terça-feira, 24 de julho de 2012

Cadê o autor piauiense?




José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com



Minha esposa aproximou-se com CD de músicas piauienses, ligou o som e desafiou: "Zé, advinha quem é o autor dessa música!" Ouvi atentamente, pedi para repetir. Logo me amarrei no ritmo frenético e na bonita letra. Tentava decifrar a autoria. Só me chegava nome de bandas de fora. "Não é Zé!!"
Eu, como tantos da terrinha, sofremos a praga de nos benzermos aos mitos de outras plagas, e de nenhum "pelo sinal" aos valores locais. Refiro-me, especialmente, à nossa música. Os daqui só merecem cruz credo como espantalhos de mau-gosto. Música piauiense só se destaca nas emissoras estatais.
Repare a letra da música "SUPER STAR", motivo do desafio: "Meu sonho foi sempre ser artista de cinema / Ter fama em Hollywood, Timon e Ipanema / Andar pela cidade, todo mundo gritar: / Super, super, super star(bis) / Andar de Cadillac / Ter um motorista Jarbas / Ser capa da Manchete, do Times e do Pasquim / Andar pelas colunas da Elvira e do Ibrahim / Super, super, super star(bis) / Meu sonho sempre foi o de madame Salomé / Ser assim com os homens, com Nicinha e Pelé / Ter casa com piscina e morar no Itararé."
Não sei quando o poema foi composto. Se se trata de um texto recente, melhor, porquanto alude às quimeras do sonho e da divagação do espírito, montadas com elementos e personagens do passado:Ipanema, bairro carioca, recanto antigo dos artistas da Bossa Nova e do Cinema Novo; Cadillac, automóvel chique dos anos 50, 60; Revista Manchete, em que desfilavam celebridades; Pasquim, tabloide dos tempos de chumbo militar; colunistas sociais, Elvira Raulino e Ibrahim Sued; Madame Salomé, personagem vivida por Chico Anísio, exibindo a histérica vaidade de conversar, por telefone, com o presidente da República, dando pitacos; Nicinha, alienada mentalmente, costumava se enfeitar de adereços jovens e acompanhar blocos carnavalescos na Avenida Frei Serafim, anos 60 e 70. Saborosas evocações com magistral inspiração poética e ritmo quente para dançar.
Senhores radialistas e diretores de emissoras, em geral, desculpem ousado desabafo: tomem vergonha na cara: botem a música para tocar, esta e as de outros artistas. Promovam-nos. Eles não merecem apenas privilégio de emissoras estatais. Vocês não os apoiam, porque "outros valores mais altos se alevantam", não no nacionalismo camoniano, mas no de fora, que oferece ou rateia cachê em promoção de festivais, de muita farofa e pouca linguiça. Imitem o bairrismo cearense e baiano, onde muitos medíocres desfilam como celebridades, ocas de qualidade; aqui, aplaudidos pelo faro do jabá.
Músicos piauienses, especialmente letristas, em geral, precisam malhar a criatividade, livrarem-se de frases surradas, elogiosas à cajuína, Teresina menina, fanatismo romântico, que saco! Ou recorrerem a construções sintáticas obtusas e de abstrações mentais vazias, em meloso ritmo.
Finalmente, quem é o autor dessa primorosa música e letra? Você também é de curiar? Vá atrás. Telefone para as rádios Assembleia, Cultura e Universitária, únicas que soltam a música piauiense. Exija-lhes nomes dos autores. É lei indicar a autoria de qualquer criatividade. Neste momento, balanço a cabeça e costas lembrando-me de SUPER STAR. Deixa estar: hoje pego minha mulher noutra ginga. Ela sabe de cor e salteado.

Um comentário:

  1. José Maria Vasconcelos:

    Sua crônica vale popr essa espécie de gênero. Tem sabor do agora, da conversa descontraída com o leitor. Ela se mostra belamente simples na sintaxe moderna, mas oculta sutileza, malandragens profundas, crítica certa dirigida a homens e lugares certos. Sua força, me parece, reside no "rebolado" da frase insinuante, às vezes, cortante, mordaz, mexendo com o leitor que a ela não fica passivo, mas deseja continuar para saber qual o corte final no tempo do agora e da argúcia do olhar para o que a crônica realmente serve: uma converssa franca com o leitor, sem dispensar o humor , não o inglês, mas aquele feito da síntesa da alma do povo piauiense.
    Cunha e Silva Filho

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