sexta-feira, 17 de maio de 2013

MIRANDA – UMA FAMÍLIA PIONEIRA DO PIAUÍ


Reginaldo Miranda

As origens da família Miranda mergulham fundo na história de Portugal e Espanha. Segundo alguns registros, ainda no recuado ano de 711, um cavaleiro de nome Obrão de Miranda, participando de guerra contra os mouros, luta bravamente ao lado de D. Rodrigo, último rei dos godos, na histórica Batalha de Guadelete, de que foi vítima o monarca, ruindo, então o Reino Visigótico de Toledo. Em 718, Obrão de Miranda foi um dos primeiros a empunhar armas ao lado do futuro rei Pelágio, de cujas lutas fundam o reino das Astúrias, embrião dos outros reinos cristãos ibéricos responsáveis pela reconquista da península. É possível que seja esse guerreiro cristão o primeiro tronco da família Miranda na península ibérica, com descendência espalhando-se por Portugal e Espanha. Ainda nas Astúrias, outro cavaleiro, este da casa de Ponce de Leon e, talvez descendente daquele, por nome Albar Diaz de Miranda deu origem à importante linhagem da família.
Não resta dúvida, porém, segundo a maioria dos dicionaristas e heráldicos, de que este sobrenome tem origem toponímica, relacionando-se à região norte portuguesa, no alto Douro, onde se situa a cidade de Miranda e tiveram a alcaidaria-mor. Provém do latim Miranda, “que é para admirar, coisa digna de admiração”. Os primeiros representantes dessa linhagem eram sempre identificados por “de Miranda”, a indicar a região de onde provinham. Foi nessa região, próxima às fronteiras de Leão, que, segundo alguns cronistas, os primeiros portugueses receberam títulos de nobreza e foram governantes de províncias. Portanto, é esta a mais plausível origem dessa família.
Por esses fatos, quase todos os genealogistas preferem apontar para uma origem espanhola, também ligada a domínios de terras, com posterior migração para Portugal através de casamentos entre nobres. A nosso sentir, porém, como a região de Miranda, no atual norte de Portugal, é fronteiriça com a Espanha, teriam aí mesmo surgidos os primeiros desse sobrenome, inclusive o cavaleiro Obrão, passando a descendência para os dois lados da península ibérica, sempre identificados com a origem geográfica “de Miranda”, como a não deixar dúvidas. Ademais, por aqueles dias tudo isso era muito emaranhado, às vezes surgindo domínios diferentes, com fronteiras imprecisas e mutáveis. Situada nesse imbróglio milenar, a referida Miranda do Douro, possui até idioma próprio, o mirandês3.
Muitos representantes dessa família, no outro lado da península ibérica, sempre trouxeram a indicação da origem de seus ancestrais, todos “de Miranda”, e não apenas “Miranda”. Um exemplo é o revolucionário Francisco de Miranda, descendente de espanhóis e precursor da independência venezuelana.
Todavia, é importante ressaltar que existem outras localidades com o nome de Miranda em Portugal, na serra pertencente ao Conselho de Arcos de Valdevez, distrito de Viana do Castelo; no Conselho de Guimarães; no Arcebispado de Braga; a conhecida Miranda do Corvo, vila e sede de Conselho, no distrito de Coimbra; Mirandas, em forma plural, na freguesia de Sacavém, margens do rio Tejo, encostada em Lisboa; e, por fim, uma Mirandela, belo diminutivo, nas margens do rio Tua, afluente do Douro, distrito de Bragança, província de Trás-os-Montes. Por seu turno, em Espanha existem ao menos dezenove localidades com o nome de Miranda. Fora da península, existe uma no distrito de Gers, na França, e outra na província de Isérnia, na Itália, nessa última existindo também a forma Mirândola. Por fim, o nome foi também bastante difundido nas colônias do Novo Mundo, nominando cidades, rios e províncias.
Pois, esquecidos daquele tal cavaleiro Obrão de Miranda, ou sem fontes documentais para traçarem a origem da família até àquele vetusto ancestral, antigos registros genealógicos somente traçam a origem dessa família aos descendentes de D. Martim Afonso e Emília Gonçalves de Miranda, esta de origem espanhola, além de Fernão Gonçalves de Miranda. Seguramente, é desta descendência que se originou o brasão dos Miranda, hoje consagrado na heráldica e muito conhecido entre os interessados pelos assuntos genealógicos.
Desde cedo, porém, representantes da família Miranda chegaram ao Brasil. É conhecido aquele Simeão de Miranda, que comandou uma das naus da esquadra de Pedro Álvares Cabral, que disseram ter descoberto o Brasil para os europeus, em 22 de abril de 1500. Presentes, portanto, desde o tal descobrimento, estão também entre os primeiros colonizadores da nova terra. Existem registros de colonizadores de sobrenome Miranda em praticamente todas as regiões do Brasil: São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso; no nordeste, desde cedo chegaram à Bahia, Pernambuco e Ceará.
Miranda é nome muito difundido no mundo ocidental, sobretudo na Europa e América Latina. Em Portugal, sobressaíram: o referido Simeão de Miranda(f. 1515), navegante, foi um dos capitães de caravelas da frota de Pedro Álvares Cabral; Francisco Sá de Miranda(1481 – 1558), festejado poeta, irmão do governador-geral Mem de Sá; Caetano Pinto de Miranda Montenegro(1748 – 1827), magistrado e político português com atuação no Brasil, primeiro barão, visconde com grandeza e marquês de Vila Real da Praia Grande. Na Espanha: Juan Carreño de Miranda(1614 – 1685), destacado pintor na corte espanhola de Felipe VI; Álvaro Fernández de Miranda(Oviedo, 1855 – 1924), escritor e político asturiano; Diego Arias de Miranda (1845 – 1929), político, foi senador vitalício e ministro da marinha(1910 – 1911) e da Justiça(1912); Torcuato Fernández-Miranda Hevia(1915 – 1980), político e jurista de Gijón (Asturias). Na América latina são inúmeros os exemplos.
No Piauí, os primeiros registros datam de 1712, quando o chantre Baltazar de Faria e Miranda foi nomeado vice-vigário da freguesia de N. Sra. da Vitória(Oeiras)3. Por esse tempo muitos religiosos que vinham catequizar rebanhos no Novo Mundo, costumavam trazer parentes, principalmente sobrinhos para colonizarem as novas terras recém-descobertas. Entre nós, o padre Tomé de Carvalho e Silva, primeiro vigário de Oeiras e ainda titular ao tempo de Baltazar Miranda, é um exemplo, ao trazer alguns sobrinhos que iniciaram a família Carvalho, no Piauí. Mais tarde, o padre português João Manoel d’Almendra, vigário de Campo Maior, no Piauí, trouxe os sobrinhos Jacob Manoel d’Almendra e José Almendra de Freitas, que iniciaram as famílias Almendra, Freitas e Gaioso, no Piauí. Portanto, não é despropósito se pensar que o vice-vigário Baltazar Miranda possa ter trazido para Oeiras alguns irmãos ou sobrinhos para iniciarem vida nesses dilatados sertões de dentro. Desde que tivemos notícia da existência desse religioso em Oeiras, alimentamos essa hipótese porque foi exatamente nos arredores dessa povoação, mais precisamente no vale do rio Piauí, que encontramos os primeiros membros da família na bacia parnaibana.
Parentes ou não daquele religioso, nesse mesmo período adentram o sertão, desbravam, colonizam e assentam as caiçaras de seus currais os irmãos João Rodrigues de Miranda e Francisca de Miranda do Rosário. Que motivos os teriam trazido ao Piauí? Não seria plausível a presença de outros parentes já aqui estabelecidos? Ou mesmo de conterrâneos? Por esses dias existem registros de muitos colonos do Alto Douro, de Algarve e até da Galícia.
O certo é que atuando firmemente na margem ocidental do rio Piauí, João Rodrigues de Miranda combate os índios que infestavam os vales do riacho Fundo e de seus afluentes, os riachos do Brejo e de Santa Maria. Então, estabelece seus primeiros rebanhos em fazenda que denomina Buriti, nas margens do riacho do Brejo, também chamado Brejo do Buriti, hoje cidade de Brejo do Piauí, onde constrói casa, curral, capela e primeiros roçados. No Mapa do Piauí, de Henrique Antonio Galluzzi(1760), aparece como fazenda com capela. Todavia, mesmo arriscando sua vida para colonizar essas terras, é obrigado a pagar renda aos Regulares, como sucessores de Domingos Afonso Sertão, no valor de 10$000 (dez mil réis) anuais(AHU-Piauí. Cx. 4, Doc. 4; Cx. 25, Doc. 60; AHU-ACL-CU-016, Cx. 4, Doc. 309). E com o crescimento de seu rebanho bovino e cavalar vai alargando seus domínios pela região, cedendo parte aos filhos à medida que vão crescendo e se estabelecendo. Assim, é que na relação de fazendas e criadores que o Conselheiro Francisco Marcelino de Gouveia elabora e finaliza em 15 de novembro de 1762, aparece como possuidor e morador na “fazenda Buriti, com três léguas de comprido, e de largura em a metade de uma légua, e em outra nada, por serem matas bravas, do qual também foram (por ele) povoadas”. Informa que “destas duas fazendas também se pagou renda aos Regulares até o tempo que cessou a satisfação delas” em razão de sua expropriação e expulsão dos mesmos, assumindo aquele o domínio do imóvel(AHU-Piauí. Cx. 07, Docs. 26 e 27; AHU-ACL-CU-018, Cx. 8, Doc. 513).
Sobre seus filhos o mesmo documento informa que “Antonio Pereira de Miranda, possui uma fazenda chamada Trindade, com légua e meia de comprido, e de largura meia, a qual povoou com consentimento de seu pai, a quem pertenciam as terras dela” (AHU-Piauí. Cx. 07, Docs. 26 e 27; AHU-ACL-CU-018, Cx. 8, Doc. 513). Também, “Francisco Félix de Miranda, possui uma fazenda chamada as Guaribas, com duas léguas de comprido e uma de largura, a qual povoou também, por consentimento de seu pai, a quem pertenciam as terras/ por serem como as da sobredita fazenda/ da do Buriti, de que são possuidores os ditos seus pais” (AHU-Piauí. Cx. 07, Docs. 26 e 27; AHU-ACL-CU-018, Cx. 8, Doc. 513)). Essa fazenda Guaribas é, provavelmente, a origem da cidade de Canto do Buriti. Mais tarde, em 1764, o mencionado Francisco Félix de Miranda aparece como intendente na arrecadação de alimento(gado e farinha) para abastecer a tropa capitaneada pelo tenente-coronel João do Rego Castelo, e que ia ao mato combater os índios Gueguês, Timbiras e Acoroás. Fora designado pelo governador João Pereira Caldas para arrecadar esses mantimentos no médio curso do rio Piauí e lados dele(Arquivo Público do Piauí. Códice 146, p. 156/157).
Outro documento importante para se reconstituir a presença dessa família na colonização do vale do rio Piauí, é a relação de fazendas e moradas da freguesia de N. Sra. da Vitória, elaborada pelo vigário Dionísio José de Aguiar, em 29 de maio de 1763, com base nos róis de desobrigas do ano anterior. Segundo anotou o referido vigário, o pioneiro João Rodrigues de Miranda havia falecido, encontrando-se residindo na aludida fazenda Buriti, a viúva Josépha de Souza, com os filhos Ignácio, Luiz e João, mais quatorze escravos e um forro; também residiam na fazenda, Antonio Pereira e Julião Pereira, que devem ser seus filhos, embora o vigário não indique o parentesco, apenas dos que residiam sob o mesmo teto, e suas respectivas esposas Mariana da Silva e Inocência de Abreu; o último casal residia com os filhos solteiros José e Joana, além de Ignácia de Abreu, filha viúva(AHU-Piauí. Cx 8., Doc. 13; Cx. 7, Doc. 13; AHU-ACL-CU-016, Cx 9, Doc. 547). Antonio Pereira, não seria o mesmo Antonio Pereira de Miranda, do registro anterior, e que não aparece nesse? Também, nesse segundo registro não aparece Francisco Félix de Miranda, apenas Francisco Félix, residindo na fazenda Santa Maria, com sua esposa Eugênia Maria. Parece que o vigário gostava de economizar na tinta, abreviando os nomes.
Portanto, até o momento está comprovada a filiação de cinco filhos do casal João Rodrigues de Miranda e Josépha de Souza, faltando comprovar a filiação de outros.
Todavia, outros Miranda residiam no vale do rio Piauí, muito próximo desse casal e de seus filhos. Na fazenda São João, situada no riacho de Antonio Pereira, afluente do Piauí, residia a viúva Maria de Miranda, com os filhos Manoel, Joana, Ana, Ignácia, Antonia e Francisca; também, Manoel de Miranda, que aparece sem indicação de parentesco. A fazenda lhe pertencia “por falecimento de seu marido Antonio Pereira de Abreu, que a tinha descoberto e povoado”. Na fazenda Piripiri, residia Manoel Barbosa de Miranda, que a descobrira e povoara, já não existindo em 1762, apenas a viúva Helena de Brito, com dez escravos e dois forros(AHU-Piauí. Cx 8., Doc. 13; Cx. 7, Doc. 13; AHU-ACL-CU-016, Cx 9, Doc. 547)..
Também, logo depois do rio Piauí, Canindé abaixo, na fazenda Retiro residia Joana de Miranda, com seu marido Manoel Ferreira Guimarães e os filhos José Rodrigues, Manoel Ferreira, Leonardo Ferreira, Joaquim Ferreira, Antonio Ferreira(menor), Maria da Purificação e Teresa de Jesus(AHU-Piauí. Cx 8., Doc. 13; Cx. 7, Doc. 13; AHU-ACL-CU-016, Cx 9, Doc. 547).
Por fim, ainda na ribeira do Piauí, na fazenda Palmeira de São Tiago, morava a pioneira Francisca de Miranda do Rosário, viúva do capitão-mór Domingos de Abreu Valadares, com os filhos Gaspar de Abreu Valadares, que fora almotacé, vereador, juiz ordinário e de órfãos da vila da Mocha, depois cidade de Oeiras, José de Abreu Valadares e Francisca de Miranda. A filha Ignácia da Conceição, nossa ancestral, casara com o português Manuel Alves da Rocha e fora morar na fazenda Craíbas, vale do rio Gurguéia. Segundo uma petição datada de 24 de novembro de 1769, da “viúva que ficou do capitão-mór Domingos de Abreu Valadares(...), tem a trinta anos que (este) é falecido, ficando por seu falecimento de todo exaurido de bens, que todos os gastou no serviço de Sua Majestade, no princípio da povoação desta Capitania em desinfestar o gentio das ribeirras do Piauí, Canindé, Itaim e Itaueira, e à sua custa” (AHU – Piauí, Cx. 9, Doc. 22. AHU-ACL-CU-016, Cx. 10, Doc. 628; AHU-Piauí, Cx. 10., Docs, 3 e 19; AHU-ACL-CU-016, Cx. 11, Doc. 655).
Toda essa gente morava, com exceção de Joana de Miranda, na ribeira do Piauí e, certamente, era aparentada. É que, por esse tempo, essa proliferação de Miranda não existe em outros vales ribeirinhos, somente passando ao Itaueira e Gurguéia depois de alguns anos. E seria muita coincidência que todos eles fossem morar próximo sem serem parentes. Não há dúvida, porém, de que D. Francisca de Miranda do Rosário era irmã de João Rodrigues de Miranda. Então, os que não forem filhos de um serão filhos do outro. Existe documento que comprova o parentesco entre os filhos de ambos4.
E porque a ribeira do Piauí vai se consolidar como berço de nossa família durante o século XVIII, ainda citamos um casal de portugueses de avultados cabedais, segundo os cronistas, que também morava nesse vale e que seus descendentes iriam se entrelaçar com os Miranda. Segundo o relatório do vigário(1763), residia na fazenda das Mutucas(não seria Malhada?), os fazendeiros Antonio Pereira da Silva e Maria da Purificação, com os filhos Manoel Caetano, Antonio, Francisco(então menor, e nosso ancestral), Joséfa Maria(casada que era com o tenente Hilário Vieira de Carvalho, também nosso ancestral), Leandra e Simoa, com nove escravos, dois forros e um agregado. Por esse tempo, a filha Maria Pereira da Silva já não residia em companhia dos pais, e sim do marido José Vieira de Carvalho(AHU-Piauí. Cx 8., Doc. 13; Cx. 7, Doc. 13; AHU-ACL-CU-016, Cx 9, Doc. 547). Os filhos varões foram membros da Junta Trina de Governo do Piauí(1775 – 1798).
Também, outra família dessa ribeira e que iria se entrelaçar com a nossa seria a dos Ribeiro Soares, cujo embrião fora a viúva Maria Josépha de Jesus, cujo marido já não existia em 1765. Morava ela na fazenda da Onça, em companhia dos filhos José, Gabriel, Ana, Ignez, Izabel e Manuel Ribeiro Soares, este último casado com Iria Dias(AHU-Piauí. Cx 8., Doc. 13; Cx. 7, Doc. 13; AHU-ACL-CU-016, Cx 9, Doc. 547). A essas, mais tarde, iriam se juntar outras famílias de outros vales ribeirinhos.
Entre os filhos de João Rodrigues de Miranda, vai sobressair o capitão Ignácio Rodrigues de Miranda. Nascido em 1737, na fazenda Buriti, vale do rio Piauí, termo de Oeiras, inicia carreira militar desde muito cedo, quando sentou praça no posto de soldado da Companhia Franca de Dragões. Em pouco tempo foi promovido a Ajudante do Terço das Ordenanças(as primeiras que foram organizadas no Piauí, posteriormente extintas). Mais tarde(1777), quando foi novamente organizado o Terço de Ordenança do Piauí, teve ele o nome indicado novamente, sendo, porém, recusado pelo general do Estado, porque não se encontrava servindo na tropa ao tempo da proposta. Por esse tempo, a Junta Trina de Governo do Piauí, testemunha ser ele um “homem distinto” e merecedor da nomeação. No mesmo ano de 1777, em que ocorrem esses fatos, foi nomeado Capitão do Terço de Cavalaria da Capitania de São José do Piauí. Durante os anos de 1782/83, foi eleito Ouvidor-geral, e como tal assumiu a presidência da Junta Trina de Governo. Portanto, Ignácio de Miranda, em companhia de dois adjuntos(um vereador e um militar), por dois anos consecutivos governou a Capitania de S. José do Piauí. Posteriormente, em 1790 comandou a tropa militar que marchou para as cabeceiras do rio Piauí, em combate aos índios Pimenteiras. Após alguns entreveros, conseguiu aprisionar onze deles, tratando-os com todo o cuidado, sendo essa a primeira vez que índios dessa nação foram aprisionados no Piauí. Depois dessa campanha, permanece em sua fazenda Buriti, que fora de seu falecido pai. É que nomeado pela Junta Trina de Governo, assumiu o comando militar do rio Piauí. Nesse posto permanece até à morte em princípio do século XIX.
Por seu turno, no segundo lustro do século XIX, o governador Carlos César Burlamaque vai enfrentar firmemente a prepotência dos governantes do Maranhão, cuja capitania era geral, sendo-lhe a do Piauí subalterna. E como resultado desse conflito jurisdicional deflagrado pelo governador do Piauí, que não se conformava com a condição humilhante de subalterno do Maranhão, foi o mesmo preso e afastado de suas funções, por ordem daquele. Então, a sociedade piauiense levanta-se em defesa de seu governador e em protesto contra as arbitrariedades que se praticava, de que resultou na plena autonomia do Piauí, que foi elevado à categoria de capitania geral. O movimento de solidariedade foi liderado pelo Senado da Câmara de Oeiras, a ele se juntando o clero, os militares, a aristocracia rural e o povo em geral. A esse movimento não poderiam se furtar os Miranda, sempre afeitos à luta. Reunidos para esse fim, 79 fazendeiros do vale do rio Piauí, entre esses, treze Miranda e outros parentes, firmaram documento em defesa do governador. Embora o documento não seja datado, o despacho que o recebe é de 18 de agosto de 1807. Assinaram o mesmo, entre outros, os seguintes parentes6: Raimundo Pereira de Miranda, João Barbosa de Miranda, Felipe Neri de Miranda, Leandro Rodrigues de Miranda(1º), Ladislau Pereira de Miranda, Francisco Bernardino de Miranda, Manoel Pereira de Miranda, José Barbosa de Miranda, Manoel Barbosa de Miranda, Leandro Rodrigues de Miranda(2º), Pedro Rodrigues de Miranda, Cosme Barbosa de Miranda e José Pereira da Silva Miranda. Note-se que existem dois com o prenome Leandro, talvez tratando-se de pai e filho. Também, assinaram esse documento Francisco Pereira da Silva e João Vieira de Carvalho, nossos parentes. Entre os demais signatários do documento, alguns deveriam ser casados com mulheres de nossa família. É que por esse tempo apenas os homens participavam dessas reuniões. Também, aí já participaram representantes da segunda e terceira geração da família no vale do rio Piauí (AHU-Piauí – Cx. 23, Doc. 20, 25, 29; AHU-ACL-CU-016, Cx 30, Doc. 1573).
Documentos com o mesmo teor foram firmados pelos fazendeiros de outras regiões da capitania. Entre os moradores do vale do rio Gurguéia aparecem as assinaturas de Antonio Rodrigues de Miranda e Albino Rodrigues de Miranda, além de Manoel Caetano da Rocha e Bernardo Luís da Rocha, todos nossos parentes. E entre os da vila de Jerumenha, firmam o requerimento Francisco Félix de Miranda e Lutero de Miranda, além de João Alves da Rocha e Antonio da Rocha, também parentes. (AHU-Piauí – Cx. 23, Doc. 20, 25, 29; AHU-ACL-CU-016, Cx 30, Doc. 1573).
Então, esses documentos comprovam que no início do século XIX, os Miranda já começavam a migrar para os vales do Itaueira e Gurguéia, no termo de Jerumenha, onde vão aumentar vertiginosamente, entre esses Francisco Félix de Miranda.
Porém, Felipe Neri de Miranda ainda residia na ribeira do Piauí, onde assina o documento, logo mais passando para o Itaueira. Sobre esse antepassado ainda existe alguma dúvida a respeito de sua filiação. Na ausência de documentos, recorremos às probabilidades, ao entender ser ele filho de Ignácio Rodrigues de Miranda ou de seu irmão Francisco Félix de Miranda, ambos filhos do pioneiro João Rodrigues de Miranda. Assim pensamos porque, entre outros fatos, batizou um de seus sete filhos com o nome de Francisco Félix de Miranda(2º do nome) e outro com o nome de Ignácio Francisco de Miranda. E entre seus netos e bisnetos vamos encontrar muitos com o prenome “Ignácio” e outros com nome e sobrenome “Rodrigues de Miranda”. Inclusive, o próprio era tratado ora por Felipe Neri de Miranda, ora por Felipe Rodrigues de Miranda. Nos registros eclesiásticos aparece Joaquim Felipe Neri de Miranda. Embora ao final de sua vida fosse residente na fazenda Tabuleiro Grande, no vale do rio Itaueira, termo de Jerumenha, próximo aos limites com Oeiras, em 1807 ainda residia no vale do rio Piauí, onde firma o documento em apoio ao governador Burlamaque. Também, na relação de seus bens aparece uma propriedade denominada Buriti, no termo de Oeiras, em clara evidência ao imóvel de seus ancestrais. E o capitão Ignácio Francisco de Miranda, seu filho, por muito tempo residiu no termo de Oeiras, onde se casou, demonstrando a ligação deles com aquele termo, berço dos primeiros Miranda, aqui relacionados.
Não pense, porém, o leitor que em nossa pesquisa genealógica trabalha a fantasia, sendo ela toda calcada em fonte documental, principalmente autos de inventário e cíveis em geral, termos de qualificação eleitoral, atas de eleição, livros de registros de ofícios e correspondências oficiais, listas de recenseamentos descritivos, de fazendas e de criadores, registros de imóveis, livros de registros de nascimentos, batizados, casamentos e de óbitos, etc.
Formado em Direito em julho de 1988, desde então iniciamos na advocacia, nos primeiros anos com quase toda a militância no sul do Piauí. E nos primeiros três anos de advocacia, por todas as comarcas em que militamos, desde Floriano a Jerumenha, São João do Piauí, Bertolínia e Bom Jesus, onde nos levavam os interesses dos clientes, aproveitamos sempre essas oportunidades para bisbilhotar os arquivos judiciais e restaurar o passado dessa família sul-piauiense a que temos a honra de pertencer. Complementamos esses dados com pesquisas no Arquivo Público do Piauí, nosso velho conhecido desde a elaboração de um livro anterior sobre a cidade de Bertolínia, onde nascemos. Foram três anos de pesquisa, ao fim da qual elaboramos uma apostilha impressa e encadernada que traz na capa o ano de 1991. Desde então, conhecidas as informações centrais que fazem as ligações de Felipe Neri de Miranda com as atuais gerações, deixamos essa apostilha numa gaveta e de vez em quando anotávamos um dado novo fortuitamente encontrado. Recentemente, encontramos importantes informações na documentação do Arquivo Histórico Ultramarino(AHU), de Lisboa. Assim nasceu a árvore genealógica da família Miranda e de outras que lhe são entrelaçadas.
Por fim, as probabilidades sobre os demais filhos de João Rodrigues de Miranda e sobre a ascendência de nosso ancestral Felipe Neri de Miranda, ficam como sugestões para outros interessados que desejem investigar as origens mais remotas dessa família. A documentação eclesiástica de Oeiras, à qual até agora não tivemos acesso, pode esclarecer tudo. Recomendamos, então, a análise de registros eclesiásticos dessa freguesia e de Jerumenha, documentação judicial da comarca de Oeiras, além de requerimentos e registros de sesmarias. A análise cuidadosa dessa documentação esclarecerá essas dúvidas, pois certamente existirão registros, vez que todos esses primeiros ancestrais foram militares, proprietários rurais, membros de câmaras municipais, juízes ordinários, etc., não sendo impossível se encontrar anotações sobre eles. A quem interessar, fica aberto o caminho através destas primeiras informações.
Também, gostaríamos de lembrar que essas informações genealógicas visam dar conhecimento aos descendentes e a quem interessar possa, sobre as origens da família Miranda e de outras que lhe são entrelaçadas. Traz o caule e os principais galhos da árvore, sem atualização das ramificações mais recentes. É que anotamos apenas os dados que encontramos nos arquivos. Não fomos buscar informações nos descendentes atuais dessas gerações, porque achamos enfadonha essa tarefa de incomodar os parentes com busca de informações pessoais. Sabe-se que, nessa luta renhida pelo capital, nem todos dão valor a estudos genealógicos. E para evitar dissabores preferimos não incomodar ninguém. Ficamos, porém, à disposição daqueles que desejem atualizar seus dados ou de seus respectivos ramos familiares, bastando nos entregar pessoalmente as informações ou enviá-las pelos correios ou via e-mail, a fim de que possamos inscrevê-los na árvore genealógica da família, o fazendo com o maior prazer. Por essa razão, as disponibilizamos na Internet, para facilitar a complementação. Por oportuno, esclarecemos que os dados da descendência do major José Felipe Neri de Miranda, nosso ancestral, quase todos sem o apelido Miranda, estão um pouco mais atualizados porque esses descendentes também são pertencentes à família Rocha6, do sul do Piauí, e tiveram a sua árvore genealógica atualizada recentemente, de onde retiramos algumas informações sobre pessoas mais recentes. Frise-se que além de termos participado daquela reedição (3ª), cedemos os originais desse livro para complementar aquela, de forma que se comparando a terceira edição com as anteriores de Dados Genealógicos da Família Rocha, verificaremos que muitas informações por nós levantadas foram ali incorporadas, com nossa aquiescência, constando, inclusive, na bibliografia. A bem da verdade, deixamos de traçar nesse estudo a genealogia completa da família Rocha, a que também pertencemos e sobre a qual temos muitas anotações, porque a mesma já foi levantada por outros pesquisadores, sendo desnecessário repeti-los. Por fim, outro fator que tem atrasado a publicação desse estudo é a necessidade de complementar a ascendência das famílias Brasil, Rodrigues, Santana, Martins e Ramos, do lado paterno, cuja tradição familiar remonta ao capitão Roberto Ramos da Silva7(Roberto da Cachoeira), fazendeiro estabelecido na fazenda Cachoeira, divisa do Piauí com Pernambuco, também entrelaçada aos Miranda. É que sendo descendentes do português estabelecido no Piauí, Valério Coelho Rodrigues, passaram para a divisa de Pernambuco, hoje Município de Afrânio(PE), e dali algumas gerações retornaram ao Piauí, de qualquer forma obrigando uma pesquisa em Pernambuco, a fim de fazer a ligação entre as gerações. Infelizmente, ainda não temos essas informações.



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JOÃO RODRIGUES DE MIRANDA, fazendeiro, pioneiro da colonização do Piauí, desbravador e povoador de extensas áreas no vale do rio Piauí e de seu afluente, o riacho Fundo, este formado pelos riachos de Santa Maria e do Buriti, que desinfestou do gentio e onde assentou a caiçara dos primeiros currais; residente na fazenda Buriti, hoje cidade de Brejo do Piauí; foi c.c. D. Josépha de Souza, que lhe sobreviveu; filhos(ao que conseguimos apurar):
F.1. Francisco Félix de Miranda(1º), fazendeiro, residente na fazenda Guaribas e depois na fazenda Santa Maria, ambas no vale do rio Piauí, de onde passou para o termo de Jerumenha no início do século XIX; foi c.c. D. Eugênia Maria; ainda sem filhos em 1765. (Nota: Na relação de fazendas do Conselheiro Francisco Marcelino de Gouveia, aparece como rendeiro da fazenda Guaribas, por disposição de seu pai; e na lista dos moradores, conforme rol de desobriga do vigário Dionísio José de Aguiar, aparece apenas com o nome de Francisco Félix e residindo na fazenda Santa Maria, que seu pai vendera a Vidal Afonso Sertão).
F.2. Antonio Pereira de Miranda
F.3. D. Maria de Miranda*, residente na fazenda São João, vale do rio Piauí, foi c.c. Antônio Pereira de Abreu(já falecido em 1762); filhos: Manoel, Joana, Ana, Ignácia, Antônia e Francisca; também, morando na fazenda aparece Manoel de Miranda, mas o rol de desobrigas não indica o parentesco acaso existente.
F.4. Manuel Barbosa de Miranda*, residente na fazenda Piripiri, vale do rio Piauí, já não existindo em 1762; foi c.c. D. Helena de Brito, que lhe sobreviveu; no rol das desobrigas, não morava com ela, já viúva, qualquer descendente, que parece não existir, apenas dez escravos e dois forros.
F.5. José Fernandes de Miranda*, foi c.c. uma filha de Francisco Xavier de Azevedo; possuía a fazenda da Alagoa, terras de engenho e pagava 160$000 de renda anuais aos Regulares, como sucessores de Domingos Afonso Sertão.
F.6. Ignácio Rodrigues de Miranda, fazendeiro, militar e político de larga atuação na segunda metade do século XVIII.
F.7. Luiz
F.8. João
(Confirmada a filiação apenas de cinco filhos; os três que aparecem com asterisco ainda não tiveram a filiação comprovada, embora morassem entre esses, razão de terem sido relacionados, podendo ser também irmãos dos pioneiros).

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D. FRANCISCA DE MIRANDA DO ROSÁRIO, fazendeira, pioneira da colonização(era irmã de João Rodrigues de Miranda), residente, senhora e proprietária da fazenda Palmeira de São Tiago, no médio curso do rio Piauí, onde faleceu c. de 1770; foi c.c. o capitão-mór Domingos de Abreu Valadares, fazendeiro, militar, pioneiro da colonização do Piauí, f. c. 1739 e segundo declarou a viúva em 24 de novembro de 1769, “tem a trinta anos que é falecido” (AHU – Piauí, Cx – 9, Doc. 22); filhos(ao que conseguimos apurar):
F. 1. Gaspar de Abreu Valadares, fazendeiro, político e magistrado piauiense, “e das famílias nobres desta Capitania, natural desta mesma freguesia (de N. Sra. da Vitória, de Oeiras), donde sempre foi morador e ocupando os empregos mais honrosos desta cidade (de Oeiras), como almotacé, vereador, juiz ordinário e de órfãos” conforme declarou e foi comprovado por testemunhas em auto de justificação que tramitou em agosto de 1772; com o prematuro óbito do pai tornou-se arrimo de família, ajudando a criar os irmãos mais novos.
F.2. D. Inácia da Conceição(f. 25.06.1791), c. 1747, c.c. Manuel Alves da Rocha(f. 16.06.1771), fazendeiro, português de nascimento, ao que diz a tradição, fixando residência definitiva na fazenda Craíbas, no vale do Gurguéia, onde já residia o esposo; filhos: 2.1) Joséfa Maria de Santana, faleceu sem deixar sucessores; 2.2) Manuel Caetano da Rocha, não se conhece nada sobre a existência de sucessores; 2.3) João Alves da Rocha, foi c.c. Antônia Vieira de Carvalho, deles descendendo muita gente, inclusive o saudoso padre José Marques da Rocha, os acadêmicos Petrarca Rocha de Sá e Pedro da Silva Ribeiro e o ex-governador do Maranhão, Luiz Alves Coelho Rocha; 2.4) Ana, faleceu sem sucessores; 2.5) Gonçalo Francisco da Rocha, foi c.c. Maria Vieira de Carvalho, filha de Hilário Vieira de Carvalho e Joséfa Maria da Conceição(deles descendem os acadêmicos João Crisóstomo da Rocha Cabral, Adelmar Soares da Rocha, Zenon Rocha e Reginaldo Miranda da Silva, bem como o ex-governador João Clímaco de Almeida); 2.6) Jerônima Teresa de Jesus, foi c.c. o capitão José Vieira de Carvalho, não deixando sucessores; 2.7) Bernardo Luís da Rocha, foi c.c. Claudina Maria de Jesus, de cujo consórcio deixou quatro filhas: Inácia, Ana, Bibiana e Raimunda;
F.3. José de Abreu Valadares
F.4. Francisca de Miranda(2ª)

***

CAPITÃO FELIPE NERI DE MIRANDA (nos registros eclesiásticos aparece Joaquim Felipe Neri de Miranda; em vários registros aparece Nery), fazendeiro piauiense, n.c.1772, no vale do rio Piauí, neto de João Rodrigues de Miranda e sua mulher, D. Josépha de Souza; residente na fazenda Tabuleiro Grande, na ribeira do Itaueira, naquele tempo pertencente ao termo de Jerumenha, depois, sucessivamente da Manga, de Floriano, de Itaueira, de Rio Grande do Piauí e, por último, de Pavussu, onde veio a falecer ab intestato no dia 9 de maio de 1828; c. 1797 c. c. D. QUITÉRIA VIEIRA DE CARVALHO, que lhe sobreviveu, sendo ela filha do tenente Hilário Vieira de Carvalho (2.º do nome), Juiz Ordinário e Órfãos, residente na fazenda Várzea Grande, do termo de Jerumenha, onde faleceu em 1813, e de D. Josefa Maria da Conceição; neta paterna de Hilário Vieira de Carvalho (1.º do nome), fazendeiro, vereador, residente na fazenda da Volta, no vale do rio Canindé, arrematador dos dízimos da Capitania do Piauí durante os anos de 1725 a 1727 e 1740 a 1742 e de D. Maria do Rego (esta filha do Capitão-mór Manoel do Rego Monteiro); bisneta de José Vieira de Carvalho e Maria Freire da Silva, casal paulista de origem portuguesa que entrou no Piauí na bandeira de 1719, fundando um arraial de paulistas que deu origem à cidade de Paulistana(PI); neta materna de Antonio Pereira da Silva e D. Maria da Purificação, casal de abastados fazendeiros portugueses radicados na fazenda Mutucas, vale do rio Piauí; eram devotos de Nossa Senhora da Conceição; do entrelaçamento matrimonial, nasceram sete filhos, com idades em 1828, segundo consta no inventário do genitor:
F.1- Major José Felipe Neri de Miranda - 29 anos;
F.2- Manuel Felipe de Miranda - 25 anos;
F.3- Francisco Félix de Miranda - 20 anos;
F.4- Thereza Maria da Conceição - 16 anos;
F.5- D. Leandra Maria da Conceição - 15 anos;
F.6- Cap. Ignácio Francisco de Miranda - 13 anos;
F.7- Carolina Maria da Conceição - 10 anos;
Destes, D. Leandra Maria da Conceição, n. em 1813, casou-se e transferiu-se para o termo de Pilão Arcado, na Bahia, onde deixou filhos, já não existindo em 1867. Nada sabemos informar a respeito do destino de Thereza e Carolina. Teriam seguido a irmã para a Bahia? Faleceram solteiras? Casaram e não tiveram filhos? É difícil asseverar. Por essas razões, a descendência do capitão Felipe Neri de Miranda, será traçada apenas por seus filhos varões. Sempre há a esperança de que um dia alguém possa complementar esta pesquisa. José Felipe Neri de Miranda e Francisco Félix de Miranda, também são ancestrais do autor dessas notas.

Nos livros de registros de correspondências da capitania de S. José do Piauí, arquivados no Arquivo Público Estadual encontramos duas missivas do governador D. João de Amorim Pereira a Felipe Nery de Miranda, datadas do ano de 1799, então com a patente de porta-estandarte. Interessante é que a primeira dessas missivas o trata por Felipe Rodrigues de Miranda, talvez em alusão ao nome de Ignácio Rodrigues de Miranda. A segunda, certamente com os dados da resposta, já o trata pelo nome correto. A título de registro histórico seguem na íntegra. A primeira correspondência se reporta às diligências militares de que esse Miranda era encarregado e sobre a dispensa de alguns moradores encarregados das fazendas do Real Fisco:

Carta ao Porta Estandarte Felipe Roiz de Miranda.
Chegando a mim a notícia por várias vezes que V.M.ce chama para o exercício não só aos vaqueiros das fazendas do Real Fisco, mas também aqueles que se hão empregados nas obras das mesmas fazendas como o carpina que atualmente se acha fazendo carros e mais acessórios das ditas fazendas vou declarar a V.M.ce que as pessoas que se declarem como essa mencionada, ocupadas no indispensável e ativo serviço das fazendas de Sua Mag.e não se deve enquanto este durar distrair das suas ocupações tão essenciais para a conservação do patrimônio Real// Deus guarde a V.M.ce. Palácio de Oeiras 10 de Setembro de 1799/ Dom João de Amorim Pereira/ Snr. Porta Estandarte Felipe Roiz de Miranda”(CABACap. Cod. 157. P. 194).

No mesmo sentido da primeira, também essa segunda correspondência se reporta à disciplina militar de vaqueiros e demais empregados das fazendas do Real Fisco, sob responsabilidade do Porta-Estandarte Felipe Miranda. Era ele responsável pela disciplina militar em sua região.

Carta ao Porta Estandarte Felipe Nery de Miranda.
Pelo portador foi entregue nesta Secretaria a carta que V. M.ce me dirigiu inclusa a que recebeu do seu comandante cuja volta outra vez. Tendo determinado a V.M.ce assim como a todos os mais encarregados da disciplina militar o que se deve obrar com os vaqueiros e mais pessoas empregadas no serviço das fazendas do Real Fisco, o mesmo seu comandante me propôs o que V.M.ce lhe representou respeito o acharem-se disciplinados os soldados dessa Ribeira sobre cujo assunto lhe ordenei o que havia de fazer. Deus guarde a V.M.ce. Palácio de Oeiras 9 de Outubro de 1799/Dom João de Amorim Pereira/Snr. Porta Estandarte Felipe Nery de Miranda”(CABACap. Cod. 157. P. 212).

Portanto, são esses alguns dados sobre esse nosso antepassado da família Miranda, do centro-sul do Piauí. No tempo da correspondência supra, ocupava o posto de porta-estandarte, depois foi promovido, sendo reformado no posto de capitão de um dos regimentos da capitania. Em outra oportunidade divulgaremos dados sobre sua descendência.

NOTAS
  1. Texto adaptado da introdução ao livro Memória dos ancestrais, ainda inédito.

  1. Advogado e escritor. Titular da Cadeira n.º 27 e atual presidente da Academia Piauiense de Letras.

  1. CARVALHO Jr, Dagoberto Ferreira de. História episcopal do Piauí. 2.ª Ed. Recife: Editora Thormes, 2011: “Nomeia-se por provisão de 1712, segundo pesquisa do bacharel Jerônimo Martiniano de Melo, o Chantre Baltazar de Faria e Miranda para vice-vigário da freguesia de Nossa Senhora da Vitória. O documento acha-se registrado na Câmara Eclesiástica de Olinda. Depreende-se do fato, o crescimento da freguesia, a exigir já àquela época, auxiliar de tão elevada dignidade hierárquica” (p. 44).

  1. Autos da devassa feita pelo cônego João Maria da Luz Costa, por ordem do Bispo frei D. Antônio de Pádua, sobre o procedimento do vigário colado da igreja matriz de Oeiras, padre Dionísio José de Aguiar. Depoimento da testemunha n.º 23, Francisco José dos Santos, sobre o fazendeiro e político Gaspar de Abreu Valadares ter falecido sem receber o sacramento de unção, por recusa do aludido vigário: “sabe por lhe dizer o mesmo Gaspar de Abreu ao tempo de sua enfermidade que para haver de receber o sacramento da eucaristia, havia pedido, ou escrito a seu primo o capitão Ignácio Rodrigues de Miranda, então Ouvidor interino, nesta cidade(de Oeiras), que de outra forma não podia conseguir por ter inimizade com o Reverendo vigário; e o mandava esperança que logo o faria” (AHU-Maranhão. Cx. Nv 886; Piauí, Cx. 12, Doc. 2; AHU-ACL-CU-016, Cx. 15, Doc. 829). O importante a ressaltar é o parentesco existente(a testemunha declarou serem primos), entre Gaspar e Ignácio, filhos, respectivamente, dos pioneiros Francisca de Miranda do Rosário e João Rodrigues de Miranda.

  1. Segue o documento, na íntegra: “Ilmo. Senado. Nós abaixo assinados, moradores na ribeira do Piauhy, constando-nos que V. Sas., à frente do Clero, Nobreza e povo dessa cidade, como Metrópole da Capitania, recorriam a S. Alteza para que fosse servido por sua inata piedade conservar por mais nove anos no governo da Capitania o Ilmo. Sr. Carlos César Burlamaque, seu atual governador, e desanexar para sempre da Capitania Geral do Maranhão, dita Capitania e lhe permitir liberdade para livremente comerciar com a Capital do Reino. Tendo não só nós, mas todos os moradores desta Capitania, experimentado quão útil e vantajoso nos é, e tem sido o suave, piedoso, sábio e justo governo do dito Ilmo. Sr., que com tanta eficácia cuida na fidelidade pública, e em desterrar os males que os pretéritos governos nos haviam causado, e pela falta de liberdade do comércio. P//a V. Sas., Ilmo. Senado, que à sobredita representação queiram unir este nosso requerimento, pelo qual nos obrigamos a cumprir, da nossa parte toda, e qualquer proposição que para o conseguimento das referidas graças V. Sas., fizerem a Sua Alteza Real, ou aqueles outros que este Sr. for servido impor para este fim. E. R. Mce..Ass: Francisco Pereira da Silva; Antonio de Medeiros Chaves; Francisco Xavier de Macedo; Joaquim da Silva Barbosa; Raimundo Pereira de Miranda; Joaquim Jorge Afonso; João Barbosa de Miranda; João Vieira de Carvalho; Felipe Neri de Miranda; Martinho Soares dos Santos; Luís Soares da Cunha; Manoel Soares de Brito; José Joaquim Soares; Leandro Rodrigues de Miranda; Joaquim Ribeiro Soares; Ladislau Pereira de Miranda; Plácido Ribeiro Soares; Damião Barbosa; José Pereira da Silva Araújo; José Ribeiro Soares; Francisco Bernardino de Miranda; João Baptista Ribeiro; João Paulo da Silva; Manoel Pereira de Miranda; Bernardo Alves de Araújo; José Barbosa de Miranda; Manoel Barbosa de Miranda; Manoel dos Santos P....; Eugênio José P...; Manoel da Costa Passos; Patrício Alves; Eliziário Pereira de Araújo; Manoel de Souza; Clemente Ribeiro de Souza; Manoel Pereira Maciel; Manoel de Oliveira Lima; Antonio Félix Gansolo; José de Matos Z...; José de Araújo; José Francisco Soares; Antonio José L...; José Joaquim de ...; ...... ..... Lima; Manoel Gomes Afonso; José Pereira de Máximo; Leandro Rodrigues de Miranda; Manoel Roberto Ferraz Porto; Joaquim José de Santa Ana; Manoel Pinto Ramalho; João da ....; Alexandre José da Costa; .... Júlio Ribeiro; Manoel Vicente; Manoel Gomes; Eucário Ferreira; José Maria de Oliveira; Antonio de Oliveira Araújo; Custódio de Oliveira; Floriano de Souza Estrela; Miguel Ferreira de A...; André Correia de Mesquita; Antonio Leal da Mota; Agostinho da Fonseca; João Paulo de Souza; Manoel Vicente; Antonio Nunes; Antonio Félix; Sebastião de Souza; Lucas Félix; Thomaz Ferreira da Cruz; Adriano Pereira de Novaes; José Pinto de Aguiar; Félix dos Santos; Pedro Rodrigues de Miranda; Cosme Barbosa de Miranda; José Pereira da Silva Miranda; Bento Pereira Rego; Paulo de Brito Porto; João Baptista Damasceno. Registrado à fls. 183 até 185 do Livro 10 deste Senado. Corrª (assinatura ilegível)” (AHU-Piauí – Cx. 23, Doc. 20, 25, 29; AHU-ACL-CU-016, Cx 30, Doc. 1573). O documento possui despacho datado de 18 de agosto de 1807.

  1. Esses são também descendentes da pioneira Francisca de Miranda do Rosário e de seu esposo, o capitão-mór Domingos de Abreu Valadares. É que a filha desses, Ignácia da Conceição, casou com o português Manoel Alves da Rocha e passou a morar no vale do Gurguéia, de cujo consórcio gerou a família Rocha. E duas netas suas, irmãs, de forma sucessiva, vão casar-se com José Felipe de Miranda, gerando grande descendência, que são os Costa e Silva(da ribeira do Itaueira), os Pereira Nunes e os Mendes da Rocha(os dois últimos do Gurguéia), inclusive o autor dessas notas, que descende de ambos os irmãos pioneiros.

  1. Roberto Ramos da Silva era natural de Oeiras, onde casou e ainda residia no final do século XVIII. É testemunha em autos de devassa realizada em Oeiras no ano de 1798. 

4 comentários:

  1. QUERO SABER SE SOU DECENDENTE DE ALGUEM DESTA HISTORIA REAL QUE VOÇE INFORMA MEU NOME E ARIANNI COSTA "XAVIER MIRANDA"

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  2. Quero saber se sou neta da familia " Mendes da Rocha" pois meu avô se chamava Joaquim Mendes da Rocha e o irmão Manoel Mendes da Rocha, que viveram em Oeiras quando esta era capital do Paiuí. Por favor é muito importante encontra-los.
    Eu agradeço muito
    Rosa Lucia Rocha Duarte neta de Joaquim Mendes da Rocha , meu e-mail é : rosaluciar@gmail.com
    Obrigada

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  3. Quero saber se sou neta da familia " Mendes da Rocha" pois meu avô se chamava Joaquim Mendes da Rocha e o irmão Manoel Mendes da Rocha, que viveram em Oeiras quando esta era capital do Paiuí. Por favor é muito importante encontra-los.
    Eu agradeço muito
    Rosa Lucia Rocha Duarte neta de Joaquim Mendes da Rocha , meu e-mail é : rosaluciar@gmail.com
    Obrigada

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  4. Gostaria de saber um pouco mais sobre a família Rocha. A família de meu pai é de Canto do Buriti, somos descendentes de três famílias: Nunes, Miranda e Rocha.

    Mas o trabalho de vocês foi bem elucidativo de diversas formas, valeu!

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