sexta-feira, 16 de agosto de 2013

NA COMARCA DE OEIRAS, ENTRE ANJOS E POETAS



16 de agosto   Diário Incontínuo

NA COMARCA DE OEIRAS, ENTRE ANJOS E POETAS

Elmar Carvalho

No sábado, dia 3, após ter sido promovido para o Juizado Especial Cível e Criminal da Comarca de Oeiras, fui levar alguns de meus poucos pertences ao apartamento em que passarei a residir na velha capital. Reduzi ao mínimo possível esses objetos. Fomos em minha picape e em um pequeno caminhão-baú. Fui ajudado pelos meus irmãos César (Neném) e Antônio José, e mais pelo César Pinho, pela sua esposa Simone, sobrinha de Fátima, minha mulher, que também estava presente. Meu pai, Miguel Arcângelo, não obstante seus 87 anos de idade, igualmente ajudou com bravura, na medida do possível e do impossível.

Eu havia feito, dias antes, um desses desagradáveis exames invasivos, que podem ser considerados como uma pequena cirurgia. Dirigi a picape tanto na ida como na volta, o que totaliza mais de seiscentos quilômetros, além de ter feito esforço na remoção dos móveis. Como eu estava debilitado pelo referido exame, terminei ficando com muitas dores e mal-estar, de modo que fiquei como se estivesse doente, tanto no domingo, como na segunda-feira. Dessa forma, resolvi tomar posse na terça-feira, dia 6 de agosto, dentro do prazo de 30 dias, desde a promoção, a que tinha direito.

Fui acolhido pelo juiz da Vara Única da Comarca de Oeiras, Dr. Leandro Emídio, que teve a generosidade de me convidar para morar no apartamento em que ele reside. Tomei posse administrativo-burocrática na forma de praxe. Assinei o termo lavrado por Benedito Carneiro, diretor de secretaria do Juizado. Revi o promotor de Justiça Carlos Rubem, que também designo como promotor de cultura, que conheço faz mais de duas décadas, através das diversas ocasiões em que participei de eventos literários na velha capital. Anunciou-me ele o lançamento de um livro com poemas de seu tio, o saudoso poeta Gerson Campos, cuja solenidade acontecerá no dia dia 13 de setembro, sexta-feira, à noite.

Presentes os funcionários do Juizado Especial Cível e Criminal, após a assinatura do termo de posse, resolvi dizer umas breves palavras. Falei que éramos servidores públicos, e que dessa maneira éramos servos, e tínhamos o dever de bem servir aos jurisdicionados. Lembrei-lhes que, parafraseando Jesus, o maior dos servidores públicos era o que mais e melhor servisse.

Proclamei que me considerava um quase oeirense, pois era membro correspondente do Instituto Histórico de Oeiras, do qual, para elevada honra minha, recebera a Medalha do Mérito Visconde da Parnaíba, que me fora outorgada na gestão do presidente Dagoberto Carvalho Júnior, e me fora entregue no início da administração de seu sucessor, Antônio Reinaldo Soares Filho. Há longos anos sou amigo de ambos. Tive a satisfação de prefaciar a sexta edição do esmerado livro Passeio a Oeiras, da autoria de Dagoberto, sobre quem já havia escrito alguns textos de crítica literária.

Disse-lhes ainda que havia escrito vários textos sobre Oeiras e oeirenses. Primeiro, escrevi Noturno de Oeiras, que foi publicado em formato de álbum, com ilustrações de Francisco Leandro. Posteriormente, por simpática “cobrança” do advogado Talver Mendes de Carvalho, compus o Noturno do Cemitério Velho de Oeiras. Ao longo de minha já alongada ligação afetiva e sentimental à Terra Mater, escrevi vários textos em prosa, sobretudo crônicas, crítica literária e discursos, em que abordo assuntos e escritores oeirenses.

Lançamento do livro Noturno de Oeiras e outras evocações, em solenidade promovida pelo IBENS
Enfeixei esses trabalhos no livro Noturno de Oeiras e outras evocações. Lancei-o em memorável e engalanada noite velhacapiana, sob os auspícios do Instituto Barros de Ensino, em que houve a apresentação de magníficos números artísticos, com meus versos sendo cantados ou interpretados por alunos do educandário. Como se tudo isso não fosse o bastante, o Dr. Moisés Reis, com muito talento, engenho e arte, fez uma brilhante apresentação dessa obra.

Na minha primeira semana funcional na Velha Mocha, fui conhecer a Galeria do Divino. Esse espaço cultural é mantido graças à abnegação e esforço do poeta e escritor Olavo Braz Barbosa Nunes Filho, que adquiriu a casa e as dezenas de obras artísticas, que nela são expostas. Nota-se que o espaço é bem cuidado, e se mantém limpo e bem organizado. As obras são etiquetadas com fichas técnicas, que fornecem dados sobre a obra e seu autor. Entre outros objetos, são expostos talhas, esculturas e oratórios, alguns tendo como suporte velhas bilheiras. Não é supérfluo esclarecer que Olavo Braz Nunes fez tudo com o seu próprio dinheiro, sem a ajuda de órgãos públicos, que quase sempre nada fazem e nem ajudam os que fazem.

No espaço reservado aos “Poetas Anjos e Anjos Poetas”, vi placas de vidro com belos poemas sobre Oeiras ou escritos por oeirenses. Encontrei poemas de Expedito Rêgo, Dagoberto Carvalho Júnior, Gerson Campos, Nogueira Tapety, Ribamar Matos, O. G. Rêgo de Carvalho, Vidal de Freitas, Balduíno Barbosa de Deus, Rogério Newton, Gutemberg Soares, Cassi Neiva, Stefano Ferreira, Gutemberg Rocha, Júnior Mariano, Conceição Neiva, Vivaldo Simão, Teresa Mendes de Carvalho, Paula Nataniele Nunes, Cyntia Osório, Edilberto Vila Nova e Olavo Nunes.


Sobre muitos desses poetas já tive oportunidade de emitir comentários. Para gáudio meu, conforme Dagoberto já estampara em crônica, ali estava também o meu Noturno de Oeiras. E tudo isso, repito, graças ao esforço e aos metais do mecenas e divulgador cultural Olavo Braz Nunes.  

6 comentários:

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  2. Entre Anjos e Poetas, os poetas sempre carregam uma flor no coração.



    hlima/sp

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  3. Elmar Carvalho
              
    Agora mesmo leio mais um relato de seu "Diário Incontínuo". Os textos que o compõem configuram já um trajetória que avança lentamente,  mas vai deixando atrás de si retalhos biográficos, ou melhor, autobiográficos que, desta forma, falam do autor e de seus semelhantes, numa galeria enorme de nomes de piauienses de origens e funções diversas, sejam simples pessoas que encontra pelo caminho, sejam homens ilustres da cultura local.
              Em todos os relatos de seus textos do Diário percebemos o cuidado de selecionar criteriosamente aqueles aspectos que mais lhe chegam à vista, quer dizer, aquilo que não pode ser esquecido pelo fluir do tempo no caudal dos acontecimentos de que se compõem o nosso destino e a nossa marca da existência. 
              No presente relato, o juiz ali, em Oeiras (e sempre ao falar de Oeiras, não consigo dissociá-la da narrativa de O.G.Rego de Carvalho, exímio escritor piauiense), assume mais uma tarefa inerente à carreira que escolheu de homem público.
              Agora nessa cidade - vou usar um adjetivo que se ajusta ao meu pensamento neste instante - vetusta - , e cheia de mistérios e assombrações, de casarões e de vozes ecoando pelos corredores de antigas construções da ex-capital piauiense, irá o poeta de Rosas dos ventos gerais (2002) penetrar no ambiente porejado de história e de visões temporais que convidam à criação literária, longe do burburinho e da trepidação das capitais, inclusive Teresina, que tanto distraem tantas vezes a nossa vida interior e nos empurram a encontros formalizados e a convenções sociais muito pouco férteis a algumas aventuras do espírito que por vezes anseia pela solidão dos campos, farto que está dos influxos ligeiros e superficiais da suposta alegria da modernidade e do barulho urbanos.
    Espero que a sua permanência em Oeiras seja uma fase dadivosa na saúde e - por que não? - no alargamento da vida intelectual. Oeiras é, a meu ver, uma dessas possibilidades de espaço literário material e espiritualmente.

    Cunha e Silva Filho

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  4. Jose Francisco Marques19 de agosto de 2013 09:44

    Mestre Elmar,
    Quis o destino uni-lo mais uma vez a Oeiras. Sintonia perfeita para quem carrega consigo tanto apego a essa terra tão singular e progressista. Que Deus possa iluminá-lo na tão difícil arte da magistratura.
    Parabéns à querida Oeiras pela aquisição valiosíssima de um cidadão cuja honestidade e humildade se confundem na formação um ser maravilhoso.
    Vida longa meu Mestre e seja feliz.

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  5. Caro amigo Zé Francisco,
    Obrigado por suas boas palavras de incentivo.
    Espero em Deus cumprir bem a minha missão/dever, durante o tempo que me for dado servir na Comarca de Oeiras, terra a que sou ligado por laços literários, afetivos e sentimentais.

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  6. Poeta de nível ,curto muito cada uma.Gostei muito da expressão "entre anjos e poetas",Quem curte literatura ,curto a inteligência do outro.Grande Elmar Carvalho.

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