sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Bitorocara e a barra do Maratoã

Antiga igreja de N. S. da Conceição
Antiga igreja de Santo Antônio do Surubim

Bitorocara e a barra do Maratoã

Chico Acoram Araújo
Cronista, articulista e historiador

Ao amigo e grande mestre Dr. Elmar Carvalho

                Como barrense da gema, sempre tive curiosidade em saber um pouco mais da história do meu torrão. Qual a origem, por exemplo, do nome dado ao rio em que minha mãe lavou meus “coeiros”; onde fisguei o primeiro peixe; paraíso em que me empanturrava de alegria nas suas águas mansas e frescas, e lugar do meu primeiro pulo mortal. Mas também, lugar onde observava o canto dos pássaros sobre as frondosas copas das matas ciliares; o voo apressado do Martim Pescador, de plumagem verde-azul reluzente, plainando sobre as águas e sempre aguardando o momento oportuno para, em queda livre, mergulhar e fisgar seu almoço. Local, por fim, do nado lento e mortal do jacaré, sempre à espreita, nas sombras soturnas das árvores descaídas das ribanceiras do rio.

Pois bem, segundo nosso prestigiado escritor e historiador Wilson Gonçalves, em seu Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, o rio Maratoã, como era antigamente grafado, significa o riacho da Pedra Grande, em língua indígena. Isso tem sentido, uma vez que em alguns trechos do rio enormes rochas afloram e permitem, no período de verão, a travessia de pessoas e animais.

Ao descrever o rio da minha infância, lembrei-me do excelso poeta Da Costa e Silva em seus versos “SOB OUTROS CÉUS”, que magistralmente canta o rio Parnaíba em Amarante:      
               
                          IV

“Eu sou tal qual o Parnaíba: existe
Dentro em meu ser uma tristeza inata,
Igual, talvez, à que no rio assiste
Ao refletir as árvores, na mata...

O seu destino em retratar consiste,
Porém o rio tudo o que retrata,
De alegre que era, vai tornando triste,
No fluido espelho móvel de ouro e prata...

Parece até que o rio tem saudade
Como eu, que também sou desta maneira,
Saudoso e triste em plena mocidade.

Dar-se em mim o fenômeno sombrio
Da refração das árvores da beira
Na superfície trêmula do rio ...”        
                                                                              
Foi este desejo de conhecer mais sobre a história do meu torrão, o que me levou a escrever uma crônica com o título “Barras do Marataoan: o Retorno”, publicada, recentemente, em Folhas Avulsas(josepedroaraujo.blogspot.com.br), e no blog de Elmar Carvalho (poetaelmar.blogsport.com.br). Nesse escrito, conto um pouco da história de Barras, a origem do epíteto de terra dos governadores e dos poetas, e elenco alguns dos ilustres barrenses nascidos às margens do Marataoan. Para escrever esse artigo, recorri ao grande poeta e escritor Elmar Carvalho em sua crônica ensaística “Barras – terra dos governadores e de poetas e intelectuais”.

No texto que ora escrevo, volto a falar um pouco mais sobre as origens de Barras, dando um enfoque histórico sobre os precedentes da fundação e povoamento de Barras em meados do século XVIII, e, sobre o seu entrelaçamento com Bitorocara, antiga fazenda de propriedade de Bernardo de Carvalho e Aguiar, pai de Miguel de Carvalho e Aguiar, ambos considerados fundadores da cidade de Campo Maior e Barras do Marataoan, respectivamente. Trato aqui, portanto, da relação que existe entre estas duas importantes cidades fundadas, a primeira, pelo valoroso Mestre de Campo, e a segunda, pelo seu filho. 

Como relatei em minha crônica anterior, Barras surgiu a partir de uma fazenda de gado conhecida como Buritizinho, que se tornou povoado tempos depois. O proprietário dessa fazenda chamava-se Miguel de Carvalho Aguiar, filho do lendário Mestre de Campo Bernardo de Carvalho e Aguiar fundador da fazenda Bitorocara que ficava encravada nas confluências dos rios Longá (Bitorocara) e Surubim hoje município de Campo Maior.

De acordo com o Pe. Cláudio Melo, Miguel de Carvalho de Aguiar, natural do Rio São Francisco, Bahia, veio para o Piauí por volta de 1714, atraído pela vocação do pai, sendo-lhe companheiro inseparável nos momentos mais duros, partilhando de suas canseiras, angústias e glórias.

É provável que nesse período Bernardo de Carvalho e Aguiar tenha aconselhado ao filho a instalar sua primeira fazenda nas ribeiras do rio Marataoan, uma região de águas abundantes, ricas pastagens, e distante aproximadamente 16 léguas (imperial) da fazenda Bitorocara. É razoável presumir-se que o pai tenha vendido ou doado a Miguel de Carvalho Aguiar uma razoável quantidade gado, bem como autorizado que alguns de seus escravos e moradores fossem ajudar a instalar uma fazenda na barra do Maratoã, na localidade Buritizinho, hoje cidade de Barras, onde muito prosperou.

Miguel de Carvalho e Aguiar tornou-se um abastado fazendeiro da região. Conforme se verifica em seu testamento, transcrito no livro “Barras, Histórias e Saudades” de autoria do ilustre barrense Antenor Rêgo Filho, Miguel de Carvalho declara, dentre outras coisas, ser possuidor de uma grande fortuna:

“Declaro que todo monte de minhas fazendas possuirei quarenta mil cruzados, pouco mais ou menos, a saber, quatro fazendas, uma chamada da BARRAS, NA RIBEIRA DO RO MARATAUAN, NO LONGÁ, e outra chamada Campo (inelegível), e outra chamada São Francisco e outra chamada Arraial, todas na ribeira do Parnaíba, com terras próprias, com todos os gados vacuns e cavalares do meu ferro (inelegível), que dentro delas se acharem (inelegível) mais fábricas a elas pertencentes.
Item: mais ouro e prata e roupas, selas, bancos, mesas e mais trastes que (inelegível) partes para dentro se acharem.
Item: mais 19 escravos, a saber: ...”.

Miguel de Carvalho tinha a patente de Coronel e foi construtor da primeira capela de Barras do Marataoan, onde foi sepultado. Conforme Wilson Carvalho Gonçalves, no seu dicionário já citado, o início da construção dessa capela ocorreu em meados do século XVIII sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição. Gonçalves diz ainda que esse templo foi a célula geradora do povoamento da localidade, em redor do qual se formaram os primeiros sítios, currais e fazendas. A igreja foi, portanto, a primeira forma de ocupação da povoação de Barras do Marataoan.

Em abril de 1730, morre seu pai Bernardo de Carvalho e Aguiar, no Maranhão, muito pobre e como muitas dívidas. O Pe. Cláudio Melo afirma que, por razões desconhecidas, Miguel de Carvalho abandonou o pai, no final de sua vida, deixando-o em extrema pobreza. O Coronel Miguel sente a morte do pai, ao tempo em que lamenta que uma riqueza imensa se diluiu e se transformou em dívida. Sobre esse fato, apenas declarou:

“Nada herdei, por isso não sou obrigado a pagar seus débitos”.

Em seu livro, Antenor Rêgo Filho observa que conta a lenda que um vaqueiro, andando a procura de uma rês desgarrada, encontrou uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, talhada em madeira, dentro de uma moita de tucum, localizada onde hoje está erguida a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Barras. Salienta ainda que o Coronel Miguel de Carvalho e Aguiar, como fervoroso católico, deu início à construção de uma capela em homenagem à mencionada Santa. Antes da conclusão da referida construção o Cel. Miguel de Carvalho veio a falecer, deixando parte da sua fortuna para um sobrinho de nome Manoel da Cunha Carvalho, filho de sua irmã Antônia de Carvalho Aguiar que morava na Bahia. O inventário de Miguel de Carvalho e Aguiar, datado de 9 de dezembro de 1749, revela que este não teve filhos:

“Declaro que sou casado na cidade da Bahia com dona (inelegível), da qual não tenho filhos nem outros alguns herdeiros forçados, e depois de casado, pouco meses, vieram os parentes da dita minha mulher e a tiraram violentamente de minha casa, com tudo quanto tinha trazido de seu para meu poder e até o presente, não tenho feito vida material com ela."

Os motivos da separação do Coronel Miguel de Carvalho e Aguiar com sua esposa são desconhecidos.

Alguns anos após a morte de Miguel de Carvalho, seu herdeiro Manoel da Cunha Carvalho deu continuidade à construção da capela.

Diz também Antenor Rêgo Filho que, em 1804, ao redor da capela de Nossa Senhora da Conceição já existiam algumas casas de telhas e várias de palha. A dois de abril desse mesmo ano morre Manoel da Cunha Carvalho, então dono de imensa quantidade de terras, herdadas, do tio, deixando, em testamento, para Nossa Senhora da Conceição, uma vasta gleba de terra, compreendendo uma légua em quadra, exatamente onde se localizava a capela recém-construída, e a fazenda Buritizinho, incluindo mais, todo o gado bovino e demais animais e benfeitorias. Daí a razão porque todas as terras onde se localiza a sede do município de Barras pertenciam ao patrimônio da paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

Com o falecimento de Manoel da Cunha de Carvalho, é nomeado Francisco Borges Leal Castelo Branco para a administração do patrimônio da paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

Em 1806, conclui-se a reforma e pintura da capela, iniciando-se, assim, o povoamento da localidade. A fazenda Buritizinho dava lugar à “POVOAÇÃO DAS BARRAS”. Três anos depois, existia já um arruamento de várias casas, onde já havia um desenvolvimento da povoação; registra Antenor Filho.

Segundo ainda Antenor Filho, em 22 de agosto de 1819, Francisco Borges Leal foi substituído por José Carvalho de Almeida, filho de Barras. E foi por iniciativa desse novo administrador, que o Presidente da Província do Piauí, em data de 27 de setembro de 1826, solicitou ao Governo Imperial a criação de uma Freguesia no povoado de Barras, e sua elevação à categoria de Vila. Pela Lei Provincial de nº 656, de 2 de setembro de 1836 e a Instrução da Presidência da Província, de 9 de setembro do mesmo ano, foi a povoação erigida a Distrito de Paz.

Barras só veio ser elevada à categoria de Vila em 24 de setembro de 1841, através da Lei nº 127 e, de fato instalada, a 19 de abril de 1842. 

Finalmente, pelo Decreto nº 01, de 28 de dezembro de 1889, do então Governador do Estado, Gregório Taumaturgo de Azevedo, ilustre filho de Barras, foi elevada da categoria de Vila para a de Cidade, com o nome de Barras do Maratahoan.

Assim, a história nos mostra que Bitorocara tinha uma estreita ligação com a barra do Maratoã, ou seja, com a minha Barras do Marataoan.


            Sobre a história da minha terra natal, faço aqui uma interrupção estratégica para não cansar e não provocar tédio aos leitores que, por acaso, se dispuserem, generosamente, ler esta crônica. Em outra oportunidade, quiçá continue eu a recontar fatos históricos de Barras do Marataoan.

Fonte: blog Folhas Avulsas

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