sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO, DE NOVO?


JOÃO PINTO

Cada virada de ano que a gente passa é como a travessia para uma rua nova, que tem as suas diferenças. E, o comum, na espécie homo, é se fazer a travessia por meio de festa. Reunião de família ou de amigos, ou em grandes concentrações. Vale um pernil ou aves abatidas, que viveram no cativeiro para esse fim. E o cativeiro desses animais os tornam infelizes. Mas, na nossa colonização, segundo alguns relatos, houve algum europeu que os patrícios índios também os deixaram numa mesma pocilga para terem um prato diferente para comemorar algum natal deles. Como a gente faz.

Pois bem, a travessia de uma rua para a outra é o que fazemos todo ano. Há o pernil, o vinho e as aves, inclusive os abraços e os foguetes no céu. Você bebe fora da conta e se emporcalha com tanta comida. Esse gesto de comer o pernil ou ave é a conduta do homem hipotálamo, a pessoa ideal da sociedade de consumo. Que o comerciante capitalista coloca uma corrente no teu pé. Isso representa o lado material da gente e que apenas satisfaz o teu ego biológico. Você só planeja a tua vida para esse fim. Nascer, trabalhar, comer, dormir e depois morrer. Que tristeza de vida! Você atravessou todas as rua da tua vida assim. Apenas com essa bagem, sem nenhuma cultura no lado interno da tua alma.

E o que é bom da vida que não sejam o comer e o vestir? Você tem que criar alguma coisa para não viver somente no tédio de existir. Crie no quintal da sua casa uma horta, que um amigo ou alguém da família possa dizer, Se não fosse ele a gente não teria esse sabor na comida; ou, então, regue todo dia o seu pé de jasmim que, ao soltar a flor, um vizinho só passa por aquela rua por causa daquele perfume que o deixe feliz ao ir para o trabalho. E, se você é um professor, de vez em quando diga a seus alunos, Hoje a minha aula é sobre esse romance. Quando você passa abordar a história linda desse livro, observe que o fulgor dos olhos desses alunos são diferentes. Porque essas coisas é que deixam a gente feliz, tocam a alma nossa. E é o grande legado das pessoas. Feliz ano diferente!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ô, Ô, Ô! Que saco, Papai Noel!


JOSÉ MARIA VASCONCELOS
josemaria001@hotmail.com

Sou do tempo em que Papai Noel não passava de uma miragem infantil, como nos contos de fadas. Figurão de barbas e plumas brancas, touca e vestido vermelhos, saco nas costas e cajado nas mãos, não se exibia fartamente nas prateleiras, balcões, calçadas e praças. As crianças quase não tomavam conhecimento do bom velhinho "em tempo real".
Nossos pais nos obrigavam a dormir cedo, "senão Papai Noel não vinha deixar o presente de Natal". Papai forrava-me bem o pintinho, para não mijar no brinquedo. Aguardávamos a noite mais deliciosa do ano! Presente, coisa rara e pouco sofisticada. Quisesse um brinquedo, tinha de construir de madeira ou buriti. Hoje, presenteia-se por nonada e dezenas de motivos, variedades e sofisticação que, logo mais, se desfazem no lixo.
Na modesta Teresina dos anos 50, pouco mais de cem mil habitantes, ouvia-se, de qualquer canto da cidade, às nove da noite, o ronco surdo e bucólico da usina elétrica, hoje Cepisa. Ou o bimbalhar dos sinos da igreja de São Benedito para a missa das cinco. Carrilhões das velhas igrejas emudeceram com o barulho da metrópole. E desapareceram dos templos da modernidade. Só Papai Noel insiste em tocar sininhos que não convencem mais.
De manhãzinha, acordava-se, deparava-se com um carrinho, boneca ou fuzil de plástico, debaixo da rede, no chão. (Hoje, arma de fogo é que virou brinquedo de matar.) Uma festa entre os irmãos: cada qual e seu brinquedo. Todos tinham a mesma semelhança, "para não ter briga." Corríamos aos colegas vizinhos para exibir nosso raro troféu. Nossos pais, então, enchiam-nos a imaginação, do bom velhinho que entrara de madrugada pelo telhado ou chaminé. Doce ilusão que se completava com a missa de Natal. Menino Jesus ainda encantava as cabecinhas, porque nossos pais cuidavam de nos ensinar, sobretudo, sentimentos cristãos do que quintessências comerciais.
As crianças não dormem mais cedo, aguardando Papai Noel. Nem ouvem lições sobre Menino Jesus, episódios que antecederam o seu nascimento.
Um dia, já adulto, vesti-me de Papai Noel, no fundo quintal, começo da noite, sem que meus quatro filhos soubessem. Rita os entretinha, vendo televisão, casa fechada. Bati na janela, ensaiei um ô, ô, ô grotesco e uma voz embargada, convidando cada um, pelo nome, para receber o presente. Minha filha, Marta, abriu a janela, assustada, logo percebeu que os braços cabeludos só podiam ser meus. "É o papai!" A farsa caiu em risos e gargalhadas. Nunca mais me arrisquei a mentir o verdadeiro sentido da festa cristã. Natal não se veste de empulhação.
Papai Noel ainda seduz a criançada, mas, muito mais, o cartão de crédito dos adultos. Eu nem quero ver aquele saco repleto de ilusões e quinquilharias. Porque estou, mesmo, é de saco cheio. Talvez, porque se foi meu tempo encantado de criança.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


29 de dezembro

DOIS SONHOS

Elmar Carvalho

Tempos atrás comecei a escrever um livro sobre meus sonhos. Abandonei essa ideia, porque os sonhos de que me recordava ou não eram tão frequentes ou eram banais, sem maior serventia para as letras. Estas sempre buscam a criatividade, a originalidade, o ineditismo, o inaudito e até mesmo o exotismo. Na esteira do surrealismo, muitos buscaram a escrita automática, o que vinha da mente, sem nenhuma censura do consciente, da razão, da lógica, ou demandavam o que fosse oriundo de sonhos, daí a vertente onírica, as paisagens de sonhos, irreais. Em alguns textos, em verso ou em prosa, persegui esse objetivo, sem necessidade de sonho, mas de forma deliberada, exercitando apenas a faculdade da criação, através do esforço mental consciente, ao menos em parte.

Um dos motivos que também me levou a desistir do registro de meus sonhos, é que terminamos por esquecê-los. De muitos sequer lembramos, exceto quando acordamos durante os curtos minutos em que os engendramos a dormir. Algumas pessoas acreditam que durante o ato de sonhar, o nosso espírito vaga nos lugares relacionados ao sonho, muitos vezes em paragens misteriosas, longínquas, por vezes fora de nosso planeta. Hoje, essa atividade cerebral é estudada com o auxílio de aparelhos, mas o fato é que a mente humana ainda é cheia de surpresas e mistérios, que talvez nunca sejam completamente desvendados.

Muitas vezes me pergunto: será se o espírito humano, neste estágio terreno, fica aprisionado no cérebro e no corpo, que seriam apenas instrumentos que lhe possibilitariam ação, expressão e comunicação, embora de forma limitada? E, após a morte, a consciência do próprio ser continuaria a existir, liberta dos grilhões da carne? Como tenho dito em alguns de meus poemas e em palestras, o homem tem ânsia de infinito. Por isso, criou equipamentos, alavancas, próteses, que lhe aumentam a força, a velocidade, a capacidade de comunicação, a possibilidade de voar e de mergulhar. Assim, foram criados os tratores, os carros, o telefone, o rádio, a TV, os aviões, os submarinos, etc, que potencializam a capacidade humana. Pelo desejo e pelo pensamento, o ser humano não precisaria dessa parafernália toda, mas, encerrado na masmorra de seu próprio corpo, precisa desses equipamentos, que chamo próteses, para transcender os limites, que a matéria lhe impõe.

No sonho, não temos limite. O limite é a capacidade de nossa imaginação, de nossas fantasias, de nossos desejos. Podemos ser anjos, e voar. Podemos ser Poseidon, e perscrutar as profundezas abissais dos oceanos. Podemos criar apenas com a energia mental, sem necessidade de matéria e de instrumentos. Mas os meus dois sonhos foram bem simples. Num deles, revi, em José de Freitas, a casa onde morei nos idos de 1969/1970, quando tinha de 13 a 14 anos de idade. A casa estava em ruínas. Eu estranhava muito aqueles escombros, porque eram de uma casa de taipa, e na verdade eu morara numa casa de tijolos, apesar de simples, com uma mureta na frente.

Depois, quando eu entrava nas ruínas, descobria vestígios de uma estrutura de alvenaria, sobressaindo da taipa. Agora, acordado, sem nenhuma fantasia mirabolante, dou a esse sonho a seguinte interpretação, que poderá comportar outras e outras: morei em muitas casas, em diferentes cidades; como todas as pessoas, passei por diferentes circunstâncias, experiências, situações e aprendizagens; com o rolar do tempo, essas lembranças foram se diluindo, se transformando em ruínas, de algumas restando apenas tênues resíduos, ou nem isso, como que se perdendo completamente.

Todavia, parafraseando Carlos Drummond de Andrade, de tudo resta um pouco. Portanto, as nossas ruínas memoriais emergem, trazendo restos de taipa e de tijolos, restos de palha e de concreto, como a simbolizar as nossas fraquezas e virtudes, a nossa concretude material e a nossa diafaneidade espiritual. Em suma: esse meu sonho parece representar as várias casas em que morei, as várias etapas de minha vida, as diversas experiências que tenho tido ao longo do percurso que me coube percorrer, e que me conduziram ao que hoje sou.

Quanto ao outro sonho, não lhe dou nenhuma explicação interpretativa. Estava eu numa localidade rural, quando, sem que eu saiba como, me aparece o grande artista plástico João de Deus Netto. Nesse momento observamos um pequeno bode, perto de um grupo de pessoas, a caminhar apenas com as patas traseiras, como se fosse bípede. Apesar de pequeno – mais parecia um cabrito do que um “pai de chiqueiro” – o caprino ostentava uma volumosa e crescida barba. O inusitado da coisa ou a fantasia onírica da situação é que a barba era frisada, com ondas paralelas, e pintadas, alternadamente, de vermelho e negro.

Parecia a barba de um rei antigo, talvez Sargão, o Grande, exceto pela cor. Às vezes meus sonhos são quase premonitórios, e se assemelham a coisas que irão acontecer. Talvez nisso resida a explicação desse sonho, que não pretendia formular; hoje, recebi uma charge do flamenguista Gervásio Castro, na qual, posando de D. Pedro I, estava o Ronaldinho Gaúcho, imperial craque do glorioso Flamengo. De qualquer sorte, talvez o Netto de Deus resolva fazer uma charge desse bode flamenguista e onírico, que ele admirou em meu sonho.

Flagrante futebolístico do Gervásio Castro

Ronaldinho na charge de Gervásio Castro
Como é para o bem de todos os flamenguistas e felicidade geral da Nação Rubro-Negra, estou pronto. Diga ao povo do Flamengo que FICO.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


OUTONAL

Clóvis Moura

Depois da primavera o caos no mundo
e uma nuvem deitada nos meus braços,
criança abandonada que regressa
até o tempo de voltar criança.
Depois da primavera um lance apenas
de resto para viver um pouco tarde:
as tardes que perdemos são memória
e as mãos acordam para um abraço calmo.
Depois da primavera uma esperança
de tudo ser tranquilo e repousante,
ser como aquilo que sonhei um instante.
E depois deste outono a vaga espera,
um sabor de passado sem memória
ou só memória, após a primavera.


Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


27 de dezembro

MULHERES DROGADAS

Elmar Carvalho

Ao caminhar com um amigo, no calçadão da avenida Raul Lopes, contou-me ele que uma enfermeira, casada com um conhecido seu, começou a se queixar de fortes dores de cabeça ao marido. Com esse pretexto ia ao banheiro, onde ficava por vários minutos. Essas desculpas se tornaram frequentes, e cada vez ela se ausentava mais do leito conjugal, às vezes por quase duas horas, no período noturno. Certa noite o marido flagrou a mulher a injetar-se droga, que naturalmente ela conseguia no hospital ou clínica onde trabalhava. Tornara-se ela viciada, ou dependente química, como se diz hoje, de forma eufemística.

Esse caso me fez lembrar um outro, um verdadeiro dramalhão, quase uma tragédia grega, que li nas páginas 112/114 do Diário Secreto, de Humberto de Campos, reeditado pelo Instituto Geia, em 2010, cuja primeira e única publicação data de 1954, também em dois volumes, pelas Edições O Cruzeiro. A anotação diarística é de 4 de janeiro de 1928. Referia-se ao caso de uma filha de um médico, mulher muito formosa. Casara-se ela com um esculápio, que fora, parece, aluno de seu pai. Como um dia sentisse fortes dores, provocadas por uma colite, o seu marido aplicou-lhe uma dose de morfina.

Poucos dias depois a mulher alegou sentir novas dores, que foram se tornando cada vez mais amiudadas, com as consequentes aplicações da droga. Não tardou muito, o marido constatou que ela se tornara uma morfinômana. Entregou-a aos cuidados de um colega, que era tido como especialista em cura de viciados em morfina. Semanas depois, posta sob confissão, a mulher terminou revelando ao marido que o tal especialista era viciado na droga, e que passara a tomar o entorpecente em sua companhia. Veio o desquite, como corolário dessa tragédia familiar.

Com a separação e com o vício do tóxico, a bela mulher descambou para a prostituição, seja para sustentá-lo, seja porque o uso da droga lhe fizera romper os freios inibitórios morais, donde lhe teria advindo o exacerbamento da sexualidade. Os amantes se sucediam em profusão, um após outro, ou mesmo de forma concomitante. O marido não suportando a saudade e a ausência da mulher, terminou por lhe pedir para ser também seu amante, e passou a frequentar sua alcova duas ou três vezes por mês, sob a alegativa de que nunca encontrara uma mulher que se lhe comparasse em desempenho sexual.

Um dia, acidentalmente, a mulher, ao injetar-se a morfina, cuja quantidade de doses aumentara assombrosamente, já chegando a 24 ampolas por dia, aplicou a substância diretamente na veia, o que lhe causou um mal-estar insuportável, com dores e alucinações violentas. Na crise, tentou estrangular um dos filhos. Precisou ser contida por várias pessoas, que lhe amarraram à cama. O marido passou a se dedicar devotamente ao tratamento da mulher, aplicando-lhe os sedativos e medicamentos da época.

Quando Humberto de Campos viu essa bela mulher a desfilar sua beleza em rua do Rio de Janeiro, fazia apenas três dias que ela melhorara da crise a que me referi. Não posso, por isso mesmo, dizer se a mulher do médico, com a ajuda deste, conseguiu vencer o vício. Ante a tragédia que relatou com muitos detalhes, Humberto de Campos finalizou a sua anotação com esta pergunta: “Não estará aqui o arcabouço do meu primeiro romance?”

De meu conhecimento, essa obra (quase) anunciada nunca foi escrita. Acaso tivesse sido, não sei se o grande escritor iria lhe dar um final feliz. Quanto à senhora referida no início deste registro, o meu amigo disse que foi embora com o marido para outra cidade, onde conseguira superar a sua dependência ao uso de tóxico. Portanto, fica aqui o arremate feliz da enfermeira que “conseguiu ficar limpa”, libertando-se do vício que lhe prejudicava o bom convívio conjugal.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

ALMANAQUE BIOGRÁFICO O. G. RÊGO DE CARVALHO


Elmar Carvalho

Das mãos do historiador Reginaldo Miranda, presidente da Academia Piauiense de Letras, recebi um exemplar do "Almanaque Biográfico O. G. Rêgo de Carvalho – O poeta-músico, na personificação de Oeiras". A publicação, como o nome indica, é em homenagem ao grande romancista oeirense, um dos maiores do Piauí, célebre pelo seu perfeccionismo estilístico, de linguagem clássica e escorreita. Traz vários textos sobre o festejado escritor, tanto em prosa como em versos, sobretudo da lavra de alunos do Instituto Barros de Ensino – IBENS, mas também de alguns professores do educandário.

Estampa alguns textos faquissimilados do jornal O Cometa, fundado pelo também romancista José Expedito Rêgo, que circulou na primeira metade da década de 1970. O almanaque contém fotografias, críticas, dados biográficos e uma cronologia do escritor, na qual estão consignadas as datas de publicação e reedições de seus livros, além de efemérides importantes da vida pessoal do romancista, como seu casamento com a professora e escritora Divaneide Maria Oliveira Batista e o nascimento do filho do casal, Orlando Victor de Oliveira Carvalho. A publicação foi organizada pela professora Maria do Socorro Barbosa Barros. O primeiro número do Almanaque foi em homenagem ao historiador e ensaísta oeirense Dagoberto Carvalho Jr., por ocasião do lançamento da 6ª edição de seu livro Passeio a Oeiras, que tive a honra de prefaciar.

UMA CRÔNICA DE NATAL

´
Charge: Gervásio Castro


Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Natal é somente um dia por ano. É festa de presentes. Acontece que, neste tempo de consumismo brabo, não há somente um dia, mas um mês de Natal, para que o comércio venda mais, o governo arrecade o que não conseguiu durante todo o ano e as administradoras de cartão de crédito aumentem o assédio aos pobres e endividados. Deveria ser o dia de Confraternização Universal, do humanismo. Como no Brasil e, de resto, no mundo, o dia da Confraternização Universal é o 1º de Janeiro. Por causa das mudanças do calendário, que pouca gente sabe explicar, é que o ano cristão começa em 25 de dezembro e não no 1º de janeiro, em consonância com o ano civil. Restou conservá-lo no dia considerado do nascimento de Jesus de Nazaré. Em homenagem à família de José, Maria e Jesus, o Natal é o Dia da Família.  Consta que Jesus nasceu numa manjedoura e vieram algumas pessoas visitá-lo, entre as quais os três Reis Magos, mas a tradição não diz de que países eles eram reis. José estava indo, com a família, para o recenseamento obrigatório que o governo realizava em Belém. Era um carpinteiro pobre, não tinha como descansar numa pousada. Chegando a hora de Maria dar a luz, foi parar numa estrebaria onde havia burros, jumentos, ovelhas, aves, pássaros e plantações. Só isto já é suficiente para uma confraternização com a natureza. E que fazemos nós, hoje, por nossa casa? É tempo de pensar na conservação do planeta. Também, a não ser um reduzido número de católicos, ninguém lembra de Jesus nem visita as igrejas ou as “lapinhas” que outrora se faziam, onde as pastorinhas cantavam, alegres, pelo nascimento de Deus Menino.  Quem reinventa um presépio? Quem se lembra dos animais? Quem olha o céu, a estrela, as estrelas? Poucos vão à missa, muitos vão aos shopping-centers para comprar bugigangas para os filhos, e também para os parentes e aderentes, por ocasião da Ceia de Natal. Produtos importados do oriente, da China, principalmente os mais baratos – o que significa que o falso sistema socialista, instalado lá, age como capitalista mesmo, pagando mal aos empregados para exportar mais barato, fazendo concorrência ao verdadeiro capitalismo – o de cá, do ocidente, onde o Papai Noel reina soberano - ele, o símbolo perfeito do capitalismo consumista.
Natal é tudo de mentirinha.
Entrei numa dessas superlojas onde se vendem presentes para crianças e fiquei estupefacto. Como escritor e poeta, sensibilidade aguda, senti-me nervoso e doente vendo todo aquele amontoado de bonecas barby e personagens de toda natureza, inclusive os simbólicos como o homem aranha, a boneca  emília, o visconde de sabugosa, o saci, o lobisomem, dinossauros, astronautas  e não sei mais o quê, tudo empilhado, uns sufocando os outros, ou jogados nas prateleiras, aos montes, caídos estatelados e emborcados. O negócio é dar presentes materiais de pouca valia, e recebê-los. É de praxe, hoje, o “amigo oculto”, brincadeira de antes da ceia de Natal. Faz-se um sorteio de nomes do grupo para ver quem dá presente a quem. E os nomes ficam em segredo para que quem vai receber não saiba de quem receberá, mas quem vai oferecer saiba a quem vai oferecer. Todos oferecem e todos recebem um presente, e as despesas com o item natalino diminuem sensivelmente. Nada muito alegre. Diante da tevê ouvem-se músicas atuais e a conversa continua em tom alto, de maneira que ninguém entenda ninguém, bastando que fiquem com a impressão de que foram ouvidos. Alguns folheiam velhos álbuns de fotografias ou abrem um vídeo no computador para lembranças melancólicas do passado ou para mangar dos feios e das fotos mal feitas - enquanto comem e bebem.  
Todos os começos são flores”, como dizia minha mãe.
          O dia seguinte é só pra curtir os excessos e a solidão. De tudo sobram algumas fotos de registro, cartões com dizeres sempre iguais recebidos e, no outro dia, jogados na cesta, ou o remoer pedaços de frases ditas por alguém, do que não gostou. Em família há diferenças que nem sempre são caladas, passados os primeiros momentos da chegada à festa.
          No começo, a casa estava cheia. Agora está vazia e, muitas vezes, os próprios corações. Festa de alegria? Nem sempre. Brigas, desgostos, notícias dolorosas de doença ou morte, tudo pode vir à flor da conversa.  Os egoístas não se incomodam com isto. Os poetas é que não se conformam e ficam a escrever o que sonharam – natais tão diferentes, com emoção, lirismo e memória. E chegam a inventar símbolos como o do peru, que, para não ficar triste, morre de véspera.

domingo, 25 de dezembro de 2011

FLAGRANTES & INSIGHTS

Carlos Said na charge de Gervásio Castro

CAMISA 10 OU 1?

Elmar Carvalho

Esta manhã, ao visitá-lo em sua casa, encontrei o Carlos Said envergando uma camisa futebolística de nº 10. Observei-lhe que, embora ele fosse nota 10, deveria estar vestindo uma de nº 1, por dois motivos:
Primeiro, por ser sempre o primeiro.
Segundo, por ter sido um grande goleiro.

sábado, 24 de dezembro de 2011

SONHOS DO NATAL E ANO NOVO

Aproveito o cartão de Natal acima, da autoria de Fernando  di Castro, para ilustrar o poema e para estender os seus votos aos leitores do blog

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

Não se pense o Natal maior do que é:
Um dia, uma noite, uma festa ou a recordação.
Jesus chegou dois mil anos antes
Mas veio o Papai Noel atrapalhar.
Tudo é dinheiro,
Até o tempo que sofremos,
O dia branco e a noite só,
O minuto que amamos,
A eternidade que choramos
E a morte que nos leva.

Todo dia é um dia novo,
Não depende do Natal, nem da Missa do Galo,
Não depende da mudança do calendário.
Quando nele se pensa, já mudou,
Quando se vai ao banheiro, já mudou...

O tempo nos governa em altos juros
De suor, sangue e salário.

Natal, Ano Novo passaram e ninguém não viu...
Tudo é tão veloz!
- Antes de chegar, quem sabe o que novo?

Todos os sonhos morrem no seco,
Sem chegada, sem saída, sem beco.

Teresina, 23/12/2011.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

P E R F I S A C A D Ê M I C O S - LUIZ MENDES RIBEIRO GONÇALVES

Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves e Alice

REGINALDO MIRANDA

Na edição de hoje desejamos destacar a personalidade do acadêmico Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, um benemérito da Academia. Natural da cidade de Amarante, veio ao mundo em 7 de fevereiro de 1895, filho de Elesbão Ribeiro Gonçalves e de Amália Mendes Carvalho Ribeiro Gonçalves, ambos oriundos de tradicionais famílias piauienses. Foi casado com Alice Ribeiro Gonçalves, de cujo consórcio não houve filhos.
Engenheiro civil, jornalista, político e escritor, iniciou as primeiras letras em sua terra natal, mudando-se depois para a Bahia, onde formou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica, no ano de 1916.
De regresso ao Piauí depois, exerceu os mais importantes cargos públicos, entre os quais diretor da Secretaria de Agricultura, Terras, Viação e Obras Publicas(1916-1930). No exercício desse cargo revelou grande talento profissional ao projetar e dirigir obras importantes para do desenvolvimento do Estado, a saber: construção dos prédios do Liceu Piauiense e da Escola Normal Oficial do Estado, hoje Palácio da Cidade; construção de pontes, rodovias, planos de abastecimento d’água, luz elétrica, programas de colonização, plantas de cidades e de mapas do Piauí. Em face desse trabalho denodado, projetou seu nome profissional no cenário nacional, sendo convidado para exercer outros cargos de destaque. Nessa conjuntura, ainda ocupou os cargos de diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) no período de 1953/54, membro vitalício do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, secretário-geral do Departamento Nacional dos Correios e Telégrafos e membro do Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura. Com prestígio internacional, foi homenageado em Paris com o título de sócio da Societè des Engeniers de France. Fora do campo profissional, exerceu o cargo de secretário de Estado da Fazenda no Governo de João Luiz Ferreira(1920 – 1924).
Também brilhou no magistério como professor de Matemática e Física no Liceu Piauiense e na Escola Normal Oficial do Estado.
Jornalista brilhante teve destacada atuação na imprensa piauiense, colaborando nos jornais A Imprensa, O Lírio, Estado do Piauí, Correio de Teresina, Correio do Piauí, Diário oficial e O Momento.
Escritor de raro talento escreveu importantes obras sobre os mais variados assuntos, a saber: Problemas Municipais;Fossas Biológicas; Tipo de Colônia Agrícola para o Nordeste; Mapa do Piauí; Magistratura e Justiça; Aspectos do Problema Econômico do Piauí; A Servidão da Inteligência no Economismo Contemporâneo ; Educação e Democracia; Construções Escolares no Piauí; A Escravidão e o Movimento Abolicionista; O Babaçu na Economia Nacional; Fretes Marítimos Internacionais; Viagem de Inspeção ao Nordeste; Santos Dumont - Glória e amargura; Joaquim Ribeiro Gonçalves - poeta, político e parlamentar; Paulo de Frontin; Mauricio Joppert - engenheiro e professor; Le Mauricio Corbusier- Luz Imperecível; A Formação do Engenheiro e sua função social; Brasão do Piauí; por fim, Impressões e Perspectivas, trabalho organizado pelo professor A. Tito Filho. Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves pertenceu desde a mocidade à Academia Piauiense de Letras e ao Instituto Histórico e geográfico Piauiense, tendo doado à primeira um imóvel na região central de Teresina, hoje alugado.
Seguindo a tradição familiar, ingressou na política elegendo-se por via indireta Senador da República, em julho 1935. Esse mandato encerrou-se com o Golpe de Dez de Novembro de 1937, que instituiu o Estado Novo. Todavia, retorna ao Senado com a redemocratização do País, sendo eleito pela legenda da União Democrática Nacional(UDN) no pleito travado em 17.01.1947, para o mandato de 1947 a 1951. Candidato à reeleição em 1950, não conseguiu eleger-se.
Faleceu no Rio de Janeiro em 1984, sempre gozando da estima e consideração de todos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


22 de dezembro

O MALANDRO FALASTRÃO

Elmar Carvalho

Estava eu num dos bares mais tradicionais de Teresina, fazendo hora, enquanto minha mulher e minha filha faziam compra. Aguardava o telefonema delas, para voltarmos para casa. Nisso entrou o meu personagem deste registro. Em gestual e voz expansivos, foi logo chamando a garçonete de meu amor, com certa dose de familiaridade. Cumprimentou um conhecido, que já estava de saída, abraçando-o efusivamente, e dando-lhe pequenas chicotadas no peito com o seu tilintante chaveiro, que lembrava uma pequena chibata.

Estava acompanhado de um rapaz bem mais jovem, que pensei ser seu filho. Trazia um copo, tipo tulipa, desses próprios para cerveja. Pediu uma garrafa dessa bebida, e sentou-se a uma mesa perto da minha. Chamando a garçonete pelo nome, pediu-lhe “sua taça”. Ela logo o atendeu. Só então percebi que as demais pessoas usavam um copo comum, do tipo americano, com capacidade para 150 miligramas. Como falava alto, seja pessoalmente ou ao celular, por mais que eu pudesse ou quisesse ser discreto, não pude deixar de lhe escutar a conversação. Apresentou o jovem como sendo o namorado de sua filha, que estava arranchado em sua casa, e de lá não desejava mais sair.

Incontinenti percebi que se tratava de um malandro, aparentemente simpático, como todo malandro que se preza, um tanto fanfarrão, falastrão, e exibido como um galo novo, conquanto já aparentasse haver dobrado o cabo da boa esperança de meio século de vida. Em meio a um telefonema, disse ao interlocutor que desejava continuar com a sua mulher velha, pois já lhe conhecia os defeitos e mazelas, ao passo que com a “aquisição” de uma mulher nova teria que descobrir os seus problemas e se acostumar com eles; portanto, preferia “recuperar” a coroa, com uma recauchutagem médica e protética. Apenas, em compensação, desejava que ela lhe deixasse degustar as suas cervejas e empreender as suas conquistas amorosas.

Em conversa com o genro (ou futuro genro), alardeou que tinha um chip com a lista telefônica de suas namoradas. A seguir, talvez querendo provar o que acabara de dizer, ou mesmo por simples exibicionismo inato e compulsivo, começou a ligar para algumas delas. Cumprimentou a primeira pretensa namorada, chamando-a de meu amor, proclamando em alta voz que estava “morrendo de saudade”; que o seu maior defeito era gostar dela, e que contra isso não havia remédio nem antídoto.

Quando fez outra ligação, talvez pretendo ser engraçadinho ou criativo, disse:
- Bom dia, boa tarde, boa noite, meu amor, qualquer hora é boa hora com você!...
Atendendo recomendação de Cristo Jesus, não pretendo aqui julgar meu semelhante. Tenho bem presente a sua admoestação de que: “Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós” (Mateus, VII: 1-2).

Entretanto, sem nenhum prurido de falso moralismo, fiquei a imaginar o rapaz casado com a filha do nosso dom Juan tupiniquim. Também imaginei a moça descobrindo conquistas amorosas do marido, e indo pedir ajuda e conselho ao pai. Não sei o que ele lhe diria, o que lhe recomendaria. Engendrei a hipótese de a jovem mulher usar seu pai como exemplo de marido ideal. É possível que o jovem fosse um amigo leal e guardasse consigo as aventuras e fanfarronices do sogro. Todavia, é razoável supor que esse jovem marido, fustigado pelas verrinas e catilinárias da mulher, dissesse, um tanto enfurecido e com certo sarcasmo:
- Foi exatamente com o exemplo de teu pai que eu me tornei o que sou...
Deixo ao leitor o trabalho de conjeturar sobre a continuação desse amargo diálogo.  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


TÚMULOS

H. Dobal

Trovões distantes trazem
de um horizonte escondido uma tarde de chuva.

A chuva transforma a tarde
nas trevas da noite.

A noite traz de novo os amores perdidos,
uma ambição abandonada
o tremor das almas transidas no túmulo dos corpos.

Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Flagrante futebolístico do Gervásio Castro


Texto e charge: Gervásio Castro

De um lado a sobriedade, do outro a indiscrição. De um lado o profissional aplicado, do outro o moleque mimado.
De um lado o craque consagrado, do outro a promessa,  o produto ainda não acabado e já lançado no mercado como um novo Pelé.
De um lado um verdadeiro time de futebol, do outro um grupo de jogadores super avaliados pela ufanista mídia paulista.
Resultado: Barcelona (do Messi) QUATRO, Santos (do Neymar) ZERO, E foi pouco!

DIÁRIO INCONTÍNUO


O grande e injustiçado goleiro Barbosa

20 de dezembro

CARLOS SAID – MESTRE DO FUTEBOL E DA AMIZADE

Elmar Carvalho

Após a melancólica, mas de certa forma já esperada, derrota do Santos para o Barcelona, pelo vexatório placar de quatro a zero, que ainda poderia ter sido pior, não fossem duas ou três magníficas defesas do goleiro santista, e dois chutes barceloneses terem acertado a estaca da trave, resolvi ligar para o jornalista Carlos Said. Sabendo que ele gosta de se concentrar para assistir às partidas de futebol pela televisão e para acompanhar os comentários, deixei passar quase uma hora, depois do apito final, para efetuar o telefonema.

Devo dizer que, com relação aos times de São Paulo, sou torcedor do Santos, desde que, aos 13/14 anos de idade, com a ajuda do padre Deusdete Craveiro de Melo, fundei, na cidade de José de Freitas, um time com esse nome, e contribuí para a criação de um campo de futebol, que se localizava na frente do cemitério velho, quase aos pés do Morro do Fidié, que prefiro chamar de Morro do Livramento; ficava, portanto, perto do teatro, de um antigo clube dançante, aos fundos da casa do finado Levi.

Pedi ao mestre Carlos Said que comentasse três pontos que eu iria abordar. Um, foi o excelente futebol apresentado pelo Barcelona, o mais bonito que já me foi dado ver nos últimos anos, um verdadeiro bailado, diria mesmo uma legítima coreografia de balé, com passes longos e curtos, mas sempre precisos, exatos, perfeitos, em que os jogadores estavam sempre a se deslocar, mudando de posição, desnorteando o adversário; às vezes a tabela era feita em deslocamento circular dos jogadores, que me fez recordar o mítico “carrossel holandês”. Mais parecia uma evolução de dançarinos. Cabe ressaltar que não era um tabelamento inócuo, que visasse apenas à posse da bola pela posse da bola, mas tinha um caráter nitidamente estratégico, ofensivo, com a finalidade de fazer gol, e não apenas dar plasticidade ao espetáculo futebolístico.

Dois, observei que o Messi jogara de forma magnífica, no esplendor de seu estilo característico, de muito domínio de bola; que ele, embora em alta velocidade, mantinha o domínio da pelota, com ela quase colada a seus pés; que tinha dribles imprevistos, desconcertantes, desnorteantes; que ele, mesmo sob pressão de marcadores, era muito hábil no recebimento de passes e na distribuição da bola, com lances de precisão milimétrica, cirúrgica, por assim dizer; que tinha raciocínio rápido, grande visão de jogo, e extraordinária capacidade de improviso. Diante dessas e outras qualidades, não referidas, perguntei-lhe se ele não seria superior ao Pelé, o que para muitos fanáticos seria uma verdadeira blasfêmia. Por último, abordei a pretensa Seleção Brasileira de todos os tempos, na ótica do narrador esportivo Galvão Bueno, declarada em programa apresentado pela Angélica, na tarde do último sábado. Bueno, achando-se muy bueno, fez a sua escalação, levando em conta, assumidamente, as suas amizades, ao menos em duas ou três escolhas.

O mestre, após me ouvir sem interrupção, provando que é um arquivo vivo do futebol, senão mesmo uma verdadeira enciclopédia desse esporte bretão, com o seu poder de síntese e análise, deu-me as respostas, que seguem adiante. Com relação ao futebol apresentado pelo Barcelona, não o pôde negar. Todavia, com a sua memória prodigiosa, depois de enunciar a escalação do Santos, nos áureos tempos de Gilmar, Mauro, Pelé, Pepe e futebol clube, esclareceu que esse também foi um time fabuloso. No tocante à comparação entre Messi e Pelé, considerou que o craque brasileiro era superior, entre outras razões, pelas seguintes: jogava com perfeição com as duas pernas, podendo ser considerado ambidestro; era muito bom nas cabeçadas e sabia “tabelar” com o adversário, ou seja, utilizava o oponente para construir as jogadas.

Não concordou com a “seleção do Galvão”. Fazendo uma rápida retrospectiva histórica e biográfica de vários craques do futebol brasileiro de todos os tempos, discordou de alguns nomes dessa seleção. Contudo, quando eu lhe sugeri a publicação do escrete saidiano em sua coluna jornalística, como atleta que foi, conquanto na posição de goleiro, esquivou-se, e me driblou, dizendo que aguardaria que primeiro eu publicasse a minha. Foi uma legítima firula do mestre, porquanto não tenho estofo intelectual futebolístico para tal ousadia, de modo que ficaremos privado de mais uma proeza do Magro de Aço.

Como, por várias vezes, eu o chamasse de mestre, o que ele de fato é, disse que passaria a me chamar de gênio. Diante desse exagero descomunal, diria mesmo alopramento hiperbólico, pedi-lhe:
- Não, mestre, não me levante tão alto, pois ao cair ficarei totalmente esbagaçado!...
Com a sua verve irônica, porém amiga, retrucou-me:
- Não se preocupe, pois o ampararei.

Em confiança, ele, ao telefone, terminou por me escalar o que, na sua visão, seria a Seleção Brasileira de todos os tempos, com atletas das mais remotas épocas. Devo dizer que, em meu parco entendimento, achei mais justa a sua escalação do que a do Galvão Bueno. Nela, certamente, não preponderaram amizades, simpatias ou compadrios, nem quaisquer outros fatores de ordem pessoal. Nela, entre outros que não declinarei, estavam Garrincha, Pelé, Zico e o goleiro Barbosa. Vai que é tua, Magro de Aço!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Comiam, Bebiam, Acasalavam-se


José Maria Vasconcelos
cronista, josemaria001@hotmail.com

Teria sido num dos badalados restaurantes da Zona Leste de Teresina onde li esses três verbos? Impossível, porque não se adequam a ambientes chiques e corretamente civilizados. Ou em anúncio de confraternização natalina, no glamuroso cabaré da Beth Cuscuz? Antes de lhe responder, repare o que alguns leitores manifestaram sobre o curioso título da crônica, NENHUM HOMEM PENETROU EM MIM.
"Que o título provocou urgência em ler logo, não tenho dúvidas. Essa foi de mestre!", de Aníbal Martins Machado, da Receita Federal. "Tudo que está entre frestas se faz apetitoso, então dispara o gatilho da curiosidade humana", Paulo Roberto Meireles. Professor Geovane Fernandes: "Eficiente estratégia de fisgar o leitor. Só para citar os mais festejados, temos o capítulo Das Negativas, de Machado de Assis, A Paixão Segundo G.H, de Clarice Lispector e Claro Enigma, de Drummond. Mas, assim como os citados, não só por isso, pois seu texto é de todo cativante, substancial." O radialista Alexandre Carvalho colocou: "Concordo com a analogia feita com relação ao mistério da maternidade de Maria..." O escritor Chico Castro: "O canto de Maria, logo após a anunciação, é uma das peças de maior relevância na literatura de todos os tempos..." Coronel Valdinar, por telefone, louvou a descoberta do tema. Antônio Carlos, docente de Teologia, em curso universitário de Fortaleza, teceu longo e profundo comentário, além de achar o título apelativo. Quando o leu, já sabia quem pronunciara. Professor Saraiva, também docente universitário, naquela capital, afirma que as alunas provocaram rebu com o uso da palavra PENETRAÇÃO. Rita Lúciae, lúcida de sinceridade: "No começo, a surpresa... Depois, ufa! o professor não é veado! kkkkkk."
Final de ano, festas em nome da confraternização humana, mas o abuso material, muitas vezes, ofusca o espiritual. Bares e restaurantes empanzinam-se de múltiplas panelas, receitas e cardápios. Famoso buffet de Santa Catarina prepara-se para o reveillon, cobrando por camarote 10 a 20 mil reais. Em Teresina, há uma explosão de riqueza multiplicando novos e luxuosos condomínios, quase dois mil veículos vendidos mensalmente. Nove pontes sobre o Poti não resolvem o tráfego.
A festa natalina do Messias transforma-se em consumismo exacerbado na figura de papai noel. Noel, em francês, traduz-se Natal. Não é uma irreverência ao Natal cristão? Não é diabólico?
Para se festejar sagrada confraternização, em nome do Filho de Deus, precisa esparramar-se em bebedeiras e festins pagãos? Não condeno a confraternização sadia, mas a irracionalidade tapando a reflexão sobre o sentido da presença de Cristo no mundo. Ora, toda civilização quando chega às extremidades do materialismo, da ganância, da sexualidade desenfreada, da degradação da família, da ausência do espiritual e virtudes, entra em decadência. Foi no império romano, egípcio, grego, francês. No Brasil, enquanto nobres do império refestelavam-se de comida e bebida na Ilha Fiscal, republicanos, na véspera, preparavam-lhes o bote final. Americanos e europeus compõem as últimas vítimas do capitalismo irracional.
Então, me vêm os três verbos da decadência moral previstos por Cristo: "Assim como no tempo de Noé, nos dias que precederam o dilúvio, comiam, bebiam e acasalavam-se...nada sabiam no momento em que veio o dilúvio." Não sou culpado de bater com os olhos nos capítulos 6 do Livro de Gênesis e 24 do evangelho de Mateus, adequados aos luzeiros festivos de final de ano, embevecido de gastanças mil. Porém, que tal escrevê-los na entrada dos restaurantes, lojas e departamentos, academias, bufês e mansões, até mesmo nas frontes de gestores insaciáveis de corrupção e burundanga?

sábado, 17 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Antiga Praça da Graça, vendo-se, à direita, o prédio dos Correios

Igreja N. S. de Fátima, em Parnaíba


17 de dezembro

LEMBRANÇA DE BATISTA COSTA

Elmar Carvalho

Neste final de tarde chuvosa e fria de Regeneração, evoco a figura de João Batista Costa, sobre o qual me referi no último registro deste diário. Quando meu pai assumiu a chefia da ECT em Parnaíba, no primeiro semestre de 1975, ainda o encontrou como funcionário dessa repartição. Era ele remanescente do antigo DCT – Departamento de Correios e Telégrafos. Não tendo optado pelo regime trabalhista (CLT), na mudança organizacional dessa repartição da administração direta federal para ser uma empresa da União, aposentou-se como funcionário estatutário, sob o regime da Lei nº 1711, a fim de não perder a estabilidade funcional.

Após o curso de monitor postal no Recife, no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, e depois de ter trabalhado por mais de ano em Teresina, fui removido, através de permuta, para Parnaíba, a fim de cursar Administração de Empresas na UFPI, Campus Ministro Reis Velloso. Exercendo minhas atividades postais, via, quase diariamente, no prédio dos Correios, o saudoso amigo João Batista Costa. É que ele, apesar de já aposentado, vinha receber as correspondências destinadas a moradores do povoado Morros da Mariana, que na época não tinha posto de correios e nem linha regular de ônibus.

Nessa época, a cidade de Parnaíba tinha três Batistas, que mais se destacavam. Batista Leão, jornalista, diretor da rádio Educadora, a mais antiga emissora do Piauí, e do jornal Folha do Litoral, do qual fui colaborador, sobretudo na qualidade de poeta; Batista Silva, também jornalista, que foi eleito prefeito do município, e se tornou impopular, mormente por ter destruído a antiga e graciosa Praça da Graça, que agora passa por ampla restauração; e o saudoso Batista Costa, que fora vice-prefeito, na gestão de Elias Ximenes do Prado. Homem bom, correto, cordato, cordial, bem-humorado, católico praticante, era uma personalidade querida na cidade de Parnaíba e em Morros da Mariana, onde nascera.

Era sempre com um amplo sorriso, com sua voz potente, de timbre agradável, quase de tenor, com uma leve tonalidade metálica, vibrátil, que me cumprimentava, ainda na primeira parte da manhã, chamando-me de professor, profissão que venero, mas que, a bem dizer, nunca exerci, a não ser precariamente, durante curtíssimo período. De forma efusiva e alegre, eu lhe correspondia ao cumprimento, enquanto entabulávamos breve conversação, sem o menor resquício de ressentimento por causa de nossas discussões veementes nas reuniões dos padres redentoristas, conforme assinalei no registro anterior.

Quase toda semana, ele me emprestava os seus velhos discos de vinil, com músicas executadas por grandes orquestras americanas e nacionais, as chamadas big bands. Em troca, eu lhe repassava os discos que eu vinha comprando, com execuções desse mesmo gênero musical. Nesses vinis pontificavam as orquestras de grandes maestros, como Billy Vaughn, Glenn Miller, Ray Conniff e outros bambas da harmonia musical, além de trilhas sonoras de filmes que marcaram época, mormente dos gêneros dramático e épico.

Certo dia, tomado de entusiasmo e alegria musical, quase como se fosse um garoto, Batista Costa, dando à voz uma semelhança de saxofone e trompete, imprimindo-lhe um timbre nitidamente metálico, executou a música Tema de Lara, para que eu me recordasse dessa melodia. Sempre que ouço essa música ou revejo o filme Doutor Jivago, recordo esse amigo que partiu desta vida um tanto precocemente. Aliás, os verdadeiros amigos sempre se vão cedo demais. Mas, como disse, num de meus poemas, meus amigos mortos me acompanham cada vez mais vivos. 

ELEIÇÃO DA NOVA DIRETORIA DA APL

Francisco Miguel de Moura, Assis Brasil, Reginaldo Miranda, des. Paulo Freitas, des. Manfredi Mendes Cerqueira e Celso Barros Coelho


Francisco Miguel, Teresinha Queiroz, Assis Brasil, Hardi Filho, Reginaldo Miranda, des. Paulo Freitas, des. Manfredi Cerqueira, Elmar Carvalho e Celso Barros Coelho
Realizou-se hoje, pela manhã, a eleição para a diretoria da Academia Piauiense de Letras, que dirigirá a entidade no biênio 2012/2013. Em virtude da boa administração do presidente Reginaldo Miranda da Silva, que entre outras realizações promoveu vários eventos culturais, retomou a edição do boletim Notícias Acadêmicas, editou vários livros, publicou vários números da Revista da Academia, e já está com outros números no prelo, com o objetivo de atualizá-la, criação do site da Academia ( http://www.academiapiauiensedeletras.org.br ), não houve disputa. A chapa única estava assim constituída: Reginaldo Miranda da Silva – presidente; Raimundo Nonato Monteiro de Santana – vice-presidente; Oton Mário José Lustosa Torres – secretário geral; José Elmar de Mélo Carvalho – 1º secretário; Nelson Nery Costa – 2º secretário, e Manoel Paulo Nunes – tesoureiro. A chapa recebeu 33 votos a favor, sem nenhum voto contra ou nulo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A CONSOLIDAÇÃO DA APL


REGINALDO MIRANDA

Fundada a Academia em 31 de dezembro de 1917, foi eleita por unanimidade a nova Mesa Diretora, tendo por presidente o acadêmico Clodoaldo Severo Conrado de Freitas, de 62 anos de idade. Na primeira sessão magna ou solene que realizou-se em 24.05.1918, ao tomar posse o novo acadêmico Pedro Brito declarou sobre a eleição de Clodoaldo: “A Academia elegeu-o seu presidente: ninguém lhe disputaria a cadeira porque é o mais delicado e perfeito dos nossos escritores” (RevAPL, 1923).
Clodoaldo Freitas conduziria a Casa no período de 1917 a 1919, por dois anos, vindo a falecer em 1924. Foi sucedido por Higino Cícero da Cunha(1919 – 1924), de 61 anos de idade, sendo eles os dois principais esteios da nova agremiação literária, vez que Abdias Neves, outro grande talento, estava ausente no exercício do mandato de senador da República, vindo a falecer em 1928. Concluídos esses sete primeiros anos, assumiu a presidência da Academia o então governador Matias Olímpio de Melo, de 42 anos de idade, que acumulou os dois cargos a partir de 1924, deixando o governo do Piauí em 1928 e a presidência da Academia em 1929.
Esses doze anos iniciais representaram um período de implantação e consolidação da Academia como mola propulsora da cultura piauiense. Foi lançada a primeira edição da Revista em 1919, e que passou a ser reeditada com todo o zelo e competência, sendo a 14.ª edição lançada em 1929. Os Estatutos foram elaborados, aprovados e publicados passando a vigorar desde a sessão inaugural, instituindo a existência de trinta cadeiras, que foram preenchidas nas duas sessões que se seguiram à da posse da Diretoria. Em 04 de julho de 1921, pela Lei Estadual n.º 1002, a Academia Piauiense de Letras, juntamente com o Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e uma extinta “Sociedade Auxiliadora da Instrucção”, foram reconhecidos de utilidade pública. Em 1929, traz a revista a informação de que todas as cadeiras existentes continuavam devidamente preenchidas. Inclusive, em 25 de janeiro de 1925, ao tomar posse na Cadeira n.º 01, que foi de Clodoaldo Freitas, o padre Cyrillo Chaves informa que enfrentou acirrada disputa contra outro candidato e que foi esta a primeira vez que houve disputa para preenchimento de uma cadeira da Academia, o que demonstra o prestígio de que gozava a Academia e o conseqüente interesse dos escritores locais em ingressar na nova agremiação literária.
Pode-se dizer, então, que a Academia Piauiense de Letras consolidou-se desde cedo como uma das mais atuantes instituições culturais do País, atuando de forma efetiva no meio cultural, dentro do espírito moderno que orientava a produção literária brasileira. As três primeiras diretorias, pelo período de doze anos, foram presididas por dois sexagenários que representavam a mais consolidada cultura do Estado, atualizados das mais modernas correntes filosóficas e políticas em voga no mundo, cujo pensamento, de ambos, foi plasmado na histórica Escola do Recife; por fim, esse ciclo inicial foi coroado com a presença de um jovem e inteligente governador, também intelectual de largos recursos, o que demonstra o prestígio da Academia desde sua fase inicial. Em 1929, retorna à presidência da Academia o sábio Higino Cunha, em cuja gestão se demoraria por quatorze anos. Mas esse é assunto para outra análise.

FÁTIMA CAMPOS


Amigos, familiares, todos que puderem nos ajudar: minha mãe Maria de Fátima Campos Sousa Medeiros vai fazer uma cirurgia na terça, dia 20/12, ou na quarta, dia 21/12, e precisa de 58 doadores para doar plaquetas e concentrado de Hemácias! Pode ser qualquer tipo de sangue, o doador tem que ter de 18 a 65 anos acima de 50Kg, tem que estar alimentado. Se for mulher não pode estar menstruada nem grávida. Quando chegar ao HEMOPI, favor se identificar como doador da paciente Maria de Fátima Campos Sousa Medeiros, que vai fazer uma cirurgia no Hospital HTI, dessa forma as bolsas chegarão ao hospital!!! Por favor, compartilhem com todos! Que deus abençoe a todos nós! Grata!

Marina Medeiros


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



15 de dezembro

O DESTINO E A RELATIVIDADE

Elmar Carvalho


No ardor e na bisonhice de meu final de adolescência, no segundo semestre de 1975, fui, algumas vezes, com meu pai a reuniões no salão paroquial da igreja de Fátima, perto do chamado arsenal, antiga sede da Polícia Militar em Parnaíba. Seguíamos a pé, do apartamento dos Correios, onde morávamos, na Praça da Graça, até o local das reuniões. Nessa época, ainda me afirmando, eu gostava de debates e discussões intelectuais. Por duas ou três vezes, com a mediação de um dos padres redentoristas, entrei em calorosa discussão com o senhor João Batista Costa, funcionário aposentado dos Correios e vice-prefeito de Parnaíba, na gestão Elias Ximenes do Prado. Era ele colega e amigo de meu pai.

Ele esposava o entendimento de que existia destino, no sentido de que o homem já vinha com a trajetória de sua vida previamente traçada por Deus. Eu tinha o entendimento diametralmente oposto, e argumentava com ênfase muito incisiva que se não fosse assim a Justiça divina não existiria, ou, ao menos, não poderia existir o pecado. Ora, argumentava eu, se uma pessoa trazia o destino de cometer pecado, como, por exemplo, matar alguém, essa culpa não lhe poderia caber, já que ela nasceu com essa determinação do destino, da qual não poderia fugir, pois seria algo semelhante ao maktub dos árabes, cujo vocábulo pode ser traduzido por “já estava escrito”. Por outro lado, a virtude também não poderia existir, porquanto se um ser humano veio ao mundo predestinado a ser bom, a fazer caridade, nenhum mérito lhe caberia, uma vez que nascera “programado” para fazer o bem, para ser virtuoso. Logo, não poderia existir o destino. E se este existe, no sentido de predestinação, não pode existir o livre arbítrio.

Numa dessas vezes, quando a reunião terminara, procurei conversar com um dos padres, procurando sondar sua opinião e ao mesmo descobrir se ele tinha o mesmo pensamento meu, ou se também era adepto de que existiria o chamado destino humano. Ele deu uma resposta sibilina, enigmática, que eu interpretei como se ele estivesse se equilibrando em cima de um muro, ou tateando nas trevas de dúvidas e indecisões. O certo é que eu não o compreendi completamente. Hoje, passadas mais de três décadas e meia, penso que ele tinha uma postura mista, em que o destino não era totalmente descartado, como uma possibilidade, ainda que parcial ou que pudesse sofrer modificação ou interferência humana.

Com a maturidade, já começando a descambar para a chamada terceira idade, verifico que nunca um homem tem controle total sobre sua vida; que todos dependem de certas circunstâncias e acontecimentos, que lhe podem ou não ser favoráveis; que a vida de um homem, a começar pelo seu nascimento, é cheia de tempos e contratempos, de percalços, de acidentes de percurso, de fatos fortuitos ou aleatórios, de acontecimentos que não poderíamos prever, de acontecimentos que independem de nossa vontade ou poder decisório.

Vou mesmo além: se o óvulo de sua mãe tivesse sido fecundado por um outro espermatozóide, entre os milhões que disputavam a maratona em busca do único óvulo disponível, um homem seria outro homem. Por outras palavras, os acontecimentos se vão sucedendo, e nós vamos indo, às vezes de roldão, influenciando e sofrendo influência, tentando impor as nossas vontades, os nossos desejos. Em suma, tentando exercer influência. Em muitos casos, temos poder decisório, mas esse mesmo limitado pelas leis, pelos fatos, pelas convenções sociais, pela nossa personalidade, que por sua vez foi moldada pela herança genética, pela educação, pela experiência de vida, pela inteligência, e assim por diante.

Para não me alongar, parece que nada é absoluto neste mundo. A relatividade parece ser uma certeza, ou, ao menos, uma certeza relativa. Na mecânica quântica existe o princípio da incerteza; quanto mais um ponto é determinado, mais a velocidade se torna imprecisa. Por outro lado, cada vez são descobertos mais mistérios no mundo do infinitamente pequeno, como certas subpartículas de comportamento bizarro. Dizem que algumas parecem ora se comportar como ondas, ora como matéria.

Até a ideia de Einstein de que nada poderia suplantar a velocidade da luz parece estar sendo superada, pois o neutrino, uma subpartícula atômica, que não se detém ante nada, como se fosse um espírito, um ser (quase) imaterial, seria mais veloz que a luz. Agora mesmo, os cientistas estão a rastrear o chamado bóson de Higgs, apelidado de partícula de Deus, do qual parecem vislumbrar tênues indícios, ainda não totalmente comprovados. Em síntese: existem muitas incertezas e muitas coisas e acontecimentos sobre os quais não temos nenhum controle.

Diante de tudo isso que acabo de expor e ante as descobertas em torno do código genético (DNA), faço uma pequena revisão em minha crença de que o destino, no sentido de predestinação, não existiria. Ao que parece, algumas heranças genéticas parecem influenciar o comportamento do ser humano. Nesse aspecto, algumas pessoas poderiam ter predisposição para adotarem certos comportamentos, certas atitudes. Se isso for realmente confirmado, alguns crimes e pecados poderiam ser cometidos por causa do tipo de DNA do portador? E se isso for verdade, qual o grau de culpabilidade da pessoa, até que ponto ela seria responsável pelo seu pecado ou crime? De qualquer maneira, isso não elide o fato de que a sociedade tem necessidade de se defender dos criminosos e violentos, sejam eles sanos ou insanos, psicopatas ou não.

Outro dia, ouvindo meu pendrive, que tem mais de mil músicas, que fui selecionando ao longo de várias décadas, através de discos de vinil, de CDs, de mp3, da internet, etc, e que uso sempre no modo de seleção aleatória, ou seja, através do programa que faz uma espécie de “sorteio” das músicas, pensei na vida e no destino. Quando, por algum motivo, eu não estava disposto a ouvir a faixa “sorteada”, eu apertava o botão que provocava nova escolha aleatória. Quer dizer, eu tinha o poder de elidir, naquele momento, aquela determinada canção, entretanto eu não tinha o poder de escolher que música viria a seguir.

A vida, fazendo uma analogia, permite que descartemos algumas “músicas”, mas parece não nos dar muito poder de decisão sobre o que nos reserva o futuro, pois todos influenciamos e somos influenciados, numa tremenda interação, em que todos decidem algumas coisas, no varejo, e são destinatários, no atacado, de decisões alheias, coletivas ou individuais. Ortega y Gasset disse que “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Sem dúvida. De acordo. Entretanto, com certeza, em muitas ocasiões, ele não foi o artífice de suas próprias circunstâncias. Como diz minha mãe, nós não sabemos sequer de que modo iremos morrer. Por isso mesmo, os humildes e precavidos, rezam para ter uma morte.