segunda-feira, 31 de outubro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


O SAMUEL BENCHIMOL QUE JOÃO RENÔR CONHECEU E ADMIROU

Elmar Carvalho

Encontra-se à venda na Academia Piauiense de Letras o livro “O Samuel Benchimol que eu conheci – um homem apaixonado pelo mundo amazônico”. A obra comemora a 8ª edição dos prêmios Professor Samuel Benchimol e Banco da Amazônia Empreendedorismo Consciente. A solenidade de outorga será em novembro próximo, na Federação das Indústrias do Estado do Amapá – FEAP.

O livro enfeixa as cartas trocadas entre o professor doutor João Renôr Ferreira de Carvalho e o professor Samuel Benchimol, no período de 1978 a 1982, quando o primeiro fazia seus altos estudos universitários em Lisboa e Paris. Como na época ainda estava em pleno vigor a ditadura militar as cartas eram enviadas através de um amigo de Benchimol, para que não pudessem ser interceptadas, caso remetidas pelos Correios.

A obra, publicada pela Ética Editora, é divida em cinco partes: transcrição das cartas remetidas por Benchimol para Renor; cartas enviadas pelo segundo para o primeiro; fac-símiles das cartas da lavra de Benchimol; anexos às cartas e índice onomástico, com síntese biográfica.

Samuel Benchimol foi um judeu brasileiro amazônida, que se tornou um empresário bem sucedido, graças ao seu esforço e trabalho, sem nunca abandonar seu ideário de homem de esquerda e sua marcante vocação intelectual e magisterial. Sobre ele diz o professor João Renôr que foi um homem que “em toda a sua existência praticou os valores do humanismo e da democracia, revelando ao povo do Amazonas o que era o pleno exercício da fraternidade, da generosidade e da lealdade.

Graças, em grande parte, ao esforço conjugado de João Renôr e Samuel Benchimol o acervo de manuscritos da Capitania do Rio Negro (hoje Amazonas) pôde ser transferido de Portugal para a Universidade do Amazonas. E isso foi uma obra de valor inestimável, que, por si só, já dignifica uma vida.

domingo, 30 de outubro de 2011

Muitas saídas e poucas soluções



CUNHA E SILVA FILHO

Às vezes, me pergunto como justificar tantos volumes de páginas sobre religiões foram gastos, tantas descobertas científicas foram feitas, tantos compêndios de direito, da família, cível, do trabalho, processual, constitucional, de filosofia, do trabalho, organizações dos direitos humanos, de proteção aos idosos, de proteção à infância e à juventude, aos animais, ao meio ambiente, se, na prática, pouco coisa sobra de eficaz, de constante, de útil para todos nós.
Acima das línguas, das etnias, dos costumes, das práticas sociais, dos desejos de paz universal persistem as oposições, os inimigos dos semelhantes e da humanidade, dos seres que no Planeta só vieram provavelmente para o cometimento do mal e da sua difusão.
Fazer o bem, sempre digo, é um ato dificílimo requer muita grandeza da alma, muita renúncia, muito amor ao próximo e tabmém muita incompreensão. Por isso, os santos, os limpos de espírito, os defensores da paz, da humanidade, do Terra, das crianças, dos idosos, dos fracos são poucos. Razão tem/tinha/terá Drummond, o grande bardo de Itabira “Mundo, mundo, vasto mundo/, se eu me chamasse Raimundo/, seria uma rima, não uma solução.”
Os tempos atuais não são aqueles dos melhores mundos possíveis. Muito ao contrário. Para onde olhamos, nos cercam de apreensões, de projeções, em geral, mais sombrias do que radiantes. A Terra me lembra uma “Serra das confusões.” Ou seria uma Wasteland elliotiana?
Instituições antigas, com a família, a igreja, para ficarmos só nestes dois exemplos, atravessam uma fase terrível de desapreço e de desmoralização com fundamentos que saem do próprio seio de cada uma. Como pode um igreja exigir dignidade de comportamento sexual se, no seio dela, campeia práticas torpes de sexualidade, com notícias comprovadas abertamente pela mídia internacional? Como ser pai e ao mesmo tempo ser acusado de pedofilia praticada contra o seu próprio sangue? Em que mundo estamos? Como igrejas conseguem arrancar de ignorantes anestesiados por espertalhões que aos templos entregam o que não têm, confiantes na ilusão do paraíso aqui na Terra de verem seus modestos desejos transformados em realidades que dispensariam a mediação enganosa daqueles que oferecem “migalhas” de seus minguados salários ou economias que irão se transformar em corporações de negócios milionários nacionais e transnacionais. Algumas seitas religiosas se transformaram na galinha de ovo de malabaristas engravatados.
O que falta ao meu país é sobretudo o instrumento inadiável de uma educação pública ou privada de qualidade. Alunos conscientes politicamente dos seus direitos e deveres de cidadania, de estar sempre com o pé no chão, não se deixarão embair por vendilhões e embusteiros não só no país mas no mundo todo.
O respeito às religiões é preceito constitucional, mas não quando o limite da Lei passa a ser instrumento de alienação para incautos e para uma população ignorante. Respeita-se a religião desde que ela não venda ilusões de bem-estar e de felicidade na sociedade civil. Pedir ajuda financeira dentro de limites compatíveis é uma coisa, mas praticamente “obrigar” alguém a contribuir já é uma ato ilegal.
Um país afundado na ignorância escolar é presa fácil de um lobo vestido em pele de cordeiro, ou até mesmo sem pele de cordeiro.
O alimento espiritual, as orações sinceras, o sentimento da fé em qualquer denominação religiosa séria fazem parte da unidade do ser. De resto, independente da religiosidade, tudo o que o homem faz ou pensa em benefício do seu semelhante, sem segundas intenções, merece louvores. Há ateus de alma de santo, como há “crentes” só de aparência.
Sejam, pois, bem-vindas todas as denominações religiosas contanto que despidas de interesses escusos, de exploração de ingênuos, de usos e abusos de subterfúgios solapadores dos minguados recursos da cegueira dos despossuídos da sociedade brasileira. Não confundam Deus com o vil metal do capitalismo mundial, motivo talvez maior das grandes desgraças da globalização tecnocrata, sorvedouro do que resta dos sentimentos nobres da Humanidade contemporânea.

sábado, 29 de outubro de 2011

O S F U N D A D O R E S - FENELON CASTELO BRANCO



REGINALDO MIRANDA

Nasceu Fenelon Ferreira Castelo Branco em 22 de maio de 1874, na fazenda “Veremos”, Município de Barras. Foram seus genitores Manuel Thomaz Ferreira(2.º do nome) e sua segunda esposa Maria de Jesus Leal Castelo Branco, esta filha do coronel Lívio Lopes Castelo Branco, um dos líderes insurretos da Balaiada, e Bárbara Maria de Jesus Castelo Branco, descendendo, assim, de ilustrada estirpe.
Iniciou as primeiras letras na própria fazenda, com seus familiares. Mais tarde, mudou-se para Teresina, Capital do Estado, matriculando-se no Liceu Piauiense, onde cursou os estudos Preparatórios, concluindo-os por volta de 1890. Com gosto especial pelos estudos de humanidades, seguiu para o Recife, matriculando-se na Faculdade de Direito, por onde recebeu o grau de bacharel em 1894. Nessa época, participa do movimento estudantil e da vida cultural recifense.
De regresso ao Piauí, demorou-se pouco tempo, mudando-se para o Maranhão, onde ingressa no Ministério Público, servindo como Promotor nas comarcas de Barreirinha e Rosário. Mais tarde, passa à magistratura, exercendo o cargo de Juiz de Direito nas comarcas de Picos, hoje Colinas, e Pastos Bons. Entretanto, saudoso de sua terra, depois de 14 anos, pede exoneração do Tribunal de Justiça do Maranhão e retorna ao Piauí em 1908. Nesse mesmo ano reinicia sua carreira na magistratura como Juiz Distrital de Barras, sua terra natal, onde permanece no período de 1908 a 1910. Durante esse período fixou residência na vizinha cidade de União, “onde fundou um colégio, dividindo, assim o seu tempo entre os misteres da magistratura e a educação da mocidade” (GONÇALVES, Wilson Carvalho. Fenelon Castelo Branco. In: Os Fundadores. Teresina: APL, 1997).
Ascendendo novamente ao cargo de Juiz de Direito, foi titular da comarca de Floriano, de onde passou para uma das varas da comarca de Teresina, onde trabalhou nos últimos anos de sua existência. Era um magistrado culto e de bom conceito, no dizer de seu primo Cristino Castelo Branco (Frases e Notas). Foi um dos caráteres mais nobres do seu tempo, anotou o conterrâneo barrense Wilson Carvalho Gonçalves(op. cit). De fato, foi um magistrado probo, íntegro e imparcial, que honrou a toga piauiense.
Todavia, “sentindo como o desembargador e poeta português Antônio Ferreira que não fazem mal as musas aos doutores, antes ajuda às suas letras dão, dava-se à poesia, versejando com grande facilidade. Era mesmo poeta de delicada sensibilidade, como provam várias composições esparsas em jornais e revistas, e esse livrinho de dor, saído do coração – Um ano de luto” (Cristino Castelo Branco, op. cit.).
Dedicado às musas, não aderiu ao Modernismo, demonstrando em seu estilo “resquícios do romantismo e alguns laivos parnasianos e simbolistas” (Wilson Carvalho Gonçalves, op. cit.). Cultivou os gêneros lírico, elegíaco e satírico. Sua temática é voltada predominantemente para a família, a amizade, a vida acadêmica, a terra natal, a saudade e a crítica satírica, afirmam José Carlos Cruz e Margarida Leite, que estudaram sua obra(100 Anos depois. In: GONÇALVES, Wilson Carvalho. Fenelon Castelo Branco. In: Os Fundadores. Teresina: APL, 1997). Publicou Ano de Luto (1902, em homenagem à memória de sua primeira esposa), União por Dentro(1916), Das Galerias(1917) e Nossos Imortais(), os três últimos publicados sob pseudônimos; deixou inédita a obra com o título Cronologia da Família Castelo Branco do Piauí; por fim, colaborou em vários órgãos da imprensa, sobretudo nas revistas da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense.
Partícipe das atividades culturais no Estado, em dezembro de 1917, foi um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, tomando assento na Cadeira n.º 03 e sendo eleito secretário de sua primeira Mesa Diretora. Por quase oito anos, quando veio a falecer, “foi Fenelon Castelo Branco, pelo esforço e dedicação inexcedíveis, como primeiro secretário, um dos maiores animadores da Academia Piauiense, que ajudou a fundar, e que se lhe tornara verdadeira obsessão. A propósito dela, mantinha viva correspondência com homens de letras e instituições culturais de outros Estados e da capital do país. Escreveu em versos o perfil dos acadêmicos e respectivos patronos. Minuciosas e bem cuidadas as memórias históricas da instituição, feitas por ele e publicadas na revista acadêmica, que saía pontualmente, graças aos seus esforços” (CASTELO BRANCO, Cristino. Frases e Notas; Rio: 1957).
Em primeiras núpcias casou-se com sua prima Ana Fortes Castelo Branco, filha de Mariano Fortes Castelo Branco e Felisbela Sampaio Castelo Branco, de cujo consórcio não houve filhos. Com o falecimento prematuro da jovem esposa, em 07.06.1902 contraiu novas núpcias com outra prima, sendo desta feita com Lina Fortes Castelo Branco, irmã da primeira esposa, e com quem gerou cinco filhos, a saber: Ana, José, Raimundo, Domingos e Maria Dolores Fortes Castelo Branco, hoje com grande genealogia.
Fenelon Ferreira Castelo Branco, faleceu em 27 de fevereiro de 1925, na cidade de União, onde foi sepultado. Como mostra de sua poesia, transcrevemos a denominada Meu Álbum, a saber: “Do meu álbum na folha cor de rosa,/Onde o amor filial canta e fulgura,/Dedico à minha mãe, meiga e bondosa,/Todo o meu ser repleto de ternura.//E na página branca o doce emblema,/Dum sentimento que jamais se esvai,/Entre as belas estrofes de um poema/Escreverei o nome de meu pai.//Relembrarei aqui todo o martírio,/Toda a mágoa que um dia me envolveu,/Conservando na folha cor de lírio/A saudade da esposa que morreu.//Como um astro fulgurante e luminoso/Surge depois a página doirada,/Onde cintila o vulto gracioso/De quem me trouxe à vida outra alvorada.// Aos meus filhos, um bando de crianças,/Meigas e frágeis, como passarinhos,/Na folha verde, um ninho de esperanças/Lhes tecerei com beijos e carinhos.//A folha azul tão linda e recamada/De flores, as mais belas louçãs,/Representa uma abóboda estrelada!//E esse livro elegante e primoroso,/No que o meu amor todo concentro,/Guardo-o sempre num cofre precioso/-Meu próprio coração – Ei-lo lá dentro!”.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO




28 de outubro

SERTÕES DE BACHARÉIS

Elmar Carvalho


Foi lançado na quarta-feira, dia 26, à noite, o livro Sertões de Bacharéis – o poder no Piauí entre 1759 e 1889, de Jesualdo Cavalcanti Barros, no auditório do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, do qual o autor foi presidente; em sua gestão foi construída a sede própria desse órgão fiscalizador e controlador de contas públicas. Em várias legislaturas, foi deputado estadual e federal, tendo sido constituinte do congresso nacional. Na presidência da Assembleia Legislativa, construiu-lhe um prédio anexo, consolidou o seu sistema de informática, além de haver imprimido melhorias no serviço administrativo da casa. Foi, ainda, dinâmico e realizador secretário da Cultura, Desportos e Turismo do Piauí, tendo, entre várias outras importantes obras, criado o Projeto Petrônio Portella, que editou notáveis obras inéditas e reeditou valiosas obras literárias e historiográficas, sempre através do crivo de um rigoroso Conselho Editorial. O Poemágigo – a nova alquimia,de que fiz parte, juntamente com os poetas Alcenor Candeira Filho, Paulo Véras, Jorge Carvalho e V. de Araújo, foi publicado através desse Projeto, em 1985. Na parte de incentivo ao turismo, construiu vários hotéis e pousadas em cidades que tinham potencial turístico. Em suma: como administrador público sempre se houve com zelo, dinamismo e criatividade, e, portanto, seguiu o princípio constitucional da eficiência.

Ainda faltando alguns anos para ser atingido pela aposentadoria compulsória, resolveu aposentar-se, quando a maioria dos detentores de cargos públicos de tal envergadura só saem no “cisco”, na chamada “expulsatória”, ou por doença, ou quando ceifados pela “indesejada das gentes” do poema bandeiriano. Passou a se dedicar, com afinco extraordinário a suas pesquisas historiográficas, em invejável e hercúleo trabalho de pesquisa, em disciplina quase espartana, a escarafunchar e farejar velhos documentos e carcomidos periódicos de épocas remotas, bem como numerosos livros, devidamente relacionados na bibliografia.

Essa garimpagem investigativa não se limitou aos arquivos piauienses, mas estendeu-se aos anais da Universidade de Coimbra, em Portugal, às Faculdades de Direito de Recife e de São Paulo, e às Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, assim como aos arquivos das demais academias oriundas do Império. Evidentemente, fez todo esse esforço, em que gastou tempo, dinheiro, trabalho e reflexões, para não ser um mero repetidor e condensador das obras básicas da historiografia piauiense. De posse das anotações de suas pesquisas, empreendeu um trabalho de interpretação, estribado em documentos e livros, pautado em raciocínio lógico e verossímil, e não fantasioso, como é comum nos dias de hoje, praticado sobretudo por aqueles que, a pretexto de serem adeptos de pretensa “história moderna”, não se querem dar ao trabalho de ir às fontes legítimas e legitimadoras da possível verdade histórica.

Suas afirmativas e ilações são fundamentadas no cotejo de livros e documentos, e muitas vezes lastreadas em breves intertextualizações e citações, não com o fito de arrotar balofa e enfatuada erudição, mas de provar o que afirma, o que, ademais, é comprovado em sintéticas notas de pé de página. Em algumas laudas, faz a contextualização do corte cronológico que se propôs abordar, registrando o panorama social e histórico do período tratado, bem como se reportando aos seus principais fatos e atos. O livro, fazendo jus ao título e subtítulo, traça o perfil biográfico dos mais notáveis administradores e políticos do Piauí, mormente o de “jovens bacharéis que a Coroa, em rotatividade surpreendente, enviou para governarem o Piauí durante o Segundo Reinado”.

Não se trata, apenas, de verbete biográfico, próprio para dicionários biográficos e enciclopédias, mas de pequenos ensaios, densos de conteúdo, lastreados pelas leituras de diversos documentos, livros e jornais, em que os principais fatos e atos da gestão governamental são referidos. Em relação à pesquisa em jornais, o autor faz grave denúncia, quando afirma que o “Arquivo Público do Piauí, abrigado na Casa Anísio Brito, não mais possibilita o acesso às coleções de jornais dos anos mil e oitocentos, nos quais poderiam ser esclarecidas dúvidas e supridas omissões”. Causa espécie essa situação vexatória, uma vez que com os recursos tecnológicos dos dias atuais, esses periódicos poderiam ser digitalizados (escaneados), e colocados à disposição do consulente, através de CD, com irrisório gasto financeiro e sem dano aos documentos originais. E com mais conforto e menos dispêndio de tempo e dinheiro para o pesquisador, que poderia executar o seu trabalho em casa ou em qualquer outro lugar. Em alguns dos estudos biográficos enfeixados no livro, dá para se perceber as principais características da personalidade e do estilo do biografado. A obra traz importantes anexos, entre os quais destaco o de número III, que relaciona os governantes do Piauí com curso superior, com a indicação do curso e do ano de diplomação.

Ressalto que no período abordado por Jesualdo (1759 – 1889), 61 desses administradores eram formados em Direito, com exceção de 3 médicos, 1 engenheiro, 1 padre e 1 militar. Portanto, fazendo a dedução, 55 eram bacharéis. Daí a razão do título: os Sertões de Dentro, formados pelo atual território do Piauí, em contraposição aos Sertões de Fora, que compreendiam o estado da Bahia, no corte cronológico objeto da obra, foi governado predominantemente por bacharéis, entre os quais avultam as figuras de Zacarias de Góis, Saraiva, Franklin Dória e José Manuel de Freitas.

Curiosamente, a Coroa enviou para a administração do Piauí provincial, ao longo de 46 anos, 8 maranhenses, 7 baianos, 5 pernambucanos, 4 mineiros, 3 cariocas, 3 cearenses “e outros adventícios menos votados”, com a finalidade de impedir o reflorescimento de ciclos oligárquicos, que retornaria no alvorecer do regime republicano. Todas essas interessantes e curiosas informações, além de muitas outras a que não pude fazer referência, foram vertidas em límpida, concisa e direta linguagem, em admirável trabalho de revisão gramatical e de dados e datas, entremeadas por diversas e elucidativas ilustrações e legendas, e sem redundantes circunlóquios e afetados e desnecessários ornatos. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



27 de outubro

MEUS LIVROS

Elmar Carvalho

Em outubro do ano passado, mudei-me para minha atual residência, juntamente com minha mulher e meus filhos. Mas somente agora, um ano depois, estou a concluir a reorganização de minha biblioteca. No dia 15 de setembro de 1975 fui admitido como empregado dos Correios (ECT), lotado em Teresina. A partir dessa data, comecei a comprar os livros que ao longo de todos esses anos formaram seu acervo. No começo de 1977, consegui minha remoção para Parnaíba, a fim de cursar Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso, da UFPI. Continuei a adquirir livros. Para assumir o meu cargo de fiscal na extinta SUNAB, a 10/08/1982, retornei para Teresina. Prossegui em minha aquisição de obras literárias e revistas. Enquanto solteiro, mudei-me de casas e “repúblicas” algumas vezes. Nessas mudanças, perdi alguns livros. As traças e cupins me devoraram muitos outros, assim como antiliterárias goteiras. Os empréstimos a amigos e conhecidos, sem observância do VV (Vai e Volta), me deram cabo de outros mais, cuja perda de alguns ainda sinto e lamento.

Como estava dizendo, em outubro passado saí da casa em que morei durante mais de vinte e cinco anos, no bairro Memorare. Durante esse tempo conservei o mesmo número de telefone fixo. Como não a vendi, mantive a biblioteca nela, durante vários meses. Gradativamente, fui levando alguns volumes, por necessidade de rápidas consultas, conquanto não seja propriamente um pesquisador, como sabem meus raros leitores e amigos. Depois de reparar e pintar a velha morada, para poder alugá-la, fui forçado a retirar os livros, que já atingiam alguns poucos milheiros. Fátima, minha mulher, providenciou o encaixotamento desses milhares de amigos de papel. Ajudei a carregar as pesadas caixas de papelão, tendo que subir ou descer várias vezes íngreme escada. Na minha idade, essas travessuras são arriscadas, e não sei como não sofri alguma avaria em meu esqueleto, uma vez que muitas pessoas ficam “descadeiradas” por causa desses esforços inabituais.

Embora a casa fosse simples, ao longo de 25 anos a fui reformando e ampliando, de modo que pude abrigar os meus livros, em três diferentes compartimentos, embora nem sempre de forma muito adequada. Somente após ampliar a nova casa, com a construção de um dormitório e uma varanda, pude, como já disse, levá-los. Por vários meses, as várias caixas ficaram empilhadas na varanda, até que eu pudesse tomar um fôlego financeiro, e mandasse construir uma estante, no compartimento que será uma espécie de escritório e biblioteca. Minha mulher se encarregou dessa parte, discutindo com a empresa o formato do móvel embutido. Dei alguns palpites, no sentido de ampliar a parte destinada aos livros. Finalmente, na quinta-feira, dia 13, a bendita estante foi montada. Desde então, até o domingo passado, em meus dias de folga, estive pessoalmente a colocar os volumes na prateleira, com a ordem que lhes queria dar, conforme o tamanho, o assunto e observando o fato de formarem ou não coleção, bem como para executar novos e mais radicais descartes, cuja necessidade logo antevi.

Como dizem os demagogos de plantão, tive de cortar na própria carne. Ao adquirir a nova casa, sabia que iria ter de desfazer-me de várias obras, por insuficiência de espaço, mesmo tendo feito a aludida ampliação. Quando comecei a colocá-las na estante, logo percebi que teria de descartar muito mais do que havia pensado. Para mim já é um prenúncio das coisas que haverei de deixar, quando fizer a viagem definitiva. Começo, pois, a aprendizagem de meu processo de desapego aos bens materiais, de que me considero apenas procurador ou vaqueiro. Já no trabalho de encaixotamento, fui separando alguns livros, de literatura ou história, para doar à biblioteca pública de Campo Maior; os jurídicos, doarei à biblioteca do CENAJUS, órgão dirigido pelo amigo Carlos Brandão, juiz federal; entregá-los-ei ao magistrado Paulo Roberto Barros, maçom paradigmático, que lhes há de dar a adequada destinação.

Os destinados a Campo Maior, entregarei pessoalmente ao meu amigo Soares (José Soares da Silva), com algumas orientações, para que ele os repasse ao acervo da Biblioteca Pública Municipal, onde, entre outros dedicados servidores, o escritor, historiador e acadêmico Moaci Ximenes velará por eles. Somente agora me dou conta de que, na intermediação do Soares, há um simbolismo muito expressivo e importante para mim; é que, no início de minha adolescência, ele me repassou vários romances, sobretudo da autoria de José de Alencar, pertencentes à biblioteca do senhor Antônio Cardoso de Oliveira, que fora coletor estadual e chefe da Mesa de Renda no município. Leitor extremamente voraz, na época, eu logo os devolvia, para receber sucessivamente novos volumes. Muitas das obras que doarei ostentam o autógrafo de seus autores, alguns de minha profunda amizade e admiração. Espero que me perdoem. Mas preferi entregar os seus livros aos cuidados da biblioteca pública de minha terra natal, onde os leitores maduros, de longa cabotagem, e os jovens estudantes poderão apreciar suas páginas, do que deixá-los encaixotados, como em urna fúnebre, na varanda de minha casa.

 Caro amigo Elmar Carvalho:
Na parte em que você fala nesta crônica – Meus livros – sobre o destino de seus livros, senti uma ponta de desânimo seu com respeito a descartes de volumes, falta de espaço e outras coisas. Não, Elmar, meu poeta lido e em parte estudado por mim, Você não pode pensar em ideia de limites existenciais ainda, pois é ainda muito moço e tem muito tempo para manter seu talento e sua criativade em movimento e em momentos de grande nível literário em relatos, em textos, enfim, que agradam a quem sabe reconhecer a responsabilidade do ato de escrever com amor e prazer pelo que faz.
Há muita água pela qual passar no caminho da vida intelectual. Esteja certo disso.
Cumprimentos do amigo,
Cunha e Silva Filho

O MEU PRIMEIRO LAR


ALCENOR CANDEIRA FILHO

Grande mangueira do meu lar primeiro
A cuja sombra, sozinho, sonhei
Os sonhos puros da mais pura infância
Em que ora eu era escravo, ora era rei!
(A.C. F.)

No,
       -- onde nasci brinquei sonhei
       e donde só saí crescido
       mala barba bigode
       para lá longe para o Rio de Janeiro

       apartamento materno dos avós Lourdes e Fenelon
       com retorno anos seis depois
       para a amada cidade amiga
       a Parnaíba onde ainda estou

       feliz envelhecendo à espera da
       inevitável fera essa bacante fúnebre
       que me espreita a mim como a outros
       a toda hora de qualquer instante --,

casarão da rua Grande
com jardim de belas flores
                                           dália
                                           lírio
                                           rosa
regadas por minha avó
com água do fundo poço
em balde puxado por corda
muitas árvores no quintal
                                          manga
                                          goiaba
                                          banana
                                          cajá
                                          sapoti
                                          maracujá
e em volta do casarão em suas paredes
janelas várias pó duas ruas
uma estreita outra mais larga
duas portas duas calçadas
sem contar com o portão que dava
direto para o quintal adentro
morada paterna de meus avós Raimundo e Gracita
e de meus pais até morrerem
e de um irmão e de duas irmãs
que por casarem os três
os três de lá saíram para suas casas novas
como igualmente assim também comigo
casado com casa na Costa Fernandes agora
e por isso tudo
do que abrigou família e pertences dela
nos perfumados ares de priscas eras
                                                             geladeira
                                                             fogão
                                                             mesa
                                                             poltrona
                                                             rádio
                                                             vitrola
                                       e assim em frente
                                       porque todo se perdeu
                                       sumiu desapareceu
sobramos só os irmãos nós
casados os quatro em suas casas novas
em verdade já um pouco velhas
sem a velhice remota e verdadeira
do velho casarão nosso
do qual como dizia nada mais existe
que tudo tombou sem tombamento
                                                      despensa
                                                      dormitório
                                                      varanda
                                                      banheiro
                                                      corredor
                                                      copa
                                                      cozinha
                                                      jardim
                                                      porão
                                                      quintal
a não ser
erigido sobre os escombros
na área tombada agora
um centro comercial
por onde às vezes ando
para pequenas compras
como em véspera de natal.

                                                2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


UM BELO FANTASMA DE MULHER

Elmar Carvalho

Meu nome é Jonas. Mas não sou nenhum profeta. Muito menos estive, por três dias e por três noites, no ventre de algum peixe. Nem mesmo em prosaico submarino. Contudo, não sou cético. Entretanto, não saberia dizer o tamanho de minha fé. Não sei se ela seria do tamanho de um grão de mostarda, ou se ainda menor, como uma subpartícula quântica. Às vezes, tenho a impressão de ter uma fé robusta, inabalável; outras vezes, embora em menor escala, fico quase a vacilar entre a dúvida e a crença. Nunca vi almas, nem abantesmas, nem discos-voadores. Para mim, realidade é realidade, mito é mito, fantasia é fantasia. Portanto, posso dizer, como no ditado popular, que nunca vi rastro de alma nem couro de lobisomem. Apesar de tudo isso, acredito que existem mistérios, que só são mostrados como sinais a uns poucos, que devem dar o seu testemunho. É exatamente isso que pretendo fazer. Devo dizer que, no meu entendimento, não existe mérito nem demérito em ter fé; simplesmente a temos ou não a temos, independentemente de nossa vontade. No entanto, acho que a fé é um consolo, e quem a possui sofre menos, por isso mesmo. Em muitas searas, acho mais prudente não acreditar nem desacreditar. Até os físicos quânticos parecem duvidar de suas próprias certezas ou incertezas. Por vezes, tudo parece ser incertas certezas ou relativas in-certezas.

Acredito que a vida vai continuar, de alguma forma. Não sei se imediatamente após a morte ou se depois, com a anunciada ressurreição do dia do Juízo Final. Não sei se há outras dimensões, se há universos paralelos. Numa dimensão infinita e eterna, tudo é provável ou possível. Sei que Cristo disse que na casa do Pai há muitas moradas. Como serão essas moradas? Variam em conforto, em bem-estar, em bem-aventurança, conforme o merecimento de seu ocupante? Tenho dúvidas, muitas dúvidas, mas apesar de tudo creio. Ou pelo menos creio que acredito; ou quero acreditar. Me apego a isso, com todas as minhas forças. Um dia saberemos, ou nunca saberemos. Tenho fé em que um dia o grande mistério da vida além da vida ou da vida após a morte nos será desvendado. Como disse, não sou nenhum Tomé, julgo que existem mistérios, além desta realidade prosaica, vulgar, cotidiana. Se víssemos os sinais e não acreditássemos, a nossa culpa seria imensa. Talvez por isso os mistérios sejam mostrados a uns poucos, de forma mitigada e em raros momentos, como sutis exceções. Talvez por isso Cristo tenha dito que bem-aventurados são os que não viram os seus prodígios e sinais, mas que acreditaram. Como disse, quero dar o meu testemunho. Relutei muito em fazê-lo, pois tinha medo de cair no ridículo e no deboche dos maldizentes. Todavia, senti-me no dever de relatar o que vi. Isso passo a fazer agora, já não me importa o escárnio a que possa ser submetido.

Meses atrás, estava eu num dos shoppings da cidade, perto do playground, num dia de domingo, enquanto minha mulher fazia compras no supermercado. Era cedo e quase não havia ninguém, já que as demais lojas ficam fechadas nesse dia. De repente, de meu banco, vi uma linda mulher à distância. Enquanto ela se aproximava lentamente, fiquei a contemplar sua beleza, suas curvas, sua epiderme clara, delicada, seus louros e encaracolados cabelos. Entretanto, ela não transmitia sensualidade nem energia vital, tal como a conhecemos. Aparentava não fazer esforço em seu lento caminhar. Dir-se-ia não notar a realidade circundante, da qual, ao que tudo indicava, não fazia parte. Parecia não ver, ou pelo menos não ver as mesmas coisas que eu via, como se não fosse deste mundo. Aparentemente não sentia o impacto da gravidade, quase como se estivesse a levitar, conquanto seus pés tocassem o chão, ou quase tocassem, não tenho certeza quanto a isso.

Quando passou por mim, foi como se não existisse ninguém. Caminhou em direção ao parque, que estava fechado e sem ninguém. Seguiu em direção ao Portal do Paraíso, cujo portão de madeira, apesar do nome, era bastante concreto e maciço, e estava hermeticamente fechado. Voltei a olhar no sentido contrário ao que ela tomou. Mas, de repente, saído do nada, sem nenhuma razão de ser, me veio um pensamento bobo, fora de propósito: “E se ela atravessasse o Portal, como se fosse um fantasma, uma mulher do outro mundo?...” Volvi minha cabeça para trás, no exato instante em que ela atravessava o pesado portão, como se ele sequer existisse, como se ela estivesse a entrar numa simples neblina ou cortina de fumaça. Poderia dizer que vi uma mulher do outro mundo, metaforicamente, pela sua beleza inefável, angélica, mas digo que vi, de fato, uma mulher do outro mundo. Não tenho explicações, não busquei e nem quero explicações. Quem quiser que as procure, para seu próprio uso e consumo. Apenas julguei do meu dever dar este testemunho. Como advertência, faço minhas as palavras de Jesus: “Felizes são os que não veem, contudo, creem.”

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

LANÇAMENTO DE SERTÕES DE BACHARÉIS


Os presidentes do Tribunal de Contas do Estado do Piauí e da Academia Piauiense de Letras, Joaquim Kennedy Barros e Reginaldo Miranda da Silva, já expediram os convites para o lançamento do livro Sertões de Bacharéis – o poder no Piauí entre 1759 e 1889, da autoria de Jesualdo Cavalcanti Barros, cuja solenidade acontecerá no dia 26 do corrente mês, às 10:30 horas, no auditório do Tribunal de Contas do Estado do Piauí.

domingo, 23 de outubro de 2011

UM DIA DE CHUVA



ALCIONE PESSOA LIMA

O dia promete: chuva, calor e o cansaço da luta...
Taxistas na escuta...
A cidade se movimenta.
E o sol se apresenta mostrando o horizonte.
No alto do monte, antenas de tevês...
Eu vejo a todos, mas ninguém me vê.
Cidade tão bela, que com o verde contrasta...
A plana chapada de raios e trovões...
Já é outro dia. E a promessa se cumpre...
Prenúncio de um tempo feliz...
Daqui, posso apreciar a vida, mesmo na cor cinzenta...
Imaginar os frutos que virão...
Saúdo a felicidade, com um brinde de cajuína...
E ninguém imagina o prazer de toda essa gente...
No frenesi aceso em cada farol...
Por onde anda o sol que quase não dá sossego?
Com vergonha, deve ser...
E a chuva não dá trégua...
E o dia será todo assim.

sábado, 22 de outubro de 2011

O S F U N D A D O R E S - LUCÍDIO FREITAS

REGINALDO MIRANDA
Presidente da APL



Nasceu em Teresina, a 5 de abril de 1894, filho do intelectual Clodoaldo Severo Conrado de Freitas e sua esposa Corina Freitas.
Fez os primeiros estudos no Liceu Piauiense, onde concluiu os Preparatórios. Orientado pelo pai, desde cedo adquiriu sólida cultura humanística. Compôs seus primeiros poemas ainda na adolescência.
Em 1912, aos 18 anos de idade, estreou em livro com Alexandrinos, coletânea de versos, em parceria com o irmão Alcides Freitas. O livro foi bem recebido pela crítica literária, angariando elogios. Por aquele tempo, a casa de seu pai era um dos pontos de encontro da intelectualidade piauiense. Nesse mesmo ano, preocupado com a preservação da memória cultural do Estado, distribuiu questionário aos intelectuais, depois publicando as respostas, com o objetivo de definir, na visão dos mesmos, quem era e quais foram os principais intelectuais do Estado, bem como avaliar o movimento literário local e as expectativas para o futuro (QUEIROZ, Teresinha. Os Literatos e a República. Teresina: FCMC, 1994).
Em 1914, aos 20 anos de idade, seguiu para o Recife, matriculando-se na Faculdade de Direito. Mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso, bacharelando-se em Direito no ano de 1916. Ainda estudante chegou a ser nomeado promotor público da comarca de Amarante, não tendo assumido efetivamente o cargo.
Durante sua estada no Rio de Janeiro, participa da vida literária, guiado por seus parentes Amélia de Freitas e Clóvis Bevilacqua.
Depois da formatura, retorna para Teresina, onde se demora por pouco tempo. Ainda em 1916, mudou-se para Belém do Pará, onde iniciou intensa atividade profissional. De imediato, passou a militar com destaque na imprensa local. Em 1917, publica Vida Obscura, seu segundo livro de poesia, que adquire grande aceitação no meio literário. Segundo a crítica especializada, Lucídio Freitas se afirmaria como um dos maiores líricos da poesia piauiense, com versos sonoros, rítmicos e perfeitos.
Por concurso público, assumiu a titularidade da cadeira de Teoria e Prática Processual na Faculdade de Direito do Pará. Sua tese foi publicada em 1919, com o título de Direito Processual. Por esse tempo, ingressa na magistratura, sendo nomeado Juiz Substituto da 4ª Vara Criminal de Belém. Portanto, ainda jovem estava com seu nome consolidado no Pará, como poeta, jornalista, magistrado e professor.
Em Belém, casou-se com a jovem paraense Maria Oceanira Amazonas de Figueiredo, de cujo consórcio gerou alguns filhos, entre esses Genuino Amazonas de Figueiredo Neto, residente no Rio de Janeiro.
O poeta Lucídio Freitas foi descrito por seu primo Cristino Castelo Branco, como loiro, bonito, amável, simples, alegre, comunicativo, bem educado, trajando sempre com esmero, causer delicioso, pleno de elegância, de graça, de espírito, de finura e de distinção, parecendo um ser à parte, baixado do Olimpo à terra (CASTELO BRANCO, Cristino. Vida Exemplar. Teresina: APL, 1922).
Todavia, conforme anotou Monsenhor Chaves, “quando tudo na vida lhe sorria, apareceram os primeiros sintomas da pertinaz moléstia que cedo o levaria ao túmulo” (CHAVES, Joaquim. Apontamentos Biográficos e outros).
No final de 1917, doente, veio a Teresina repousar por alguns dias. Entretanto, a atividade literária não permitiu o completo repouso. No início do mês de dezembro, no jardim público da Praça Rio Branco, profere conferência sob o título Elogio do Heroísmo, versando sobre a Guerra Mundial. Reuniu-se com a intelectualidade piauiense por diversas vezes e, em 31 de dezembro, presidiu a reunião fundadora da Academia Piauiense de Letras, passando a ocupar a Cadeira n.º 09, tendo por patrono seu falecido irmão Alcides Freitas. Mais tarde, também ele foi escolhido patrono da Cadeira n.º 23.
Com a saúde abalada pela tuberculose, retornou a Belém, onde continuou a sua atividade profissional. A doença agravou-se, retornando a Teresina por algumas vezes, e onde faleceu a 14 de maio de 1922, aos 28 anos de idade. Pouco antes do óbito, por iniciativa de seu venerando pai, foi publicado seu último livro, Minha Terra.
Essa síntese biográfica deixa transparecer a pujança intelectual de um jovem promissor falecido no alvorecer da vida, quando muito ainda poderia contribuir para o fortalecimento da cultura brasileira. Todavia, mesmo em sua curta existência legou ao povo piauiense a Academia de Letras, como seu principal idealizador. A ele, portanto, rendemos sinceras homenagens.
Enfermo, no leito de morte, com a família sofrendo muito, arrancou do velho pai, que já perdera outro filho, emoções em forma de sonetos: “Dou-te esperanças que não tenho, e ponho/ Nessa doce ilusão minha ventura.../Mártir do amor de pai, quanta amargura/Me punge ao despertar de cada sonho!//Eu nunca me prostei ante os altares/Nem jamais invoquei de Deus o nome;/Vendo entretanto o mal que te consome,/Ergo, contrito, ao céu tristes olhares!//Bem sei que as leis fatais da natureza/Não se amoldam jamais ao nosso pranto,/Não têm jamais da nossa dor piedade!//Na agonia mortal dessa certeza,/Contemplo a definhar, cheio de espanto,/Gênio, glória, beleza e mocidade!”. Também: “A esperança é o pão dos desgraçados.../Dele há muito me venho alimentando!/Onde o coração humano e quando/Golpes tão fundos recebeu dos fados?//Pobre Corina, companheira aflita,/Mais do que eu, talvez, desatinada!/Ai mãe! Triste mulher! Tão malfadada/Foste em tua prole, Niobe bendita!...//Sofro, dobrado, filho, o teu tormento,/Todo o meu ser concentro em tuas dores,/Minha vida, minh’alma e pensamento!// Sofresse o teu sofrer e eu pudesse/Transferir para mim tantos horrores,/Talvez menos horrores padecesse...”
Para finalizar, sobre a própria dor, bradou Lucídio Freitas: “Perscrutadoramente os olhos ponho/No que fui, no que sou, no que hei de ser,/E alucinado dentro do meu sonho/Sinto a inutilidade do nascer.//Nem o Amanhã da Vida me conforta./E eu sigo, enquanto minha estrela foge,/Amparado na minha própria sombra...//Para vencer, em meio à Vida,/Montei, fogoso, o meu corcel./De pluma ao vento, lança erguida,/Sonhando achar, em meio à Vida,/De ouro montanhas a granel...//Ah! Fui vencido em meio do combate/Pela força brutal da Realidade,/.............................../Os meus sonhos de glória feneceram./E eu fui sempre um sonhador divino./Cedi à leis fatais do meu Destino,/Doença da qual os meus Irmãos morreram...”.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


21 de outubro

MEMÓRIAS DE FRANCISCO CARDOSO

Elmar Carvalho


Devidamente convidado, para gáudio meu, fui ao lançamento do livro Memórias de Campo Maior, da autoria de Francisco da Silva Cardoso, meu conhecido há vários anos, de quem me tornei amigo e admirador. A obra foi patrocinada, organizada e prefaciada por Paulo Castello Branco Vasconcellos Filho, que ainda lhe fez a apresentação de lançamento. Contém belas ilustrações de Guimarães Júnior. O autor é parente próximo de três importantes amigos meus: Carlos Cardoso, José Ataíde e Otaviano Furtado do Vale. Os dois primeiros são irmãos sanguíneos, dos quais sou irmão maçônico. O lançamento “pegou carona” no aniversário de dona Lourdinha Brandão, mulher do escritor. Sentei-me à mesa em que estavam os amigos e professores Demerval Sousa e Sílvia Melo Sousa, com cujo casal entretive agradável e proveitosa conversa.


Posteriormente, sentou-se à nossa mesa o arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho, parente do autor e dos três amigos referidos acima. Embora nascido em Teresina, passou parte da infância em Campo Maior, na fazenda Rocio, então situada nos arredores da cidade, mas que faz algumas décadas se constituiu em bairro da velha urbe. Na velha casa, salvo engano, nasceu o grande teatrólogo Francisco Pereira da Silva, um dos maiores do Brasil; uma de suas peças ficou em cartaz na Alemanha durante vários anos, o que demonstra o seu imenso valor. O poeta H. Dobal, em versos, disse haver tomado banho de leite em fazenda campomaiorense. Naturalmente, também deve ter bebido leite mungido, morno, gostoso, tirado na hora, no momento da ordenha.

Olavo é hoje uma das maiores autoridades a respeito do patrimônio arquitetônico do Piauí, já tendo escrito trabalhos sobre a construção das velhas casas de fazenda, e sobre a arquitetura urbana de Oeiras, Amarante, Parnaíba e Campo Maior. Segundo ele, apesar da destruição e mutilação de muitos prédios, o conjunto arquitetônico campomaiorense é ainda hoje um dos mais ricos do estado, sobretudo pelo fato de que muitas casas e solares, ao menos na parte interna, ainda conservam suas linhas e formas originais. Combinamos fazer algum evento em prol da conservação desses velhos edifícios. Talvez uma caminhada pelos velhos casarões e uma mesa redonda, com palestra, em que serão discutidos os impactos das novas construções sobre o entorno paisagístico dos vetustos prédios.

Francisco Cardoso, anteriormente ao Memórias de Campo Maior, já andou aprontando algumas “reinações”. Entre os seus sonhos mais caros e acalentados, tinha ele o desejo de descer de canoa o rio Surubim, de Altos a Campo Maior, e subir, à noite, a pequenina Serra Grande desse município, também conhecida como Azul ou de Santo Antônio, numa incursão que só findaria ao amanhecer. O rio, de poucas e rasas águas, ele o percorreu, ainda na juventude, flutuando sobre o tronco de uma carnaubeira, da Primavera até a ponte, como um Tarzan tupiniquim, realizando parcialmente o seu sonho de adolescência. Para a escalação noturna da serra, ele me convidou, já homem maduro, assim como a vários outros amigos e parentes. Era um verdadeiro programa de índio, para o qual não tive disposição física nem coragem, pelo que declinei da difícil empreitada. Mas ele encontrou seguidores, e a aventura foi realizada na íntegra. Contudo, para não ficar como uma molenga e medroso, devo dizer que já fui ao cume da serra, em outra ocasião, à luz do dia.

Porém, creio ter sido uma das maiores travessuras de Francisco Cardoso o fato de haver ele escrito o livro Memórias da Adolescência, em que narra episódios engraçados e surpreendentes de sua vida, mas ainda, além de outros fatos e costumes do cotidiano, consignando notas memorialísticas sobre figuras populares e folclóricas da velha urbe, no que elas tinham de mais pungente ou de mais engraçado. Nesse livro ele conta façanhas dessas pessoas, que nos emocionam, alegram ou nos enternecem, que nos podem arrancar lágrimas sentidas ou risos que nos fazem gargalhar, mesmo em solitária leitura. Na época, dispondo de mais tempo do que hoje, pude colaborar em sua organização e revisão, bem como apresentar sugestões, tendo algumas sido acatadas pelo escritor, mas sem interferência no estilo e na essência narrativa da obra.

Em Memórias de Campo Maior, o autor tece comentários descritivos e historiográficos sobre os seus mais antigos prédios e logradouros. Descreve usos, modas e costumes da época. Narra fatos que foram objeto de comentários em toda a cidade, mas que não foram registrados pelos historiadores, por não serem fatos relevantes da administração pública, e por não envolverem as figuras proeminentes do município, seja do setor político, seja da seara econômica. Todavia, foram acontecimentos importantes, uma vez que tiveram forte repercussão em toda a cidade, alimentando as conversas, as fofocas e o imaginário das pessoas mais simples. Alguns desses episódios foram crimes, motivados pela cobiça, pela paixão ou pela política atrasada e acirrada do período enfocado. O autor registra o nome das importantes firmas comerciais da época, em que imperavam os coronéis da carnaúba e da pecuária.

Discorre sobre a boêmia e sobre os velhos cabarés de antigamente. Enumera as pessoas simples, do povo, mas que eram conhecidas de todos, pela singularidade de suas personalidades ou pelos serviços que prestavam, como os carregadores de malas, os transportadores de água potável em “roladeiras” (barris ou tonéis, que eram rolados pelas ruas da cidade) e os locadores de bicicletas e velocípedes. Através de suas páginas podemos imaginar como era a vida, os costumes, as atividades profissionais, as diversões dessa época, que corria sem pressa e sem violência, ao contrário dos dias conturbados de hoje. Francisco Cardoso recolheu fatos que jamais iriam para os pomposos e pernósticos fastos da considerada grande história. Muitas vezes composta de pequeninos e enfatuados “grandes homens”.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

JOSÉ CASTELLO VENCE O PRÊMIO JABUTI NA CATEGORIA ROMANCE


O escritor José Castello arrebatou o Prêmio Jabuti, 53ª edição, na categoria Romance, com a obra “Ribamar”, editada pela Bertrand Brasil. Segundo a Folha de São Paulo, nesse romance o autor mistura realidade e ficção, nos entrechos em que aborda a sua relação com o pai. A premiação é composta por 29 categorias, cada uma com dez títulos em disputa. A cerimônia de premiação acontecerá no dia 30 de novembro. Segundo o poeta Alcenor Candeira Filho, seu parente e amigo, “José Castello é carioca, mas tem vínculos familiares com Parnaíba, cidade em que se passam alguns episódios do premiado romance, que já li e reli com entusiasmo”. Segundo o crítico Carlos Herculano Lopes, o romance tem uma estrutura musical, cuja base é a canção de ninar Cala a Boca. Acrescenta esse comentarista que o livro “em sua essência, trata da relação conflituosa entre pai e filho. Mas está longe de ser autoficção, gênero muito em voga atualmente”.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

BEBETO SOARES, O CONTADOR DE HISTÓRIAS, TRANSFORMA-SE EM REFERÊNCIA DA CULTURA DE AMARANTE

Bebeto Soares, o autor do livro
O poeta Virgílio Queiroz e o advogado Walter Moura

Depois de conseguir reunir um público que superou a casa de mil pessoas no Centro Cultural "Odilon Nunes", por ocasião do lançamento de seu livro "Amarante - Personalidades e Fatos Marcantes", Luís Alberto dos Santos Soares, o "Bebeto Soares", também conhecido como o "Contador de Histórias", transformou-se em uma referência cultural para a cidade. Quase todos os dias ele é abordado por populares que desejam abraçá-lo, trocar ideias, elogiá-lo. Simples, comedido, Bebeto não consegue conviver com tamanho sucesso. O nosso blog que se fez presente ao evento, sentiu o carinho que o povo devota ao nobre escritor. Durante o lançamento, políticos, estudantes, intelectuais, artistas e, principalmente, pessoas humildes lotaram as dependências do Museu de Amarante.

Foi o maior evento literário ocorrido em Amarante. Nunca um autor foi tão festejado em lançamento de um livro como ocorreu com Luís Alberto dos Santos Soares (Bebeto Soares). Sem nenhuma outra atração, afora a instrumental "Banda Nova Euterpe", o livro "Amarante Personalidades e Fatos Marcantes" foi recebido por um público digno de um espetáculo de artistas famosos. Ele foi aplaudido, abraçado, beijado, em uma noite que começou as 19 horas do dia 08 e terminou nas primeiras horas da manhã do novo dia. Bebeto Soares, em seu livro, fala da história de Amarante, dos vultos intelectuais e políticos, das religiões, do folclore e das pessoas humildes que tiveram participações marcantes na sociedade amarantina.

Fonte: Blog Amarante, de Virgílio Queiroz


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Setenta anos

Ferrer Freitas, o mais jovem setentão


Antonio Reinaldo Soares Filho (*)

Todas as cidades têm seus filhos emblemáticos, aqueles que ao se falar do lugar logo é lembrado seu nome. Assim é hoje Oeiras e Ferrer Freitas. Pedro Ferrer Mendes de Freitas completa seus setenta anos, uma dádiva Dele para sua família, amigos e dos que têm o privilégio de conhecê-lo. Atencioso, finamente educado, memória privilegiada, intelectual refinado é uma referência no meio intelectual piauiense. É muito agradável um encontro com o nosso Comendador, compartilhar uma cervejinha no final de semana, quando o tempo perde a razão de ser medido. Somos de gerações diferentes. Sou contemporâneo de seu irmão Benedito, também intelectual, amante das belas letras, cronista e um grande redator. Mas, no passado, compartilhamos das tertúlias do Velho Oeiras Clube e das sessões do Instituto Histórico de Oeiras, comandadas por Possidônio Queirós, Costa Machado e Expedito Rêgo. Hoje, é um dos guardiões de nossa memória, quando procura compartilhar, com as para as novas gerações, os nossos valores, o que somos e o que vivemos.
Ferrer pertence à geração de Luís Ronaldo Sá, Albérico Vieira de Sá, Antônio Amorim Guida, Silizinho, Paulo de Tarso Ribeiro Gonçalves Filho, Turene Rêgo, Gerson Campos, Gerardo Queirós... Tempo de anos dourados, de novas batidas do violão de João Gilberto. De romantismo, de quando a cidade adormecia e eles saíam pelas ruas, fazendo paradas nas portas das donzelas em desabrochar, de violão afinado a dedilhar canções inesquecíveis. Isso durante seu tempo de ginasiano. Depois, buscando continuar os estudos, se muda para o Rio de Janeiro, onde se graduou em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como estudante frequentou a Lapa, a Praça Tiradentes, a Estudantina e muita boemia. Mas, com saudade dos seus, a sua terra retorna e faz morada em Teresina, onde constitui família. Por mérito, conquista o cargo de Sub-Secretário de Cultura do Estado do Piauí e, depois, Chefe de gabinete do Secretário de Fazenda do Piauí, Moisés Reis. Torna-se membro do Conselho de Cultura do Piauí, incentivando a divulgação de nossos valores. Assume a presidência do IHO por vários períodos, emprestando seus esforços na busca incessante de posicionar essa entidade com uma referência de credibilidade literária. É um paladino da sua Revista, quer como colaborador quer como seu editor, viabilizando algumas de suas edições.
Na capital, se fez amigo de todos que o procuram. De espírito boêmio, era frequentador do Bar Nós e Elis, de encontros com jornalistas e escritores e nos saraus do Ágora. Foi colaborador do jornal O Cometa e de todos os noticiosos que surgiram em sua terra, mantendo, atualmente, uma coluna no Portal da Fundação Nogueira Tapety. Estreitou laços com intelectuais consagrados, como Celso Barros, Paulo Nunes, Dagoberto Carvalho, João Gonçalves, Elmar Carvalho, Carlos Rubem e tantos outros e, mais recentemente, com Joca Oeiras. É de muitos amigos.
Em Ferrer, as letras fluem e se juntam, formando belas construções de locuções que encantam e cativam, aprisionam o leitor na sua leitura, na ânsia do nunca desejar acabar. Em suas crônicas publicadas na Revista do IHO, nos jornais de Teresina e no seu livro “Solo Distante” ele sempre nos presenteia com suas belas exposições. No seu amor telúrico à velha capital ele vai registrando fatos vividos pelos seus contemporâneos ao tempo que presta homenagens àqueles que fizeram por ser louvados. É a trajetória de um vencedor.
Que Deus lhe conceda muitos anos de vida.

(*) Ex-presidente do Instituto Histórico de Oeiras