terça-feira, 18 de agosto de 2015

O MORRO DOS VENTOS DA ESPERANÇA


O MORRO DOS VENTOS DA ESPERANÇA

Chico Acoram Araújo

            Meu irmão caçula, o “fim-de-rama”, ligou para mim comunicando-me que tinha mudado de endereço. Tive a impressão, pela sua fala, que estava alegre e feliz. Disse-me que havia vendido sua modesta casa que ficava próximo ao Encontro das Águas, zona norte de Teresina. Já se passaram alguns anos, não me lembro exatamente o ano. Explicou-me que a motivação da venda do seu modesto imóvel se deu por conta de que, ultimamente, estava se sentido muito só, apesar da companhia de seus dois filhos adolescentes, órfãos desde crianças, desde quando a mãe sofrera um fulminante e fatal infarto. O golpe foi cruel. O lar já não era o mesmo. As feridas demoraram por muito tempo para cicatrizarem-se. Decidiram, ele e os filhos, morar no bairro em que outrora viveu com seus pais e irmãos: o Morro do Urubu ou o eufêmico Morro da Esperança. No morro, disse-me ele, ainda residem alguns parentes e amigos; aqui, não os tenho. Lá, quando o dia alumia, o canto mavioso dos pássaros (não a dos negros garis alados) ainda se ouvem; e quando escurece a gente reza uma prece pedindo à Deus saúde e proteção. E, vez por outra, fazemos promessas à milagrosa alma do finado motorista Gregório.

Respondi-lhe que estava de pleno acordo com sua decisão de morar onde nossa família viveu por muito anos, e que eu iria visitá-lo no próximo final de semana.  

            Para me orientar quanto ao seu novo endereço, meu irmão perguntou se eu ainda lembrava naquele estreito e poeirento beco, de cerca de 100 metros de extensão, que ficava no sopé do morro, próximo ao rio Poti, entre as ruas Manoel Domingos e Alcides Freitas, que era usado como atalho do acesso para um pedaço de rua onde ficava a casa de nossa família. Respondi afirmativamente. Como poderia não lembrar daquela travessa que, na adolescência, era a rota obrigatória para eu ir para Escola Industrial, hoje IFPI? Como esquecer que, ao transitar por aquela passagem, meus sapatos pretos, de grossos solados feitos de couro de boi, ficavam empoeirados, necessitando de uma caprichosa limpeza antes de entrar na escola?

Indagou-me ainda se eu lembrava de certo pé de cajá existente no citado beco. Como esquecer aquela saudosa árvore que, ainda muito cedo das manhãs, eu e os meninos que moravam nas imediações corríamos, o mais rápido possível, para pegarmos seus deliciosos frutos caídos ao chão durante a noite? Como não recordar que, nas noites de lua cheia, ouviam-se dizer que um macaco preto ou lobisomem trepava-se velozmente naquela velha cajazeira? -Diziam que essa visagem era um velho negro que morava na redondeza, e que em noites de lua grande e brilhante se transformava nesse medonho animal que assombrava crianças e adultos que por ali passavam - Naquele lugar, era hábito comum as pessoas, em noites de lua cheia, passarem em tubada carreira; e esse também era o meu caso, não vou mentir!

A exposição desse cenário, de saudosa memória, aconteceu no período dos três últimos anos da década de 60. Meu mano, encerrando o diálogo, informou-me que aquela velha casa, ao lado do mencionado pé de cajá, era agora o seu lar. Muito fácil de encontrar, não é? No sábado seguinte fui visitar meu estimado irmão.

            Beco da travessia: passado e futuro. Travessa de duas extremidades. De um lado, a esperança, o caminho que dava acesso às “coroas” dos rios Poti e Parnaíba; aos campos de futebol de várzeas. Ao morro, não o do urubu, “mas o do “Querosene”, como também ao “Moi de Varas” e “Paissandu”. Vereda que me levava a minha escola, ao Teatro 4 de Setembro e Cine Rex.  Que ia também ao centro, à Universidade e a todos os lugares da cidade. Atalho que me conduziu ao do sucesso, ao emprego público federal e à estabilidade financeira. Caminho das oportunidades e das melhores condições de vida. Do outro lado, o portal da pobreza, o atraso, dias difíceis, a fome, a indolência, a moradia precária, as doenças, a violência – a desesperança. O poeta Elmar Carvalho descreveu bem aquele ambiente em seus versos que retratam a vida real do Morro do Urubu, em seu livro Rosa dos Ventos Gerais, que a seguir transcrevo:

POSTAIS DE TERESINA
...
POSTAL III
O Morro do Urubu
se muito foi terá sido
morro do urubu chumbado, morro do
urubu chagado, sifilítico e faminto.
O Morro do Urubu
hoje é Morro da Esperança.
Esperança de quem?
Daqueles que nada esperam
em sua ab/so/luta miséria.
Morro da Esperança?
Morro dos bastardos da vida,
dos pobres, dos desvalidos.
Morro da morte matada,
morro da morte morrida,
morro da morte em vida:
morro da (des)Esperança.
           
A fagueira tarde daquele sábado estava magnifica. É possível que estivéssemos em meado de março ou abril, pois nos galhos daquela velha cajazeira ainda se via alguns resquícios de seus saborosos frutos. Como se sabe, a safra do cajá ocorre nos meses de fevereiro, março e abril.

Uma leve brisa oriunda do rio Poti batia nas encostas do morro e escorria suavemente sobre as copas das árvores existentes no lugar. Nesse momento, ouvi um ruflar dos frondentes galhos do hospitaleiro pé de cajá. Este nos abrilhantava com sua majestosa sombra. Sob esse chapéu protetor, eu e meu irmão conversávamos animadamente sobre fatos ocorridos na época em que nossa família residia no Morro do Urubu. Tudo isso em razão da grave crise financeira que meu pai atravessou, e que marcou profundamente as vidas do casal e de seus seis filhos. Foi essa, a razão da mudança da nossa família para o Morro Urubu. A nova morada era uma pequena casa de paredes de taipa e cobertura de palha de palmeira do babaçu, situada na ribanceira de um grotão, no final da Rua Alcides Freitas. Antes, morávamos em uma modesta e confortável casa na Rua Palmeirinha, hoje Alcides Freitas, no centro da cidade. Mas, isso é uma outra história; quiçá eu conte em uma outra oportunidade.

Um clima de nostalgia nos acalentava, quando ouvi que algo tinha caído junto aos meus pés. Era um robusto fruto daquela velha árvore; um precioso cajá que, de incontinenti, peguei-o em minhas mãos. Meu irmão, vendo-me de posse do meu achado, entrou em sua casa e, de volta, trouxe para mim uma caprichada dose de uma dourada cachaça Mangueira. Brindamos. Divertimo-nos bastante. Estava quase noite. Despedimo-nos. Ao sair do mitológico beco, senti em meu rosto um pouco da brisa ainda resvalada pelas escarpas do Morro do Urubu. Da alma e do meu coração: o Morro dos Ventos da Esperança.                  

4 comentários:

  1. Grande e bela crônica, caro Acoram, sincera, memorialística e repassada de nostálgica emoção.

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    1. Chico Acoram Araújo18 de agosto de 2015 às 16:21

      Dr. Elmar,

      Fico muito feliz e honrado por suas considerações, principalmente partindo de um grande poeta como Elmar Carvalho. Devo dizer que, graças aos meus diletos amigos Dr. Araújo, Francisco Almeida e o ilustre escritor de Rosas dos Ventos Gerais e Lira dos Cinqüentanos sinto-me mais motivado para ousar escrever outros contos. Um abraço.

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  2. É, grande Poeta. Depois do Padre Chaves, com sua memória histórica de Teresina, e do cronista da cidade, Arimatéia Tito Filho, eis que surge um índio, também nascido nas ribeiras do Maratoã, para nos contar a bela história de Teresina, do ponto em que os dois deixaram.

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  3. Salve, pois, o nosso bravo Acoram, primeiro e único morubixaba da legendária tribo dos marataoãs!

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