domingo, 28 de fevereiro de 2010

PROFESSOR FREITAS E O GIGANTE ADAMASTOR




28 de fevereiro   Diário Incontínuo

PROFESSOR FREITAS E O GIGANTE ADAMASTOR
Elmar Carvalho

Ontem à tarde estive no apartamento do professor José de Ribamar Freitas. Muitas vezes o tenho visitado, seja para conversarmos, seja para receber alguma orientação sua, mormente na área de literatura. Ele é um homem sério, para alguns circunspecto, mas para mim foi sempre uma pessoa de fácil convívio e de bom-humor. Admiro a sua avantajada e bela biblioteca.

Muitos de seus livros são, hoje, obras raras, e muitos já não são reeditados há muitos anos. A maioria é composta de clássicos da literatura universal. Ribamar Freitas é, ele próprio, um clássico, e eu o chamo de o último dos helenos. Tem considerável conhecimento de grego e de latim. Lê, no original, os poetas do classicismo greco-romano. É um erudito e grande orador. Está, no momento, às voltas com um livro de ficção, que está preparando para publicar, já tendo escrito vários de seus contos.

Fui seu aluno de Direito Penal, na Universidade Federal do Piauí, na primeira metade da década de 80. Recordo que no primeiro dia de aula cheguei um pouquinho atrasado. Ele estava dizendo que já ninguém lia os clássicos, que ninguém queria mais saber desses grandes mestres do classicismo. Para provar o que dizia, perguntou se alguém já ouvira falar em Adamastor, exatamente no momento em que eu me sentava numa das cadeiras.

Devo dizer que o silêncio foi sepulcral. Então, levantei o braço, e disse que Adamastor era o gigante de Os Lusíadas, de Camões, que ameaçou de males formidáveis os navegadores portugueses, ao dizer que lançaria maldições de toda sorte, e que o menor mal seria a morte. O mestre ficou perplexo, e levemente contrafeito, porque eu quebrara o mote e o fundamento de sua peroração.

Duas décadas depois, encontrei na apresentação ao livro Reflexões sobre a Vaidade dos Homens e Carta sobre a Fortuna, de Mathias Aires, uma passagem que me fez recordar o episódio, algo anedótico, que contei. Consta que Ariano Suassuna, ao ministrar aula em São Paulo, dissera que as universidades brasileiras ensinam de costas para o país. Para provar o que afirmava perguntou se alguns dos alunos já ouvira falar em Kant. Todos levantaram a mão, afirmativamente.

Em seguida, perguntou se eles já tinham ouvido falar em Mathias Aires. Ninguém levantou a mão, exceto um único aluno. Suassuna perguntou a esse aluno se ele já lera esse clássico de nossa literatura, ao que ele respondeu que não. Disse que só conhecia o nome do grande escritor e pensador porque, por coincidência, morava numa rua que tinha o seu nome.

Contudo, se fosse nos dias de hoje, à pergunta de mestre Ribamar Freitas, todas as mãos levantar-se-iam e todas as vozes responderiam sim, em uníssono. Sucede que hoje é sobejamente conhecido o palhaço televisivo Adamastor Pitaco.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



27 de fevereiro

De manhã fui olhar parte de minha biblioteca, que fica em outra dependência da casa. Logo dei de cara com o livro Sábado Árido, de meu saudoso amigo Jamerson Lemos, poeta visceral, de muita sensibilidade e criatividade. Jamerson era poeta todo dia, o dia todo. O opúsculo já está maltratado pelas intempéries do tempo, e levemente roído nas bordas das páginas pela irreverência e iconoclastia das traças, que não respeitam nem as boas nem as más obras. As traças não se importam com o teor do livro, mas apenas com o sabor do papel. É um pequeno grande livro. Claro, pequeno no tamanho, grande na qualidade literária. O livro foi publicado em 1985. Em dedicatória datada do ano seguinte, o bardo escreveu: “Ao meu irmão Elmar Carvalho o sol do meu dia-a-dia, com o meu abraço”. Entre outras pessoas de sua amizade e admiração, dedicou-o a sua esposa, Maria das Dores, e a seus filhos Jamerson Júnior, hoje médico, e Ceres Josiane, também com curso superior. Transcrevo o que dele disse A. Tito Filho: “Li, com entusiasmo, SÁBADO ÁRIDO, poemas em que Jamerson Lemos procura captar o essencial da vida. Os versos curtos são notavelmente rítmicos. O pensamento é íntimo e nostálgico, ideológico, mas sempre verdadeiro, pleno de angústias vitais”. Nada tenho a acrescentar à consideração crítica do mestre, exceto que concordo com ele em gênero, número e grau, para usar uma expressão surrada e gasta. A maior homenagem que se pode prestar a um poeta é ler ou recitar os seus versos. Jamerson é um poeta para ser lido e recitado, por causa da qualidade do conteúdo e da melodia de seus versos. Segue abaixo um de seus poemas, extraído do referido livro:

ARMADILHA

Jamerson Lemos

a música escorre pela noite
como estreito regato.
Igualmente minha mente
escorre pela noite.

isso ou aquilo, antes, depois,
uma rua tortuosa,
pequena cidade a ferver
distante.

quanto tempo fui tolo?
a música escorre pela noite,
pulsa como um coração.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O VINTE DE AGOSTO - DIA DO MAÇOM


O Vinte de Agosto – Dia do Maçom

Simão Pedro

Ainda é necessário ao mundo o estabelecimento de datas para nos lembrar fatos marcantes que tiveram importância em nossa vida social. Desde a antiguidade, o homem buscou registrar no seu calendário datas festivas para trazer ao presente lembranças relacionadas à sua vida e ao grupo social em que se achava inserido.
Diversas datas de caráter pessoal, cívico e religioso são por nós conhecidas, podemos destacar o dia da Pátria, o dia de São João Batista, nosso padroeiro, o dia do nosso nascimento e morte, o dia do nascimento do Mestre Jesus, o dia do Maçom. Necessitamos ainda destes recursos na atual fase evolutiva que nos encontramos.
O dia do Maçom é comemorado em 20 de agosto, todos os irmãos se confraternizam para lembrar a importância do nosso papel na construção que temos a realizar, dentro de nós e em prol da sociedade. Esta data está relacionada com o dia da Independência do Brasil, segundo Castellani, em “Os Maçons que fizeram a história do Brasil”, “No dia 20 de agosto, durante uma sessão do Grande Oriente presidida por Gonçalves Ledo, Dom Pedro era aclamado Imperador do Brasil, tendo ocorrido, nesta sessão, a verdadeira proclamação da independência feita pela Maçonaria Brasileira, doa a quem doer...” neste ponto, iniciamos uma reflexão acerca desta data. Será o Dia 20 de agosto verdadeiramente o Dia do Maçom? Do ponto de vista pessoal chegamos a conclusão que o dia dos Maçons não pode estar atrelado a uma data em nosso calendário, a um dia de um mês qualquer, o dia do Maçom não é para ser comemorado da forma como se comemoram as datas no mundo profano, é antes de tudo uma oportunidade de reflexão a ser feita durante todos os dias e meses do ano.
Quando fomos convidados a nos libertar das trevas da ignorância do mundo profano, realizamos na câmara escura uma profunda reflexão sobre a nossa morte para este mundo e o nosso renascimento para o mundo das luzes. Feito isto, renascemos e tivemos a oportunidade de conhecer a luz, iniciar nossa caminhada pela escada de Jacó. Mas, como chegar ao objetivo sem o esforço na caminhada? Na busca da verdade o trabalho sempre é o melhor recurso, sem ele não alcançamos a luz; a marcha é a do dia a dia, é a vivência diária, inicia-se ao meio dia, só terminando a meia noite.
Quando o aprendizado é bem compreendido, as virtudes afloram em nossos corações, é chegada a hora de fazer brilhar a nossa luz, espargindo-a no meio social em que vivemos. O nosso exemplo, nossa conduta, nos credencia ao reconhecimento do mundo profano, para o qual somos espelho. Muitos dirão: Este homem é virtuoso! Este homem é um servidor! Outros irão dizer, é um Maçom! Este reconhecimento não deve servir de alimento ao nosso orgulho, deve ser recebido com humildade, não devemos permitir que a vaidade tome conta de nós, a principal virtude de um Maçom é a humildade. Só o estudo e a transformação moral levarão o Maçom a compreender que “Somos filhos da luz!”, Co-participes da grande obra. Atentai bem meus irmãos, grande é a nossa responsabilidade. Continuando fiel ao nosso compromisso teremos ao final da nossa jornada, o acolhimento do Grande Arquiteto, ele nos abrigará entre os justos e lá, do oriente eterno, continuaremos a grande obra, onde mais trabalho nos espera.
Busco nestas reflexões não diminuir a grandeza desta data e a sua importância, longe disso, procuro destacar seu real significado. Ao final das minhas conclusões, dado a grandeza do momento, busco no poeta, o socorro necessário. As palavras me faltam meus Irmãos, a poesia nos eleva aos céus, nos aproxima do Criador e enche de paz nossos corações. Deixo a cargo do Poeta e Irmão Elmar Carvalho a finalização do trabalho, lendo seus versos recheados de sabedoria:

Mística

I

Arrebatado por um carro de fogo
eu próprio em fogo transformado
os céus galguei
as fúrias todas como um louco aplaquei
e a escada cintilante de Jacó
passo a passo subi
Devassei as vísceras mecânicas
da baleia do profeta
e a gênese do primeiro
átomo desvendei.
Penetrei o caos primacial
e o primeiro vagido
da vida escutei.
E Deus estava lá
por trás de tudo:
logo após em regressão
a explosão do átomo primordial

II

Meu anjo da guarda
em sete anjos transmudado
minha guarda de honra revistava
e com sua espada de fogo
ou raio laser
franqueava-me a entrada
da gruta dos leões
enquanto Daniel dormia
à minha sombra

Viva a Maçonaria! Viva a liberdade que temos hoje de buscar a igualdade. Que nossos corações se unam na fraternidade. Salve o Vinte de agosto! Salve os “Heróis da Pátria” Salve os heróis anônimos de hoje; Salve os irmãos da nossa Loja Heróis da Pátria. Que o Grande Arquiteto permita seguirmos juntos nessa escola abençoada rumo a perfeição.

DIÁRIO INCONTÍNUO

Solenidade de lançamento de livros e revista, vendo-se o prefeito Wall Ferraz, a presidente da FCMC, dona Eugênia Ferraz, Fábio Costa, Elmar Carvalho e o poeta Hardi Filho

Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo, de Teresinha Queiroz
26 de fevereiro

Esta madrugada, sonhei com a minha gestão à frente da presidência do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, quando fui o coordenador de Editoração dessa entidade. Aproveitei para dar uma olhada em algumas das obras de que fui editor. Fui indicado pelo poeta e escritor Francisco Miguel de Moura à dona Eugênia Ferraz, que era a presidente da FCMC, acredito que por causa de minha atuação como presidente da União Brasileira de Escritores do Piau´- UBE-PI. Para escrever esta nota, não fui atrás de datas na Fundação, de modo que não serei preciso quanto a isso. Assumi as funções editoriais no ano de 1994, quando o prefeito era o professor Wall Ferraz, e as deixei no final de 1997, quando tomei posse de minhas funções magistraturais perante o Tribunal de Justiça do Piauí. Com a morte de Wall Ferraz, assumiu o cargo de prefeito Francisco Gerardo, que foi sucedido por Firmino Filho. No primeiro mandato deste, presidiu a FCMC a professora Cecília Mendes, a cuja administração servi durante quase um ano. Tive a sorte de exercer minhas funções durante um período em que a editoração foi prioridade no órgão municipal de cultura. Para administrar com impessoalidade, logo que assumi a presidência do Conselho elaborei os regulamentos de editoração e do Conselho Editorial, que foram aprovados por este e pela presidente da Fundação, que assinou as portarias respectivas, e também passei a fazer a distribuição de obras para análise dos conselheiros através de rodízio, fazendo constar em ata tanto a distribuição como a aprovação ou rejeição. Foi, na época a que me refiro, sem a menor sombra de dúvida, o mais importante e arrojado plano editorial do Estado do Piauí, bastando que se diga que a cada quatro meses, regularmente, eram publicados a revista Cadernos de Teresina e mais quatro a seis livros. Por isso, posso afirmar que durante o meu período foram publicados aproximadamente 60 (sessenta) obras. Foram gestoras da FCMC, como já disse, as senhoras Eugênia Ferraz e Cecília Mendes, das quais tive total apoio, sem nenhuma interferência autoritária no Conselho, uma vez que ambas acatavam as decisões do colegiado. Devo acrescentar que a FCMC tinha uma equipe “enxuta”, mas dedicada, motivada, e que realmente vestia a camisa da cultura. Tive um bom relacionamento com todos, e de todos guardo boas lembranças. Fora as cerca de quinze revistas Cadernos de Teresina, editadas no período a que me refiro, foram publicados, aproximadamente, 45 livros, todos aprovados pelo Conselho, e muitos deles da mais alta significação para a cultura e a literatura do Piauí. De cabeça, sem consulta a anotações ou registros burocráticos, cito alguns, como uma pálida demonstração do que afirmo: Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Piauí, de Cláudio Bastos, Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo, de Teresinha Queiroz, Literatura Piauiense – escorço histórico, de João Pinheiro, com posfácio de atualização de Francisco Miguel de Moura, A Harpa do Caçador, de Teodoro Castelo Branco, Crônicas de Sempre, org. de Adrião Neto, A Poesia Piauiense no Século XX, em parceria com a Imago, org. de Assis Brasil, várias obras de Mons. Chaves, Escravos do Sertão, de Miridan Brito Knox Falci, O Ofício da Palavra, de Elizabeth Oliveira, Mulheres Plurais, de Pedro Vilarinho Castelo Branco, Balaios e Bem-te-vis – a guerrilha sertaneja, de Claudete Maria Miranda Dias, Anos 70: Por que essa Lâmina nas Palavras?, de José Pereira Bezerra etc. Na revista, foram publicadas memoráveis entrevistas, como as em que foram entrevistados Mons. Chaves, Alcenor Candeira Filho, Cineas Santos, Assis Brasil, Celso Barros Coelho, Raimundo Nonato Monteiro de Santana e Pe. Raimundo José Airemoraes, cujos entrevistadores éramos eu e o jornalista Domingos Bezerra Filho, além de textos de contistas, cronistas, poetas e historiadores. Além disso, foram editadas obras vencedoras de concursos literários, inclusive volume de textos de literatura de cordel. Com o impacto da morte de Wall Ferraz, que comoveu a população teresinense, idealizei o livro Wall Ferraz – o homem e o estadista (coletânea de crônicas e artigos), que também foi editado. Após esse infausto acontecimento, o Dicionário Histórico e Geográfico do Piauí, que havia sido acolhido com entusiasmo pelo falecido prefeito, recebeu o Prêmio Clio, concedido pela Academia Paulistana de História, que fui receber na Paulicéia, por designação de dona Eugênia Ferraz. Na minha gestão, foram conselheiros Francisco Hardi Filho, João Bosco da Silva, José Airton Ferreira de Sousa, Marcelino Leal Barroso de Carvalho, Silvana Maria Santana de Oliveira, Rubervam Maciel do Nascimento e Francisco Miguel de Moura. Sugeri muitas capas ao artista plástico Radamés, enquanto outras foram concepções de Áureo Tupinambá Júnior e Gabriel Arcanjo, além de outros artistas. Nas solenidades de lançamento da revista e dos livros, usávamos da palavra o prefeito, um representante dos autores e eu, representando a FCMC, em que comentava e analisava as obras. Aproveitando o apoio da administração superior da FCMC, envidei todos os meus esforços para que o plano editorial fosse bem sucedido, e, sem cabotinismo, devo admitir que assim foi.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O PENICO DE HUMBERTO DE CAMPOS (*)


Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos

GARBOSAMENTE construído em Petrópolis, a setenta quilômetros da cidade do Rio de Janeiro, o Museu Imperial, popularmente conhecido como “Palácio Imperial” – verdadeiro exemplo de grandeza, por algum tempo residência de verão de D. Pedro II e de D. Teresa Cristina – guarda 250 mil documentos originais e uma biblioteca com 50 mil volumes.
Os visitantes que ali comparecem, e são muitos, de todas as raças e de todos os lugares, pois se trata do museu de maior visitação do Brasil, podem constatar que, apesar da riqueza das peças ali exposta e da suntuosidade da construção no mais perfeito estilo neoclássico, falta, porque sempre faltou, uma dependência por demais útil e importante: um banheiro.
Os que ali existem, destinados a servir aquele império, somente são encontrados em áreas externas, voltados aos visitantes. Na parte interna do palácio impera a inexistência. E isto porque os membros da Família Imperial, como todos sabem e as evidências demonstram, não se utilizavam de tais dependências. Não usavam um vaso sanitário como os que hoje são encontrados em banheiros e lavabos. E se não usavam tais aparelhos de imperiosa necessidade, usavam, forçosamente, o penico.
O famoso penico, também conhecido como urinol, louça, bacio, capitão, cabungo, mijadeiro ou bispote, que tem também um nome estranho que nos é informado pela Wikipédia – o interessante Bourdaloue: “especificamente para o uso das damas, com formato retangular ou oval alongado, às vezes com a parte dianteira alta, possibilitando que a mulher urinasse de pé ou agachada sem grande risco de errar o alvo. O nome bastante esquisito teria vindo do famoso padre francês Louis Bourdaloue (1632-1704), o qual fazia sermões tão longos que as damas da aristocracia que o ouviam colocavam tais vasos discretamente sob suas roupas para que pudessem urinar sem ter que sair do lugar.”
Com relação ao nosso amado memorialista Humberto de Campos, pai do memorável cajueiro do nosso município e também de grande parte da história de Parnaíba, o famoso penico aparece de maneira mais jocosa e, porque não dizer, de forma mais construtiva e exemplificativa.
O encontramos “em “Memórias”, sua principal obra, mais precisamente no capítulo 50, sob o título “Homero e O “Testamento do Macaco””.
Descreve ali o renomado escritor, com a inconfundível força de sua pena, a destinação dos trocados que furtara da gaveta de E. Veras & Filhos, mercearia onde trabalhou, quando menino curioso, na nossa cidade de Parnaíba. Levava o dinheiro para um seu amigo de nome Cazuza Porto e este “recebia a cédula, ou os níqueis, e juntava-os ao maço já recebido, e que ele depositava na prateleira dos artigos de louça, dentro, se bem me lembro, de um urinol grande, branco, e novo.” E conclui o período dizendo: “As minhas economias desonestas possuíam, como se vê, o cofre que mereciam.”
E para que se faça justiça, necessário se faz lembrar o que em Memórias já está dito: que este numerário teve uma parte furtada de dentro do seu cofre singular, o urinol ou penico; E a outra, como já era de se esperar, serviu para que o importante homem de letras comprasse da firma Dourado, Zenóbio & Cia., pequena empresa de importação das livrarias do Rio de Janeiro e de São Luís, então estabelecida em Parnaíba, algumas obras que muito lhe serviram, ajudando-o, sem dúvida, a tornar-se um dos maiores escritores do Brasil, tendo descrito, como nunca outro sequer conseguiu aproximar-se de descrevê-los tão perfeitamente, importantes fatos sobre a saudosa existência de ruas, lugares, costumes e pessoas de nossa amada cidade.
E dizer, por fim, principalmente àqueles que, por este miúdo deslize, pretendem considera-lo portador de um mau caráter, mais duas coisas: A primeira, que não havia, por parte do futuro escritor – menino de gênio inquieto e destinado a crescer no mundo das letras, órfão de pai e filho de mãe pobre e desamparada - outra maneira de adquirir bons livros, objetos raros e caros na época, senão aquele que utilizou para poder assim atender uma imperiosa necessidade de sua personalidade talhada para as alturas; a segunda, já aqui tentando advogar munido de uma procuração outorgada pelo sentimento de profunda admiração, comentar que a conduta pode ter sido ilícita, culpável, porém atípica, pois que amparada pelo princípio da insignificância penal.


*Esta crônica que procura absolver o imortal Humberto de Campos no que diz respeito ao pequeno furto que praticara, quando adolescente, e que espontaneamente confessara, é dedicada ao artista plástico Fernando Antônio Melo de Castro (Charge anexa), pessoa que muito gracejou, quando de nossa viagem ao Rio de Janeiro para aquisição do acervo do escritor, porque acreditava não haver um famoso penico na história do autor das “Memórias” mais famosas do Brasil.
(Pádua Santos)

SELETA PIAUIENSE


NAM SIBYLLAM

Mário Faustino

Lá onde um velho corpo desfraldava
As trêmulas imagens de seus anos;
Onde imaturo corpo condenava
Ao canibal solar seus tenros anos;
Lá onde em cada corpo vi gravadas
Lápides eloqüentes de um passado
Ou de um futuro argüido pelos anos;
Lá cândidos leões alvijubados
Às brisas temporais se espedaçavam
Contra as salsas areias sibilantes;
Lá vi o pó do espaço em enrolando
Em turbilhões de peixes e presságios —
Pois na orla do mundo as delatantes
Sombras marinhas, vagas, me apontavam.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS


UM INCIDENTE QUASE ACIDENTE

Ao chegar ao prédio em construção, logo percebi que o elevador de serviço não tinha proteção no local em que ele parava, no térreo. Seu percurso era pela parte externa da parede, uma vez que após o término da obra seria retirado pela construtora. Notei que a situação era perigosa para todos, e para as crianças em particular. Vi que algumas delas rondavam nas proximidades. Adverti os operários sobre esse perigo. De súbito vi o elevador descendo, e umas crianças no local onde o fundo do equipamento ficaria apoiado. Tive a certeza de elas tinham sido esmagadas, mas não ouvi nenhum grito e nenhum barulho estranho, como de carne e ossos sendo esmagados. Logo ficaram em volta do local várias pessoas e muitos operários. Ao subirem o elevador para averiguação do acidente, percebeu-se que as crianças estavam vivas, dentro de um buraco, uma espécie de alçapão. Vários circunstantes afirmaram terminantemente que no local não havia aquela cavidade, que salvara os meninos. Outros, de forma peremptória, disseram que havia. Eu tenho a convicção de que não havia tal cavidade. Para mim o piso era uniforme, em todo o recinto. Perguntei a um dos meninos sobre o que acontecera. Ele me falou que, repentinamente, um vulto os puxara para o chão. Indaguei a respeito desse vulto, mas o menino ficou constrangido, como se estivesse com medo, e nada mais respondeu. Tentei ver a planta da construção, mas me foi negado o pedido, sob a alegativa de que eu não tinha nada a ver com o caso. Tenho a impressão de que a vida, às vezes, parece um sonho ou um pesadelo. Ou será o sonho e o pesadelo que se confundem com a própria vida real?

DIÁRIO INCONTÍNUO


24 de fevereiro

Esteve no fórum, tratando de assunto processual, o Dr. Alfredo Nunes, ex-prefeito de Regeneração, ex-deputado estadual, em várias legislaturas, e procurador de Justiça em inatividade. É o atual venerável da Loja Maçônica Tabelião Manoel Isaac Teixeira. Seu pai, Gonçalo Nunes, empresário, também foi prefeito e deputado à Assembleia Estadual. É casado com a professora Teresinha Nunes, que foi reitora da Universidade Federal do Piauí, há 57 anos. Segundo me foi revelado, em outra ocasião, recusou-se a ficar recebendo proventos, como parlamentar aposentado, o que é um fato raro em nosso meio. Também ouvi falar que, em sua época, teria sido o único prefeito a receber honraria do Tribunal de Contas do Estado, em virtude de haver tido todas as suas contas aprovadas. Não tive tempo de conferir essas informações. Deixo que o leitor diligente o faça. Foi dirigente esportivo no Piauí durante vários anos. Quando era prefeito de sua terra natal, foi convidado pelo ministro da pasta do Esporte a ir a Brasília, com a finalidade de assumir, interinamente, a presidência da Confederação Brasileira de Futebol, no impedimento do titular, Ricardo Teixeira, que estava de licença médica. Disse não ter interesse, em virtude de seu cargo de chefe do Poder Executivo local. O ministro insistiu, e disse tratar-se de um pedido pessoal do presidente da República, que estava preocupado com a classificação da Seleção Brasileira na etapa eliminatória da Copa do Mundo. Conversou com Fernando Henrique Cardoso e terminou aceitando a missão. Por recomendação pessoal sua ao técnico, um jogador renomado, mas que não estava atuando bem, não foi escalado, e o certo é que em sua gestão o Brasil terminou obtendo a classificação. Quando ele me brindou com um distintivo da CBF, que muitas vezes tenho usado na lapela do terno, disse-me que me ofertava o mimo em virtude de eu haver sido um bom goleiro do futebol amador. Como não sou cabotino, não direi se concordo com o que ele disse. Em 1957/1958, estando residindo no então povoado de Papagaio, hoje Francinópolis, em virtude de nomeação para cargo do antigo Departamento de Correios e Telégrafos, com raríssimo meio de transporte para Teresina na época, meu pai “pegou” uma carona no jeep do Dr. Alfredo, que era deputado estadual, até a localidade Estaca Zero, onde era mais fácil conseguir transporte rodoviário para a capital. Meu pai, que na época era guarda-fio, sozinho, no lombo de um cavalo, percorreu, várias vezes, a solidão formidável da Chapada Grande, de Papagaio ao Alto Sério, já no município de Regeneração, a contemplar os soberbos pequizeiros, vergados de frutos, e as floradas luminosas dos paus-d'arco, a balouçarem à brisa, como lustres dourados de imponentes catedrais.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS


OS GRANDES URUBUS

Eles eram grandes, de corpo ereto como pinguins, talvez mais empertigados ainda. Entretanto, com suas pernas longas, não tinham a ginga destas simpáticas aves, e caminhavam de forma hierática, sem oscilações e meneios. A plumagem, completamente negra, tinha o aspecto de uma longa casaca, ou de vestes talares e sacerdotais. Com o nariz adunco, tinham o semblante fechado, sisudo, como antigos hierofantes. Geralmente, caminhavam em dupla, conversando entre si. Atraíam o respeito, mas ao mesmo tempo pareciam manter uma longa e fria distância dos demais seres, inclusive os humanos. Pareciam não ter emoções, nem alegria nem tristeza, nem lágrimas nem sorrisos. Viviam num local pantanoso, da cor de chumbo. Andavam sobre o charco, como se levitassem, e sem que a lama lhes atingisse. Aliás, nada parecia lhes atingir, em sua postura sempre sóbria, quase compungida. Não eram malévolos, mas não permitiam nenhuma aproximação, restritos a seu mundo pantanoso. De frente, pareciam envergar uma casaca, com as asas recobrindo parcialmente o corpo e as pernas. Vistos de costas, pareciam velhos sacerdotes, levemente corcundas, com suas batinas negras. Não sei o que eles comiam. Sei que no charco não havia carniça. Não voavam, posto que eram aves que não eram aves, e também não eram anjos nem demônios. Creio que tivessem alma, uma alma quase humana, ou que transcendia o humano. O pântano parecia um mundo à parte, feito de silêncio, distância e insulamento, em que os grandes urubus viviam reclusos como ermitões em herméticos monastérios, imersos em esotéricos e indevassáveis rituais, que só eles compreendiam e professavam.

DIÁRIO INCONTÍNUO


23 de fevereiro 2010

Nesta segunda-feira, de manhã cedo, quando eu vinha de Teresina para Regeneração, resolvi, mais uma vez, dar uma olhada no cemitério campestre, que fica na beira da rodovia, um pouco antes da cidade de Angical. Três ou mais galpões, cobertos de telha, protegem os mortos desse bucólico cemitério. Dá a impressão de que parentes e amigos, zelosos, cuidadosos, desejavam proteger seus mortos da chuva e do sol. No adro de um desses telheiros, o cruzeiro estendia seus braços bem abertos, como se quisesse abraçá-los. Recordei-me de que, muitos anos atrás, quando eu estava na flor de minha adolescência emotiva e sentimental, fiz esse mesmo percurso, em ônibus da empresa Jurandi, que parava em quase todas as cidades do itinerário, em companhia de meu amigo Otaviano Furtado do Vale, que morara em Regeneração. Íamos, ali, passar um final de semana. Fomos antecedidos por uma carta dele, comunicando nossa viagem, e naturalmente solicitando hospedagem aos anfitriões. A missiva tinha uma propaganda enganosa a meu respeito, pois dizia, para a destinatária, filha dos donos da casa, que eu era parecido com famoso galã das telenovelas de então. De qualquer modo, cumprimos a nossa missão, pois tomamos umas boas talagadas de calibrina, dançamos no clube da cidade, onde hoje está instalada a Câmara Municipal, e terminei conseguindo uma namorada, que a névoa do tempo já esfumaça em minha memória. Nessa viagem, chamou-me a atenção um outro campo santo campesino, com túmulos em ruínas, cruzes decepadas, anjos de asas partidas... No retorno, fiz um poema que falava de um agre e agressivo agreste, de um cemitério abandonado, e da paisagem dos cerrados da Chapada Grande, de beleza ímpar, mas tão diferente dos planos tabuleiros de minha terra natal, respingados de corcovas de cupins e pontilhados de carnaubeiras, sobretudo no inverno, em que a terra se estende como um tapete de gramíneas e babugens.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



22 de fevereiro de 2010

Na reunião da APL, deste sábado, o acadêmico Humberto Guimarães, que é médico psiquiatra, ao usar da palavra, informou que em breves dias o sanatório Meduna será desativado. Lamentou profundamente o fato. A memória de seu criador, o médico e acadêmico, já falecido, Clidenor Freitas Santos, foi festejada vivamente na sessão. Consta que quando ele retornou, formado, a Teresina, libertou os loucos das correntes e de outros tratamentos desumanos. As correntes estariam enferrujando no fundo do Parnaíba. O nome Meduna foi dado em homenagem a um grande psiquiatra nascido na Hungria. O sanatório é uma bela construção, com seus pavilhões brancos, seus alpendres, seus corredores. Fica no centro de um aprazível bosque. Até parece uma aldeia, onde ainda alvejam a casa senhoril e a capelinha branca, sobre suave colina, que compõem o aspecto bucólico do conjunto. Foi uma obra audaciosa para a época, e mesmo nos dias de hoje ainda seria. Clidenor, quando o conheci, era um velho de boa estatura, ereto, empinado, elegante, inclusive no modo como se vestia. Usava uma velha Mercedes, em perfeito estado, tão elegante quanto ele. Admirava música erudita, sobretudo Mozart, Bach e Beethoven. Fez seus filhos ouvirem esses grandes compositores, para lhes incutir, desde cedo, o gosto por essa divina arte. Tornou-se empresário do ramo da agroindústria, especialmente de álcool combustível. Admirador entusiástico de Cervantes, mormente de sua criatura, o fidalgo, cavaleiro e idealista Dom Quixote de la Mancha. Possuía vários exemplares do livro que narrava suas aventuras, e presenteava amigos com exemplares dessa obra por ele considerada genial. Diria que o Dr. Clidenor era também uma espécie de Quixote, tanto na política como nos seus empreendimentos empresariais, pelo seu idealismo e certo romantismo de sua postura. Segundo dizem aqueles que a conheceram, a sua biblioteca seria, talvez, a maior biblioteca particular do Piauí, não só em quantidade de livros, mas também pela excelência e raridade de muitas obras. Era uma figura carismática, a pregar o belo e o bem, com entusiasmo e convicção. Ele, que foi quixotesco no bom sentido da palavra, ergueu uma belíssima estátua do “cavaleiro da triste figura” nos portais de sua realização máxima, o sanatório Meduna, que, agora, lamentavelmente será desativado. Mas Dom Quixote, a cavalgar o Rocinante, com a sua lança e o seu escudo, talvez consiga defender essa obra meritória, que relevantes serviços prestou ao estado.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


21 de fevereiro de 2010

Quando eu voltava ao meio dia e meia para casa, vi o Didi a trabalhar na casa de um dos meus vizinhos. Estava literalmente com as mãos na massa, razão pela qual elas estavam sujas de argamassa. Enquanto o Didi trabalhava, meu vizinho enxugava uma cerveja estupidamente gelada, a olhar o trabalho. Parei o carro, para cumprimentá-los. Fiz menção de pegar na mão do Didi, mas ele negaceou, dizendo que suas mãos estavam sujas. Respondi que elas estavam sujas para ele próprio, mas para mim estavam mais limpas do que as de certos engravatados, mais limpas do que os colarinhos de certos políticos, sobretudo do Distrito Federal. Conheço-o faz vinte e cinco anos, desde que vim morar no conjunto Memorare, onde resido até hoje, onde eu e minha mulher criamos nossos dois filhos. Ele ganha a vida prestando pequenos serviços aos moradores, sempre respeitador e bem humorado, sem nunca se queixar, sem nunca se maldizer. Conquistou a estima e a amizade de todos. Às vezes, amanhecia sem um centavo no bolso, mas nunca demonstrava preocupação, e tudo acabava dando certo para ele. Didi sempre me faz lembrar as palavras de Cristo, quando falava que as aves não tem celeiro, mas nunca lhes falta o que comer; que os lírios do campo não fiam e não tecem, mas que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestia como um deles. Didi é mais milionário do que muitos arquimilionários porque pouco possui, mas o que tem lhe é o bastante, e nasceu desprovido da ganância e da ambição. Portanto, tem o reino do céu, aqui mesmo na terra. Sem dúvida, é um bem-aventurado.

SELETA NACIONAL


O MAJOR

Manuel Bandeira

O major morreu.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.

Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.

DIÁRIO INCONTÍNUO


20 de fevereiro de 2010

Hoje à tarde, encontrei no shopping Teresina, no chamado “senadinho”, que não costumo frequentar, o jornalista Toni Rodrigues, meu conhecido há vários anos. Além de correto como cidadão e profissional, é também homem culto e escritor de mérito, tendo escrito ficção policial, o que denota o seu espírito investigativo e questionador. Já escreveu textos de caráter historiográfico, mormente sobre os crimes rumorosos ocorridos no estado. Nasceu em Piripiri, em 1968, mas é radicado em Altos desde a meninice. Tempos atrás, confessou-me haver lido a antologia parnaibana Poemágico – a nova alquimia, publicada em 1985, de que faziam parte os poetas Alcenor Candeira Filho, Jorge Carvalho, V. de Araújo, Paulo Véras e Elmar Carvalho. Disse haver gostado da coletânea, o que muito me honra. Na conversa que mantivemos nesta tarde, terminou falando sobre o famigerado caso do fogo que era ateado em casas de palha, na Teresina da época do interventor Leônidas de Castro Melo, que até hoje desperta controvérsias e especulações, sem que se tenha certeza sobre quem tenha sido efetivamente o mandante desses incêndios, que atormentaram as pessoas pobres, residentes na periferia da capital. Entendo que a maioria dos estudiosos defende a tese de que o autor intelectual tenha sido o coronel Evilásio Vilanova, comandante da Polícia Militar do Estado, tanto com o objetivo de que fosse criado o corpo de bombeiros, como para lançar a culpa em políticos da época, e, assim, cavar a possibilidade de vir a ser o governante do Piauí. Leônidas era um homem sério, honrado e honesto, tanto que saiu pobre do poder, não obstante haver governado o estado com amplo e quase ilimitado poder, por mais de dez anos, ininterruptamente. Claro que teve seus erros, e entre estes geralmente é apontada a aposentadoria compulsória dos desembargadores Arimatéia Tito, Simplício Mendes e Esmaragdo Freitas. Pelo que sei, Leônidas Melo nunca contou a sua versão sobre quem seria o mandante desses incêndios, preferindo guardar perfeito silêncio, por motivo que desconheço. Soube que, já em idade provecta, prometeu que relataria a verdade sobre esse triste fato da História Piauiense a pessoa de sua confiança, mas terminou falecendo, sem fazer a anunciada revelação. Também soube que, muitos anos após esses fatos, ele teria recebido a inesperada visita de Vilanova. Os dois conversaram a sós, sem que nunca alguém tenha sabido o teor da conversa. O escritor Victor Gonçalves escreveu um conto sobre esses lamentáveis acontecimentos e o historiador Alcides Nascimento publicou uma volumosa obra sobre o assunto. Leônidas escreveu um livro de memórias, titulado Trechos do Meu Caminho, que tem passagens interessantes, antológicas mesmo, algumas até que são verdadeiras lições de vida, mas que não encerram o caso. Toni Rodrigues revelou-me ter novas informações a acrescentar sobre o que já se escreveu a respeito desse tema, pois leu documento que os outros historiadores não teriam compulsado, bem como sobre o episódio da demissão de Evilásio Vilanova, que era coronel do Exército, e não era piauiense. Esperemos, pois, que o jornalista e escritor Toni Rodrigues traga luzes a esse episódio histórico ainda um tanto penumbroso, ou ainda não completamente esclarecido.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS


SURREALISMO

Quando voltei para casa, recebi a informação de que havia chegado uma encomenda para mim. Era uma encomenda vinda aparentemente de outro país, pelo tipo das estampas dos selos. O meu endereço estava correto, em caracteres normais, porém o endereçamento do remetente era feito em letras exóticas, que eu não conseguia decifrar. Não perdi tempo, tal era a minha curiosidade. Abri a embalagem, que fora preparada cuidadosamente, com forros macios para proteger o conteúdo. Em estojos separados, encontrei sete folhas de papel, de uma cor e textura que eu nunca havia visto, e sete lápis de cores diferentes, como as cores do arco-íris, nos quais não constava nenhuma marca de fabricante. Até então eu era um pintor considerado medíocre e que nunca fizera sucesso. Os críticos reconheciam que eu tinha uma boa técnica de desenho, com perfeita noção de proporcionalidade e perspectiva, e que sabia manejar as tintas habilmente, mas diziam que me faltava talento para a composição do todo, do conjunto, e alegavam que eu era demasiadamente academicista. De certa forma, admito que eles estavam certos, pois eu efetivamente detestava todas as vertentes modernistas, e sequer aceitava o expressionismo, o impressionismo, o cubismo, vários outros “ismos”, e tinha verdadeira aversão ao surrealismo. Examinei o presente cuidadosamente e depois os guardei nos estojos em que vieram. Após algum tempo, na parte da tarde, resolvi experimentar os lápis em um dos papéis. Imediatamente percebi que os lápis não deslizavam sobre o papel obedecendo a minha vontade, mas tomavam o caminho e as formas que eles próprios escolhiam. Também os lápis não funcionavam em outro tipo de papel e nem outros tipos de lápis deixavam marcas nas folhas que eu havia recebido. Em suma, os sete lápis só pintavam naquelas sete folhas de papel. Quando eu impunha minha vontade, simplesmente eles nada pintavam, de modo que docilmente lhes passei a fazer a vontade, deixando que eles seguissem por onde bem quisessem. Dessa forma, notei que cada lápis depunha sua cor em determinadas partes da tela, seguindo um desenho que a princípio eu não atinava sobre o que representava. O lápis seguinte procedia da mesma forma, sendo que, em certos pontos, as cores se sobrepunham, formando uma nova cor ou um sobretom. A partir do quarto lápis, a pintura e o desenho começavam a fazer sentido, e eu percebia que uma grande obra de arte, como eu nunca alcançara, estava sendo concebida. Ao final, uma pintura deslumbrante, onírica, surrealista, inaudita, de técnica e imaginação perfeitas, estava estampada na folha. Com as sete telas, passei a ser considerado um gênio do surrealismo. Nunca revelei o segredo sobre a gênese das obras, mesmo porque ninguém iria acreditar. Pensando melhor, talvez fosse uma boa jogada de marketing se eu tivesse falado a verdade, porque seria considerado louco, o que aumentaria a minha suposta genialidade. Ganhei fama, prestígio, dinheiro, mas nada mais produzi. Diante disso, resolvi encerrar minha carreira, e passei a dormir em berço esplêndido, coroado de louros e de glória.

ARTE-FATOS ONÍRICOS


NUVENS NA SALA

Certo dia, ao entrar em minha casa, lá estavam elas, várias nuvens espalhadas pela sala, a uma altura situada entre noventa centímetros e um metro e trinta centímetros. Eu as via do alto de meu um metro e oitenta centímetros de altura. Eram miríades de miniaturas de nuvens, e pareciam com as que costumamos ver quando o avião atinge sua altura máxima e olhamos para baixo. Embora fosse um acontecimento inusitado, a visão daquele rebanho de nuvens, não fiquei assombrado. Antes, procurei encarar o fenômeno com naturalidade. Passei a analisar o caso com objetividade e com a postura que um cientista deveria adotar. O que mais me causou admiração foi poder enxergá-las, pois sendo as nuvens compostas de vapor d'água ou gotículas, eu não deveria vê-las, mas, no máximo, senti-las pelo tato, ao contato com a pele. Pelo menos era isso que a minha pretensa racionalidade indicava. Mas o fato é que lá estavam elas, como um manto de algodão alvíssimo estendido sobre a sala. Depois dessa atitude analítica, sentei-me no chão, e deitei-me, para vê-las de baixo para cima. E as vi como um céu estendido sobre mim: as nuvens e acima delas um azul celeste. Pensei: ora, bolas, só me faltava esta; só me falta agora um céu estrelado. Eram dezessete horas, e resolvi dormir ali mesmo, sobre umas almofadas que havia. Quando acordei, um céu resplandecente de pequeninas estrelas se desatava sobre mim, como o pálio do poeta, e, caprichosamente desenhados, eu via o sete-estrelo, o cruzeiro do sul, as três-marias e o caminho de santiago. Novamente pensei: agora só resta chover. Não deu outra. O céu começou a ficar nublado. As estrelas sumiram na noite densa, e uma chuva começou a cair sobre mim. Saí às pressas para o meu quarto, onde me enxuguei. Procurei não pensar no caso, e dormi. No dia seguinte, com grande alívio, não mais encontrei as nuvens em minha sala.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA




18 de fevereiro de 2010   Diário Incontínuo

O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA

Elmar Carvalho

Em minha temporada carnavalesca parnaibana, mais precisamente anteontem, fui visitar o poeta Alcenor Rodrigues Candeira Filho. Logo ao chegar, tive a satisfação de encontrar a professora Rossana Silva, sua vizinha, que ia chegando a sua residência. Antes de entrar na casa do bardo, conversei rapidamente com ela, aproveitando a oportunidade para lhe fornecer o endereço do blog onde este diário vem sendo publicado. Alcenor e Rossana, pelos comentários que ouço e em minha opinião pessoal, são dois dos maiores professores de Literatura, e talvez o sejam porque têm prazer e alegria em lecionar essa disciplina, porque são leitores compulsivos de obras literárias. 

Minha amizade com o Alcenor data do final da década de setenta. Cheguei para morar em Parnaíba em junho de 1975, pois nesse ano meu pai veio chefiar a ECT nesse município. Em agosto desse ano, fui assumir meu cargo de monitor postal nessa empresa, em Teresina, em virtude de curso no Recife, em que fui aprovado. Mas logo retornei, pois obtive êxito no vestibular para o curso de Administração de Empresas, na UFPI, que então só era ministrado em Parnaíba. 

Através do Paulo de Athayde Couto, filho do saudoso mestre, tradutor e intelectual Lima Couto, que era meu colega de turma, travei conhecimento com o poeta. Meus colegas dos Correios, um dia, creio que em 77, sabedores de que eu era poeta, me chamaram, eufóricos, para ver o Alcenor, que fora postar ou receber alguma correspondência. Meu retraimento, me impediu de conhecê-lo nesse dia. Devo tê-lo visto à distância. Corria a lenda de que ele se formara em Direito para reabrir o processo contra os algozes de seu pai, trucidado em plena Praça da Graça, no dia dedicado a essa padroeira, por volta das cinco horas da tarde, quase no horário da saída da procissão. 

Por causa da chamada “chacina da Praça da Graça” a tradição foi quebrada, e nesse 11 de outubro de 1959, domingo, não houve procissão. Alcenor Candeira, pai do poeta, foi abatido praticamente no momento em que o sineiro tocava o dobre final do chamamento dos fiéis para o préstito católico, quando ele se encontrava a menos de cinquenta metros da Catedral, levando pela mão a filha caçula, Tânia, mulher do meu amigo e compadre Canindé Correia, então com onze anos de idade.

Durante os mais de trinta anos de nossa amizade tive esse caso rumoroso como um tabu, e sempre mantivemos o mais completo silêncio sobre essa tragédia, mesmo nas várias ocasiões festivas, em que conversamos descontraidamente, em meio a goles de cerveja. Nas incontáveis ocasiões em que saí com a Tânia e o Canindé, cunhado e amigo do poeta, jamais tocamos nesse assunto. Somente muitos anos depois, quando Alcenor, talvez até como forma de catarse, escreveu o poema Passando em Revista, é que me senti mais à vontade para ferir esse caso.

No ano passado, quando o episódio trágico completou cinquenta anos, o escritor, posto que o bardo é também um exímio prosador, publicou o livro O Crime da Praça da Graça, que alcançou inusitada vendagem e repercussão. A obra esclarece os fatos, pois Alcenor, com a honestidade e a sinceridade que lhe são características, e já diminuída a comoção pelo decurso do tempo, calcado em peças do processo, narra os fatos de forma clara e objetiva. A obra transcreve trechos dos autos e alguns textos sobre o homicídio.

Às páginas 51/52 do livro, encontra-se a crônica Por Quem os Sinos Dobram, da lavra de José Leitão Matos, publicada em 1961, da qual transcrevo esta passagem: “Três homens e uma mulher espreitaram a passagem do Secretário da Prefeitura, Alcenor Rodrigues Candeira, a quem trucidaram da mameira mais cruel. Jamacy e os Clodoveus fizeram a fuzilaria infernal, enquanto Veudacy rasgava, à faca, logo após, o corpo franzino de Alcenor”. As pessoas citadas eram os advogados e professores Clodoveu Cavalcante e seu filho, de mesmo nome, a mulher do primeiro, Jamacy, e o outro filho do casal, Veudacy, portanto, pais e filhos.

Conta a lenda que Jamacy, mulher enérgica, de temperamento muito forte, por causa de um desentendimento com Alcenor, insuflava o marido contra seu desafeto tocando na vitrola música de Ataulfo Alves e Mário Lago, que dizia, em suas belas letra e melodia: “Covarde sei que me podem chamar / Porque não calo no peito essa dor...” Suponho que esse incitamento não tenha ocorrido desse modo, uma vez que Alcenor a ele não se refere em seu livro.

O velho professor Clodoveu foi absolvido. Clodoveu Filho e sua mãe Jamacy nunca foram julgados. Veudacy foi condenado a seis anos de prisão. Alcenor, em seu livro, relata que Jamacy atirou contra seu pai quando este se encontrava de costas para a família, que se encontrava em um jeep, perto da esquina em que ele dobrou, já nas proximidades da Catedral de N. S. das Graças, vindo de sua casa, que ficava a apenas um quarteirão.

No corpo tombado foram encontradas as marcas de nove tiros de revólver, cortes de faca ou punhal e hematomas de coronhadas. Tinha Alcenor 45 anos de idade. Deixou quatro órfãos menores e a viúva, professora Maria de Lourdes Castelo Branco Candeira. O poeta era aluno dos Clodoveus, pai e filho, e na semana anterior ao crime lhes assistira as aulas. Não procurei informações sobre a situação atual da família Cavalcante.

Sei que Alcenor Candeira Filho, sempre galgando posições e conquistando seu espaço, através do estudo e do trabalho, tornou-se procurador federal, exercendo a chefia de Previdência Social em Parnaíba por vários anos, professor da Universidade Federal do Piauí, e mestre de Literatura na rede particular, precisamente na Unidade Escolar Alcenor Candeira (Colégio Cobrão). Seu pai deu nome à rua na qual ficava a sua residência.

Hoje, o bardo é o secretário de Educação do Município de Parnaíba. Mas, sobretudo, é o intelectual, escritor e poeta, que todos admiramos e respeitamos, e que ocupa uma cadeira na Academia Piauiense de Letras, mercê de sua competência e dedicação ininterrupta às letras.

SELETA INTERNACIONAL


A QUE ESTÁ SEMPRE ALEGRE

Charles Baudelaire

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

O SEXO DOS ANJOS


Elmar Carvalho

Que temos a ver
com o sexo antisséptico
dos inatingíveis e intangíveis
anjos das hostes celestiais?
Que temos a ver
com os anjos machos e fêmeas
de falos decepados e de
vaginas obturadas?
( A ânsia por asas e
a sede de infinito.)

DIÁRIO INCONTÍNUO


Dom Pedro Casaldáliga e o cais de São Félix do Araguaia

17 de fevereiro de 2010

Retornando para Teresina, levo na bagagem vários livros, que o meu cunhado Beré trouxe de São Félix do Araguaia, enviados por Lozinha e Nilva, irmã e sobrinha de minha mulher respectivamente. A segunda é a atual vice-prefeita do município. Os livros são Cartas Marcadas, de D. Pedro Casaldáliga, Sertão de Fogo, de Adauta Luz Batista, e Meu Araguaia Querido, de Erotildes da Silva Milhomem. Dom Pedro era admirado pelos componentes do grupo do jornal Inovação, de que fiz parte, pelas suas posições, por seus questionamentos políticos, por sua luta por uma sociedade mais justa e mais fraterna, e pela opção preferencial pelos pobres. Nasceu na Espanha e foi bispo da diocese de São Félix desde 1971 a 2005. É ainda poeta e escritor. De Cartas Marcadas disse Dom Demétrio Valentini, na apresentação: “Apresentam-se como 'cartas marcadas', pois decorrem de um claro compromisso de pastor, que extravasa em sua linguagem de poeta sua lúcida visão da realidade e sua decidida opção pela causa do povo”. Esses jovens do Inovação sonhavam com a vinda para a diocese de Parnaíba de um bispo engajado nas lutas sociais e que promovesse o avanço das comunidades eclesiais de base, o que terminou não acontecendo durante o tempo em que o jornal circulou. Por isso mesmo, o jornal fez uma entrevista com um padre que aparentava ter ideias avançadas, e o religioso se mostrou firme e contundente na entrevista. Contudo, quando esta foi publicada, parece que o clérigo recebeu uma reprimenda do bispo parnaibano, porque tentou desdizer algumas frases da entrevista, quando na verdade tudo estava documentado na fita magnética, sem que tenha havido erro na transcrição. Dom Élder Câmara era outro bispo que admirávamos, tanto por sua posição política, como por sua coerência e modo de vida.

É considerado um dos primeiros habitantes e um dos fundadores de São Félix do Araguaia Severiano Neves, irmão do pai de Fátima, minha mulher. Quando a cidade não existia, ele montou sua residência na localidade, e depois empreendeu uma viagem ao Piauí à procura de novos habitantes, dando início ao povoamento do lugar. Colho na internet, na Wikipedia, a seguinte informação: “Em 23 de maio de 1941, desembarcava no rio Araguaia, em território mato-grossense, a família de Severiano Neves, acompanhada de outras famílias provenientes do estado do Pará, em busca de um futuro melhor. Iniciando-se assim um novo povoado, próximo a santa Izabel do Morro, antiga morada dos índios Carajás, habitantes milenares do rio Araguaia e da Ilha do Bananal. A denominação de São Félix foi dada pelo Bispo D. Sebastião Thomaz Câmara no dia 20 de novembro de 1942.” Quando a localidade passou a município, foi Severiano Neves o seu primeiro prefeito. Segundo informação de minha mulher, ele nasceu em Buriti dos Lopes – PI, no povoado Várzea do Simão, filho de Simão Pedro e Firmina.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


16 de fevereiro de 2010

Quando estive na lanchonete do senhor José dos Santos para tomar o seu afamado caldo, vi do lado de fora um homem todo sujo de goma, principalmente no cabelo e no rosto. Logo vi que não se tratava de um folião extemporâneo, mas de um alcoólatra. Quis saber como se chamava, mas ninguém o conhecia pelo nome. O Canindé informou-me que ele era filho do Sandoval, que eu conheci como guardador de carros dos universitários, no Campus Ministro Reis Velloso. O Sandoval era um homem bom e tinha a estima dos acadêmicos e dos professores. Já é falecido. O poeta Alcenor Candeira Filho, que exerce o magistério no Campus, dedicou-lhe um poema, em que lhe relata as virtudes e a ocupação. Dizíamos, brincando, que o Sandoval fora o seu “muso”. Agora, com tristeza, vejo o seu filho como mendigo e alcoólatra. Quando lhe perguntei o nome, disse tê-lo esquecido, e disse o nome de seu pai. Era como se quisesse esquecer de si próprio, em sua solidão e tristeza. Segundo o Canindé ele trabalhara num Condomínio da rua Pedro II, mas a dipsomania terminava por lhe fazer faltar ao trabalho, razão pela qual foi demitido. Com a demissão, apegou-se mais ainda ao vício. Quando fui tirar sua fotografia, para ilustrar o blog em que este diário é publicado, inicialmente, fingiu esconder o rosto, numa brincadeira ou na vontade inconsciente de se manter incógnito, sem ser visto e sem ser lembrado, numa espécie de exílio de si mesmo. Depois, se deitou na calçada, e levantou os braços e as pernas, como se fosse uma criança em seu berço, talvez no desejo recôndito de voltar a ser bebê, quando certamente recebeu cuidados e foi amado por seus pais. Ao final, terminou dizendo chamar-se João. Um João só, um João a mais na multidão e na solidão. Aproveito para pedir perdão por tantas involuntárias rimas em ão.

DIÁRIO INCONTÍNUO


16 de fevereiro de 2010

Nesta temporada parnaibana, fui algumas vezes à banca do Louro, para comprar jornal e ver os livros de autores parnaibanos, que ali são expostos e vendidos. Esse ritual é bom porque em torno da banca sempre encontro algum conhecido dos velhos tempos. Numa dessas idas encontrei o Emanuel, meu colega do Campus Ministro Reis Velloso – UFPI, curso de Administração de Empresas, que me cumprimentou efusivamente e com bastante jovialidade. No final dos anos setenta, fui com ele a Tutoia, seguindo pelo Delta do Parnaíba, num desses barcos toc-toc ou chalana, que faziam linha para essa cidade maranhense. Ficamos hospedado numa casa de sua família, que ficava à beira-mar, em amplo terreno, com várias plantas e coqueiros. Ficava numa enseada da praia Andreza. Corria a lenda de que uma moça, que desaparecera ou fora arrebatada na praia de Amarração, na cidade de Luís Correia, várias décadas atrás, ali aparecia como um ente encantado. Ouvindo o vento a farfalhar nos coqueiros e nas outras árvores e escutando o marulho das ondas, colhi inspiração para alguns de meus poemas marítimos ou parnaibanos. Nesse passeio a Tutoia, terminei encontrando o jornalista e professor Antônio Gallas Pimentel, tutoiense, mas meu amigo de Parnaíba, em cuja companhia terminei fazendo um périplo pelos points da cidade, no anglicismo de hoje, que consigno em sua homenagem, já que ele é um mestre em Inglês e fala fluentemente essa língua.

Já o Louro é uma instituição da Praça da Graça, e deveria ser tombado como um patrimônio vivo do município. Conheço-o desde o final da década de setenta e nunca ouvi o menor comentário que pudesse desabonar a sua pessoa. Muito pelo contrário, a sua conduta foi sempre correta, tanto que entra prefeito e sai prefeito e o Louro continua inabalável em sua banca de revistas. Faça chuva ou faça sol, seja sábado, domingo ou feriado, lá está ele a mourejar em seu estabelecimento, com a sua cordialidade e alegria de sempre, a vender os jornais e livros da terra, e os jornais e revistas de circulação nacional, assim como os editados em Teresina. Embora correndo o risco de ser perseguido por algum alcaide fustigado pelas catilinárias do Inovação, sempre vendeu esse jornal, durante todo o tempo em que ele circulou. Por isso mesmo tinha a consideração e o respeito de todos que faziam parte desse bravo periódico. Para mim o Louro foi sempre o Louro da banca de revistas da Praça da Graça. Por essa razão, não obstante a estima que lhe tenho, sequer sei o seu nome. Telefonei-lhe, para lhe colher o nome completo, que agora declino, como uma homenagem a um cidadão honrado: Francisco das Chagas Sampaio. Ele, um homem de bem, cordato, vestia uma camisa preta, com a palavra PAZ, em letras brancas, estampada no peito. Ou seja, o Louro, literalmente, veste a camisa da PAZ.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


15 de fevereiro de 2010

De manhã cedo, estive na casa da mãe do Gervásio Castro, que está passando uma temporada em Parnaíba, sua terra natal. Radicou-se no Rio de Janeiro há várias décadas, e assimilou a parte boa do espírito carioca, sobretudo a maneira mais suave de encarar a vida e uma gostosa pitada de senso de humor. Foi ele que ilustrou os meus PoeMitos da Parnaíba, que publiquei em livro, a ser lançado brevemente em Parnaíba, em data a ser marcada pelo presidente da Academia Parnaibana, Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos. Não nos conhecíamos pessoalmente, mas apenas através de e-mails e de telefonemas, embora tenhamos vários amigos comuns. Posso dizer que o Gervásio captou o que eu quis transmitir através dos PoeMitos de um modo tão perfeito, como eu jamais poderia imaginar. Soube retratar a parte satírica e erótica com muita criatividade, de modo sutil, elegante, delicado mesmo, que não agride a sensibilidade de ninguém, dando ao personagem graça, leveza, com certeira dose de humor, que disfarça a parte mais crua da nudez e de eventual escatologia de alguns dos poemas. Suas charges são coloridas, mas com cores que se harmonizam entre si e com o desenho ou retrato. Tentou extrair das personalidades o que elas tinham de mais belo ou de mais pungente. Seus traços são perfeitos, mesmo quando se avizinham da caricatura e sempre parecem respeitar as leis da perspectiva e da proporcionalidade, mesmo quando têm como objeto alguma deformação física. Por isso mesmo, mereceu o elogio do prefaciador, o mestre e doutor em Literatura Brasileira, Cunha e Silva Filho, crítico abalizado, ensaísta da melhor estirpe e cronista de mérito. Seu irmão, Fernando Castro, é outro monstro sagrado e consagrado da charge e da caricatura. O Gervásio está levando a cabo a missão difícil de ilustrar o poema épico moderno A Zona Planetária, de minha autoria, que pretendo transformar em livro, com o acréscimo de um ensaio sobre os velhos cabarés. Sem dúvida a cumprirá com brilhantismo, pois suas charges, em muitos momentos, têm rasgo de verdadeira genialidade. Será prefaciado pela Teresinha Queiroz, uma de nossas maiores escritoras e historiadoras, membro da APL, com vários livros importantes publicados.

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar, Franzé e Canindé
Fabrício, Clarice, Franzé, Canindé e Érico Vinicius

15 de fevereiro de 2010

Fui hoje com o Canindé Correia à praia de Macapá, visitar o amigo comum Franzé Ribeiro. Para a nossa surpresa e satisfação, a sua mulher Clarice estava de aniversário. Tivemos uma palestra muito agradável com o Fabrício, filho dos anfitriões, Carol Porto e com o Érico Vinícius, que demonstraram ser jovens inteligentes, atualizados, de boa cultura e interessados em arte. O nome do último foi uma homenagem prestada pelo seu falecido pai ao grande romancista gaúcho e ao famoso poetinha, na verdade um grande poeta, pelo que a palavra deveria ser usada no aumentativo e jamais no diminutivo. Já havíamos estado nessa casa algumas vezes, e sempre nos sentimos à vontade, quase como se estivéssemos em nossa própria residência. Franzé e o Reginaldo Costa foram os fundadores do jornal Inovação, de cujo grupo fizemos parte este escriba, o Canindé Correia, Bernardo Silva, Vicente de Paula (Potência), Flamarion Mesquita, Jonas Carvalho, João Maria Madeira Basto, Mário Carvalho, Jonas Carvalho, Porfírio Carvalho, Neco Carvalho, Ednólia Fontenele, Bartolomeu Martins, Danilo Melo e vários colaboradores, como Alcenor Candeira Filho, Karleno, Diderot Mavignier, Jorge Carvalho, Israel Correia e vários outros poetas e escritores. Esse jornal circulou do final da década de setenta até o começo dos anos noventa, em periodicidade mais ou menos mensal. Tinha suplemento cultural. Fazia entrevista. Entre outros, foram entrevistados Francisco das Chagas Caldas Rodrigues, Assis Brasil, Ladislau João da Silva, Alcenor Candeira Filho e uma prostituta. Fez pesquisa social, com metodologia científica, vez que os questionários eram elaborados pelo estatístico João Batista Teles. Inicialmente, foi impresso em mimeógrafo, no formato apostila, tamanho A4. Foi o primeiro jornal parnaibano a ser impresso em off-set. O periódico pertencia ao Movimento Social e Cultural Inovação, que manteve uma biblioteca, durante muito anos, e promoveu palestras e debates. Graças a sua influência, surgiram vários outros jornais alternativos. Foi um jornal bravo e independente, que combatia a administração pública municipal, estadual e federal, ainda na época da ditadura militar. Quando o prefeito João Batista Ferreira da Silva destruiu a bela e velha Praça da Graça, para construir uma modernosa, o jornal combateu ferozmente essa decisão, ainda mais porque o início da construção demorou. A campanha do jornal, numa época em que a radiodifusão e o jornalismo eram bastante atrasados, e em que a internet não existia, foi muito forte, e terminou movendo a opinião pública contra a atitude do prefeito, até que populares, revoltados com a situação, derrubaram os tapumes que escondiam os escombros da praça, empilharam-nos e os queimaram. Foi uma verdadeira festa popular, pois, no dia seguinte, houve uma espécie de carnaval, com vários carros desfilando em torno dos destroços da praça. O Inovação era informativo, formativo e cultural, e vários importantes escritores, poetas e artistas plásticos publicaram suas produções nele. Foi, pelo menos durante alguns anos, o jornal mais lido e comentado de Parnaíba. Ainda hoje sinto uma nostalgia muito grande da falta desse jornal, e ter feito parte do grupo do Inovação é um de meus maiores orgulhos, e tem mais valor para mim do que certas honrarias.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Paulo Meireles, Vicente de Paula, o Potência, e Canindé Correia

14 de fevereiro de 2010

Ainda cedo, fui com o Canindé Correia tomar um caldo com tapioca no bar do senhor José dos Santos, nas proximidades do mercado público do bairro N. S. de Fátima, reduto onde os boêmios parnaibanos vão curar a ressaca ou fazer a base para nova maratona etílica. Lá, encontrei velhos conhecidos, e entre eles o Vicente de Paula (Potência) e o engenheiro Paulo Meireles. Comuniquei a esses amigos que, neste diário, motivado por uma conversa com o Fonseca Neto, havia falado no comício da Guarita, quando o atual presidente Lula veio a Parnaíba, na época da luta pela criação do PT, nos idos de 78/79, do século passado. O Vicente recordou que o comício foi feito em cima de um caminhão emprestado pelo atual prefeito parnaibano, Zé Hamilton, que era pessoa da amizade do grupo do jornal Inovação. Também se lembrou de um coquetel que houve na casa da Tércia, amiga do Reginaldo Costa, que hospedava o líder trabalhista. Nessa confraternização, quando foram oferecer uma cerveja ao Lula, ele perguntou se não não havia uma cachacinha da terra. Ao lhe ser oferecida a calibrina, misturou com um vermute, fazendo o coquetel conhecido como rabo de galo. Recordamos que o comício foi feito na base de empréstimos. Além do caminhão, já referido, os paus para instalação dos fios elétricos foram cedidos por vendedores do bairro Guarita. Os amplificadores de som também foram cedidos gratuitamente. O Vicente conseguiu que o proprietário de um cinema do bairro fizesse a divulgação do comício sem nada cobrar, graças a sua amizade pessoal com ele, que lhe devia favor. Com toda essa pobreza, mais do que franciscana, o então grande empresário José Alexandre Caldas Rodrigues ainda achou de perguntar ao Canindé quem estava, à socapa, financiando o evento.

SELETA NACIONAL



GONDOLEIRO DO AMOR

Castro Alves

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;


Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
do Gondoleiro do amor.


Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;


E como em noites de Itália,
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.


Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
-Rosa aberta com o biquinho
Das aves rubras do céu.


Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.


Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;


Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no languor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!?...


Teu amor na treva é - um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa - nas calmarias,
É abrigo - no tufão;


Por isso eu te amo querida,
Quer no prazer, quer na dor...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

SELETA PIAUIENSE

O Parnaíba, ao passar entre as cidades de Amarante - PI e São Francisco - MA. Ao longe, veem-se as serras azuis da poesia dacostiana, que o poeta contemplava do alto do morro, que eu chamo de Morro da Saudade, no centro da urbe amarantina.

SAUDADE

Da Costa e Silva

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,

E o pranto lento deslizando em fio ...

Saudade! Amor da minha terra ... O rio

Cantigas de águas claras soluçando.



Noites de junho ... O caburé com frio,

Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando ...

E, ao vento, as folhas lívidas cantando

A saudade imortal de um sol de estio.



Saudade! Asa de dor do Pensamento!

Gemidos vãos de canaviais ao vento...

As mortalhas de névoa sobre a serra...

.

Saudade! O Parnaíba - velho monge

As barbas brancas alongando ... E, ao longe,

O mugido dos bois da minha terra ...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



13 de fevereiro de 2010

Vindo passar os dias de carnaval em Parnaíba, resolvi dar uma boa folheada no livro Barras – histórias e saudades, de Antenor Rêgo Filho, que já havia lido alguns meses atrás. O autor foi um dos fundadores da Academia de Letras do Vale do Longá, entidade a que tive ingresso com o apoio seu e do falecido Geraldo Majella de Carvalho, meu parente e amigo. Foi seu presidente em três mandatos, sendo que na sua última gestão o sodalício conseguiu adquirir a sua sede própria, a cuja solenidade de inauguração tive o prazer de estar presente. O livro conta a saga da comunidade barrense, desde o seu primórdio, no século 18, quando o fazendeiro e empreendedor Miguel de Carvalho e Aguiar, filho do grande Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador de Campo Maior e de outras comunidades, instalou a sua fazenda e currais e possibilitou a construção da capela católica, até a década de setenta. Como se sabe, as cidades piauienses, normalmente, surgiram em derredor de currais e de templos católicos, e Barras não foi uma exceção. A obra foi prefaciada por Ribamar Garcia e contou com os depoimentos dos escritores Carlos Nejar, Adrião Neto e Herculano Moraes. Narra os principais fatos da história política do município, citando os seus protagonistas, mas também se refere aos costumes, folclore e cultura barrenses, em que conta episódios anedóticos e pitorescos. A urbe tem o epíteto de Terra dos Governadores, por ter dado vários governantes ao Piauí e a outras unidades federadas, mas bem poderia ser chamada, igualmente, de terra de intelectuais, uma vez que forneceu ao estado vários escritores e poetas de nomeada, entre os quais o autor da obra em comento. O opúsculo também é enriquecido por cópias de importantes documentos e fotografias que nos levam ao passado, quando Barras era uma cidadezinha bucólica, com belas praças, quase uma ilha, através do abraço aquático do Marataoan, e dos demais rios que desembocam no Longá, formando as barras, que originaram seu nome. Lamentavelmente, muitos dos prédios, vistos nas fotografias, foram destroçados pela desídia, insensibilidade ou ganância dos homens. Meus ancestrais paternos são barrenses, e por essa razão, na minha infância bebi dessas águas, quando lá estive a passeio, e na minha adolescência banhei e mergulhei na barragem, e contemplei, embevecido, a Ilha dos Amores. Por tudo isso, pude fazer o meu poema Barras das Sete Barras, cujo vídeo pode ser visto no excelente site cultural Entre-textos do professor, poeta e romancista Dilson Lages, ilustre barrense, um dos expoentes literários do Piauí. Do meu conhecimento, o livro de Antenor Rêgo Filho é o mais completo inventário histórico, folclórico, geográfico e cultural do município de Barras.

DIÁRIO INCONTÍNUO


Esculturas de Braga Tepi

12 de fevereiro de 2010

Hoje à tarde fui acordado de um cochilo por um recado de meu irmão César Carvalho, que me mandava entregar um álbum com fotografias coloridas de esculturas de Braga Tepi, que foi convidado a expor suas obras na H. Rocha Galeria de Arte, no Rio de Janeiro. A exposição será aberta no próximo dia 04 de março e se estenderá até o dia 23 do mês seguinte. Confesso que ainda não ouvira falar nesse artista, e portanto não conhecia seus trabalhos. Por isso mesmo, olhei o fólio lentamente, com muita atenção. Surpreendi-me com a qualidade das peças. São obras construídas com sucatas de ferro. Mas nota-se que o artista teve muito cuidado na escolha das peças e no modo como as interligou, como as encaixou e dispôs, dando harmonia ao conjunto. Mesmo nas esculturas grandes e pesadas, pode ser visto, em certas partes da composição, um toque detalhista, uma minúcia de obra minimalista, como se fora um trabalho de delicada ourivesaria, fazendo como que um contraste com as partes maiores e mais compactas. Apenas pelo título de algumas obras, que remete à cultura humanística e clássica, percebe-se que Braga Tepi não é um artesão ingênuo, e muito menos primitivista. Dentro do que é possível nesse tipo de escultura, concebida com a montagem das mais diferentes peças de sucatas de ferro, que não permite uma moldagem total, pode-se afirmar que ele é um figurativista de alta linhagem, mas sem ser um copiador servil e fotográfico da natureza, porque sabe distorcê-la artisticamente, adicionando elementos colhidos na imaginação, na mitologia, nos sonhos, podendo-se tirar a conclusão de que ele agrega a algumas de suas esculturas, com muito refinamento e graça, elementos extraídos do surrealismo. Sem dúvida, pelo que pude perceber das peças constantes do álbum, é um dos maiores escultores do Piauí, e inegavelmente é um dos grandes artistas brasileiros. Por isso, não me chateei de ter o meu cochilo sido interrompido abruptamente. Até porque mergulhei num sonho maior e melhor, que é a arte mágica, supra e surreal de Braga Tepi.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS


NAS ÁGUAS DO VELHO MONGE

Flutuávamos, eu e minha mulher, no rio Parnaíba, o velho monge do poeta Da Costa e Silva. A paisagem, contudo, em certos trechos, parecia pertencer a outros rios. Descíamos ao sabor das águas, sem necessidade de esforço. Em certo ponto, passamos por debaixo de uma ponte inacabada, mas já em ruínas, que eu sabia pertencer ao rio Canindé. Adiante, vimos a visão deslumbrante de um brejo, rendilhado de aguapés e outras plantas aquáticas e pontilhado de imensos buritizeiros, de longas e largas palmas, refertos de cachos brônzeos, com frutos em formato de joias. Em outro local, a água parecia marulhar, em ondas miúdas, que mais se assemelhavam a borbulhas efervescentes. Depois, o rio se encontrava com um tributário, notando-se que suas águas seguiam paralelas durante um bom percurso. A textura e a cor das águas eram diferentes, de modo que se notava que eram dois rios, até se misturarem gradativamente alguns quilômetros abaixo. Em dado momento, falei para a minha mulher que estava com medo de uma corredeira que sabia existir, mas ela calmamente disse para eu não me preocupar. Como ela não demonstrou nenhum receio, terminei por ficar tranquilo. Num local em que as águas faziam um moroso remanso, havia umas pessoas tomando banho, uma das quais era do meu conhecimento. Enquanto passava lentamente, cheguei a conversar um pouco com esse banhista, que se mostrava feliz, a se esfregar freneticamente. Até então eu pensava que seguíamos numa boia invisível, mas de repente vi que não flutuávamos. Na verdade, levitávamos sobre as águas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Escritora e empresária Nileide Soares, cujo pai foi amigo do magistrado Raimundo Campos
Igreja de São Gonçalo, em Regeneração

10 de fevereiro de 2010

Em virtude da reforma que será feita no prédio do Fórum Dr. Raimundo Campos, desta Comarca de Regeneração, foi feita a mudança da repartição para uma casa antiga, situada no centro histórico da cidade, mais perto da matriz de São Gonçalo, santo de origem portuguesa, em cuja honra existiam as antigas rodas e cantigas que levavam seu nome, hoje quase extintas, sem ninguém que as dance, sem ninguém que as cante. Há quem diga que São Gonçalo do Amarante, tradicionalmente conhecido como alegre, festeiro e violeiro, não chegou a ser canonizado, mas teria chegado apenas ao posto de beato nos procedimentos católicos. De qualquer forma, o povo o canonizou e ele tornou-se santo de fato, e como tal é reverenciado por clérigos e profanos. O Dr. Raimundo Campos foi juiz de Regeneração e Amarante por vários anos. Homem sem jaça, de reputação ilibada. Nasceu em Oeiras, em 10 de agosto de 1881, descendente de importante estirpe da velha capital. Era pai do grande teatrólogo e professor piauiense José Gomes Campos, cuja obra prima é o Auto do Lampião no Além. Para que se tenha uma pálida ideia desse magistrado, basta que se diga que ele recusou a governança do Estado do Piauí e, posteriormente, o cargo de desembargador. Numa época de muita ganância, muito egoísmo e ânsia por cargos, uma atitude como essa causa admiração, senão mesmo perplexidade. Era ele um homem austero, talvez um tanto circunspecto, mas tratava todos com cordialidade e fazia suas obras filantrópicas, sendo certo que tinha o respeito e a consideração dos seus jurisdicionados. Contou-me Nileide Soares, que seu pai fora amigo do juiz e falava muito bem dele, considerando-o um homem correto e digno. Dele ficou a memória de um caso anedótico, em que teria dado uma decisão contra um homem por causa de um delito de pequeno potencial ofensivo, como se diz hoje. O infrator o abordou, insistindo para que ele desse um “jeitinho”. Pelo visto o chamado jeitinho brasileiro já deveria existir naquele tempo. O Dr. Raimundo Campos, com inegável senso de humor, respondeu-lhe que era formado em Direito e era juiz de Direito, e, portanto, não poderia ser torto, e indeferiu a súplica verbal de forma liminar e peremptória.

ARTE-FATOS ONÍRICOS


O CASO DAS BICICLETAS

Na cidadezinha acanhada, vi dois jovens a andarem com as bicicletas em veloz marcha à ré. O que mais me deixava estarrecido era o fato de que os dois ciclistas seguiam de ré em alta velocidade e sequer se davam ao trabalho de olhar para trás, embora estivessem em uma praça, com bancos, jardins e outros eventuais obstáculos. Também me impressionava o fato de que as bicicletas não pendiam nem para um lado nem para o outro, e mantinham um perfeito paralelismo e equidistância, como se estivessem fixadas em invisível trilho. Eu me perguntava como é que aquelas duas bicicletas, de tecnologia tão avançada, chegaram àquela aldeola perdida, quando sequer chegaram similares à capital. E o que mais me impressionava é que pareciam duas bicicletas comuns, como tantas outras que vemos no cotiano, sem aparentemente nenhuma sofisticação. Depois, recordei as feições dos ciclistas. Pareciam gêmeos, ambos de feições inexpressivas. Os olhos, imóveis, vazios, pareciam nada fitar, nada enxergar. As faces não demonstravam emoções. Estavam vivos, pois pedalavam vigorosamente, mas pareciam dois bonecos de cera, ou dois fantoches sem fios. Com a mesma rapidez com que faziam a bicicleta andar para trás, instantaneamente a faziam retornar para a frente, para o ponto de partida. Fiquei com a nítida impressão de que os ciclistas eram de uma outra dimensão ou não mais pertenciam a este mundo. Por frações de segundo, olhei para um cachorro que passava lentamente. Quando voltei a olhar para as bicicletas não mais as vi. Não sei se simplesmente desapareceram ou se voaram em estonteante velocidade para outra dimensão de onde podem ter vindo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


9 de fevereiro de 2010

Nesta madrugada sonhei que participava de um encontro de literatos, sobretudo poetas. Só gravei do sonho o momento em que o poeta Rubervam Du Nascimento discursava. Não recordo suas palavras. Eu o via em carne e osso, mas era como se o visse através de um televisor. Meus olhos pareciam ter uma espécie de zoom, pois o seu rosto parecia estar enquadrado em um close, de modo que não lhe via o restante do corpo. Conheço-o desde os idos de 1978, quando ambos éramos colaboradores da página literária coordenada pelo vate Menezes y Moraes, e quando houve uma forte interação cultural entre poetas teresinenses e parnaibanos. Nessa época existiu uma forte aproximação literária entre as duas cidades. Poetas da capital e litorâneos fizeram parte das mesmas antologias e coletâneas. Foram partícipes dos mesmos eventos literários. Certa vez, Rubervam foi a Parnaíba a serviço de sua repartição. Fui visitá-lo no hotel em que se hospedou. Trouxera uma pequena máquina de escrever portátil, e com todo o entusiasmo de sua juventude produziu alguns poemas no apartamento. Depois, ao longo da vida, mantivemos a amizade, mas nunca nos frequentamos com assiduidade. Contudo, sempre mantivemos uma admiração e fraternidade recíprocas. Quando nos encontramos, casualmente ou não, a conversa flui com muito entusiasmo e alegria. Embora não tenha ele se transformado num ermitão, tornou-se um tanto arredio a certas instituições e confrarias, sobretudo as de elogio recíproco e as de caráter corporativista. O poeta nunca aceitou e nunca fez concessões espúrias. Sempre manteve a sua postura um tanto reservada e arredia, embora seja cordial e de fácil convívio. Manteve sempre a sua linha poética, comprometida com o novo e com a pesquisa, buscando sempre as soluções inventivas, e não as de fácil apelo ao gosto popular. Mantém-se íntegro e fiel a si mesmo. Ganhou dois importantes prêmios literários nacionais, com dois de seus livros, mas, ao que parece, nunca fez questão de divulgá-los na província. Casado, há muitos anos, com a poeta Carmen Gonzalez, que oficia na sua mesma linhagem poética, que busca a síntese, o inusitado e a inventividade. Seguindo na contramão do usual, publica seu principal livro, A Profissão dos Peixes, a cada cinco anos, em edição revista e diminuída, de modo que essa obra se torna cada vez mais magra, como se passasse por radical lipoaspiração literária. Num paroxismo, poderíamos dizer que o poeta poderia alcançar a síntese ou o símbolo do peixe, que seria talvez a sua espinha, ou seu fóssil estampado em alguma pedra multimilenar.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

O poeta Cunha Neto, entre sua mulher, dona Ana, e sua filha, Ana Maria.

7 de fevereiro de 2010

Recebi, nesta manhã, telefonema de meu pai, que noticiava o falecimento do poeta Cunha Neto, ocorrido em Campo Maior, de madrugada. Meu pai havia ido ao velório. Não pude ir ao sepultamento do bardo. Tenho recordações antigas dele. Quando eu tinha por volta de nove anos de idade, vi um folheto de sua autoria, que o meu pai recebera na missa matinal de domingo, a que tinha ido assistir na matriz, hoje catedral. O cordel falava sobre o festejo de Santo Antônio do Surubim, padroeiro da cidade. Cantava as proezas e a coragem dos vaqueiros, que são homenageados na festa religiosa, com um dia a eles dedicado. Senti orgulho do conterrâneo, e – por que não confessar? – uma certa inveja. Imaginei o meu nome estampado em um livro. Mas só fui despertar de verdade para a literatura um pouco mais tarde. Tempos depois, vi outros livretos do poeta, com poemas que falavam da lagoa do Corró, da saudade, e das belezas arquitetônicas e naturais de Campo Maior. Zé Cunha Neto era um autêntico cordelista, também chamado de poeta de gabinete, porque maneja a palavra escrita, mas não era um repentista, cuja principal característica é improvisar, acompanhando-se por uma viola. Foi meu amigo e amigo de meu pai. Quando tomei posse de minha cadeira na Academia do Vale do Longá, Zé Cunha me prestou uma enternecedora homenagem, declamando um poema de sua autoria sobre a minha pessoa. Não precisaria acrescentar que fiquei deveras comovido. Isso significa que o poeta era despojado da mesquinha inveja e sabia reconhecer as qualidades de outra pessoa, de outro poeta. Era um cidadão de bem e do bem. Sua mulher, dona Ana, foi uma boa e sábia companheira, que soube amparar e compreender o grande poeta popular. Nos últimos anos, vinha amargando forte depressão, que torturava seu espírito, tornando-o quase recluso, retraído, quando outrora fora alegre, expansivo e sociável. Lembrando-me dos seguintes versos de Antero de Quental: “Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração”, tenho a certeza de que o coração bondoso e tão sofrido do poeta Cunha Neto encontrou abrigo, amparo e lenitivo na destra do Senhor.

* * *

À tarde, quando eu voltava de um passeio a um balneário de Timon, vi, na avenida Joaquim Ribeiro, um rapaz tentando entrar num casebre, batendo vigorosa e insistentemente na porta, que permaneceu fechada. Não sei se alguém respondeu às insistentes batidas, com alguma negativa. Sei que o rapaz afastou-se e foi sentar em uma soleira de porta, próximo. Começou a sorrir, aparentemente sem nenhuma razão. Talvez risse de si mesmo ou da possível negativa, que recebera. Seus cabelos eram esquálidos, maltratados; as roupas, velhas e manchadas, e o seu aspecto geral era de sujeira, como se ele não cuidasse de si mesmo. Os que estávamos no carro, achamos que ele parecia estar drogado. Por tudo que tenho visto, lido e ouvido, considero que a droga foi o grande flagelo do final do século passado, e parece que continuará a ser o mal deste século XXI. Traz grandes malefícios ao viciado, que termina sendo um tormento, inicialmente, para a sua família, ao exigir dinheiro para o sustento do vício, e depois para a sociedade, quando começa a furtar e a roubar, para poder adquiri-la. Segundo os estudos e as observações, o crack vicia logo na primeira ou segunda vez em que é fumado, prejudica o cérebro e a saúde do dependente e muitas vezes o leva à morte. Na ansiedade e na compulsão pela droga, o usuário é capaz até mesmo de assaltar e matar, e nesses momentos a sua consciência e freios inibitórios morais ficam completamente desativados. Às vezes, o crime hediondo é cometido contra parentes próximos e pessoas que o dependente amava. E a sociedade se queda perplexa, impotente, diante da brutalidade e da barbárie que se instaura, sem nenhum sentido e de forma avassaladora.