quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



16 de fevereiro

ADOLESCENTES & ABORRECENTES

Elmar Carvalho

Lembrei-me hoje de um conversa que tive com o Ataíde Coelho, fiscal da Fazenda Estadual, durante caminhada no calçadão direito da beira do Poti. Contou-me ele que uma médica da sua amizade havia dito que os filhos, quando bebês, são tão fofos que a pessoa sente vontade de comê-los, creio que pela beleza e pelo cheiro dos pimpolhos, mas que, quando se tornam adolescentes e aborrecentes, a pessoa se arrepende de efetiva e literalmente não os haver comido. Isso me fez lembrar a mitologia greco-romana, em que Saturno devorava os próprios filhos. Também dizem que a venenosíssima cascavel se arrasta a parir, e depois faz o caminho inverso a comer os filhotes. Esse fato, se verdadeiro, seria bom para os outros animais, porquanto o número de animais peçonhentos seria bem menor. O Vinicius de Moraes, que se dizia um homem desprovido de arestas, proclamou, a versejar, que “... Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-lo?” Na dúvida, o poetinha, no maior e melhor sentido do diminutivo, preferiu ter a sua cota, pagando o seu tributo à reprodução da espécie.

De qualquer sorte, a problemática da adolescência sempre existiu, só que hoje, com o uso de drogas e com os jovens ingerindo álcool cada vez mais precocemente, parece que os conflitos entre adolescentes e pais se agravaram de forma acentuada. Li, tempos atrás, que o filósofo Sócrates, nascido alguns séculos antes de Cristo, já se inquietava com a rebeldia dos adolescentes. O fato é que a explosão hormonal contribui para que esses jovens se tornem mais desabridos e contestadores, desrespeitando normas, convenções, tabus e os mais velhos, inclusive pais e avós. É como se a geração mais nova, para se firmar, precisasse fustigar a mais velha.

Contudo, é comum vermos os jovens permanecendo por mais tempo a morar no lar paterno, onde têm pão, teto, vestuário, conforto, sem nenhuma despesa e preocupação. Alguns ainda querem constituir família a morar na casa dos pais, com estes sendo os responsáveis pelo sustento dos netos e da nora ou genro, o que afronta o aforismo antigo que dizia que “quem casa quer casa”. Como se tudo isso fosse pouco, vemos garotas, sem nenhum preparo psicológico e financeiro, tendo filhos cada vez mais precocemente, e forçando os pais a criarem os netos, quando eles mais precisam de sossego, tempo e dinheiro para o enfrentamento das mazelas que a velhice impõe. Se Cícero ainda fosse vivo, certamente continuaria a bradar, censurando: Ó tempos! Ó costumes!

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