sexta-feira, 30 de abril de 2010

A MORTE E A CEGUEIRA DE KETY



Chagas Vieira, no Salão do Povo

30 de abril   Diário Incontínuo

A MORTE E A CEGUEIRA DE KETY

Elmar Carvalho

Fui cortar as minhas cada vez mais ralas e raras madeixas com o irmão maçônico Chagas Vieira. Desde 1971, ele exerce sua atividade em Teresina. Conheço-o desde a segunda metade da década de 1980, quando eu trabalhava na extinta SUNAB. Ele trabalhava no Salão Piauí, pertencente ao senhor Felinto Lima, já falecido. Em 1998, fundou seu próprio estabelecimento, o Salão do Povo, situado na rua Rui Barbosa, 441, perto do antigo supermercado São Gonçalo, onde hoje funciona um templo da Igreja Universal. 

Durante alguns anos, ausentei meus cabelos de sua tesoura e navalha, por mudanças de hábito e circunstâncias. Há alguns anos, voltei a integrar sua clientela. Antes de adotar posição estática, para ele melhor exercitar as suas habilidades de escultor capilar, pedi-lhe que me repetisse a história de sua cadelinha. Chamava-se Kety e era uma pequinês, pequenina, peluda e de brancura imaculada. Quando Chagas saía para o trabalho, ela o acompanhava até a porta da rua. Ficava triste, aguardando o seu retorno, quando ia esperá-lo à porta, e ficava se achegando a ele, até ser colocada no colo.Tinha muito amor a seu dono, e a recíproca era verdadeira, na mesma intensidade. A cadelinha chegava ao ponto de comer no mesmo prato dele, com a sua cúmplice permissão complacente. Teve longa vida, para os padrões caninos. 

Aos dezessete anos cegou, primeiro de um olho e logo em seguida do outro. Com a cegueira, a cachorrinha, por alguma espécie intuitiva de pudor, ou por receio de incomodar seus donos ou por simples higiene, passou a se esgueirar pelas paredes, como tateando, em busca de alguma saída para fazer suas necessidades fora da casa. Numa dessas buscas, saiu para a rua, quando foi tragicamente colhida pelas rodas de um carro, que lhe esmagou a pequenina cabeça. O irmão Chagas providenciou-lhe o enterro, no quintal da residência. Mas pela casa ainda vaga a lembrança e a saudade de Kety, que se mantém viva na retentiva amorosa de seus donos.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Animal trípede da
família dos primatas.
Animal não monstruoso:
animal mastruoso.
Pé de mesa mais famoso
da Parnaíba, Lobaia
só cavalgava cobaia,
em única experiência,
através da armadilha
das lâmpadas apagadas.

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho




28 de abril

O PATO E O FAZ-TUDO

Após o término da audiência, o senhor Valdemiro Sousa confessou-me ser uma espécie de faz-tudo, pois é cabeleireiro, encanador, marceneiro, pedreiro, lavrador, e talvez mais alguma coisa que eu possa haver esquecido. Disse-lhe que ele era um polivalente, e lhe perguntei se poderia contar a anedota do pato. Demonstrei-lhe que um pato faz muitas coisas, como andar, nadar e voar, mas que nenhuma dessas atividades ele faz com eficiência. Tem choto lento, pois tem as pernas curtas, os pés em forma de palmas ou pás e o corpo pesado e um tanto parecido com o casco de um barco, o que lhe faz ser algo desengonçado; o voo é curto e rasteiro, o que não lhe dá muita vantagem no caso de uma fuga; o seu nado, embora gracioso, é lerdo, o que lhe torna uma presa fácil de um predador como um jacaré, por exemplo. Sousa, entendendo o meu recado brincalhão, não lhe passou recibo e nem se deu por achado, e imediatamente respondeu, bem-humorado, que fazia bem-feito as coisas que fazia. É claro que temos o chamado homem de sete instrumentos, que geralmente não é exímio em nenhum deles ou, na melhor das hipóteses, só domina um ou dois, mas dificilmente vindo a ser virtuose ou mestre. Elevado ao paroxismo, o especialista é aquele que sabe tudo de nada, e o generalista é o que sabe nada de tudo. Ora necessitamos das profundidades abissais e quase obscuras de um especialista, ora precisamos da visão rasa, mas ampla e geral de um mestre das superficialidades. O mundo é composto e plural, e assim o devemos aceitar.

terça-feira, 27 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho



Escombros da antiga e bela Praça da Graça

27 de abril

O INOVAÇÃO E A PRAÇA DA GRAÇA

Recebi ontem, através de e-mail enviado pelo amigo e chargista Fernando Castro, várias fotografias dos escombros da Praça da Graça, destruída por ordem desastrada do prefeito João Batista Ferreira da Silva, no final dos anos 70, na intenção de construir uma nova praça. Da noite para o dia, transformou o coreto, os jardins, a pérgula, os passeios, com seus belos traçados, em ruínas. Como eu morava na referida praça, no apartamento dos Correios e Telégrafos, em virtude de meu pai ser o chefe da agência da ECT, todos os dias eu enxergava os tapumes que escondiam os destroços. Os dias e os meses foram passando, e nada de a obra de reconstrução ser iniciada. Por esse motivo, o jornal Inovação, fundado por Reginaldo Costa e Franzé Ribeiro, que já vinha “batendo” nos equívocos e mazelas da administração municipal, começou a denunciar acirradamente mais esse erro do alcaide Batista Silva e a cobrar o início das obras, em todas as edições. Na época, como todos sabem, não havia internet e Parnaíba contava apenas com a rádio Educadora, a pioneira na radiodifusão estadual, com o jornal tipográfico Folha do Litoral e com o Norte do Piauí, salvo involuntária falha de minha memória. Os dois primeiros veículos de comunicação pertenciam ao grupo dos Silva e o terceiro, a Mário Meireles. O Inovação, embora na época fosse mimeografado e feito no formato apostila, vendia mais do que esses dois hebdomadários. Era comentado, passado de mão em mão e enviado para fora. Era feito na base de duros sacrifícios e dificuldades, uma vez que os “inovadores” não tinham recursos financeiros. Não entrarei em detalhes, posto que seria uma longa história, e uma vez que já escrevi um trabalho sobre esse assunto, intitulado “Jornal Inovação – um Depoimento”, que se encontra na internet, bastando que se recorra aos sites de procura ou pesquisa. Certa noite, quando eu saí do apartamento para a rua, vi os tapumes serem derrubados por várias pessoas. Após, foram empilhados e incendiados. Imediatamente, montei em minha motocicleta e fui chamar o Reginaldo Costa e o Bernardo Silva, que moravam na rua Vera Cruz. Eles haviam acabado de chegar de Teresina, onde mantiveram contato com o advogado Celso Barros Coelho, para se defenderem de um processo criminal que o prefeito havia ajuizado contra eles, o qual terminou sendo arquivado pelo juiz e contista Magalhães da Costa, que depois chegou a desembargador e passou a pertencer à Academia Piauiense de Letras. Recentemente, os membros do Inovação foram chamados por certo jornalista de “mumificados”, os quais teriam como feito mais relevante o fato de terem derrubado os tapumes e lhes terem ateado fogo. A afirmativa mereceu resposta do jornalista B. Silva, que disse nunca nenhum dos membros do Inovação ter reivindicado tal “heroísmo”. Também foi repudiada por Reginaldo Costa e Wilton Porto. Com efeito, não fomos os “inovadores” que tocamos fogo nas tábuas que formavam o que o jornal chamava de “muro da vergonha”. Entretanto, podemos afirmar categoricamente que foi a campanha vigorosa e isolada desse pasquim, que foi contra a destruição da praça e que clamava pela sua reconstrução no modelo antigo, que achávamos muito mais belo, além de que fazia parte da memória afetiva, sentimental e histórica da velha urbe, que provocou aquele verdadeiro levante da juventude parnaibana. No dia seguinte (31.08.1979), houve uma mistura de passeata cívica e carnaval, com carros desfilando em redor da praça, com foguetes, bombas e buzinaços estilhaçando o silêncio da manhã radiosa. O fato mereceu uma edição especial e histórica do jornal. Podemos afirmar que foi graças ao bom combate do Inovação que a reconstrução do logradouro tomou ritmo acelerado. No entanto, o jornalista cometeu outro grave erro, porquanto as “múmias” estão mais vivas do que nunca, porque continuam escrevendo, publicando livros, colaborando com jornais, revistas, sites e blogs, exercendo seus cargos, encargos e funções; inclusive, vários “mumificados” pertencem às principais instituições culturais de Parnaíba e do Piauí. O nobre jornalista é que parece haver perdido o faro e o bonde da história.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

SELETA INTERNACIONAL



O CORVO (*)

Edgar Allan Poe

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

(*)Tradução de Machado de Assis

UNIDOS POR AMARANTE

Cunha e Silva Filho


Incluindo o primeiro artigo meu, “Crime de lesa-pátria”, contamos agora, ao todo, com quatro artigos em defesa da integridade física e espiritual de Amarante. Dos outros dois, um é do embaixador, poeta, historiador e acadêmico Alberto da Costa e Silva, “Em defesa de Amarante” e o outro, “SOS Amarante”, do escritor e bancário amarantino radicado em Brasília, Armando Gomes da Silva,” todos publicados em jornais ou em sites da Internet.
Cada um dos artigos tem um objetivo único: servir como um alerta para as autoridades envolvidas com um suposto plano destinado a construir uma usina hidrelétrica que, se levado a efeito, iria submergir a histórica cidade de Amarante – patrimônio arquitetônico e cultural inseparável da formação histórica do Estado do Piauí. Quaisquer tentativas de levar a cabo essa ideia absurda e abominável seria interpretada como um exemplo inédito de obscurantismo cultural contra os piauienses. Não há argumento de ordem técnica ou econômica que resista à força da realidade histórico-cultural de um bem inestimável e intransferível, que é Amarante, a qual foi transformada em cidade através da Resolução provincial nº 734, de 4 de agosto de 1871, levando o nome de Amarante como homenagem à cidade portuguesa homônima.
Para reforçar a nossa defesa incondicional, por coincidência ou não, foram recentemente estampadas na respeitada revista Presença, nº 43, Ano XXIV, duas magníficas matérias, a primeira, “Cultura, Memória e Identidade da Cidade de Amarante”, da autoria conjunta de Olavo Pereira da Silva e Claudina Cruz dos Anjos, ambos arquitetos e urbanistas. Claudia Cruz dos Anjos é, por sinal, chefe do IPHAN PI. A segunda, de título “Amarante”, é assinada pela jornalista Natacha Maranhão.
Antes que qualquer tentativa se faça por parte dos planejadores dos governos federal e estadual, conviria alertar os idealizadores dessa equivocada ideia de construção de usina hidrelétrica num município do porte de Amarante, que leiam primeiro alguns estudos e pesquisas sobre este município escritos por autores da terra a fim de que fique bem explícita a temeridade da iniciativa. São trabalhos que nos ensinam a conhecer a memória da cidade, as suas tradições centenárias, o seu folclore, os seus costumes, o seu sistema escolar, o seu povo e sua vida social e literária, esta últimas das mais fecundas por reunir um número de figuras notáveis de escritores, historiadores, poetas, filólogos, sociólogos, artistas, inventores, magistrados, músicos, jornalistas, educadores, figuras políticas de projeção nacional, enfim, nomes que se notabilizaram em diversos campos da atividade humana. Não resisto à tentação de mencionar algumas obras que tematizam especificamente a cidade de Amarante em seus múltiplos aspectos, nas suas dimensões históricas e/ou literárias

SILVA, Da Costa e. Zodíaco (1917) na seção “Minha Terra”; Verhaeren (1917), na seção “Sob outros céus”.Na sua generalidade, a obra toda quase do poeta metaforiza a cidade de Amarante.
MOURA, Clóvis. Argila da memória. São Paulo: Ed. Fulgor, 1963. Nesta obra, o poeta centraliza seu tema nos motivos suscitados pela cidade de Amarante
........... Flauta de argila.- memória revisitada. Teresina:Gráfica Editora Júnior Ltda., 1992. Nesta obra, o autor, mais uma vez revisita, pela memória, a velha Amarante, o Piauí como um todo. Apresentação de M. Paulo Nunes.
CASTRO, Nasi. Amarante – um pouco da história e da vida da cidade. Teresina: Projeto Petrônio Portella, 1986, 64 p. Introdução de M. Paulo Nunes.
.
-------. Amarante folclore e memória. Teresina: Projeto Petrônio Portella, 1994, 226 p. Introdução de Dagoberto Carvalho Jr. Prefácio de Virgílio Queiroz.
.......... Amarante folclore e memória. 3 ed. Teresina; COMEPI, 2001. Reproduz Introdução de Dagoberto Carvalho Jr. e prefácio de Virgílio Queiroz. .
MOURA, Eleazar . Amarante antigo: alguns nomes e fatos. Gráfica Santa Maria, s. d.177p, s. l. Com fotografias.
SOUSA CASTRO, Olemar de. Minhas duas pátrias. Rio de Janeiro: Câmara Brasileira de Jovens Escritores, 2009 Ver o capítulo “Voltando a Amarante”, p. 53-64.
CASTELOÇ BRANCO, Homero. Ecos de Amarante. Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2001, 423 p.

Estes subsídios, bem como outros, devem ser lidos e meditados pelos responsáveis por decisão que venha pôr em risco um município-patrimônio do Estado do Piauí. Ou seja, que de imediato Amarante seja incluída no grupo de cidades piauienses que devem ser preservadas e protegidas como patrimônio inalienável física e culturalmente. Dessa premissa não podemos abrir mão sob hipótese alguma e, por todos os modos e instâncias, devemos lutar incansavelmente para que Amarante permaneça como parte necessária, integral e irredutível no conjunto dos municípios do Piauí.
Não só os amarantinos natos ou ali radicados, mas todos os piauienses de bem, representados por todos os setores da sociedade local devem, sem tergirversações, cerrar fileiras a fim de que o plano insano de varrer Amarante do mapa do Piauí seja abortado definitivamente.É de apoio e incentivo do IPHAN PI que Amarante precisa, assim como de outras instâncias estaduais unidas a outros órgãos subordinados ao Ministério da Cultura de modo que o município amarantino seja dotado - isso sim – de verbas que venham restaurar seu espólio cultural-arquitetônico-paisagístico. Amarante carece de cuidados, não de destruição. O Estado brasileiro não tem o direito de praticar uma ação inominável dessas.
Creio, portanto, que a autonomia física e arquitetônica de Amarante, a incolumidade de seu povo, suas residências, seu espaço urbano, suas memórias, seu rico acervo cultural, seu lugar de direito e de fato na história do povo piauiense não hão de sofrer qualquer ação governamental que venha constituir motivo de repúdio da parte dos seus filhos no presente e no futuro, os quais preservarão com orgulho a memória dos seus antepassados. Espero que todos os piauienses e brasileiros de bem hão de unir forças em torno dessa questão. Não podemos baixar a guarda.

domingo, 25 de abril de 2010

O APELIDO DO JUIZ

Pádua Santos

Fontes Ibiapina

NO ANO de 1985, quando lancei meu primeiro livro, ele, que mantinha a coluna “Ponderações Literárias” na “Folha do Litoral” - jornal que circulou em Parnaíba por muitos anos, presenteou-me com um elogioso comentário sobre minha pessoa e o meu trabalho, terminando por transcrever um dos poemas ali publicados.
O autor, na sua humildade de poeta bissexto, e a obra, que se intitula “Viração”, não têm as ótimas qualidades que lhes foram dadas pelo competente comentarista. Atribua-se os méritos ali alinhados à força da amizade que nos unia. Amizade de muitos anos de foro, de muitos meses de atendimentos aos carentes de justiça, e de muitos dias de audiências na Vara da Família onde atuava-mos juntos: ele como Juiz e eu como Defensor Público.
No ano de 1986, mais precisamente no dia 16 de abril, publiquei no mesmo jornal, onde ele tanto escreveu, uma crônica denominada “Por quem choram as desvalidas”, que foi lida na missa realizada na Catedral de Nossa Senhora da Graça, em sufrágio de sua alma que a partir do dia 10 daquele mês passara a morar com as estrelas do céu.
Nesta matéria de hoje não se pretende tecer comentários sobre sua ilibada atuação como Juiz de Direito, função que sempre a exerceu com o elevado propósito de servir os mais necessitados.
Não se vai, também, comentar sua vasta atuação literária. Fica tal assunto para ser exposto e debatido no SALIPI – Salão do Livro do Piauí, 8ª edição, evento que acontecerá em Teresina a partir do próximo dia 31 de maio, onde será ele, com merecida justiça, o grande homenageado.
Tratar-se-á, aqui, de uma pequena ocorrência envolvendo esta personagem invulgar e que a guardo, indelével, no fundo de minha memória. Aconteceu o seguinte:
Estava eu em minha sala, no foro, atendendo a grande fila formada por pessoas carentes de justiça, aquelas que sempre procuram como única salvaguarda a Defensoria Pública, quando entra uma senhora, agoniada e suada, que logo foi dizendo o que lhe trazia até ali:
- Doutor, eu tenho um processo contra o meu marido, ele está pagando muito pouco e isto não pode continuar!...
Aquela necessitada, mãe de família aflita, trazendo na cabeça os enfeites dos cabelos brancos que lhe dera a idade somada ao desprezo de um marido que lhe trocara por uma mais moça, pretendia ajuizar uma Ação de Revisão de Alimentos.
Alegou que o marido, ao contrário do tempo do ajuizamento da inicial e da sentença, havia conseguido emprego mais rendoso e que podia pagar, para ela e filhos ainda menores, uma pensão maior.
- Minha senhora – falei – em primeiro lugar vamos localizar o processo e depois a senhora vai me trazer uma prova de que seu marido, atualmente, vem recebendo um salário maior e capaz de...
Ela, como a maioria daquelas que procuram a Defensoria Pública, não esperou a conclusão do meu parecer prévio e foi logo dizendo:
- Prova de que ele vem ganhando mais eu tenho é muita, agora onde está o processo, é com o senhor!
Não há dúvida – ponderei – mas me diga uma coisa: - a senhora se lembra em que ano foi a audiência, ou qual foi o cartório?...
Nada. Ela nada podia informar neste sentido. O ano ela não tinha certeza, já fazia tempo, e quanto ao cartório, foi assunto que eu nem devia ter falado. Este povo carente da Assistência Judiciária, raramente, sabe o que é e para que servem Cartório ou Secretaria.
Diante deste impasse, lhe fiz mais uma pergunta, tentando localizar os autos:
- A senhora se lembra quem foi o juiz do processo?
Ela então, mostrando-se um tanto desconfiada, me disse através de uma leve ponta de sorriso desdentado:
- Doutor o nome mesmo eu não sei. Só sei que o apelido dele era Nonon!

E assim termina esta história forense, com a localização do processo que teve, como muitos outros, um acordo quanto ao pagamento de alimentos. Feito que tramitou pela 2ª Vara da Comarca de Parnaíba, com o característico parecer ministerial da época, elaborado em duas palavras: “de acordo” ou “nada a opor”; ajuizado pela Defensoria Pública e com sentença homologatória proferida pelo saudoso Juiz e escritor João NONON de Moura Fontes Ibiapina.

Parnaíba, 23 de abril de 2010.

sábado, 24 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho



24 de abril

BEM-TE-VIS E URUBUS

Em Parnaíba, de manhã bem cedo, do apartamento, ouvi as flautas alegres dos bem-te-vis, em que as aves parecem conversar musicalmente ente si. Embora não estejam entre os mais prestigiados pássaros canoros, contudo, gosto do canto deles, pela alegria moleca que parecem transmitir. Com suas plumas de vivo colorido, parecem estar vestidos a caráter. Sua cantiga tem timbre, ritmo e arranjos diferentes, embora sutis e quase imperceptíveis a quem os ouve desatentamente. Conta a lenda que a onomatopéia da cantiga dessas aves nos serve de advertência para que tenhamos cuidado com as nossas ações e omissões, pois alguém ou Deus, em sua onisciência, sempre nos poderá dizer: bem te vi!... A algazarra esfuziante dos bem-te-vis me fez lembrar que ontem, ao entardecer, da janela do banheiro, contemplei a coreografia majestosa dos urubus, em sua planação circular. A dança ficava exatamente no meu campo de visão da lua em quarto-crescente. Por vezes, em seus volteios, algum deles ficava em conjunção entre mim e a lua, o que mais tornava encantadora a revoada das aves negras se recortando contra o céu. Lembrei-me de minha mãe, porque foi ela quem primeiro me chamou a atenção para a beleza do voo solene, soberbo, dos urubus. Também me ensinou a admirar a beleza das flores e das árvores e o encantamento das nuvens, explicando, em minha infância, que elas formavam diferentes desenhos, como um rebanho de ovelhas de imaculadas lãs brancas, ou uma rocha gigantesca, ou enormes paquidermes, embalados ao sabor da brisa, que depois tomavam novas formas, através dos cinzéis do vento. Minha mãe, ao cantarolar as belas letras de lindas melodias, também me ensinou, desde criança, a apreciar a boa música. Talvez por isso tenha surgido a minha repulsa pelo barulho ensurdecedor das músicas e pelas apelativas e de muito mau-gosto letras dos tristes dias de hoje. Um dia, quando degustava uma cerveja com o meu falecido cunhado Zé Henrique, no bar do Zé Lira, no céu límpido e azulado de Campo Maior, mostrei-lhe a beleza da dança planada e circulatória dos urubus, e lhe falei desses garis alados, que não sujam o mundo; que, ao contrário, limpam o mundo da sujeira dos outros, da sujeira que os outros fazem. Falei-lhe do seu caminhar gingado, malandro, como diz a letra da música popular; da saúde deles, pois, comendo o que comem, nunca se ouviu falar de que sofressem de alguma infecção ou indigestão. O meu cunhado passou a admirar essas aves de rapina, e certo dia, na casa de meus pais, talvez na premonição de sua morte precoce, e acredito que por um blefe brincalhão, disse que gostaria de voltar como um urubu. Minha mãe retrucou-lhe, e disse que gostaria de ser um bem-te-vi, bela e alegre ave. O saudoso Zé Henrique preferiu a beleza das acrobacias e coreografias aéreas dos urubus e a utilidade instintiva de suas faxinas. Minha mãe, que, em suas poucas letras, ensinou-me a ver a beleza das coisas e da música, preferiu a magia das cores e o canto dos pândegos bem-te-vis.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

23 de abril

DISCO VOADOR SOBRE PARNAÍBA

Na conversa a que me referi na nota anterior, o poeta Jorge Carvalho contou-nos um fato deveras interessante sobre OVNI (objeto voador não identificado). Antes, porém, devo repetir que o conheço faz mais de trinta anos, desde que ele cursava a Faculdade de Direito do Recife, a mesma em que estudaram, sem concluir o curso, os grandes poetas Castro Alves e Fagundes Varela. Quando ele vinha de férias, trazia-me revistas literárias da autoproclamada vanguarda, que me deixavam atualizado com o que se fazia em outros Estados, e entre elas a Gandaia. O vate, que é também fiscal do Ministério do Trabalho, contou-nos que, na década de 1950 (salvo engano de minha parte), quando ele ainda era menino, um disco voador foi visto pairado sobre o mercado central de Parnaíba, a grande altura. Vários feirantes e consumidores teriam visto o objeto voador, o que causou certo burburinho na feira. O Jorge o observou de um lugar privilegiado, verdadeiro mirante, a área aberta do belo e velho edifício Leão, pertencente a seu avô, o comerciante Antônio Thomaz. De seu “observatório”, viu quando o disco voador se deslocou em direção ao Delta do Parnaíba, em grande velocidade e notável capacidade de aceleração, ao tempo em que baixava de altitude. Pela sua forma de disco, pelo fato de ter ficado imóvel no ar, pela velocidade e desempenho na aceleração, não poderia ser avião, helicóptero ou balão. Como o suposto OVNI foi visto simultaneamente por várias pessoas, no mercado público da cidade, em plena luz do dia, o que parece ser incomum nos relatos desse tipo de evento, é certo que não se tratava de alucinação, já que as condições e circunstâncias do momento e do local não predispunham a isso, de modo que os estudiosos do fenômeno teriam grande proveito se conversassem com o Jorge e com outras pessoas contemporâneas, que tenham presenciado esse episódio. Para os céticos, invocando Shakespeare, Cristo e um humorista, relembro: há mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia; na casa de Deus há muitas moradas e no céu há mais coisas do que apenas os aviões de carreira. Não fora isso o bastante, os cientista, sobretudo os físicos, cada vez mais descobrem novos e fascinantes mistérios, como a possibilidade de existirem universos paralelos e “várias e inefáveis dimensões”, como eu disse num de meus poemas.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


Poeta. Espírita. Espírito
da carne e do osso, a roer
o osso duro do ofício de poetar.
Quixótico, exótico: misto de poeta
e de espírita. Via espíritos no
ar. Nunca estava sozinho:
quando a poesia lhe faltava
os espíritos surgiam e
se insurgiam contra a solidão.
Cavalheiro de fino trato:
tirava o chapéu para os
espíritos que só ele via.

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


22 de abril

LIVRO E DISCOS VOADORES

Anteontem aconteceu o lançamento de “Seleta em Verso e Prosa” de Alcenor Candeira Filho, meu amigo há mais de trinta anos. Nutrimos uma admiração e respeito recíprocos. Já há algum tempo lhe “cobrava” uma antologia que contemplasse também seus textos mais antigos, que sempre admirei, e que achava importantes pela “parnaibanicidade” de que estavam impregnados. O Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos, excelentemente, apresentou a obra, através de texto em formato de crônica. O Alcenor fez algumas contextualizações e esclarecimentos necessários. Em suma, foi uma grande festa, de cultura e de congraçamento, em que pude rever caros amigos. Estou me refestelando com os belos textos enfeixados na antologia. No decorrer do farto coquetel, conversei com o amigo e poeta Jorge Carvalho, e admirei, mais uma vez, a sua memória prodigiosa. Disse-me que, entre os guardados de sua mãe, descobriu um pequeno convite para a missa de sétimo dia de minha irmã Josélia, tragicamente morta no esplendor de seus quinze anos, em desastre automobilístico, em 2 de julho de 1978. Em determinado ponto, falamos em almas ou espíritos, já que o Jorge é espírita convicto e praticante. Das almas derivamos para discos voadores. A escritora Dilma Pontes nos instigou a contarmos algum caso sobre esses objetos voadores. O Jorge, que é meu amigo faz mais de trinta anos, desde quando ele ainda era estudante universitário no Recife, e me dava o prazer de visitar-me nos Correios de Parnaíba, quando vinha de férias, lembrou-se de que eu tinha uma antiga experiência a esse respeito. Narrei o fato que me aconteceu. Eu fora com o Reginaldo Costa, do jornal Inovação, levar um recado do sociólogo Antônio José Medeiros a uma pessoa que morava perto de Chaval (CE). Fomos em minha motocicleta. Quando voltamos, em certo ponto da estrada, já noite fechada, vimos umas luzes, arredondadas, mais ou menos da altura do teto de uma casa, no meio do breu total da noite. Parei a moto. Eu e o Reginaldo olhamos essas luzes sem nenhum receio. As luzes pareciam suspensas sobre uma grande árvore, como bolas natalinas, porém maiores que estas. Logo descartei todas as possibilidades “lógicas”: não eram fagulhas de fio elétrico encostado em folhas, porque elas caem, são avermelhadas, pequenas, efêmeras e não são redondas; não podiam ser folhas, flores ou brotos fosforescentes, porque estes são de baixa luminosidade e também não têm forma arredondada definida, e por estas mesmas razões não poderiam ser fogos-fátuos, que, além do mais, oscilam ao sabor do vento. Achei prudente prosseguir em direção a Parnaíba. Chegando ao povoado Olho d'Água, resolvi parar em um boteco que havia na beira da estrada, que achei simpático por imitar um carroção antigo, todo de madeira. Tomamos umas três doses de pinga, pagamos algumas para umas pessoas presentes, e contamos o caso. Dissemos a que distância ocorrera. Os nativos nos informaram que no local indicado aconteciam alguns fatos misteriosos, e que lá já apareceram alguns animais mortos, inclusive jumentos, como se tivessem sido sugados ou drenados; não apresentavam uma gota de sangue. Com efeito, o imaginário popular fala em certos “chupa-cabras”, uma espécie de vampiros vindos do espaço sideral. Não conversei mais sobre este assunto com o Reginaldo. Parecia termos feito um pacto de silêncio. Contudo, uma única vez, muitos anos depois, puxamos esse caso. A lembrança que eu tinha era a mesma que ele conservava, o que parece dar credibilidade à história, que asseguro ser verídica. Não tenho explicação para o acontecido, mas os mistérios são mesmo sem explicação. Caso contrário, não seriam mistérios.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

INSTITUTO HISTÓRICO SE ALIA À DESINFORMAÇÃO

Reginaldo Costa

Nomes, cargos, encargos e atividades atuais dos "mumificados" do Jornal Inovação, da esquerda para a direita: 1º plano: Bartolomeu Martins - artista plástico e servidor da CEF, da qual foi gerente de agência, Vicente de Paula (Potência) - projetista elétrico, compositor e escritor, Elmar Carvalho - escritor, poeta, blogueiro, membro de várias Academias de Letras (entre as quais a Parnaibana, a Campomaiorense e a Piauiense) e magistrado e Canindé Correia - coordenador de Educação do SESI, membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba (IHGGP) , escritor e ex-secretário municipal da Educação; 2º plano: Danilo Melo - secretário municipal da Educação de Palmas (TO), poeta, membro da APAL e professor universitário, Francisco (Neco) Carvalho - escritor e advogado bem sucedido no DF, Diderot Mavignier - historiador, ativista cultural e membro do IHGGP, Franzé Ribeiro - funcionário da Secretaria Estadual de Fazenda e idealizador de instituição para tratamento de dependentes químicos (em construção), Sólima Genuína - escritora e servidora do SESI, Bernardo Silva - professor, jornalista, radialista e apresentador de TV, Reginaldo Costa - escritor, jornalista e servidor da Secretaria de Educação de Palmas e Paulo Martins - empresário e artista plástico; 3º plano: Jonas Carvalho - escritor, professor de Processo Penal, doutorando e advogado renomado, Israel Correia - escritor, compositor, venerável da Fraternidade Parnaibana, membro da APAL e ex-diretor do CMRV/UFPI em vários mandatos, Porfírio Carvalho - escritor, indigenista e diretor de fundação de defesa do índio, Wilton Porto - poeta, professor, jornalista, membro da APAL e do IHGGP, Alcenor Candeira Filho - professor da UFPI, procurador federal aposentado, poeta, escritor, membro da APAL e da APL e secretário municipal da Educação e Flamarion Mesquita - artista plástico e professor. Portanto, as "múmias" estão bem vivas e em plena atividade, graças a Deus.

Sob o acobertamento de Editorial – Editorial porque não assinada e, consequentemente, opinião da publicação -, a revista “Histórica” (outubro de 2009), órgão de divulgação do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, publicou matéria sob o título “O libertador de Cuba. O ajuste de contas da juventude transviada”, mesmo título do livro de Antônio de Pádua Marques Silva, em que faz associações preconceituosas sobre a existência do Movimento Social e Cultural Inovação, do qual tive a honra de ser um dos precursores.
Pra começo de conversa, o Movimento Social e Cultural Inovação é inatingível, por sua própria essência e por seus propósitos nobres. As pessoas que dele participaram, por amor à cidade, dedicaram suas vidas à defesa do bem comum, tarefa que demanda, acima de tudo coragem e desprendimento. Durante toda a existência, o Movimento cumpriu plenamente o seu papel, e bem acima das expectativas, dando origem ao Jornal Inovação, cuja luta principal, foi denunciar as falcatruas e a maldição do preconceito em todos os níveis, vícios que perduram até os dias atuais, como bem demonstra a matéria publicada na revista.
Mais de duas décadas se passaram, e, de lá pra cá, ninguém, nenhum grupo se atreveu a enfrentar as forças do obscurantismo, da forma como o fizemos, sem sermos subornados. A vinculação maldosa, feita por pessoas distantes daquele momento histórico, faz parte do estágio mental em que elas se encontram, presas à crueldade das suas próprias deficiências. Em pleno século XXI, vincular o Movimento Inovação a Cuba corresponde à nojeira dos velhos tempos, em que comunista merecia ser execrado em praça pública. Só que os destemidos de gabinete jamais apareceram para atirar a primeira pedra.
Em relação às “bebedeiras”, argumento de falsos moralistas, utilizado pelo autor para desmerecer as conquistas positivas do Movimento, afirmo, que para cada uma delas, havia um nascedouro de poesia, um compromisso com a sociedade. Por defendermos a igualdade de direitos, a plenitude democrática, as relações sociais de cordialidade, jamais se articulou a possibilidade do uso de instrumentos contrários a nossa natureza, e os objetivos do Movimento.
Outro grande erro: em nenhum momento assumimos a iniciativa de queima dos tapumes da Praça da Graça. “A batalha de paus, pedras e cacos de garrafas” fica por conta da imaginação fértil do articulista, que, infelizmente, se esqueceu de lembrar de que o ato de pesquisar não se realiza com preguiça. Gostaria de esclarecer, de uma vez por todas, que Inovação era um Grupo de gente inteligente, bem humorada, responsável, otimista, que amava a liberdade, contrária a qualquer tipo de submissão, avessa à mentira e à violência. Pessoalmente, jamais revidei as agressões físicas as quais me submeteram publicamente, por inúmeras vezes. A revolução que fizemos foi com sorriso, música e poesia, tendo como única arma o poder da palavra.
No livro “O grito de uma geração de idealistas”, de minha autoria, a ser lançado em breve, além de contar a empolgante história do jornal alternativo mais importante do estado do Piauí em todos os tempos, e das relações que estabeleceram os vínculos do Movimento com a cultura, a política e os movimentos populares, mostro a dimensão das pessoas e de todo o processo enfrentado pelos que viveram a época e souberam construir fatos importantes para a compreensão da realidade presente, diferente de quem se aboleta pelas salas com ar condicionado, mal informado, veiculando intrigas.
Como bem demonstra a vida material e espiritual, tudo se transforma com o passar do tempo, renovando energias. Nada permanece por toda vida. Conforme diria o célebre professor Benedicto Jonas Correia, que apesar da idade avançada estava em sintonia com os ideais do Movimento, apenas os imbecis se negam a enxergar a dinâmica das coisas e da própria existência. Atrelado ao que existe de mais atrasado na imprensa, a invencionice, o jornalista se deixa levar pelos ventos que conduzem ao retrocesso histórico. Nesse particular, recomenda-se abandonar os condados, aprender a se espelhar nos “mumificados” que se destacam em várias atividades humanas pelo Brasil a fora, ouvir os “mumificados” que permaneceram em Parnaíba - para identificá-los basta ler o artigo do poeta Wilton Porto -, e não ficar zanzando pelas praças e avenidas, perdido entre a dúvida e o preconceito, utilizando-se de inverdades criadas do universo reduzido de sua inteligência para perpetuar a mentira, oportunizar a preguiça, negando-se reconhecer a função básica do jornalismo que é a coleta de informações verdadeiras para trabalhar a notícia. Como se vê na matéria, o articulista não sabe, sequer, o tempo de duração do Movimento, que foi de dez anos, e, pelo visto, não leu a própria revista, em que, na contra-capa da mesma edição, destaca as palavras de Lozinha Bezerra: “Quase sempre os detalhes dos acontecimentos valorizam o trabalho de quem a escreve, haja vista que, o artifício literário do historiador seja fundamental no processo que desperta a atenção de quem lê ou de quem a vivenciou...”
E aí, ante tanta insegurança nas informações passadas pelo autor, vale a pena lembrar o que está à página 146 de “Encontros com o Insólito”, de Raymond Bernard: “Infeliz do homem que vaga ao longo dos dias, voltado para si mesmo, em sua própria contemplação, tendo por únicos guias suas desconcertantes quimeras, suas falsas esperanças, suas enganadoras certezas, a indulgente avaliação de si mesmo e sua dolorosa vaidade”.
Ainda quanto aos “mumificados”, de que fala o autor, chegaram a esse estágio certamente por estarem entre os indivíduos de qualidades espirituais compatíveis aos bons, que o tempo fez ricos em dignidade, e que por isso reagem em silêncio, porém, com a mesma indignação dos velhos tempos, ao ver oportunistas, corruptos e mentirosos se sobressaírem em sociedade cada vez mais desigual e, por isso, degradante.
Pergunto: qual a finalidade de se referir de forma negativa sobre o passado histórico de um Movimento que uniu gerações e alimentou sonhos de milhares de cidadãos? Impressiona a forma com que um Instituto Histórico, ao invés de aprofundar a pesquisa dos assuntos de interesse coletivo, se alia à informação vesga, para se referir, da maneira que ali está, a importante Movimento que aconteceu na cidade. Queiram ou não.
Esse jornalismo piegas é que mantém a categoria com a mentalidade de outrora, pobre em idéias, amarrada às oligarquias carcomidas pelo tempo, que insistem em permanecer inabaláveis nos hábitos, impregnadas em indivíduos mal informados, que se negam a conhecer e reconhecer a verdadeira História.
Por fim, para os que não sabem: quem viveu aquela bela história de renúncia tem muita coisa pra contar às próximas gerações, pros filhos, pros netos.
Portanto, um trago de tequila em desabono à insensatez.


domingo, 18 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


18 de abril

VIDAL FREITAS - A TOGA E A CÁTEDRA

Nesta quarta-feira, conheci a Dra. Myrtes Freitas, irmã de meu colega e amigo Vidal Freitas Filho, corregedora da Defensoria Pública do Estado do Piauí, que fora inspecionar o polo sediado na Comarca de Regeneração, cujo titular é o defensor público Ivanovick Pinheiro, que também exerce o magistério superior, com muita proficiência. É uma pessoa simpática, de agradável conversação e interessada em assuntos culturais. Instigada por mim, falou-me de seu pai, o honrado e saudoso magistrado Vidal Freitas. Colho no livro Sua Excelência o Egrégio, da autoria do professor A. Tito Filho, a informação de que ele nasceu em Oeiras em 1901, e de que fundou e orientou jornais, em que escrevia sobre diversos assuntos. Foi professor de português, latim, inglês e história. Fundador e diretor de colégios. Bacharelou-se na Faculdade de Direito do Recife. Exerceu a magistratura em diversas cidades do estado. Segundo a referida fonte, dominava o francês, o inglês, o alemão, o italiano e o espanhol, além de conhecer profundamente o latim. Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e à Academia Piauiense de Letras. Em 1971, aposentou-se como desembargador. Perguntei à Dra. Myrtes se era verdade certo caso interessante e um tanto anedótico de que ele fora protagonista. Contou-me o caso. O desembargador Vidal era um homem sério e honrado, e bom e justo. Quando era professor da velha Faculdade de Direito, havia um aluno que trabalhava na então toda poderosa Casa Inglesa, que era rígida com relação ao cumprimento de horário. Por isso, esse aluno, forçosamente, chegava quase sempre um pouco atrasado às aulas. O diretor da faculdade, por alguma razão que desconheço, passou a fiscalizar a frequência dos discípulos. E certo dia foi inspecionar a frequência dos alunos do desembargador. Disse haver notado que na lista de presença não constava a falta desse aluno, que ainda não chegara. Vidal Freitas respondeu que ele viria, que já estava chegando. De fato, naquele instante o aluno entrou na sala, e a sua presença ficou mantida. Esse aluno galgou importante cargo público e conservou pelo mestre Vidal uma amizade e gratidão, que perdurou até depois de sua morte. Sua gratidão era tanta, que um dia comentou para familiares de Vidal Freitas, quando ele já havia falecido, mesmo sabendo que ele fora batista praticante, assim como sua família, de que havia sonhado com o velho professor, e de que este lhe pedira a celebração de uma missa. A família, claro, sabia que as suas convicções religiosas jamais lhe permitiriam fazer esse tipo de solicitação, mas entendeu que a realização desse culto católico era uma maneira de esse homem demonstrar a sua mais profunda gratidão pelo desembargador Vidal Freitas, por quem nutria nobres e perenes sentimentos de reconhecimento e amizade pelos benefícios recebidos. E a missa foi celebrada, com a presença da Dra. Myrtes Freitas.

MOVIMENTO SOCIAL E CULTURAL INOVAÇÃO

Wilton Porto

Membros do Jornal Inovação, sob o cajueiro de Humberto de Campos, vendo-se, da esquerda para a direita, no 1º plano: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2º plano: Danilo Melo, Francisco (Neco) Carvalho, Diderot Mavignier, Franzé Ribeiro, Sólima Genuína, Bernardo Silva, Reginaldo Costa e Paulo Martins; 3º plano: Jonas Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Wilton Porto, Alcenor Candeira Filho e Flamarion Mesquita. Percebe-se, nesta fotografia, a felicidade dos retratados com esse reencontro, posto que vários moravam em outros estados e municípios. Hoje, a maioria já não reside em Parnaíba


O mesmo grupo do Jornal Inovação, em confraternização, no bar Recanto da Saudade, do saudoso Dom Augusto da Munguba

Entre os movimentos populares que surgiram em Parnaíba, o de maior repercussão – não há o que questionar – foi o Movimento Social e Cultural Inovação, que veio a lume pelas mentes de Reginaldo Ferreira da Costa e Francisco José de Souza Ribeiro e serviu de esteio para o advento do Jornal Inovação.
O poeta Elmar Carvalho, em depoimento publicado no livro “A Poesia Parnaibana” e também no Google (buscar Jornal Inovação CENAJUS: Jornal Inovação – Um Depoimento), diz na página 223 do livro, terceiro parágrafo: - Em seu primeiro número, já o jornal, em edição mimeografada, tipo apostila, delineava a sua linha de ação e editorial, quando denunciava a carência cultural de Parnaíba do final de 1977, ao dizer em sua primeira página: “Somos carentes de bibliotecas, centros culturais de nível mais elevado e tudo que a juventude sinta estar realmente segura, apoiada por órgãos municipais, sociedades filantrópicas e, outros órgãos, deveriam olhar mais pela cultura parnaibana”.
Eu gostaria que atentássemos para a data da circulação do primeiro número do Jornal Inovação: dezembro de 1977. O Movimento, oficializado em 15 de janeiro de 1978, teve o apoio temporário de alguns figurões do MDB a nível estadual, que fizeram oposição ao regime militar, mostrando-se simpáticos ao recém-criado Movimento e este se aliou “àquele partido político, embora o Grupo Inovação não se constituísse num movimento revolucionário, no sentido real da palavra”.
É o que analiso, hoje. Lutava-se por direitos, por espaço, por transformação, por melhoria para todos. Queria-se demonstrar a vontade de fazer, de ajudar a cidade, o Estado e o país desenvolverem-se. Onde quer que se esteja, pode-se emprestar a inteligência nas ações diárias.
No Movimento Social e Cultural Inovação encontravam-se estudiosos, intelectuais, adeptos de várias correntes literárias, gente que amava a liberdade. Com certeza, o reflexo da chamada “geração do silêncio” inquietava o subconsciente desses jovens. Quando despertou a manhã das mudanças, o nó na garganta fora aos poucos se desmanchando e muitos movimentos pipocaram em todo o Brasil. Entre eles, o movimento intelectual parnaibano. Justo isso! Quem sabe falar e está com a garganta travada, na hora que sente a retirada das amarras, faz o grito ecoar no ar. E quem nasceu com a capacidade da oratória e da escrita, discursa, escreve. Se for humanista quer fazer algo pelos sofridos, o que não significa usar dos conhecimentos para fazer baderda. É o caso dos integrantes do Grupo Inovação, que dispunha de sede bem aparelhada com ótimos livros. Ali, diariamente, chegava gente de todos os lugares. O papo rolava solto, em que se discutia de tudo, e estabeleciam-se boas amizades e se penetrava nas profundezas de uma cultura crítica e ansiada por todos. Tanto, que o jornal, apesar de mimeografado, era disputado – a cada edição – pela população de Parnaíba. Logo, ganhou espaço, circulou em outras cidades, embora para os opositores, fosse um jornal “perturbador” – o que gerava perseguições de integrantes do movimento. Lembro-me da ocasião em que o Reginaldo Costa teve que se esconder, sob ameaça de morte.
O jornal Inovação era sustentado pelos seus integrantes e simpatizantes. Essa situação dava condição para que o jornal levantasse críticas necessárias e de forma corajosa, criticas que dificultaram o apoio da classe empresarial e um dos meios para angariar verbas, foi a criação de um novo jornal, com linguajar jovial, cara de cidade litorânea, em que fotos de lindas mulheres curtindo praia, queimadas pelo sol eram estampadas: o “Litoral News”. Com ele se conseguiu dar suporte financeiro a Inovação por algum tempo.
No Inovação, onde todos vibravam ecletismo, qualquer assunto de relevância merecia avaliação e publicação. Ia do social ao religioso. Reginaldo Costa se empenhava para que o jornal saísse de forma plausível. O Movimento como um todo cumpriu o seu papel, no entanto, Reginaldo Costa era incansável, metódico e bom de caneta. Deu muita vida ao Grupo. Mas temos que reconhecer que havia uma equipe coesa, inteligente... E não são poucos os nomes que ainda hoje se destacam em vários campos da atividade humana neste país.
O jornal teve três fases. A primeira, com impressão mimeografada, apostilada. Ao mesmo tempo, tivemos o momento dos poetas que publicavam em mimeógrafos. A segunda, a impressão do jornal em off-set, formato tabloide. A terceira, em off-set, tamanho da grande imprensa, embora com menos páginas.
Como eu disse antes, não se contava com o apoio financeiro suficiente para continuar com as impressões do jornal. O jornal teve que fechar as suas portas. Tristeza. A mente do homem ainda se perde no corredor solitário do egoísmo, já que ele vive atolado no materialismo. Os homens de grandes sonhos nem sempre compactuam com os erros, com o individualismo. E às vezes têm que se sentar numa praça sem flores apenas para relembrar. Salva a certeza de que um dia eles receberão, ao som de muitos violinos, os louros desses sonhos e feitos em prol da humanidade.
O PARTIDO DOS SONHADORES É A VIDA HUMANA
Embora o MDB fosse simpatizante do Movimento, em termos de ideologia não tinha nada a ver com o trabalho desenvolvido pelo grupo do Inovação. O principal líder do MDB em Parnaíba, o prefeito João Batista da Silva, foi o mais criticado pelo jornal. A forma como esse prefeito administrava e o jeito como ele tratou a Praça da Graça, um dos mais belos cartões postais da cidade, mereceram e ferrenhas críticas. E o Inovação não deixou por menos. Por esse motivo, muitas pessoas acreditam que o Grupo ateou fogo nos tapumes da Praça da Graça. Engano.
O jornalista Bernardo Silva publicou artigo, no “Portal Proparnaiba”, onde mantém coluna, informando que a queima dos tapumes da Praça da Graça não partiu dos integrantes do Movimento. Lá estiveram integrantes do Inovação, mas chegaram após a praça estar em chamas. Vejamos o que diz: “Verdadeiramente nenhum integrante do Movimento Cultural e Social Inovação tocou fogo nos tapumes da Praça da Graça. O que ocorreu foi que o jornal do movimento fazia uma violenta oposição ao governo municipal do peemedebista Batista Silva, principalmente por ele haver mandado destruir a Praça da Graça original, cercando-a de madeirite. As obras não tiveram prosseguimento por falta de recursos. Também identificamos, naquele tempo, focos de roubalheira, corrupção, por parte de alguns assessores do prefeito, daí a razão da oposição do jornal Inovação.”
A última edição do jornal fora em janeiro/fevereiro de 1992. E apesar de Reginaldo Costa ter recebido muitos incentivos para trabalhar o retorno do jornal, ele não o fizera: estava desenvolvendo outras tarefas e a realidade para ele era outra. A motivação do passado não possuía a mesma chama no coração desse amigo. Ele estava escrevendo um livro sobre esse movimento. Mas como ele está morando em outro Estado, tem se calado sobre o assunto. Também tem suas decepções com a cultura da cidade. Respeitamos suas decisões.
O LIBERTADOR DE CUBA... ARTIGO NA REVISTA “HISTÓRICA” PERDIDA NA HISTÓRIA
O jornalista Antônio de Pádua Marques Silva, redator da Revista “HSTÓRICA”, do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba (IHGGP), publicou, da autoria dele, um artigo intitulado: “O Libertador de Cuba. O ajuste de contas da juventude transviada” (ver ano II – nº 3: outubro de 2009.
Inicia o artigo dizendo que “Os pretensos heróis da resistência à ditadura em Parnaíba tiveram como único grande feito atearem fogo nos tapumes da quase centenária Praça da Graça...”
Mais adiante, o jornalista revela: “Hoje, esta batalha de paus, pedras e cacos de garrafa , considerada pelos seus protagonistas como a Queda da Bastilha em Parnaíba em pleno Século XX, não chamaria atenção se acontecesse numa cidade mais politizada. Os revolucionários daquele final de agosto de 1979 se mumificaram...”
Constata-se que faltou uma pesquisa apurada da história, por parte do jornalista, a respeito do assunto. Sendo a revista de responsabilidade do IHGGP, em que ele é o Redator, tem que ter cuidado com isso. Conforme o Aurélio, “pretenso” significa suposto, fictício. É um adjetivo.
Apesar do silêncio imposto pelos militares. Onde o medo reinava nas ruas e os líderes da época sofriam perseguições, prisões e as mais horrendas torturas. Os que faziam o Inovação sentiram o reflexo daquele estado de coisas. Porém, eu não concordo quando o autor se refere ao Grupo como “Os pretensos heróis da resistência à ditadura em Parnaíba”. Nenhum integrante do Inovação estava lá com a intenção de ser herói. Nem havia um embate com os ditadores. Cumpria-se o papel de cidadão, que tem direito de defender os impostos pagos; de reclamar das mazelas a que se está atolado. Isso, o grupo o fez. Não eram ficções: o trabalho, as lutas em prol do bem-estar da população; as leituras que enriqueciam; os debates que influenciavam no senso crítico dos jovens. Tanto que, ir ao centro da cidade, e não passar pela sede do Movimento Social e Cultural Inovação, deixava uma lacuna em muita gente.
Ganhou-se respeito em todo o Piauí, pelo fato do “social” e “cultural” terem tido espaço para elevar o espírito de cada parnaibano e de muitos de fora, no tocante a compreender o seu papel na sociedade, a perceber que somos corresponsáveis pela administração púbica e, principalmente, que temos o direito de reclamar – os governantes são nossos funcionários.
Não acredito que alguém se achegou ao Grupo com o desejo de ser “um revolucionário”. Porém, ainda me apegando ao Aurélio Buarque, revolucionário também significa aquele que busca a transformação política, social e econômica. Nem sempre se precisa de armas para isso. O mais espetacular revolucionário que passou pela Terra foi Cristo. Ele dissera: “Se alguém bater na tua face direita, dê também a esquerda...” Pura harmonia. Com Ghandi também fora assim.
Ouço muita gente elogiar e dizer que o que é hoje, deve ao Movimento Social e Cultural Inovação. Isso demonstra que o Movimento marcou história e não precisou de “paus, pedras e cacos de garrafa”.
Não se conseguiu apenas “confusão”. E se tinha os momentos de lazer, em que se tomava uma cerveja, muito mais se tinha em ações planejadas com coerência e colocadas em prática com muita seriedade. Senão, o Movimento não teria alcançado tanta repercussão, a ponto do poeta Elmar Carvalho, respeitado em todo o Piauí, dizer: “Se alguém, algum dia, escrever um ensaio isento e imparcial sobre a cultura parnaibana, não poderá olvidar, jamais, o Jornal Inovação”.
Atentemo-nos para “ensaio isento e imparcial”. Pádua diz: “Os revolucionários daquele final de agosto de 1979 se mumificaram”. O sentido que o jornalista imprime é o da apatia: indiferença; falta de energia; falta de sensibilidade.
A colocação do amigo Pádua perdeu-se na infelicidade. Todos os que tiveram uma ligação mais direta com o Jornal Inovação são cidadãos ativos na sociedade. Prestam serviços de relevância, onde quer que estejam. Não importando a idade. O Danilo Melo desenvolve um trabalho de tanta envergadura, em Palmas, como Secretário de Educação e Cultura, que se lá muda o prefeito, ele continua. Nenhum prefeito quer se desfazer de uma administração que é modelo para o Brasil. Lá estão Reginaldo Costa e Flamarion Mesquita, integrantes também do Jornal Inovação, colaborando nessa administração exemplar.
Jonas Carvalho é jurista respeitado, em Brasília. O Francisco (Neco) realiza trabalho idêntico ao irmão Jonas. João Maria Madeira Basto – outro que também mora em Brasília – octogenário que demonstra lucidez mais que muitos jovens, escrevendo com elegância impressionante. Ainda por lá, temos a poetisa Ednólia Fontenele, que, à distância, luta para o engrandecimento de nossa cultura: recentemente se empenha em prol da melhoria do Jardim dos Poetas. Em Goiânia, Paulo Martins, continua trabalhando com inteligência e não menos criatividade, e, em Santa Catarina, José Luiz Fideles se destaca em empresa privada da construção civil. Existe trabalho mais dignificante do que o do indigianista José Porfírio, que o faz de forma progressista? Preciso falar dos que moram aqui?! – Alcenor Candeira Filho, Israel Correia, Bernardo Silva, Diderot Mavignier, Elmar Carvalho, Canindé Correia, Vicente de Paulo Araújo, Vera Coutinho, Murilo Castro, Inaldo Pereira, José de Meireles Neto, Socorro Cysne, Fernando Holanda, Bartolomeu Martins, Franze Ribeiro, Vanda Souza, Airton Menezes, José da Guia Marques e tantos outros conhecidos nossos?! Seria injusto considerar “múmias”, tanta gente correta, autêntica e em plena atividade?
Jornalista Pádua gosta de polêmica, no intuito de se autopromover, como se as coisas dependessem da vontade de uma única pessoa. Foi infeliz. E temos o compromisso de resgatar a verdade. Isto é fazer HISTÓRIA.

sábado, 17 de abril de 2010

NOTÍCIA CULTURAL

Estritora e historiadora Clea Rezende Neves de Melo, presidente da ACALPI

ACALPI PROMOVE SARAU “LÍTERO-ARTÍSTICO-CULTURAL”

Esteve hoje na Academia Piauiense de Letras a professora Clea Rezende Neves de Melo, com a missão de convidar os acadêmicos para o sarau “LÍTERO-ARTÍSTICO-CULTURAL”, que acontecerá no dia 24 do corrente mês, às 19 horas, no Auditório Osíris Neves de Melo, situado na Praça de Eventos (antiga estação ferroviária), em Piripiri. Participou da reunião ordinária da entidade, e pediu o apoio de todos para o evento, ao tempo em que explicou que é muito difícil desenvolver atividades culturais em cidades interioranas. Na solenidade, promovida pela Academia de Ciências, Artes e Letras de Piripiri – ACALPI, atualmente presidida por ela, serão outorgadas comendas a personalidades que se destacaram na história do município, e também será realizada a exposição “Transição”, do artista plástico e acadêmico Valdeci Freitas. O evento visa a comemorar o centenário de emancipação política de Piripiri. Fazia parte da comitiva o secretário da entidade, o intelectual Marcos Aurélio Alves. A escritora, poetisa e pesquisadora tem vários livros publicados, entre os quais citamos os seguintes: Piripiri – à sombra de Buganvílias e Madressilvas, Osíris Neves de Melo – Eco de Momentos Vividos, Velhos Conterrâneos Luminosos e a antologia Poetas de Piripiri, que ela organizou e de que é participante. É a pessoa que mais vem divulgando a cultura, a literatura e a memória histórica do município. No prefácio a Velhos Conterrâneos Luminosos, assinalou o poeta Elmar Carvalho: “(…) é quase inacreditável como essa escritora e pesquisadora, morando distante de seu torrão natal (…) conseguiu encontrar tempo, meios e motivação para realizar essa portentosa obra de pesquisa e remição histórica, especialmente se levarmos em conta a escassez de fontes, ademais localizadas em lugares distantes, obscuros e quase inacessíveis”. Essas palavras, escritas em 1994, ainda hoje são válidas e atuais, pois a historiadora e escritora Clea Rezende Neves de Melo continua residindo em Brasília, mas permanece incansável em sua luta em prol da divulgação das manifestações artísticas e culturais de Piripiri, bem como da preservação de sua memória histórica e de seu patrimônio arquitetônico.

SELETA PIAUIENSE


COGITO

Torquato Neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

Antônio Júlio Lopes Caribé, Des. Tomaz Gomes Campelo e Aci Campelo



16 de abril

CARIBÉ, O BRANCO MAIS NEGRO DO BRASIL

Participei, ontem à noite, do lançamento do livro Guia Turístico Afro-Cultural da Região Meio Norte, da autoria do professor, pesquisador e escritor Antônio Júlio Lopes Caribé. Estavam presentes familiares, amigos, artistas e escritores, entre os quais Tomaz Gomes Campelo, Aci Campelo, Ruimar Batista da Costa, Rosinha Amorim e José Fortes Filho. A apresentação foi feita pelo escritor e jornalista Zózimo Tavares, que se desincumbiu da missão com a competência que lhe é peculiar, abordando os principais aspectos do conteúdo do livro, de forma breve, mas jamais superficial, com o poder de síntese, que lhe é caraterístico, fazendo lembrar, por esse aspecto e também por sua capacidade de observação e análise, o seu colega de APL e de jornalismo Carlos Castelo Branco. Depois, o autor fez a sua explanação, e com a generosidade, que lhe é inerente, expressou os seus agradecimentos às pessoas que, de uma forma ou de outra, lhe ajudaram a conceber e publicar o livro. Livro completo, naquilo a que se propôs, tem uma bela orelha, escrita pelo contista e professor da UFPI Airton Sampaio, da qual julgo de bom alvitre extrair o seguinte: “Estruturado como Guia, o livro não deixa, no entanto, de trazer textos descritivo-dissertativos, em forma de artigos, sobre os mais diversos temas, entre os quais avultam, a meu ver, o Carnaval, a Literatura e o Cinema”. O livro é um grande inventário afro-cultural do Piauí e do Maranhão, e, portanto, trata dos principais eventos, arrola as principais casas e instituições ligadas aos temas que aborda, e se reporta às lendas, folguedos, danças, literatura, religiosidade e ao folclore em geral desses dois estados, citando as principais personalidades dessas manifestações culturais. Facultada a palavra, resolvi prestar um breve depoimento. Inicialmente, fiz referência à sintética e eficiente apresentação do Zózimo, e em cretino trocadilho disse que ele não nos encheu o saco e nem encheu lingüiça, e que não encheu o saco exatamente por não ter enchido lingüiça, ou seja, por não ter entrado em minudências e digressões enfadonhas, com a finalidade apenas de delongar a fala, como sói acontecer em muitos e quilométricos discursos. Expliquei que conheço o Caribé há muitos anos, desde o final dos anos 80, quando presidi a União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI. Com o seu apoio e de outros valorosos companheiros, lutei para que a Literatura Piauiense fosse inserida em dispositivo da Constituição Estadual, cuja campanha terminou vitoriosa, com o respaldo decisivo do deputado constituinte Humberto Reis da Silveira. Eu, o Caribé e outros membros da UBE-PI participamos de várias infucas lítero-culturais no interior do estado, em cidades como Oeiras, Amarante e Luzilândia. Na bela e bucólica Amarante, estávamos passeando na beira do cais, com a presença casual de bela ninfa, aliás mais ninfeta que ninfa, quando vimos cair do alto do passeio umas pétalas douradas. Era um velho fauno, companheiro nosso, destemido e aguerrido conquistador, que tentava angariar a simpatia da moça. Claro que o seu esforço romântico resultou infrutífero, mas valeu a pena a beleza daquela improvisada chuva de belas pétalas silvestres. De longo tempo, conheço-o como escritor, umbandista e amante da religiosidade, da cultura, da arte e da beleza negra, o que restou provado com o seu livro. Por isso mesmo disse, e tenho repetido isso muitas vezes, que o Caribé, branco dos olhos azuis e casado com uma mulher branca e loura, depois da morte de Vinícius de Moraes, tornou-se o branco mais negro do Brasil.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Se bem pesado não dava
sequer meio-quilo. Pai de
Cotinha, mulher bonita e
namoradeira nos escuros
do velho Cine-Teatro Éden – paraíso
de estripulias estrambóticas e eróticas.
O pequenino Meio-Quilo, de lanterna em
punho, a roubar Cotinha dos braços
do namorado, era um filme
à parte.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

Belinha, tirando onda de dançarina

Belinha, arisca e desconfiada, observa o "trabalho" de Anita


Anita, a prima-dona e dona do pedaço

14 de abril

BELINHA

Pedi que a Elmara Cristina, que é a primeira dona da prima-dona Anita, me mandasse, por e-mail, fotos da Belinha e da Anita, nossas duas mimosas cadelinhas, mas quem terminou por enviá-las foi o João Miguel. Isto porque decidi, hoje, escrever sobre Belinha, coisa que já venho adiando há algum tempo, por razões diversas. Essa cachorrinha chegou a nossa casa faz alguns anos. Não podia ouvir fala masculina que ficava nervosa, se agachando, se escondendo debaixo dos móveis. Dizíamos que era traumatizada. Depois, soubemos que um homem, que fora seu dono, a maltratava. Foi, em seguida, para uma outra casa, onde não era muito bem cuidada, embora não sofresse maus tratos, até que nos foi dada. No início, a Anita, que veio morar conosco desde recém nascida, e que desde então foi sempre bem-amada, travou uma verdadeira “guerra” contra a Belinha, apesar de que esta, conquanto também pequena, fosse bem maior que ela; suponho que por ciúme da sua família humana e porque achasse que a intrusa invadira seu território. Mas Belinha, com humildade e paciência, evitava confrontos, e se afastava de perto da mandona e madona Anita. Parecia provida de uma verdadeira inteligência emocional, que lhe impulsionava para a diplomacia e para a resistência pacífica, talvez temerosa de novo abandono ou rejeição. Sendo a Anita menor, mais graciosa e a “dona do pedaço”, já que era a pioneira, Belinha passou a nos cativar e a nos atrair a atenção caminhando e dançando sobre as duas patinhas traseiras. Com efeito, terminou por conquistar todos da casa. Mas, um tanto tímida e esquiva, muitas vezes procurava os lugares esconsos, e se retraía ante a Anita, que sempre foi mais ousada e voluntariosa, já que sempre foi o mimo da casa, talvez por ser a “primogênita” e por causa de sua graciosidade miúda. Não resta dúvida, Anita sempre foi a prima-dona, sempre foi a predileta. Mas Belinha foi galgando posições, angariando simpatias, e ao que tudo indica foi se libertando de seus traumas, embora se mantendo humilde e cordata com a outra cadela. A Pantica (Francisca Maria) passou a ser a sua “madrinha”, cuidando dela com desvelo e carinho, mas também a repreendendo, em certos momentos, como se estivesse lidando com um ser humano, coisa que a cachorrinha quase o é, mas sem os defeitos dos humanos. Houve correspondência nesse apego e afetividade. Contudo, tinha seu brio e seu amor próprio, e, certa vez em que a Anita foi muito abusada, reagiu, como para mostrar que sabia se defender e defender os seus direitos, apesar de não gostar de briga, futrica e intriga. Com o passar do tempo, Anita, conquanto não morresse de amor por ela, foi deixando de implicar; passou a tolerá-la, e ambas passaram a ter uma coexistência pacífica. Recentemente, Anita, que tinha uma hérnia há algum tempo, passou a ter o seu problema agravado, e um dia sentiu fortes dores, pois gania/gritava de dor. Belinha, bela e boa cadelinha, foi solidária, e correu desesperada, subindo os degraus em desabalada carreira, para latir à porta do quarto onde estava minha mulher; latiu fortemente, até a Fátima abrir a porta. Em seguida, desceu as escadas, como chamando minha mulher para socorrer a Anita. Somente sossegou quando a Fátima foi olhar o que estava ocorrendo. Felizmente, a cachorrinha foi operada pela médica Tita, e hoje está recuperada. Essas duas cachorrinhas, fofas e graciosas, de biografias e temperamentos tão díspares, como que se complementam e completam a plenitude de nossa família, pois nos amam e por nós são amadas.

A CASA NO TEMPO

Elmar Carvalho


A casa vive em mim
com os seus grandes medos
e grandes sobressaltos
com os seus porões
e os seus alçapões cheios de ratos
e gradeados por grandes teias de aranha.
A casa vive em mim
com seus insetos nojentos
e com suas aranhas
desenhando circunlóquios
através das circunferências das teias
repletas de arabescos e rococós.
A casa vive em mim.

Vive em mim
com seus gemidos
de fantasmas que
arrastam correntes
por entre ais doloridos.
Vive em mim
com suas lamentações de suicidas
que gemem e gemem.
Vive em mim
com os ruídos de passos misteriosos
com suas portas e
janelas que se abrem
e fecham por mãos invisíveis.
Vive em mim
com os ruídos cadenciados
de botas que passam
passam no limiar
do grande mistério
entre o ser e o
não ser.
A casa é um navio fantasma
que navega no tempo e na memória
com seus pios de corujas
e seus arrepios de
esvoaçantes morcegos e
esgarçantes rasga-mortalhas.

Ai, casa dolorosa
de infinitas recordações
do não acontecido e
do não vivido.
Casa que não existiu
mas que permanece de pé
em minha lembrança
com seus escombros
com tuas teias de aranhas
com seus lodos desbotados
e com suas heras que se fecham
como dedos, tentáculos ou raízes
para que ela permaneça para sempre
com seus sustos, com suas angústias
e seus medos.
A casa sempre persistirá
nas músicas passionais de algum boteco
criando ressonâncias que repercutem
insistentemente como eco.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS

Elmar Carvalho


A DANÇA DOS FILHOTES

Havia filhotes de diferentes animais no recinto. Assim, havia filhotes de leão, de gato, de onça, de raposa, de capivara, de pato... Alguns se moviam com dificuldade, outros com mais desenvoltura. Não observei nenhuma animosidade entre eles, de sorte que os pequenos cães se entendiam com os gatinhos, e estes com os ratos. Tudo em perfeita harmonia, como se houvesse uma teia de solidariedade entre todos eles. Começaram a executar uma espécie de dança circular no salão. Em dado momento, fosse para quebrar o tédio, fosse para romper com a minha falta de ação, mas acho que mais para interagir de forma brincalhona, toquei com os pés um filhote de mamífero que se movia com alguma dificuldade. O animalejo caiu de lado, ele que já vinha praticamente se arrastando. Imediatamente, um grande pato, que mais parecia um ganso, tal a sua corpulência, voltou-se em fúria contra mim, em um grande salto, ou voo, em que atingiu a altura de minha cabeça. Irado, pronunciou estas palavras ameaçadoras: - Eu furo teus olhos. Não esperava por essa reação, que achei excessiva, uma vez que eu apenas tocara de leve o filhote, que aliás não era seu parente, e de maneira nenhuma o maltratara. Até pensei que eu confundira grasnar com palavras, e que a ameaça não passava de produto de minha imaginação. Todavia, vendo o aspecto irado do pato, suas feições aguçadas contra mim, seu afiado bico de punhal apontado contra mim, o salto repentino em minha direção, tive a certeza de que ele efetivamente ameaçara furar-me os olhos. Achei prudente deixar o recinto.

domingo, 11 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

Batista Rios e Elmar Carvalho

11 de abril

NO REINO DO SOBRENATURAL

Fui à casa de meu colega e amigo João Batista Rios. Pedi-lhe que me contasse uma história que ele me havia contado há mais de seis anos, quando ele era juiz de Bertolínia, e eu, de Ribeiro Gonçalves. Muitas vezes viajamos, à noite, no mesmo velho e desconfortável ônibus, para as nossas longínquas Comarcas. De madrugada ele descia na sua cidade e eu continuava em minha desgastante odisséia madrugada friorenta a dentro. Repetiu a história da mesma forma como eu guardei em minha memória. Certo dia do início da década de 1990, quando ele era servidor federal da Previdência Social e advogado, por volta de 13:30 horas, estacionou seu carro na frente do Colégio das Irmãs, onde deixou sua filha, e seguiu a pé em direção a seu escritório, situado no Palácio do Comércio. Na calçada da antiga Escola Técnica Federal, na frente da EMBRATEL, avistou o padre Geraldo Vale, que fora capelão da Polícia Militar do Piauí e fora seu diretor espiritual no grupo da Renovação Carismática da Escola Dom Barreto. Quando o padre o avistou, em gesto largo e de muita expansividade, abriu os braços, como se estivesse se preparando para um grande abraço, e sorrindo o chamou de “meu advogado Dr. Batista Rios”, como costumava saudá-lo. Conversaram no máximo dois minutos. Despediram-se e Batista seguiu para o seu escritório. Um pouco adiante, voltou-se e viu o padre afastar-se no ensolarado início de tarde teresinense. O meu colega admirava esse capelão, pelo que ele tinha de ungido, de santidade, de homem efetivamente de Deus. Fazia tempos que não o via, mas sempre pensava nele, sempre desejando revê-lo, uma vez que passara a integrar o grupo da Renovação Carismática do Cristo Rei, deixando o que era dirigido pelo padre Geraldo. No caminho, foi pensando em como o achara rejuvenescido, quase transfigurado em sua expressão de alegria, de paz, de beatitude, com feição e expressões angelicais. De tarde, ao deixar o seu escritório, foi pegar uma revista na banca do Solon, na praça Pedro II. Nessa banca, encontrou Célia, que fora sua colega do antigo INAMPS e do grupo carismático do Dom Barreto. Com muita alegria lhe informou que havia encontrado, antes das duas horas da tarde, o padre Geraldo. Célia, incrédula e sorrindo, disse-lhe que ele estava a fazer mais uma de suas brincadeiras, pois tal fato jamais poderia ter acontecido, posto que o capelão havia falecido há mais de um ano. Batista retrucou-lhe que ela é quem estava a fazer gracejo, e foi embora. No dia seguinte, quando o magistrado Batista Rios, como costumeiramente fazia, foi assistir a uma missa na igreja de São Benedito, encontrou, logo na entrada do templo, a senhora Ivani, pessoa de muita devoção e de sua estima. Disse-lhe da alegria de haver encontrado, no dia anterior, o padre Geraldo Vale. Dona Ivani, algo perplexa, com as pupilas um tanto dilatadas, respondeu-lhe: - Meu filho, padre Geraldo já faleceu, faz mais de ano... Batista Rios, católico da mais lídima devoção, homem íntegro, magistrado honrado, não sabe a explicação definitiva para o fato, mas somente que ele aconteceu, da maneira que me narrou. Talvez o seu desejo em rever o sacerdote tenha sido tão forte, que materializou a imagem dele, que estava incrustada indelevelmente em sua mente; talvez o padre tenha obtido permissão para lhe aparecer uma última vez, para que Batista pudesse dar o seu testemunho de que há mais coisas no céu do que apenas aviões de carreira, como asseverou célebre ironista.

sábado, 10 de abril de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

Vista panorâmica de José de Freitas, vendo-se a igreja de N. S. do Livramento

Velho trampolim do açude Pitombeira

9 de abril

PADRE DEUSDETE E O SANTOS DE LIVRAMENTO

Logo ao iniciar a caminhada, deparei-me com o colega Carlos Dias, que vinha em sentido contrário. Fiz meia-volta e o acompanhei. Envergava ele, que é natural do interior de São Paulo, uma camisa do Santos, que voltou à moda com os seus meninos alegres, moleques e bons de bola. Perguntou-me se eu torcia pelo Santos. Em resposta, contei-lhe o seguinte: quando eu tinha de treze para catorze anos de idade, morei na bela e bucólica cidade de José de Freitas, durante um ano. Foi um período muito feliz de minha vida. Quase todo dia, pela manhã, saía a passear, com o Carlos de dona Irá e o Itamar, e mais algum de meus irmãos ou outro garoto da vizinhança. Às vezes, alguns de meus colegas iam pegar vim-vim, com o uso de visgo colocado em uma haste posta na gaiola do “chama”; outras vezes, íamos escalar o morro do Fidié, que na época não era conhecido por esse nome, mas simplesmente como morro, que hoje preferiria chamar de Morro do Livramento, em homenagem ao nome antigo da localidade e a sua padroeira; muitas vezes nosso destino era o açude Pitombeira, de onde pulávamos do velho trampolim. Também banhávamos no olho d' água, perto do cabaré Jumento Velho, lá para as bandas do mercado público. Invariavelmente, à tarde, ia jogar futebol num campinho que havia na frente da casa do grande marceneiro Zezé Barros, que também era um peladeiro. Esse campo ficava dentro de uma quinta, tinha terreno arenoso, e era rodeado por belas e frondosas árvores, entre as quais uma imensa mangueira. Gostava muito desse campo, pois, sendo eu goleiro, a areia macia me possibilitava enfeitar as defesas, projetando-me no espaço, quase a levitar, na construção de belas pontes, que hoje classificaria de estaiadas. Certa vez, jogando na periferia da cidade, e sendo então pequeno e franzino, alcei um verdadeiro voo, para cair com a bola encaixada em meu peito. Essa estripulia acrobática arrancou delirantes aplausos de um torcedor, que gritava que eu parecia um “passarinzim”. Tempos depois esse terreno onde jogávamos foi comprado pela família do Pedro e do João Rocha, e as peladas foram proibidas. Por isso, certa tarde, em que estávamos batendo bola, perto da casa da família Santana, fomos avistados pelo padre Deusdete Craveiro de Melo, que era meu professor de Português, no segundo ano ginasial, e diretor do Colégio Antônio Freitas. O padre, de dentro do seu famoso fusca, me perguntou a razão de estarmos jogando na rua. Expliquei-lhe que o nosso campo fora fechado. Ele, então, sugeriu que fizéssemos outro, na frente do cemitério velho, conhecido por cemitério dos ricos, como se a morte fizesse algum tipo de distinção social, e acrescentou que nos daria uma bola de couro, as traves, apito, e os tornos para marcação do campo. Liderei os garotos da vizinhança e fizemos o campo. O padre cumpriu a promessa, inclusive mandando fincar as traves e os tornos. Diante disso, fiz uma carta ao Armazém Paraíba, narrando esses fatos, e pedi uma equipe de um time de futebol. Um ou dois meses depois, quando eu já perdia a esperança, a empresa mandou deixar a farda do Santos em minha casa. Depois, encetei uma campanha para a aquisição dos calções, o que também deu certo. Pouco depois, minha família retornou a Campo Maior, mas tenho notícia segura, através de meu amigo Francisco Costal, josé-de-freitense, fiscal do Estado e radialista, de que esse campo ficou em atividade durante muitos anos. De modo que, respondendo à pergunta do magistrado Carlos Dias, paulista e torcedor do Santos, posso dizer que sou santista desde menino, desde que joguei num time chamado Santos, que ajudei a criar, na aprazível e querida cidade de José de Freitas, outrora Livramento.