sábado, 24 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho



24 de abril

BEM-TE-VIS E URUBUS

Em Parnaíba, de manhã bem cedo, do apartamento, ouvi as flautas alegres dos bem-te-vis, em que as aves parecem conversar musicalmente ente si. Embora não estejam entre os mais prestigiados pássaros canoros, contudo, gosto do canto deles, pela alegria moleca que parecem transmitir. Com suas plumas de vivo colorido, parecem estar vestidos a caráter. Sua cantiga tem timbre, ritmo e arranjos diferentes, embora sutis e quase imperceptíveis a quem os ouve desatentamente. Conta a lenda que a onomatopéia da cantiga dessas aves nos serve de advertência para que tenhamos cuidado com as nossas ações e omissões, pois alguém ou Deus, em sua onisciência, sempre nos poderá dizer: bem te vi!... A algazarra esfuziante dos bem-te-vis me fez lembrar que ontem, ao entardecer, da janela do banheiro, contemplei a coreografia majestosa dos urubus, em sua planação circular. A dança ficava exatamente no meu campo de visão da lua em quarto-crescente. Por vezes, em seus volteios, algum deles ficava em conjunção entre mim e a lua, o que mais tornava encantadora a revoada das aves negras se recortando contra o céu. Lembrei-me de minha mãe, porque foi ela quem primeiro me chamou a atenção para a beleza do voo solene, soberbo, dos urubus. Também me ensinou a admirar a beleza das flores e das árvores e o encantamento das nuvens, explicando, em minha infância, que elas formavam diferentes desenhos, como um rebanho de ovelhas de imaculadas lãs brancas, ou uma rocha gigantesca, ou enormes paquidermes, embalados ao sabor da brisa, que depois tomavam novas formas, através dos cinzéis do vento. Minha mãe, ao cantarolar as belas letras de lindas melodias, também me ensinou, desde criança, a apreciar a boa música. Talvez por isso tenha surgido a minha repulsa pelo barulho ensurdecedor das músicas e pelas apelativas e de muito mau-gosto letras dos tristes dias de hoje. Um dia, quando degustava uma cerveja com o meu falecido cunhado Zé Henrique, no bar do Zé Lira, no céu límpido e azulado de Campo Maior, mostrei-lhe a beleza da dança planada e circulatória dos urubus, e lhe falei desses garis alados, que não sujam o mundo; que, ao contrário, limpam o mundo da sujeira dos outros, da sujeira que os outros fazem. Falei-lhe do seu caminhar gingado, malandro, como diz a letra da música popular; da saúde deles, pois, comendo o que comem, nunca se ouviu falar de que sofressem de alguma infecção ou indigestão. O meu cunhado passou a admirar essas aves de rapina, e certo dia, na casa de meus pais, talvez na premonição de sua morte precoce, e acredito que por um blefe brincalhão, disse que gostaria de voltar como um urubu. Minha mãe retrucou-lhe, e disse que gostaria de ser um bem-te-vi, bela e alegre ave. O saudoso Zé Henrique preferiu a beleza das acrobacias e coreografias aéreas dos urubus e a utilidade instintiva de suas faxinas. Minha mãe, que, em suas poucas letras, ensinou-me a ver a beleza das coisas e da música, preferiu a magia das cores e o canto dos pândegos bem-te-vis.

2 comentários:

  1. José Francisco Marques24 de abril de 2010 19:49

    Mestre Elmar,
    Foi de você que ouvi pela primeira vez a expressão "gari alado" numa referência a "feia" bonita ave que é o urubu. Desde então mudei radicalmente o meu conceito com relação a mesma.
    O nosso eterno Zé Henrique de fato possuía algo da ave acima referida: Com a sua inteligência ímpar, por muitas vezes vareu de algumas mentes conceitos de cunho negativos com seus gestos filantrópicos e anônimos.Hoje, além do firmamento, voa nas hostes celestiais.

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  2. Quando criança passeava muito com meu Pai,todas as tardes ele me colocava na sua lambreta e saíamos pelos campos e carnaubais;ao avistar os garis a planar nos ceus ele dizia que ali estava acontecendo uma grande festa,eu ficava olhando o movimento e imaginava poder um dia também participar.Hoje, ao olhar para o ceu e ver novamente o quadro, me transporto ao passado com alegria, tendo hoje a certeza que, um dia também estarei por lá reencontrando pessoas queridas que nos aguardam por lá.

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