sábado, 15 de novembro de 2014

Hostilizado no passado, homenageado no Salipa

O livreiro e editor Leonardo Dias, o escritor Assis Brasil e a professora Francigelda Ribeiro

Hostilizado no passado, homenageado no Salipa

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

              12 a 15 de novembro, Salão do Livro de Parnaíba (Salipa), quinta edição. Assis Brasil, 82 anos, ensaísta, contista, jornalista e romancista, celebridade nacional, dezenas de livros publicados, membro da Academia Piauiense de Letras, homenageado da festa. Pouca gente sabe os embargos sentimentais que ilustres parnaibanos, durante décadas, alimentaram contra o notável escritor. Veremos, já.

       No início do magistério, eu lia, avidamente, os romances de Assis Brasil, especialmente os que compõem a Tetralogia Piauiense: Beira Rio, Beira Vida; Pacamão; A Filha do Meio Quilo; Salto do Cavalo Cobridor. Quatro romances com paisagens, dramas e personagens nitidamente parnaibanos. Nomes, sobrenomes e endereços da bela e vaidosa Parnaíba das décadas de 1930 a 50. Do porto do Rio Parnaíba, zarpavam embarcações para São Luís e restante do país, cheinhas de cera de carnaúba, óleo vegetal e especiarias, que seguiam para a Europa. De volta, traziam produtos de luxo, mármore de Carrara, tecidos e móveis. Parnaíba da elite endinheirada e vaidosa orgulhava-se dos filhos estudando na França, a pujança comercial e cultural do mundo. A modesta Teresina dependia das empresas do litoral.
Charge de Gervásio Castro, extraída do livro Poemitos da Parnaíba, de Elmar Carvalho


         Na periferia da próspera cidade, multiplicavam-se cabarés e miséria à beira do cais. Menino pobre, Francisco de Assis Almeida Brasil, residia na Rua Francisco Correia, 481, próxima à Praça Santo Antônio e da residência dos Mavinier, família abastada na época. Miséria e prostituição à beira do rio contrastavam exuberantes palacetes que se armazenavam na memória do futuro romancista.

         Aos 14 anos, foi morar em Fortaleza, onde se formou em Direito; depois, no Rio, onde exerceu atividade literária. Logo, os romances que compunham a Tetralogia despertaram a fúria de parnaibanos ilustres, ofendidos com o uso dos nomes, sobrenomes, mazelas, endereços.

         Eu já conhecia Parnaíba, onde vivera dois anos, no seminário capuchinho do Convento São Sebastião. Lendo a Tetralogia, lembrava-me de personagens e endereços.  Pus-me a juntar elementos da ficção do romancista associados a cidadãos, ruas, logradores e vida social da sua infância e adolescência, e publicá-los em livro, ASSIS BRASIL E SUA OBRA.
Charge de Gervásio Castro, extraída do livro Poemitos da Parnaíba, de Elmar Carvalho

         No início de 1978, dirigi-me a Parnaíba. Entrevistei o engenheiro Darcy Mavinier, que residia na Rua Marquês de Herval, ao lado da antiga Rádio Educadora. Darcy guardava profundo ressentimento por servir de inspiração a personagem rico, rabugento e fanfarrão. Na sala de sua residência, mostrou-me fotos da esposa, Ester, e irmãs, como Inhah, envolvidas em tramas repugnantes do romance. O engenheiro me levou a endereços retratados na ficção. Fotografei os cabarés Sonho Azul e QG, bem como a zona miserável e pantanosa da Quarenta, além do Cine Éden, Praça da Graça, Bar do Mílton (pertencia ao pai de Assis Brasil, depois a Drogajafre), Pensão D. Isabel (ao lado direito da Droga Jovem, na mesma praça) e cidadãos vivos, como Tomás (Casa Tomás), Pacamão, Professor Rodrigues (famoso em Parnaíba), Meio Quilo (baixinho e magro, vendedor no Mercado Central), Darcy, Cota, Ester e Bento. Explicava-se a indiferença parnaibana ao escritor.

      Assis Brasil, duas vezes laureado com Prêmio Nacional Walmap, fundiu o contraste regional ao universal, usando técnicas novas de narrativa. Merecida homenagem, portanto, ao renomado escritor brasileiro, neste quinto Salipa. Quanto ao livro ASSIS BRASIL E SUA OBRA, logo esgotou a primeira edição, aguarda uma segunda. Quem se arrisca a negociá-la?             

Um comentário:

  1. José Maria, as suas informações são de uma importâcia capital para entender-mos de uma vez por toda, este episódio negro ocorrido na sociedade parnaibana.
    Assis Brasil um dos mais importante escritor brasileiro com 132 obras publicadas, A ABL, tem perdido muito em não tê-lo em seus quadros (deveriamos fazer um movimento em prol da sua entrada na Academia Brasileira de Letras - concorrendo é claro ás próximas vagas).
    Assis Brasil, deve estar de alma lavada e feliz com este final. A vida é mesmo assim: "Não se faz profeta em sua terra" e também sabemos "que nada dura para sempre"
    Parabéns
    José Itamar Abreu Costa
    (Assisbrasilista de carteirinha)

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