segunda-feira, 30 de junho de 2014

UMA LINDA MULHER


UMA LINDA MULHER

Antonio Gallas

Não se trata aqui do filme americano “Pretty Woman” de 1990 dirigido por Garry Marshal que foi estrelado por Richard Gere e Julia Roberts, muito menos da canção do Roy Orbison “Oh Pretty Woman!” que serviu de fundo musical do referido filme. Mas trata-se mesmo de uma linda mulher que caminhou pelas ruas desta cidade abençoada por nossa Senhora da Graça, chamando a atenção de todos (isto é, daqueles que gostam, é claro,) por onde ela passava. Uma linda mulher daquelas que costumamos dizer, “de parar o trânsito”, “de fechar o comércio” ou “de fazer avião mudar de rota”. Um verdadeiro “pedaço de pecado ambulante” que no meu entender, se apreciar o que é belo não é nenhum pecado... E isso me remonta a duas grandes figuras que tive o prazer de conhecer: o professor Barreto, assíduo frequentador do Bar do Santana em Teresina e o nosso saudoso Balula declamador e orador eloquente. Professor Barreto quando se deparava com um desses monumentos exclamava alto e em bom tom: “caramba! Tem seu valor!... Já o nosso Balula com aquele entusiasmo que lhe era peculiar dizia: “que maravilha! Abriram as portas do céu!”“Deus soltou um anjo”! e arrematava: ‘se Deus fez algo mais bonito e melhor do que mulher, escondeu. Ficou prá Ele”...

Com essa linda mulher que transitou pelas ruas da nossa querida Parnaíba chamando a atenção de todos mantive um pequeno diálogo,, embora um diálogo não amistoso, mas tive o prazer também de ouvir sua voz. Foi mais ou menos assim:

Num desses feriados prolongados em que muitas pessoas buscam o litoral do Piauí pelas belezas naturais, pela tranquilidade e também pela amabilidade e hospitalidade de seu povo foi que conheci a dita cuja, ou seja, esta linda mulher. Vinha eu caminhando pela rua que dá acesso à Praça da Graça ( Monsenhor Lopes, salvo engano) pelo lado que dá acesso à Catedral quando saiu de uma daquelas lojas das galerias do Hotel Delta duas mulheres. Uma aparentando uns 30 e poucos anos, e a outra bem mais jovem. A mais velha é a quem me refiro nesta crônica. Parei um pouco e fiquei observando aquele belo espécime da autoria do grande Deus do Universo. Ela ao perceber indagou-me da seguinte forma: - Você nunca viu uma mulher na sua vida? De pronto respondi: muitas, mas com a sua beleza são poucas. Então ela retrucou: Você me respeite! Do mesmo modo respondi-lhe: - Não estou lhe faltando com respeito. Pelo contrário, estou lhe fazendo um elogio. Novamente ela retrucou: - Você é muito audacioso, seu insolente, vou dizer pro meu marido. Eu não me fiz de rogado e respondi na mesma pisada, em cima das buchas: - Pode dizer, mas tenho certeza que ele vai concordar comigo.

À essa altura dos acontecimentos a colega dela disparava em gargalhada. As duas saíram em passos apressados na direção da avenida Presidente Vargas e até hoje não sei se ela gostou ou não do elogio. Só ela, somente ela poderá esclarecer esta minha dúvida. Mas o certo é que uma linda mulher nunca deixa de ser um colírio para os nossos olhos. Esta apareceu apenas para somar com tantas outras que habitam a nossa bela e querida cidade da Parnaíba.      

domingo, 29 de junho de 2014

Seleta Piauiense - Everaldo Moreira Veras


Descer

Everaldo Moreira Veras (1937 - 2011)

A noite foi toda de desordem.
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
                       descendo
                       descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.

Nunca, nunca um homem desceu tanto! 

sábado, 28 de junho de 2014

Quem são os meus amigos?


Cunha e Silva Filho
         
                           À medida em que vou envelhecendo,  sinto a solidão dos amigos, e aqui  aludo até  mesmo  aos amigos mais  íntimos,  não aos colegas fortuitos, aos amigos de conveniências, aos de um dia, de uma semana, de um mês, de um ano,  de horas,  da infância (já quase apagados, tudo é penumbra,  que mais está para o fog inglês), aos amigos formais. Parece que a tecnologia,  o louco mundo contemporâneo,  das amizades virtuais,  dos facebooks, do telefone,  dos tablets e outros gadgests está  substituindo, parcamente,  é claro,  as grandes amizades. Considero que o verdadeiro amigo  é aquele com  quem se pode   desabafar,   dizer verdades  e até mesmo   soltar uns palavrões. Amigos que se encobrem de formalidades não são  verdadeiros amigos.
                            Eu sei que estou  sendo  duro  com  o desenvolvimento do tema  desta crônica, mas não me conformo em absoluto com  a falta do sentimento mais puro  e  incondicional. Na vida social, todos são “amigos,” até os estranhos  muitas vezes chamamos  de “amigos.” O sentido genuíno, nobre,   solidário,  preciso,  afetuoso, a amizade livre  que não tem receio de errar diante de um grande amigo, é esta que me  faz falta no mundo  atual. Estou cansado de expressões  meramente  corteses: “meu amigo”, querido amigo”,  ”um abraço do amigo etc.”   Elas só valem  pelo significante, é incompleta na inteireza semântica, na verdade íntima, não vai ao  “eu profundo” dos simbolistas.
                        Da infância para adolescência, desta para a vida adulta e da vida adulta para a velhice  vamos  acumulando um monte  de perdas de amigos, que se afastam, somem nas multidões. Sei que a vida presente é um frenesi,  um açodamento, uma correria,  um pensar em si mesmo,  e, então,  os outros, vão sendo deixados para trás,  até serem  definitivamente   esquecidos pelo  animal social.
                           A corrida para o sucesso,  para a sobrevivência,  para o que dá mais  lucro e conforto são fatores  agravantes da  fragmentação  do indivíduo.  E é nessa  corrida que as promessas  se vão  esfacelando. A passagem  da existência terrena é  mesmo  escassa de grandes amizades. O tempo urge. Os compromissos inadiáveis na agenda do  individualismo  estão acima  do sentimento  lídimo da amizade. Para  o nosso  pequeno mundo,  passageiro  e curto,  temos todo o tempo do mundo. E isso vale para pai, filhos,  netos,   parentes em geral.  Háquem me diga: “Mas você não me procura, não me telefona, não me  escreve, anda sempre sumido...”  Não,  não sou eu que não escrevo, não sou eu que estou sumido,  é a amizade que está fenecendo. E este fenômeno  social abarca não só os que não são parentes, segundo falei atrás,  mas todos socialmente   considerados.
                 Há quem  fale de uma amizade  que me decepciona    em especial:  a amizade  que chamo de “interessada.” Não é uma amizade  de verdade,  ela vive das aparências  e da hipocrisia; é plena de    carinhos,  atenções,  bajulações. Não se sustenta na verdade dos sentimentos,  conserva-se sob o escudo  das exterioridades, das superfícies, do faz de conta. O seu motor  propulsor, o seu dínamo se alimenta  da fachada, do postiço, do irreal. Seria como uma amizade “comprada.”   Ela dura enquanto dura o interesse maior  interpessoal  mediado pelo fetiche do dinheiro  e  do poder  econômico-financeiro.Seu passaporte é o prestígio financeiro de um dos lados, o lado mais forte, que é o capital, a conta corrente gorda e verdadeira fábrica  de amizades  de fancaria.
Talvez,  uma  única saída para  essa carência é cultivar a solidão  da arte, do artista,  do nosso mundo  íntimo e profundo.Que me seja  consolo  a seguinte admirável  passagem de um texto do crítico  Álvaro Lins (1912-1970),  autor que tenho  ultimamente tanto lido por injunções  de pesquisa e pelo prazer de seus  textos: “Porque é um solitário  é que o artista constrói um universo de imagem onde possa introduzir as raízes mesmas do seu ser.Porque é um artista é que um homem tem  que ser solitário, porque somente na solidão a arte existe.” (LINS, Álvaro. Teoria literária. Rio de Janeiro: Edições de Ouro,  1970, p. 109).
         A pergunta do título desta crônica não é um mero  jogo   retórico, mas a constatação da experiência de quem  viveu mais do que  tantos que já se foram, alguns ainda tão cedo. A sociedade,  capitalista, ou não capitalista,  dos nossos tempos  é que nos empurra  para a solidão e perda das amizades feitas ao longo  da vida.Todos, ou quase todos,  estão  pensando mais no seu próprio umbigo,  na sua aventura  pessoal e no seu  hedonismo  intransferível. Só as aparências valem, combinadas  harmoniosamente – quão lamentável! - com o dinheiro e a conquista  pessoal, o culto  à beleza  da juventude e  a obsessão  pelo aqui e agora. Amizade, família   pais  ficam  para trás. Que fosso tão profundo existe entre novos e velhos, entre a alegria  do primado do presente eterno e efêmero e a solidão  dolorida  da experiência a caminho da eternidade, vista esta em todas as suas formas  de  expressão  e busca pelo  sentido  do tempo e da existência. Volto à pergunta inicial: Quem são os meus amigos? Quereis, leitor,  a minha  resposta? Não vou  dizê-la. Deixo-a em aberto. Muitas vezes,  prefiro a ambiguidade à clareza sob o manto opaco da  hipocrisia: uma  realidade digna da ficção  machadiana.   

sexta-feira, 27 de junho de 2014

POEMA DA MULHER AMADA


POEMA DA MULHER AMADA

Elmar Carvalho

Amada mulher fatal
o teu amor embora servido
em pequeninas doses é letal
mas eu o tomo lentamente
como um néctar de veneno
em longos e lentos goles (sereno)
como ópio em lenta mente

Mulher amada o teu amor
conquistador e guerreiro me toma de assalto
e nem me deixa a oportunidade
de esboçar o meu espanto
e ensaiar o meu sobressalto
de acrobata perdido em pleno salto
                                         mortal
mas que antes de um desfecho trágico
como que por milagre se salva
entre magia sortilégio e quebranto
pelo gesto carismático de um mágico

Amada mulher fatal
o teu amor devastador
não me deu a chance de optar
entre te querer ou não querer     

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Memorial Chico Pereira e Museu do Couro


Encontra-se na Oficina da Palavra o Dossiê de Tombamento municipal do Sítio Rocio, juntamente com um requerimento e abaixo assinado para encaminhamento à Prefeitura Municipal de Campo Maior.

É a tentativa para instalar-se nesse sítio o Memorial Chico Pereira e o Museu do Couro.     

terça-feira, 24 de junho de 2014

IMPRESSÕES DE VIAGEM


Edmar Oliveira

Uma amiga perguntou pelo Piauinauta, que não sai há quase um mês, e eu falei que estava enrolado com o lançamento do meu TERRA DO FOGO em Teresina e que tinha de ficar lá por uns dez dias. Ela então falou: “sei, você está de licença paternidade”.  Acertou assim.

Cheguei para o “Sarau dos Amigos do Cinéas” na Oficina da Palavra, onde o livro foi muito bem recebido. Passei toda a semana indo ao stand do Leonardo, que tem editado livros de escritores da terra (muito bem caprichados), autografando o TERRA DO FOGO, que por sinal esgotou o estoque de lançamento. Eu e Salgado Maranhão fizemos um bate-papo literário discutindo o meu livro e o dele (MAPA DA TRIBO) para uma plateia de cinquenta a sessenta pessoas às oito horas da manhã, o que me surpreendeu. Geraldo Borges estava lançando ESTAÇÃO TERESINA anunciado aqui no Piauinauta anterior.

Boas conversas com Paulo Tabatinga, Gisleno Feitosa, Rodrigo Leite, Durvalino Couto, Feliciano Bezerra, Wellington Soares, Cinéas Santos, Graça Vilhena, Paulo Vilhena, João Carvalho, Fonseca Neto, Alexandre Carvalho, Gilson Caland, Climério Ferreira e Helô, Keula Araújo, Luana Miranda, Poeta Willian, a muito jovem e bonita escritora Fran Lima, Deusdeth Nunes e a turma do Conciliábulo, entre tantos outros que tive por bem encontrar. Fui entrevistado por várias emissoras de rádios que cobriam o evento, entre elas a de Marcos de Oliveira e a de Leide Sousa. E ainda deu tempo gravar um depoimento sobre o cinema marginal dos anos 70 para Patrícia Kelly e Morgana, que fazem um documentário como monografia do curso de história e jornalismo. As meninas são brilhantes. E eu estou tão velho que virei pesquisa. Mas é bom ser reconhecido.

Tinha tudo pra ficar contente. Mas não fiquei.

Me hospedei no Hotel Central, em frente ao Club dos Diários, ao lado da praça Pedro II e seu Teatro 4 de Setembro, complexo que foi outrora o centro pulsante e cultural da cidade. Após cinco dias fui para a casa do meu irmão Maioba angustiado pela solidão. A cidade entre os dois rios, que se estendia do encontro de suas águas no Poty Velho até a Vermelha (citada no filme genial do Torquato Neto) não existe mais. Foi definitivamente abandonada por seus habitantes que atravessaram o Rio Poty e ergueram uma cidade moderna na zona Leste. Mas que não tem nenhuma lembrança da minha cidade.

A minha cidade é uma cidade fantasma. Os poucos e pobres habitantes que ali ficaram não saem de noite nas suas ruas escuras com medo de assalto. Trancam-se em suas casas. Os de mais posses fazem cercas elétricas para protegerem a sua solidão. As ruas foram entregues ao drogados, aos desocupados que ocupam uma cidade sem lei e sem ordem. Em suas ruas desertas, mesmo ao meio dia, encontrei duas pessoas usando drogas. Não senti qualquer medo. Eram pessoas que eu conhecia da minha infância naquelas, outrora, ruas agitadas. Agora estavam os dois usando drogas numa cidade trancada com medo deles. Esquisito. Conversamos sem medo entre nós. Eu não me senti ameaçado por eles. Fiquei com pena de a cidade os terem tragado pela fumaça de um inexistente futuro.

Sem querer contrariar os meus anfitriões do Salão do Livro do Piauí (SALIPI), até entendo os seus motivos de o terem tirado da Praça Pedro II para que acontecesse este ano na Universidade Federal, que também fica na Zona Leste da nova cidade. Mas não concordo.

Desculpem, mas penso que a cultura abandonou também a cidade antiga. Não digo que ficou elitista porque a Universidade pública congrega estudantes de todas as classes. Mais ainda com o sistema de cotas. Mas acho que a cultura abandonou também a cidade antiga. É preciso que analisemos este fato mais devagar. Não vou fazer agora.

No livro que em Teresina fui lançar conto uma história triste que a cidade tinha esquecido. Os incêndios dos anos 1940. Acho que em breve um cronista vai contar essa história, também muito triste, do abandono da cidade antiga. A impressão que eu tive, e que me encheu de tristeza, é que ela não mais existe. E uma cidade sem passado é uma cidade sem futuro.      

sábado, 21 de junho de 2014

ALGUNS HAICAIS


ALGUNS HAICAIS

Elmar Carvalho

SIMBIOSE AMOROSA

Eu te amo
para que me ames
e eu te ame.

ASCENÇÃO

A chuva caía
e em cada pingo dizia:
Saiba cair.

TROVÃO

Nuvens novas
brincando de soltar
tiros de foguete e rojão.

AMOR

Arte de possuir
na mesma medida
em que se é possuído.

CHUVA

Bênção dos céus
debulhada em bagos
d' água.

RELÂMPAGO

Nuvens novas
a brincar com
fogos de artifício.    

quinta-feira, 19 de junho de 2014

TEMPOS RIBEIRENSES

Benedito Guimarães, Miguel Carvalho, Elson Antunes, Elmar Carvalho, Barbosa e Aníbal Carvalho, na solenidade de instalação da Fundação Leôncio Medeiros


TEMPOS RIBEIRENSES (*)

Elmar Carvalho

No último dia de fevereiro de 2000, tomei posse como titular da Comarca de Ribeiro Gonçalves, e no mesmo dia retornei a Teresina, em virtude de minhas férias que teriam início em março.

Já nessa primeira viagem, da tela panorâmica da janela de um velho ônibus empoeirado, comecei a observar com muita atenção a paisagem das plagas ribeirenses, tão diferentes dos tabuleiros e descampados, ornados da graciosidade dos talhes esbeltos das dançantes carnaubeiras de minha Campo Maior, dos vastos campos maiores. Via os pequizeiros e os característicos “folhas largas”, de escura e grossa casca rugosa. Contemplava o azul distante das serras a contrastarem com o azul do céu e com o verde do cerrado.



Ao assumir os serviços de minha judicatura, procurei cumprir com zelo, esforço e dedicação as minhas funções, e, sobretudo, com imparcialidade. Os que conheceram o meu trabalho reconhecem esse meu esforço. Sempre busquei ser o melhor juiz que a minha capacidade de trabalho, discernimento, inteligência e limitações pudessem alcançar. Fiz o que, nas circunstâncias e condições oferecidas, me foi possível fazer.

Vários textos de minha autoria, tanto em verso como em prosa, foram concebidos nas viagens entre esta cidade e Teresina, pois enquanto contemplava a paisagem, os bandos de periquitos, a corrida das emas e seriemas e eventualmente outros animais, alados ou não, a minha imaginação muitas vezes entrava em ebulição, em que esses textos, prosaicos ou poéticos, foram gerados.

Observando a paisagem e os animais, bem como as estrelas e as nebulosas, quando a noite aniquilava tudo o mais, foi cometido o meu poema Viagem, que também nasceu nas vezes em que eu ficava na praça principal de Uruçuí, sozinho em um banco, a contemplar o lusco-fusco e o surgimento tímido das estrelas. Esse poema é na verdade uma oração ao Supremo Arquiteto do Universo. O meu poema Canção pastoril de um urbanoide decaído começou mesmo a ser elaborado nessa última cidade, utilizando-me de um lenço de papel oferecido por uma lanchonete da rodoviária.



Por longos anos almejei escrever um poema sobre a chuva, com suas enxurradas e trovões. Esse poema explodiu em meu cérebro num dia chuvoso em que cheguei à agência do Sr. Aarão, em Ribeiro Gonçalves. Como eu desconfiasse de que o aguaceiro não pararia tão cedo, fui a pé, debaixo de chuva, encharcado nos ossos e na alma, dessa parada até o fórum, afagado e quase afogado pelos pingos tão frios. Choveu durante toda a semana, de modo que o meu poema Chuva foi feito, literalmente, debaixo de chuva.

O meu texto A ilha do sonho e do encanto, misto de crônica e conto, nasceu de um sonho que tive dentro do ônibus, quando seguia para minha Comarca, e que terminou abruptamente, no momento em que acordei sobressaltado com um forte solavanco provocado por uma cratera da estrada. É um tanto surreal, mas a realidade, às vezes, é mais surpreendente e onírica do que o próprio surrealismo.

No meu período ribeirense, observando a grande quantidade de carroças existentes em Uruçuí, tracionadas por jumento ou burro, resolvi escrever uma crônica sobre jumento, como era um antigo desejo meu. Fui coadjuvado pelo irmão Elson, que me narrou a história pitoresca e engraçada do fabuloso jegue Pimenta, que, pelo visto, era uma legítima pimenta malagueta e jamais de cheiro.



Nesses tempos ribeirenses, gostava de acompanhar, nas horas de folga, da porta do fórum ou do seu pátio, o voo majestoso e aristocrático dos urubus, suas evoluções graciosas de perfeitos dançarinos aéreos, seu balé irretocável, tendo como teatro a amplidão dos ares e como cenário o azul do céu e o branco das nuvens, e gostava de vê-los pousados em um frondoso e colossal angico branco, que ficava um pouco à esquerda do meu campo de visão, fincado na encosta do morro em frente, em que as casas se dependuravam em hábil e elegante malabarismo. Por isso, quando mataram, de forma estúpida e cruel, uma grande quantidade dessas aves, em Teresina, elaborei, entre aquela cidade e Ribeiro Gonçalves, uma crônica em que vergastei essa chacina monstruosa.

Durante meus quatro anos de Ribeiro Gonçalves, frequentei, com relativa assiduidade, a Loja Maçônica Celso Antunes. Dessa loja maçônica são assíduos frequentadores os poderosos irmãos Elson Antunes, seu atual venerável, irmão de coração de ouro de muitos quilates; Aníbal Carvalho, árvore frondosa, de densa sombra e suculentos e doces frutos, erudito e tribuno inspirado e admirável; Francisco Modesto Barbosa, modesto apenas no nome, mas um gigante na capacidade de trabalho; Joel, pedreiro também na vida profana, a desbastar a pedra bruta que todos nós carregamos; Tenente Wilson, inteligente e espirituoso, a forjar piadas no “repente” do improviso; José Pinto, cordato, entretanto um verdadeiro carcará da maçonaria, a defendê-la com denodo e garra, mas sempre com elevação; Hugo Torres, advogado acirrado e inteligente, empresário, ex-venerável, em cuja gestão foi iniciada a construção do templo físico da maçonaria, posto que o espiritual já existe e é admirável; Ubiratan Ribeiro, que vem se revelando como um maçom dedicado e zeloso, assim como seu filho, Marcos; Joveraldo, sempre preocupado com o seu aperfeiçoamento maçônico, na busca incessante do polimento da pedra, e também com o crescimento da loja, cioso de seus deveres na vida profana. Completando a constelação de maçons vontadosos e dignos, cito ainda Otoni, Gilmar, José Ricardo, Arenaldo, Tomaz, Arimatéia e Cícero. De já peço desculpas por alguma involuntária omissão. Além de mim, maçom que precisa e muito desbastar a pedra bruta, eram maçons visitantes os estudiosos, assíduos e de amplos conhecimentos iniciáticos, verdadeiros mestres e paradigmas de todos nós, os irmãos Antônio Carlos e Ulisses, que exerceram sucessivamente a gerência do Banco do Brasil, dinamizando-a e expandindo-a.

O tenente Wilson sempre era o mocinho, nos episódios anedóticos de que era o protagonista e herói vitorioso. Somente num caso que me contaram, pelo menos na versão contada, o tenente levou a pior. Estava ele muito preocupado sobre se ia chover, como todo nordestino que se preza, quando apareceu uma pessoa vinda de uma localidade rural. Imediatamente o tenente perguntou-lhe se choveria, ao que essa pessoa respondeu, sem titubear: “Ô, Wilson, eu venho é da Bacaba, não é do céu, não!” O tenente ficou perplexo, boquiaberto, sem uma resposta pronta, como era de seu estilo bem humorado.

Tive a subida honra de ter o meu poema Mística transcrito em uma bela placa, que será afixada no templo maçônico, em fase terminal de construção, por iniciativa do então venerável Hugo Torres, e que teve o respaldo posterior do atual venerável Elson e dos demais irmãos.


Antiga sede em casa alugada. Hoje a Loja tem prédio próprio

Nesses tempos ribeirenses, participei de alguns eventos culturais, literários, maçônicos e cívicos, tendo tido a oportunidade de lançar livro de minha autoria, bem como participar do lançamento de outros livros, no caso do escritor e historiador Adrião Neto, cujo evento articulei, com o apoio da maçonaria e da prefeitura. Nesses eventos discursei e entoei versos de minha autoria. Pude pregar o bem, o bom e o belo, que devem ser o desiderato de nossa vida.

Durante minha serventia, a quantidade de processos aumentou muito, com o crescimento dos projetos agrícolas, com a valorização da terra, com as relações comerciais motivadas pela crescente produção de soja. Na verdade, foi uma conseqüência natural do progresso e do desenvolvimento econômico da região.




Para mim foi uma honra servir nesta Comarca onde serviram o grande escritor, ficcionista, folclorista e paremiologista Fontes Ibiapina, juiz digno, honesto, honrado e humilde no trato pessoal, também professor competente, que tive o gáudio de conhecer em Parnaíba, onde exerceu a judicatura literária no jornal Folha do Litoral, e o excelso poeta Júlio Antônio Martins Vieira, célebre e celebrado autor do épico Canto da Terra Mártire, que foi por largos anos emérito professor. Não podendo sugerir o nome de Fontes Ibiapina, que já era patrono do fórum de Cocal, sugeri o nome do poeta, professor e magistrado Júlio Antônio Martins Vieira, através da douta corregedoria de Justiça, na gestão do Des. Osíris Neves de Melo Filho, para que fosse dado ao fórum de Ribeiro Gonçalves o seu nome honrado, cujo nome fora aprovado, por unanimidade, em reunião que convoquei, com a presença do prefeito João Antunes, de representantes da Câmara Municipal e da maçonaria, e de outros segmentos da sociedade. A sugestão foi acolhida, também a unanimidade, pelo Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Piauí.




Eram advogados residentes na Comarca os ilustres doutores Hugo Torres e Benedito Martins Guimarães. Com o primeiro, fiz um passeio na lancha “voadora” do Carlão (Carlos Alberto), venerável da loja maçônica e gerente do Banco do Brasil, que, logo que cheguei para assumir meu cargo, fora promovido para a agência de Picos. Nesse passeio pude ver toda a beleza das margens preservadas do Parnaíba, o imortal “velho monge” do poeta Da Costa e Silva, refertas de verdejantes árvores que se debruçavam sobre o leito do rio, nas quais saltitavam inquietos e simpáticos macacos e as graciosas aves dos cerrados, com seus cantos maviosos. Paramos no remanso de uma pequena ilha paradisíaca, de areias brancas, macias, quase flocos de diáfanas nuvens. Pescamos, digo, o doutor Hugo pescou à sombra de imponente e copada mangueira. Pescou alguns peixes, pequenos é verdade, mas pescou. Não é estória de pescador, não: meninos, eu vi – como asseveraria o poeta Gonçalves Dias. Comemos numa casa de um ribeirinho, num recinto de chão batido, que era também uma rústica sala de aula, cuja professora era a dona da casa. Ali havia um menino, de seus oito anos, que me olhava de vez em quando, com curiosidade, talvez com o imaginário aguçado por estar vendo um juiz em carne e osso, no mister prosaico de comer uma frugal, mas saborosa refeição. Depois, eu soube que o menino comentou, quando o prefeito João Antunes esteve nessa casa, que eu não era como um certo morador da redondeza, que comia uma verdadeira montanha de carne, feijão e arroz, com rápida e admirável voracidade; que eu fazia um prato pequeno, comia devagar e mastigava bem o alimento. Apenas, teve a franqueza infantil de acrescentar que eu deglutira quatro pratos! De qualquer sorte, me elogiou, ao dizer que desejava proceder como eu fizera...



Na minha judicatura nesta circunscrição judicial, fui ajudado, com muita dedicação e boa-vontade, por todos os servidores, que se excederam em esforço e zelo, entre os quais recordo os nomes de dona Conceição, Nilza, Barbosa, Márcia e Toinha, além de dona Marilene, uma espécie de assessora para assuntos aleatórios.

Casa em que se hospedava o saudoso Dr. Benedito Guimarães

Como já falei, o Dr. Benedito Martins Guimarães, ótima e agradável pessoa, com sua cabeleira muito branca, aparentando macios flocos de algodão, era um advogado residente na Comarca. Digo residente na Comarca porque ele se hospedava com o seu sogro, logo no outro lado do rio Parnaíba, numa casa antiga, em cuja frente se erguia uma majestosa árvore, parece-me que amazônica, senão na origem pelo menos no tamanho gigantesco, ao lado de um morro, em cujo cimo se enxergava um abrigo para os bodes. Conversávamos muito, algumas vezes, quando o Dr. Benedito desfiava os seus “causos” pitorescos e engraçados, ou quando debulhava o rosário de suas lembranças, algumas remontando a sua infância. Numa de suas peraltices, foi, literalmente, capar um felino, com uma linha, mas terminou estripando-o, quando suas vísceras foram se desenrolando como um novelo de meada. Uma vez, por um ato falho, chamei o Dr. Benedito de Expedito. Ele me corrigiu, em sua maneira lhana. Respondi-lhe que ele era esperto e ligeiro, e que, por conseguinte, era também Expedito, já que o santo desse nome era exatamente o defensor das causas urgentes. Certa feita, eu e o Dr. Afonso Aroldo fomos convidados por ele para um passeio em sua chalana, pelas barbas aquosas do “velho monge”, com destino a uma de suas propriedades, onde iríamos degustar um bode. Quando chegamos ao ponto de embarque o Dr. Benedito já nos esperava, em companhia do piloto e do “berrante” que iríamos almoçar. Esse caprino desmoralizou o ditado que afirma bode embarcado berrar muito. O bode comportou-se como um lorde. Não esperneou, não berrou e morreu contrito e silencioso como um mártir. Nunca vi caprino mais educado e estoico.



Sem dúvida, atuei, em Ribeiro Gonçalves, em muitas causas importantes e de alta complexidade, como provam várias de minhas sentenças. Entretanto, gostaria de comentar três casos humildes e simples, mas pitorescos e quase anedóticos, revestidos de uma certa dose de humor. Num deles, uma família questionava uma casa. A mãe e as filhas contra o pai. Como ambas as partes fossem paupérrimas e nada mais possuíssem, decidi-me por fazer uma justiça um tanto salomônica, e determinei que o oficial de justiça Barbosa, que na verdade era um “faz-tudo”, inclusive sendo uma espécie de arquiteto prático, promovesse a divisão da casa, da maneira mais funcional e menos danosa, traçando a linha divisória, em que uma das partes ocuparia um lado e a outra parte ficasse, obviamente, do outro lado. A decisão deu certo, pois nunca mais fui procurado por nenhuma pessoa dessa família. Em outra causa, foram discutidas umas bananas. Ora, banana sempre foi tida e havida como algo sem valor, tanto que se fala pejorativamente em preço de banana, em república de banana, em sujeito banana. Nesse episódio, uma mulher destruiu uma pequena plantação de bananeiras, na margem de um rio, alegando ali ser o porto de sua canoa. A vítima ingressou com uma ação indenizatória. Em minha decisão mandei que o serventuário, com a ajuda de um técnico agrícola, fizesse o cálculo de quantas bananas a plantação produziria, e o preço, pelo valor corrente no mercado, total dessas frutas, cuja importância seria acrescida de 20%, a título de multa “pedagógica”.

O advogado do requerente ingressou com embargos declaratórios, alegando que eu omitira vários serviços e despesas feitas pelo seu constituinte. Respondi – declarando a sentença – que se o objetivo do requerente era a produção das bananas e se mediante cálculo eu mandei que estas fossem indenizadas, ainda com o acréscimo da multa, não necessitaria falar em despesas, já que a finalidade dessas era a referida produção. O decisum alcançou o seu desiderato, vez que não houve recurso. O último caso curioso que desejo mostrar é o seguinte: um rapaz fez sua casa perto da residência de uma sua parenta, em terreno desta, sem cerca divisória. Depois de algum tempo, a parenta se agastou com a vizinhança, já não me recordo por qual motivo. Essa senhora se mostrava irredutível e intransigente no desejo de afastar o parente. Apareceu-me o Pedro Trolete, me afirmando que já contribuíra para evitar pendengas judiciais, apaziguando os desafetos, e que se comparecesse à audiência de conciliação resolveria o problema, com uma proposta que faria, apesar de não ser parte. Não obstante a oposição ministerial, permiti sua participação, pois o que me interessava era a solução do conflito, e não o apego a um formalismo a meu ver desnecessário naquele caso e circunstância. O Pedro propôs ajudar o rapaz a construir outra casa, em um mês, em terreno seu. Essa proposta foi aceita pelas partes. Pedro, que não era pedra, mas diamante sem jaça, cumpriu a promessa e o conflito foi solucionado, que é o que interessa à Justiça.

Durante minha estada nesta Comarca, foram representantes do Ministério Público os doutores: Maciel, conhecido como o promotor cantor, pois além de cantor é ainda hábil compositor, já tendo lançado mais de um cd com as suas belas melodias; muito preocupado com questão de saúde, tendo muita cautela com alimento e mudança de temperatura, principalmente por força de ar condicionado, dele dizia, brincando, o doutor Almir, meu antecessor, que ele deveria viver numa “bolha”; sei que vivia no mundo da realidade dos autos e no mundo encantado da música. Afonso Aroldo, um tanto tímido, de natureza humilde, mas um gigante para o trabalho, pois, acumulando mais de uma comarca, muitas vezes o vi varar as madrugadas, debruçado sobre os autos e a digitar os teclados do computador, quase se extenuando no cumprimento do dever. Araína Cesárea, muito preparada, inteligente e de largo conhecimento teórico, igualmente ciosa de seus deveres e prerrogativas funcionais. Com todos eles tive saudável convivência, sem nenhum tipo de animosidade ou exacerbamento de ego ou vaidade, que pudesse prejudicar a harmonia e interdependência que deve haver entre a magistratura e as atribuições ministeriais.

Tive, recentemente, a elevada honra de haver sido comunicado oficialmente, pelo ilustre amigo Adovaldo Medeiros, de ter sido eleito, por unanimidade, para membro honorário da Fundação Leôncio Medeiros, cujas finalidades são educativas, culturais e de promoção social. Essa honraria não alimentará a minha vaidade, mas será um forte estímulo para que eu procure fazer mais e melhor nas minhas áreas de atuação, sobretudo a literária, a que venho me dedicando por quase toda a minha vida, porquanto ela desabrochou em mim quando eu tinha dez anos de idade e até hoje me acompanha de forma incontrastável e determinada.



Pretendia somente deixar Ribeiro Gonçalves por motivo de promoção para uma outra entrância. Acometido de um CA, tive que fazer uma cirurgia (colectomia parcial) e tratamento de quimioterapia; por esse motivo, pleiteei uma remoção por merecimento para uma cidade mais próxima de Teresina, e a consegui, por unanimidade. As ciladas da vida e os desígnios de Deus são inelutáveis, e a eles nos devemos submeter sem relutância, aperfeiçoando nosso espírito com a resignação nobre, diferente do conformismo mesquinho dos que não sabem ou não querem lutar.

Carlos Drummond de Andrade disse que a sua Itabira era apenas uma fotografia pregada na parede, mas como doía. Manuel Bandeira afirmou que iam derrubar sua casa, mas que seu quarto ia ficar de pé, suspenso no ar. Alguém, de forma igualmente feliz, disse que trazia seu torrão natal tatuado na alma. O escritor piauiense Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, naturalmente da mesma família do epônimo desta cidade, dizia que, não podendo permanecer na sua Amarante, a trazia numa fotografia fixada na sala de sua casa.

Inspirando-me em todos eles, direi que trago a aprazível e bucólica Ribeiro Gonçalves no escrínio de minha memória, nos escaninhos das circunvoluções de meu cérebro, no relicário de minha alma e nas gavetas ventriculares de meu saudoso coração.

Miguel Carvalho e Elmar, na travessia de pontão entre Uruçuí e Benedito Leite

(*) Palestra proferida no dia 14.11.04, em Ribeiro Gonçalves, por ocasião da solenidade de instalação da Fundação Leôncio Medeiros, oportunidade em que tomei posse do cargo de membro honorário dessa entidade educativa, cultural e de promoção social.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Na onda da bola


Cunha e Silva Filho

Não vá  o leitor pensar  que sou um expert em futebol. Longe disso. Creio que o interesse pelo futebol no Brasil é algo entranhado como  o samba, o carnaval, as mulheres brasileiras.

Quando  adolescente,  lá em Teresina,  na Rua Arlindo Nogueira esquina com a São Pedro, tudo poderia ter sido diferente se, nas peladas, do lado da Arlindo Nogueira,  eu me saísse melhor nos chutes e nos dribles. "Qual nada!” Mamãe era a primeira a lembrar, tempos depois,  quando   já era adulto, que eu,  não aguentando o lado  mais  violento  do futebol, de repente saía  do jogo quase chorando  por ter levado alguma pancada mais forte na canela. Não gostei desse comentário de mamãe,  por que me expunha  aos risos  de colegas, amigos e  parentes. E eu não suportava  tais confidências. Mexia com os meu  brios de adolescente . mas deixemos isso pra lá que , do contrário,  iria transformar-se em  desabafos  à maneira de Graciliano  Ramos.

Há pouco,  fui chamado pela minha esposa para colocarmos a bandeira brasileira  na grade protetora da varanda do meu apartamento. O meu ato de escrita, pode se chamar com rigor, foi  uma pausa no tempo real  da narrativa, ou seja, o real se intrometeu  na crônica, o que  me faz lembrar daqueles  dois elementos da narrativa  - o interno e o externo -  componentes “dissociados,” expressão do crítico  Antonio Candido, que, segundo  este mesmo critico, se tornavam unificados  já que o externo (a realidade empírica, os fatores sociais, históricos,   biográficos etc) se tornava interno, quer dizer,  passa a fazer parte integral da  compreensão  estrutural  da  ficção, sem  os receios de subordinar-se ao interno ( a linguagem literária, "sistema semiótico  secundário",  a história inventada, as personagens,  o enredo,  o tempo, o espaço, os símbolos,  a imagem,   a metáfora, o ritmo,  os recursos retóricos, tão prezados  pelo pensamento  crítico formalista dos anos  setenta, oitenta do século passado

Depois dessa digressão cansativa ao leitor que espera alguma   fato  surpreendente, leve ou poético no gênero  da crônica,  quero-lhe dizer que há uma hora atrás estive   quase a dar uma volta nas pistas  de ciclistas do belo   Estádio do Maracanã – delícia dos  turistas nacionais e estrangeiros,  principalmente daqueles  tão  aficionados  ao futebol e desejosos de conhecer  o  mundialmente  famoso   estádio. Com um sol  forte pros dias de um mês mais geralmente  frio,  o estádio estava em festa,  com gente circulando por toda a parte externa daquele  “santuário" do futebol brasileiro.

O Maracanã está pronto,  por dentro e por fora, a fim de receber, no domingo duas seleções (deixe-me consultar a tabelinha da Copa do Mundo-20140. Ah, aqui está: no domingo, amanhã: Espanha e Chile. Não irei assistir ao jogo  in loco.  Verei pela TV. O receio é que amanhã possa haver manifestações contra a Copa, digo, contra os gastos  governamentais na construção de estádios ou em  reformas  de estádios. Fora outros  gastos derivados  das exigências da toda poderosa  FIFA. Esperemos que  tudo ocorra  bem dentro do Maracanã e fora dele.

Sou informado  pela TV que o Brasil  está melhor no que tange à vida dos brasileiros. Contudo, essa declaração  da imprensa   internacional  nunca espelha  a verdade mais  funda, i.e., a dos brasileiros  que tanto ainda sofrem  pelas graves  deficiências  já  tão conhecidas dos leitores. Continuam  morrendo pessoas por falta de assistência médica em toda a parte do país. Os transportes de massa  ainda precisam  dar conta da demanda crescente  das megalópoles.

A escola pública (estadual  e municipal –  é bom que lembremos  isso - , está ainda em baixa, tanto na valorização dos professores quanto  na eficácia dos ensino  oferecido. A violência sem freios, a impunidades que lhe é corolário  determinante,   o tráfico,  as drogas, as milícias,  a delinquência de menores e adultos  continuam  livres e fagueiras.

 Essa dimensão do país não pode ser  jogada debaixo do tapete, mas denunciada sempre e sempre aqui e fora de nossas fronteiras. E, last but not least,  a corrupção  da politicagem, que parece  não ter  fim. Esta imagem podre  do Brasil tem que ser levada em conta em  qualquer  análise da sociedade brasileira.

Não queremos um país dividido entre riquíssimos e  miseráveis, que ainda os há pelo Brasil afora.  O que não se pode suportar,  sem protestos   e indignação, é  passivamente ver   jornais ou  pesquisas de estatísticas   no exterior passarem uma imagem edulcorada de meu país. Só quem vive o dia-a-dia do povo brasileiro  pode avaliar  o que aqui se faz, como se faz e por que se faz. É preciso  ter vivência suficiente para   fazer-se uma estimativa  sobre as condições  e os vários aspectos da realidade nacional. O olhar do estrangeiro nem sempre  confirma  a experiência de nosso  quotidiano e de nossas mazelas  em todos os sentidos.


Não podemos   perder a onda da bola. Tentar decifrá-la é matéria  de quem  ama o país de verdade e não na limitada   forma de individualismo burguês refestelado,  bem nutrido, com  já afirmei alhures,  em poltronas macias,    alienante, hipócrita e  mistificador.

terça-feira, 17 de junho de 2014

NAS ASAS DE BRASÍLIA


Edmar Oliveira

Outra vez em Brasília. Desta feita para apresentar o meuTerra do Fogo ao planalto central. No Feitiço Mineiro, num programa duplo com Chico Salles lançando o seu cd com músicas do Sampaio. E Brasília recebeu a gente muito bem. No lançamento do livro, o Chiquinho, da livraria do Chico, um sertanejo de Picos que veio plantar livros na Universidade de Brasília, apresentou minhas letras, do que fiquei muito orgulhoso. Chiquinho é um personagem de um livro que conta a história da Universidade. Ele faz parte desta história e já foi entrevistado do Fantástico como um cultivador da cultura no planalto central do país.

Fui prestigiado pelo Nicolas Behr, o poeta que se confunde com a cidade que escolheu pra cantar. Ele ainda me presenteou com seu Brasília de A a Z, cidade-palavra que mapeia o território afetivo do planalto. Climério e Clodo me trouxeram um abraço que tomei como sendo também de Clésio, a trindade una do São Piauí. A poeta Noélia, atarantada como as quadras da cidade numérica, também me veio abraçar. Sua generosa irmã Fátima, que se chama “de Brasília” e Paulão, que nos batuques evoca o Liga Tripa, são amigos do peito. O também poeta e músico Léo Almeida e sua Josélia lá estavam. Graça Sousa, Nádia, Chico Alves, Dione, Pereirinha, Suzana, Naná, Chacal, Júlio e uma porção de amigos, que citando estes, sou injusto com aqueles. A Nação Piauí que a Raimundinha arrebanhou me fez uma presença especial. Fátima de Deus esteve neste como nos outros dois livros anteriores que apresentei a Brasília. Antônio José Medeiros, ex-secretário de cultura do Estado do Piauí e meu antigo professor das letras, me fez sentir importante. Maravilhosa foi a presença de um usuário da Saúde Mental de Brasília, que declarou acompanhar meu trabalho e veio atrás do meu primeiro livro “Ouvindo Vozes”. O esquecimento do seu nome me deixa endividado com a sua pessoa. Zé Mauro esteve de véspera e Paulo José chegou atrasado, mas veio.

Depois desse preâmbulo, o Chico Salles mandou ver, com músicos de Brasília, o som do Sérgio Samba Sampaio. Seu irmão Vicente e Conca faziam as honras da casa. E a plateia, surpreendentemente, cantava as letras das músicas escondidas do Sampaio. Ele que amou Brasília num blues que é a cara da cidade.

Denise, a viúva do Jorge Ferreira – o empresário da noite Planaltina –, ficou emocionada numa homenagem que lhe prestamos. Coincidentemente Jorge levou meu livro para tentar editar e conseguiu viabilizar um patrocínio para o cd do Chico. Apressado, como era, “queria ir pra Minas, errou o caminho e foi pro céu” nos versos de Climério e não chegou a ver o livro e o cd prontos. Tínhamos que lhe fazer uma justa homenagem no Feitiço, primeira casa do visionário que fez um Mercado Municipal numa cidade que nem município é. Mas Jorge era assim: “de tanto embebedar os poetas virou poeta também” (do poema citado).

Brasília nos foi gentil. E naquela noite voamos em suas asas. Cidade monumento. Segundo as profecias do poeta Nicolas Behr, “no turismo estelar, visitar as ruínas de Brasília é obrigatório para quem está de passagem pelo desabitado Planeta Terra”.   

domingo, 15 de junho de 2014

Seleta Piauiense - Hardi Filho


Esdrúxulo

Hardi Filho (1934)

A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.


O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.


Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio


De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.


Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.    

sábado, 14 de junho de 2014

VAIAS À PRESIDENTE DILMA


VAIAS À PRESIDENTE DILMA

Jacob Fortes

Durante o jogo de abertura da Copa do Mundo realizado no Itaquerão, SP, dia 12 de junho de 2014, viu-se a seleção brasileira ganhar da seleção da Croácia pelo placar de 3 a 1, apesar do pênalti irreal que o árbitro encontrou perdido dentro da sua imaginação. Tal circunstância, porém, não tirou os méritos da seleção canarinho. Viu-se, também, e ouviu-se entre o vozear da turba de torcedores, a presidente Dilma ser fortemente apupada e, principalmente, destratada desabridamente.

Assim como se tornou banal a violência que grassa pelo país afora, mais trivial ainda tornaram-se os xingamentos aos árbitros, aos jogadores, (ainda mais se negros forem) e, agora, a presidente da República.

Vaias, tão somente, expressam dissensões compreensíveis nos regimes democráticos, mas xingos sob a chancela da obscenidade é algo que fere o pudor, é prática que conspira contra as regras mais elementares do decoro. Essas cenas pesarosas fazem supor que os valores e sentimentos humanos vêm se degradando e se diluindo dia a dia. O episódio, aliás, conhecível da mandatária, enseja algumas perquirições: por que as pessoas se detêm nessa linguagem de baixo calão? Onde foram parar as famílias e as escolas que tinham o condão de modelar o caráter e o decoro da juventude? Por que já não existem nas escolas os decálogos cívicos? Por que foram suprimidas do currículo escolar as disciplinas Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira? Do que é feito a escola que fazia a infância frequentar as lições iniciáticas do catecismo e conhecer os postulados básicos da religião. Do que é feito a escola que fazia a criança cantar o Hino Nacional e reverenciar o hasteamento do Pavilhão antes do início das aulas? Do que é feito a escola que assegurava autoridade aos professores e conferia-lhes a toga com que podiam increpar os alunos? Afinal, onde está a raiz desse problema; uma miséria moral, que não para de crescer, responsável por um sem-fim de condutas discrepantes (que já não impactam como antigamente) protagonizadas por brasileiros, sobretudo os que habitam as metrópoles? Por que as escolas se descuidaram da cidadania, do civismo, da ética e priorizam devotamente a dimensão cognitiva, o conhecimento, a qualificação profissional?

Apesar de reprovável, o governo não pode fingir ignorar o significado do acintoso gesto de incivilidade: descontentamento de um povo disposto a externar o seu desgosto em qualquer fórum ou confessionário inclusive nos estádios. Melhor seria que o povo não precisasse vaiar, sequer xingar.   

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Lançamento de “Apontamentos Genealógicos da Família Nunes”


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento do livro “Apontamentos Genealógicos da Família Nunes”, de autoria do Acadêmico Reginaldo Miranda.
A obra será apresentada pelo Acadêmico Wilson Nunes Brandão.



Nelson Nery Costa
Presidente


Data: 14 de junho de 2014
Horário: 10 horas
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)

Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone/ Fax :(86) 3221 1566– CEP.: 64001-490 – Teresina-PI

NESTOR RIOS – A BONDADE ENCARNADA

João Batista Rios, filho de Nestor Rios

NESTOR RIOS – A BONDADE ENCARNADA

Elmar Carvalho

Conheci-o na agência da ECT de Parnaíba, vinte anos atrás. Apesar de não o ver há muitos anos, lembro-me dele sempre, e sempre como um homem bom e de bem. Ele é, por assim dizer, a encarnação da bondade, da bondade simples e natural e humilde, sem ostentação, mas também sem a dissimulação dos hipócritas e fariseus.

Não obstante sua humildade, sua modéstia natural, sua presença era um acontecimento em nosso local de trabalho, quando aparecia para recolher nossa pequenas contribuições financeiras, para os seus velhinhos, amparados pela sociedade dos Vicentinos, de que é membro assíduo e atuante, mesmo com a sua alongada idade. Como ele ficava feliz com os modestos donativos! Parecia haver recebido uma vultosa importância para si mesmo.

A sua bondade, sua lhaneza, sua alegria espontânea e sincera pareciam formar uma aura poderosa em torno de si, como a emoldurar o belo quadro de sua velhice digna e honrada, fazendo com que todos se sentissem bem ou melhor diante de sua pessoa. Talvez fosse um anjo sem a consciência de sua condição de ser angélico, e que por isso mesmo se locomovesse entre nós com tanta e natural simplicidade. Seu carisma era tanto que ficávamos felizes com o seu aparecimento ocasional em busca das esmolas para os seus velhinhos, e por isso dávamos como se estivéssemos recebendo.

Muitos anos depois descobri, através de minha mulher, que um amigo, o Dr. João Batista Rios, que lhe herdou a bondade e a simpatia, era seu filho. Prometi-lhe escrever uma crônica sobre seu pai, crônica aliás que pretendia fazer há muitos anos, mas que, inconscientemente, sempre adiava, talvez porque a personalidade bondosa e simples de Nestor Rios dela não precisasse, o que de fato é verdade.

Por intermédio do Dr. Batista Rios fiquei sabendo que o bom Nestor havia construído um conjunto de casinhas para os seus anciãos. Fiquei imaginando o mistério de como as irrisórias esmolas haviam-se transubstanciado naquelas casas, que acolhem, dando abrigo e amparo, os pobrezinhos. Fiquei imaginando qual o fermento milagroso que fizera crescer as esmolas nas mãos caridosas de Nestor Rios.

E a resposta é simples. É que Deus atua através de nós mesmos, de maneira sutil e suave, sem os alardes da mídia e da propaganda enganosa da falsa caridade.

Deus se manifestara em Nestor Rios, um anjo travestido em pele de ser humano.

(*) Nestor Rios nasceu em 29/03/1913, no município de Marco (CE), e faleceu em Parnaíba, em 9 de junho de 2014, em cuja cidade era radicado desde 1945. Portanto, viveu mais de um século. Era pai de meu amigo e magistrado Dr. João Batista Rios. Praticante da verdadeira caridade, fez parte do grupo dos Vicentinos de Parnaíba. Católico fervoroso, parecia envolvido por uma aura de bondade e vibrações positivas. Recebi a notícia através do amigo Antônio Gallas Pimental, também vicentino.   

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A ética dos trapaceiros


A ética dos trapaceiros

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Dá para gargalhar o episódio. O malandro rouba um automóvel e vai assaltar a farmácia. Regressa apressado com pacote de dinheiro. Tenta localizar o automóvel roubado. Outro ladrão havia levado o veículo. Assusta-se, desespera-se. Teme a chegada da polícia ou cacetadas e chutes da população. Tenta esconder o pacote. Um terceiro assaltante aparece e leva-lhe a grana. O cara de pau ousa dirigir-se à delegacia para denunciar os dois que o assaltaram. Encontra o proprietário da farmácia registrando o boletim de ocorrência, que o reconhece. Algemado, o malandro filosofa: “Delegado, será que eu não tenho direito de roubar para sustentar minha família?”
          O risível episódio de ladrão que rouba ladrão retrata não só uma consciência arruinada dos malandros comuns que infestam a periferia das cidades, mas de pessoas de todos os níveis sociais. Clientes que se aproveitam da balconista distraída para surrupiar produtos. Funcionários, especialmente dos serviços públicos, que inventam doenças e atestados médicos para fugir ao trabalho. Autoridades desleais nas licitações e prestação de contas e receitas.
          A etimologia diz tudo: TRAPACEIRO, termo de origem francesa, TRAPPA, cova para pegar a caça. Sentido figurado: contrato fraudulento. Quer outro? TAPEAÇÃO, do gótico TAPPA, isto é, TAPAR, esconder, calar, encobrir.
          No Brasil, abundam trapaceiros e tapeadores envergando terno e gravata, fala bonita, moralidade protegida com emplastro.
          Há muitas maneiras de trapacear e permanecer ético, driblando a própria consciência. Exemplo clássico encontra-se no livro Atos dos Apóstolos, escrito pelo médico e evangelista Lucas, contando episódios das primeiras comunidades cristãs. Naquela época, cristãos costumavam entregar suas ofertas aos apóstolos, que as distribuíam aos mais necessitados. O casal Ananias e Safira vendera uma propriedade e entregou a oferta a Pedro, mentindo e afirmando que se tratava da metade do dinheiro da venda. Resultado da história? Leia o capítulo 5 do livro. Trata-se de um pecado contra o espírito de Deus, que é só verdade: “Seja o vosso sim, se for sim; não, se for não”.

               Boa parte da história humana se disciplinou por diretrizes religiosas  que atuavam como monopólios na sociedade, com o controle assegurado do pensamento e da ação. Esta situação modifica-se nos tempos modernos com a afirmação da secularização e do pluralismo.  O traço característico desta nova situação é a perda da antiga segurança das estruturas religiosas  que garantiam a submissão de suas populações. Por um lado, há resultados positivos, que geraram paradigmas de condutas nas constituições dos países. Na contramão, o laicismo e iluminismo propagam, até hoje, conceitos de total liberdade de consciência, independente de tradicionais regras éticas e religiosa, como no trato da sexualidade. Tudo pende para o relativismo do “se me agrada, estou certo”. Por essa trilha moral, até assaltante tem suas razões para surrupiar o alheio, inclusive matar.