terça-feira, 10 de março de 2020

O INOVAÇÃO E A PRAÇA DA GRAÇA

                  
Praça da Graça, como era. Fonte: Google
 
Escombros da antiga Praça da Graça. Fonte: Google
Praça da Graça. Fonte: Google



O INOVAÇÃO E A PRAÇA DA GRAÇA

Elmar Carvalho

Recebi ontem, através de e-mail enviado pelo amigo e chargista Fernando Castro, várias fotografias dos escombros da Praça da Graça, destruída por ordem desastrada do prefeito João Batista Ferreira da Silva, no final dos anos 70, na intenção de construir uma nova praça. Da noite para o dia, transformou o coreto, os jardins, a pérgula, os passeios, com seus belos traçados, em ruínas.

Como eu morava na referida praça, no apartamento dos Correios e Telégrafos, em virtude de meu pai ser o chefe da agência da ECT, todos os dias eu enxergava os tapumes que escondiam os destroços. Os dias e os meses foram passando, e nada de a obra de reconstrução ser iniciada. Por esse motivo, o jornal Inovação, fundado por Reginaldo Costa e Franzé Ribeiro, que já vinha “batendo” nos equívocos e mazelas da administração municipal, começou a denunciar acirradamente mais esse erro do alcaide Batista Silva e a cobrar  o início das obras, em todas as edições.

Na época, como todos sabem, não havia internet e Parnaíba contava apenas com a rádio Educadora, a pioneira na radiodifusão estadual, com o jornal tipográfico Folha do Litoral e com o Norte do Piauí, salvo involuntária falha de minha memória. Os dois primeiros veículos de comunicação pertenciam ao grupo dos Silva e o terceiro, a Mário Meireles. O Inovação, embora na época fosse mimeografado e feito no formato apostila, vendia mais do que esses dois hebdomadários.

Era comentado, passado de mão em mão e enviado para fora. Era feito na base de duros sacrifícios e dificuldades, uma vez que os “inovadores” não tinham recursos financeiros. Não entrarei em detalhes, posto que seria uma longa história, e uma vez que já escrevi um trabalho sobre esse assunto, intitulado “Jornal Inovação – um Depoimento”, que se encontra na internet, bastando que se recorra aos sites de procura ou pesquisa.

Certa noite, quando eu saí do apartamento para a rua, vi os tapumes serem derrubados por várias pessoas. Após, foram empilhados e incendiados. Imediatamente, montei em minha motocicleta e fui chamar o Reginaldo Costa e o Bernardo Silva, que moravam na rua Vera Cruz. Eles haviam acabado de chegar de Teresina, onde mantiveram contato com o advogado Celso Barros Coelho, para se defenderem de um processo criminal que o prefeito havia ajuizado contra eles, o qual terminou sendo arquivado pelo juiz e contista Magalhães da Costa, que depois chegou a desembargador e passou a pertencer à Academia Piauiense de Letras. 

Recentemente, os membros do Inovação foram chamados por certo jornalista de “mumificados”, os quais teriam como feito mais relevante o fato de terem derrubado os tapumes e lhes terem ateado fogo. A afirmativa mereceu resposta do jornalista B. Silva, que disse nunca nenhum dos membros do Inovação ter reivindicado tal “heroísmo”. Também foi repudiada por Reginaldo Costa e Wilton Porto.

Com efeito, não fomos os “inovadores” que tocamos fogo nas tábuas que formavam o que o jornal chamava de “muro da vergonha”. Entretanto, podemos afirmar categoricamente que foi a campanha vigorosa e isolada desse pasquim, que foi contra a destruição da praça e que clamava pela sua reconstrução no modelo antigo, que achávamos muito mais belo, além de que fazia parte da memória afetiva, sentimental e histórica da velha urbe, que provocou aquele verdadeiro levante da juventude parnaibana.

No dia seguinte (31.08.1979), houve uma mistura de passeata cívica e carnaval, com carros desfilando em redor da praça, com foguetes, bombas e buzinaços estilhaçando o silêncio da manhã radiosa. O fato mereceu uma edição especial e histórica do jornal. Podemos afirmar que foi graças ao bom combate do Inovação que a reconstrução do logradouro tomou ritmo acelerado.

No entanto, o jornalista cometeu outro grave erro, porquanto as “múmias” estão mais vivas do que nunca, porque continuam escrevendo, publicando livros, colaborando com jornais, revistas, sites e blogs, exercendo seus cargos, encargos e funções; inclusive, vários “mumificados” pertencem às principais instituições culturais de Parnaíba e do Piauí. O nobre jornalista é que parece haver perdido o faro e o bonde da história. 

27 de abril de 2010

segunda-feira, 9 de março de 2020

João Alves Filho anuncia pré-candidatura a prefeito de Campo Maior



João Alves Filho anuncia pré-candidatura a prefeito de Campo Maior

Pádua Marques
Jornalista e escritor

João Alves Filho, presidente da Academia Campomaiorense de Letras, presidente do Lions Clube International, presidente da Associação Comercial e Industrial de Campo Maior, anunciou no início dessa semana sua pré-candidatura a prefeito de Campo Maior, pelo PSL.

Segundo João Alves Filho disse que se mantém com muito entusiasmo na sua pré- candidatura a prefeito de Campo Maior. Acrescentou que espera a geração do amanhã deve esperar dele bons projetos para que possam juntos engrandecer aquele município da região norte do Piauí. “O futuro nos aguarda com rapidez. Seguiremos juntos”, disse. 

Fonte/Edição: APM Notícias. Foto: APM Notícias.

domingo, 8 de março de 2020

OITO DE MARÇO

Fonte: Google



OITO DE MARÇO

Carlos Henriques Araújo
Cronista, articulista e memorialista

Não é à toa que quando uma mulher tem um filho, dizemos: “deu a luz”. Só dá luz quem é estrela, quem é divino. Com este intróito quero, neste dia dedicado às mulheres, reafirmar meu amor e respeito a todas elas, principalmente minha mãe, minha esposa e minhas filhas.

Parabéns a todas as mulheres do mundo, de todos os lugares, de todas as idades, de todas as etnias e de todas as classes sociais. Vocês são maravilhosas e encantadoras, em algumas circunstâncias são princesas e rainhas; noutras, encantam, fascinam e mostram sua força, sua beleza e seus poderes, principalmente na maternidade, tarefa única e exclusiva de vocês, que nos deixa a todos encantados. E diante desta missão divina, as colocamos no lugar mais alto do nosso lar.

Sexo frágil, só na música, pois no dia a dia, são administradoras e economistas quando se põem a organizar o seu lar, seus problemas e dificuldades, suas finanças e suas despesas para que nada falte a cada um de seus filhos e para que todos usufruam o prazer e a alegria, irradiados pelo seu sorriso e pelo seu amor.

São guarda-costas e agentes da disciplina, alteiam a voz quando necessário e silenciam quando prudente, lutam como soldado no “front” da guerra doméstica nas três jornadas de trabalho. Ordenam como chefe, com autoridade e ensinam como mestre.

Perdoam suas desobediências como uma santa e os protegem como um anjo da guarda. São amigas, companheiras e crianças como seus filhos, às vezes, frágeis, carentes, ciumentas e choram à toa, em outras situações, viram “feras feridas”.

A cada dia ocupam seu lugar na sociedade. Como médicas, dentistas, enfermeiras e psicólogas cuidam da saúde dos doentes e curam os sofrimentos dos enfermos; como professoras; empresarias, administradoras, economistas, engenheiras, arquitetas, caixas, balconistas, trocadoras, motoristas, faxineiras, lavadeiras e cozinheiras nas empresas, nos hospitais, nas escolas e em suas casas.

Em todas as profissões, como guardas, militares, juízas e presidentes contribuem com sua força de trabalho e com sua simpatia, embora nem sempre sejam reconhecidas e recompensadas, mas são alimentadas pelo ideal de crescer, de servir, de amar, de criar e procriar, sentimentos estes que emanam do fundo de sua alma.

São amigas dos homens e tudo fazem para atendê-los, para alegrá-los e ajudá-los. São únicas na terra, nada se compara com sua beleza, com sua grandeza de espírito e com o seu amor para com seus filhos. Perfumam o lar como as flores perfumam o jardim; são ardentes como a chama do fogo quando os aquece em seu colo amigo e os protege do frio.

E nas noites quentes, seu brilho os ilumina, como a luz argêntea do luar, e seus carinhos os afagam como a brisa leve e suave da primavera.

A essa mulher, mãe, esposa, sogra e filha, dádiva de Deus para o encantamento e a continuidade da vida na terra, neste dia dedicado a sua homenagem, desejo vida longa com saúde, dignidade, respeito e muito amor.  

sexta-feira, 6 de março de 2020

CANINDÉ CORREIA – MESTRE E AMIGO


No início de minha amizade com Canindé Correia (foto do final dos anos 70 ou início dos 80), na casa de meus pais, no tempo em que eles moravam quase ao lado da Caxeiral, na rua Dr. Francisco Correia

CANINDÉ CORREIA – MESTRE E AMIGO

Elmar Carvalho

Amigo é coisa para se guardar / No lado esquerdo do peito
Milton Nascimento 


Quero desejar, antes do fim, / Pra mim e os meus amigos, / Muito amor e tudo mais; / Que fiquem sempre jovens / E tenham as mãos limpas / E aprendam o delírio com coisas reais.
Belchior 

Jovens tardes de domingo / Tantas alegrias / Velhos tempos / Belos dias
Roberto Carlos 

Já não tenho epitáfios / para tantas lápides / em meu peito.
Elmar Carvalho 

recordações de fantasmas / que já nos abandonaram / de amigos mortos / que nos acompanham / cada vez mais vivos
Elmar Carvalho 



        No começo de 1975 meu pai (Miguel Arcângelo de Deus Carvalho) passou a morar em Parnaíba, quando foi chefiar a agência local da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, e em junho do mesmo ano o restante da família passou a residir na bela Princesa do Igaraçu, que também poderia ser chamada de “rainha do litoral”. Em 15 de setembro fui assumir emprego nos Correios em Teresina, mas no começo de 1977 retornei a Parnaíba, inclusive para iniciar meu curso de Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso da Universidade Federal do Piauí.

Foi ainda em 1977 ou no ano seguinte, quando passei a ser colaborador do jornal Inovação* (fundado por Reginaldo Costa e Franzé Ribeiro), que iniciei minha feliz e longa amizade, de mais de 40 anos, com Francisco de Canindé Correia (02/08/1943 – 24/01/2020, em Parnaíba), que anos mais tarde seria padrinho do meu filho João Miguel. Logo percebi que ele, além de sua inteligência e cultura, era um fazedor de amigos, por causa de sua simpatia e conversa agradável, e talvez e sobretudo por sua humildade e índole acolhedora.

De ilustre estirpe, disso não fazia alarde e nem tinha jactância; antes, tinha sempre uma postura discreta quanto a seus ilustres ancestrais, conquanto, sem dúvida, os admirasse. Constituiu uma bela família, que amava, zelava e da qual foi irrepreensível provedor e cuidador, tendo igualmente recebido, de sua esposa Tânia e de suas filhas, Ivana e Fátima, amor, cuidado, compreensão e carinho, que nunca lhe faltaram. Teve quatro netos, que amava de todo coração, e os levava a passeios; e sei que foi correspondido plenamente nesse seu amor de “avô coruja”. Dos parentes, do meu conhecimento, era mais próximo de seus irmãos Paulo de Moraes Correia (falecido), Maria Aparecida (falecida) e Teresa de Jesus, de seu tio e primo Dr. Lauro Correia e dos filhos deste, Israel e Gardênia.

Graças, em boa parte, a ele e a suas influências e amizades o Inovação, de forma altiva e independente, pôde circular por vários anos, em periodicidade mensal e ininterrupta. Foi a partir dessa época e de nossas reuniões para discutirmos a pauta e as dificuldades financeiras e outras do jornal que lhe pude melhor observar. Pude perceber a sua inteligência emocional, arguta e aguçada, o seu equilíbrio e bom-senso, a sua alta capacidade argumentativa, focada na lógica, na logística e na razão, se é que não incorro em certa redundância.

Membros do Jornal Inovação, sob o cajueiro de Humberto de Campos, vendo-se, da esquerda para a direita, no 1º plano: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2º plano: Danilo Melo, Francisco (Neco) Carvalho, Diderot Mavignier, Franzé Ribeiro, Sólima Genuína, Bernardo Silva, Reginaldo Costa e Paulo Martins; 3º plano: Jonas Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Wilton Porto, Alcenor Candeira Filho e Flamarion Mesquita. Percebe-se, nesta fotografia, a felicidade dos retratados com esse reencontro, posto que vários moravam em outros estados e municípios. Hoje, a maioria já não reside em Parnaíba

Levou uma vida digna, embora modesta, pois nunca teve apego ao ter, aos metais. Teve oportunidade de ser professor da Universidade Federal do Piauí, na época em que não havia a exigência de concurso público, mas não o quis, seja por não ter vocação magisterial, seja por não desejar ingressar sem aprovação em certame. Contudo, sempre foi discreto quanto a isso, e nunca se gabou dessa sua conduta, e muito menos criticou quem quer que fosse. Também convidado a integrar a Academia Parnaibana de Letras, em seus momentos iniciais, recusou o honroso convite, sob a alegação de que não era autor de livro, como registrou o poeta Alcenor Candeira Filho, seu amigo e cunhado, em seu Depoimento sobre ele, publicado na internet, acrescentando que lhe era muito fácil publicar uma obra, bastando para isso coligir os “textos que escreveu em jornais” e os “pronunciamentos feitos como secretário de educação e superintendente do SESI”. Portanto, nunca buscou glórias, honrarias e ouropéis, mas tão-somente ser um homem de bem e do bem.

Aliás, nunca praticou o autoelogio, vez que nunca foi narcisista e muito menos ególatra. Ao contrário, sempre cultivou o silêncio em relação a suas inúmeras e altas virtudes, já que a humildade era uma delas, como já disse. Algum afoito poderia me perguntar: “E defeitos, ele não os tinha?” Claro que os tinha, como todos os temos. Mas os dele eram poucos, diminutos, e para mim irrelevantes, tanto que deles não tratarei neste pequeno trabalho.

Era muito atualizado com o que se passava no mundo e em sua aldeia, vale dizer no seu entorno. Assistia, creio, aos principais jornais da televisão e não dispensava a leitura dos impressos. Era sobremaneira antenado com os assuntos da política. Tenho a impressão de que ele tinha uma recôndita vocação para a alta política, para uma política escoimada de vilezas e mesquinharia, que tivesse um pouco de pureza e altruísmo, em que o centro das atenções e do interesse não fosse jamais o seu umbigo. Melhor dizendo, uma política voltada para o coletivo, para o interesse público e social.

Tinha uma argúcia notável para destrinchar os meandros e as estranhas da política brasileira, piauiense e parnaibana. Parecia um profeta, a antever as jogadas das lideranças e principais protagonistas. Era como se ele estivesse diante de um tabuleiro de xadrez, e pudesse prever a movimentação das peças dos jogadores antagonistas. Se errava uma ou outra vez, é porque o cenário político é muito instável, sujeito a constantes e inúmeras mutações.

Entretanto, as explicações que ele dava, as hipóteses que imaginava e as previsões que fazia, eram concebidas através de um raciocínio límpido e lógico, em que ele delineava as possíveis causas e consequências. Contudo, se ele tivesse tido a vontade e as condições de ingressar na política (e não as teve, e acho que sequer as quis), teria sido um estadista, e não mero político de campanário, paroquial e rasteiro, movido por ambição, egoísmo e ganância.

Jamais ele desejaria o poder apenas pelo poder, mas apenas como um instrumento para servir, para prestar um bom e correto serviço público. Entendo que ele provou isso, quando foi o secretário de Educação, por quatro anos, no primeiro governo de José Hamilton Furtado Castelo Branco. Na época ele ainda gozava de boa saúde e muita disposição física, e pôde dedicar o melhor de seu esforço, capacidade administrativa e inteligência para ser, e foi, um excelente gestor, com o imprescindível apoio do prefeito.

Conseguiu construir várias e dignas unidades educacionais, com várias salas de aula, e reformou outras tantas, que não irei, aqui, enumerar. Principalmente, manteve o sistema educacional em ótima atividade, inclusive com o fornecimento de boa alimentação escolar. Honesto em sua vida particular e nos demais cargos que exerceu, a probidade foi sua marca pessoal, uma espécie de legenda que lhe marcou a administração paradigmática.  


II

Posso confessar que me tornei uma pessoa melhor através de minha amizade com Canindé Correia, ao longo de mais de quatro décadas, ao lhe seguir os conselhos e os exemplos. Quando lhe pedíamos a opinião a respeito de qualquer assunto, jamais ele adotava um tom professoral ou doutoral. De forma paciente e simples, e sempre em voz baixa e humilde, emitia os seus argumentos, demonstrando qual o melhor caminho a seguir, explicitando os porquês e as consequências da sua e de outras opções, que acaso fossem aventadas.

Isso acontecia tanto em relação a assuntos pessoais ou particulares, como no tocante ao jornal Inovação e a nossa vida profissional ou educacional. De modo que, aos poucos, sem nenhum desejo de sua parte, tornou-se uma espécie de mentor ou orientador de nosso grupo, mas, como já deixei implícito, sem imposição sua.

Por isso, sem misticismo e mitificações, eu o considerava nosso “guru”, não apenas por ser o mais velho e mais experiente, mas pelo seu alto grau de sensatez, equilíbrio e inteligência, mormente na época em que nos ardiam muito forte a impetuosidade e o destemor da juventude. A sua criatividade para resolução de problemas era notável, e sempre tinha um coringa, que aparecia na hora certa. O coringa poderia ser um plano b ou c, ou uma guinada na estratégia até então perseguida.

Amava o bom, o bem e o belo. Amava o bom porque apreciava as coisas boas, as coisas amáveis e desejáveis. Amava o bem porque era um homem bom, e nos induzia, através de seu exemplo e de sua palavra, a que o fôssemos também. E amava o belo porque amava a beleza da arte, da cultura e da paisagem, vista da janela, ou ao longe, na linha do horizonte.

Amava, creio, sobretudo a beleza que existia ou poderia existir no ser humano, a beleza das músicas que apreciava e a magia de uma boa literatura, fosse em prosa ou em versos. Nunca teve o silêncio e as restrições mesquinhas dos invejosos; pelo contrário, aplaudia com ênfase e entusiasmo, e dizia palavras de admiração e estímulo pelo dom e talento alheios; não às escondidas, mas às escâncaras, à luz do sol, em verdadeiro processo de difusão, para que outros tomassem conhecimento.

Com a criatividade, conhecimento e inteligência que tinha, poderia ter escrito notáveis livros, porque sabia redigir com fluência e desenvoltura, com objetividade e clareza. Talvez tenha aprendido a bem escrever através de aulas, mas acredito tenha sido através de longas horas de leituras, e do convívio com seu pai, o professor Benedito Jonas Correia, que tinha impecável redação, e ainda pelas atas burocráticas que redigia, registrando as reuniões da diretoria da FIEPI, que certamente lhe aumentaram essa habilidade. Quando fui pronunciar alguns de meus discursos, fossem de improviso ou por escrito, discuti com ele o que pretendia dizer, e ele me ajudou com muitas sugestões, informações e dados estatísticos, para reforço de meus argumentos.

Entre esses discursos, posso citar o de minha posse na presidência do Diretório Acadêmico “3 de Março” (Campus Ministro Reis Velloso – UFPI) e o que pronunciei, de improviso, no monumental comício com que Chagas Rodrigues retornou à vida pública, em plena Praça da Graça, após o término de sua cassação pelo regime militar, em que estavam presentes Ulisses Guimarães, Miguel Arraes, Almino Afonso e Franco Montoro, entre as mais conhecidas lideranças do MDB nacional. Alguns fizeram referências ao meu pronunciamento, e isso devo, em grande parte, aos dados fornecidos pelo Canindé.

Não fosse a sua humildade e discrição, sem necessidade de holofotes e ostentações, poderia ter elaborado excelentes livros historiográficos, de economia, ensaios sociológicos, memórias, artigos e crônicas. Contudo, preferiu ajudar outros a escrever e a publicar, e a aplaudir e louvar obras alheias. Talento, criatividade e capacidade intelectual para essas empreitadas não lhe faltavam. Era humilde, sim, entretanto tinha o seu amor próprio e a sua altivez e brio, e sabia se insurgir, de forma civilizada, mas firme, contra quem tivesse a ousadia de tentar lhe atingir moralmente ou o menoscabar.


III

Mestre, chamei-o de meu mestre, porque muito aprendi com ele em nossa longa amizade. Até em coisas simples, dele muitas lições recebi. Ainda no início de nossa fraternal convivência, aprendi como se devia degustar uma espumante cerveja e destroçar uma rodada de cordas de caranguejo. Tendo chegado a Parnaíba há pouco tempo, e não tendo a experiência de manejar um crustáceo, observei como ele o fazia.

Além da lição prática, ele, num dia de domingo, pela manhã, nos ensinou que, ao chegarem as cordas, cada pessoa deveria retirar um caranguejo, e, só após o seu completo “desmonte”, pegar um outro. Vi que a lição se destinava a combater o egoísmo daqueles que avidamente só escolhem a melhor parte, ou seja, a suculenta e carnuda patola. Tempos mais tarde presenciei uma pessoa passar uma decepção, porque de forma egoística e ávida retirava da bacia todas as grandes pinças, sem dar chance aos outros, até ser repreendido pelo patrocinador.

Tendo vindo morar em Parnaíba em 1975, como disse, não lhe poderia conhecer a adolescência e muito menos a meninice. Soube, no entanto, que foi hábil no futebol e no basquete. Quando tomou conhecimento, através de um de meus livros, de que eu havia sido um bom goleiro em minha adolescência, me indagou a respeito, e estampou um sorriso maroto, como se não estivesse acreditando muito nessa minha faceta, que ele desconhecia. Era um ardoroso torcedor do Fluminense do Rio de Janeiro, e a partir dos 50 e poucos anos de idade, sempre que possível, não lhe perdia uma partida, pela TV.

Quando o Terminal Rodoviário, que ficava em local na época considerado distante, passou a funcionar, muitas vezes ele me deu carona, quando eu tinha de retornar a Teresina, geralmente no domingo à tarde. Não esquecia o compromisso, e na hora marcada, lá estava ele à porta de meus pais. Essas e outras demonstrações de amizade fizeram com que a minha família, principalmente meu pai e minha mãe, também lhe tivessem amizade e consideração, que nunca sofreram arranhões, ressalvas ou senões.

Em Viçosa, na Ibiapaba, Canindé e Elmar e seus familiares e amigos, entre eles meus saudosos pais, Miguel e Rosália

Até um pouco antes da doença, de que veio a falecer, fiz com ele muitos passeios e viagens. Fomos a Viçosa do Ceará, na Ibiapaba, a Barra Grande, em visita a nosso amigo e “inovador” Jonas Carvalho, e a vários outros povoados. Com ele participei de muitas e sábias libações e degustações, “regadas”, muitas vezes, a uma boa música. Num barzinho, que ainda existe, quase debaixo da ponte, imediatamente antes do então povoado de Morros da Mariana, degustávamos saborosos caranguejos, que chegavam fresquinhos, ainda cobertos pelas belas e grandes folhagens do mangue; o igarapé, por onde os crustáceos chegavam, em pequenas canoas, passava em frente ao boteco, e aumentava a sedução e a beleza da paisagem.

Canindé e Elmar na casa praiana de Jonas Carvalho (de chapéu), em Barra Grande

Ele vibrava quando ouvia uma bela música, sobretudo ao vivo. Eram da sua predileção as inesquecíveis serestas da velha guarda, a melhor bossa da bossa nova, as seletas da velha jovem guarda, naquelas tardes de domingo e outras tardes imortais, inclusive as tardes mais azuis de um dia de sol esplêndido ou as enevoadas de um dia chuvoso,  e um rítmico e legítimo samba, do morro ou do asfalto, contanto que fosse bom e de raiz. Era figura quase onipresente no cenário musical parnaibano dos anos 70/80 o seresteiro Osmar Bezerra, com seu vozeirão vibrátil e o indefectível violão, que nos fazia vibrar as cordas todas do coração.

Nessa época (final dos anos 1970 até o final dos anos 1990) eu tinha decorado um bom repertório de poemas, sobretudo de Neruda, Da Costa e Silva, Bandeira e Camões, e ele apreciava quando eu os dizia, com a ênfase de minha juventude cheia de vitalidade e entusiasmo, inclusive uns dois ou três de minha lavra. Também gostava das declamações dramáticas (e às vezes um tanto espalhafatosas) do boêmio e performático Balula, com a sua bela voz tonitruante, que encenava, quase sempre, como aperitivo, destinado a provocar o suspense, uma espécie de proêmio.

Na Toca do Velho Monge, vendo-se Paulo de Tarso, Natim, Canindé, Zico, Zé Hamilton, Elmar e Fátima

Das inesquecíveis libações desse período participavam, com mais ou menos frequência: Vicente de Paula (Potência), Reginaldo Costa, B. Silva, Zé Hamilton e os poetas Alcenor e Airton Meneses, fora outras presenças mais esporádicas. Canindé se esmerava, então, em sua conversa. Sem dúvida era causeur, e sabia condimentar sua prática, com anedotas, piadas, exemplos e casos pitorescos ou engraçados que puxava do baú de sua memória, em que fora protagonista, coadjuvante ou simples observador. Era bem-humorado e gostava de pessoas bem-humoradas e inteligentes. Fora do grupo do Inovação, tinha amigos bem mais velhos, entre os quais cito o mais que centenário dentista João Batista Teles, com quem praticava, de vez quando, um jogo de baralho.

Canindé adorava um banho de mar. Foram incontáveis as vezes em que fui à praia, em sua companhia, quando ele levava sua esposa Tânia e suas filhas Ivana e Fátima, então pequenas. Mas igualmente apreciava um banho de água doce, fosse de rio, lago, piscina ou bica. Por essa razão, quando a Fátima herdou um pequeno pedaço de terra, na localidade Várzea do Simão, e decidimos construir o Sítio Filomena, em homenagem a minha sogra, na parte que vai da margem da estrada vicinal até a beira do Parnaíba, tratei logo de improvisar uma potente bica.

Na bica improvisada, na época da construção do Sítio Filomena

O amigo Zé Francisco Marques, de cujas interpretações musicais ao violão o mestre tanto gostava, tendo observado o quanto Canindé gostava de tomar banho, deu-lhe o carinhoso epíteto de Aquanindé, fazendo o trocadilho de aqua (água) com o seu segundo prenome. Assim, quando fiz a estrutura definitiva das duchas, dei-lhe o nome de Bicas Aquanindé, em homenagem ao saudoso amigo Francisco de Canindé Correia, que fiz registrar em placa metálica, que ele inaugurou. E nessas bicas ele banhou tantas vezes, em agradáveis e inesquecíveis dias de ensolarados domingos, em que tivemos o prazer de sua marcante presença.

Em flagrante momesco, Canindé, Elmar, Carlos Eduardo, Francié, Carlos Mendes e Natim Freitas

Tendo sido seu amigo por anos e anos, não poderia ter deixado de me enriquecer espiritualmente com suas palavras e exemplos. A sua morte foi uma das perdas que mais senti. Quando lhe fecharam o caixão, na hora da saída do cortejo para o seu sepultamento no Cemitério da Igualdade, e vi que não mais o veria nesta atual dimensão, me comovi de verdade, e o pranteei em meu íntimo.

Por isso mesmo, neste sábado, na reunião ordinária da Academia Piauiense de Letras, ao propor voto de pesar por seu falecimento, aprovado por unanimidade, enumerei, em síntese, as suas principais virtudes, e disse que Canindé Correia não foi apenas uma pessoa importante, mas foi, sobretudo, um homem bom, com quem tive a honra e o privilégio de construir e aperfeiçoar uma amizade por mais de quarenta anos.

Agradeço a Deus a graça de tê-lo conhecido e de lhe ter merecido a amizade, a que procurei corresponder, embora com as minhas involuntárias falhas, e por ter usufruído de suas benfazejas, quão agradáveis companhia e conversa.

Teresina, 5 de fevereiro de 2020.

*Para maiores informações sobre o jornal Inovação e sobre a literatura parnaibana, consultar meu livro Aspectos da Literatura Parnaibana e meu Depoimento sobre esse jornal, publicado na internet.

quinta-feira, 5 de março de 2020

O INOCENTE E A INOCÊNCIA



O INOCENTE E A INOCÊNCIA

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                        Assunto que já saturou, deu o que tinha de dar, passou da conta: esse bate-boca do administrador municipal com pressupostos adversários ou críticos a respeito de quem seria o candidato por ele indicado como seu sucessor, ou rebatendo insinuações e justificativas, daqueles, sobre o motivo que o teria levado a não fazer tal indicação: a falta de um bom nome. Faz parte da liturgia do cargo prestar esse tipo de informação a quem quer que seja? Por que não se fingir de surdo-mudo, dar ouvidos de mercador, bancar o inocente, não comprar briga com quem, tudo indica, tem adotado por diversão tentar enervá-lo, desestabilizá-lo? Deixar as picuinhas de fofoqueiro para lá, pois já estão enchendo o saco até de quem está fora de esse círculo. Cuide de sua administração, que ela ainda não terminou. Se julgar conveniente, aceite, e até agradeça sugestões de pré-candidatos ou de seus staffs, que acham a cidade malgovernada; logo, logo verá esses conselhos sumirem; afinal, aqueles que gostariam de ocupar seu cargo, terão que se mostrar substitutos, não à sua altura – haja vista que, para eles, o senhor não é bom -, mas bem melhores; a propósito, evolução –  ainda que, na política que se pratica, ela inexista - é algo que se espera de quem, sem demagogia, também se propõe a servir ao povo, na condição de seu representante governamental ou parlamentar.

                O tempo, o momento de dar nome a seus escolhidos, deve ser decidido por você e seus aliados, não pelos adversários; antes ou, até quando quiser, se lhe faltar a paciência, em vez de discutir, agredir ou se desgastar, blefe; assim, ou os que se julgam capacitados a vencer qualquer concorrente cuidam de sua campanha e trabalham para atingirem seus objetivos, ou desistem, se também eles estiverem blefando. Chegada a hora – alea jacta est -, aponte seus indicados ou apoie nomes propostos por aliados. E trabalhe para que os escolhidos possam superar os adversários; se não der, fazer o quê? Aceitar o resultado das urnas, pois ele espelha a vontade do povo.

                Outro fato que já cansa até os mais céticos ou ignorantes é essa loa de que o ex-presidente da república, atualmente, ex-presidiário, é tão inocente quanto o ex-juiz, hoje, ministro da justiça e segurança pública, é bandido; uma vez que, dizem, contra o ex-governante, indivíduo de ilibada e irrefutável conduta, tudo o que fez foi fruto de perseguição política.

                Ora, se, verdadeiramente, mesmo tendo dado ouvidos de mercador, voz e vez a espertalhões, e se feito de cego perante bandidos, muitos dos que se refestelaram dos cofres públicos, presos ou sob ameaça de sê-lo, ainda assim, devolveram fábulas de recursos obtidos em operações nada republicanas, ou seja, criminosas, desavergonhadas, travestidas em atos de corrupção inquestionáveis; e quando diversos daqueles corruptos, amedrontados e encurralados, decidiram, enquanto pessoas físicas, fazer acordos de delação, e/ou, representando organizações empresariais, de leniência? Há como negar que vários daqueles crimes foram planejados/cometidos em gabinetes contíguos do ex-presidente condenado? Ou seja, inocente a figura não é, pois também comete o crime quem com ele é conivente. Seria um bobo, um tolo de boa cepa, um anjo, pois, não somente não participou, como nem desconfiou das maracutaias que falsos aliados tramavam às suas costas?

                Seguramente, não foi por conta do catatau de condenações e prisões a que instâncias da Justiça brasileira, com o auxílio do congresso nacional, submeteram o ex-governante, que o atual chefe do governo, segundo disseram, sugeriu que a população se insurgisse contra o parlamento e, mesmo parte do poder judiciário: deve ter visto ou sonhado com outros desvios de função. Porém, partindo do ponto de vista daqueles que não viram qualquer crime sendo cometido pelo ex-presidente, mas, sim por seu algoz ministro, enquanto juiz; se, de fato, aquelas instituições, acataram e concordaram com acusações ou denúncias feitas contra inocentes, não há como dizer que não tiveram sua cota de responsabilidade, ou de irresponsabilidade, quando permitiram que alguém, a quem seus defensores e camaradas consideram a materialização da inocência, fosse julgado e condenado. Logo, se nelas existem homens que não se preocupam em bem servir aos interesses do país, como aqueles, cujo número da conta corrente e os grandes bolsos são seu cartão de visita, suas principais credenciais, talvez seja hora, não de radicalizar, invadindo ou fechando as Casas em que “trabalham”, mas de buscar maneiras de trazer de volta os que se afastaram dos caminhos da legalidade, ordem e da justiça.

ATIVIDADES E PROFISSIONAIS IMPORTANTES DE ONTEM NO CURADOR

Foto meramente ilustrativa. Fonte: Google


ATIVIDADES E PROFISSIONAIS IMPORTANTES DE ONTEM NO CURADOR

José Pedro Araújo
Cronista, contista e romancista 

Algumas atividades profissionais que foram tão importantes para as comunidades em tempos passados, talvez não sejam nem mesmo do conhecimento das gerações mais recentes, mas que, caso viessem a faltar no nosso dia-a-dia estaríamos todos no maior embaraço. Esse assunto me veio à mente quando passei a noite quase inteira sem energia elétrica um dia desses, em razão de uma chuvinha despretensiosa, mas que terminou por me afetar duramente. Estava eu assistindo a um filme quando, no melhor momento deste, a energia foi embora. Socorri-me com umas luminárias que uma mente fértil inventou para nos tirar desses apertos nesses períodos.  Se não tivesse prevenido com elas, teria passado a noite em completa escuridão, pois lamparinas não temos mais, pelo simples fato de não saber onde comprá-las. Quanto ao meu filme, só vi o seu final no dia seguinte, mas já havia perdido a emoção que sentia naquele instante em que fiquei a ver navios.

Em minha meninice, lá no Curador, é claro, não podíamos prescindir de uma lamparina, ou de várias delas, para espantar a escuridão daquele sertão quando a noite derramava sua negritude sobre nós. E foi então que eu lembrei do profissional que fabricava as tais candeias, e que hoje quase ninguém lembra mais da sua enorme importância naquela época.

Certo dia, fui com o meu pai ao bairro da Mangueira (a região ficou conhecida por esse nome em razão de alguns pés dessa fruta que ficavam bem na bifurcação da rua Grande com a conhecida hoje como Graça Aranha), em busca de algumas dessas lâmpadas à querosene. Encontramos um senhor moldando uns pedaços de lata que ele havia cortado para fazer alguns dos artefatos que fôramos em busca. Fiquei admirado com a desorganização do local.  Era pedaço de chapa, latas de querosene, de biscoito, e de tudo o mais amassadas e empilhadas em todos os cantos da ampla sala transformada em oficina. Lá fabricava-se quase todos os utensílios de cozinha, da bacia ao prato, da rude cafeteira à lamparina. Nunca esqueci da azáfama existente naquele local. E pelo visto a atividade era lucrativa, uma vez que, durante os poucos minutos que lá estivemos, algumas pessoas procuraram o funileiro para adquirir seus produtos. Especialmente as tais lamparinas. Pouco tempo depois o homem se mudou. Havia chegado a luz elétrica na cidade e a sua bem remunerada atividade tinha sido enormemente afetada com a novidade. 

Apesar de ainda haver comunidades interioranas sem energia elétrica nesse imenso e desigual país, nunca mais me deparei com algum profissional desse ramo em atividade. Hoje aproveita-se de tudo para fazer uma candeia. Até mesmo as latas de refrigerante ou cerveja servem à finalidade. Certa vez quis comprar uma lamparina para fazer uma fotografia de época para emoldurar um trabalho, fui ao mercado velho de Teresina e me deparei com diversos locais que ainda vendia o produto. Fiquei surpreso. Ainda tinha muita saída, afirmou-me o proprietário do comércio que eu procurei. Sai de lá com uma lamparina fabricada a partir de uma lata de ervilhas.  Passei um bom tempo lixando a minha luminária para apagar a marca do produto que era ali envasado a fim de não contaminar a minha ideia retrô de foto.

Tinha também um ferreiro conhecido situado na praça do mercado, esquina onde bem mais tarde veio se instalar a Delegacia de Policia do município. Era um profissional muito importante. A primeira vez que fui lá, encontrei um senhor forte, musculoso, apesar da idade, suado e todo lambuzado de fuligem, malhando em uma bigorna um pedaço de ferro incandescente. Ferro que ele mergulhava em uma forja ao lado logo que perdia a cor avermelhada, e, deixando o martelo de lado, acionava uma espécie de objeto sanfonado que servia como abanador e que mantinha as brasas em seu teor máximo de calor.  Aquele homem ocupava uma profissão das mais importantes, pois fabricava as ferramentas de trabalho dos lavradores, criadores e tropeiros. Fazia desde a enxada, facões, foices, enxadecos, até as esquadrias de metal ou materiais para os assessórios dos animais de montaria ou de carga. Não sei qual o tempo, mais um dia ele desapareceu de lá, não soube mais notícia do seu paradeiro. Foi superado pelos novos tempos e novos costumes ou procurou outro local para estabelecer o seu negócio? Não sei se abandonou completamente a profissão, pois ainda hoje existem muitos desses profissionais em atividade e ganhando um bom dinheiro com a atividade artesanal. Mas que mudou muito, isso mudou.

E como sempre acontece nesses casos, logo me veio a imagem de um outro profissional que se encontra quase desaparecido nos dias de hoje: o Sapateiro. Lembro de um (e até mesmo do nome: Beato) que apareceu na cidade e alugou um casebre de um tio meu para se instalar. Sua oficina ficava próxima da minha residência, e por isso andava sempre por lá observando o trabalho realizado pelo Mestre Beato, que além de um profissional tarimbado, era um prolífico contador de histórias. Entre uma história e outra, o entre um acesso de tosse e outra, o velho Beato ia malhando o martelo em um pedaço de sola (de sola pura, com aquele cheiro característico), sobre um Pé-de-ferro já bem gasto. E lá ele fazia de tudo. Consertava sapatos com o solado gasto, trocava o salto, pintava, colava, pregava com tachinhas, fazia cintos, cabeção para animais, cilhas para selas de montaria ou cangalhas, trabalhava com tudo a partir do couro. E minha mãe morria de medo da tosse do seu Beato. Era um artesão importante e que prestava um trabalho imprescindível naquela época. Não sei que rumo tomou depois que as lojas passaram a vender os sapatos trazidos das fábricas de outras regiões mais desenvolvidas. Deve ter perdido parte considerável do seu faturamento, disso não tenho dúvidas. O meu primeiro cinturão largo e à moda Jovem Guarda foi feito por ele. Mas como fedia a couro cru. Não consegui retirar o seu forte e nauseabundo cheiro e logo tive que abandoná-lo.

O vendedor de lenha também era uma figura presente nas ruas e de uma importância sem tamanho. Quando criança recebia ordem da minha mãe de ficar na janela para ver quando algum vendedor deles vinha subindo a rua tocando o seu jumentinho com uma carga de lenha cortada e no ponto para o uso. E quando eu avistava algum, entrava correndo para avisar para a minha mãe. A concorrência era pesada entre os consumidores, por isso tinha que ser ágil. Ainda bem que residíamos na entrada da cidade e podíamos comprar dos primeiros que penetravam na rua. Essa atividade foi destroçada pela chegada do gás de cozinha na cidade. Primeiro se transformaram em carvoeiros, é bem verdade, depois não tiveram mais como concorrer com a novidade e procuraram outra atividade mais lucrativa. Ou mudaram de rua ou região e ficaram ainda um tempo pela periferia da cidade. Mas foram, durante uma vida, profissionais importantes nas comunidades interioranas, o nosso voluntarioso vendedor de lenha.

Os bons alfaiates deixaram saudade. Não possuíam mais clientes fiéis e assíduos, e por isso se foram. Perderam espaço para as lojas de confecção pronta onde a gente entra e, minutos depois, sai com uma calça, pijama, camisa ou mesmo cuecas novas e prontas para uso. Hoje são muito restritos e possuem freguesia reduzida, mas sempre fiel exigente. Quanto ao faturamento dantes, não sei.

Sumiram também os vendedores de leite in natura, de frutas, de pão, os vendedores de peixe pescados nos riachos da região; de doce leite, de milho verde, sumiram ainda os meninos com seus tabuleiros de cocada sobre a cabeça, e também os de pirulito, sumiram todos.

As cidades perderam o charme com a saída de cena dos profissionais talentosos e que faziam a diferença em outras épocas. E olha que não chegamos a ter os acendedores de lampião, caçadores de ratos, os que prestavam serviço de despertador e tantos outros que viram suas profissões serem soterradas pelos novos costumes desse dito mundo moderno.   

quarta-feira, 4 de março de 2020

BEM-TE-VIS E URUBUS

Fonte: Google
Fonte: Google


                  
BEM-TE-VIS E URUBUS

Elmar Carvalho

Em Parnaíba, de manhã bem cedo, do apartamento, ouvi as flautas alegres dos bem-te-vis, em que as aves parecem conversar musicalmente ente si. Embora não estejam entre os mais prestigiados pássaros canoros, contudo, gosto do canto deles, pela alegria moleca que parecem transmitir. Com suas plumas de vivo colorido, parecem estar vestidos a caráter.

Sua cantiga tem timbre, ritmo e arranjos diferentes, embora sutis e quase imperceptíveis a quem os ouve desatentamente. Conta a lenda que a onomatopeia da cantiga dessas aves nos serve de advertência para que tenhamos cuidado com as nossas ações e omissões, pois alguém ou Deus, em sua onisciência, sempre nos poderá dizer: bem te vi!... A algazarra esfuziante dos bem-te-vis me fez lembrar que ontem, ao entardecer, da janela do banheiro, contemplei a coreografia majestosa dos urubus, em sua planação circular.

A dança ficava exatamente no meu campo de visão da lua em quarto-crescente. Por vezes, em seus volteios, algum deles ficava em conjunção entre mim e a lua, o que mais tornava encantadora a revoada das aves negras se recortando contra o céu. Lembrei-me de minha mãe, porque foi ela quem primeiro me chamou a atenção para a beleza do voo solene, soberbo, dos urubus.

Também me ensinou a admirar a beleza das flores e das árvores e o encantamento das nuvens, explicando, em minha infância, que elas formavam diferentes desenhos, como um rebanho de ovelhas de imaculadas lãs brancas, ou uma rocha gigantesca, ou enormes paquidermes, embalados ao sabor da brisa, que depois tomavam novas formas, através dos cinzéis do vento. Minha mãe, ao cantarolar as belas letras de lindas melodias, também me ensinou, desde criança, a apreciar a boa música.

Talvez por isso tenha surgido a minha repulsa pelo barulho ensurdecedor das músicas e pelas apelativas e de muito mau-gosto letras dos tristes dias de hoje. Um dia, quando degustava uma cerveja com o meu falecido cunhado Zé Henrique, no bar do Zé Lira, no céu límpido e azulado de Campo Maior, mostrei-lhe a beleza da dança planada e circulatória dos urubus, e lhe falei desses garis alados, que não sujam o mundo; que, ao contrário, limpam o mundo da sujeira dos outros, da sujeira que os outros fazem.

Falei-lhe do seu caminhar gingado, malandro, como diz a letra da música popular; da saúde deles, pois, comendo o que comem, nunca se ouviu falar de que sofressem de alguma infecção ou indigestão. O meu cunhado passou a admirar essas aves de rapina, e certo dia, na casa de meus pais, talvez na premonição de sua morte precoce, e acredito que por um blefe brincalhão, disse que gostaria de voltar como um urubu.

Minha mãe retrucou-lhe, e disse que gostaria de ser um bem-te-vi, bela e alegre ave. O saudoso Zé Henrique preferiu a beleza das acrobacias e coreografias aéreas dos urubus e a utilidade instintiva de suas faxinas. Minha mãe, que, em suas poucas letras, ensinou-me a ver a beleza das coisas e da música, preferiu a magia das cores e o canto dos pândegos bem-te-vis.

24 de abril de 2010   

terça-feira, 3 de março de 2020

Ednólia Fontenele vai tomar posse na Academia Parnaibana de Letras

Fonte: Carneiro Jr.


Ednólia Fontenele vai tomar posse na Academia Parnaibana de Letras

Pádua Marques
Da Academia Parnaibana de Letras

A poetisa Ednólia Fontenele toma posse na Academia Parnaibana de Letras, cadeira 30, dia 13 de março às 19h no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil, subseção de Parnaíba, ocupando a vaga do economista Antonio de Pádua Franco Ramos, seu primeiro ocupante e que tem como patrono Jesus Martins de Carvalho. O discurso de recepção será do acadêmico Fernando Ferraz.
Funcionária aposentada do Banco do Brasil, formada em Licenciatura Plena com Habilitação em Eletricidade pela universidade Federal do Piauí, participou das antologias Nuvem (1977), Salada Seleta (1979), A Poesia Piauiense no Século XX (1995), Poemarit(i)mos (1988) e Parnárias (2006). Em 2019 lançou Em Construção, Antologia Poética. 

Fonte: APAL.   

segunda-feira, 2 de março de 2020

A doença da correria

Fonte: Google

A doença da correria

Carlos Henriques de Araújo
Escritor – Membro da UBE-PI


No entendimento popular, é comum as pessoas dividir o nosso tempo de vida em três fases: passado, presente e futuro. Aparentemente está certo, mas na verdade só existe uma – o presente, pois o futuro ainda vai chegar (ou não) e o passado já passou. Só o presente é real. Ele é o fruto de nosso livre arbítrio.

Somos o que desejamos ser e conseguimos aquilo em que acreditamos, basta pensar, sentir, acreditar e lutar por nosso objetivo.

A vida é uma só. É esta que estamos vivendo agora. Poderão existir outras, mas só se vive uma de cada vez. A única certeza absoluta que temos é do final desta vida. Mais cedo ou mais tarde todos nós iremos morrer.

O termo “Qualidade de vida”, em moda hoje, é utilizado por vários movimentos e correntes de idéias espalhados pelo mundo afora, como: a Simplicidade voluntária, a Sociedade para a Desaceleração do Tempo, Pegue seu Tempo de Volta, Círculos da Simplicidade, Física Quântica, Programação Neuro-linguística e Constelação Familiar, etc.

Em todos esses movimentos, a pressa, o estresse, o excesso de trabalho, a ganância, a disputa para ser o maior, o melhor e o mais rico, estão dando lugar a ações voltadas para o cuidado com o corpo, com o espírito, com o próximo, com o meio ambiente, com o planeta, com a vida, com a felicidade e com a paz mundial.

Pelos quatro cantos do planeta, esses movimentos pregam a desaceleração da vida moderna e apontam alternativas para quem quer trabalhar fazendo o que gosta, viver a vida sem pressa, ajudar ao próximo, cuidar do planeta, enfim fazer o bem aos outros e conseqüentemente a si próprio.

A velocidade, símbolo do desenvolvimento tecnológico, da produção e do consumo, cada vez mais vorazes, criou uma necessidade de “urgência” que poucos conseguem administrar. O resultado é um novo mal “mal do século”, símbolo do nosso tempo.

É, segundo o médico americano Larry Dossey, a Doença da Correria ou Síndrome do Pensamento Acelerado, uma resposta ao fato do nosso relógio interno ter virado um relógio de pulso despertador.

Mas nem tudo está perdido, há muita gente pensando diferente. Em todo o mundo, grupos mais ou menos organizados vêm criando maneira de diminuir o ritmo, de abrir mais espaço para o lazer, para os prazeres sadios e para a família, através de iniciativas que privilegiam o bem-estar, a convivência amorosa e harmônica, a simplicidade, a tradição local, o resgate da história e da hospitalidade das pessoas.

Este é o começo de uma revolução cultural, uma mudança radical na forma como vemos e vivemos o nosso tempo, e como lidamos com a velocidade da modernidade e a pressa cotidiana.

Significa colocar qualidade antes de quantidade. “É uma espécie de "filosofia do devagar, onde se percebe que nem sempre a rapidez é a melhor maneira de fazer as coisas", disse a Galileu Carl Honoré, autor do livro "Devagar", já lançado no Brasil.

O “devagar” leva as pessoas a entenderem que há outros metabolismos, ritmos e experiências significativas, privilegiando o Ser sobre o Ter e dando mais importância às culturas pessoal e espiritual. 

domingo, 1 de março de 2020

DEUS, DEUSES E O NADA

Fonte: Google


DEUS, DEUSES E O NADA

Elmar Carvalho

(“- Não sejas curioso a respeito de Deus, / pois eu sou curioso sobre todas as coisas/ e não sou curioso a respeito de Deus.” – Walt Whitman)

(“E só de nós se esconde o Pai Onipotente/ para ser meritória e nobre a fé do crente/ e não ser tão culpada a negação do ateu”. – Alarico da Cunha)

I – Ainda que pensássemos
numa seqüência de deuses
criados um pelo outro
o mais recente pelo
mais antigo e assim
sucessiva e infinitamente
ainda assim chegaríamos
até o Deus dos deuses
ou até o caos do nada.
Na última hipótese
o nada seria um deus
criador de mitos e de mundos
e teria que ser reverenciado.
E a esse deus-nada
eu tiraria meu chapéu
que sequer tenho mas tiraria.

II – Mas o nada não cria nada
porque o nada é nada e nada
somado com nada é nada
e multiplicado por nada é nada.

III – Se acreditássemos
na seqüência de deuses criados
um pelo imediatamente anterior
até chegar ao Deus original
– o Deus dos deuses –
por que não acreditaríamos
no Deus único sem limites
espacial e temporal?
Se o Deus da
Gênese criou o penúltimo
Deus da cadeia de deuses
poderia criar tudo sem
deuses intermediários.

IV – Num blefe descomunal
poderia até afirmar
que esta realidade não existe.
Que tudo não passa do sonho
de um deus e que esse
deus sou eu.
Mas o Eterno existe
e esta realidade existe
e quando descobrirmos
o Mistério da Gênese de Deus
a humanidade será perfeita e fará
parte do Corpo Místico de Deus.
Mas então recomeçará um
novo ciclo senão haveria
o grande tédio de Deus.