terça-feira, 12 de outubro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


12 de outubro

 A VELHA E A NOVA CASA

Elmar Carvalho

Após 25 anos morando na mesma casa, com o mesmo número telefônico, que foi apenas acrescido compulsoriamente de um três antecedendo o prefixo original, me mudei para nova casa. Posso dizer que, dentro do que é possível a um ser humano nesta passagem terrena, fui feliz, a meu modo. Meus dois filhos nasceram nesse período, e, portanto, passaram a infância e a juventude nessa casa. Tive bons vizinhos, dos quais tenho boas recordações e nenhuma mágoa. Espero que a recíproca seja verdadeira, e creio que o seja; pelo menos o Batista Vasconcelos me externou a sua saudade antecipada, quando soube que estávamos perto da mudança. Segundo acredito, o ser humano não é uma obra perfeita e acabada, mas em permanente construção. Somos a construção, e somos, em parte, nossos próprios construtores. Disse em parte, porque muitas coisas que nos acontecem e nos influenciam e nos dirigem e movem não dependem de nós. Os arrogantes e os tolos, não aceitam essa hipótese. Eles se “acham”, e acham que estão no controle e no comando de tudo, quando, muitas vezes, um vendaval transforma em pó tudo que eles construíram. Um minúsculo inseto, ou menos ainda, uma simples bactéria pode nos destruir ou nos arruinar a saúde. Já pouco desejo e já não alimento ilusões, a essa altura de minha vida. Quando cheguei a minha nova casa, disse a minha mulher que não mais me mudarei, a não ser para o campo santo. O Didi, um rapaz bom e simples, que nos ajudava na mudança, e que nos prestava serviços e aos nossos vizinhos durante todo esse tempo no conjunto habitacional onde morávamos, ou por brincadeira ou porque a ideia da morte o perturbe, disse que pensava eu estar me referindo a uma futura chácara no campo.

O homem vem para esse mundo e nada traz, como todos sabemos. Deixa esse mundo e nada leva, como também é evidente, tanto que existe um aforismo que diz não ter bolso a mortalha. Por isso, já não desejo fazer esforços em acumular bens e coisas, que nos dão muito trabalho e despesas, na conservação, reforma, revisões e com os locais em que ficarão, sem falar nos tributos, nas taxas, tarifas e na inveja que, às vezes, provocam. De certo modo, tenho inveja do caracol, que é a sua própria casa, que carrega para onde vai. Não é espaçoso e nem perdulário, ocupa apenas o espaço de seu próprio corpo gelatinoso e compacto. Quando morre, seu corpo sem osso, quase etéreo, quase espiritual, parece evolar-se, deixando a concha limpa e vazia, na qual o mar parece marulhar e murmurar cantigas inefáveis. Como disse, me fui construindo na velha casa, tentando desbastar meus defeitos, e a casa também se foi construindo, se adaptando a novas necessidade, através de ampliações e reformas. Nela moraram nossas duas cachorrinhas, que estranharam a mudança. Todavia, já se adaptaram porque o lar das cadelinhas somos nós, que somos a família delas. Elas estando conosco estarão bem, estarão felizes, como estão. Nesses 25 anos fui ampliando minha biblioteca, que ainda quero conservar por algum tempo, até doar os livros para umas duas bibliotecas públicas, em que eles possam servir a um número maior de pessoas. Aos poucos, irei trazê-los para perto de mim novamente, como hoje trarei mais alguns. Trouxe as recordações, trouxe as saudades, mas impossível trazer a concretude das paredes, dos quartos, da sala. Espero que eles sirvam a outras pessoas, como me serviram. Posso dizer que é uma casa abençoada. Afinal, nunca sofreu um único assalto. Peço a Deus que abençoe minha nova casa. E os arcanjos dirão no azul: Amém!

6 comentários:

  1. Estimado Elmar Carvalho:

    Leio a sua crônica, feita de muita saudade e dos sentimentos do terreno e do espiritual que, enquanto vivemos, estão unidos, fazendo parte de um todo indivisível.
    Compartilho, em muitos aspectos existenciais, de seus sentimentos com referência ao seu relato de mudança de residência.
    A vida é mesmo dinâmica. Me lembro de que, no meu caso, fiz inumeras mudanças. Ah, se fiz! Cada uma tinha um significado: alívio, saudade, dor, sofrimento, alegria. Afinal, foram muitas as mudanças e, por serem mudanças, nos dão canseira, pricipalmente para os que têm muitos livros como eu e, certamente, você. O pior é que, nas mudanças perdemos muita coisa, inclusive livros. Somos também obrigados a nos desfazermos de objetos que prezamos, inclusive os livors. Ah, espaço que não encon tro para comportá-los todos, até de coleções de revistas, jornais, recortes etc.
    Esse lado íntimo das coisas, dos seres, dos objetos, dos animais de estim ação, das paredes da antiga casa estão poeticamente narrados em sua crôncia, com delicadeza, com muita sinceridade e com a resignação dos espíritos elevados que tão bem sabem olhar, sentir, amar e ter saudades das pequeninas coisas da vida.
    No seu texto, como geralmente ocorre, há quase sempre a simbiose entre a emoção poética e o compromisso do relato, do testemunho no tempo e no espaço. Disso tudo se contamina o seu texto em prosa, através da linguagem cuidadosa, fluente, clara, bem vigiada - e com carinho e respeito - pelo bom timoneiro.
    Por outro lado, não se esqueça de que ainda tem muito tempo pela frente. A velhice está longe e há o horizonte acenando: ainda é tempo de voltar à poesia com a energia dos velhos períodos da mocidade.
    Cunha e Silva Filho

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  2. Joserita Melo Carvalho17 de outubro de 2010 12:59

    Muito linda tua cronica padrinho Elmar...
    Eu, como o Cunha e Silva, no comentário aí em cima, fiz inumeras mudanças...esta última foi mais radical, mudamos até de estado. E realmente cada mudança tem um significado, como ele falou... mas todas são carregadas de saudades, e muitas saudades, principalmente de pessoas queridas que a gente convivia, mas a vida é mesmo assim, cheias de mudancas....fisicas, espirituais...
    Desejo a vc e sua familia tudo de melhor e que Deus os abençõe com o que há de melhor...saúde, amor, paz, harmonia.....
    Bjos de sua irmã que te ama.

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  3. Cara Joserita,
    Obrigado pelos seus votos, que lhe retribuo. Fomos visitados pelo papai, mamãe, Antônio, Neném e Mazé. Tudo marcha para dar certo.
    Recomendações aos seus.
    Ontem estive em Piripir, com o papai, Antônio e Jesus, quando tomei posse de cadeira da Academia Piripiriense.
    A Fátima acaba de me dizer que hoje é a data de seu aniversário. Então, aproveitamos para lhe mandar parabéns e votos de felicidade.
    Abraço.

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  4. João de Deus Netto18 de outubro de 2010 13:02

    Elmar, fiquei com saudades por ti, meu camarada. Minhas mudanças são mais tramáticas porque envolvem distãncias em torno de 8 milhões de quilômetros quadrados! Falta um trinsquin assim pra eu dar um parar em definitivo com essas diásporas; só o tempo da Banda Larga chegar à Bitorocara. Chega de bater perna pelo mundo; talvez, depois do casamento da minha filha com um nativo coxa-branca aqui de riba da serra do Mar. E olha só que coisa: vim só semear, através de minha filha,um caroçinho do DNA dos Dedeus de C. Maior nesta imensa e gelada floresta de Araucárias.
    Deus apronta com a gente.

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  5. Caro Netto,
    Que essa banda larga ou tala larga chegue logo,
    pra vc retornar às suas origens bitorocarenses...
    Oxalá a banda larga não venha a passos de cágado ou de bicho preguiça.

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  6. Joserita Maria de Melo Carvalho21 de outubro de 2010 12:03

    Em tempo: Obg pelos parabéns....A Fátima é uma querida, nunca esqueceu a data do meu niver, diga a ela que mando um bjão especial p/ ela, tá?

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