terça-feira, 8 de maio de 2018

TODOS SE DIZEM INOCENTES

Fonte: Google/Uol


TODOS SE DIZEM INOCENTES

Cunha e Silva Filho

Nenhum criminoso se declara  culpado, principalmente porque  se o fizesse seria um réu confesso e ainda passaria  por  idiota. Todos se dizem inocentes. Até mesmo quando pegos em flagrante delito ainda se consideram inocentes. Perante a lei todos  são considerados inocentes até prova em contrário. A lei em si  favorece essa atitude. Então,  nossa sociedade é formada de muita pureza, de anjos,  santos, querubins.  Todos somos inocentes, ou  melhor  dizendo,  somos todos inocentes,  que,  por sinal,  é  um titulo(bastando colocar-se na primeira palavra  o "s" inicial maiúsculo) de um  bom ficcionista   piauiense O. G. Rego de Carvalho (1930-2013). Os advogados de defesa estão aí  para  corroborarem  essas assertivas e por dever de ofício.

    Sob esta premissa,  na terra que nos vai comer vivemos  o paraíso  dos sem culpa,  dos honestos,  dos incorruptíveis,  dos ilibados,  dos homens de bem. Que beleza de paraíso  em que vivemos! Que venturosas criaturas  iluminadas  pelo dom de serem  dignas,  íntegras,  impolutas. A continuar assim,  o Brasil será, dentro em pouco,  reverenciado  como sendo a pátria  da bondade,  da lisura,  da ética. Desde os simples vereadores até ao Presidente da República de plantão ninguém comete   um pecadilho. Só falta tanta  retidão de caráter   ser  agraciada no Guiness Book. “Brazil:  the Paradise on Earth”(“Brasil: o paraíso na Terra”). Pátria amada!Salve!Salve!

      Não demorará  o dia em que  esses anjos brasileiros reunindo  indivíduos  oriundos  das grande corporações  que trabalham  para os governos federal,  estadual e municipal sejam   guindados  ao privilégio da canonização. Até o Cabral  deverá   constar da insigne  lista...

    Desde os tempos sombrios da  eclosão   do  “Escândalos do Mensalão” as investigações da Polícia Federal  denunciaram corrupção no governo do  PT  ainda no segundo mandado do  ex-Presidente Lula juntamente com  denúncias de  corrupção de outros  partidos  políticos. Foi o início de uma novela  na imprensa falada e escrita, sobretudo nos jornais Folha de São Paulo e Jornal do Brasil  que acompanhei  estarrecido e indignado, porquanto   cada edição de jornal  vinha  fornecer mais  falcatruas    do cenário  político nacional.  

    Esses escândalos financeiros, essas maracutaias  de conluio  venais entre público e privado a fim de assaltarem   o dinheiro público dos que pagam  impostos e nada em troca recebem  dos governos  prosperaram  num continuum  até hoje. Por outro lado, há que se louvar  o que vem  fazendo  a Operação Lava-Jato da Polícia Federal que,  malgrado algumas  imperfeições,  tem-se revelado um baluarte em defesa  da diminuição da  corrupção na política  brasileira.

    Políticos  indignos  e empresários desonestos  têm sido   alvos dos agentes  federais e, nesse ritmo,  é que,  a meu juízo, deve   funcionar esse órgão de segurança  e de fiscalização  em todas as instituições   da estrutura da máquina do Estado Brasileiro. Políticos trambiqueiros,  assim como os empresários   salafrários, já foram   encarcerados pela Justiça. Outros estão sendo  denunciados  e outros mais  seguramente  serão presos  dependendo  dos resultados  das investigação   que poderão levá-los a condição de réus.

     Eis  a questão:  governo  deposto por ilicitudes e  governo posto através de um Congresso  conspurcado  de ladroagem -  propina  - recebida em malas com dinheiro  vivo destinado   supostamente  a altos figurões do atual governo  Temer. O próprio Presidente da República  já foi  citado mais de uma vez   nas investigações da Lava-Jato  e poderá ainda, se comprovada  sua culpa,   virar réu ou, quem sabe,   ainda que seja após as eleições,    levado aos tribunais. O fato é que os homens do Palácio, em proporção gigantesca,  acham-se  agora  na mira da Polícia Federal, do Ministério Público e da Procuradoria  Geral da República. Parece até um filme norte-americano de terror em que  os espectadores, satisfeitos e jubilosos  de que  os monstros morreram,  de repente se  surpreendem: tudo volta ao início com os mesmos monstros renascidos das  cinzas  mefistofélicas.

      Sim, porque os rufiões  da política nacional  não mais  se  apoquentam  com o que possa lhes acontecer, dado que  permanecem  inalteráveis  afirmando desbragadamente  que  nada fizeram de errado e tudo não passa  de perseguição  ou conspiração  política. Daí haver  intitulado   este artigo como o fiz  acima. Nesse vaivém de provas e alegação de inocência (sic)   o governo  federal vai empurrando com a barriga e,  daqui a meses,  alguns de seus membros  poderão sair ilesos nus com as mãos nos bolsos do dinheiro do  contribuinte.

     A rapinagem no país  parece ser um mal perverso que assola  praticamente  a grande maioria do segmento  político brasileiro,  indo do governo federal até aos governos municipais. Parece um circo de horrores de horrores  servindo de combustível à  execração da sociedade  brasileira e  exibindo  às nações bem  governadas e civilizadas  o pior  exemplo de se fazer  política na Terra.  No passado da história  política brasileira a corrupção já existia mas não em proporções gigantescas  e pantagruélicas. 

   Agora,  estou lembrando de uma   declaração que uma senhora  de noventa anos e muita lúcida, sentada numa das cadeiras de espera  de um banco estrangeiro  estabelecido no país, fez a  quem a pudesse ouvir: ”O  Brasil já foi um país decente e respeitado, não como está  hoje, uma vergonha onde não se tem mais  respeito à bandeira nacional,  às festas cívicas. Os mais novos  não sabem nem mesmo as datas  mais   importantes   de nosso calendário cívico. Viramos lixo.”    

         A imprensa é injustamente atacada por muita gente.  Pode até ser que ela oriente os leitores ideologicamente de forma errada e tendenciosa. Todavia, sem ela  é que os  meliantes da política   estariam mais à vontade, mais   livres para fazerem  o que bem lhes desse na telha. A imprensa, chamada de  quarto poder, vale mais atuando do que  se fosse  garroteada  pelas ditaduras de todas as cores.

     Se não fosse  esse  fundamental setor da comunicação  não teríamos condições  de estar  informados. O  silêncio imposto à imprensa  equivale à morte da liberdade de expressão. Ela é como a democracia. A pior democracia  ainda é melhor do que  a imprensa proibida de exercer seu papel  de alta sentido  público. A morte da imprensa livre  equivale à derrota das ideias  e do pensamento  humano.

       Os melhores quadros  intelectuais, com raras e honrosas exceções,  da inteligência brasileira  não estão na vida pública. O que é uma pena. A maior parte deles vai para a vida acadêmica e, dessa forma,   ficamos  órfãos   de grandes  brasileiros  que  tanto poderiam   dar de si  ao desenvolvimento  ao nosso   país.

     Com o afastamento de  gente competente  e digna de  exercer   um  mandato  público de alta relevância, um possível bom quadro político   se esvazia e  com isso os oportunistas  veem não uma  uma   possibilidade  de  seguir uma  carreira política   visando ao bem-estar  da  sociedade, mas  um trampolim  para  malversar   o dinheiro do Estado  em benefício  próprio, o qual, montando em milhões  de reais ou dólares,   passa a ser  manipulado solertemente, ou seja,  pela via   da  corrupção,  peculato,   lavagem de dinheiro, locupletação ilícita e formação de quadrilha, igualando-se, assim,  suas práticas   delituosas  aos  mais  abomináveis  criminosos  do tráfico de drogas e de armas pesadas hoje  constituindo, para vergonha   de todos  nós   brasileiros,  uma das mais   execráveis mazelas  da política nacional que se  está perpetuando diante de nossos  olhos  perplexos e  indignados.    

2 comentários:

  1. Caro Cunha,
    De fato um criminoso da política admitir haver cometido o delito que lhe é imputado, mesmo diante das mais contundentes provas, inclusive documentais e de gravações de áudio e vídeo, corresponderia a um suicídio político e jurídico. Se ele próprio o confessar, quem poderia defendê-lo, mesmo o correligionário mais fanático? Assim, a negação do crime é a única opção que lhe resta, exceto no caso de "delação premiada", para atenuação da pena, quando o réu se acha sem escapatória. No mais, "tem que manter isso aí", e morrer negando.

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