quinta-feira, 15 de maio de 2014

OBRAS INACABADAS E UM DOS MEUS AVOENGOS


15 de maio   Diário Incontínuo

OBRAS INACABADAS E UM DOS MEUS AVOENGOS

Elmar Carvalho

Estive na casa do velho amigo Antenor Rêgo Filho para receber de suas mãos o livro Obras Inacabadas, da autoria de nosso parente Francisco de Assis Carvalho, cujo exemplar ele gentilmente me conseguira. Devo dizer que já admirava sua residência e suas árvores à distância, mais precisamente do posto de combustível em que ia abastecer o meu carro, que lhe fica ao lado.

Logo ao chegar recolhi vários frutos do enorme jatobazeiro, que sombreia a casa e o seu jardim, com a intensão de reproduzir essa frondosa árvore em nosso sítio da Várzea do Simão, situado às margens do Parnaíba, no município de Buriti dos Lopes, perto do limite com Parnaíba. O solar do Tena é amplo e alto; algumas de suas partes, por recomendação estética do arquiteto, foram construídas em espessa parede dupla.


Ficamos a conversar em seu aconchegante alpendre, rodeado pelas árvores, que nos transmitem a ilusão de estarmos em um sítio campestre. Falamos sobre vários amigos e conhecidos, sobretudo barrenses, muitos dos quais já falecidos. Quando estava prestes a deixar o casarão do amigo Antenor, encontrei, em cima do cimento, quase prensado entre um jarro e o muro, em local de pouca luminosidade, um jatobá cuja plantinha tenra, na verdade apenas um broto, rebentara milagrosamente da dura casca do fruto, conquanto todas as circunstâncias lhe fossem adversas.

Segundo informações contidas no próprio livro, Assis Carvalho vinha escrevendo essa obra memorialística de forma discreta, quase sigilosa, sem nenhuma pretensão literária, quando foi colhido pela “indesejada das gentes”, deixando-a inconclusa; eis a explicação do título. Talvez por esse motivo ou talvez mais provavelmente por modéstia, pouco falou de si mesmo, de sua vida, de sua trajetória profissional, preferindo falar de seus avós paternos e maternos, de seus pais, de seus tios e de seus irmãos. Para suprir essa lacuna, o médico Sebastião Aécio de Carvalho, seu irmão mais novo, discorreu sobre sua vida e personalidade. O livro enfeixa ainda vários depoimentos de filhos e netos do seu saudoso autor.

Seus avós paternos foram João Antônio de Carvalho e Auta Fernandes Pereira, e os maternos se chamavam João Bartolomeu de Carvalho e Ana Rosa da Silva (Dondom). Era filho de João Fernandes de Carvalho e Maria Carvalho, conhecida como Marocas. Este casal, além de Assis, teve os seguintes filhos: Maria Judite, João Berchmans, Maria do Rosário, José dos Santos (Bilé), Geraldo Majella, Lázaro e Sebastião Aécio. Todos já faleceram, com exceção do caçula Sebastião.

Segundo meu pai, nosso parentesco com essa família era através de João Antônio de Carvalho, proprietário da fazenda Santinho, localizada perto da cidade de Barras. Contudo, o nome do avô materno do autor – João Bartolomeu de Carvalho – não me pareceu estranho. Ao contrário, me pareceu familiar. Fui conferir essa impressão em meu pequeno trabalho “Breve Notícia Familiar” e nos livros “Ruas, Avenidas e Praças de Piripiri” e “Ponta-de-Rama”, do primo Fabiano Melo.

Desse cotejo, confirmei que meu trisavô, por parte de mãe, tinha o nome de João Bartolomeu de Carvalho. Restava-me a dúvida sobre se seria a mesma pessoa, ou se se tratava de caso de homônimos. No livro de Assis Carvalho, as informações sobre esse nosso avoengo eram escassas e um tanto vagas. Consta nessa obra que ele seria natural da região de Granja – CE, e que se casou “com Ana Rosa da Silva (Dondom) lá pelos idos de 1894”, e que essa união durara pouco tempo, porquanto ele falecera em dezembro de 1897. Fabiano Melo, em seu livro Ponta-de-Rama (edição de 1990), afirma que ele seria piauiense.

Em “Obras Inacabadas” consta ainda a informação de que a historiadora Judite Santana, em suas pesquisas históricas, teria encontrado o registro de que ele seria um dos signatários da ata de instalação da vila de Piripiri, fato ocorrido em 18 de setembro de 1874. Em seu livro Piripiri (edição de 1972), às páginas 24/25, essa historiadora transcreve o auto de inauguração da nova vila, no qual consta que fora assinado pelo Juiz de Direito, pelo escrivão e “mais pessoas gradas desta localidade que compareceram a este ato solene de inauguração da vila”. A povoação fora elevada a essa categoria através da Lei Provincial nº 849, de 16 de junho de 1874.

João Bartolomeu se casou com Mariana Rosa de Carvalho, minha trisavó, em data que desconheço. Em 2 de outubro de 1880 a filha deste casal, Antônia Quitéria de Carvalho, contraiu núpcias com Horácio Luiz de Melo. Tomando-se por base o ano de casamento de sua filha, e considerando-se que ela teria pelo menos quinze anos na época, é fora de dúvida que ele já era casado, em primeira núpcias, em 1865. Fica claro desse conjunto de informações e documentos, que se harmonizam, já que não se contradizem e nem se excluem, que suas atividades na região de Piripiri e Piracuruca começaram bem antes do seu casamento em Barras, ocorrido em 1894, conforme já consta neste registro.

Após todo esse cotejo de informações, fundamentadas em documentos ou não, me é lícito inferir que se trata de um único e mesmo João Bartolomeu. Sem dúvida, ele se tornara viúvo do primeiro casamento, e convolou segundo matrimônio em Barras, talvez já um tanto idoso ou maduro, tanto que faleceu três anos após.


Esclareço, por fim, que fiz este registro apenas como uma modesta contribuição à genealogia piauiense. Quanto ao jatobá, do qual falei no início desta crônica, espero que dê inúmeros e bons frutos, como muitos dos Carvalhos aqui referidos o fizeram.        

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