quinta-feira, 22 de junho de 2023

Passeio evocativo ao poeta Jamerson Lemos

Poeta Jamerson Lemos
Jamerson Lemos Jr.



Passeio evocativo ao poeta Jamerson Lemos

 

Elmar Carvalho

 

Às oito da manhã do sábado retrasado, conforme combinado dias antes, o médico Jamerson Lemos Jr., um dos melhores ortopedistas de Teresina, chegou à porta de minha casa. Quando cheguei a seu carro, vi que lá já estavam duas pessoas que eu não conhecia, cujos nomes eram Helder Higino, que exerceu importantes funções no Banco do Brasil, e Alessandro Andrade Spíndola, zeloso e dinâmico Defensor Público, como depois fiquei sabendo. Fomos buscar o delegado de Polícia Civil, Roberto Carlos Sales Silva, atual Corregedor Geral. Em seguida, fomos comer cachorro-quente na região do Mafuá, mais precisamente na tradicional Lanchonete Estudantil.

O motivo principal de minha presença nessa expedição à região de Santana do Gameleira, no município de Timon, era para que eu revisse o sítio do saudoso poeta Jamerson Lemos, onde estive tantas vezes, mais de 25 anos atrás, para degustar umas doses do velho Ron Montilla ou de uma gim tônica. O bardo invariavelmente preferia o velho pirata caolho e seu papagaio.

Não entrarei aqui em certos detalhes e em certas conversas ao longo do percurso, já bastante modificado, por causa da construção de várias casas e sítios à beira da estrada que segue para Matões. Por volta das 10 horas, chegamos ao nosso destino, ou seja, ao sítio, hoje administrado pelo Jamerson Jr., que melhorou a casa, construiu um campo de futebol, uma ampla piscina, uma capela, e a área de lazer e degustação, onde ficamos, que fica perto da escadaria que desce para o riacho Gameleira.

Desde o início das tratativas desse passeio, combinamos que ele seria evocativo ao poeta Jamerson. Assim, avisei ao Júnior, que leria três poemas, por mim selecionados do livro Sábado Árido, e faria um discurso. Logo no início das libações, preveni que pronunciaria meu discurso em plena lucidez, para que nada pudesse macular a memória afetiva e literária que eu tinha de seu pai.

Acordamos, então, que após a quarta ou quinta cerveja, tomaríamos uma boa talagada do Ron Montilla deixado pelo nosso poeta, falecido em 2008, em forma de cubra libre, ou seja, com Coca-Cola e limão. Cumprido esse ritual, falei que começaria recitando três poemas de sua autoria, com que me aqueceria para proferir o meu improviso. Após desligado o som, com o necessário silêncio dos amigos, iniciei a minha fala, cuja síntese segue abaixo. Espero não tenha sido uma enfadonha arenga.

Recordei que nesse sítio, então simples, diria mesmo rústico, no melhor sentido da palavra, estivera várias vezes, na segunda metade dos anos 80, mas sobretudo na primeira metade da década seguinte, com minha mulher e nossos filhos, então meninos. Olhando a floresta ao redor, observei que se mantinha bela, verdejante e muito bem conservada; que as margens do Gameleira estavam bem definidas, sem sinais de assoreamento, e que esse riacho, para minha exultação, ainda corria de forma saudável e perene, sem interrupções de sua corrente ao longo de todo ano.

Evocando o poeta e amigo, lembrei que muitas vezes estive com ele, não só em seu belo sítio, mas em locais e eventos culturais diversos em Teresina. Não pude deixar de fazer referência ao conhecido “bar do repórter”, de propriedade do saudoso Mauri Mauá de Queiroz, cuja sepultura fica ao lado do jazigo que comprei, no Cemitério da Ressurreição, de sorte que seremos vizinhos pela eternidade.

Nessas ocasiões, vi, algumas vezes, o Jamerson pegar um guardanapo de papel e escrever um belo e impecável poema, pode-se dizer que ao sabor do improviso ou repente. Eram poemas bem-feitos, poemas feitos por um mestre, muitas vezes rimados e metrificados, de alta sonoridade e ritmo, com esmeradas metáforas e outras figuras de estilo.

Em algumas oportunidades, quando surgia o ensejo, o poeta, com a sua voz de timbres e entonações peculiares e o seu característico sotaque pernambucano, declamava um de seus antológicos poemas, fosse o que relatava a fúria do arimã selvagem, fosse o que falava das botinas pesadas de areia, da areia de areais infindos, desérticos, fosse ainda o que externava a angústia e o desespero dos afogados, não sei se dos Afogados da Ingazeira da velha Recife de sua juventude, que também conheci em tempos idos e vividos e malferidos.    

Lamentei a morte precoce do poeta, mas em qualquer idade que ele se fosse para mim seria sempre demasiado cedo, pois ele muito ainda teria a dizer, alegrando o mundo com a força encantatória de sua poesia.

Certa vez, no sítio Bom Jesus da Lapa, que também poderia se chamar Bom Jesus do Gameleira, uma faísca arisca e traquina atingiu a pequena palhoça, que cobria a churrasqueira. Em lugar de se chatear, o poeta, ao olhar as chamas vorazes nas palhas, parecia admirar a beleza das línguas ígneas. Esse incidente/acidente até me fez lembrar o sanguinário Nero, que tinha veleidade de poeta, a contemplar a Roma imperial em chamas, na intenção frustrada, dizem, de compor um poema épico, em que pretendia, talvez, se ombrear a Homero. Só que Nero era apenas um perverso e um poeta abaixo da mediocridade, enquanto o Jamerson era um condor a pairar sobre os Andes da grande poesia. Tomado de emoção disse ainda outras coisas, que já não consigo reconstituir com precisão.  

Incontinenti, fez um emocionante depoimento o Jamerson Jr., que nos contagiou. Relatou que certa feita pediu perdão ao pai, “pelas vezes que me envergonhei de você”, ao que o vate respondera:

“Deixa eu te falar uma coisa. Quando eu era muito pequeno e até logo antes da adolescência o meu pai era pra mim meu herói! Fazia coisas que eu não conseguia! Trocava uma lâmpada, nadava em um rio, ia no fundo da piscina, me levantava nos braços e por aí vai. Depois, me tornei um adolescente e meu pai, seu avô, virou pra mim um obsoleto, atrasado; enfim, um cara fora de moda, talvez até mesmo um babaca, com as suas lições sem sentido. Quando envelheci é que passei a entender os segredos da vida e analisei toda a história de meu pai , os altos e baixos , e tudo o que ele sofreu pra me criar juntamente com meus irmãos; só então percebi que ele sempre foi aquele herói e eu é que, por um determinado tempo, havia me tornado um grande babaca!”

Jamerson Júnior, de forma arrebatada, arrematou o seu discurso, nos confessando que, então, dissera a seu pai: “Obrigado, pai, por me perdoar e também por me chamar de babaca com tanta delicadeza!” Não seria necessário dizer que o Júnior nos comoveu de forma “covarde” e contundente.

 Em seguida, surgiu no espaço de lazer um borboleta, que começou a esvoaçar sobre nós, em círculos ou de um lado para outro. Numa de suas evoluções pude notar que a parte de cima de suas asas era azul turquesa escuro, e tinha uma ilustração semelhante à de certas pinturas abstratas. Após várias voltas, revoltas e reviravoltas, ela posou sobre minha cabeça, mas de forma tão suave, que praticamente não lhe senti o toque, como se ela fosse imaterial ou não tivesse peso.

Logo a seguir, ficou durante alguns segundos pousada no copo térmico do Júnior, quando ele não se encontrava presente. Perguntei se no local já aparecera algo semelhante, tendo a resposta sido negativa. Ousei levantar a hipótese de que o espírito do poeta obtivera permissão para nos aparecer na forma daquela esplêndida e brincalhona borboleta, tendo todos concordado com isso, principalmente o Júnior.

Como último tributo ao poeta, descemos a escadaria, longa e um tanto íngreme, em busca das frias águas do Gameleira. Passadas mais de duas décadas sem rever esse local de banho, notei que a paisagem estava um tanto mudada. Uma árvore que se debruçava sobre o riacho, já lá não se encontrava. E uma minúscula coroa, que eu chamava de Ilha da Utopia, como uma nova Atlântida, havia também desaparecido.  

Contudo, para meu contentamento, ainda havia muitas e grandes árvores frondosas e muitas palmeiras, sobretudo os imponentes buritis, tanto na margem como na várzea defronte. De um lado havia uma ribanceira alta, acentuada, daí a necessidade da escadaria a que me referi, e do outro lado se descortinava a várzea, quase plana. Muitas vezes, nesse local, vi o velho vate mergulhar e remexer nas pedras e na terra e trazer, em suas mãos garimpeiras, belas conchas, que lhe despertavam genuíno prazer, em simplesmente contemplá-las. Foi um banho refrescante, prazeroso, revigorante...

Algum tempo depois, finalizamos o passeio e lazer, tomando um gostoso banho na bela piscina do sítio. Retornamos a Teresina por outro percurso. Porém, antes de deixarmos a vivenda dos Lemos, o Júnior parou o automóvel na frente da capela, onde dona Das Dores, sua mãe, costuma fazer suas orações, e me pediu para elevar uma prece no interior da ermida. Como demorei um pouco, me julguei no dever de dar a seguinte explicação:

            – Já que tive de rezar, rezei direito.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

NEM SÓ DE MAZELAS A VELHICE É RECHEADA

Fonte: Google

 

NEM SÓ DE MAZELAS A VELHICE É RECHEADA


Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

 

                Uma das vantagens de ser idoso não está na cara, obviamente, mas no fato de, mesmo que apenas exista há mais tempo que eles, querendo ou não, sendo deficiente visual ou não, viu e, até mesmo, enxergou bem mais que os menos velhos. Muitas de essas vivências ou experiências teriam ocorrido quando aqueles sequer eram células vivas, corpos e almas animados – ainda que para religiosos convictos, nos planos de Deus sempre estão aqueles que Ele já conta como possibilidades, aos quais quer trazer à vida, gerados ou, ainda, não –, outras, por sua vez, enquanto adentram à velhice e os outros vivem sua juventude.

                Sobre experiência por que passei, há pouco, no umbral, já pisando na soleira da velhice burocrático-legal, é que gostaria de falar. Perguntei a muitos, mas vou fazê-lo a você que verá, lerá ou, talvez, venha a tomar conhecimento deste questionamento por qualquer outro meio; alguns não conseguiram ou não quiseram adiantar nada a respeito; outros comigo concordaram depois de afirmar que não conseguia pensar no assunto de modo diferente. É o seguinte: quando da involuntária expatriação de milhares de venezuelanos, uns amedrontados e perseguidos, outros fugindo da fome e da miséria que, certamente, os castigaria se ficassem em sua terra, sendo governados por um ditador tirano, será que para cá vieram, para nosso estado, somente índios e, além disso, pedintes, esmoleres, indivíduos sem prática em nenhuma atividade laboral que pudessem oferecer à população? Pois é assim que os vejo, onde quer que os encontre, notadamente, nos cruzamentos das vias de maior fluxo, pelas quais transito com assiduidade, homens, mulheres, novos, velhos, crianças, exibindo cartazes que, possivelmente, alguém para eles confeccionam, nos quais se identificam como índios, e que passam fome; a condição de mendigos não fazem questão de esconder ou negar, tanto que, nos locais escolhidos, estão sempre, ou estendendo as mãos, ou sacudindo canecas, prontas para receber óbolos. Pode ser que existam, mas ainda não vi nenhum deles mostrando cartazes – a propósito, quem os leva para as ruas, como escolhem os pontos que deveriam dividir, quem os recolhe quando encerram o expediente trabalhista? – nos quais se ofereçam como prestadores de algum tipo de mister, ocupação ou serviço prático e/ou útil, capaz de transformá-los ou os fazer candidatos a uma categoria formal de trabalhador.

                Será que, de fato, fizeram bem eles em deixar seu país para se submeterem a sofrimentos, possivelmente, semelhantes, tão humilhantes quanto aqueles que sofreriam naquelas, ou, simplesmente, não tiveram outra alternativa? Será que, quem sabe na sua velhice, os que, forçosamente, tiveram que vir para cá como emigrantes, verão seus filhos conseguirem recuperar a dignidade, a honra e a pátria que um ditador, um dia lhes roubara? Quantos deles ainda sonham em voltar para casa?

                Mas, à parte as mazelas que a velhice nos permite experimentar e compartilhar com todos, inclusive os mais novos, também ela nos contempla com momentos humorosos, como este que me foi contado por um velho amigo: numa partida de futebol amador que assistia, meu companheiro teria se encantado com um jogador, tipo longilíneo, magro e alegre, que se movimentava, rapidamente no gramado a uns quarenta metros dele; conversava com outros torcedores, elogiando a performance do magricela bom de bola. Terminado o primeiro tempo do jogo, como é de praxe, os atletas se dirigem aos vestiários para o sagrado descanso do intervalo. Ao se aproximar do meu amigo, só então este teria percebido que se equivocara, pois o lépido e fagueiro craque não era mais nenhuma criança. Ato contínuo, falando com amigos e apontando para o jogador, que passava ao largo, teria dito: - ora, ora, e eu pensando que estava olhando e torcendo para um jovem; que nada, o homem é um velho, cara de maracujá de gaveta, bem mais idoso do que eu.

                Não me contou meu idoso e enganado amigo, se teria aproveitado a ocasião para parabenizar o velho e bem conservado atleta que o teria encantado, ou se, com inveja da figura, nem ficara para assistir ao segundo tempo do jogo.      

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Floriano recebe a APL pela primeira vez

 

Flagrantes da instalação da Academia Piauiense de Letras em Floriano, cuja solenidade principal aconteceu na sede da Fundação Floriano Clube.



Floriano recebe a APL pela primeira vez

 

A Academia Piauiense de Letras instalou-se, oficialmente, neste final de semana (16 e 17/06), no município de Floriano – a 250 quilômetros ao Sul de Teresina –, dando sequência ao projeto APL Itinerante.

 

 O ponto alto da visita foi a realização de Sessão Solene Especial, na sede da Fundação Floriano Clube, conjuntamente com a Academia de Letras e Belas Artes de Floriano e Vale do Parnaíba.

 

Na ocasião, o acadêmico Jonathas Nunes, que viveu em Floriano durante 15 anos, a partir dos 4 meses de idade, proferiu palestra em nome da APL e lançou o livro de memórias De Floriano para o mundo.

 

APL Itinerante

 

Ao abrir a solenidade, o presidente da Academia Piauiense de Letras, Zózimo Tavares, informou que o projeto APL Itinerante foi aberto em janeiro passado, em São Raimundo Nonato, berço do homem americano.

 

Em seguida, a APL se instalou em Oeiras, a Primeira Capital, na celebração dos 200 anos da Independência do Piauí.

 

Conforme o presidente da APL, o objetivo deste projeto é justamente promover a integração da centenária Academia com os polos de cultura do interior.

 

Também fizeram uso da palavra o acadêmico José Alfredo Gazin, representando a ALBEARTES; a presidente da Fundação Floriano Clube, Zilma Neiva; e o prefeito Antônio Reis.

 

Visitas

 

Em Floriano, os acadêmicos e comitiva visitaram o Teatro Cidade Cenográfica, onde é montada a peça “Paixão de Cristo”; a sede da ALBEARTES e os prédios históricos Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara e o Espaço Cultural Maria Bonita.

 

Os acadêmicos e comitiva visitaram também a Escola Municipal Padre Pedro Barroso, o Museu Iconográfico Laboratório Sobral e a Faculdade de Ensino Superior de Floriano.

 

O prefeito de Floriano, Antônio Reis, professor aposentado da Universidade Federal do Piauí, participou de todos os eventos, juntamente com a primeira dama e equipe de auxiliares e o presidente da Câmara Municipal, vereador Joab Curvina.

 

A APL se fez presente em Floriano através dos acadêmicos Carlos Evandro, Elmar Carvalho, Felipe Mendes, Fonseca Neto (1º secretário), Jonathas Nunes, Oton Lustosa, Plínio Macêdo, Reginaldo Miranda, Tony Batista, Wilson Brandão e Zózimo Tavares (presidente).

 

In memoriam

 

O presidente da APL dedicou a sessão à memória dos escritores Esmaragdo de Freitas, Pedro Borges da Silva, Honório Portela Parentes, João Coelho Marques, J. Miguel de Matos e José Expedito Rego – todos florianenses e que integraram a Academia Piauiense de Letras.

 

A sessão foi dedicada, ainda, à memória do escritor Herculano Moraes, que não nasceu na cidade, mas foi um dos fundadores da Academia de Letras e Belas Artes de Floriano, presidida pelo jornalista e escritor Bruno dos Santos.

Fonte: newspiauí.com   

domingo, 18 de junho de 2023

POESIA CÓSMICA

 

Fonte: Google

POESIA CÓSMICA


Elmar Carvalho

 

Duas lágrimas

de pedra nos olhos de vidro

e uma tristeza infinita na

alma de cristal.

O pensamento

voando além do infinito

e o corpo inerte

querendo voar.

As amarguras contidas

no soluço recalcado,

que morre antes de

ser gerado.

A insatisfação

dos atos inúteis

em cada palavra

dita em vão.

A vontade imensa

de alcançar a

realização total

de não ter desejos.

E a vida prática

e a matemática

e a rima que surgiu

por mero acaso.

A matemática

me enlouquece:

por isto meu pensamento

salta de mais infinito

a menos infinito

e explora as amplidões

do universo, enquanto

meus olhos vidrados

fitam a álgebra

sem vê-la.

E a minha abstração

me leva ao infinito

que meu corpo

me nega.

           Pba. 19.01.78

quinta-feira, 15 de junho de 2023

O sanfoneiro Beja dos Canjicas

Fonte: Google


O sanfoneiro Beja dos Canjicas


Pádua Marques

Cronista, contista e romancista


Era coisa de todo ano, no dia que na nossa escola se comemorava o São João, a gente já vendo mais um pouco as férias de julho lá mais na frente, ele ser recebido e reverenciado como um rei. Traziam pra ele a melhor cadeira, era servido refresco, um bolo, as gentilezas das professoras e da diretora. Dias antes alguém da secretaria passava na sua casa pra tratar sobre sua vinda pra tocar na nossa festa de quadrilha.

Beja. O nome de batismo devia ser Benjamin. Mas era nesse diminutivo pelo qual era conhecido aquele homem de estatura baixa, olhos claros e de pouca fala. Talvez fosse essa mania de todo sanfoneiro. Por ocupação ele era motorista do Senai, era tio da Bernadete, da Elizabeth, do Toinho Pitanga, da Ana Maria e de outros que não lembro agora. Mas Beja dos Canjicas, da família Procópio, na rua Tabajara, tocava sanfona como ninguém. 

Naquele dia era especial quando ele estava ali sentado abrindo e fechando o fole de sua sanfona e o som alegre e conhecido invadindo o coração e o sorriso dos meninos e meninas, as salas de aulas. O pátio de recreio e a cozinha onde estavam dona Preta e dona Inês, as duas zeladoras e merendeiras, ficava infestados de São João. Tudo era festa e admiração quando Beja puxava uma música conhecida. 

Aquele homem extraordinário, que era vizinho da nossa escola, ali no outro lado da rua, que nunca fui de prestar atenção se ele tinha filhos e se algum deles aprendeu a tocar igual ao pai com aquele silêncio interior, o sestro de fechar os olhos e deixar que os dedos achassem as teclas pretas.

E os meninos iam pra perto, olhando e se admirando dele. Da rapidez com que passava de uma música pra outra, silencioso, de pouco prestar atenção em quem estaria por perto. E quando acabava seu serviço ali mesmo, todos nós ficávamos um pouco tristes com a volta daquele silêncio de sala de aula, uma voz mais alta de professora aqui e outra ali. Ninguém queria mais nem voltar pra sala de aula no bom e hoje quase sexagenário Grupo Escolar Epaminondas Castelo Branco. 

Um dia, já passados muitos anos e eu já adulto e tendo corrido e ganhado o mundo, fiquei sabendo que seu Beja dos Canjicas havia morrido. Aquilo dito por parentes e conhecidos, antigos colegas de grupo escolar, de vizinhos, me deixou um vazio grande, do tamanho de uma música interpretada por Luiz Gonzaga na letra magnífica de Patativa de Assaré, a maior, mais triste e ao mesmo tempo mais solene sobre os nordestinos, Triste Partida.

(Texto extraído do livro O Menino, de Pádua Marques) 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

DUAS TIRADAS DE A. TITO FILHO

 

Fonte: Google

DUAS TIRADAS DE A. TITO FILHO


Elmar Carvalho


Pelos misteriosos mecanismos da memória, a lembrança de A. Tito Filho me acudiu hoje com muita insistência. Tinha com ele certa amizade, e ele me tinha consideração e respeito intelectual. Tanto que, espontaneamente, me pediu organizasse um livro para ele publicar. Entreguei-lhe o A Rosa dos Ventos Gerais, no início dos anos 1990, mas com a sua morte, em 1992, não pôde cumprir a promessa.

Falei desse caso ao professor M. Paulo Nunes, que assumira a presidência da APL, e ele submeteu o calhamaço ao Conselho Editorial da entidade, e, sob a relatoria do professor Wilson Andrade Brandão, a publicação foi aprovada e o livro terminou vindo a lume através da Editora da UFPI. Depois, esse livro foi reeditado com a supressão do artigo definido de seu título.

Certa feita, encontrei A. Tito Filho perto dos elevadores do prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda. Aproveitei para lhe perguntar sobre o modismo, que então começava, de não mais se chamar mulher de poetisa, mas de poeta. Ele disse não concordar com isso, e respondeu-me que, da mesma forma, se fosse para se seguir essas "novidades", não deveria existir a palavra mulher, mas “a homem”, nem princesa, porém “a príncipe”.

Não foram exatamente essas as palavras, mas algo semelhante, no mesmo sentido. Isso foi dito com a sua saudável e bem-humorada ironia. Eu também não entendia essa mudança gramatical, contudo, para não ser tachado de antiquado e nem de machista, assimilei essa espécie de neologismo, vamos dizer assim.

Noutra ocasião, estava eu na Academia, que já frequentava com relativa assiduidade, quando um intelectual, algo ingenuamente, perguntou ao mestre se a pronúncia de determinada palavra deveria ser "naiscimento" ou nascimento. O velho professor lhe respondeu com outra pergunta: - Fulano, existe um i entre o a e o s? O outro lhe respondeu, como não poderia ser diferente, que não. A. Tito Filho, incontinenti, arrematou: - Então, Fulano, a pronúncia é nascimento.

A. Tito Filho, entre seus pares, foi o primeiro a me acenar com a imortalidade acadêmica. Certamente nesse aceno falou mais forte o seu coração generoso e a sua amizade, no intuito de estimular um ainda jovem poeta.

19 de maio de 2010    

domingo, 11 de junho de 2023

REALIDADE FANTÁSTICA

 

Fonte: Google

Arte: Elmara Cristina



REALIDADE FANTÁSTICA


Elmar Carvalho

 

Velhas borboletas empoeiradas

saídas do fundo dos baús.

Velhas borboletas obsoletas

              e de

              asas

enferrujadas querendo

aprender de novo a arte de

     bor-    bor-       bor-

  bo-    bo-      bo-

       le-      le-         le-

   to-      to-                to-

        a-          a-               a-

                vo-      vo-           vo-

ar.                  ar.                      ar.

              Lâmpadas

votivas destroçadas, estrelas

cadentes geladas, luzes

apagadas pelos inimigos da

          claridade.

Antigos

            alfarrábios cheios

            de traças e cupins

            com as amareladas

            páginas dissecadas

reescritos.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Paçoca de gergelim

 


Paçoca de gergelim

 

Pádua Marques

Romancista, contista e contista

 

Nestes dias de junho, cheios de alegria por tudo quanto é canto por causa dos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro, me ocorre lembrar de uma comida que até hoje ainda me causa contentamento e saudade, a paçoca de gergelim. Na nossa casa era coisa de uma vez por outra minha mãe fazia com aquele capricho. Ninguém até hoje fez uma igual, bem pilada e fininha.

Minha mãe tinha uma paciência e uma resignação que até hoje me impressionam. Fosse na cozinha ou fazendo algum trabalho de costura de roupas, ao lavar as panelas e os pratos, lá estava ela de cabeça baixa e concentrada, de pouco falar com quem quer que fosse naquela hora. E era assim que minha mãe fazia a paçoca de gergelim, aguardada pelos meninos e meninas ali em volta da mesa grande de quase dois metros, hoje com mais de noventa anos.

Em nossa casa tinha um pilão, que a mamãe dizia e repetia ser ainda do tempo de minha avó. Tinha esse pilão pouco mais, se muito, de um metro, feito de madeira robusta, duas bocas e de cintura fina. Era um pilão que ficava sempre de pé. A mão dele era quase da mesma altura, com aquelas duas partes mais grossas que o meio do corpo. E minha mãe, depois de torrar numa panela de ferro o gergelim misturado com farinha branca e uma pitada de sal e açúcar, se punha a pilar com aquela cadência e uma paciência que só ela sabia ter.

Minha mãe sabia mais que ninguém pilar gergelim, milho pra aluá, arroz, farinha branca pra um caldo, fosse o que fosse. Às vezes quando havia necessidade, dava esse trabalho pra algum de nós meninos ou meninas, os maiores e já com sustança nos braços. E ficava ali por perto olhando se a paçoca estava no ponto.

Pouco tempo, não mais que alguns minutos, aquela farinha ia mudando de cor. E algum menino sempre ficava com vontade de meter a mão pra provar aquela farinha, assim num quase marrom, avermelhada. Paçoca de gergelim não era necessariamente comida dos tempos de São João. Mas era quase sempre feita naquele tempo. E servia e muito pra o café das três ou da noite. Depois de pronta e provada por minha mãe, a paçoca ia sendo distribuída a cada um de nós numa tigela.

Mas o gergelim não era apenas pra fazer paçoca. Era santo remédio, segundo minha mãe, pra curar gripes fortes porque, pisado no pilão e tirado o leite, era um expectorante, como hoje se diz. Curava catarro nos peitos e dava alívio quando a gente tossia.

E depois de beber aquele leite de gergelim sem açúcar lá íamos nós os de meninos gripados procurar os fundos de uma rede, se aquietar. Mas a gente gostava mesmo era da paçoca. Aquele gosto bom de, nem salgado e nem doce. Pra tomar com café era uma beleza!   

Depois o pilão voltava pra seu lugar na cozinha, o canto da parede, perto dos dois potes de barro, os dois ali silenciosos com aquelas tampas de folhas de Flandres pintadas de azul com flores brancas ou amarelas, compradas há muito tempo no Mercado da Coronel Jonas.

Esse pilão ficou até muitos anos em nossa casa. Até que por falta de uso, às vezes de ano em ano pra pilar o milho de nosso aluá de todos os meses de junho, o cupim foi comendo aos poucos até não servir mais, ficou velho igual aos homens. Virou um pilão velho coberto de poeira. Ninguém ligou mais pra ele, ninguém mais se lembrou dele ou tratou de perguntar se estava bem de saúde. A mão de pilão, essa durou mais tempo. Mas ficou a recordação da paçoca boa de gergelim, fininha, de cor rosada, grudando no céu da boca.

(Extraída do livro O Menino, de Pádua Marques) 

terça-feira, 6 de junho de 2023

ENTREVISTA COM AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

Fonte: Google

  

ENTREVISTA COM AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

 

Entrevista com Affonso Romano de Sant’Anna, publicada no Jornal O ESTADO – Teresina, nos dias 27/2/1978 e 5/3/1978, concedida aos professores Carlos Evandro Martins Eulálio, José Reis Pereira e à Jornalista Glória Sandes, no Departamento de Letras da Universidade Federal do Piauí, em 22 de fevereiro de 1978. 

CARLOS EVANDROO que se passou mesmo com a poesia brasileira a partir de 1950?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: A meu ver foi o seguinte: de 1956 a 1958, as coisas estão muito definidas: Concretismo em 1956, Neoconcretismo em 1958, tinha o Grupo Tendência de Minas em 1957, tinha Praxis em 1962, Violão de Rua, o Poema Processo em 1967 e, em 1968, o Tropicalismo. Eram grupos que vieram se revezando. Mas houve um fenômeno: como o Concretismo dissolveu a palavra e transformou a palavra em sílabas, começou a valorizar a letra, começou a valorizar o poema cartaz, no aspecto visual, e, depois, mais tarde, o poema processo acabou com a palavra e passou a fazer arte semiótica pura. A poesia chegou a um impasse, um beco sem saída, primeiro com a exaustão estética. E chegou a um ponto que os concretos nos manifestos davam por encerrado o ciclo histórico do verso. Eles acabaram com o verso. Veio o poema-processo e acabou com a palavra. De repente, a poesia ficou num beco sem saída. E aconteceu que o silêncio que a poesia se impôs se confundiu com silêncio imposto ao País e, em 1965, surgiu, com uma violência bastante notável, a música popular, que recuperou o silêncio que se havia imposto à palavra, através de Chico, do Caetano, de Vandré, e toda essa geração. A palavra deles passou a preencher o vazio que a poesia não estava preenchendo, inclusive de vanguarda, por ser uma poesia muito de elite, e havia a carência do povo brasileiro por palavra, porque não havia mais o discurso do político. A música popular passou a ser um grande discurso nacional, daí uma série de festivais de canções. Em qualquer sindicato, escolinha, tinha festival da canção, entre 1965 e 1968, por aí. A poesia brasileira entrou numa espécie de recesso e a música ocupou um espaço que era o próprio espaço da poesia literária, razão pela qual o Chico, Caetano, o pessoal todo passou a ser estudado dentro dos colégios e faculdades como autores. Primeiro, o texto deles dizia alguma coisa, segundo é que eles estavam fazendo um texto mais sofisticado. O Caetano foi aprender com os Concretistas poesia de vanguarda; o Chico é filho de um modernista de 1922, que é Sergio Buarque, que fez uns textos mais sofisticados, e assim por diante. Esse período da música popular, a meu ver, durou até 1973. Em 1973, as coisas mudaram. Há dois sintomas para isso dos quais eu participei. Houve uma exposição na PUC, no Rio, chamado Expoesia, que significava exposição de poesia (...) nessa exposição participaram 600 poetas e tinham uns 3 mil poemas mais ou menos, e aceitei que se inscrevessem todas as pessoas que chegassem com uma coisa lá que se chamasse de poesia. Não se estava discutindo mais o conceito de poesia, porque o Concretismo tinha dito que poesia era uma coisa, Práxis outra, Violão de Rua dizia que era outra. Todo mundo sabia o que era poesia e ninguém chegava a um acordo. Então resolvi fazer uma exposição onde todo mundo chegasse lá e expusesse o que achava que era poesia. Houve, inclusive, uma sala reservada para o Neoconcretismo, para Práxis, todo movimento tinha uma sala, porque era uma espécie de retrospectiva. Só não participou o grupo concreto de São Paulo. Mandei uma carta e eles responderam que não participavam de reunião eclético-caritativa. Eu estava dando oportunidade aos outros grupos de se manifestarem e eles eram contra isso, e ainda afirmaram, na carta, que poesia era, ou não era, quer dizer era Concreta ou não era. Mas a exposição Concreta foi substituída por uma exposição de poesia concreta alemã que estava sendo exibida no Rio, na ocasião – magnífica exposição, com trabalhos de primeira qualidade. Ao lado desses movimentos tradicionais, apareceram dezenas de grupos totalmente desconhecidos, e os poetas que depois se chamariam marginais, dessa antologia de Heloísa Buarque de Holanda, “26 Poetas Hoje”. Então, o que essa Expoesia mostrou, e também foi mostrado no Jornal de Poesias, que eu editei em 1973, no Jornal do Brasil (...) é que era hora da abertura e isso inclusive em termos políticos (...). Eu também achei que o poeta estilisticamente tinha que requerer liberdade primeiro dentro da própria literatura, ao invés de falar liberdade lá fora e ficar sob pressão de um grupo determinado, sob opressão de uma estética. E, de lá pra cá, houve uma liberação, uma volta à palavra que tinha “acabado”. Foi reachada a obra, descobriu-se o encanto da palavra de uma maneira até caótica, muitas vezes, meio passadista, neorromântica, mas não tem importância: o universo deve ser refeito sempre com a força que as pessoas têm,

JOSÉ REIS: O brasileiro consome poesia?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: - O que é publicado hoje em poesia vende. Tem um livrário de poesia incrível no Brasil. No Rio e São Paulo têm dezenas de revistinhas e livrinhos mal feitos, porque o poeta descobriu um outro veículo fora do convencional. Ao invés de procurar o editor e sofrer humilhação com editora e tal, ele prefere editar a coisa batida à máquina em papel pobre, e as pessoas passaram a comprar o livro e dar de presente. O livro passou a circular para três, quatro ou cinco pessoas. Eu já me encontrei com diversos poetas que estão vivendo de poesias. O sujeito já vendeu 10 mil exemplares do livro dele porque, como fez uma edição mais barata, pode vender a 10,00. Se fosse fazer uma edição editorial teria que pagar o livreiro, o editor e o distribuidor. Você sabe que o distribuidor ganha 50%, livreiro 20% e o editor 10%. O autor ganha 10%, só. Então, se você edita e vende, recupera seu dinheiro.

GLÓRIA SANDES: Os poetas não-vanguardistas, ou melhor, os tradicionais teriam alguma contribuição a dar à poesia? 

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: A minha visão de literatura é muito democrática, eu acho que tudo cabe dentro da história da literatura. Uns dos meus problemas com a vanguarda é que ela sugere uma história da literatura onde só entram vanguardistas. Não, todo mundo faz parte da história, inclusive as pessoas que não querem fazem parte contra a vontade. O poeta que está fazendo trova, cordel, soneto, pertence à Literatura (...). Num ensaio que publiquei nesse livro, que se chama “Por um conceito de literatura Brasileira”, quero exatamente chamar a atenção para isto, de que é necessário estudar a literatura de massa. No Rio, tem um poeta chamado Neimar de Barros, que publicou um livro chamado “O Deus Negro”. Sabe quantos livros ele já vendeu? 700 mil exemplares. Tem um problema aí que eu acho que é de ordem sociológica, mas é também de ordem estética, considerando que, dentro da dialética, a quantidade e a qualidade estão relacionadas. O estudante e o escritor não podem não tomar conhecimento de que tem um poeta que está vendendo 700 mil exemplares. Tem que prestar atenção nisso, saber porque ele está vendendo e eu não estou vendendo.

GLÓRIA SANDES: - Não é o problema do “esquemão”?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Tem um mistério nisso. Eu sou a favor de um ensino de literatura onde estes problemas sejam considerados.

JOSÉ REIS: - Como você vê o piauiense Mário Faustino, o que ele deixou como poeta e como crítico, qual sua influência?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: A influência dele foi muito grande, na década de 1950 para 1960, tanto como crítico no Jornal do Brasil. Aliás mais como crítico do que como poeta. A poesia dele eu acho uma poesia boa, mas um pouco conservadora ainda. Ele, talvez, por ter morrido cedo, não desenvolveu a poesia mais pessoal. Quer dizer, vejo muito, ainda, Ezra Pound atrás da poesia dele. Vejo muito a leitura que ele fazia de poesia atrás dessa poesia. Uma poesia que inclusive não é vanguardista no sentido das vanguardas da época. Ele queria ser um crítico de vanguarda, mas a poesia dele não era vanguardista: era discursiva, metafórica, palavrosa etc. Acho que a contribuição histórica dele é importante. Ele tinha uns “insights” algumas dicas que ele dava que eram muito importantes.

JOSÉ REIS: Em um dos livros que você está escrevendo, uma antologia, é verdade que vai incluir Mário Faustino?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Exato. É uma série que nós vamos fazer pela Sumus Editorial, tentando publicar os poetas que de 1950 prá cá deram alguma contribuição.

GLÓRIA SANDES: Torquato Neto entra nessa lista?

AFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Não. Torquato Neto não chega a ser um poeta importante dentro da Literatura Brasileira. Ele era um letrista bastante hábil. Ele se beneficiou bastante do contato que teve com os concretistas em São Paulo, mas não chegou a produzir uma obra, desapareceu antes. O que existe é o culto a Torquato Neto. Este é outro assunto, pertence à Sociologia da Música Popular.

GLÓRIA SANDES: No Rio ele é muito cultuado?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: É. Por alguns grupos. Mas acho que isso pertence a uma área contígua. Pelo fato dele ter morrido numa situação trágica e ter se transformado num símbolo – ele se transformou em elemento sacrificial, sacrificado de uma geração, como sucedeu com a música popular americana, com Jane Joplin e outros. Ele era um indivíduo muito hábil. Poderia ter desenvolvido uma obra, mas infelizmente isso não foi possível.

GLÓRIA SANDES: Qual sua opinião sobre a Navilouca, de Torquato Neto?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Aquela revista é curiosa, mas não é tão inovadora quando se pensa. Isso é outra coisa que precisa ser esclarecida. Tem outro poeta, ligado mais ou menos ao poema processo, Sebastião Nunes, que fez umas coisas dez anos antes da Navilouca, e naquela linha, muito mais rigorosa, mais importantes e mais bonitas. Inclusive mostrei neste curso uma coisa dele: um livro que vinha dentro de um envelope chamado Finis Ópera. São folhas soltas. Ele é artista plástico-visual. Pois toda aquela ideia que aparece na Navilouca, da arte suja, da arte sórdida, da coisa meio marginal, isto tudo já estava sendo feito por grupos anteriores. Posso falar inclusive uma coisa meio dura sobre ela e revistas semelhantes. Não sei se isso vai servir para alguém. Mas acho que certas verdades se tem que ir dizendo. A Navilouca é uma diluição dos cacoetes concretistas misturada com a Arte Povera, um movimento artístico italiano que no Brasil foi representado por cinema de lixo, por coisas semelhantes. Então aquele mau-gosto intencional que tem na revista não chega a ser uma inovação. Foi uma maneira dos concretos de São Paulo, que politicamente são muito hábeis, de continuarem a manter o controle sobre alguns jovens poetas que estavam surgindo. Tanto é que surgiram mais umas cinco a seis revistinhas semelhantes à Navilouca. Eles lançam uma revista e depois outra semelhante com outro nome etc., mas o projeto deles continua se repetindo.

GLÓRIA SANDES: Você acha que no Brasil a gente continua a fazer uma arte, uma literatura colonial, que sempre nos coloca como colonizados culturalmente? Muitas vezes a gente se espanta com o pessoal que a gente acha genial, por exemplo, no caso da revista Graphis: Muita coisa que se faz aqui está lá...

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: É. O Brasil sofre de uma coisa que alguns sociólogos de São Paulo chamaram de política da dependência cultural. O Fernando Henrique Cardoso, principalmente, defende essa tese de que somos um país de terceiro mundo, dependente, culturalmente do que se faz em Nova Iorque, Londres e Paris (...) Mas em todo lugar que você vai, no mundo, as pessoas estão se queixando que são dependentes das outras, porque hoje todo mundo é dependente de todo mundo.

CARLOS EVANDRO: Até que ponto você considera a literatura brasileira de vanguarda original, de característica genuinamente brasileira?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Eu não sei se me preocupo muito com esse negócio. O problema é o seguinte: não existe nada totalmente original. Você pega os concretistas, que tinham a pretensão de exportar poesia: a gestação do concretismo é toda estrangeira. Você pega Joyce, Mallarmé, Pound, os poetas japoneses, todo o paideuma concretista é estrangeiro. Você pensa: que milagre engraçado, de repente, eles leram 30 autores estrangeiros e produzem uma poesia brasileira! ... Até que ponto essa poesia é brasileira?  (...) É como a Bossa Nova. Até que ponto é brasileira? Ela é jazz e muitas outras coisas. Então o negócio nacional acho muito complicado. Por exemplo: algumas pessoas acusam os estruturalistas brasileiros de serem cópias de estruturalistas franceses... passaram um tempo lendo os filósofos alemães Hegel, Marx, Freud, Heiddeger são os que influenciaram os franceses. Por outro lado, esses pensadores para chegarem às conclusões deles andaram lendo os franceses e ingleses anteriores (...).

GLÓRIA SANDES: A pergunta me parece que foi mais no sentido de um caminho próprio da literatura brasileira de vanguarda, assim como se exige do bom poeta que siga o seu caminho (...)

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Num poeta como o João Cabral, você detecta influência de Drummond, depois de Valery, claramente. Mas o Cabral achou o caminho dele. Não quer dizer que ele não tenha influência. Porque todo mundo tem. Ele achou qual a sintaxe, a linguagem dele, uma linguagem pessoal.

CARLOS EVANDRO: E no caso Affonso Romano de Sant’Anna, quais seriam as reminiscências projetadas na obra?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Minha primeira poesia, de Canto e Palavra, acho que tem alguma coisa, muito longe, de Drummond. Já esse livro mais recente, o Poesia sobre Poesia, a primeira parte, considera-se bastante original, na medida em que tento uma poesia que mistura ensaio e poesia; poesia com nota de pé de página, despreocupada de uma série de quesitos que interessavam à vanguarda. Nesse sentido, acho que ela é original, porque corresponde a um problema meu específico, quer dizer, eu como professor (que teve que teorizar e saber tudo) e como poeta (que se quiser teorizar e saber tudo está liquidado. Ele tem que trabalhar muito com o inconsciente dele). Então é uma solução muito biográfica, muito pessoal, por isso acho que é mais original.

JOSÉ REIS: Afonso, fazer literatura e poesia se aprende ou a pessoa “já nasce poeta etc. literata”? Se se aprende, que caminhos deve seguir?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Acho que tem um certo aprendizado. Tanto é que nos Estados Unidos existem algumas escolas. Frequentei, durante nove meses, um curso desses lá. Era um curso internacional de escritores. No curso doméstico (deles) eu frequentei o internacional. Tinha aula de tradução, aula para aprender a escrever romance, poesia, tudo. E, na conclusão de seu curso, você ia fazer prova, traduzia, entregava um romance, epopeias, sei lá, um poema, um negócio concreto. No Brasil, começamos a fazer experiência semelhante. Na PUC mesmo fizemos várias vezes o curso de Criação Literária, convocando o aluno de Letras para escrever o texto dele, que é o contrário do que acontece, porque, nos cursos de arte, o sujeito está lá desenhando, nos cursos de música, por exemplo, o sujeito aprende a tocar piano. E no curso de letras o sujeito fica estudando o texto do outro. Então isto é um erro. Ele tem que produzir o texto dele.

CARLOS EVANDRO: A Universidade do Piauí começou recentemente um movimento assim, chamado de Carpintaria Linguística.

JOSÉ REIS: Utilizando o título de Autran Dourado. Estou juntando Autran Dourado com Mário Faustino, porque o Autran Dourado fala de Matéria de Carpintaria, e o Mário Faustino tem um texto sobre Diálogos de Oficina, nesse sentido de que o fazer literário é uma oficina.

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Isso acho fundamental. Porque certas coisas você aprende sozinho mesmo, com muito sacrifício. Mas tem uma série de macetes, uma técnica que você pode aprender com outra pessoa. Lembro que li, quando tinha uns 16 ou 17 anos, um livro chamado “A Arte de escrever” (...) Acho que talvez tenha sido isso que me forçou a começar a escrever, me ajudou bastante. Descobri que o texto era um negócio dinâmico, rico.

GLÓRIA SANDES: Agora uma perguntinha do balão. Como você vê a proliferação de formas sintéticas do conto. Não prejudicaria o surgimento de escritores “de fôlego?”

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Não. As pessoas, aliás, estão escrevendo cada vez livros maiores. É porque tem mais gente escrevendo hoje. Tem um romancista paulista, pouco conhecido, que elogiei muito na Veja. Evelson Soares Pinto. Escreveu um livro de 800 páginas em corpo 8, chamado “A Crônica de Valente Parentino”. Um livro ótimo. 

GLÓRIA SANDES: O que acha, particularmente, dos minicontos?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Gosto. Gosto muito, principalmente dos de minha mulher, a Marina Colassanti. Ela tem um livro chamado Zoológico, que é de minicontos surrealistas sobre animais. E está terminando um agora.

GLÓRIA SANDES: Quem, no Brasil, é melhor no romance, na poesia e no conto?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Tem que entrar muita gente, porque depende das gerações. Por exemplo, na faixa do modernismo, realmente o Drummond é, disparado, o melhor. Acho o Drummond o maior poeta do século. Esses poetas como o Mário Chamie e os Concretos têm um controle do verso muito grande. Quando querem fazer verso, fazem com muita habilidade, escrevem muito bem (...). Você pode é não gostar do texto deles, mas que o sujeito sabe o que está fazendo, sabe. De poesia, se você quer nomes, de gente que eu gosto, de gente nova, tem a poetisa mineira chamada Adélia Prado, que pra mim é a maior revelação de poesia no Brasil ultimamente. Tem um livro chamado Bagagem e está lançando outro pela Nova Fronteira, um de que estou fazendo a introdução. (...) Tem alguns poetas da geração marginal que eu gosto, que estão naquela antologia dos 26 poetas da Heloísa. O Antonio Carlos de Brito tem umas coisas boas. Chico Alvim, gosto de umas coisas dele; e outros. Em poesia tem outros, o Domingos Pellegrini.  Esse menino que ganhou o prêmio da Remington, em Minas. (...) Na ficção, por exemplo, gosto muito do Rubem Fonseca. Acho excelente; Inácio Loyola acho mais ou menos, o João Antônio acho bom escritor, mas faz um gênero que não gosto. O Moacyr Scliar? Ele sabe fazer as coisas, mas o texto não me diz, é um negócio emocional. O J. Veiga? Muito bom. O Autran é muito bom. A Nélida Piñon, por exemplo, é uma escritora muito difícil de se ler, mas muito boa. O Osman Lins? Gosto. É difícil também de ser lido. Assis Brasil? Acho muito desigual. Tem um romance “Beira Rio Beira Vida” que acho fraquíssimo. Já um outro, que cheguei a criticar na Veja, “Rebelião dos Órfãos”, tem umas coisas muito boas. É uma coisa curiosa, o Assis Brasil participou dessas coisas de vanguarda, mas o texto dele é meio conservador em certas coisas. (...).

GLÓRIA SANDES: Por que os poetas jovens estão se identificando muito com Fernando Pessoa? Mesmo os que não leem gostam...

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: (...) Ele se tornou mais influente porque era místico, exotérico, e com a onda hippie no mundo inteiro, macrobiótica, zen, essas coisas todas, ele entrou em circulação. Porque não é um poeta racional. É muito emotivo, aquela coisa que jorra muito. É uma leitura, um discurso mais fácil. Então capta mais o jovem.

GLÓRIA SANDES: E Da Costa e Silva, o que dá o nome daquela praça?

CARLOS EVANDRO: Afrânio Coutinho diz que ele teria motivado as aspirações de poéticas de Abgar Renaut, Drummond de Andrade...

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA: Ele é bastante conhecido nessa faixa da passagem para o modernismo, pré-modernista. Tinha um certo prestígio. Tinha inclusive uns poemas que são assim formalmente meio ousados. Mas aquilo era mais ou menos moda na época. O Hermes Fontes, a Gilka Machado, Martins Fontes, todos eles tinham assim certa invenção pré-modernista.

domingo, 4 de junho de 2023

Elmar Carvalho é entrevistado por Marcelo Magno na Clube News


O POETA E SEU LABIRINTO...

 

Fonte: Google



O POETA E SEU LABIRINTO...

Opúsculo de Elmar Carvalho

 

Wilton Porto

 

Como eu, Elmar Carvalho, foi lapidado na era do chumbo grosso, ferino, mortal, de quando os militares "subiram" ao poder do governo do Brasil e permaneceram por 21 anos.

Escritores em geral, cantores, artistas plásticos...

Todos éramos perseguidos de alguma forma.

Vivíamos num "labirinto", acuados, como se Minotauros perseguissem e se aproveitassem dos jovens.

Os Teseus estavam prontos para tirar do meio social quem se atrevesse a andar fora da cartilha: o AI5, terror dos terrores.

O título deste livro, com certeza, é o Poeta, que se via, e via tantos companheiros presos, amordaçados.

O eu-lírico, já na abertura do livro, na primeira estrofe, bem o esclarece:

 

"Perdido e cego caminhaste pelos labirintos,

teseu e minotauro de teu próprio destino,

nos confrontos que travaste com teu ego".

 

Quando o Poeta Elmar surgiu como pedra preciosa da literatura piauiense, imperava no nosso  país a literatura "marginal ou mimeografada". Isto em 1970, como forma de driblar o arrocho militar.

Tabloides e poesias, artes em geral, inclusive quadrinhos e cinema usaram deste meio de se expressar.

Através do Jornal Inovação, usamos muito deste meio.

Assim, Elmar foi mostrando seu talento de várias maneiras.

Na poesia "Autobiografia Zodiacal", o Poeta se diz multiplicador de ideias, quando em todos os signos, ele se enquadra. E dentro de cada signo, o lado mais forte: "Coração como Touro indomável". "Fúria de Leão".

E neste poema, o traço concretista.

Conclui de forma contundente:

"Armado de arco e flecha (a flecha é uma cauda de Escorpião)".

Esta(s) estrofe(s) em forma de flecha.

 

No poema EM TRANSE o eu-poético bem nos envolve nos acontecimentos da época do medo:

"eu vi o caos

do nada.

Perdido no

tempo parado

e no espaço desfeito (...)

Vi sangues azuis,

cobras multicores

lagartas de fogo" (...).

 

Nesta poesia, notamos que o poeta descreve de forma simbólica, o destroço em que estávamos atolados.

A geração marginal surgiu em 1970. Neste período, os intelectuais seguiam o pensamento de Leminski:

 

Leminski, um dos grandes representantes dessa geração, define o termo marginal:

 

“Marginal é quem escreve à margem,

deixando branca a página

para que a paisagem passe

e deixe tudo claro à sua passagem.

Marginal, escrever na entrelinha,

sem nunca saber direito

quem veio primeiro,

o ovo ou a galinha”.

 

No poema

AMOR CONCRETO

Elmar mais uma vez se vale do concretismo, por onde Leminski fez morada:

 

“no vór-

                   ti-

      ce voraz

dos abrasados amantes abraçados

o amor se faz (...)

   ver      tiginoso

   vér      ti

         ce

inver      tido.”

 

Elmar ama o simbolismo com suas assonâncias, aliterações e jogos de palavras.

 

"recendente de maresia

que me

leva/lava/lavra

como se eu fora um

fruto do mar.

(Poema Paisagem Marinha).

 

No poema

"Mulheres na Lagoa do Portinho"

parece que o eu-poético estava em sintonia com Cruz e Sousa, no ativar as assonâncias.

 

"Esmeradas esmeriladas esmeraldas -

da mulher bonita

de sinuosas dunas e viagens

furta-cores furtaram

outros tons e sobretons".

 

O Poeta Elmar

sintoniza perfeitamente com a poesia contemporânea. No entanto, possui uma verve aguçada no romantismo não piegas, e não se intimida, caso queira pegar o trem do épico de Camões.

É eclético e se preciso, se multiplica como Fernando Pessoa.

Elmar possui a veia briosa da sonoridade. Sua poesia é pura música aos nossos ouvidos.

Ele é capaz de numa poesia erótica, levantar a mais escrota das críticas.

 

No poema

Autobiografia, página

22-23

ele é religioso e crítico.

 

"Subi montes, rompi charcos,

atravessei grutas sem luz,

com os ombros esmagados

ao peso da férrea cruz (...).

Sofri e cantei perdido nos lupanares.

Em dias de sol escaldante e incandescente

fui casto Dante

e Baudelaire delirante e indecente,

pelas tardes mornas de ressacas e orgias (...).

E nos palácios dourados de Mefisto,

no meio de mentira e desengano,

fui Satã,

fui Cristo,

fui Humano".

 

O Poeta Elmar Carvalho, tão conhecido pela grandeza da cultura e das poesias iluminadas, trabalhadas como artesão.

Em tudo que escreve se percebe o mítico, o místico, o nada misógino.

 

Elmar é um Poeta em tom maior.