sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

UMA ESTÁTUA PARA O POETA DO MEARIM


Charge: Fernando Castro

PÁDUA SANTOS *

         HUBERTO ROHDEN, filósofo e educador brasileiro, doutor em Ciências, Filosofia e Teologia em universidades da Europa, em seu livro “Filosofia Contemporânea – O Drama Milenar do Homem em Busca da Verdade Integral” - Editora Martin Claret, 2008, informa que quando foi inaugurado, em 1882, um monumento em memória de Spinoza, o grande filósofo da liberdade, Ernest Renan, ao fazer o seu discurso oficial, finalizou dizendo: “Maldição sobre o transeunte que insultar esta suave cabeça pensativa! Será punido como todas as almas vulgares são punidas – pela própria vulgaridade e pela incapacidade de conhecer o que é divino. Este homem, do seu bloco de granito, apontará a todos o caminho da bem-aventurança por ele encontrado; e, por todos os tempos, o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: ‘ Eis o homem que teve a mais profunda visão de Deus!’”
         Esta oração foi proferida em Haia, onde o filósofo viveu algum tempo e também onde Maurício de Nassau, o ordenador da famosa invasão holandesa no Maranhão - 1641/1644 - construiu uma aprazível casa que mais tarde virou o famoso Museu Mauristshuis. Foi ali onde aconteceu, em 1907, a célebre Conferência de Paz na qual o brilhante advogado e jurista Rui Barbosa defendeu, com galhardia, o princípio da igualdade jurídica entre as nações, fato que lhe rendera o apelido de “Águia de Haia”.
          No meu caso, sendo advogado como foi Rui, mas não sendo jurista como aquele famoso gênio baiano, defendo neste escrito singelo não a igualdade entre as nações, mas o direito de ser construído um monumento novo no Maranhão. Que não seja um monumento venerado e comentado pelos filósofos do mundo inteiro, como aquele de Haia, em memória do filósofo Spinoza e que fora erigido depois de sua morte; mas que seja uma construção, edificada em Vitória do Mearim, destinada a homenagear, em vida, o talentoso poeta, contista, cronista e educador Arimatea Coêlho. E justifico minha proposta:
        O Maranhão, principalmente sua capital, São Luís, talvez por ter sido berço de Francisco Sotero dos Reis, também educador e homem de letras, autor da primeira gramática do Brasil, destacou-se em um passado glorioso ao ponto de construir uma praça – a famosa Praça do Pantheon – para expor, em bronze, a imagem dos seus heróis, poetas e escritores.
  Estes vultos, por longos tempos admirados, saíram dos seus pedestais, a pedido da Academia Maranhense de Letras, por temor dos constantes ataques de vândalos que chegaram ao cume do desrespeito à cultura roubando a imagem de um deles, do Humberto de Campos, afamado memorialista, atualmente destacado em majestoso memorial localizado na Academia Parnaibana de Letras, na cidade Parnaíba, no Estado do Piauí. Mas estas celebridades, um dia, haverão de voltar aos seus lugares e a Ilha continuará a mostrar aos seus visitantes do presente aquelas respeitadas figuras que enriqueceram o seu passado.
          Em outras cidades, no interior do estado, não é custoso se encontrar, no centro de uma praça movimentada ou mesmo no canto de um jardim esquecido, a solitária imagem de um poeta romântico que um dia falou, para o Maranhão e para mundo, dos seus amores e de suas saudades. Em Vitória do Mearim, mesmo sendo a terra onde nasceu Trajano Galvão de Carvalho, não se vê, nem dele nem de qualquer outro filho da terra, qualquer efígie capaz de perpetuar a memória daqueles que engrandeceram o seu passado ou dos que hoje enaltecem o seu presente.
          Lourival José Coêlho, que antes de ser prefeito fora músico em sua terra, teve a larga visão de imortalizar, há mais de um quarto de século atrás, o seu conterrâneo flautista e solitário poeta - o primeiro a defender a liberdade dos negros cativos - criando uma biblioteca com o seu nome, mas esta, assim como a famosa da Alexandria, uma das maiores do mundo antigo, florescida no Século III a.C., sob o patrocínio da Dinastia Ptolomaica e destruída por um incêndio na Idade Média, também desapareceu, embuçada na fumaça da aversão à cultura, sepultada nas cinzas da fogueira da ignorância.
            Por força desta omissão é que me vem à lembrança o vitorioso vitoriense Arimatea Coêlho. Merece ele uma estátua por ser poeta e contista premiado; cronista de mancheia, às vezes irreverente ao ponto de responder, usando as palavras de Otto Lara Resende, se um dia lhe perguntassem se gostaria de tamanha homenagem post mortem: “De que nos serve a posteridade, se não seremos contemporâneos dela?”.
         E se alguém resolver perguntar: “porque não homenagear primeiro o Trajano Galvão, já que a primeira tentativa não vingou?” Respondo: porque seus compadres e amigos já demonstraram falta de garra para barrar as forças destruidoras. E mais: homenageando o Arimatea, far-se-á, de uma só vez, a homenagem dos dois. Afinal, são filhos da mesma gleba, ambos de uma mesma academia - um patrono do outro.
          Acatada minha ousada e justa ideia, e se por minha condição de compadre, seja eu o escolhido para o discurso de inauguração, parodiarei, em parte, o filósofo Renan, para dizer na ocasião:
Maldição sobre o transeunte que insultar esta suave cabeça do legítimo escritor do Mearim. O poeta que além de cronista e educador soube, como nenhum outro até agora, descrever e colocar no papel, para conhecimento dos leitores do presente e do futuro, interessantes fatos e lendas de sua terra. E neste ponto lembrarei, de novo, o que disse o escritor e professor de São João Del Rei em bem elaborado texto denominado “Vista Cansada”, publicado no jornal Folha de São Paulo, edição de 23 de fevereiro de 1992: “O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê.”.
É assim o Arimatea. Além de poeta laureado em outros concursos, é o grande vencedor do Prêmio Gonçalves Dias de Literatura de 2009, com o seu excelente livro de contos “A Manguda de Flores”, trabalho de fôlego onde viu, com os olhos de exímio ficcionista que facilmente sabe dosar a poesia à prosa e o fictício ao real, exatamente o que os outros não conseguiram ver, porque lhe faltaram olhos de verdadeiro contista ou simplesmente por falta de habilidade.
E, sempre parodiando o influenciador filósofo Renan, diria para encerrar o meu pronunciamento na imaginária, porém possível inauguração:
Este homem, do seu bloco de granito, apontará a todos o caminho da boa literatura por ele encontrado; e, por todos os tempos, o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: Eis aqui o filho de Vitória que mais vitórias conseguiu no difícil campo das belas-letras.”
E porque falei em Gonçalves Dias, mais um conselho, se é que a justa homenagem venha a se concretizar: não se construa estátua sedestre como a do historiador João Lisboa, no Largo do Carmo, no centro velho de São Luís, porque os poetas não gostam de ficar sentados eternamente. Faça-se de forma pedestre e na altura da palmeira do cantor dos Timbiras, como se vê no Largo dos Amores, para que assim se possa dificultar a nefasta ação dos saqueadores da Praça do Pantheon.

* Presidente da Academia Parnaibana de Letras – APAL

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