terça-feira, 31 de maio de 2011

Não está chovendo lá fora


CUNHA E SILVA FILHO


Olho da janela do meu edifício e lá está o sol límpido de final de maio me convidando pra uma caminhada. Talvez eu siga a tentação da luz solar que me arrasta pelo pensamento a sair de casa. Gosto de casa tanto quanto gosto da rua. Só que em casa há o conforto, a proteção, o aparente abrigo de quem se imagina seguro. Nada, porém, é seguro neste mundo, pelo menos quando se pensa naquilo tudo que nos cerca vindo da rua, da cidade, do país, do mundo. As vozes são múltiplas e dissonantes. Não há harmonia nesse ruído polifônico.
No interior de casa volto à janela. Penso novamente em descer o elevador e ganhar a rua. Procurando a rua, estarei procurando algum sentido do viver. Dobro a esquina da minha rua e desço uma longa rua que vai dar numa via principal da Tijuca, a São Francisco Xavier. O importante foi que me decidi a sair e a espairecer, encher os pulmões de ar puro e continuar podendo ver o céu aberto de um azul claro matizado, aqui e ali, de nuvens mais claras.
À medida que continuo caminhando com aquele prazer de Jean- Jacques Rousseau (1712-1778) contado em página antológica de um livro didático de Marcel Debrot, penso em quantos livros ainda não li por preguiça ou por falta de ânimo. Eles estão esperando que a minha mão os alcance e os devore com o sabor dos bons vinhos e de deliciosos manjares. São muitos. Alguns são de autores piauienses que trouxe da minha mais recente viagem a Teresina. Estão separados no alto de uma das minhas estantes. Lá estão eles mudos convidando-me a penetrar nos seus segredos, conflitos, dores e alegrias, ou na simples transmissão de sabedoria e de conhecimento erudito. Gosto muito dos livros, mas não sou um leitor compulsivo como o meu amigo M. Paulo Nunes. Leio-os compassadamente. Alguns por necessidade, por mera sede de conhecimento; outros, por vontade mesmo de ler atraído por um motivo ou outro; outros, porque não os havia ainda lido posto que tivesse sido minha obrigação. Leio-os devagar.
Uma falecida professora minha do mestrado me recomendou que lesse com mais pressa - mas como? -, se meu ritmo é o lento, o pausado. Por outro lado, costumo ler mais de um livro ao mesmo tempo. Agora mesmo, recebi um livro de ficção de José Ribamar Garcia, Filhos da mãe gentil(2011) ainda não lançado, publicado pela mesma editora, a Litteris, que há muito vem editando as obras do autor.É seu décimo livro no campo da literatura. O título é bem sugestivo e cataforicamente fala em parte pelo que a obra possa revelar.
Prometo a mim que darei conta dessa safra de livros de autores piauienses de que falei atrás. É que são tantas as ocupações do dia-a-dia que um esforço maior tenho que fazer pra superá-las.
Continuo na minha caminhada. Ouço, ao passar pela entrada do Colégio Militar, o toque forte da campainha indicando término de uma aula pra outra. Lá me vejo lecionando diante de uma turma meio inquieta. Início de aula. Entro, cumprimento os alunos em inglês e, seguindo o ritual do colégio, peço a um aluno que me faça a apresentação (em inglês) da turma. Em seguida, no alto do quadro, canto esquerdo, vou escrevendo mais uma provérbio da língua inglesa, que uso como gancho para uma breve discussão do seu conteúdo com meus alunos. Dizem alguns que provérbios não expressam verdades ou lições. Discordo. Vejo que eles têm muitas lições de relevo a nos transmitir. Meus alunos, quando eu esquecia de colocar um provérbio no início da aula, me cobravam: “What about the proverb, teacher ?”
Meus passos, firmes, me levam a percorrer todo o muro da frente do Colégio naquela calçada velha e sob a sombra dadivosa das árvores. Deixo o muro pra trás. Dobro a rua e prossigo por outra bem arborizada e de construções meio antigas, algumas belas e acolhedoras. Uns raios solares penetram nas pequenas brechas das copas das árvores e me atingem uma das faces. Mais adiante, dou com uma pracinha onde crianças brincam, sob os olhares vigilantes das mães, avós ou babás. Cumprimento um dos vigias da rua. Vou em frente.
A caminhada equivale a uma quadrado meio irregular, com sinuosidades no alinhamento de uma das ruas interrompido por um pequeno largo que vai dar continuidade a uma rua de nome diferente, rua cheia de casas velhas algumas possivelmente da metade dos anos cinquenta do século passado. As casas não são bonitas, estão maltratadas com algumas exceções, e estas por serem construções mais novas e ainda bem cuidadas.
No final da rua arborizada, volto pra rua Barão de Mesquita. O sol, embora já mais quente (já é meio-dia e meia) é refrescado por uma leve brisa. Sinto, aí, quanto é bom o sol, quanto bem nos faz quando a temperatura está amena como nesta manhã benfazeja.
Volto bem melhor e é bem provável que vá buscar no alto de uma estante um livro que me complete o dia e os sonhos. Não sei se é o melhor dos livros, mas é um livro.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



TRAIÇÃO EM DOSE DUPLA

ELMAR CARVALHO



O empresário Cristino Mapurunga, dono da maior revenda de carros de Fortaleza, além de outras empresas do grupo que levava o seu sobrenome, era exigente, severo nas punições e não admitia o que considerava traição ou infidelidade de seus empregados. Era reservado, discreto, um tanto frio, e não deixava transparecer seus sentimentos e emoções. Mesmo quando repreendia algum empregado, não alterava seu tom de voz, conquanto as palavras pudessem ser ferinas e humilhantes. Porém sabia promover e incentivar os que, como ele dizia, “vestiam a camisa da empresa”.

Seu superintendente e homem de confiança era Geraldo Dias Carneiro, seu amigo desde os tempos juvenis e colega no curso de Administração de Empresas. Por coincidência, Geraldo fazia aniversário três dias antes de sua mulher, de sorte que Cristino comprou dois telefones celulares de última geração ou top de linha, do mesmo modelo, que mostravam na tela a pessoa com quem se falava, além de terem várias outras funções, que não vem ao caso especificar. Chamou Geraldo à sala da presidência, pelo interfone, e lhe deu o mimo. Fez-lhe várias recomendações e anunciou que iria a São Paulo, a negócio.

O superintendente, para lhe demonstrar alegria, foi logo mudando o chipe de seu velho celular para o novo, e o inaugurou telefonando, claro, para o patrão. Viu a imagem do chefe na tela, a lhe responder, e lhe exibiu o visor para que ele se visse. Ao chegar em casa, Cristino entregou o presente para a mulher, e lhe ensinou a usar o aparelho, nas funções mais básicas. Informou-lhe que iria viajar a negócio, mas que na quinta-feira já estaria de volta, para a comemoração de seu aniversário.

Na quinta-feira, conforme dissera, Cristino já estava de volta a Fortaleza, ainda na parte da manhã. Quando chegou a sua residência, perto das sete horas, sua mulher ainda estava a dormir. Marta não trabalhava, e sua única preocupação era cuidar da decoração da casa, comprar roupas e calçados, e malhar, para manter o seu belo e jovem corpo em forma. O empresário resolveu passar a manhã em casa, a pretexto de descansar do enfado que dizia estar sentindo. Mas às 14 horas seguiu com seu motorista para a sede de seu grupo empresarial.

Logo ao chegar, interfonou para Geraldo. Este ficou certo de que o seu patrão e amigo ia contar-lhe as novidades da viagem e lhe dar instruções sobre os negócios que fizera. Após os cumprimentos, sentou-se na cadeira de costume, perto da grande mesa do empresário. Este abriu sua pasta de couro, e disse que ia lhe fazer uma surpresa. Numa rapidez impressionante, Cristino desfechou três balaços contra o coração de Geraldo. A morte foi instantânea. O revólver tinha silenciador e ninguém ouviu nenhum barulho, até porque Cristino dissera à secretária que desejava conversar a sós com o homem de sua confiança, sem interrupção. O empresário ligou para o chefe de sua assessoria jurídica. Quando o advogado Celso Furtado Coelho chegou, expôs-lhe a tragédia, e disse que desejava seguir com ele para se apresentar ao delegado do distrito, e assim evitar a prisão em flagrante.

Relatou à autoridade policial como praticara o delito e por que o fizera. Disse que desconfiava de que sua mulher o estava traindo, por causa de um telefonema anônimo que recebera. Disse que fora acostumado a não aceitar traições, sobretudo das pessoas que lhe eram mais próximas. Por essa razão, para ter a certeza e a prova, comprara dois telefones celulares, nos quais mandara colocar um programa especial de gravação de telefonemas, tanto da imagem como da voz. Disse que ficara chocado com o que vira e ouvira no telefone de sua mulher e no de seu amante.

No dela, ao verificar o que fora gravado, assistira o amante dizer frases de forte conteúdo erótico e, em descarado exibicionismo, ostentar o membro sexual em estado de ereção, enquanto os dois combinavam o horário e o local do encontro. No telefone do amante, ouvira Marta dizer frases lascivas, despudoradas, enquanto acariciava a genitália, simulando uma masturbação. Como prova cabal do que dissera, entregou ao delegado os dois telefones; o de Marta, sua mulher, que pegara ao sair para o trabalho, e o de Geraldo Dias Carneiro, seu empregado de confiança, que retirara do bolso de sua camisa manchada de sangue. Achou por bem não contar ao delegado que já passara essas gravações para o seu computador, antes de vir apresentar-se. Ficara louco, transtornado, e por isso matara o seu melhor amigo. O delegado tomou sua confissão por termo, que naturalmente seria usada como atenuante pela defesa. Ainda pensou em perguntar porque ele optara em matar o amigo, e não a mulher, que poderia continuar a ser infiel, mas por causa do abominável politicamente correto resolveu recolher a sua curiosidade.

O que Cristino Mapurunga não revelou, e jamais revelaria, é que ele poderia até perdoar a traição da mulher, que era uma fútil, e que já não lhe despertava mais nem a libido nem a paixão, e muito menos o amor, mas jamais poderia perdoar a traição de seu amigo e amante, a quem cobria de dinheiro e carinho na alcova luxuosa do apartamento em que se enclausuravam. Não podia admitir que tudo não passara de mentira, dissimulações e talvez asco disfarçado por parte do homem a quem matara.

domingo, 29 de maio de 2011

REPAGINANDO JÁ ESTÁ NAS BANCAS



B. SILVA

Quem quiser conhecer a verdadeira história da queima dos tapumes da Praça da Graça, nos idos de 1978, é só adquirir a Revista Repaginando que já está nas bancas da cidade.
Claro, fiquei por demais lisonjeado pelo fato de rever fotos minhas, aos 22 anos de idade, e alguns artigos publicados por mim, àquela época, no Jornal Inovação.
Vale à pena ver também e ler um pouco do que foi o Bar Recanto da Saudade(bar do Augusto)na antiga Munguba.
A revista tem como editor Reginaldo Costa, fundador do Inovação.
Na foto, um time de primeira, no Bar do Augusto. Dentre eles:Bernardo Silva, Elmar Carvalho, Reginaldo Costa, Canindé Correia, Flamarion Mesquita,Vicente Potência, Danilo Melo,Wilton Porto, Jonas Fontenele, Paulo Martins, Isarael Correia e o próprio Augusto.

sábado, 28 de maio de 2011

Cumé mermo, mermão?


JOSÉ MARIA VASCONCELOS


         
O livro de Português da autora Heloísa Ramos, “Por Uma Vida Melhor”, em que defende o português peba como inserção social, lançado, há pouco com as bênçãos do Ministério da Educação, constitui a anulação do estudo, cultivo, honra e soberania nacional do nosso idioma. Não quero afirmar que a linguagem popular tem a ver com falta de honra e soberania. O português de Luís Gonzaga é digno da literatura popular. Cada qual em seu lugar. Em toda cultura, a educação é a busca da perfeição, condicionada ao aprendizado de regras. Até a comidinha caseira torna-se palatável e elogiável, se preparada com temperos e técnicas adequadas. Feliz quem se habilita à arte do bem cozinhar, do bem escrever, falar, construir, pintar, arquitetar, prosperar, ajuizar, liderar, chefiar, enfim viver harmoniacamente em sociedade.  


        
A política de esquerda, fecundada nas brenhas urbanas da miséria e cultura apostilesca e marxista, em vez de evoluir, enquanto está no governo, vive a preservar índio na sua nudez como peça de museu e a defender ignorância como valor cultural, com embromações mixurucas para “uma vida melhor”.


       
O maior mérito dessa autora é alcançar notoriedade pela imbecilidade. E um recheio na conta bancária. Como tantos outros que, antes na lama da miséria, hoje tapeiam os cidadãos com desvios de conduta e malandragem. 


         
Transcrevo o texto do jornalista Reinaldo de Azevedo:



Falar errado para não ficar com fama de bicha!
Há pouco, dona Heloísa Ramos, a autora do livro “Por Uma Vida Melhor” — que não é de aconselhamento matrimonial, mas de língua portuguesa — concedia uma entrevista à rádio CBN. Tio Rei é ligadão, hehe… Sempre com um olho no peixe e outro no gato. Disse coisas espantosas, assustadoras mesmo. Tentando justificar as barbaridades contidas em seu livro — entre elas, afirma que o estudante deve dominar as normas culta e inculta da língua e escolher a mais adequada; logo, o erro pode ser melhor do que o acerto a depender do caso —, disse que, muitas vezes, existe um preconceito sexista contra a norma. E citou caso de estudantes que lhe teriam confessado que, caso falem corretamente nas comunidades onde moram, ficarão com fama de “homoafetivos” — ou “veados”, como se diria nessas áreas preconceituosas…


Ah, bom! Então agora entendo melhor o propósito da dona. Eu até havia escrito, com alguma ironia, que o combate de seu livro à norma culta era o correspondente lingüístico ao combate à heteronormatividade. Mas vejo agora que é o contrário! O livro “Por Uma vida Melhor”, na verdade, busca deixar mais confortáveis os jovens heterossexuais. Assim, a heterodoxia gramatical de Heloísa Ramos daria um suporte acadêmico para a heteronormatividade, e a gramática é que estaria, assim, mais próxima da coisa homoafetiva, pelo menos nas tais comunidades populares, né?


No Globo Online, Heloísa teve um chilique. Reclamou que todo mundo dá pitaco em educação. Afirmou que isso é coisa para especialistas… Ah, bom!  A autora fica macaqueando a suposta língua do povo para demonstrar o respeito que teria pela cultura e pela verdade populares, mas, quando contestada, sobe na torre de marfim e grita: “Não me toquem! Eu sou especialista!”.


Conhece, professora Heloísa, a expressão bem popular “Uma Ova!”? Então… Uma ova! Vai ter de se explicar, sim! Eu continuo esperando que a valente me diga em que situação o erro é mais adequado do que o acerto. Seu livro sustenta essa possibilidade. Segundo a entrevista que ela concedeu à CBN, só há uma: cumpre falar errado para não ficar com fama de bicha!


Não é impressionante que a gente tenha de debater uma questão como essa no Brasil?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

PALESTRA "PSICOPATOLOGIA DA VIOLÊNCIA HUMANA"


Amanhã, sábado, às 9:30 horas, no Auditório Acadêmico Wilson Brandão, da Academia Piauiense de Letras, o acadêmico e psiquiatra Humberto Guimarães proferirá a palestra "Psicopatologia da Violência Humana".

O conferencista é considerado um dos maiores psiquiatras do Brasil. Leitor compulsivo, e, portanto, um erudito, já escreveu romances, contos, crônicas e poemas. Seu livro Abyssus é um conjuntos de ensaios, de caráter biográfico sobre ilustres personalidades mundiais, mormente ligadas à cultura. Sem dúvida será uma palestra agradável, em que curiosos e importantes aspectos da psicologia humana serão abordados, sobretudo os patológicos.

LÍRICA EXISTENCIAL


ALCIONE PESSOA LIMA

Eu sei que sou assim...
Um poeta solitário...
Que escreve o seu diário
Em segredo...

Eu sei que traço os rumos
E as marcas de um destino...
Um lado feminino
Em trajes de mãe...

Eu sei que sou no mundo
Um bêbado e mendigo
Que às vezes é abrigo...
O colo de um pai...

E sei que exijo muito...
E não sou perfeccionista
Apenas um artista...
Em uma corda bamba...

Eu sei que nada sei...
Nem o meu vocabulário...
Consulto o dicionário
Para dizer um palavrão...

Eu sei que tenho medo...
E ele é o meu freio.
O começo, fim e meio.
E assim eu sou feliz.

Eu sei que existem mágoas
Que o tempo não apaga
E o vento as propaga
Deixando o ressentimento...

Eu sei que cada ser
Tem a sua história
E cabe à memória
Não jogá-la ao vento.

Eu sei que tudo é breve
Uma gota que cai
A vida que se esvai
E, então, desaparece...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XXXIV

A cabeça de Rafael é
uma cúpula de catedral
estalando em fragmentos
com os quais seu gênio
construía as obras em
que seu crânio se refazia.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Sr. Gerson, a nora Rosinha e o neto Júlio

Prédio dos Correios, antes da reforma


25 de maio

GERSON MARQUES – UM AMIGO DE MEU PAI

ELMAR CARVALHO


Como todos sabemos, a vida é composta, com altos e baixos, com alegrias e tristezas. Ontem cedo, recebi um telefonema de minha mulher, dando-me uma excelente notícia: nosso filho João Miguel havia sido aprovado em concurso para oficial da Polícia Militar do Amazonas. Porém, hoje cedo, ao abrir os meus e-mails, me deparei com infausta notícia; meu amigo José Francisco Marques me comunicava o falecimento de seu pai, o senhor Gerson, amigo de meu pai, e que fora seu colega no antigo DCT – Departamento de Correios e Telégrafos. Ao lhe responder, disse que Gerson já estaria numa das várias moradas do Senhor. Ficamos mais tristes e nos sentimos mais desamparados quando as nossas principais referências vão desaparecendo. E as nossas mais caras referências são os nossos amigos e os amigos de nossos pais. Gerson Marques era meu amigo e era um dileto amigo de meu pai. Algumas vezes o vi deitado numa rede de tucum, na varanda da casa paterna, a conversar comigo e com meu velho.


Ficamos mais tristes e mais desamparados disse, porque com a morte desses amigos muito de nosso passado e de nossas lembranças parece perder o sentido ou, pelo menos, fica mais tênue, mais esgarçado. Ainda hoje recordo que, quando criança, nas vezes em que fui visitar meu pai no prédio dos Correios, achava bonito e importante o movimento e o barulho das máquinas telegráficas. Sinto, neste instante, o cheiro da tinta impregnado no ar. Ouvia o som melodioso do teletipo e a percussão musical do morse. Os dedos ágeis, rápidos de Gerson Marques dedilhavam as teclas do negro e sóbrio teletipo, com as vísceras das engrenagens expostas, enquanto o nó do dedo médio direito do senhor Francisco Carvalho Brito como que tamborilava sobre o cabeçote do manipulador do velho aparelho de morse.

Nos telegramas recebidos, esses aparelhos escreviam sobre uma fita de papel, que ia sendo desenrolada de um rolo ou bobina. O teletipo se assemelhava a uma máquina de escrever, com os mesmos caracteres, que eram impressos sobre a tira de papel, que depois era cortada e colada sobre uma folha de papel. O mesmo processo acontecia com relação ao morse, apenas que, em vez de letras ou algarismos, eram estampados os sinais codificados em sistema binário de ponto e linha, que, em diferentes combinações, representavam todas as letras do alfabeto. Depois vieram, em rápida sucessão, o gentex, o telex, o fax, o celular e o computador, e hoje, perplexos, já não sabemos o que mais ainda poderá surgir.

Aqui, abro rápido parêntese, para recordar um primo de meu pai – Salomão de Sá Furtado – que, em Barras, talvez tenha sido um dos maiores morsistas do Piauí. Com efeito, ele traduzia o código morse apenas pelo som do percursor, sem precisar olhar para os sinais estampados na fita de papel. Salomão gostava de ler e escrevia com clareza e elegância belas cartas. Ao lhe enviar o primeiro livro de que participei, o Galopando, no final da década de 1970, respondeu-me, dizendo antever um futuro brilhante em minha vocação literária. Talvez não tenha sido um bom profeta, mas, com certeza, foi um morsista excepcional. Tinha uma boa biblioteca. Passando dias de férias em sua casa, li alguns livros de seu acervo.

Infante, quanto fui certa vez aos Correios, o senhor Gerson (ou foi o irmão Brito, já não sei ao certo), perguntou-me, brincando, de quem eu era pai, evidentemente tentando confundir-me, no intuito de que eu respondesse que era pai de Miguel, meu pai. Mas, em ousado rompante infantil, respondi:
- Sou pai teu!
Meu pai me repreendeu, com certa severidade, essa afoiteza, e não mais cometi esse tipo de insolência, embora perdoável em face da idade. Deitado na rede de tucum, no alpendre da casa de meus pais, Gerson contou-me, sorrindo com muito gosto, um episódio de minha infância de que ele nunca se esqueceu. Narrou-me que uma pessoa, que ajudava minha mãe nos afazeres domésticos, fora banhar-me a mim e a mais dois irmãos. Sucedeu que, toda vez em que essa pessoa dava o banho por encerrado, eu e meus dois irmãos, em verdadeira traquinagem, rolávamos na areia do quintal, tendo o banho que repetir-se várias vezes. Os seus olhos verdes brilhavam de alegria, quando me contou essa diabrura, que eu já esquecera completamente.

Gerson Marques sempre teve um bom padrão de vida, pois além de funcionário dos Correios, fora dono de sortida mercearia e exercera outras atividades comerciais. Exerceu o magistério durante algum tempo. Além da amizade e consideração que me tinha, admirava o meu esforço e minha atividade intelectual, segundo informação de seu filho Zé Francisco, professor, músico, pescador, mas não dos que mentem, e sobretudo meu amigo. A minha última lembrança do seu Gerson foi quando, meses atrás, emparelhei meu carro com o de seu filho, perto do patronato, e ele, com demonstração de viva alegria, em gesto amplo, expansivo, acenou-me, a me dizer palavras de admiração, amizade, apreço e estímulo. É essa a derradeira imagem que quero carregar dele, desse caro amigo, desse dileto amigo de meu pai.

terça-feira, 24 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



24 de maio

OS SONHOS DE NILEIDE SOARES

Elmar Carvalho

Tempos atrás, a Nileide Soares me pediu uns livros de minha autoria para um projeto que ela tinha. Soube, agora, que esses volumes estão numa biblioteca do Sindicato dos Trabalhadores da Educação desta cidade de Regeneração, que ela ajudou a criar, embora não seja sócia dessa entidade de classe. Como justa homenagem, deram à biblioteca o seu nome. Na solenidade de inauguração, as professoras Nazaré e Ilda e mais a homenageada declamaram poemas de Socorro Santana, Nileide e Elmar Carvalho. Foram expostos grandes retratos dos escritores Nileide Soares, Paulo Nunes, Gomes Campos, Reginaldo Miranda, José Teixeira, Socorro Santana e deste diarista, todos da autoria de um jovem estudante regenerense. Pronunciaram discursos a professora Mercês de Jesus, presidente do SINTE local, a representante do SINTE estadual e a patrona da biblioteca, Nileide Soares. Uma equipe de cinegrafistas do Ponto de Cultura Terra de Bruenque documentou o evento. Portanto, foi uma bela festa cultural.

Conheço Nileide há alguns anos, e sei de sua luta em prol da cultura e das causas de interesse social. Vários anos atrás, participei de um evento literário em Amarante, ao qual ela compareceu. Foi a primeira vez que a conheci pessoalmente, se não estou enganado. Nessa oportunidade, contou-me ela que teve acesso, em tempos mais remotos, ao meu opúsculo Noturno de Oeiras, através do amigo comum Gutemberg Rocha, que lhe fizera o belo prefácio. Acrescentou que levou um ou mais exemplares dessa obra a Salvador, para presentear uns seus parentes que ali residiam. Isso me teve um sabor de indireto elogio.

Recentemente, ela me revelou que está preparando a publicação de um livro, que conterá pequenos ensaios de sua autoria, sobre assuntos diversos, entre os quais reflexões sobre temas da atualidade e meditações sobre a vida. Conteúdo ela tem de sobra para a empreitada, e os há de expor em seu estilo agradável, claro e fluente. Também me contou que tem o sonho de recuperar um carro, que serviu a sua empresa gráfica e papelaria, e adaptá-lo para ser uma biblioteca ambulante, e assim percorrer os bairros de Regeneração, estimulando a leitura, através dos livros e da contação de estórias, com que atrairia sobretudo os jovens, como que ressuscitando uma época em que as pessoas, à boca da noite, se quedavam nos alpendres das fazendas ou nas calçadas das residências urbanas para simplesmente conversarem ou para a magia de ouvirem uma boa estória à Trancoso, em que as lendas, as crendices e superstições eram transmitidas e conservadas por meio da tradição oral.

Em tempos idos, eu lhe havia dito que talvez fosse interessante a realização de saraus literários ou lítero-musicais, ao menos uma vez a cada dois meses, mormente nas noites de lua cheia, em praça pública, em algum jardim ou sob florido caramanchão ou mesmo latada mais rústica. A Nileide Soares disse que pretende retomar e executar essa ideia. Sendo ela dinâmica, articulada e uma liderança cultural, sei que ela não terá grande dificuldade em realizar esses eventos, arregimentando músicos e declamadores, e projetando um seleto repertório de poemas e músicas. Talvez apenas uma flauta e um violão fossem suficientes, para que se revivessem as belas e melodiosas serenatas de outrora, tão diferentes da medíocre e barulhenta “música” de hoje, cujas letras degeneradas degradam e achincalham o sexo e a mulher, que era objeto de exaltação e enaltecimento nas músicas românticas de antigamente. Não tenho dúvida de que a Nileide realizará os seus projetos, como já realizou outros sonhos.

HOUVE UM TEMPO


ALCIONE PESSOA LIMA

Houve um tempo
em que eu pularia de um edifício de dez andares
e não sentiria medo de morrer.
A alma e o corpo pareciam tão leves, como uma folha levada pelo vento.
A velocidade dos gestos, o sorriso escancarado, a pele macia...
A dor não me causava agonia.
Tudo era simples, olhado pela ótica do “sim”. 
Apesar de tantos “não” pela vida.
Somente era muito feliz.
Já se distancia o tempo em que admirava as “brancas” que circulavam nos lugares nobres desta cidade.
Era um transeunte apenas...
Já se desfez no ar o perfume que exalava de todas elas...
Era o aroma da minha sofreguidão...mas eu gostava. E sonhava...
Vejo assim que sempre fui um sonhador...escravo do amor...
A filosofar pelos cantos e a dizer que a vida vale a pena ser vivida.
O sabor de tantos beijos não beijados...
O toque daqueles abraços somente desejados...
As mãos que imaginei a acariciarem meu rosto
Por vezes as tive, mas esbofeteando o meu ego...
E tudo passou. Até um coração que um dia me nocauteou.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

MULHER NA LAGOA DO PORTINHO

ELMAR CARVALHO


Na tarde antiga
de sol e bruma
de luz e penumbra
as dunas mudaram
de cores e formas.

Os belos olhos esplendentes –
pálidas cálidas opalas ou
esmeradas esmeriladas esmeraldas –
da mulher bonita
de sinuosas dunas e viagens
furta-cores furtaram
outros tons e sobretons.

Ainda guardo a memória viva
daquela tarde morna e morta
e ainda vejo aqueles olhos vivos
furtando furtivos cores e atenção.

E os olhos e as formas curvilíneas
permanecem intactos no tempo
que em mim não passou.

E a mulher, acaso passou,
nos escombros das formas
transitórias da beleza?...

domingo, 22 de maio de 2011

ANTOLOGIA DO NETTO

Charge e texto: João de Deus Netto


BARRIPI


José de Ribamar de Pinho Barros nasceu a 31-05-1940 - Coroatá (MA). Filho de Antônio Vieira Barros e Luiza Palhano Pinho. Poeta, cordelista. Começou a versejar aos 12 anos e não parou mais. É o editor da revista “Caderno de Cordel – O Farol da Cultura Popular”, atualmente denominada de “Brasil Nordeste”. Membro da UBE/PI. É verbete do “Dicionário Biobibliográfico de Escritores Brasileiros Contemporâneos” (1999), de Adrião Neto. Bibliografia: “O Cordel na Voz do Povo” (1998), livro de poemas; “A Discussão do Cachorro com o Gato”; “Chico Torto e João Errado”; “A Copa de 94”; “O Verbo Ter Rimado”; “ABC da Pobreza”; “Um Candidato Legal”; “Rei Midas”; “João Esquisito e seu Casamento” e vários outros cordéis. Participou do livro “Cordéis” (2000) e da “Coletânea de Escritores Brasileiros Contemporâneos em Prosa e Verso” (1999), ambos organizados por Adrião Neto.

sábado, 21 de maio de 2011

FLAGRANTES & INSIGHTS


O GATO DO APITO

Elmar Carvalho

No domingo passado, encontrei no clube da AMAPI o célebre árbitro de futebol, conhecido como Gato. Já atuei algumas vezes como goleiro sob sua arbitragem, e não lhe faço nenhuma restrição. Todavia, apenas por pura blague, disse-lhe que havia perguntado ao des. Alencar, atleta do time de nossa associação, se o apitador tinha a referida alcunha por ter sido um grande goleiro, ou por ter sido um pretenso galã, ou se por não ter imparcialidade em suas arbitragens. O Gato, ansioso, perguntou-me:
- E o que foi que o desembargador respondeu?
Não me furtei a lhe dizer a verdade:
- Respondeu, Gato, que você é um gatuno.
Creio não precisar dizer que o Gato é um árbitro respeitado, e que tudo não passou de simples brincadeira.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

VALE A PENA ESCREVER?

Escultura de Braga Tepi

CUNHA E SILVA FILHO

Até hoje, não sei ao certo (quem há de?) se todo esse esforço de quem escreve serve para alguma coisa. Naturalmente, estou falando da escrita literária em qualquer gênero.
Mundo cansado, pessoas cansadas, tudo leva ao cansaço, inclusive do tédio da vida que se enche cada vez mais das imperfeições inerentes à condição existencial. Olho ao meu redor. O que vejo ou escuto: a falência de quase tudo que faria da vida uma porta do paraíso: guerrilhas no Oriente, terremotos, matanças covardes, sistema econômico-financeiro sobre o qual sempre paira uma ameaça de piora, de estado de incerteza, de ansiedade entre quem compra e quem vende. E mais e mais: inversão de valores, domínio do ter sobre o ser – velha questão filosófica da humanidade - ainda decisiva em tempos atuais.
O saldo das notícias boas é bem desproporcional em relação ao gigantismo das notícias ruins. Assim, descubro algo que não me é nada agradável constatar: o viver passou para algumas pessoas a ser uma espécie de fardo que nem as auto-ajudas ou análises de diferentes correntes psicanalistas conseguem amenizar, nem mesmo as religiões ou a ausência delas. Nesse estado de consciência pessoal, pois é bem provável que esteja acometendo uma fatia menor de indivíduos, o ser em agonia encaminha-se inexoravelmente para a solidão, o “emparedamento” e aí a solidão se torna pouco propícia ao desejo da criação, da invenção, da produção nos diversos campos da inteligência, sobretudo no domínio estetico.
Sabemos que a criação artística tanto pode se originar do sofrimento quanto da felicidade. Porém, há outros componentes que afastam estas duas possibilidades e, ao afastá-las, as impedem de amadurecer, o que seria o estágio próximo de sua transformação em obra literária. Assim como há outras atitudes de artistas, seja de que ramo artístico for, de, num ponto determinado de sua carreira, apenas confessar simplesmente, como o fez uma escritora norte-americana: “ “Cheguei à conclusão de que a vida é mais importante do que havia pensado que a arte fosse. Se a arte me tomou tanto tempo, sinto que a vida é melhor, é tudo que me importa agora”. Desta forma, abandonou em definitivo sua carreira de grande escritora.
No Brasil, há o caso de Radauan Nassar, autor de talento com o seu romance Lavoura arcaica, que deixou a literatura para se dedicar a uma atividade prática. Há outros exemplos semelhantes ao dele, como há também autores que, só longo tempo depois, já aposentados, que resolvem escrever alguma obra.
Continuar escrevendo ou deixar de fazê-lo, ficaria assim, dependendo de uma decisão íntima, até inexplicável ou inconfessável. Entendo que o ato da escrita só vale a pena na medida em que essa atividade dê prazer ao leitor ou o faça pensar melhor, ou lhe abra caminhos de um consciência crítica que ao mesmo tempo seja acompanhada de cumplicidade com essa ação persuasiva, ou seja, escrever algo que mereça esse empenho.
Escrever é o ato mais pessoal que possa haver entre a pessoa do escritor e o público que o lê. Ato, portanto, de exposição, de desnudamento em certos sentidos. Nunca, no entanto, pode ser meramente gratuito, narcisista, auto-centrado. Ao contrário, a escrita é um fenômeno que se produz e carrega em si um elemento fundamental - o desejo de ser aceito, de ser julgado honestamente, sem o qual sua importância se esvazia. É da aceitação, do feedback, do estímulo que vive o escritor. Não haveria escritor que não desse atenção a esse elemento ainda quando esse artista da palavra seja um ser em desespero material ou espiritualmente considerado.
A escrita, e aqui aludo à de natureza ficcional, necessita desse estado permanente de transmitir mensagens, quer através de suas visões da existência proporcionada pela narrativa ( o mundo e tudo o que o cerca e dele faz parte, o Cosmos), quer pelo mergulho denso no mundo interior e exterior dos seus personae, quer, enfim, de também sentir as pulsações (tão necessárias) do leitores. A recepção lhe é vital. Essa vitalidade vem justamente das ressonâncias positivas do leitor.
Não existe escritor que escreva para si mesmo. O ato da criação artística é essencialmente social, interativo, gregário naquele sentido de que o fenômeno estético opera num espaço comunicativo regido pela transitividade, espaço de interlocução que não sobrevive pela recusa do agente criador diante da vontade soberana da comunhão com o leitor.
Os casos de escritores que não são dados à publicidade são raros e se tornam até matéria de excentricidades. O ato apenas da escrita pressupõe a lógica do diálogo e da mencionada transitividade. A validade da escrita, todavia, sua continuidade ou sua interrupção muitas vezes escapam ao nosso entendimento. Ficará pertencendo aos arcanos insondáveis somente acessíveis ao autor da escrita que se despediu dos leitores.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XXXIII

Dalí menino,
transmudado em menina,
levanta a orla do mar
e contempla o cão adormecido
à sombra das águas.
Dalí adulto
suspendeu a borda do mar,
as fúrias das ondas aplacou,
a contemplar o ritmo das esferas
que o rosto da amada desenhavam.
O cão sonolento ainda dormia
sob o tapete das águas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


18 de maio

SOMOS TODOS ANIMAIS RACIONAIS?

Elmar Carvalho

Ao que tudo indica, o homem parece ser o único animal que sente prazer em matar outro ser vivo. Tanto isso é verdade, que uma caçada é considerada diversão ou esporte. Mesmo na civilizada Inglaterra existe a tradicional caça às raposas, em que pessoas que se dizem nobres e fidalgas se comprazem em abater esses animais. Ainda na orgulhosa Europa, mais precisamente na Espanha, são praticadas as touradas, de grande apelo popular; esse chamado esporte ou mesmo arte, na prática, não passa de maus tratos e morte aos touros, a servir de diversão e meio de vida a muitos.

Dizem que nos rodeios nacionais, embora não haja abate do touro, também torturam o animal, pois é usado um artefato que faz o bicho saltar loucamente, até conseguir derrubar o peão que o monta. Portanto, o homem é um animal desumano que se diverte em matar ou fazer sofrer um outro animal, ou pelo menos se compraz em assistir a esses espetáculos rudes e grotescos. Não o chamo de animalesco, para não diminuir os outros animais, que, quando matam outro bicho, o fazem apenas em quantidade suficiente para saciar sua fome. Quase fico feliz quando a caça se volta contra o caçador, quando o touro consegue aplicar uma chifrada no toureador, quase diria torturador.

Julgo de bom alvitre transcrever o que já disse sobre esse tema, em meu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras: “O homem, que cria animais para abatê-los, poderia ao menos evitar torturá-los, ou, ao menos, maltratá-los o mínimo possível. Recordo-me de que certa vez, perto de um mercado, vi um magarefe divertindo-se a dar machadadas na cabeça de um tenro e cândido cordeiro. Ria ao vê-lo estremecer com os golpes. Gostaria que esse carneiro, símbolo da mansidão, que sequer berrou ou esperneou, a exemplo da jumenta de Balaão, tivesse perguntado àquele homem bruto sobre por que o torturava. Ainda hoje me arrependo de não ter interpelado aquele homem rude e ignaro, embora correndo o risco de ele voltar contra mim o seu machado cruel.”

Algumas pessoas, que afirmam gostar de pássaros e de seu belo e alegre canto, criam aves em gaiola. Isso é uma grande tortura, pois, pelo simples fato de ter asas, um passarinho foi criado para voar, e portanto, vale dizer, para a liberdade. Tortura maior fazem com o assum-preto: furam-lhe os olhos, para ele assim cantar melhor, como diz a bela e melancólica melodia de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Não tem a prisão da gaiola, mas fica numa prisão ainda mais hedionda, que é a cegueira, que lhe impede de voar, de escalar os espaços azuis do céu e verde da mata.

Cego, sem poder fazer outras coisas, o pássaro negro dana-se a cantar, e canta mais e melhor. Mas o seu canto é de dor, é de desespero e horror, e não de alegria, como o das outras aves, que têm por limite a amplidão celeste. Por isso mesmo, o rei do baião disse que para essa ave seria mil vezes melhor a sina de uma gaiola, desde que o céu ela pudesse olhar. Será se quem faz uma perversidade dessa com uma pobre ave canora, que nenhum mal lhe fez, nem poderia fazer, não tem algo de sadismo, de loucura ou de psicopatia? Eis aí um enigma que não desejo desvendar.

terça-feira, 17 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Anita e Belinha

17 de maio

AS LIÇÕES DAS TRÊS CADELAS

Elmar Carvalho

Após longos anos morando conosco, a Pantica resolveu retornar aos seus pagos. Decidiu voltar a conviver com seus pais e irmãos, na terra ribeirinha em que nasceu, chamada Várzea do Simão, à margem do Velho Monge. Com isso, terminou criando um problema para nossas duas pequeninas cadelas. A Belinha, que muito se achegou a ela, sofreu com sua partida, e, mais de mês depois, ainda a procura no quarto que ela ocupava, na esperança vã de que ela tenha regressado. É que ela dormia no mesmo quarto da Pantica. Diante da nova realidade, passou a dormir no quarto dos donos da casa, ou seja, no meu dormitório e da Fátima. Isso provocou uma enorme crise de ciúme na Anita, nossa cachorrinha menor e mais velha, que é muito voluntariosa e um tanto arreliada. Sem dúvida, agia em defesa do que julga ser seu território, seu espaço, por não querer dividi-lo com sua semelhante.

Belinha é uma cachorra tímida, humilde, acanhada, e não revidava às rebeldias da outra. Pelo contrário, recolhia-se aos recantos mais esconsos, inclusive debaixo da cama, que não eram os da predileção da adversária. Minha mulher trouxe a pequena “cama” da Belinha, de que esta tanto gosta. Porém, a Anita implicou com essa regalia, de forma injusta, pois nunca quis usar esse objeto. Belinha, em sua inteligência emocional, em sua mansidão e humildade, evitava deitar-se nessa caminha, embora lhe apreciasse o conforto e aconchego, para evitar confronto com sua belicosa semelhante.

Contudo, na vez em que Anita partiu para agredi-la, defendeu-se com altivez, e venceu a refrega, mordendo a sua oponente, e lhe fazendo verter sangue; mas continuou persistindo em sua política de boa vizinhança, em sua resistência pacífica, adornada com a virtude da tolerância, modéstia e bondade. Sim, perfeitamente, com essas virtudes, sim, pois sendo ela maior, mais ágil e mais nova, poderia vencer facilmente sua rival, mas prefere sempre evitar as contendas, afastando-se de Anita, procurando os espaços que esta nunca procura. Recebo as lições que essas duas cadelinhas me ensinam, e porfio em aplicá-las em minha vida.

Na semana passada eu conversava com minha mulher sobre a gratidão que se deve ter para com as pessoas que nos ajudaram, que já nos serviram de uma forma ou de outra, ainda que a tenhamos pago pelos seus préstimos. Ilustrei essa asserção com o teor de uma pequena nota que li na revista Veja. Trata-se do episódio em que uma cadela, juntamente com seus vários filhotes, foi salva do incêndio na casa em que morava por um bombeiro. Após tê-la colocado em segurança, assim como os seus rebentos, o homem retornou ao seu serviço, em busca de salvar outras pessoas e coisas do fogo, que devastava a residência. Do lugar em que ficara, a cadela não tirava os olhos do homem, acompanhando o seu perigoso e estafante mister.

Quando o bombeiro finalmente se desincumbiu de seus afazeres, ela foi até ele e o beijou carinhosamente, como se desejasse externar a sua mais profunda gratidão pelo que ele fizera por ela e por seus filhotes. Ora, se até uma cachorra, chamada por muitos de irracional, de bicho bruto, teve a elegância e a delicadeza desse belo gesto, por que o ser humano, que se diz feito à imagem e semelhança de Deus, não deveria ter a virtude da gratidão? Mas a verdade, lamentavelmente, é que muitos logo esquecem as dádivas e os favores recebidos. Talvez por isso, o imenso poeta Augusto dos Anjos, em seu igualmente descomunal pessimismo, vociferou no soneto Versos Íntimos, em que tratou da ingratidão: “Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!” Contudo, a essa admoestação melancólica do poeta, eu preferiria aconselhar o amor, a caridade e o perdão, recomendados por Cristo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


TRISTEZA E MORTE DO PALHAÇO CACARECO


ELMAR CARVALHO


Chichico era um talento inato para o humor, desde ainda criança. Aos 16 anos era um verdadeiro artista do histrionismo. Sempre cercado de outros garotos, que lhe admiravam a graça, a verve, as mímicas, os arremedos, as imitações, as caretas, o riso espalhafatoso, os vários timbres de voz, com que arremedava pessoas conhecidas e seus próprios colegas, já era convidado para apresentações humorísticas em eventos promovidos pelo poder público, em aniversários de crianças e em gincanas escolares. Começou a ganhar fama na pequena cidade de Curralinhos e adjacências.

Quando na cidade foi instalada a companhia mambembe Mundial Circo, que de mundial só tinha o nome faraônico, disseram ao seu proprietário que no lugarejo existia um prodígio, um gênio das gargalhadas, um autêntico palhaço, de que os curralenses tinham orgulho e pelo qual nutriam sincera admiração. O primeiro a dar essa informação foi o prefeito da cidade, quando Bertoldo Mambrine, descendente de italianos, mas já com o sobrenome devidamente aportuguesado, lhe foi solicitar o alvará para o funcionamento dos espetáculos. O empresário circense, que por sinal era o principal artista de sua companhia, travestido de palhaço Cafuringa, prometeu ao prefeito que iria convidar o rapaz para ser um de seus auxiliares, numa das apresentações. Pediu a sua excelência que lhe encaminhasse o promissor humorista, para entrevista e para combinarem os ensaios.

A entrevista foi feita, os ensaios foram realizados e a estreia de Chichico foi anunciada com muito estardalhaço, por toda a cidade de Curralinhos, tanto na rádio comunitária, como em carro de som, e ainda através de caminhada pela cidade, com um palhaço de pernas de pau, que arrastava um séquito de moleques, que respondiam suas perguntas, formuladas em cantilena engraçada:
- O palhaço quem é?
- É ladrão de mulher!
- O que é que a velha tem?
- Carrapato no sedém!
- Hoje tem espetáculo?
- Tem sim, senhor...
Imediatamente, na entrevista, Mambrine sentiu que Chichico tinha imenso potencial, e viu que poderia transformá-lo, com algumas dicas e treinamentos, num grande palhaço, que poderia até superá-lo. Após fazer-lhe algumas advertências, marcar as datas dos ensaios e de sua apresentação, o empresário perguntou-lhe:
- Que nome artístico você pensa em adotar?
O rapaz respondeu de bate-pronto:
- Cacareco. Serei o palhaço Cacareco.
O espetáculo de estreia de Chichico, ou melhor, do palhaço Cacareco foi coroado de êxito absoluto. O circo estava completamente lotado, até mesmo os chamados camarotes, que não passavam de cadeiras mais confortáveis, posicionadas em lugares de melhor visão. Vieram pessoas das cidades vizinhas. O prefeito, o juiz de Direito, o delegado e vereadores estavam presentes, além de comerciantes, altos funcionários e o povo em geral. As gargalhadas estrepitosas que arrancou da plateia, travestido de palhaço Cacareco, foi uma consagração, uma verdadeira apoteose.

Chichico foi contratado como artista da trupe do Mundial Circo. Sua ascenção foi vertiginosa. Logo superou o mestre, isto é, o palhaço Cafuringa, ou, melhor dizendo, o dono do circo, Bertoldo Mambrine. Tornou-se o rei do picadeiro, sem ninguém que lhe fizesse sombra. Era justamente considerado o mestre do riso e da alegria, e já tinha o slogan de “rei da gargalhada”. Tinha o dom de arrancar risos e sorrisos. Ninguém lhe ficava indiferente. Como o palhaço do poema de Heine, era recomendado pelos psicólogos, psicanalistas e psiquiatras como terapia aos tristes e deprimidos. Um circo de luxo quis contratá-lo, mas Mambrine o fez sócio de sua companhia e terminou permitindo o seu casamento com sua única filha, de nome Marina, trapezista e malabaristas, de vastos dotes artísticos e anatômicos.

Chichico não pode recusar tão tentadoras ofertas. Inteligente, mente aberta às novidades, passou a exercer influência na administração do circo, até porque era seu sócio. Logo a companhia cresceu, e se tornou uma das maiores e mais famosas do país. E Cacareco continuava sendo o seu mais importante e mais querido artista. Seu nome tornou-se conhecido nacionalmente. De vez em quando, era convidado a participar de programas de televisão, sempre exibindo novidades, e invariavelmente arrancando gargalhadas do auditório e recebendo delirantes aplausos. Com a morte de Mambrine, tornou-se praticamente o único dirigente do Mundial Circo. Isso o tornou orgulhoso, e não raras vezes tratava os artistas e os outros palhaços com certo menoscabo.


Um dia uma mulher, na cidade de Juazeiro do Norte, o procurou. Contou que seu filho gostaria de vê-lo; que era paralítico e não tinha cadeiras de rodas. Disse que o garoto o vira através da televisão, e passara a tê-lo como ídolo. Comprara até um dvd do palhaço Cacareco. Chichico foi duro. Disse que era um homem ocupado, um empresário, e não tinha tempo para atender pedidos desse tipo, até porque isso abriria precedentes para outras solicitações semelhantes. A mulher chorou, implorou, mas ele foi implacável, e não cedeu a suas súplicas. Ela tinha vestes longas, de chita, e cabelos desalinhados. Trazia um grosso terço ao pescoço, no qual se encontrava dependurado um enorme crucifixo. Beijando a enorme cruz, pediu-lhe que fosse ver seu filhinho entrevado, desse-lhe essa alegria, pelo amor de Jesus Cristo. Novamente, Chichico disse que não, e a expulsou aos gritos, com expressão bastante irritada. A velha, então, invocando passagem da Bíblia, falou, em tom ameaçador:
- Que Deus te retorne segundo tuas obras!

Havia perto uns curiosos, pessoas da cidade. Chichico perguntou se conheciam aquela mulher feia e impertinente. Informaram-lhe que ela era famosa macumbeira, rezadeira e benzedeira da localidade; que vinham pessoas de todas as partes para serem atendidos por ela; que nada cobrava, e as pessoas lhe davam o que queriam. Fazia também garrafadas medicinais com umas ervas, seguindo umas fórmulas que recebera de seus antepassados indígenas. Pelo que disseram, ela misturava macumba, superstições, rezas do catolicismos, pajelanças e medicina homeopática, além de simpatias. Chichico, por influência materna, era extremamente supersticioso, sugestionável, e tinha um medo muito grande de pragas, inveja e mau-olhado.

Assim, interpretou a rogativa da velha bruxa como uma maldição. Achou mesmo que ela ia fazer uma macumba contra sua pessoa. A preocupação do palhaço mais se acentuou quando encontraram um despacho perto do circo. Ficou certo que fora obra da macumbeira. Também achava que os artistas de seu circo lhe invejavam, tanto pelo fato de ele ser o dono, como em virtude de seus dons extraordinários de clown. Coincidência ou não, o fato é que ele foi perdendo o dom de provocar gargalhadas. Chegou mesmo, certa vez, a ser vaiado, por causa de uma frase infeliz que disse ao seu parceiro, em que deixou transparecer um tom de mofa e de desprezo. Enquanto isso, para aumentar a sua infelicidade e mesmo desgraça, o palhaço Piteco foi se transformando num mestre das gargalhadas, e angariando, cada vez mais, a simpatia do público.

Chichico foi se fechando em si mesmo, sempre ensimesmado, sempre taciturno e silencioso. Por fim, já não tinha mais coragem de enfrentar o picadeiro. Dizia que Deus lhe retirara os dons de ser engraçado, os atributos que o transformaram no maior palhaço do Brasil. Vivia enfurnado no trailer. Por insistência de sua mulher, foi se consultar. Os exames detectaram que ele tinha uma isquemia cardíaca e hipertensão, e que estava com altíssima taxa de colesterol. Tudo isso contribuiu para lhe aumentar a depressão.

Em curto espaço de tempo, o palhaço Cacareco foi encontrado morto, vestido e pintado como um palhaço. Anotado num bloco, ele pedia para ser enterrado como palhaço. Nunca se teve certeza se ele se matara com uma dosagem elevada dos medicamentos que usava, ou se simplesmente morrera ao dormir. Contudo, todos acharam estranho ele haver se caracterizado como palhaço, quando já perdera a graça contagiante que Deus lhe dera, e sequer se apresentava, nem mesmo como coadjuvante do palhaço Piteco, por muitos chamado de rei do riso.