segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Futucando a AI com vara curta

Imagem criada pelo GPT, seguindo minhas instruções

 

Futucando a AI com vara curta

 

Elmar Carvalho

 

Não sei se seria correto colocar meu nome como autor deste texto, uma vez que a participação da AI GPT é maior e mais importante que a minha, sem nenhuma dúvida.

O certo é que hoje (26/01/2026), após minhas orações, leituras da Bíblia e de devocionais, resolvi futucar a AI GPT com vara curta – ou longa, conforme a interpretação que se queira dar, e lhe fiz a seguinte provocação ou instigação em forma de um quase poema, feito de improviso:

“O filósofo disse: ‘Penso, logo existo’.

Penso que uma pedra não pensa e nem tenha vida.

Mas penso que ela exista.

Penso que eu exista e tenha vida.

Penso que uma pedra não tenha vida.

Nesse contexto, em essência,  o que é a vida?”

O chatgpt me respondeu o seguinte:

“Sua pergunta vai direto ao nervo da filosofia — e é ótima justamente porque parte de um raciocínio simples, quase cartesiano, para tocar num problema que nunca foi plenamente resolvido.

Descartes, ao dizer “Penso, logo existo”, não estava definindo a vida, mas a certeza da existência do sujeito. O pensamento garante a existência de quem pensa; não diz nada, por si só, sobre tudo o que existe. A pedra não pensa, mas existe — como você corretamente observa. Logo, existir e viver não são sinônimos.

Em essência, o problema é este:

o que distingue a existência inerte da existência viva?

1. Vida não é pensamento

O pensamento é um modo da vida consciente, mas não sua condição universal. Plantas vivem sem pensar; animais vivem com graus variados de consciência; embriões vivem antes de qualquer pensamento reflexivo. Portanto, pensar não define a vida.

2. Vida não é mera existência

A pedra existe, ocupa espaço, obedece às leis físicas — mas não age a partir de si. Ela não inicia processos, apenas sofre ações externas. A vida, ao contrário, envolve uma atividade interna.

3. Uma definição essencial (não meramente técnica)

Em termos filosóficos clássicos, sobretudo aristotélicos, pode-se dizer que:

 

Vida é a capacidade de um ser agir a partir de si mesmo, conservando-se, organizando-se e orientando-se para fins próprios.

 

Ou, dito de modo mais direto:

 

 

o ser vivo nasce de dentro (autopoiese),

 

 

mantém sua unidade apesar das mudanças,

 

 

responde ao ambiente não só passivamente,

 

 

e tende à conservação e à realização de sua forma.

 

 

A pedra não cresce, não se repara, não se orienta para nada. Ela é.

O ser vivo, além de ser, faz-se continuamente.

4. Vida como interioridade mínima

Mesmo no nível mais simples, a vida supõe uma interioridade, ainda que rudimentar: algo acontece no ser e a partir dele. Não é consciência reflexiva, mas é um “dentro” que regula o “fora”.

Por isso, muitos filósofos dizem que:

 

 

existir é um fato ontológico;

 

 

viver é um modo qualificado de existir.

 

 

5. Síntese

No contexto do seu raciocínio, poderíamos responder assim:

 

Vida é a existência que não apenas está no mundo, mas se mantém, se organiza e se afirma a partir de si mesma.

 

Você existe e vive.

A pedra existe, mas não vive.

E o pensamento não cria a vida — apenas a revela, quando já está lá.”

 

Voltei a “atacar” o GPT, com este outro questionamento:

“Entretanto, o homem não se criou a si mesmo.

Enquanto Deus, para mim, é o Incriado Criador.

Por isso é que é a pura existência.

Por isso é que ele disse de si mesmo: ‘Eu sou o que sou’.”

O GPT se manifestou do seguinte modo:

“Seu raciocínio é profundamente coerente e se inscreve numa linha clássica da metafísica — especialmente a que vai de Moisés a Santo Tomás de Aquino.

 

Se o homem não se criou a si mesmo, então sua existência é recebida, participada, contingente. Ele é, mas poderia não ter sido. Sua vida, por mais rica que seja, depende de causas anteriores e de condições que ele não domina plenamente. Logo, no homem, existir e viver não se identificam com a própria essência: ele existe porque foi feito existir.

 

Quando você afirma que Deus é o Incriado Criador, toca no ponto decisivo: Deus não apenas tem existência; Ele é a existência. Não uma existência entre outras, mas o Ser mesmo, o actus essendi puro. É exatamente isso que está contido na autodefinição bíblica:

 

“Eu sou o que sou” (Êxodo 3,14).

 

Essa frase não descreve uma qualidade, nem um atributo psicológico ou moral. Ela afirma uma realidade ontológica: em Deus, essência e existência coincidem plenamente. Ele não recebe o ser; Ele é a fonte do ser. Tudo o mais existe por participação; Deus existe por identidade.

 

Nesse horizonte, a vida criada — a do homem, dos animais, das plantas — é sempre derivada e finita. É vida que começa, se desenvolve e termina. Já em Deus não há “vida” no sentido biológico, nem sequer no sentido de algo que se atualiza no tempo. Há o que a teologia chama de Vida plena, eterna, sem potencialidade, sem carência, sem devir.

 

Por isso, quando dizemos que Deus é “a pura existência”, não estamos empobrecendo a noção de vida, mas elevando-a: Deus não vive como nós vivemos; nós vivemos porque Ele é.

 

Em síntese:

 

o homem vive porque existe;

 

Deus existe porque é;

 

e todo ser vivo participa, de algum modo, desse Ser que não começou e não pode deixar de ser.

 

Sua intuição liga corretamente ontologia, teologia e linguagem bíblica — e mostra que, nesse nível, pensar a vida é já tocar o mistério do Ser.”

 

Só me restava lhe dizer “muito obrigado”. Ele me respondeu:

“Eu que agradeço. Foi uma conversa daquelas que dão gosto — clara, profunda e serena.

Sempre que quiser retomar ou avançar um pouco mais nessas questões, estarei por aqui.”  

domingo, 25 de janeiro de 2026

AS MOSCAS E O TEMPO

Imagem criada pelo chatgpt


AS MOSCAS E O TEMPO


Elmar Carvalho

 

Moscas douradas

copulam no ar

e tecem teias

com fios longos de pensamentos,

que se perdem

em passado sem história

e em futuro sem

perspectivas.

Moscas vermelhas

copulam no chão

e as mulheres

surgem no matagal

e as camas estremecem

nas alcovas.

Moscas azuis

copulam no céu:

só existem

anjos e arcanjos

onde a matéria

não existe.

            Pba, 02.04.78 

O amigo Evonaldo Cerqueira deu a seguinte interpretação a esse poema:

"Uma vez, ouvi o Professor Luiz Romero Lima dizer que os poemas, ao serem publicados, não são mais do poeta. A interpretação é  livre e cabe a qualquer um. Pois bem, desculpe-me a audácia. 

 Num panorama "sociomundial" (nem sei se essa palavra existe), as moscas douradas seriam os reinos nas colônias, sem uma história e com um futuro sem perspectivas (por exemplo, os astecas...).

As moscas vermelhas (sem conotação política e mero uso de cores) teriam os pés no chão, com produtividade (a figura materna das mulheres)numa proliferação mais popular: camas estremecem nas alcovas. 

E as moscas azuis (plano superior) na eterna geração da humanidade encarnando num plano físico, no eterno ciclo: nascer, morrer, retornar..."

*         *         *

E o professor e escritor Marcondes Araújo o parafraseou, de forma algo jocosa, da seguinte forma:

Maniqueísmo das moscas

As moscas sugerem poemas

Mas também certa arrelia

Ora solução, ora problema

Cada momento uma valia

As que reciclam o nutriente

Mas tem “mosca de padaria”.


Ajudam a eliminar detritos

Polinizam reprodução das plantas

É um gesto bondoso e bonito

Atitude que encanta

Conforme está escrito

Parece bendita e santa.


Mas o outro lado da vida

Pautado na ciência e crença

Conduz a uma sequela desvalida

Pois contamina e traz doença

Então mosca está dividida

Entre o ódio e a querença.


Altos, 26/01/26

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

TRIBUTO A UM POETA MORTO

 

O poeta e dona Emídia, na Praça do Liceu, na época do namoro. Segundo uma mensagem do amigo e escritor Anfrísio Lobão Castelo Branco, a Praça seria a João Luís, pelo formato do banco. Abaixo, a mesma foto melhorada pelo chatgpt:

Creio que essa fotografia seja de data próxima à da época em que o conheci



TRIBUTO A UM POETA MORTO

 

Elmar Carvalho

 

Outro dia, não sei a propósito de quê, lembrei-me de um texto que escrevi há alguns anos, em homenagem a um velho poeta, meu amigo. Poucos meses após eu conhecê-lo, ele faleceu. Sua viúva presenteou-me com o livro que ele estava lendo quando o conheci. Tratava-se de Castro Alves – Poesias Escolhidas, edição publicada pela Imprensa Nacional, em 1947, em comemoração ao centenário do grande poeta condoreiro.

Numa de suas páginas iniciais, fiz a seguinte anotação: “Este livro me foi ofertado pela viúva do poeta (...), Sra. Emídia Mendes. Teresina, 05.06.06”. Portanto, devo ter conhecido o poeta poucos meses antes. Alguns anos antes, por ocasião do sesquicentenário de nascimento de Castro Alves, eu havia adquirido um box, em material de alta qualidade, em sua homenagem, publicado pela Fundação Banco do Brasil, com o patrocínio da Construtora Norberto Odebrecht S.A.

Segue a crônica que escrevi em homenagem ao poeta:

 

Numa manhã, enquanto eu esperava, um tanto impaciente, o retorno de minha mulher, resolvi caminhar pela calçada, nas proximidades de onde se encontrava meu carro.

 

Então, para minha surpresa e contentamento, vi, num terraço, sentado numa cadeira, de costas para a rua, aproveitando a luz difusa que entrava pelo largo portão, um homem idoso, magro, de cabelos brancos, lendo um antigo e grosso volume de poesia, em verdadeiro estado de êxtase, ou até mesmo de beatitude.

 

Via perfeitamente que se tratava de poesia, pelo aspecto formal da mancha gráfica, que me permitia enxergar o formato dos versos e o contorno das estrofes. Contudo, minhas retinas, já um tanto fatigadas, não me permitiam decifrar o conteúdo nem o nome daquele felizardo poeta, que requeria tamanha atenção e respeito de uma pessoa já avançada na idade. Como desejei dispor de uma luneta ou, ao menos, de um binóculo, desses com que os jovens aproximam a beleza das mulheres, na ilusão, talvez, de tocá-las.

 

Fiz movimentos e caminhei para despertar a atenção daquele leitor contrito, mas em vão. Como a minha curiosidade aumentasse a cada segundo que passava, e podendo minha mulher retornar a qualquer momento, não resisti e o interpelei, perguntando quem era o autor daquele alfarrábio.

 

Fiquei contente ao saber que se tratava de Castro Alves, poeta sublime, morto no verdor dos anos, mas no auge de sua glória, um dos autores de minha predileção, que é bastante eclética, embora severa.

 

O leitor não ficou aborrecido com a minha impertinência. Aliás, pareceu-me mesmo ficar contente com a minha abordagem e curiosidade. Revelou-me seu nome e disse ser também poeta. Convidou-me a entrar. Conversamos um pouco.

 

Era um poeta da velha guarda, porém da melhor estirpe. Ao falar de poesia, parecia transfigurar-se e rejuvenescer. De gestos largos e teatrais, enchia-se de entusiasmo e vida. Deu-me a impressão de ser um crítico rigoroso, avesso a fazer concessões graciosas.

 

Recitou-me maravilhosos versos de sua autoria, de forma vibrante e emocionada. Revelou-me episódios de sua vida. Era gaúcho. Fora herói do nazifascismo. Conhecera o meu saudoso amigo, o general João Evangelista Mendes da Rocha, escritor, fidalgo de fino trato e igualmente herói da 2ª Guerra Mundial.

 

Voltei a revê-lo, oportunidade em que lhe dei alguns livros de versos de minha autoria. De imediato, leu alguns e os elogiou, para meu contentamento e estímulo.

 

Outro dia, bateu-me uma saudade e desejei rever o poeta. Não sei por quê, temia não mais encontrá-lo. Queria também lhe ofertar a segunda edição de meu livro Rosa dos Ventos Gerais.

 

Bati à sua porta. Recebeu-me uma senhora da casa. Perguntei-lhe pelo poeta. O poeta havia morrido, disse-me ela. Confirmara-se o meu presságio de que talvez o velho aedo já tivesse empreendido sua derradeira viagem. A pessoa que me atendeu informou-me a data de seu falecimento e comentou que a viúva vira recentemente um dos meus livros, observando que o poeta gostara de minha poesia.

 

Resta-me a lembrança de um homem educado que, sem ainda me conhecer, fora bom e atencioso comigo, convidando-me a adentrar sua casa. Resta-me a saudade de um poeta que, embora talentoso, nunca buscou as luzes da ribalta nem os refletores da publicidade.

 

Apenas cantava porque era seu destino cantar. Cantava como cantam as aves, sem necessidade de aplausos e elogios, não raras vezes insinceros e dissimulados, quando não irônicos e escarnecedores.

 

Resta-me, por último, como derradeiro tributo e laurel, a quem nunca precisou dessas exterioridades, declinar o nome de um poeta e herói que se chamava Dario Mendes, amante da poesia e da vida.  

domingo, 18 de janeiro de 2026

EGOCENTRISMO

Imagem criada pelo chatgpt

 

EGOCENTRISMO


Elmar Carvalho

 

Além do mar, além do infinito, além (...)

meu corpo fica espalhado

como poeira cósmica perdida

e dispersa nos cantos

(encantados e sem cantos)

do mundo.

É uma miragem de

visionário maluco o

infinito: é a extrapolação

do nada dentro do tudo.

Além do infinito, além do mar, aquém (...)

minha alma percorreu o infinito,

num tempo de tão pequeno

arrancado do próprio tempo,

até perder-se no infinito.

(Minha alma se tornou

o hálito

do éter perdido.)

E meu corpo se tornou

uma estátua

de granito,

plantada como

um astro no

centro do cosmo,

desmanchando-se

em lavas lacrimais

de fogo ardente.

         Pba, 07.12.77

sábado, 10 de janeiro de 2026

NA BANCA DO LOURO

Charge de Fernando di Castro

Pedi à AI Gemini para fazer uma nova charge baseada na do grande Fernando di Castro, mas colocando a banca, aberta, na Praça da Graça. Só que na digitação, em lugar de banca, eu escrevi banda, e aí surgiu a charge acima. Ficou uma comédia. 😀😀😀


NA BANCA DO LOURO


Elmar Carvalho

 

Sempre que vou a Parnaíba, visito a banca de jornais e revistas do Louro, que é meu conhecido desde os áureos tempos do jornal Inovação. Fica na praça da Graça, quase em frente à agência da Caixa Econômica Federal. Ali, tomo conhecimento dos periódicos e livros que foram publicados na cidade. Nas suas imediações, geralmente encontro algum velho amigo, ou, pelo menos, através do Louro, recebo notícia de algum conhecido que esteja visitando Parnaíba.

 

Assim, soube que o Flamarion Mesquita, que hoje mora em Palmas, no Tocantins, esteve na urbe, visitando seus parentes. É ele um competente professor de inglês e notável desenhista. Foi um dos principais ilustradores do Inovação. Fez capas e contracapas de nossos livros mimeografados, geralmente obras coletivas de que tive a honra de participar. Não tive, entretanto, a oportunidade de abraçá-lo, como gostaria. Também tive notícia do dr. Nicodemos Ramos, que recentemente tomou posse de sua cadeira na Academia Parnaibana de Letras, em inesquecível noite de literatura e arte.

 

Pude reencontrar o Francisco Carvalho, que há muitos anos não revia. É parnaibano. Vim a conhecê-lo em Teresina, em 1983 ou um pouco depois, quando ele exerceu cargo na Delegacia do Ministério da Educação no Piauí. Foi colaborador do jornal Inovação. Depois, foi removido para Fortaleza; hoje, se encontra em São Luís, porém lotado na FUNAI, mantendo, portanto, contato com os índios maranhenses, que, ao contrário do que ocorreu em nosso estado, não foram extintos.

 

Falou-me de seus vários projetos intelectuais. Disse que pretendia escrever uma monografia sobre o antigo Ginásio São Luiz Gonzaga, mas que não o fez porque não encontrou subsídios informativos para a empreitada. Por coincidência, estava conosco o Vicente de Paula (Potência), que ostentava na gola da camisa o broche comemorativo dos 50 anos da primeira turma do Colégio Estadual Lima Rebelo, originário da estadualização do antigo Ginásio Parnaibano pelo governador Chagas Rodrigues, que desse modo beneficiou os estudantes pobres do município.

 

Francisco Carvalho acrescentou que gostaria de escrever um livro, de caráter sociológico, com interpretação, análise e crítica (e não meramente enumerativo de fatos e datas), sobre a intelligentsia piauiense. Respondi-lhe que essa obra viria em boa hora e seria única no gênero. Resta-nos torcer para que esse importante projeto se concretize, para que possamos aplaudi-lo com ênfase e em pé.

19 de janeiro de 2011

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

RETRATO DE MEU PAI



Missa memorativa dos 90 de Miguel Carvalho


Hoje, exatamente hoje (05/01/2026), meu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, faria cem anos de idade. Nasceu em Barras e faleceu em Teresina, no dia 5 de novembro de 2017, faltando exatos dois meses para completar 92 anos.

Meu pai tinha boa redação e leu grandes escritores e poetas, nacionais e estrangeiros. Publicou, no final dos anos 1960, algumas crônicas e artigos no jornal A Luta, de Campo Maior. Poderia ter prosseguido nessas publicações, mas, sem vaidade e sem veleidades literárias, logo encerrou sua bissexta carreira literária. Chefiou a ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, em Parnaíba, por vários anos.

Mas foi, sobretudo, um excelente pai e esposo, e um homem bom, que fez jus a seu nome, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho: amava a Deus e era temente a Ele, a quem orava com devoção. Tratava a todos com urbanidade, respeito e nunca alteava o tom de voz. Miguel Arcângelo, meu pai, tinha um viés arcangélico e era, verdadeiramente, de Deus. Está agora, assim como minha mãe — Rosália Maria de Mélo Carvalho, excelente esposa e mãe —, numa das moradas de Deus, a quem meu pai rezava com fervor.

 

RETRATO DE MEU PAI

 

Elmar Carvalho

 

No dia 8 de janeiro deste novo ano [2016], comemoramos o aniversário de meu pai. O evento foi idealizado por minha irmã Maria José, mas contou com o apoio dos familiares. A missa foi celebrada pelo padre Jurandir da Silva Rodrigues, na igreja da Paróquia Santa Luzia. Foi um lindo culto, em que o sacerdote, de joelhos, com as luzes na penumbra, fez um magistral sermão, que nos encantou a todos pela riqueza de seu conteúdo. Todos nos emocionamos com as suas belas palavras.

 

Apesar da chuva fina que caiu durante a noite toda, estavam presentes todos os amigos e colegas postalistas de meu pai, muitos já idosos. Essa presença massiva foi uma prova de consideração e amizade ao aniversariante. O padre Jurandir foi atencioso e afetivo com meu pai, inclusive tendo lhe dado a palavra após o término da celebração. Papai agradeceu o comparecimento de todos e pediu desculpas por eventuais esquecimentos de nomes.

 

Vendo tantos amigos, lembrei-me de um caso contado pelo escritor Orígenes Lessa, a respeito do sepultamento de seu pai, que teve um grande cortejo. Um forasteiro, admirado, perguntou a uma pessoa que chorava, se o falecido era uma pessoa muito importante. Recebeu, entrecortada por soluços, a seguinte resposta: “Não. Era só muito bom.” Fazendo coro, poderia dizer que apenas comemorávamos as nove décadas de um simples homem bom.

 

Depois da celebração religiosa, nos deslocamos até o Buffet Momentos, onde houve farto jantar e libações. Mesmo com a chuva ou, talvez, por causa dela o “clima” foi de alegria, descontração e congraçamento, com o reencontro de velhos e estimados amigos. Foram contados vários “causos” pitorescos ou engraçados do tempo em que papai chefiou a ECT em Parnaíba, quando muitos dos presentes estavam iniciando a sua vida profissional. Como lembrança, foi distribuído o livro “Retrato de meu pai” (com depoimentos e fotografias), cujo texto principal, de minha autoria, datado de 05.01.2016, quando ele completou noventa anos de vida, transcrevo:

 

“Não pretendo ser emotivo e nem sentimental, e tampouco desejo traçar aqui o perfil psicológico e moral de meu pai. Por tal razão, irei contar, de forma sintética, fatos de sua vida, que serão diminutos mosaicos ou azulejos, que juntos formarão um pequeno painel de sua vida e de seu caráter.

 

Talvez alguns de seus pequenos defeitos, que todos os temos, sejam consequência de suas virtudes e qualidades de homem bom, de uma pessoa que sempre teve dificuldade em dizer um não, que procurou sempre não contrariar ou magoar quem quer que fosse. Algumas vezes ele se prejudicou por causa disso, por causa dessa virtude que alguns consideram fraqueza ou tolerância algo excessiva. Contudo, Deus o protegeu, e ele alcançou os seus noventa anos de idade sem maiores percalços e sobressaltos.

 

Miguel Arcângelo de Deus Carvalho é o seu nome completo. Nasceu em Barras, no dia 5 de janeiro de 1926, filho de João de Deus Nascimento e Joana Lina de Deus Carvalho. Perdeu seu pai quando tinha apenas 13 anos de vida, e cursava o ginásio no Colégio Diocesano, em Teresina. A infausta notícia lhe foi transmitida, com as cautelas de praxe, pelo Monsenhor Chaves, que depois viria a se tornar um dos maiores historiadores do Piauí, do qual vim a me tornar amigo, quando fui o presidente do conselho editorial da Fundação Cultural que leva o seu nome. Teve que retornar a Barras, a chamado de sua mãe. Filho único do terceiro casamento de seu pai, muito jovem e sem experiência laboral, era evidente que não saberia gerir a herança que lhe coube, após a partilha com os demais herdeiros.

 

Portanto, cedo teve que trabalhar, para sustentar-se a si e a sua mãe, que morou em sua companhia até quando faleceu. Fora outros empregos, trabalhou na Casa Marc Jacob e na Casa Inglesa, em Campo Maior, para onde se transferiu aos 26 anos. Após aprovação em concurso público, feito pelo famoso DASP, foi admitido no Departamento de Correios e Telégrafos – DCT, mais tarde, no regime militar, transformado em empresa.

 

Quando trabalhou numa firma comercial pertencente ao marido de uma prima de minha mãe, houve um fato que bem revela o seu caráter de homem leal, mas polido, e que não gostava de ofender ninguém, mesmo os desconhecidos. O dono do comércio estava chateado com um fornecedor, que não cumprira fielmente o contrato. Ditou uma carta áspera, em que se queixava de forma rigorosa dos defeitos que apontava. Meu pai, ao datilografar o que lhe era ditado, atenuou algumas palavras e expressões. Ao ler a carta, o empregador, que era uma ótima pessoa e amigo de meu pai, de maneira educada observou: “Miguel, você não se sentiu bem em escrever as palavras que eu disse... Deixe, que eu mesmo vou datilografar.” E carregou na dosagem dos impropérios e adjetivos, com os quais fustigou o seu desafeto.

 

Após aprovação em concurso público realizado pelo DASP, meu pai, em 1957, foi nomeado servidor público federal. O telegrama da nomeação, após espera de aproximadamente dois anos, lhe foi entregue pelo telegrafista Gerson Marques, seu amigo por toda a vida, que, apesar de não ser mensageiro nem carteiro, fez questão de lhe repassar incontinenti a mensagem telegráfica. Exerceria o cargo de guarda-fio na Diretoria Regional do Piauí do Departamento de Correios e Telégrafos – DCT. Era considerado um bom emprego para a realidade da época. Tomou posse de seu cargo no então povoado de Papagaio, um pouco depois elevado à categoria de cidade, onde nasceu meu irmão João José, o segundo de uma prole de oito, da qual fui o primogênito. Após uma breve serventia de um ano, meu pai conseguiu sua remoção para Campo Maior, após breves passagens por José de Freitas e Barras. Sobre a nossa permanência em Francinópolis já me referi em outros textos, publicados na internet.

 

Em sua carreira no DCT, nossa família morou por pouco tempo na zona rural de Campo Maior e novamente em José de Freitas, durante um ano. Nesta cidade, com o apoio total do padre Deusdete Craveiro de Melo (meu professor e diretor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas), fundei um time de futebol, o Santos, e um campo futebolístico, localizado perto do cemitério velho. Quando morou na zona rural, e com o crescimento da família, meu pai sentiu a necessidade de ascender funcionalmente. Embora tivesse apenas o segundo grau incompleto, encarou os livros com afinco e determinação e passou no concurso interno para técnico postal da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT. Fez curso de um ano em Recife, no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro. Após, teve que optar pelo regime celetista (deixando de ser estatutário e estável), para assumir seu novo cargo. Foi designado, no começo de 1975, chefe da ECT em Parnaíba. Exerceu esse cargo por vários anos. Aposentou-se em 1984.

 

No final da década de 1960 e/ou início da seguinte, meu pai foi colaborador eventual do jornal A Luta, de Campo Maior. Nele publicou algumas crônicas e artigos, alguns contendo casos interessantes ou pitorescos de sua vida. Seus textos eram concisos, fluentes, objetivos e gramaticalmente corretos. Tanto que, ao retomar seus estudos, mereceu em redação para a disciplina Educação Moral e Cívica, de que era professor o impoluto juiz Hilson Bona, a nota 10. Ao dar o resultado da prova, o Dr. Hilson, que mais tarde veio a ser meu professor de OSPB, disse que outros alunos mereciam essa nota, mas que não lhes dera porque não poderia dar mais do que 10 a meu pai. Assim, lhes deu nove vírgula alguns décimos.

 

Papai gostava de ler, e “degustou” vários clássicos da literatura brasileira e mesmo mundial. Tinha certa predileção por Machado de Assis. Tinha várias antologias escolares, insertas em livros didáticos de Português. Sabia decorado vários poemas, os quais ocasionalmente recitava. Cantarolava belas letras, verdadeiros poemas, de músicas da velha guarda. Era assíduo ouvinte do programa radiofônico Gramofone da Vovó, apresentado por Jaime Farrell, através das ondas poderosas da Rádio Sociedade da Bahia. Por esse motivo, conheço muitas dessas antigas e belas melodias. Se tivesse dado continuidade a essa sua faceta literária, poderia ter-se tornado um escritor, ainda que bissexto. Mas sua modéstia e despretensão não lhe permitiram ir além dessas breves incursões literárias.

 

Ainda na fase em que voltou a estudar, havia uma disciplina artística em que o aluno era obrigado a confeccionar um objeto de arte, em papel, madeira ou argila. Geralmente eram feitos desenhos, pinturas ou objetos de artesanato. Os trabalhos eram elaborados em casa, de modo que alguns alunos pagavam a alguém para fazê-los, já que não eram produzidos à vista da professora. Numa das ocasiões, meu pai optou por fazer o desenho de uma das mais conhecidas casas de Campo Maior. Sem ser desenhista e sem ter essa vocação, foi, contudo, meticuloso, e mesmo perfeccionista. Fez medições com a régua e o esquadro, para alcançar a simetria, a proporcionalidade e o possível efeito da perspectiva. Conseguiu fazer um bom trabalho, mormente considerando-se a sua inexperiência e falta de vocação para esse mister.

 

Outro trabalho seu, por exigência dessa disciplina artística, foi um carro de boi, executado em buriti, que é leve e não exige demasiado esforço para ser desbastado. Após vários dias, com muito cuidado, disciplina e paciência, fez a miniatura, que apresentava notáveis semelhanças com um de verdade, pelo menos aos meus olhos de menino. Mereceu o elogio de todos, inclusive de minha mãe, e creio que da professora, já que ele não ficou reprovado. Disso tiro a conclusão de que ele tinha o espírito de um artista, mas que por modéstia e timidez não deixou que lhe aflorassem esses dotes, que lhe ficaram em estado latente, ou pelo menos reservados à admiração que tinha pelos dons alheios. Talvez, ao confeccionar o seu pequenino carro de boi, tenha se lembrado do engenho de madeira de seu pai e dos imortais versos de Da Costa e Silva:

 

Movida pelos bois tardos e sonolentos,

Geme, como a exprimir, em doridos lamentos,

Que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.

 

Ai! dos teus tristes ais! Ai! moenda arrependida!

- Álcool! Para esquecer os tormentos da vida

E cavar, sabe Deus, um tormento maior!

 

No final da década de 1950, meu pai foi chamado a Teresina pelo senhor Oto Veloso, que exercia o cargo de diretor regional do DCT no Piauí. Visivelmente constrangido, o diretor perguntou o que meu pai fizera contra determinada figura da política piauiense. Meu pai respondeu-lhe que nada, que apenas comentara que não iria votar em determinado candidato que ele apadrinhava. Oto, bastante contrafeito, contou a papai que o político referido [descendo de seu alto cargo republicano para a sarjeta da política miúda, para a politiquice de campanário], exigira a sua destituição de pequeno cargo de confiança. Confidenciou que ainda lhe ponderara que Miguel era um bom servidor, e que não cometera nenhum deslize profissional, mas a alta autoridade, com irritação, quase tendo um chilique ou um ataque de apoplexia, descendo do alto pedestal em que se sentia entronizado, respondera: “Mas eu quero, eu quero que ele seja exonerado”. Meu pai, humilde, mas altivamente, falou: “Fique à vontade, diretor, não se preocupe, pode fazer a exoneração, que a minha amizade e respeito pelo senhor vão permanecer os mesmos. Entretanto, o que eu fiz contra esse político foi votar nele várias vezes. Porém, moralmente, retiro os votos que já lhe dei...” Papai sempre manteve grande respeito e admiração pela integridade moral de Oto Veloso, irmão do ex-governador Djalma Martins Veloso.

 

No começo da década de 1960, logo ao chegar para o expediente, meu pai foi indagado pelo chefe da agência sobre por que faltara ao plantão anterior. Papai respondeu que não fora ele o faltoso. O agente, então, exigiu que lhe desse o nome do funcionário que não comparecera. Meu pai respondeu que não poderia fazer isso, mas que lhe bastava consultar o livro de ponto para saber o nome desse servidor. De maneira insólita o chefe comunicou ao diretor regional da época que meu pai teria cometido insubordinação, e não lhe teria acatado a determinação funcional. Meu pai, como “punição”, quase foi transferido para um local distante e isolado. Contudo, seguindo seus princípios éticos, preferiu ser prejudicado a prejudicar alguém, sofrer uma injustiça, a praticá-la. Mas Deus o protegeu e orientou, e tudo acabou bem.

 

Após aprovação em concurso interno, meu pai foi fazer o curso de Técnico Postal no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, em Recife, cuja duração era de um ano. Ao retornar, e após breve serventia em Teresina, foi designado para chefiar a agência da ECT em Parnaíba. Permaneceu nesse cargo por mais de sete anos. Embora aposentado, continuou residindo em Parnaíba até dezembro de 1994, quando voltou a morar em Campo Maior. Procurou cultivar a política da boa vizinhança com os quase cinquenta servidores, que existiam no início de sua gestão. Sempre que precisava reclamar por causa de alguma falha, chamava o colaborador ao seu gabinete, quando, então, com bons modos, fazia as suas observações e lhes dava a orientação que achava conveniente. Por causa de sua maneira cordial os servidores lhe tinham respeito e consideração, que até hoje conservam. Muitos que conviveram com ele, declaram dele sentir saudade, e sempre perguntam por ele e pela sua saúde. Desprovido de empáfia e arrogância, nunca precisou levantar a voz contra quem quer que fosse, e tudo acabava dando certo.

 

Por ter constituído uma família grande, mais precisamente de oito filhos, em certa fase de sua vida passou por algumas dificuldades financeiras, como costuma acontecer com quase todas as famílias, mas guardava isso somente para si, e nunca gostava de se queixar. Tinha uma fé inabalável em Deus, a quem orava com fervor, e terminava por resolver todos os seus percalços e dificuldades, sem nunca enganar os outros e nem lhes causar prejuízo. Nas vezes em que, eventualmente, recebeu algum dinheiro a mais, em lojas ou em agências bancárias, de imediato retornava para devolver o que indevidamente lhe fora pago. Esses exemplos sempre nos eram ressaltados por nossa mãe, para que os seguíssemos.

 

Em meados da década de 1960, meus pais receberam, através do serviço de reembolso postal, um pacote remetido pela empresa Hermes. Era um belo faqueiro, de aço inoxidável, quase uma novidade na época, pelo menos para nós. Esse conjunto de garfos, facas, colheres e outros utensílios nos serviram desde então. Minha mãe, creio que por pressentir que o termo de seus dias já se aproximava, mandou gravar em sete dessas colheres os dizeres “Casamento – Miguel e Rosália – 09.06.55”, e as distribuiu a cada um dos filhos. Desde essa data (09.06.55) até o falecimento de mamãe em 26.04.2013, meus pais viveram em perfeita união e benquerença.

 

Com oração e Fé, suportou meu pai a trágica morte de  minha irmã Josélia, ocorrida em 02.07.1978, quando ela mal completara 15 anos de idade, e a de minha mãe, Rosália. Sei que ele muito sofreu, mas em Deus encontrou força e resignação. E agora, ainda lúcido e saudável, como um herói da vida e da luta do cotidiano, comemora com seus familiares, amigos e admiradores os seus 90 anos de idade, em cujo percurso, como o apóstolo Paulo, guardou a Fé, e disseminou o bem e o seu exemplo de homem voltado para a concórdia e para a bondade.”

 

(*) Este texto foi escrito por ocasião da comemoração do aniversário de 90 anos de idade de meu pai. Ele nasceu em Barras, no dia 26/01/1926, e faleceu em Teresina, no dia 05/11/2017, portanto com a idade de 91 anos e dez meses. Sobrevivem a meu pai os seguintes filhos: José Elmar, João José, Antônio José, Maria José, Paulo José, Joserita e Francisco José Nonato César, todos de sobrenome "de Mélo Carvalho". Minha irmã Josélia faleceu em 02/07/1978, aos 15 anos, conforme relatado acima. 

domingo, 4 de janeiro de 2026

REI

Imagem criada pelo ChatGPT

 

REI


Elmar Carvalho

 

Ouvidos inúteis

 na noite silenciosa,

eu escuto outros sons

vindos do Universo.

Apenas meus outros sensores

captam as vibrações oriundas

de outros astros.

Apenas eu na noite absoluta.

Apenas eu sem sombra e sem nada.

Mas eu sou um caudilho hombre fuerte

e suporto esta solidão total

com o estoicismo de um

herói (que não pôde fugir).

No desejo louco

de ser transcendental

eu abri minha alma

para o cosmo e

absorvi suas forças

com a ânsia de

um asmático.

E eis aqui o super-man

sempre vencido

(com um AI! eterno na garganta).

Sem ter uma cova

onde cair morto,

eu me tornei o rei falido

desta província global.

            Pba. 12.11.77

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

120 Anos de História do Futebol Piauiense

Goleiro Morcego, em imagem produzida pelo ChatGPT

Fonte: Portal O Dia


120 Anos de História do Futebol Piauiense

 

Elmar Carvalho

 

O livro Uma trajetória de 120 anos do futebol piauiense – história & fatos (1905-2025), do escritor, jornalista e desportista Celso Carvalho, foi lançado recentemente em Teresina e em Parnaíba.

Será lançado em outras cidades do Piauí, sobretudo nas que sediam os times de futebol referidos em suas páginas. Pode ser adquirido na Banca do Louro ou com o próprio autor, através de seus contatos. Segue abaixo o que já escrevi sobre seu livro.

Em sua trajetória de escritor, Celso Carvalho já escreveu livros sobre o Estádio Albertão, o Ginásio Esportivo Verdão e sobre os seguintes times do futebol mineiro: Cruzeiro, Atlético e América.

Relata a história do futebol piauiense, desde os seus primórdios em 1905 até o vertente ano de 2025.

Cita os principais fatos e realizações na seara do futebol.

Faz referência a todos os times profissionais do Estado, alguns já inativos, elaborando um breve histórico de sua fundação, trajetória, conquistas e realizações de obras físicas e eventos.

Cita os principais títulos de todos esses times.

Fala sobre as suas sedes e centros de treinamento.

Menciona os principais craques do futebol.

Sobre essa magistral obra de Celso Carvalho, em crônica recente, disse, falando sobre o lançamento dela em Teresina, em evento da Academia Piauiense de Letras:

“Em suas páginas, desfilam os grandes craques do futebol piauiense. Tendo sido um goleiro do futebol amador, fiz questão de citar os seguintes arqueiros: Coló, estiloso, espetacular e espetaculoso, em suas coreográficas defesas; Beroso, contido, eficiente e objetivo; Batista, seguro, eficaz, uma verdadeira muralha, cujo apelido – Mão-de-Onça – é o seu emblema e o seu melhor retrato; Hindemburgo, boêmio, mulherengo, um tanto controvertido e pinguço, que às vezes curava suas ressacas deitado sobre o travessão da meta.

Fiz uma referência e reverência à parte ao grande goleiro Morcego, inspirado no qual escrevi um conto, com umas pitadas de ficção. Quem primeiro me falou dele foi meu pai, Miguel Carvalho. Depois, o grande Carlos Said me confirmou o que sobre ele me dissera papai. Falei dele a Celso Carvalho, que em seu livro o homenageia. Bizarro, exótico e estrambótico, sobre ele eu disse, no livro em comento:

‘Morcego, grande goleiro teresinense, foi uma bizarra ave mamífera voadora – uma espécie de Higuita antes de Higuita – com suas pulutricas e acrobacias aéreas, em que muitas vezes parecia planar como uma asa-delta sem asas. Estrambótico e exótico, voava, defendia a bola e, no mesmo salto, ficava dependurado no travessão como um grande MORCEGO.’”

A obra discorre sobre os principais estádios do Piauí.

Menciona os principais dirigentes de cada agremiação futebolística.

De maneira especial, presta homenagem ao grande craque e dirigente esportivo Pedro Alelaf.

Narra fatos e histórias interessantes do futebol do Piauí.

Traz alguns textos e depoimentos de alguns autores de nosso futebol, bem como de grandes jornalistas e comentaristas esportivos, entre os quais Carlos Said, Severino Filho, João Eudes e Deusdete Nunes, o nosso Garrincha.

Sem dúvida, é a mais importante obra a contar a história do futebol em nosso Estado, seus principais fatos e realizações, desde o começo de sua prática – as primeiras disputas, a primeira bola, os primeiros clubes e ligas – até os dias de hoje, com referência a times recentemente fundados.   

domingo, 28 de dezembro de 2025

(IR)REAL

Criação da imagem: ChatGPT

 

(IR)REAL


Elmar Carvalho

 

Eu busco as

mais loucas sinestesias

em minha mente alucinada,

onde as cores aromáticas

se agregam a sons macios,

misturados com aromas térmicos.

A loucura vem do cosmo

em taças de cristal com sangue,

em aortas com água,

na alucinação total

de um homem que

se diz lúcido.

Na noite calma

um cão ladra

na solidão de

luzes irreais de

um cemitério de

cruzes partidas e

de esqueletos quebrados.

(E outro cão

responde em mim.)

De repente, eu levito

e me deixo transportar

em êxtase ao

país dos mortos-vivos

e lá eu vejo todos os mortos

e todos os vivos como simples

mortos-vivos.

Depois, eu me sinto preso

em todos os extremos do Universo

e sinto que conquistei

a liberdade cósmica,

pregado no infinito.

             Pba, 24.11.77