quarta-feira, 22 de julho de 2015

Piracuruca e as terras da santa


Piracuruca e as terras da santa

José Pedro Araújo
Historiador, escritor e servidor público aposentado

A história da fundação de Piracuruca, bela e hospitaleira cidade encravada no norte piauiense, confunde-se com a dos irmãos Dantas, Manuel e José. Por sua vez, história e lenda se associam e se enlaçam de modo tão intenso nesse rincão que não dá para saber o que é verdadeiro ou o que é parte criada pela mente fértil do seu povo. Estou para ver gente mais criativa. Pois bem, diz a tradição oral que os portugueses Manuel e José Dantas Correia procuravam ouro na região do rio Piracuruca quando foram aprisionados por índios antropófagos. Preocupados com o fim iminente, rogaram à virgem do Carmo que lhe salvasse a vida e lhe fizeram uma promessa: caso fossem libertados, ergueriam uma igreja em sua homenagem naquele exato lugar onde se achavam aprisionados e em vias de virar um belo cozido. A santa ouviu suas preces, libertou-os da enrascada, e ficou no aguardo do pagamento da promessa.
Nesse ponto, a história já estava completamente envolta com a ficção. E como a criatividade dos piracuruquenses não tem limites, diz-se que os índios, originários da Serra da Ibiapaba, retornaram para sua aldeia e deixaram o terreno livre para os irmãos cumprirem a promessa. E que eles, alterando um pouco o acordado, resolveram construir o templo em outro local, mais seguro, imune às cheias costumeiras do rio, mas muito distante do local do cativeiro. Trouxeram gente competente para realizar o trabalho e até a imagem da virgem do Carmo foi mantida junto ao canteiro de obras, enquanto davam início à construção do templo. Começaram as obras de fundação no novo lugar escolhido por eles em ritmo acelerado. E logo na primeira noite, a virgem mostrou-lhes a sua indignação: fugiu de lá para depois ser encontrada no local exato onde os irmãos haviam sido aprisionados. Os Dantas debitaram o fato na conta de algum trabalhador descontente, levaram a imagem de volta e retomaram a obra. Na manhã seguinte, novamente deram pela falta da imagem. Correram para o local da promessa e deram com ela por lá novamente. E assim a obra foi sendo levada adiante. Mas, mal a noite chegava, lá se ia a imagem de volta para o lugar que ela achava que o templo deveria ser erigido. O baldrame já estava pronto, mas a imagem teimava em fugir à noite. A resistência dos construtores chegou ao seu limite. Cônscios da vontade da santa decidiram abandonar tudo e recomeçar a construção da igreja no local onde ela se acha hoje, com a frente voltada para o rio Piracuruca, no lugar denominado Sítio.
Os blocos maciços com cerca de duas toneladas para a construção das colunas de sustentação foram cortados e retirados da margem do rio, através de um processo impressionante de extração e transporte. O zig zag provocado pelos cortes estão lá, como tatuagem sobre a pedra bruta, nos imensos blocos de arenito existentes na beira do rio. Ficou por lá como testemunha. Elevar esses pesados blocos até o alto das colunas, também foi um feito inimaginável. Foi utilizado um complexo sistema de roldanas, peso e contrapesos. Belíssimo trabalho deixado para a posteridade. A igreja, com o falecimento do irmão mais importante, Manuel, ficou sem o teto durante cerca de quarenta anos. Nada que impedisse o cumprimento da sua função religiosa. Por sua vez, foi palco de um dos momentos mais importantes na luta pela independência do país, quando no seu átrio, em 22 de janeiro de 1923, Leonardo das Dores Castelo Branco leu o importante manifesto conclamando os piauienses à luta.
O baldrame da construção da discórdia ainda está lá para quem quiser ver. Mas alguns historiadores afirmam que essa história da santa fujona é mais uma das lendas que envolvem a velha Piracuruca. Afirmam que as fundações da igreja velha já estavam lá antes mesmo dos irmãos Dantas passarem pelo constrangimento de se ver prisioneiros dos índios. Até mesmo esse fato, a prisão, é tratado como mais um indício da criatividade dos piracuruquenses. Mas, o fato é que os irmãos existiram, deram início à construção do templo em intenção à virgem do Carmo, e deixaram cerca de 12,5 km de terras como herança para a citada santa. O jornalista e historiador Jureni Machado Bitencourt escreveu um belo livro denominado “Apontamentos Históricos da Piracuruca”, e nele enumera as fazendas doadas: Boqueirão, Veados, Batalha, Macambira, Montes, Perus, Curral dos Cavalos, Pitombeira, Brejinho e Sítio. Dentro dessas fazendas, todo o gado existente também passou às mãos da igreja.
As dúvidas quanto a doação de todo o patrimônio elencado são muitas. A começar pela própria certidão publicada em 1909 pelo jornal católico “O Apóstolo”, onde consta apenas a doação das fazendas Veado e Boqueirão. Das outras, nem uma linha. O INCRA, anos mais tarde, dirimiu essas dúvidas. Após proceder intensa análise sobre os registros de Boqueirão, Veados e Batalha, descendo a investigação das cadeias dominiais até a sua origem, aceitou esses documentos como válidos.
Gerou muita desconfiança na população também a nomeação de gerentes para administrar as terras da santa. Pois, dizem, enquanto o patrimônio reduzia-se ano após ano, o dos administradores crescia em proporção desmesurada. Cansado dessa polêmica, e de olho na fortuna da santa, o bispo de Parnaíba, Dom Joaquim de Almeida, efetuou a venda das terras com todo o rebanho. No dizer do escritor Vitor Gonçalves Neto, no seu incomparável Roteiro das Sete Cidades, “torrou por 48 contos, em 1908, quase tudo... Deixou apenas a de Veados(fazenda), para entreter a população”. Anos depois, o Arcebispo do Piauí, Dom Severino Vieira de Melo anulou a venda e recuperou as terras. “Pra que é que existe o Direito Canônico?”, graceja o autor do Roteiro. Quanto ao gado, a maior parte já havia sido desviado.
Já sem o rebanho, por volta de 1983 a Fazenda Macambira foi adquirida pelo Estado, através do PDRI – Vale do Parnaíba, para assentar trabalhadores rurais sem terra. Cerca de 194 famílias foram assentadas nos seus quase 17.000 hectares. Dois anos depois, o INCRA adquiriu por compra as fazendas Boqueirão, Veados e Batalha, situadas hoje no município de São João da Fronteira. As três fazendas somavam 42.000 hectares, e nelas a instituição assentou cerca de 432 famílias.
Durante os anos setenta, quando fui a primeira vez a Piracuruca, impressionei-me com a beleza da cidade e com a simplicidade e bonomia de sua gente. Fiquei mais impressionado ainda com as histórias contadas sobre as riquezas da santa. Anos depois, já devidamente aclimatado à cidade, uma vez casado com uma das suas mais belas moradoras, inteirei-me das histórias daquela boa gente e dos desmandos praticados contra o patrimônio da virgem do Monte do Carmo. Eles nunca entenderam e nem aceitaram o que as autoridades eclesiásticas fizeram com a herança deixada à santa. Meu sogro, Jesuíno Sousa, por exemplo, um dos grandes proprietários de terra da região, tendo uma de suas fazendas limitando com a Data Macambira, afirmava exaltado que “ninguém tem o direito de vender o patrimônio da santa. Faziam aquilo com que delegação, se a santa não havia autorizado?”. O Estado havia acabado de adquirir a data Macambira junto ao bispo da Diocese de Parnaíba.
Em 2007 estive por alguns dias nas Datas Boqueirão, Veados e Batalha, para fazer um reestudo daquelas comunidades. As áreas são contíguas.Trata-se de uma região belíssima, situada nas franjas da serra da Ibiapaba, no lado piauiense. Ali a pastagem natural ali é abundante, assim como a água oferecida pelo rio Piracuruca e alguns dos seus afluentes. A falta de cercas no perímetro das três fazendas facilita o acesso de rebanhos estranhos, animais estes que concorrem com aqueles pertencentes aos próprios moradores, consumindo-se rapidamente a pastagem em razão do avultado número de cabeças. Até mesmo grandes criadores do vizinho estado do Ceará conduzem seus rebanhos para lá, em certas épocas, e isso tem criado uma serie de problemas para os assentados.
Hoje a padroeira não possui mais o seu patrimônio imobiliário, e muito menos seus rebanhos, que lhe rendia o suficiente para a sua manutenção. Vive dos dízimos, ofertas e doações dos fiéis. Esta semana, por exemplo, tem início os festejos da padroeira com duração até o dia 16/07. As festividades atraem piracuruquenses residentes nos quatro cantos do país. São sete novenas durante o período festivo, e no último dia, a imagem da senhora do Carmo sai pela cidade em procissão, devidamente paramentada, com suas opulentas joias e a coroa de ouro, cravejada de pedras preciosas, sobre a cabeça. Os leilões são o ponto alto do evento, ocasião em a cidade toda se mobiliza em doações e arrematações. Meu sogro, quando vivo, doava todos os anos um boi para a virgem do Monte do Carmo, para ser levado a leilão.
Não se sabe, porém, se as “duas capelas” ainda estão sendo rezadas pelo pároco da igreja, como ficou consignado no testamento deixado pelos irmãos Dantas.    

Um comentário:

  1. Obrigado pelo espaço, Poeta! A história e a estória teimam em se relacionar de maneira quase imperceptível, mas de forma a deixar dúvidas até onde começa uma e a outra termina.

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