terça-feira, 31 de outubro de 2017

O QUE VOCÊ SABE SOBRE MURILO BRAGA?


O QUE VOCÊ SABE SOBRE MURILO BRAGA?

José Pedro Araújo (*)

Recentemente relia um dos clássicos da literatura brasileira, MENINO DE ENGENHO, de José Lins do Rego, um dos ícones da literatura nacional, quando me despertou a vontade de saber a quantas andava o Engenho Itapuá, lugar que serviu de ambiente para o romance do consagrado autor. Depois de uma rápida busca no Google, deparei-me com um documentário de mais de uma hora sobre o autor, e também sobre o velho engenho da sua infância. Com tristeza verifiquei que o Itapuá não passa hoje de um conjunto de escombros, e as terras que viviam cobertas por canaviais, hoje estão em mãos de um grupo de trabalhadores rurais, expropriada que foi pelo governo federal. O documentário traz uma visão completa sobre a vida do grande escritor regionalista e começa com um dos seus organizadores em visita à cidade do Pilar-PB, terra natal do escritor.
Pilar é uma cidadezinha de pouco mais de 11.000 habitantes, que já teve a sua importância no auge do ciclo da cana-de-açúcar; vetusta a mais não poder, uma vez que fora fundada em 1758, hoje não passa de uma cidadezinha perdida nos ermos sertões nordestinos, apesar de já mesmo merecido uma música da lavra de Luiz Gonzaga e seus parceiros: Moça de Feira.
De microfone na mão, o documentarista foi em busca de um colégio que homenageava o conterrâneo: Unidade Escolar “José Lins do Rego”. E passou a entrevistar os alunos que naquele instante saiam de lá, possivelmente após o término das aulas.
Curioso, o documentarista perguntou ao primeiro aluno se ele sabia quem havia sido José Lins do Rego. O adolescente respondeu que não. O repórter então perguntou ao segundo aluno que saia, e obteve a mesma resposta. Ele também não sabia quem fora o homem que emprestava o seu nome à escola, estampado em letras garrafais no frontispício logo a sua frente. Depois de indagar a vários alunos, e obter sempre respostas negativas, resolveu o documentarista sair pela cidade à procura de alguém que soubesse algo sobre o ilustre filho da terra. E ao abordar um jovem, logo próximo, trajando a farda do colégio, recebeu a resposta que tanto almejava: ele sabia quem fora José Lins do Rego. Disse ainda que era até seu parente, declinando o seu nome a pedido do entrevistador. Animado, o visitante perguntou se ele já havia lido algum livro do parente; Ele respondeu que havia começado a ler um, mas não havia terminado. Foi uma ducha de água fria.
Foi depois de ver o documentário sobre esse autor nordestino que revolucionou a literatura com a sua forma seca, direta, mas que abordava temas regionalistas de grande importância, como o ciclo da cana e o cangaço, que me ocorreu escrever a presente crônica. E antes de iniciá-la, eu já esclareço: somente quando iniciei minhas pesquisas para o livro “Do Curador a Presidente Dutra – história, personalidades e fatos”, soube quem havia sido o homem que deu nome ao colégio em que fiz parte significativa do meu curso primário: Dr. Murilo Braga.  Construído na gestão do prefeito Gerson Sereno, nos idos da década de cinquenta, o grupo escolar Dr. Murilo Braga continua sendo uma referência no ensino público da cidade de Presidente Dutra. Quando para lá me transferi, por volta de 1960, deslumbrei-me com o tamanho do prédio e a quantidade de salas de aula, oriundo que era da pequenina Escola Rural, e depois da União Artística e Operária, ambas situadas na praça do mercado. Naquele tempo a diretora do Murilo Braga era a professora Mariazinha Barros, e a minha primeira professora naquele colégio foi a jovem Marli Sá, uma Ludovicense, cunhada do Ailton Sereno, figura muito conhecido na cidade.
A professora Marli era uma pessoa admirável, bonita, doce e muito atenciosa, que me adotou logo de cara a ponto de algumas vezes me convidar para lanchar na pequena lanchonete que existia na frente do colégio. O lanche era café com bolo frito ou chapéu de couro, invariavelmente, e eu sempre dava um jeito de ficar ao lado dela logo que a campainha anunciava o horário do recreio. Coisa de menino pidão.  E por ser o aluno mais novo da turma e, modéstia às favas, tirar sempre algumas das melhores notas, ganhei a amizade da minha professora e até uma fotografia sua, mimo que até poucos anos ainda tinha comigo. Ganhei também o epíteto de caçula. Dona Marli era muito culta e gostava de demonstrar isso ao entoar, em um francês que acredito perfeito, e com uma voz limpa e aveludada, o hino nacional daquele país, a Marselhesa. Só não me recordo se ela me falou quem foi o cidadão que deu nome àquela escola, o tal doutor Murilo Braga.
Acredito até que poucos alunos hoje, depois de indagados, responderiam saber quem de fato foi o homem que emprestou o seu nome ao colégio em que estudam ou estudaram. Vou mais além: aposto que poucos sabem quem foi o homem que deu nome a uma das principais artérias da cidade, a Rua Magalhães de Almeida, ou mesmo a sua cidade, o tal Presidente Dutra. Creio que já passa da hora de os nossos educadores se preocuparem com coisas como essas. Discorrer sobre os nossos principais autores, descrever quem foi o cidadão que deu nome ao colégio em que ensinam, essas coisas. Melhor do que falar sobre o Presidente americano ou Francês, ou mesmo Fidel Castro ou Che Guevara, tão ao gosto de muitos. Hoje os políticos passaram a nominar os prédios públicos com os seus próprios nomes ou o de alguém da sua família, ou mesmo um político do seu agrado, e isso talvez desestimule a maioria a falar sobre o assunto. Mas já foi diferente.
O tal doutor Murilo Braga, volto ao assunto, foi um advogado piauiense, nascido em Luzilândia em 1912, que teve grande importância na educação do país, e que passou a dar o seu nome prédios escolares em quase todos os estados da federação. Murilo Braga foi diretor do Instituto de Educação do MEC, diretor do Instituto de Estudos Pedagógicos do mesmo ministério e diretor Geral do DASP, órgão federal responsável por todos os concursos para preenchimentos das vagas do serviço público no Brasil, entre outros cargos por ele ocupados. Deve ter sido o responsável pela liberação dos recursos para a construção do nosso querido e importante Grupo Escolar Dr. Murilo Braga, daí merecer a homenagem.
Finalizo este texto afirmando que, talvez por conta da vergonhosa participação dos alunos do município no documentário acima referido, a secretaria de educação municipal do Pilar, Paraíba, realizou em 2014 um desfile cívico em homenagem ao filho da terra, José Lins do Rego. De estranho apenas o fato de ter sido outro colégio quem homenageou o escritor nascido no Pilar, e não o colégio estadual que leva o seu nome. Mas isso é o de menos.


(*) Romancista, contista, cronista e historiador.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA E A CONTINUIDADE DO ROMANCE DE FORMAÇÃO BRASILEIRO



HISTÓRIAS DE ÉVORA E A CONTINUIDADE DO ROMANCE DE FORMAÇÃO BRASILEIRO

Maria do Socorro Rios Magalhães
Professora universitária e membro da APL

Elmar Carvalho, poeta com vários livros publicados, apontado pela crítica como autor de poemas dos mais inventivos e inovadores da literatura   piauiense, surpreende os admiradores da sua obra poética, ao publicar sua primeira obra de ficção em prosa, o romance Histórias de Évora.

Embora não seja incomum escritores exercitarem-se em ambos os gêneros - lírico e narrativo - trata-se de diferentes posições de expressar uma visão de mundo, posto que, na poesia, o eu lírico envolve-se com aquilo que expressa, predominando, portanto a subjetividade, enquanto na narrativa, o sujeito narrador busca distanciar-se do objeto narrado, almejando apresentar com objetividade a sua visão de mundo. (STAIGER, 1975)

Nos seus estudos de estilística sociológica, Mikhail Bakthin (1990) aponta que o romance e a poesia têm estilos radicalmente opostos. O romance representa esteticamente o dialogismo da linguagem e arrasta para seu estilo características estilísticas de outros gêneros, enquanto a poesia prima pela pureza estilística, não permite que o dialogismo da linguagem se manifeste e só deixa falar uma única voz: a voz do eu lírico. Aristóteles, (1998) muito antes de Bakhtin, já dizia que na poesia lírica, o poeta fala em seu nome expressando a si mesmo, enquanto na narrativa, o autor se manifesta também através de personagens. Esta ligeira referência à teoria do romance de Bakhtin tem como justificativa apenas destacar que Histórias de Évora, de Elmar Carvalho atende àquilo que o teórico russo estabelece como uma obra romanesca, ou seja, para reconhecer que o poeta escreveu um romance.

Lendo a lúcida apresentação do livro, escrita pelo crítico e professor Cunha e Silva Filho, que faz uma análise muito pertinente do romance de Elmar, identificando, neste, características tipológicas do romance de formação, percebe-se que, de fato, o autor aproveitou-se da tradição alemã do Bildungsroman, transportando o modelo idealizado por Goethe para o seu Wilhelm Meister. González (1997, p.177) assim compreende a origem e propagação desse gênero:

[...] o romance alemão iria assumir o ideário da Ilustração na obra de Goethe, Wilhelm Meister. De imediato, a crítica iria fundir o conceito de Building à forma narrativa que exemplificava sua realização, para criar a noção de um novo gênero, o Bildungsroman ou romance de formação.

Essa modalidade de romance, com larga difusão na Europa, tem, no Brasil, também os seus seguidores, uns mais outros menos fiéis. O maior expoente é, sem dúvida, Raul Pompeia com o seu famoso O Ateneu. Contudo, José Lins do Rego, com Menino de engenho e Moleque Ricardo, Graciliano Ramos com Infância e até mesmo Angústia, que narra a trajetória do atormentado Luís da Silva incluem-se entre os romances brasileiros inspirados no Bildungsroman europeu. De autoria feminina, Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, poderia ser classificado como romance de formação, assim como muitos outros que acompanham o ideário de Wilhelm Meister, com maior ou menor fidelidade ao original.

Já no caso da Literatura Piauiense, pelo menos dois romances de formação podem ser registrados: Ulisses entre o amor e a morte, de O.G Rego de Carvalho, e Caminho de perdição, de Castro Aguiar.

            Este tipo de romance tem como principal característica apresentar um protagonista em uma jornada de crescimento espiritual, político, social, psicológico, físico ou moral. É o que ocorre com o personagem Marcos Azevedo, de Histórias de Évora, como muito bem observou Cunha e Silva Filho na sua Apresentação, pois o enredo acompanha o período que vai da adolescência do protagonista até a entrada na maturidade. Paralelo ao aprendizado do amor, vai se dando o aprendizado da literatura, pelo jovem Marcos Azevedo. À medida que vai depurando sua forma de amar, o protagonista vai depurando também a sua forma literária, perseguindo o ideal de perfeição que sempre move o personagem do romance de formação.

Concordando com Bakthin ao afirmar que o romance é gênero que permite maior liberdade criativa, misturando vários gêneros na sua estrutura, constata-se em Histórias de Évora a representação de vários outros gêneros, como bilhetes, letras de canções, poemas, anedotas, folclore, entre outros. Esse recurso que alguns chamam de intertextualidade, Bakhtin (1990) denomina como hibridismo, ou seja, mistura de gêneros, fenômeno estilístico próprio do gênero romanesco.

Na ânsia de abarcar o maior território narrativo possível, Histórias de Évora não se contenta com apenas um narrador. A narração é feita por um narrador em terceira pessoa que acompanha a evolução do jovem protagonista até a idade adulta. Porém, ao chegar ao décimo primeiro capítulo, este narrador em terceira pessoa dá a palavra ao protagonista Marcos Azevedo, que passa também a exercer a função de narrador, utilizando a primeira pessoa, de modo que os dois narradores vão conduzindo o processo narrativo até o final do romance. Enquanto o narrador em terceira pessoa dá conta da trajetória de crescimento do protagonista, o narrador em primeira pessoa assume um tom memorialístico, anunciado, logo de início, pela citação de Marcel Proust. Assim, não deixa dúvida de que esse narrador recorre à memória para contar, em paralelo com a sua própria história de vida, a história da cidade onde vive, ou seja “as histórias de Évora”. Temos, portanto, justapostas, duas narrativas, que compõem a estrutura do romance de Elmar Carvalho.

O espaço do romance é a fictícia cidade de Évora, referência à histórica cidade lusitana, conhecida como a capital do Além Tejo, reconhecível, entretanto, para os leitores piauienses como a Princesa do Igaraçu, a também histórica cidade da Parnaíba do estado do Piauí. A cidade está toda lá, com seus casarões, o Porto das Barcas, o meretrício à beira do rio, as grandes casas comerciais de importação e exportação e muitos outros pormenores que identificam a Parnaíba dos anos 70 e 80 do século passado.

O discurso da história socioeconômica do Piauí se entrecruza com o discurso romanesco, seja na fala do narrador em terceira pessoa, seja na fala do outro narrador, em primeira pessoa. Desse modo, Histórias de Évora, se mostra como texto pluriestilístico, pluridiscursivo e plurilíngue, características, que, segundo Bakhtin, definem o gênero romance.


Concluindo esta breve notícia da publicação Histórias de Évora, só resta assinalar que o romance de Elmar Carvalho enriquece a literatura piauiense, ousando retomar a temática da formação de um jovem, apropriada da tradição europeia e ainda pouco desenvolvida por autores piauienses. Mas não só por isso, também pelo estilo, que rompe com a linearidade e inova o processo narrativo, recriando formas de contar histórias que prendem o leitor e deixam a impressão de ter vivido também a experiência existencial do jovem herói que narra e é também narrado nas Histórias de Évora.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES, HORÁCIO E LONGINO. A Poética. Clássica. São Paulo:  Cultrix, 1998

BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Hucitec, 1990

CARVALHO, Elmar. Histórias de Évora. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017. Coleção Século XXI.

GONZÀLEZ, Mario M. Romance de formação e romance picaresco: uma questão de identidade. In: REIS, Lívida de Freiras (coord.) Estudos &Pesquisas: fronteiras do literário. Niterói-RJ: Universidade Federal Fluminense, 1997

STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975   

domingo, 29 de outubro de 2017

SONATA EM DOR MAIOR


SONATA EM DOR MAIOR

Elmar Carvalho

A mesa está posta,
mas os pratos estão vazios.
O meu povo não tem
talheres, nem colheres,
por isso come com
as mãos o que não
existe nos pratos.
O meu povo vota em
eleições para presidente
da república (de estudantes),
            mas sonha votar
            na eleição para
            Presidente da República
            Federativa do Brasil.
O meu povo deseja bater
palmas para as estátuas dos
            heróis libertários.
            Mas como se as mãos
            e os pés estão atados?
Em 1888 acabaram com a
escravidão no Brasil. Mas que escravidão?
            Se antes os escravos eram pretos,
            hoje são de todas as cores,
e cantam com raiva a “Esparrela do Brasil”.


           Parnaíba,13.10.78

sábado, 28 de outubro de 2017

Dom Francisco de Castelo Branco


Dom Francisco de Castelo Branco

Reginaldo Miranda *

Foi um militar português com larga folha de serviços prestados nas cidades de Lisboa, Paraíba, hoje João Pessoa e São Luís do Maranhão. Ao contrário do que anotou Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, seu descendente direto e primeiro biógrafo, não morou no Piauí nem assentou fazendas na freguesia de Santo Antônio do Surubim de Campo Maior; também, não assinava com o nome de Francisco da Cunha Castelo Branco, mas simplesmente Francisco de Castelo Branco, melhor dizendo, sempre antecedido do título de Dom, assim, Dom Francisco de Castelo Branco. Era este o seu nome e assim fora tratado por toda a vida, em alusão às origens nobres, pois era Moço Fidalgo da Casa Real.

Durante a sua vida e em todos os requerimentos que fizera, ao menos os que compulsamos, todos citados no presente ensaio biográfico, nunca fizera menção à Casa dos Condes de Pombeiro. Ao que se depreende, se a ela pertencia, como acreditamos, devia nutrir algum ressentimento de seus ilustrados parentes reinóis. No entanto, a partir de seus netos são fartas as referências àquela casa senhorial portuguesa, sempre fundamentando seus pleitos com a informação de que o avô era de fato, irmão do Conde de Pombeiro, que àquela época era D. Pedro de Castelo Branco e Cunha.

Assim, com base nessas informações, pode-se dizer que Dom Francisco de Castelo Branco, nasceu no Palácio Pombeiro, freguesia dos Anjos, em Lisboa, cerca de 1660, filho de Dom Antônio de Castelo Branco e Cunha, Conde de Pombeiro, natural do mesmo lugar, e de sua esposa Maria da Silva, natural da freguesia da Sé, em Lisboa.

Viveu a primeira fase de sua vida em Lisboa, onde fez seus estudos regulares e desfrutou os despreocupados anos da infância e juventude, no velho solar paterno. No entanto, dado o sistema de morgado em que apenas o filho primogênito herdava e administrava o indiviso patrimônio familiar, o que recaía na pessoa de seu irmão mais velho, Dom Pedro de Castelo Branco e Cunha, cedo teve de buscar seu rumo longe da família.

Em 1681, na cidade de Lisboa, segundo Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, convola núpcias com a distinta senhora Maria Eugênia de Mesquita, também oriunda de família nobre, porém, sem herdar grande patrimônio.

E para sustentar sua família, segundo a citada fonte, inicia vida pública no cargo de Tesoureiro do Tesouro Real (CASTELO BRANCO, Miguel de Sousa Borges Leal. Apontamentos biográficos de alguns piauienses ilustres e de outras pessoas notáveis que ocuparam cargos importantes na província do Piauí. 2ª Edição. Coleção Centenário III. Teresina: APL, 2012)

No entanto, nos primeiros dias do ano de 1687, Dom Francisco de Castelo Branco deixa esse emprego e segue carreira militar, sentando praça de soldado de cavalo da Companhia do Comissário Geral Dom Manoel de Azevedo, da guarnição da Corte na cidade de Lisboa, onde serviu por mais de oito anos(AHU. ACL. CU 009. Cx 015. Doc. 1529).

Depois dessa fase, vai nomeado para o posto de soldado raso no presídio da cidade da Paraíba, hoje João Pessoa, que então pertencia à praça de Pernambuco, sentando praça em 15 de março de 1695, dia em que saiu de Lisboa embarcando com destino ao seu novo quartel, depois passando ao posto de sargento, ao todo por espaço de quatro anos, nove meses e onze dias servindo nesta praça, havendo-se em tudo com mui honrado procedimento, o que largamente consta de suas certidões(AHU. ACL. CU 009. Cx 011. Doc. 1169).

Por esse tempo, em face de desinteligência de Portugal com a França, que ameaçava reconquistar o Maranhão, por carta de 28 de novembro de 1699 do Conselho Ultramarino, foi autorizado a Dom Fernando Martins Mascarenhas de Lencastro, governador e capitão geral de Pernambuco e mais capitanias anexas, a criar e remeter para o Maranhão duas companhias com a lotação de cem homens cada uma, totalizando duzentos. Também, a criar os postos dos dois capitães, dois alferes e quatro sargentos, escolhendo os sujeitos mais capazes e de maior disposição para os encarregar dos ditos postos. Então, dada a sua experiência e bom procedimento, recaiu o comando de uma dessas companhias, aquela que reunira a gente mais lustrosa, na pessoa de Dom Francisco de Castelo Branco, que então fora nomeado capitão de infantaria, por ato daquele governador de 20 de março de 1700, percebendo o mesmo soldo e farda que venciam os seus pares dos terços de Pernambuco, enquanto se não embarcou para o Maranhão, quando passou a perceber os que foram fixados por Sua Majestade, assim como os mais capitães daquela praça(AHU. ACL. CU 009. Cx 015. Doc. 1529).

Nessas circunstâncias, embarcou com a esposa e suas três filhas menores no navio Santo ... e São Caetano, que seguia com a tropa de que era comandante, com destino a São Luís do Maranhão. No entanto, “chegando à Barra deste porto foi Deus servido que se perdesse o navio em que vinham, por cuja causa morreram afogadas quarenta e tantas pessoas, entre as quais morreu também sua mulher, e ficou com três filhas fêmeas sem remédio algum, porquanto se perdeu todo o seu cabedal que trazia em o dito naufrágio”, disse Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, governador e capitão general do Estado do Maranhão, em 27 de abril de 1701(AHU. ACL. CU 009. Cx 015. Doc. 1529).

Nesse mesmo sentido foi a certidão emitida em 10 de setembro de 1701, por Fernão Carrilho, tenente-general da praça da cidade de São Luiz do Maranhão, com quem serviu Castelo Branco:

“Certifica que por ordem do dito Senhor, vinham duas companhias de cem homens cada uma, de socorro para esta praça, da Capitania e Estado de Pernambuco, em uma das quais veio por capitão Dom Francisco de Castelo Branco, com toda a sua casa e família; e porque foi Deus servido que o navio que os conduziu se perdeu em a Barra deste porto, donde morreram trinta e tantas pessoas, e nesse conflito morreu também a mulher do sobredito capitão, e me consta que perdeu juntamente toda quanta fazenda e cabedal trazia, e ficou só com três filhas fêmeas, sem cousa alguma de seu e obrigado da lastimosa miséria e pobreza em que se viu o obrigou a se casar nesta terra, e tendo nela suas roças, que são as quintas dessas partes, até o dia presente não saiu fora desta praça” (AHU. ACL. CU 009. Cx 015. Doc. 1529).

Ele mesmo rememoraria mais tarde, em 1716, que “embarcara no ano de 1700 no navio Santo ... e São Caetano com mulher e filhas e toda a sua fazenda para o dito Estado, e chegando ao boqueirão da barra da cidade de São Luís do Maranhão se fez em pedaços o dito navio em um recife de pedras em que salvou a vida e a de três filhas, perdendo mulher e toda a fazenda que trazia, ficando .... sem ter com que se sustentar, por serem os soldos limitados ....” (AHU. ACL. CU 009. Cx 011. Doc. 1169).

Então, provado está que ao chegar ao Maranhão, perdeu a esposa, ficando viúvo e com três filhas menores, e não duas como mais recentemente vêm divulgando alguns pesquisadores de nossa história. Entretanto, não demorou a viuvez porque em 10 de setembro do ano seguinte ao naufrágio, já havia contraído novo matrimônio com ilustrada jovem maranhense, conforme certidão supra.

Nessas circunstancias, com o coração cheio de dor toma posse na cidade de São Luiz do Maranhão, em 11 de outubro de 1700, poucos dias depois do naufrágio, percebendo o soldo estipulado aos oficiais desta praça, servindo por 1 ano, 11 meses e 3 dias. No entanto, passou a sargento-mor do Estado em 15 de maio de 1702, por patente do tenente-general Fernão Carrilho, que estava vago por falecimento de Lucas da Silva Serrão. Porém, não demorou no exercício desse posto, pois teve baixa nos soldos por ato do governador e capitão-general do Estado, Dom Manoel Rolim de Moura, até segunda ordem de Sua Majestade, retornando, assim, ao posto anterior(AHU. ACL. CU 009. Cx 015. Doc. 1529).

Dessa forma, permanece por largos anos no exercício do posto de capitão de infantaria paga da guarnição do Maranhão. Por essa razão, em 23 de julho de 1726, declara que está exercitando com satisfação esse posto há quase trinta anos, pouco mais ou menos, pedindo ser provido no posto de capitão-mor do Ceará ou da cidade de Belém do Grão Pará ou da cidade de São Luiz do Maranhão; e, outrossim, lhe faça mercê do soldo que se concedeu ao tenente-general Fernão Carrilho, e no caso de não ter efeito o que pede lhe conceda ao menos o posto de sargento-mor desta praça de São Luiz do Maranhão com o mesmo soldo que tinha o defunto Custódio Pereira, sargento-mor que foi deste presídio e seus anexos. Porém, esses pleitos não foram deferidos, permanecendo no referido posto de capitão de infantaria do Maranhão(AHU. ACL. CU 009. Cx 015. Doc. 1529).

No exercício desse posto militar, em 27 de julho do mencionado ano de 1726, envia ofício ao secretário do Conselho Ultramarino, André Lopes de Lavre, dizendo que sua saúde “é de presente muito pouca, porquanto fico de cama, sangrado e purgado, com pouca esperança de melhora pelos exemplos que vejo nesta pobre cidade de São Luís do Maranhão, em a qual tem morrido muita gente de catarro, porquanto é com o ânimo de peste, de que Deus nos livre e a todos os fiéis cristãos. Ora meu Senhor, V. Sa., pelas chagas de Jesus Cristo, me valha com o seu amparo e paroanio tendo de mim piedade, misericórdia e compaixão, e a melhor ocasião que me parece para esta concessão é a das endoenças e de dia de Reis. V. Sa., me perdoe pelo amor de Deus, essa demasiada confiança que são ditícios da doença, e Deus guarde a V. Sa., muitos anos e a todos esses meus senhores para lhe fazerem grandes serviços, e a este seu criado muitas mais honras  e esmolas. Cidade de São Luís do Maranhão, 27 de julho de 1726” (AHU.ACL. CU 009. Cx. 15. Doc. 1531).

Em 16 de maio de 1730, o governador e capitão-general do Maranhão, Alexandre da Costa Freire, informa ao Conselho Ultramarino que Dom Francisco de Castelo Branco e Francisco da Silva, capitães de infantaria paga da capitania de São Luís, se acham incapazes de continuar no serviço de Sua Majestade, “o primeiro por ser velho e entrevado, o segundo por ser decrépito em razão da muita idade que tem”, tendo o Conselho decidido em 28 de junho do ano seguinte “conceder-lhes o seu intertenimento, pois  não será razão que tendo-se empregado no serviço de Vossa Majestade, deixem agora de ter com que se possam alimentar os últimos anos da sua vida”. Fora este ato uma espécie de aposentadoria, sendo, assim, afastado do serviço militar ativo em 28 de junho de 1731, depois de mais de 44 anos de serviço militar (AHU.ACL. CU 009. Cx. 18. Doc. 1916).

Dom Francisco de Castelo Branco, foi também um homem extremamente católico, muito temente a Deus Nosso Senhor, sendo irmão da Santa Casa de Misericórdia; da Congregação de Nossa Senhora da Boa Morte do Colégio dos Reverendos Padres da Companhia de Jesus; e Irmão Terceiro, ainda que indigno e professo da Ordem Terceira do Seráfico São Francisco das Chagas e de Nossa Senhora da Conceição dos Reverendos padres capuchos do convento de Santo Antônio(AHU-ACL-CU 009- Cx. 15 – D. 1529).

Outro aspecto que abordamos no início desse ensaio e que desejamos enfatizar porque é muito divulgado, é que Dom Francisco de Castelo Branco não morou no Piauí nem situou fazendas no termo da freguesia de São Antônio do Surubim ou dos Alongases, hoje cidade de Campo Maior. Essa assertiva é muito segura porque em 1726, já era um homem “velho e carregado de achaques” que sempre servira em São Luís do Maranhão, entrando e saindo no seu quartel todos os dias. Também, não possuía fazendas vivendo em estado de comiseração e extrema pobreza, ajudado pelo governador e pelas ordens pias de que participava, embora digno e muito honrado, conforme se vê:

“Certifico em como Dom Francisco de Castelo Branco, Moço Fidalgo da Casa de Sua Majestade, que Deus guarde, está há muitos anos servindo o posto de Capitão de Infantaria” – Antonio de Sousa Sá, Ajudante Reformado, em 30.7.1726.

“... ele suplicante e toda a sua família viviam de esmolas que lhe faziam os reverendos padres da companhia desta cidade e com que lhe fazem algumas vezes todos os mais conventos que há nesta referida cidade, e principalmente lhe assiste o senhor governador João da Maya da Gama, com o necessário com muita grandeza, porquanto o seu soldo lhe não chega para se vestirem e calçarem, pelo excessivo preço que cá costumam vender, e outrossim em como o suplicante é um homem já velho e achacado, porém muito digno, e capaz nos parece ser de toda a mercê e honra que Sua Majestade que Deus guarde for servido fazer-lhe”. Essa certidão foi emitida pelo Frei José da Anunciação, confessor e guardião do Convento de Santo Antônio da cidade de São Luís do Maranhão, em 10.6.1726. Também, o vigário-geral Ignácio Ferreira de Lemos, certificou no mesmo sentido.

“Sendo homem pacífico e muito cortês perante todos geralmente e me consta padecer hoje com sua família muita pobreza por falta de bens”, certifica Manoel Lopes de Souza, cidadão da cidade de São Luís, e nela Curador da Coroa e Fazenda Real, em 24.6.1726.

“... e ainda hoje está exercitando o mesmo posto, porém com muita miséria e pobreza, e velho e carregado de achaques e de família, que padece muitas necessidades, e se acha em estado e comiseração, piedade e misericórdia” – Certifica o governador João da Maya da Gama, em 30.6.1726.

Inobstante todas essas dificuldades  financeiras, foi um cidadão benemérito, pois em princípio do ano de 1701, ainda com as sensíveis consequências do naufrágio, quando o tenente-general Fernão Carrilho precisou combater indígenas de corso, “não tendo índios bastantes para as ditas tropas, o sobredito capitão me ofereceu os seus escravos para irem em ambas, e com efeito foram e em outras ocasiões não se achando canoas para se fazerem alguma diligência do serviço de Sua Majestade, também ofereceu e deu a sua canoa de muito boa vontade, e finalmente todo o seu maior desvelo é buscar ocasiões em que sirva ao dito Senhor com muito zelo e cuidado do Real serviço” (AHU-ACL-CU 009- Cx. 15 – D. 1529).

Porém, é interessante ressaltar que embora Dom Francisco de Castelo Branco vivesse em São Luís do Maranhão, com a segunda mulher e ao menos um filho nesse lastimável estado de pobreza, suas filhas do primeiro consórcio viviam no Piauí em estado de abastança, essas sim com diversas fazendas nos termos das freguesias de Nossa Senhora do Carmo da Piracuruca e Santo Antônio do Surubim. Pela análise da documentação percebe-se que havia desinteligência entre estas e a segunda família de seu pai, pois seria inconcebível que elas tão ricas como eram permitissem que seu pai vivesse, já velho e alquebrado, nesse estado lamentável, na dependência de terceiros. No entanto, esse fato mais se avulta porque, seguramente, seus esposos, que não eram nobres, certamente se valeram da nobreza do sogro e influência da família para ascenderem nas patentes militares e na concessão de sesmarias no Piauí, cuja descendência constitui-se na principal família do Piauí Colonial. Em todos os pleitos que fizeram, e disto temos ciência pela análise documental, sempre se valeram do nome do velho para abrir postas no reino. Foram, no mínimo, ingratas com o honrado genitor, que também nunca lhes pediu nada nem fez menção à Casa de Pombeiro, o que mais tarde seria demasiadamente feito pelos descendentes.

Conforme se disse no início dessas notas, fora Dom Francisco de Castelo Branco casado em primeiras núpcias, em Lisboa, com Maria Eugênia de Mesquita, também esta lisboeta e de origem nobre, filha de Manuel Pinheiro de Mariz e Eugênia Maria de Mesquita. Desse consórcio teve três filhas, a saber: 1. Ana Castelo Branco de Mesquita, casada com o português João Gomes do Rego Barra(primeiras núpcias deste); 2. Maria do Monte Serrate Castelo Branco, casada com o português João Gomes do Rego Barra(segundas núpcias deste). 3. Clara da Cunha e Silva Castelo Branco, casada com o português Manuel Carvalho de Almeida.

Em 1701, na cidade de São Luís do Maranhão, casou-se em segunda núpcias com Mércia de Monterroyo Siqueira, de cujo consórcio nasceu mais um filho, a saber: 4. D. Manuel Castelo Branco, natural e residente em São Luís do Maranhão, também seguiria carreira militar iniciando em 20 de agosto de 1727, na companhia de seu pai, sentando praça de soldado e passando sucessivamente aos postos de cabo de esquadra, ajudante de granadeiros, alferes de infantaria e capitão de uma das companhias da cidade de São Luís do Maranhão(AHU-ACL-CU 009 - Cx. 32. D. 3299; Cx. 39. D. 3837; Cx. 45 – D. 4386).

Dom Francisco de Castelo Branco, faleceu em 1733, com cerca de 73 anos de idade, na cidade de São Luís do Maranhão, àquele tempo já considerado velho, entrevado e doente, também paupérrimo de bens materiais, embora possuísse alguns escravos, mas vivendo sempre com muita honra e dignidade, deixando uma família numerosa e importante que seria a mais distinguida do Piauí no período colonial, senhora de vastos domínios territoriais e dos melhores cargos no Real Servido de Sua Majestade. Entre seus descendentes, muitos foram magistrados, parlamentares, profissionais liberais, escritores, presidentes de províncias, governadores de estados e até um presidente da República. Embora residente em São Luís do Maranhão, entra para a história como um dos grandes patriarcas do Piauí, onde vieram morar as suas filhas do primeiro consórcio, razão de figurar nessa galeria de piauienses notáveis. 

* REGINALDO MIRANDA é advogado, escritor, membro da Academia Piauiense de letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI..

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Novamente Rio Parnaíba


Novamente Rio Parnaíba

Lauro Correia *

No artigo anterior, focalizei e elogiei a participação da APL – Academia Piauiense de Letras, a qual congrega escritores, poetas e intelectuais sob a coordenação do ilustre Presidente Nelson Neri Costa, em campanha contra a pretendida implantação, pelo então Ministro de Minas e Energia Edison Lobão, de CINCO HIDROELÉTRICAS e barragens no curso médio do Rio Parnaíba, anulando a navegação e prejudicando também parcialmente a encantadora cidade de AMARANTE.

            As malsinadas Hidroelétricas foram por mim batizadas como indesejadas, desnecessárias e assassinas. O nosso Rio Parnaíba seria brutalmente prejudicado. Escrevi, então, durante o ano de 2009, uma série de artigos reunidos em folheto, sob o título << RIO PARNAÍBA e USINAS HIDROELÉTRICAS >> em outubro de 2009, com 45 folhas.

            Uma dezena de acadêmicos, membros da APL, dedicaram artigos publicados em jornais de Teresina, combatendo as cinco hidroelétricas. O querido, ilustre e ex-Presidente da APL M. Paulo Nunes, amarantino nascido em Regeneração, foi um dos coordenadores da campanha.

            O brilhante acadêmico e digno magistrado Elmar Carvalho prestou mais um trabalho ao seu e nosso Piauí, com a publicação do belo folheto << AMARANTE >> contendo todos os artigos de seus colegas em defesa de Amarante.

            Piauienses, a luta em defesa do Rio Parnaíba não tem tréguas, e deverá ser permanente, defendendo entre outros itens, os seguintes:

            01 – Conclusão das ECLUSAS de Boa Esperança.

            02 – Revitalização do Rio Parnaíba, compreendendo seu leito e suas margens.

            03 – Revitalização dos afluentes, do Rio Parnaíba.

            04 – Criação da CODEBAP – Companhia de Desenvolvimento da BACIA do Rio Parnaíba, com sede em TERESINA.

            05 – Conclusão das obras do Porto de Luiz Correia, na foz oceânica do nosso grande Rio.

            Aguardem meus próximos estudos sobre o Rio Parnaíba, os quais serão resumidos em  artigos:

            – Seminário Nacional sobre Navegabilidade do Rio Parnaíba

            – Navegação da Hidrovia Rio Parnaíba

            – Ligação ou transposição de água do Rio Tocantins, através de afluente do Rio Balsas, ao Rio Parnaíba, aprovado o anteprojeto de Lauro Correia em dois Seminários realizados em Teresina e Parnaíba.

            – Ligação ou transposição de água do Rio São Francisco, através do Rio Gurguéia, ao Rio Parnaíba, segundo proposta do digno e Deputado Federal B. Sá, a qual foi excluída por “forças ocultas” do PLANO NACIONAL de TRANSPOSIÇÃO de ÁGUA do Rio São Francisco ao Nordeste Brasileiro.

            Tudo pelo nosso amado Piauí e em defesa do Rio Parnaíba.

Parnaíba, 15.maio.2016

172º da Cidade e 254º da Vila


* Lauro Correia foi prefeito de Parnaíba, presidente da FIEPI e da Academia Parnaibana de Letras. 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Na Toca do Velho Monge

Na Toca do Velho Monge, Carlos Eduardo, Zé Francisco, Natim e Elmar
Rio Parnaíba visto da Toca do Velho Monge


Na Toca do Velho Monge

Elmar Carvalho

Mais uma vez estive na Várzea do Simão, mais uma vez estive na Toca do Velho Monge, em companhia dos amigos Zé Francisco Marques, Carlos Eduardo Coutinho e Natim Freitas, para mais uma vez contemplarmos a lamentável degradação do Rio Parnaíba, nas proximidades dos Tabuleiros Litorâneos.

E mais uma vez não pude passear em meu pequeno barco Tremembé, de pequeno calado, tal a largura e pouca profundidade do rio, mesmo o período chuvoso tendo sido bom, como todo mundo sabe. Mas, pelo que notamos nesse trecho, a sua situação está pior do que a do ano passado.

Não custa relembrar: o Parnaíba é o mais importante patrimônio natural do Piauí e é o responsável pelo abastecimento d’água das mais populosas cidades do nosso estado, entre as quais Uruçuí, Floriano, Teresina e Parnaíba e várias outras menores em seu longo percurso.


Entra governo e sai governo, e nenhum faz nada para minorar a degradação do velho Rio Grande dos Tapuios. Talvez só adotem alguma providência quando o seu estado for quase irreversível e a sua recuperação for muito cara. E quando outros de seus afluentes forem rios mortos, rios extintos.

Após a contemplação da paisagem, tão bela quanto melancolicamente assoreada, voltamos à casa do Sítio Filomena, e fomos nos refugiar no Cantinho do Poeta, para a prática de sábia libação e degustação, em que ouvimos as melodias da trilha sonora de Histórias de Évora, que preparei, com as músicas e cantores citados nesse romance e mais as da trilha da despedida de solteiro, que Marcos Azevedo, protagonista do livro, supostamente havia preparado.


Por fim, ouvimos as lindas melodias interpretadas por Zé Francisco Marques, que se vem excedendo como cantor e violonista, com seu vasto e seleto repertório, que transita do brega clássico ao que há de mais sofisticado da Música Popular Brasileira, com ênfase agora nas músicas poemágicas imortalizadas pelo poeta, compositor e cantor Belchior.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Dívida

Fonte: Google

D Í V I D A
     
Alcenor Candeira Filho

     Ao longo da vida devo ter contraído muitas dívidas de caráter imaterial, mas nunca de natureza pecuniária. Exemplo: débito para com Parnaíba, que me tem dado tudo : “berço-cama-mesa”.
     Na luta contra dívidas, sempre que é preciso apertar o cinto, aperto-o,  o que não é mágica mas controle financeiro e crença na matemática e na contabilidade. É não gastar mais do que ganha. Simples como dois mais dois são quatro.
     Há momentos na vida em que é plenamente justificável o endividamento: nas questões de saúde, de educação, de alimentação etc.. Nesses casos os fins justificam os meios.
     Em situação de extrema pobreza não se pode falar em inadimplência do cidadão porque na hipótese o que existe é dívida social, dívida dos que têm muito  para com os que nada possuem.
     O jogo de azar também atrai dívidas. Que o diga Fiódor Dostoiévski, um dos mais importantes escritores russos de todos os tempos. Atolado em débitos e viciado em jogo, o genial romancista recorreu várias vezes a editoras a que vendia direitos autorais antes de começar a escrever o livro. Fernando Pessoa vivia pedindo dinheiro emprestado a familiares e a amigos. Dificilmente quitava o débito até porque não tinha como fazê-lo. Quando não morava com parentes tinha enorme dificuldade em pagar o aluguel.
     Grande parte dos  endividados são arrastados pelas vicissitudes da vida a essa situação. Alguns até se matam.
     Por outro lado,  existem os que desfrutam de razoável condição financeira mas cultivam compulsivamente o gosto pela dívida. Via de regra não se trata propriamente de caloteiros. A eles pode-se creditar, sem necessariamente nela acreditar, a frase pronunciada  com alegria e tranquilidade: - “devo, não nego, pagarei quando puder”.  Essas pessoas, que parecem sentir prazer com o hábito, costumam honrar o compromisso, embora com atraso. Para essa categoria na relação devedor/credor quem deve se preocupar é o segundo, que muitas vezes é também responsável pelo desregramento habitual como se todos fossem farinha do mesmo saco.
     Claro que não se deve condenar a compra à prestação, que é indispensável no mundo dos negócios. Parcela paga tempestivamente não representa dívida, que surge com a prestação vencida e não paga.
     O problema é que muitos consumidores se descontrolam financeiramente pelo acúmulo de compras a prazo, a ponto de várias vezes se verem compelidos a apelar a agiotas ou a bancos (aliás o maior de todos os agiotas) para quitar o que devem. Resultado: salto em poço sem fundo.
     Na condição de advogado do Banco Real S.A., da Caixa Forte e de procurador federal lidei durante muitos anos em Parnaíba com ações de cobrança ordinária, de execuções forçadas e de execuções fiscais contra pessoas físicas e jurídicas. Palavras  como exequente, executado, certidão de dívida ativa, duplicata, nota promissória, cheque, citação, juros de mora, multa, correção monetária, alienação fiduciária, parcelamento, penhora, arresto, busca e apreensão, adjudicação povoavam meu universo de trabalho.
     Cuidava desses conflitos com seriedade e serenidade, mas sobretudo com respeito ao devedor. Eu sabia que era cômodo para o advogado patrocinar ação respaldada em título de crédito vencido e não pago. Quer dizer: simples problema de  direito líquido e certo. O bom de tudo é que não me lembro de ter  feito qualquer inimizade por conta do encargo profissional.
     Acho que devo especialmente à experiência funcional a inspiração para o soneto “Dívida”, escrito em 1985 e cujo verso final não passa de uma adaptação jocosa  do seguinte princípio jurídico da presunção da inocência: - “in dubio pro reo”. Eis o soneto:

            DÍVIDA

     difícil o indício da dívida
     difícil o início da dívida
     difícil o exercício da dívida
     difícil o resquício da dívida

     difícil o benefício da dívida
     difícil o malefício da dívida
     difícil o sacrifício da dívida
     difícil o sub-reptício da dívida

     difícil o vício da dívida
     difícil o ofício da dívida
     difícil o artifício da dívida

     difícil muito difícil a dívida
     mais difícil que a dívida a vida
     - na dúvida pau no réu.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PARABÉNS PIAUÍ

Fonte: Google

PARABÉNS PIAUÍ

Carlos Henriques de Araújo
Membro da UBE-PI

Não somos melhores nem piores do que ninguém. Somos nós, simplesmente. À nossa maneira, com nossas limitações, nossas riquezas, nosso potencial e, principalmente com nossa força de vontade. Os piauienses resistem a todas as dificuldades que lhes são peculiares, e a outras, que lhes foram impostas no decorrer de várias décadas por razões as mais diversas: históricas, políticas, geográficas, sociais e econômicas.

Hoje, o Piauí assiste ao crescimento de seu povo, da sua economia e de suas potencialidades turísticas, agrícolas, econômicas e culturais. O Piauí não é mais o estado mais pobre do Brasil, embora exista ainda muita pobreza, por falta de políticas econômica e social mais eficientes, de governos e empresários compromissados com o social e de uma sociedade civil mais organizada.

O Piauí é um estado rico em potencialidades e em oportunidades. É o estado que tem a menor faixa litorânea, mas, assim como nos pequenos frascos é que estão os melhores perfumes, no seu litoral estão as praias mais bonitas do Brasil, de águas claras e mornas, de areias brancas e sem poluição, recheadas de belezas naturais, com ventos adequados para prática de esportes náuticos e geração de energia eólica. Nele desemboca o rio Parnaíba, o maior delta em mar aberto das Américas e o segundo maior do mundo com 85 ilhas de praias paradisíacas.

No Piauí, o sol do equador brilha mais forte e seu calor proporciona um clima tropical saudável, propenso ao cultivo de frutas tropicais para exportação, e à produção de mel de abelha, com floradas o ano inteiro. Seu solo é ótimo para o plantio de mamona matéria prima utilizada na produção do biodiesel. Foi o primeiro estado do Brasil a desenvolver esta tecnologia. Seu subsolo foi aquinhoado com os maiores lençóis freático do país, quiçá do mundo.

O Piauí tem o maior rio genuinamente nordestino, inúmeras barragens, lagoas propícias para projetos agrícolas de irrigação, piscicultura, carcinocultura e lazer. É recordista na produção de grãos. É o maior produtor de cera de carnaúba do mundo. É o segundo maior produtor nacional de mel de abelha, e tem um dos maiores e melhores rebanhos de caprinos do Brasil.

Na medicina, é uma referência para o Norte e Nordeste. Na cultura, é o berço do homem americano, tem a melhor escola do ensino médio do país e um pólo de ensino superior com uma excelente estrutura. Recebe estudantes de todo o Meio Norte, que sobressaem nos concursos públicos pelo Brasil afora.

O Piauí é uma terra de artistas: músicos, intelectuais, artesãos, humoristas, escritores, poetas, jornalistas e pintores de renome nacional e internacional, como Carlos Castelo Branco, mestre Dezinho, Evandro de Lins e Silva, Da Costa e Silva, H. Dobal, Mario Faustino, Torquato Neto, Nonato, Gerson Castelo Branco, João Cláudio Moreno, Clodô, Climério, Luís Paiva, Lina do Carmo e muitos outros.

Teresina, é uma cidade abraçada por dois rios: o Parnaíba, que nasce na Serra das Mangabeiras, na fronteira com o Estado de Tocantins, é o segundo maior rio do Nordeste, depois do São Francisco: e o Poti, saído da Serra da Joaninha, no Ceará, um pequeno filete d’água vai tomando corpo, atravessando chapadas e cânions, até se encontrar com o Parnaíba no bairro Poti Velho, no fenomenal Encontro das Águas.

Sua capital nasceu urbanisticamente moderna. Foi uma das primeiras cidades do Brasil em que o projeto chegou antes da ocupação do espaço urbano.  A Chapada do Corisco, com ficou conhecida, começou a ser traçada, a partir de 1852.

No extremo norte, repousa tranquila e mimada pelas águas do rio Igaraçú, a cidade de Parnaíba, um potencial turístico com 24 km de litoral e principal braço do delta, que aguarda de braços abertos os turistas.

A cidade já teve seus tempos áureos, foi a fortaleza da economia piauiense. Hoje, seus monumentos históricos são testemunhos desta época. Seu conjunto arquitetônico é um espaço cultural de inestimável valor, cuja restauração assegurou ao povo piauiense e aos seus visitantes a preservação de sua  memória e do Estado.

O Piauí não é só Teresina e Parnaíba, temos outras cidades bonitas e com pessoas maravilhosas, trabalhadoras e determinadas em pleno desenvolvimento, apesar da “crise econômica” que o país passa, consequência desses governos desastrados nos últimos dez anos.

Além de Piripiri, Campo Maior, Picos e Floriano, com indústrias, comércio e prestação de serviço, temos na parte sul, várias cidades em pleno desenvolvimento, atraindo grandes empresários do sul do país para a plantação de soja, instalação de usinas eólica e exploração de minérios.      

É um orgulho ser piauiense. Por isso que se diz: “É feliz quem mora aqui”    

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ALEGORIA DA FOME

Fonte: Google
ALEGORIA DA FOME

Elmar Carvalho

A pobreza um dia
bateu à minha porta
sob a forma de um menino
magro, sujo e maltrapilho.
E catou com suas mãos esquálidas
o sujo conteúdo
de meus sacos de lixo.
Foi quando eu saía
para o trabalho.
O menino, ou antes, um
bicho assustado correu.
Fui no seu encalço
em minha moto uivante.
O menino correu ainda mais,
varou cercas de arame farpado,
penetrou no terreno baldio por entre
arbustos espinhentos e urtigas,
com olhos e gestos de terror,
como se eu fosse espancá-lo.
E eu somente queria dizer
que ele podia catar o lixo.
Apenas não espalhasse
o resto do lixo
sobre a calçada.
Mas o meu pequeno irmão
feito bicho espavorido
tem medo dos outros bichos
que se dizem seu irmão.
E o meu irmão tem razão.    

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

NA PRAÇA SAENS PEÑA: COMPRANDO LIVROS


NA PRAÇA SAENS PEÑA: COMPRANDO LIVROS             
                                               
Cunha e Silva Filho

         Hoje, sábado,  foi dia de feira do livro  na Praça Saens Peña. Muita gente para lá e para cá  numa calçada cuidando do seus  interesses, ou fazendo  compras ou por mero  passatempo.  No meio da calçada que dá para a Praça, um mundaréu  de camelôs vindos de muitos bairros, sobretudo da periferia, dos subúrbios. Os dias comuns  já são cheios de gente. Dirigi-me,  com minha mulher e meu filho mais novo, a uma farmácia,  a mais procurada e que tem, naquele entorno,  umas quatro  filiais. Parece que todo mundo  está doente, sobretudo os mais idosos.
       Os remédios estão caríssimos. Desconfio de  que muita gente deixa de comprá-los porque  não têm condições financeiras mesmo. Estão escasseando os remédios  com preços mais   baratos.  Vão tomando  somente os remédios mais vitais,  como  os de pressão alta,  os de diabetes, os remédios contra dores da coluna  e outras  dores que acometem  os  que estão na faixa  do que se convencionou chamar de terceira idade. Não gosto dessa expressão. Prefiro  que  me chamem de idoso.
       Mas,  não é por essa razão  que as pessoas vão  também  às farmácias. Vão porque elas oferecem  produtos de beleza, xampus, desodorantes, remédios que podem ser vendidos sem receita,  enfim,  um  infinidade de itens  de que necessitam  mulheres, homens e crianças.
      Encaminhamo-nos, depois,  ao centro da Praça. Logo avistei as barracas de livros usados, os chamados sebos. Quase não havia  compradores. Um grupo maior de gente  estava   se divertindo  com a exposição de animais  para doações, gatinhos e cães. Todos, em geral, muito fofos, sobretudo os gatinhos,  a atração maior, particularmente,   das senhoras, senhores,  jovens e crianças. Em suas “jaulinhas’ gatinhos, com os olhinhos verdes ou azuis e pelos  de cores variadas, junto dos cãezinhos,  fazem a festa   dos visitantes anônimos.
     Estes, fazendo-lhes  carinhos, conversando afetuosamente com eles,  neles tocando,  mostram esse lado  profundamente humano que  os adultos e crianças   devotam  aos animaizinhos de estimação,  aos  pet, palavra inglesa  muito empregado para designar   esse bichinhos. Nada contra os americanismos incorporados ao vernáculo. A língua  é dinâmica  e deve ser  democrática, porém sem  interferências  sintáticas. Poucas pessoas   os levam para casa como adoção. Alguns são até devolvidos   de vez que não se adaptaram  aos donos ou por uma outra  razão pessoal
       Reparei que não havia  guardas municipais nem vi polícia militar   fazendo alguma  ronda  na Praça,  onde, com frequência,  senhoras, sobretudo idosas,  são vítimas de  menores   assaltantes, os conhecidos pivetes.  Todos eles com os  olhos vidrados nas bolsas e joias  das mulheres, celulares  dos jovens “Pega ladrão” já virou  um bordão.” Desculpe-me pela rima  involuntária. A Tijuca é meio cercada por  favelas, sem os eufemismos  politicamente corretos e detestáveis, já que podem  encobri subjetivismos  hipócritas. 
       Depois de olharmos  os bichinhos,  fui ver de perto alguns livros da pequena  feira. Livros bem baratos, outros nem tanto. Às vezes, leitor, me dá uma  repentina angústia  de ver tanto livro. Há livros demais no mundo e o sentimento de impotência de nunca poder  lê-los  todos me deixa para baixo.   Olhei para muitos  que desejei  comprar. Passei para outras   barracas. Cada uma, em geral,  representa um livraria  da cidade.
     Sempre encontramos  bons livros antigos ou menos antigos numa feirinha.  Olhei, olhei, olhei até que dois  me   prenderam a atenção dado que o gênero nos quais foram  escritos  sempre me interessou: ensaio literário e biografia. No caso,  o ensaio e a biografia são referentes ao mesmo  escritor: Machado de Assis (1839-1908). Sempre o Machado, louvado ou criticado,  escritor  inesgotável, no país e no exterior,  nos filões de seus temas e nas formas  de abordagens  de sua  obra. Os autores: Fábio Lucas, do ensaio  que nem mesmo  havia lido, O núcleo e a periferia de Machado de Assis (Barueri, SP.: Editora Manoele,  2009,  166 p.).
     Lucas é um ensaísta e crítico a quem muito  estimo pelo seu estilo  claro  e ao mesmo tempo   profundo com que  trata  questões de  literatura brasileira e temas de teoria literária. Li boa parte de seus livros. O outro livro é de um autor  mais antigo, Gondin da Fonseca, o qual tem por título  Machado de Assis e o hipopótamo. (6ª ed. Rio de Janeiro: Livraria São 1974,  326 p.).
      Gondin da Fonseca (1899-1977) foi  escritor,  jornalista,    biógrafo  e historiador. Nasceu e morreu no Rio de Janeiro. A obra dele que hoje comprei na feirinha de livro  foi bastante lida e elogiada por  gente  da importância de Astrojildo Pereira (1890-1965)), crítico de orientação marxista. De resto  esse crítico eu o li muito na velha revista O Cruzeiro. Lá ele assinava  uma coluna de cujo nome não me recordo agora. 
       Segundo leio na primeira orelha do livro, a citada obra de  Gondin foi  muito bem vendida, mas, estranhamente,  não  teve  a repercussão no país  por parte da crítica  especializada. Por outro lado, se aqui não foi  tão  incensada,  o foi no exterior,  como em Portugal e na Espanha,   países em que recebeu boa acolhida da crítica. O exemplar que comprei  não teve  leitores,  pois ainda  tem algumas  páginas  fechadas, o que significa que não foi lido por ninguém. Para minha alegria, serei o  primeiro leitor dessa obra do biógrafo.
       Diante desse silêncio da crítica, no que tange  à biografia de Gondin da Fonseca,  fui procurar, na extensa  relação de  bibliografia passiva  machadiana, na   utilíssima Pequena  bibliografia  crítica da literatura brasileira de Otto Maria Carpeaux (Rio de Janeiro: Ediouro, s.d., com um apêndice de Assis Brasil, incluindo 40 novos autores) 470 p.) a citação do livro de Gondin. Salvo engano,  não a encontrei. Por que – pergunto – essa omissão de uma obra que teve,  novamente salvo engano,  seis edições com vendas “normais” de  quarenta mil exemplares?!
      Na referida  orelha da biografia  de Machado de Assis  escrita por  Gondin, o autor informa  que   o biógrafo não era dado a “badalações.” Não se exibia nem  dava sinal de  sentir o  prazer  do sucesso como tanto se vê sobretudo  hoje em dia entre autores. Um temperamento assim  explica  de alguma forma  o afastamento  de um livro ou é porque   houve a intenção  de  lhe  abafar a obra sobre o Bruxo do Cosme Velho? Resta pesquisar.

       Como eu mesmo  ainda não li  a obra de Gondin,  essas indagações  têm apenas um caráter   preliminar sobre o assunto  que diz tão de  perto  ao destino   dos livros de alguns  autores e o silêncio sepulcral  que pesa sobre a sua  pessoa literária. O destino do livro,  em relação à crítica,   é tema  polêmico e  cheio de   nebulosidades  tanto da parte do  universo editorial, quanto da parte  dos críticos, da história literária  e da produção   literária  de um país.  

domingo, 15 de outubro de 2017

Histórias de Évora. Os novos voos do Poeta

Adicionar legenda

Histórias de Évora. Os novos voos do Poeta

Hércules Amorim *

Em novo rol de escritos, como sempre escancarados à crítica e imaginação de quem os lê, o escritor e poeta piauiense Elmar Carvalho nos leva agora a uma viagem de retorno a nossos primórdios, colocando em capítulos a forma, tonalidade e expressividade já demonstradas em outras obras de sua verve.

Trata-se de Histórias de Évora, a cidade imaginária onde personagens vivem intensamente os períodos mais belos e conflitantes -  ora felizes, ora tristes e mesmo hilários - das suas formações comportamentais e, principalmente, humanas. São histórias e estórias da pré até perto da pós-adolescência de jovens que não se contiveram em apenas ver a vida passar, mas colocaram nela molho apimentado, fatos e acontecimentos que, vivenciados, nos trarão à boca o licor da saudade.

Não dá para dispensar observação singular ao estilo. Constatar que Elmar alguma vez passou pelos bancos da escola Parnasiana, embora, modestamente, não se aprofunde ou guie-se pela construção fidelíssima de textos buscados e rebuscados. Por isso, a fazer aquilo que se torna pura expressão do antagonismo latente entre dois movimentos literários de peso: cai não só na linguagem bem apurada dos plenos sentidos, mas também no Romantismo, aliás bem apropriado à época em se desenrolam as histórias de sua fictícia – e tão concreta – Évora.

Elmar, à certa altura, nos deixa confusos sobre o personagem que ele próprio encarna. Mas no conjunto, fica evidente o que mais o retrata, especialmente para os que trafegam no seu cotidiano literário e no seu cotidiano de cidadão simples, mas, não raro, meticuloso. Os textos, com esmeradas narrações, deixam patente o simbolismo e sonoridade das palavras, como se cada uma represente uma imagem, uma foto. Não poderia ser diferente. Se em alguns parágrafos o leitor estranhar um possível exagero da forma, para melhor deduzir o conteúdo leia ou releia José de Alencar e veja se seria possível descrever a silhueta da Virgem dos Lábios de Mel sob a luz da lua cheia com apenas dois ou três adjetivos, e sem nenhum superlativo.

Os escritos, vezes eruditos, em Histórias de Évora, são colocados com o objetivismo ou a subjetividade necessários à narração dos eventos picantes, trágicos ou tragicômicos que vivenciaram seus protagonistas. São eles quase sempre sedimentados numa paixão efêmera ou naquele amor que de tão significativo tornou-se quase eterno, para eles e para nós, leitores. Podem se materializar à vontade no Marcos Mendes Azevedo, no Mário Cunha, no Fabrício e amigos, cada qual com sua personalidade e seu modo de se comportar nas histórias da cidade que, em determinado ponto, percebe-se, se compõe numa ampla faixa de terra sertaneja.

Como em toda obra de estrutura segmentada, alguns capítulos ou narrativas levam à preferência.  Como leitor, indico singular atenção ao “Dono do Céu” - com sua pernóstica lourinha, filha, pra variar, de um abastado comerciante -; o “Lendário Zé Lolô” - em sua indescritível feiura –; a “Balzaquiana”, de farta e bela memória –; e o impagável último “ Voo do Pardal”, se é que houve algum anterior.  Se houve ou não, fica para outra história, possivelmente em outra encarnação. Certo é que espocou manchete em “A Batalha”, periódico eborense, a despeito de que ainda hoje não se tenha notícia sobre a real situação e o quê de fato está por trás do mistério envolvendo o genial Eugênio, audaz criador de engenhocas que lhe carimbaram o apelido de “professor Pardal”, mais tarde somente Pardal.

Ademais, bebam, degustem e curtam o que de melhor nos revolve aos tempos da meninice e juventude por vezes sofridas, mas sadias, cheias de traquinagens, descobertas, namoros, flertes fortuitos, alegrias, saudades e gradual apuração da sexualidade. Tudo isso nos contando como eram diferentes os interesses dos jovens de há mais de três décadas, em particular a paixão pela leitura e o bom uso da palavra.

Que todos os leitores se instalem na sua própria Évora. E que Elmar Carvalho prossiga em suas viagens, sempre nos trazendo boas novidades.


* Hércules Amorim é jornalista