habitantes consumiam, os índios. 

Saíamos pela roça dentro em busca das melancias mais saborosas, aplicando piparotes no fruto escolhido para sabermos se estava no ponto de consumo, e quando não a abríamos logo ali, colhíamos e levávamos para o rancho para comê-la solidariamente com outros. Apreciava ficar com a cascar para raspar e tomar o caldo saboroso que restava nela. Era uma festa. Enquanto isso, o milho estava assando sobre as brasas para ser consumido em seguida.

E no fogão improvisado, o almoço era preparado para logo mais, gostoso, cheiroso, imperdível. Este, depois de pronto, era arrumado em uma bacia grande da seguinte forma: primeiro uma camada de arroz, sobre ela o feijão, outra camada de arroz e, finalmente, a carne e o caldo era derramado em cima daquela montanha de comida. Nessa altura a fome tomava conta de todos nós, pois já havíamos tomado banho de rio e tramado todo o tipo de brincadeiras. Exercitáramos muito, enfim. E isso avultava a nossa fome.

Às vezes também a chuva vinha dar um toque especial e caía volumosa sobre o teto de palha, escorrendo ligeira e ciciante para o leito do Preguiça que ficava logo ali próximo. Dia frio, com chuva, parece que a fome aumenta. E nesses dias, ela reclama comida farta. Era o que tínhamos ali naquele piquenique improvisado na roça: comida gostosa e volumosa.

Como eu ia dizendo, alimento perfeitamente arrumado dentro da bacia era a hora de chamar a meninada para o banquete. Sentávamos em torno dela, mesmo no chão, cada um com uma colher na mão, e nos debruçávamos sobre a tarefa gostosa de desmanchar a arrumação que se tinha feito naquela bacia, de derrubar a montanha de comida. Mais um tempo e não restava nada no fundo do recipiente anteriormente arrumado com esmero. Alguns, normalmente os mais velhos, esticavam as redes e descansavam confortavelmente deitados, enquanto outros, normalmente a meninada, saia pela roça em busca do quê fazer. E assim passava o dia: comida, banho de rio, às vezes pescaria, brincadeiras, uma alegria só.

À tarde, antes da chuva das cinco horas, presença constante e com hora marcada, era a hora de retornar para casa. A mesma dificuldade da vinda, só que um pouco mais cansados. Mas valia a pena. Como valia. Caminhar por sob as árvores, mesmo pelo lamaçal, era gostoso demais. É essa recordação que me vem em dias em que a chuva começa logo muito cedo, e o dia fica com aquela cara de roça de melancia.

Fonte do texto e da fotografia: Blog Folhas Avulsas

domingo, 11 de março de 2018

Sábio e Santo

Fonte: Overmundo/Google


Sábio e Santo

Luiz Lopes Sobrinho (1905 – 1984)

        Ao Prof. Possidônio Queiroz, cuja excessiva modéstia esconde, na cidade de Oeiras, uma inteligência iluminada de Sábio, e uma alma humílima de Santo.

Num quarto do mercado, em mísera quitanda,
Entre sacos de sal e caixas de sabão,
Esconde-se a figura augusta e veneranda
De um êmulo de Rui, de igual cerebração!

Ele, talvez, se ligue aos filhos de Loanda,
Das plagas de Uadai, de Darfur, no Sudão;
E conserve no sangue os mistérios de Umbanda,
E as luzes de Iemanjá, no grande coração!

Que importa o mundo, o povo, o clã de onde proveio,
Se o seu saber reluz, de Oeiras, no alto meio,
E uma palavra má nunca manchou seus lábios?!

Na Música é professor! Conhece a Geografia;
Sabe História e Direito e, até, Astronomia!
Na Língua, é visto, enfim, dando lições aos sábios!

Oeiras, 1958.

(Fonte: Antologia da Academia Piauiense de Letras, de Wilson Carvalho Gonçalves)   

sábado, 10 de março de 2018

LEMBRANÇAS AMARGAS QUE TORTURAM SEMPRE E FAZEM SOFRER

Fonte: portal O Jornal (Google)


LEMBRANÇAS AMARGAS QUE TORTURAM SEMPRE E FAZEM SOFRER

                        Era uma manhã calma de céu nublado e tudo parecia diferente naquele dia 11 de março de 2017, Sábado. Nem mesmo as aves do céu alegravam com seu canto rotineiro nas árvores ornamentais de minha residência.  No íntimo sentia algo diferente, como que prenunciando um fato desagradável que estava para acontecer. E na tarde desse mesmo dia chegava à pesarosa notícia, pelas redes sociais, enviada pela Fundação Nordestina de Cordel (FUNCOR), informando a morte de seu Diretor Presidente e fundador, poeta cordelista Pedro Nonato da Costa, vítima de acidente vascular cerebral na manhã desse mesmo dia. E que o velório estava acontecendo na sede da Funcor, na Rua Jornalista Antônio Diniz, 1776, bairro Parque Itararé, Teresina Piauí. A fatídica notícia chegava como um pesadelo para os colaboradores de sua obra cultural e de seu ciclo de amizade. Alto Longá perdia um de seus filhos mais ilustres, que encantou em versos de cordel as belezas da terra que o viu nascer, bem como do cenário piauiense em geral. E assim divulgou com suas obras, para todo o Brasil, o que há de mais belo e fascinante no Estado do Piauí. Senti sua morte como se fosse à de um irmão que nos deixava para sempre. Pedro Nonato da Costa era uma criatura simples, humilde, prestimosa e sabia cativar as amizades como ninguém. Durante mais de uma década fui colaborador da Revista Cultural de Repente, que editava mensalmente, que era do agrado de todos. Com sua partida, a revista deixou de existir, quando a mesma já circulava por mais de duas décadas. É uma pena! Sinto falta de sua divulgação, principalmente da matéria dos escritores José Soares de Albuquerque, Milton Borges, David Ferreira, Nestor Henrique Mesquita, Gil Alves dos Santos, Francisco de Almeida, Antônio Francisco Sousa, Ací Campelo, Antônio Alves Monteiro e outros mestres da cultura, escritores que valorizavam a boa obra.

                        Esta é a sua Síntese Biográfica: Pedro Nonato da Costa, nascido a 03 de abril de 1962, no município de Alto Longá – Piauí. Filho de Raimundo Nonato da Costa e Maria dos Anjos Alves da Costa. É o décimo quinto filho do casal. Casado com Luzia Sotero de Abreu da Costa, com quem teve os filhos Francisco Wagno Sotero Costa e Luís Carlos Sotero Costa. Cantador repentista, compositor, poeta cordelista, editor, ator e radialista. Gravou quatro CDS: Sonhos de Cantadores. Causos e Cantorias. Pai e Filho Contando História e Saudação ao Vaqueiro. Foi fundador e presidente do Sindicato dos Cantadores e Poetas Populares do Piauí. Realizou mais de vinte Festivais de Violeiros. Criou a Revista de Divulgação Cultural “De Repente”, em dezembro de 1994 e a Fundação Nordestina de Cordel – FUNCOR, EM 1999. Medalhas: Mérito Renascença do Estado do Piauí. Mérito Oficial da Polícia Militar. Mérito Cultural dos Estados do Piauí e Ceará. Cidadão Teresinense. Comenda de maior divulgador da Cultura Nordestina no Festival Internacional de Trovadores e Repentistas de Quixadá-CE. Ganhou os Concursos em Cordel: Teresina, 145 anos, em 1997. Metrô de São Paulo, Cordel “A Cidade Sobre os Trilhos” em 2003. Livros: “Poemários de Cordéis”, publicado pela Editora da UFPI. “As Modalidades e as Técnicas do Repente.” “A Maestria do Rei do Repente Domingos Fonseca”. “A História do Brasil em Literatura de Cordel, de 1500 a 2010”. Era Diretor Presidente da FUNDAÇÃO NORDESTINA DE CORDEL. Membro da Academia de Letras do Vale do Longá – AVAL. Academia Longaense de Letras, Cultura, História e Ecologia – ALLCHE e Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC. E foi assim que divulgou para todo o Brasil, com mérito e conhecimento, a cultura da amada terra Alto Longá-Piauí e de todo o Estado Piauiense.       

            Poeta Pedro Nonato da Costa foi membro do Conselho Estadual e Municipal de Cultura do Piauí. Seus trabalhos foram divulgados para todos os recônditos de nossa Pátria, do mais próximo ao mais distante, como Pedro Costa – Dom Quixote do Cordel. Hoje, após um ano de sua morte, sentimos pesarosamente sua ausência e a lacuna que nos deixou para sempre. Certa vez assim se expressou: “Meu querido Alto Longá, terra dos humildes inteligentes, dos tribais índios Longás. Foram nossos ascendentes, e Deus nos presenteou com os sítios das nascentes. Em Alto Longá que nasce Rio do Porco e Campeira, o Rio Pouca Vergonha, Canabrava, Laranjeira, Caiçara, Flor do Grilo, Rio Longá e Gameleira. A FUNCASA há seis anos, funciona o ano inteiro, com oficinas de arte, e o Museu do Vaqueiro, mantendo o passado vivo, do folclore brasileiro. Valmira e Assis Cabral, com muita desenvoltura, alguns colaboradores, vem mantendo a estrutura, e o museu do vaqueiro, mantendo o passado vivo, do folclore brasileiro. Além do meio ambiente, social e cultura, mantendo essas oficinas, arte teatro e coral, são ações desenvolvidas, nesse Centro Cultural.” Em dezembro de 2016 discorreu em uma linda homenagem ao livro que editei: Crônicas e Memórias e um Nordestino Roraimense. Na primeira estrofe ele assim reporta: “Francisco de Assis Campos Saraiva é um cidadão Roraimense, natural de alto Longá, do Agreste Piauiense. Quem vive servindo a Deus, com trabalho é que se vence. Grande colaborador da Revista De Repente. Mesmo morando distante, todo mês está presente, com artigos valiosos falando de nossa gente”.                     

           Esse grande mestre se foi, porém nos deixou um acervo cultural precioso da melhor qualificação. A Prefeitura Municipal de Alto Longá tem como atual Prefeito um jovem natural da Boa Terra, dinâmico administrador, Henrique César Saraiva de Arêa Leão Costa, que vem desenvolvendo um trabalho profícuo ao agrado dos habitantes da terra, tornando-se merecedor dos mais elevados encômios. Temos esperança de que o jovem Prefeito e seus vereadores venham a imortalizar a memória de Pedro Nonato da Costa, que tanto enalteceu a nossa terra com sua admirável inteligência, como Poeta Cordelista de reconhecido valor. Aqui findo com uma mensagem “in memorian” a esse inesquecível amigo, com a imensa saudade que ficará para sempre em nossos corações.


Boa Vista– Roraima, 11 de Março de 2018. 

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Dr. FRANCISCO DE ASSIS CAMPOS SARAIVA 

Oficial R1 do Exército 

Escritor e Empresário 

Membro da ALB e da ALLCHE 

E-mail: ldalmada@hotmail.com

sexta-feira, 9 de março de 2018

SOBRE A AMIZADE E OUTRAS VARIAÇÕES


SOBRE A AMIZADE E OUTRAS VARIAÇÕES

Cunha e Silva Filho

A amizade é um vocábulo cuja acepção tem que ser levada a sério. Não pode ser banalizado nem pode ser dito da boca pra fora, a não ser quando, em circunstâncias ditadas apenas pelas convenções sociais, seja usado por mera formalidade, como sói acontecer amiúde nas redes sociais. No segundo caso, o seu uso é vazio de sentido. Creio que, na psicologia do brasileiro em geral, há uma tendência a tratarmos outrem com uma certa intimidade ainda que, aos olhos do interlocutor, sintamos um certo desagrado. 

Ou seja, somos avessos aos protocolos e, por conseguinte, só a muito custo aceitamos os distanciamentos. Preferimos as liberdades, as aproximações antecipadas, as intimidades. Por esta razão não apreciamos os diversos pronomes de tratamento na comunicação oral e descontraída. Escolher um “você,” um “tu, ” um “senhor” causa alguma dificuldade no nosso interior. Em razão mesmo dessa dificuldade de uso de tratamentos, há duas opções gerais: ou usamos em grande parte do país, um “você,” como é tão frequente no Rio de Janeiro, ou, em outras regiões, no Sul do país, por exemplo, empregamos um “tu.” Por outro lado, o mesmo indivíduo, ainda tomando o Rio de Janeiro como referência, usa indistintamente , no mesmo dialogo, os pronomes você e tu( mistura de tratamento), o que é muito frequente no português do Brasil, já bem observado pelo linguista J. Mattoso Camara Junior (1904-1970).

Porém, não é de gramática ou variações linguísticas que quero falar nesse texto, mas do sentido da amizade nas relações humanas, atualmente ou em priscas eras. Em resumo, a minha hipótese, se é que é hipótese, é a de que o fator determinante da amizade vitoriosa não é sempre o tempo, seja de cinco, dez, vinte, trinta anos ou mais. No conjunto de fatores secundários que leva duas pessoas a manterem uma saudável amizade por toda a vida teremos que considerar as afinidades de ideias, de gostos, de valores éticos, religiosos, ideológicos e de outros valores culturais.

Tomemos, em princípio, a categoria tempo, a duração das amizades e seu fim. Dois amigos se encontram, Começa uma amizade que dura um longo tempo. De repente, não se sabe por que cargas d’água, um foge do outro sem explicação plausível alguma. Evidente que houve um fator de estremecimento da amizade.. Houve uma razão íntima que não aflorou às consciências de ambas as partes. Da noite pro dia apagou-se a chama da amizade.

Subitamente, a amizade feneceu, deixou de nela haver um sopro forte do verdadeiro sentimento da amizade, vocábulo que, na sua formação está intimamente ligado à união, ao amor no sentido lato. Os dois lados se separaram. Houve, então, um quebra, uma ruptura de afinidades eletivas que, num átimo, desfez todo um repertório de sentimentos de mútua admiração que se pensava ter enraizado. E aí, doce ilusão, a amizade perdeu a motivação, os liames sólidos que a mantinham inabalável como uma rocha. Entre a amizade de outrora e a realidade atual fez-se um abismo. Contudo, os fundamentos da amizade ruíram e se preferiu o silêncio das partes. Cada qual foi cuidar de seus restos de vida. Aquele sentimento inicial, tão caro ao ser humano, aparentemente virou uma página final de um livro.

Me vem, agora, a imagem da baleia de Moby Dick(1851) de Herman Melville (1819-1891)). Nada sobrou após a vitória dela e o naufrágio de todas as perseguições debalde feitas contra ela. Só o oceano - pélago profundo -, ficou como testemunha da fúria dos homem e da baleia branca.

Uma vez uma senhora me falou que a vida de cada um de nós tem um “prazo de validade.” Com todas as letras eu poderia argumentar contra essa assertiva. Mas, não vem ao caso aqui alongar-me por estas divagações existenciais. No entanto, recuando diante da minha dúvida, estendo a minha linha de raciocínio àquela observação das senhora e me pergunto ou pergunto a Você, leitor querido, “A amizade tem prazo de validade?” Eis uma pergunta que bem merece uma discussão homérica.

Retorno à minha hipótese sobre a amizade e a sua durabilidade. Na minha experiência de vida, tenho comprovado que a amizade é uma “vexata quaestio.” Posso adiantar que já provei dela e de sua permanência, como já senti o gosto acre de suas perda que sempre me deixou intrigado e a me questionar: “Por que acabou? Como se explica isso?” Num abrir e fechar de olhos se evaporou. Mas, a grande questão é que não estou me referindo somente a quebra da amizade entre familiares que é, por sinal, terrível em suas consequências psicológicas, emocionais, sentimentais) mas sobretudo a amizades entre estranhos que se tornaram amigos e que resultaram desastrosas no enfraquecimento de seus laços tão profundos.

No nosso “eu profundo," como diziam os poetas simbolistas, de vicissitudes, que amargamente colhemos pela vida afora, é que sentimos a alma dilacerada. É certo que muita gente de altas qualidades morais nos estimam. Contudo, é certo também que, a qualquer momento, por um motivo ou outro, lá se vai fenecendo a amizade que supúnhamos duradoura. É tudo tão imprevisível como o ser humano, essa esfinge que nos espreita no curso de nossa existência, de nossa travessia pelo sofrido mundo dos vivos. 

Há um consolo que gostaria de cultivar: que as nossas amizades durem a efemeridade própria do ser humano no planeta Terra. Não é isso uma solução à amizade transcendente, mas, pelo menos é um fato que vamos constatando com o passar dos anos. Ah, terminei me esquecendo de dar demonstrações cabais de minha pobre hipótese de trabalho.

Deixarei, assim, para as locubrações (termo que, pela primeira vez, vi no título homônimo de um livro do escritor maranhense Antonio Henriques Leal (1828-1885), no exemplar datado de 1874 que pertenceu a meu pai e que guardo com carinho há tanto tempo) muitas vezes, áridas e cansativas de uma possível dissertação acadêmica, com bibliografia, ementa e tudo o mais que os muros das universidades tanto prezam. Por falar desse autor maranhense, que se doutorou em medicina no Rio de Janeiro, foi Comendador da Imperial Ordem da Rosa, Membro do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico e da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Alfredo Bosi, em sua História concisa da literatura brasileira, por equívoco, afirmou ser português esse autor maranhense.

Em Locubrações (em português há duas variações gráficas “lucubração” e “elucubração”), obra dedicada ao Imperador Pedro II. Além de reunir estudos científicos realizados pelo autor, elededicou um capítulo, “A literatura brasileira contemporânea” (p.187-233), escrito em Lisboa. Outros capítulos ainda discorrem sobre uma edição de Iracema(1865), em ensaio de caráter filológico, de José de Alencar (1829-1877), sobre autores portugueses, um ensaio sobre a Guerra do Paraguai. Locubrações se divide em duas partes: ciências e letras. Merece uma leitura ou releitura, sobretudo porque é uma oportunidade de entrarmos em contato com as perspectivas críticas do autor sobre alguns autores brasileiros mais conhecidos de então.

quarta-feira, 7 de março de 2018

A saga de uma longa caminhada



A saga de uma longa caminhada

Elmar Carvalho

Na última reunião da Academia Piauiense de Letras, o confrade Celso Barros Coelho repetiu o que já me havia dito sobre o meu romance Histórias de Évora: a importância de um bom título. Com efeito, a escolha de um título feliz pode despertar a curiosidade do leitor em potencial e, assim, atraí-lo para a leitura do texto. Mas, no presente caso, o título não foi apenas um recurso ou armadilha para prender a atenção de meu possível leitor, porém uma concretíssima realidade fática, se não estou a laborar em alguma redundância, já que exagero não seria.

De fato o autor de Três séculos de caminhada, Vicente Miranda, cometeu quase verdadeiras estripulias e pulutricas, dignas de um ginasta ou atleta, para escrever o seu livro. Na época, ainda jovem, fez várias e cansativas viagens em busca de informações em lugares ermos, remotos e de difícil acesso, nos quais entrevistou idosos parentes. Pesquisou nos cartórios de longínquas comarcas do Piauí e do Ceará. Subiu em escadas, para consultar antigos processos, amontoados em verdadeiros e quase inacessíveis sótãos. Foram dezoito anos de pesquisa em fontes documentais, e não de meras suposições, ilações, hipóteses e consultas a livros já publicados.

Decifrou carcomidos e borrados calhamaços, documentos e processos. Desvendou quase apagadas lápides de cemitérios urbanos e rurais. Não sei se nestes últimos chegou a conversar com fantasmas de avoengos, que lhe possam ter relatado fatos esconsos e já esquecidos. Compulsou livros registrais de sacristias e delegacias policiais. As dificuldades eram de diversas ordens, entre as quais nomes grafados de forma errada, homonímias e divergência entre o nome do registro e o da tradição oral dos familiares.

Em suma, em alguns casos não seria exagero afirmar que ele foi quase um Indiana Jones em suas aventuras e incursões historiográficas e arqueológicas, em diferentes rincões e fazendas a que teve de ir. Todos os percalços e dificuldades que enfrentou foi para cumprir um desejo de seu saudoso pai, Pedro Mapurunga de Miranda, que almejava ver a história e a genealogia da família preservadas. Seu pai guardava algumas anotações que lhe serviram de pistas iniciais ou ponto de partida para novas e mais aprofundadas investigações.

Entre as velhas e tradicionais famílias ligadas à Ibiapaba podem ser citadas (e são as que mais foram enfocadas em seu estudo): Fontenele, Araújo, Mapurunga, Damasceno, Machado, Magalhães, Miranda, Cerqueira, muitas estabelecidas em Viçosa, sua terra natal, e Piracuruca, uma de suas terras afetivas, à qual também sou vinculado por laços de sangue. Portanto, na genealogia delineada se percebe um forte entrelaçamento entre famílias cearenses e piauienses. Algumas das famílias referidas adotaram outro apelido, por causa de avoengos insatisfeitos ou amuados em decorrência de eventual interesse contrariado.

Como um legítimo Hercule Poirot farejou em arquivos públicos, seguindo pistas, intuições e suposições, e mesmo à procura de novas informações. Num desses cartórios, teve que ficar espremido entre o forro e as telhas do teto, já que os mofentos autos de processos, talvez por desleixo ou irresponsabilidade do notário, ali estavam “largados”. Nessa árdua escaramuça em busca da história de seus parentes e ancestrais gastou muita pecúnia, labuta e tempo. Jamais direi que ele perdeu tempo; antes diria ganhou. E ganhamos todos, pois ele escreveu um lídimo monumento literário, historiográfico e genealógico.

Quando recebi um segundo exemplar desse livro, em 23 de fevereiro de 2006, conforme data do amável autógrafo (a dedicatória do primeiro é datada de Parnaíba, 13/10/2001), comecei a ler e reler algumas de suas partes, que mais me despertaram a atenção. Depois, sinto-me no dever de confessar, por outros deveres laborais e outros interesses momentâneos, suspendi a sua leitura. Algum tempo depois meu irmão Antônio José me disse que o havia lido, e que gostara imensamente de seu conteúdo. Comentou, de forma breve, algumas de suas deliciosas narrativas. 

Essa mesma opinião me foi expressada pela escritora, historiadora e professora Teresinha Queiroz, que me disse reler, amiúde, muitas de suas partes, alertando-me para a sua importância historiográfica, genealógica e literária. Ao contrário desses dois enfáticos e sinceros elogios, um leitor preguiçoso, não afeito a profundas e mais alentadas páginas, teria dito de forma jocosa, do alto de sua ignorância e preguiça mental: “Mas são muitos os rios e os séculos que a gente tem de atravessar... Eu só consegui ler alguns anos e poucos riachos...”

Foi, então, que decidi lê-lo de capa a capa, com mais atenção e eventuais anotações. Pude constatar que é uma obra bem escrita e que contém histórias interessantes, algumas jocosas, irônicas, apimentadas; outras, dramáticas ou até mesmo trágicas. Vicente Miranda teve a coragem e a sinceridade de contar certos feitos (e até malfeitos) de seus parentes e avoengos, que muitos jamais revelariam, mormente em livro, não para ferir ou afrontar suscetibilidades, mas apenas porque todas as famílias, exatamente por causa do fator humano, têm os seus pecados e crimes que se tentam ocultar.

Algumas de suas passagens são histórias de amor e morte, de sangue e traição, quando a obra adquire um aspecto de conto ou mesmo de romance, dada a habilidade como o autor encadeou e urdiu certos entrechos. Sabemos que a dita vida real é às vezes mais surpreendente que a ficção. Vejamos, como simples amostra ou tira-gosto, este enxerto: “São inúmeros os exemplos de sacerdotes que tombaram no exercício do dever, a começar pelo primeiro daqueles que pisaram o chão da Ibiapaba – Francisco Pinto – conforme já narrado. // Padre José Monteiro de Sá Palácio, operoso vigário da Vila de Piracuruca por muitos anos, ele próprio vítima da bestialidade humana, quando perdeu a mãe assassinada com 35 facadas (...)”. Notável é também o episódio da “índia corredeira”, assim como tantos outros. Deixo ao leitor a curiosidade, para ir lê-los no livro em comento.

É uma obra volumosa, que, além da ênfase genealógica, trata também da corografia da Ibiapaba e adjacências, descrevendo as escarpas da Serra Grande, os vales de seus principais rios e afluentes e os seus mais notáveis acidentes geográficos. Narra o seu povoamento e a formação de seus primeiros aglomerados urbanos. As figuras ilustres dessas cidades e municípios desfilam em suas páginas. Descreve as trilhas, que mais ou menos seguiam os cursos d’água, por onde as antigas povoações se formaram.

Parece até que Vicente Miranda, ao percorrer o espinhaço da Ibiapaba, ao lhe devassar as íngremes encostas, ao lhe contornar os sopés, seguiu as pegadas do genial Luiz Gonzaga: “Lá no meu pé de serra / Deixei ficar meu coração / Ai, que saudades tenho / Eu vou voltar pro meu sertão”. Algumas de suas descrições são de profunda beleza literária e bucólica, e se revestem na verdade de excelente prosa poética, como nesta passagem: “De lá de cima, (...) descortina-se uma vista maravilhosa de todo o vale do rio São Gonçalo e Lambedouro. Oportunidade rara para o pesquisador (...) vingar-se do morro do Caburé que, visto da base, é arrogante e desafiador. Agora, humilhado, fica lá em baixo com o cocuruto cinzento e arrepiado”.

Por ter entrelaçamento familiar com as mais antigas famílias da Ibiapaba, sobretudo as da imperial Viçosa do Ceará, terra do general Tibúrcio, que lutou em várias batalhas, e do jurista Clóvis Beviláqua, filho do padre Beviláqua, um dos pró-homem de sua terra, casado com a piauiense Amélia de Freitas Beviláqua, jornalista, poetisa, contista, cronista e romancista. Reza a lenda que, certa feita, uma das estátuas do general caiu. Mas caiu de pé, afiançam os viçosenses.  

Sobre a vetusta urbe, de ameno clima e serrana e florida beleza, fincada no espinhaço da Ibiapaba, tive a oportunidade de dizer, em minha crônica Viçosa, sempre viçosa e cheia de graça, que se encontra publicada na internet:

(...) fui à Praça da Matriz, onde fotografei a vetusta igreja de Nossa Senhora da Assunção, de coloniais linhas sóbrias, austeras, exceto no frontispício, de discreta sinuosidade. Sua inauguração data de 15 de agosto de 1700, porém o povoamento de Viçosa do Ceará começou bem antes, remontando a 1590, quando franceses provenientes do Maranhão tiveram contato com os índios da região, até sua expulsão em 1604 por Pero Coelho de Sousa. Segundo o padre Ascenso Gago, superior dos missionários ibiapabenses, a data de fundação da urbe seria 1695. O fato é que nesse período existia a missão dos padres jesuítas, que tentavam catequizar os índios Tabajaras, dando origem à Aldeia da Ibiapaba.

Nos meus primeiros contatos com Vicente Miranda, mais de década atrás, logo lhe notei acentuada semelhança com o grande poeta, cantor e compositor Belchior. Não pude deixar de lhe indagar a esse respeito, tendo ele me respondido que eram parentes. Nessa época Miranda ostentava um vasto e denso bigode, assim como seu célebre primo. Tempos depois, ao revê-lo, de imediato percebi que ele havia se despojado da bigodeira. Jocosamente, revelando o seu senso de humor, que eu já conhecia, disse que rapara o bigode para não ser confundido com o parente famoso, que se envolvera em dívidas e andava um tanto sumido.

Todavia, por ter elaborado essa monumental obra, monumental tanto pelo tamanho como pela qualidade, não posso dizer que Vicente Miranda seja “(...) apenas um rapaz / Latino-Americano / Sem dinheiro no banco / Sem parentes importantes”. É um historiador de muito valor, um empresário bem-sucedido em seu campo de atuação e teve e tem parentes importantes, entre os quais o próprio e saudoso Belchior, autor dos antológicos versos acima.    

terça-feira, 6 de março de 2018

AS PEDRAS DA PEDRA DO SAL


AS PEDRAS DA PEDRA DO SAL

Alcenor Candeira Filho

Quando criança costumava passar com a família as férias do mês de julho na Pedra do Sal, localizada na ponta do litoral piauiense, na foz do rio Parnaíba.

Segundo os historiadores, navegadores fenícios visitaram o lugarejo praiano, cuja localização era considerada favorável à realização de experiências astronômicas. Até hoje existem pessoas que lá procuram seres extraterrestres em pontos estratégicos.

Registra ainda a história que o navegante português Nicolau de Rezende naufragou na bela praia do litoral parnaibano em 1571, tendo sido socorrido por índios tremembés com os quais conviveu pacificamente durante cerca de quinze anos.

No livro “A Sereia Mariá e a História das Comunidades da APA Delta do Parnaíba”, edição realizada pela Comissão Ilha Ativa – CIA, colhi o seguinte depoimento de Teresa Severiano dos Santos a respeito das origens do povoado litorâneo: “A história nos mostra que os primeiros moradores fizeram parte do pessoal de Severo, que era o Antônio Severo, João Severo, Ângela Vieira, Antônio Bernardino e o pessoal de Emília.”

Na década de 1950 não havia ponte nem estrada interligando o centro da cidade ao pequeno arraial de pescadores. Percorriam-se a pé, a cavalo ou de jipe os quinze quilômetros de areal. Um dos maiores desafios no trajeto consistia em atravessar de jipe ou de cavalo a frágil e estreita ponte do Penico Quebrado, armada com troncos de carnaúba sobre riacho de água cristalina. Adiante, o Morro do Labino, parada obrigatória para os viajantes que se deliciavam com a paisagem dos lagos em seu entorno.

O lugarejo não apresentava qualquer sinal de civilização, exceto o do pisca-pisca do velho farol erguido entre as pedras em 1873 e que durante muito tempo foi a única luz que alumiava nas noites escuras da praia a vida do pequeno povoado de pescadores. Alumbramento total: mar, areia, brisa, pedra, peixe. Peixe cozido na lenha, peixe frito no carvão. Pés na areia, no sal, na pedra. Delícia. Nada de jornal, telefone, televisão. Água de cacimba para beber e para tirar o sal. Luz de vela, de lamparina, de candeeiro, de petromax.

As casinhas de veraneio, todas de barro e cobertura de palha de carnaúba, enfileiravam-se em frente do mar da Praia Mansa, numa extensão não superior a um quilômetro. Por trás delas, espalhavam-se os casebres de palha dos pescadores, normalmente sem alpendre, indispensável nas casas de veraneio. Era no alpendre que se armavam coloridas redes de tucum. Deitado confortavelmente no embalo da rede acompanhava-se o embalo das ondas que na maré alta arrebentavam mansamente à porta de casa, bem como a chegada de canoas a vela, carregadas de pescadas, serras, cavalas e camurupins que muitas vezes eram negociados ali mesmo na beira do mar depois de extraídas as vísceras e as escamas.

O morador que possuía a mais confortável casa era o senhor Matias, professor leigo que construiu entre pequenos morros alvacentos e coqueiros de largos e longos leques verdes a sua morada, onde funcionava também a única escolinha de alfabetização do lugarejo.

As três casas de veraneio com melhor localização e de onde se avistava toda a praia pertenciam aos irmãos Luís, João e Alberto Silva, frequentadores assíduos do paraíso litorâneo.

Essas casas erigidas entre os rochedos foram depois reformadas, mantida a simplicidade do uso da palha e da carnaúba. Uma delas foi idealizada por Roberto Pilin e projetada por Gerson Castelo Branco, em formato de asa delta, e hoje compõe com as pedras que a circundam uma das paisagens mais belas e fotografadas do nosso pequeno litoral.

Um dos objetos que mais me encantaram na infância vivida na Pedra do Sal era um relógio de sol, que, segundo fiquei sabendo mais tarde, já se construía na Babilônia há uns 600 anos antes da Era Cristã. O engenho pertencia ao senhor Almeida, que, orgulhoso, gostava de explicar-lhe o funcionamento: consistia em marcar as horas através da iluminação de um corpo exposto ao sol, que projetava, de conformidade com o passar do dia, uma sombra variável sobre um estrado de madeira fixado no chão de areia no qual, em forma de meia-lua, figuravam as linhas e os números que mediam o tempo.

Foi a partir da infância que aprendi a amar a Pedra do Sal e a admirar-lhe a majestosidade da paisagem: o pôr-do-sol, as dunas, os cajueiros, os coqueiros, as praias - a Mansa e a Forte - , as lagoas, o farol, o pontal, as rochas, o Morro Gemedor...

A lendária história de amor de Intã, jovem e bela índia tremembé que socorreu na praia, desmaiado, um náufrago branco por quem se apaixonou perdidamente e passou a chamar de Ará, tem alguma semelhança com a bíblica história de Sephora, uma das filhas do pastor Jethro, que encontrou, sedento e esgotado, o futuro esposo Moisés, na terra de Madian, no meio do deserto que havia sido condenado a percorrer por força de decreto do faraó egípcio Ramsés II.

Libertador do povo israelita da escravidão no antigo Egito, Moisés, em árabe Musa, isto é, o que foi retirado das águas do rio Nilo por Bithiah, filha do Faraó Seth I, que o fez Príncipe do Egito, destacou-se ainda ainda como grande líder religioso, legislador e profeta a quem a autoria da Torá é creditada e a quem a Bíblia denomina o “mais humilde que todos os homens que havia sobre a face da terra”.

No desfecho, ambas as histórias, guardadas as proporções, têm também relação entre si. Elas transcorrem em morros - Morro Gemedor e Monte Sinai, que é conhecido em hebreu como Monte Horeb, ou em árabe como Jebel Musa , situado no sul da Península do Sinai, região considerada sagrada pelo judaísmo, cristianismo e islamismo. Na lenda indígena, Intã e Ará foram soterrados no doce leito do amor numa noite de forte tempestade. A areia acumulada sobre eles formou o Morro Gemedor, que até hoje reproduz ao contato com corpo humano os gemidos do casal apaixonado; na narrativa sagrada, o Profeta de Israel após o cumprimento da missão libertadora se despede de seu povo para sempre, braços abertos para os céus, continuando lá no topo da montanha a iluminada caminhada pela estrada cada vez mais larga, cada vez mais longa, cada vez mais alta, cada vez mais linda...

Durante as férias, um grupo de quinze a vinte pessoas, crianças e adultos, reservavam um dia inteiro para um passeio até o Morro Gemedor. A caminhada era longa, passos lentos, várias paradas para repouso à sombra de cajueiros, e se estendia - ida e volta - do brotar ao pôr-do-sol. Os passos iniciais eram dados na orla marítima rumo ao Pontal. As ondas, beijando-nos os pés, eram convite para frequentes mergulhos. No trajeto de poucos quilômetros pelas areias úmidas da beira do mar catávamos búzios, estrelas-do-mar, intãs, mariscos e gostávamos de espocar a pau belas e temíveis caravelas coloridas até ali arrastadas pelas ondas.

Revigorados pelos mergulhos, nos sentíamos prontos para continuar a jornada e enfrentar areal escaldante e vegetação rasteira que não raro nos espetava os pés. A sinfonia das ondas do oceano ia ficando para trás , substituída pelo coro estridulante dos tetéus, que em bandos e em voos rasantes acompanhavam-nos os passos.

Quase ao sol a pino alcançávamos finalmente o pico do misterioso morro de onde se avistava lá embaixo, reluzindo ao sol, uma lagoa em cujas águas azuis se saciava a sede e se mergulhava para tirar o sal. Era no movimento da descida quase vertical do morro à lagoa que se ouvia o ronco da areia, fenômeno natural transformado em sobrenatural pela imaginação popular.

O cartão postal que melhor identifica a Pedra do Sal é o que estampa as suas pedras.

Humberto de Campos, reportando-se ao ano de 1895, quando passou três meses com a família na Pedra do Sal, lembra no livro “Memórias”:

“... a maior curiosidade do lugarejo

eram, entretanto, os seus rochedos. Havia

pedras enormes de feitios bizarros, de dez

a mais metros de altura. Algumas constituiam,

mesmo, a reprodução da fisionomia humana.

E eu ainda me lembro de uma, grande e alta

como uma casa, que possuía dois olhos, e nariz,

e a boca imensa, rota em uma das extremidades.

A onda vinha de longe e atirava-se à cara do

monstro.”

A exemplo de Humberto de Campos, o que mais me fascina na Pedra do Sal são as rochas, que em verdade já não ostentam o tamanho que tinham no passado, porque parcialmente soterradas.

Algumas são conhecidas (ou eram?) pelo nome: a Pedra da Gruta, que abrigava pequena imagem de Nossa Senhora, em torno da qual, em desalinho, minúsculas e toscas peças de madeira - braços, mãos, pernas, pés - ali depositadas em retribuição às graças alcançadas; a Pedra do Sino, que encantava a garotada por produzir som metálico quando tocada por outra pedra; e a mais imponente de todas - a Pedra Gigante, com formato de rosto humano, em cuja boca enorme só chegavam os mais afoitos. Os mais cautelosos ou medrosos, como eu, só iam até o imenso olho esquerdo da rocha, onde cheguei diversas vezes a me sentar e a me deitar para me deleitar com a delícia da paisagem empedrouçada e marítima. Nessas horas de silêncio e meditação em que a alma parece elevar-se a Deus, eu me sentia, ali, acomodado no olho do “monstro” e diante da imensidão oceânica do mar, como Napoleão Bonaparte , que, exilado na Ilha de Santa Helena, onde faleceu, gostava de fitar de cima de um rochedo as espumantes ondas marítimas.

Na descrição de Afonso Henriques de Guimarães Neto, no livro “Napoleão”, publicado pela Editora Três, “são sombrios rochedos de flancos abruptos quase verticais, emergindo das águas e levantando os escuros braços para o céu, como se quisessem revelar a terrível força da erupção vulcânica que lhes deu forma e origem.” No belo e longo poema “Napoleão”, de Gonçalves de Magalhães, deparamo-nos com a famosa cena em que o Imperador da França, roto, alquebrado, contempla a vastidão do mar sem fim:

“Ei-lo sentado em cima do rochedo,

Ouvindo o eco fúnebre das ondas,

Que murmuram seu cântico de morte:

Braços cruzados sobre o largo peito,

Qual náufrago escapado da tormenta,

Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;

Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.”

A respeito da Pedra Gigante, referida por Schwennhagen como “uma grossa pedra esférica, que os pescadores denominavam de globo”, e comparada por Humberto de Campos à “cara do monstro”, - ouvi na infância fantásticas estórias narradas por pescadores, principalmente Antônio Severo, o maior contador de “causos” no lugarejo. A Pedra Gigante - meninos, eu ou/vi - é, além de encantadora, encantada. Coisa de meter muito medo. Quem duvidar que nela suba à meia noite.

O amor que sinto pelos rochedos do litoral parnaibano me inspirou alguns poemas como estes:


AMOR ÀS PEDRAS

por que as pedras me fascinam tanto

a ponto de me deixarem tonto

se tanto nenhum encanto noto

na pérola esmeralda opala?


por que as pedras me fascinam tanto

tonto de me deixarem a ponto

se não tenho para amante saco

com rubim ametista diamante?


vãs, as esmeriladas faíscas de pedras

engastadas em pescoços braços ou dedos:

por mais caras - não têm o preço doutras pedras;

por mais raras - se não igualam às estrelas.


as paisagens empedrouçadas de cada hora

são mui mais sedutoras que miragens outras:

é só fitar as pedras da Pedra do Sal

no brasido do brotar ou do pôr-do sol.


amo as pedras silenciosas, imóveis

e não preciosas da Pedra do Sal.

bem acima de tão queridas rochas

contudo, - amo as pedras sepulcrais.


AS PEDRAS DA PEDRA DO SAL


ó Pedra Gigante

da Pedra do Sal

ó Pedra do Sino

da Pedra do Sal

ó Pedra da Gruta

da Pedra do Sal

- quero um pouco desse

vosso grosso sal

a fim de que o bem

imponha-se ao mal.


PEDRA DO SAL

Pedra do Sal

porta do céu

porto do cio

pista do sol

no sal azul.


PAISAGENS LITORÂNEAS


I

na praia da

Pedra do Sal

à meia luz

do arrebol

crepuscular

nada é mais tão

deslumbrador

que o pôr-do-sol


        O          L

B                       A

         D       E

O                      O

        U       R

que reverbera

na imensidão

do mar sem fim


II

de cima

das pedras

da Pedra

do Sal

me apraz

olhar

as ondas

do mar

que andam

sem nunca



parar

sempre uma

atrás

da que

se faz

espuma.


Das minhas composições sobre a Pedra do Sal a que mais tem sido citada é o soneto “Pedra do Sal”, que foi exibido em exposição de fotografias/poemas organizada pelo fotógrafo Aureliano Müller nos salões do Clube dos Diários, em Teresina. Além de ter sido publicado em livros, antologias, revistas, jornais, - figurou em dois belos livros-álbum: “Parnárias: Poemas sobre Parnaíba”, organizado pelos poetas Alcenor Candeira Filho, Elmar Carvalho e pelo fotógrafo e escritor Inácio Marinheiro, e “Parnaíba: a Pérola do Litoral Brasileiro”, de Inácio Marinheiro. Eis o mencionado soneto, com o qual encerro este artigo:


PEDRA DO SAL


Ser pedra certamente não é uma boa

se de forma especial pedra que não se move

e que a resplandecência não tem das preciosas.

Mas quando as pedras fito da Pedra do Sal,



airosamente imóveis e silenciosas,

todo o tempo cravadas nágua azul de sal

(soluareia e estrelas ao redor da qual)

- aceito como boa a condição de pedra.



Os que me pisam piscam olhos alumbrados,

os que me pintam pedem a eternidade,

os que me sentam sentem o ímpeto da volta.



De mim, à vara, pescam-se peixes dourados

que espargem pela praia, onde a onda quebra,

escumas e escamas que atraem gaivotas.   

O PADRE E A INVENÇÃO DE TERESINA

Fonte: Google

O PADRE E A INVENÇÃO DE TERESINA

Chico Acoram Araújo
Cronista e historiador 

O jovem padre Mamede Antônio de Lima, recém-ordenado no Seminário de Olinda, em Pernambuco, teve a sua carreira sacerdotal iniciada na paróquia de Sobral onde permaneceu por pouco tempo vez que fora nomeado para ocupar a “vigaria colada” da Freguesia de N.S. do Amparo da Vila do Poti, província do Piauí e Bispado do Maranhão. Nascido em Icó(CE), ainda muito criança seus pais, o modesto alfaiate Mariano Antônio de Lima e d. Thereza Maria de Lima, decidiram encaminhá-lo para Sobral onde fez seus primeiros estudos. É provável que o Padre Mamede tenha chegado à Vila do Poti logo após ser ordenado, em 1842, uma vez que pouco permaneceu residindo em Sobral. Segundo o Dicionário Bio-Bibliográphico Cearense – Barão de Studart, obra do Dr. Guilherme de Studart, Mamede foi contemporâneo dos importantes reverendos e políticos cearenses Antônio de Souza Neves e José Beviláqua, todos ordenados no Seminário de Olinda. Padre Mamede faleceu em outubro de 1877 em Teresina. Contava ele aproximadamente 60 anos de idade.

Mas antes de se procurar conhecer a vida desse valoroso religioso e grande colaborador do Presidente da Província do Piauí, Conselheiro José Antônio Saraiva, na construção da nova capital na Chapada do Corisco, necessário se faz descrever, de forma resumida, a história da invenção de Teresina e seus antecedentes históricos.

Para começar, onde ficava essa freguesia de N.S. do Amparo da Vila do Poti? Consoante livro TERESINA 160 ANOS, organizado pelo ilustre historiador e cronista Fonseca Neto, o antigo Arraial da Barra do Poti localizava-se na região onde fazem barra os rios Parnaíba e Poti. No local já se verificava a presença de “brancos” no final do século XVII que, de forma gradativa, iam povoando o lugar e exterminando ou expulsando os nativos que antes os habitava, os índios Tremembé, da tribo Poti.

Fonseca relata que o Piauí só se transformou em capitania no ano de 1718, sem, contudo, ter governo próprio, e na época tinha a sua jurisdição subordinada ao Maranhão. Foi nessa condição que, em outubro de 1728, o Governador e Capitão General do Maranhão, João Maia da Gama, visitou o Piauí. Tinha como destino a vila da Mocha (Oeiras). O governador atravessou o rio Parnaíba no local onde o Poti faz barra, e ficou impressionado com o que viu, pois anotou em seu diário de viagem:


“Aquarteleime na beira do Rio Parnaiba e junto da barra do Rio Poty que aqui entra e dezagoa neste grande e famozo Rio Parnaíba e entre hum, e com terras singullares para plantas de toda casta e para canas, e com muita abundancia de peixe, asim do Rio Parnaiba, como dito Rio Poty, e com muita cana e achei ser sitio mto util, papâs comodo e muito conveniente para hua povoação e precisamente se deve levantar alli hua Igreja e erigir hum curato porque pela Parnahiba abaixo e asima de hua parte e outra tem mtª fazenda que todas ficão distantes das mais freguesias, ou curatos”.

Já com relação à Mocha, não foi tão otimista, para dizer o mínimo:

“Depois de sair duas vezes a cavallo com dito Menistro, e Cap.ªmor, e alguas pessoas de governança a ver os redores da dita villa todos agrestes e sem terras e sem madeiras e falta total de peixe lhe porpus, não a extinção da dita villa mas a Irecção de outra na beira do Parnahiba ahonde faz barra o Rio Poty em que ja falei na vigesima quando cheguei aquelle sitio e na marcha que fis delle para esta villa observei as m.tªs terras proprias de mantimentos e contidade de madeiras que hâ na beirada do Parnahiba ... e pelo Rio Poty asima”.

O emérito historiador acima citado é peremptório em afirmar que “é a primeira notícia capaz de explicar a invenção de Teresina na mesopotâmia Parnaíba-Poti”. Assim, pode-se afirmar que Maia da Gama foi a primeira autoridade a ter a ideia de construir uma cidade na beira do rio Parnaíba, fato que veio a acontecer apenas 124 anos depois da sua passagem por terras piauienses.

A Barra do Poti passou por um demorado crescimento. A região chegou ao final do século XIX com uma população de algumas centenas de pessoas e com isto as famílias residentes no local sentiram a necessidade de erigir uma capela, o que foi concretizada ainda nos anos 1796 a 1797, em homenagem a N.S. do Amparo. Mas somente em 1827, o antigo Arraial da Barra do Poti foi elevado à categoria de freguesia por Decreto assinado por D. Pedro I, imperador do Brasil. Obtinha assim foro eclesiástico e civil. E não parou mais no tempo.

Pouco depois, em 1832, o imperador assinava um novo decreto transformando a freguesia em Vila-Município do Poti, sendo, no entanto, instalado oficialmente em 21 de novembro de 1833. A sua sede, contudo, não demoraria muito tempo no seu local de origem. Por estava localizada em uma região muito baixa e exposta a inundações frequentes e, por isso mesmo, franqueada aos males palustres e outras epidemias. Em 1852 a sede foi transferida para um local mais elevado e passou a denominar-se Vila Nova do Poti. Depois, Teresina. O novo local escolhido era mais adequado, não inundável, apesar de se localizar ainda à margem do rio Parnaíba, região conhecida como Chapada do Corisco. Até este ponto, a história da capital é bem conhecida, o que não são de domínio público foram as dificuldades para se prover a mudança de local.

Não foi tão fácil, houve fortes resistências por parte de grande parte da população da região. E aí que reside a importância das ações do Padre Mamede de Lima. Convencido das vantagens da mudança, o reverendo partiu para um trabalho solitário de convencimento das famílias reticentes e refratárias à transferência, mostrando-lhes as vantagens de residir no novo local, distante apenas uma légua e meia de onde residiam. Tinha como subsídio à sua mensagem o incentivo da administração provincial que se dispunha a doar um terreno a cada família para a construção da nova moradia. O êxito do trabalho do Padre foi imediato. A partir da nova igreja em construção, dezenas de quarteirões bem planejados e com área de 40 por 40 braças, foram distribuídos à população, organizados a partir do Altar-Mor do novo templo, que passou a ser considerado o Marco Zero de Teresina. “Saraiva jamais teria concretizado a transferência da capital sem a ajuda desse padre, seu aliado político e amigo do povo”, ressalta Fonseca.

O nobre historiador acrescenta ainda que Mamede foi um dos principais protagonistas da criação de Teresina, e injustamente “esquecido pelos cronistas e pelos que cantaram a fundação da nova capital do Piauí”. Ele, como grande incentivador da mudança, foi também um dos primeiros habitantes a se transferir para Teresina, passando a morar em uma casa que mandou levantar em um dos quarteirões próximos à igreja de N. S. do Amparo, em local que tempos depois ficou conhecido como Rua da Glória (atual Rua Lisandro Nogueira). Naquela oportunidade, levou também para a nova cidade o Orago da Matriz pertencente à Vila do Poti. Depois que Padre Mamede faleceu, a sua casa passou a ser sede do antigo Centro Proletário.

O Padre Mamede, figura muito popular na Vila do Poti, além de desenvolver suas atividades religiosas teve uma atuação importante na vida política local, participando diretamente na administração do município, e também exercendo, depois, o mandato de deputado provincial. Como tal, foi um grande amigo e aliado de José Antônio Saraiva, Presidente da Província do Piauí, na transferência da capital piauiense para a nova sede municipal do Poti. Padre Mamede celebrou a primeira missa que aconteceu no local onde seria erigida a igreja de N. S. do Amparo, da qual, em seu redor, foram paulatinamente sendo construídas as ruas, casas, praças e prédios públicos da nova cidade que se formava.

No livro RUA DA GLÓRIA, de autoria do teresinense Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, recentemente publicado, menciona-se que houve uma trama clerical no Brasil, por ocasião da independência, uma vez que, nesse tempo, a ação política da Maçonaria foi acentuada, havendo até mesmo padres filiados às lojas. O ilustre autor registra “que a criação da loja maçônica logo no início da construção de Teresina deve estar ligada a ação de Mamede Antônio de Lima, primeiro vigário de N. S. do Amparo”. Carlos Monteiro, cita ainda o caso de conflito envolvendo Padre Mamede e o Presidente da Província do Piauí, o Barão de Loreto, Franklin Américo de Menezes Doria, (25/05/1864 a 03/08/1866). O cronista da Rua da Glória comenta entre outros fatos históricos a atuação da Maçonaria em Teresina logo após sua criação, inclusive mencionando a existência de um antigo templo maçônico (A Loja Cap. Caridade II) situada na Rua Bela, hoje Teodoro Pacheco.

O escritor Wilson Carvalho Gonçalves comenta em seu DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO ILUSTRADO, pagina 227, que o Padre Antônio de Lima era um homem corajoso, destemido e muito amigo do povo. Diz também que o religioso faleceu em Teresina no final do século XIX, e que foi sepultado na igreja de Nossa Senhora do Amparo.

Por sua vez, Antônio Lemos, conhecido como “Semana”, conceituado jornalista piauiense que viveu no século passado (faleceu em 24/11/1998, aos 78 anos de idade), publicou alguns escritos sobre a vida do Padre Mamede Antônio de Lima no Jornal “ A Luta”, dirigido por A. Tito Filho, no dia 23 de agosto de 1952, quando das comemorações de 1º Centenário de Teresina. No pequeno texto biográfico ele salienta que o trabalho por ele publicado foi feito todo de memória. Em 1977, o referido texto jornalístico transformou-se em livro. A seguir, transcrevo, resumidamente, algumas de suas anotações relacionadas com a vida do primeiro vigário da Chapada do Corisco.

Segundo Lemos, não se sabe se todos os padres de Teresina tinham o costume de usar trajes civis na época. No entanto, é verdadeiro que o Padre Mamede, quando fora do seu mister sacerdotal, trajava roupas civis. Por esse tempo, era comum as pessoas usarem sobrecasaca e chapéu alto (chapéu-de-pelo). E ele assim se trajava também nas ocasiões já citadas. Esse missionário de Deus era muito destemido também. Nos momentos de conflitos, não vacilava em enfrentar situações perigosas. Foi o que ocorreu certa noite em que o religioso socorreu o poeta e jornalista Licurgo Paiva, ocasião em que este estava sendo açoitado com pedaços de talos verdes de palmeira de babaçu por dois capangas a mando do Presidente da Província, Pedro Afonso Ferreira. O jornalista vinha criticando severamente a sua administração e por isto sofria a sua repulsa. Isso aconteceu em frente à casa do Padre Mamede, altas horas da noite. O vigário, que já se encontrava com roupa de pijama, pronto para dormir, saltou por uma das janelas, e com um revólver em punho disparou várias vezes contra os dois agressores do jornalista. Não se soube se algum dos capangas chegou a ser alvejado. Sabe-se apenas que se tratavam, conforme foi espalhado no dia seguinte, de dois soldados da polícia militar disfarçados.

Mas o conflito mais grave envolvendo Mamede Lima se deu por ocasião de umas eleições. Para garantir a realização do pleito, decidiram-se instalar as mesas eleitorais dentro da igreja do Amparo. O clima daquelas eleições era tenso. Quando iniciaram os trabalhos para formação das mesas, surgiu um mal-entendido entre o Padre Mamede e o Juiz de Paz, Dr. Deolindo Mendes da Silva Moura. Este último, sem querer, havia tocado no braço do padre, que por sua vez entendeu como uma provocação. Os capangas do padre, que se encontravam nas dependências ao lado, todos armados de achas de lenha, partiram em socorro ao religioso. A confusão se fez dentro da grande nave da igreja. Macedinho, escrivão que estava em uma das mesas, gritou: “haja paz, que haja paz”. Os “cabras” do padre entenderam como “haja pau”. Desferiram pauladas “a torto e a direito”. O pobre Macedinho, segundo Lemos, levou a pior. Morreu em decorrência de uma violenta cacetada na cabeça.

Lemos conta ainda o caso em que Padre Mamede, certo dia do mês mariano, celebrava missa na igreja do Amparo quando um dos músicos que estavam no Coro começou a fazer balbúrdia, instigado pelas muitas doses de pinga ingeridas horas antes do evento religioso. O padre pediu silêncio por mais de uma vez, mas não foi atendido. Mamede, muito aborrecido, dirigiu-se ao local onde estavam os músicos, tomou o trombone das mãos do bêbado e, em seguida, com esse instrumento metálico, aplicou várias pancadas na cabeça do inoportuno auxiliar; depois, jogou o infeliz no olho da rua.

É sabido que Mamede também era apreciador contumaz de uma boa cachaça, a “branquinha”. Comumente, após chegar a casa, deitava-se em sua surrada rede armada na varanda, bem de frente ao corredor, colocava a garrafa de cachaça e um copo em cima de uma pequena mesa próxima e ao alcance do braço, e dava umas boas talagadas da “água que passarinho não bebe”. Era nesse sagrado lugar de descanso do incansável guerreiro de Deus e do povo, que o padre recebia as pessoas que iam visitá-lo para tratar de diversos assuntos, seja da igreja, seja de negócios ou de política.

Assim como seu conterrâneo e contemporâneo, Padre José Beviláqua, Deputado Provincial do Ceará e pai do famoso jurista Clóvis Beviláqua e também do General José Beviláqua, Mamede Antônio de Lima não comungava muito de um dos preceitos da igreja: a castidade. Conforme anotação do jornalista Lemos, o padre convivia em sua casa com uma mulata chamada Raimunda, que se tornara sua amante e lhe dera um filho ao qual foi dado o nome de Sebastião.

Em que pese a grande importância desse valoroso Padre Mamede Lima para a fundação de Teresina, pouco se conhece sobre sua biografia. O atual pároco da Matriz de N.S. do Amparo corrobora que, realmente, são escassos os escritos biográficos de Mamede, acrescentando não existir nenhum vestígio de seu túmulo no interior da igreja, não obstante existirem relatos de que aquele religioso tenha sido sepultado nesse vetusto templo católico.

“É preciso estudar e conhecer-se mais a vida de padre Mamede Antônio de Lima, inclusive as razões por que foi ele alijado, até hoje, do horizonte dos intérpretes da história”, conclui o historiador Fonseca Neto no capítulo dedicado ao primeiro pároco de Teresina.