quarta-feira, 1 de agosto de 2018

MEU PROFESSOR DE HISTÓRIA (*)



MEU PROFESSOR DE HISTÓRIA (*)

ROGEL SAMUEL
Ensaísta, cronista e romancista

Meu primeiro grande professor, que marcou a minha sensibilidade, foi de História Geral no Colégio Estadual do Amazonas (o prédio grande, na foto), um advogado comunista ateu chamado Rodrigo Otávio, grande orador, carismático, autoritário, culto, advogado trabalhista, e, com ser comunista e ateu, foi meu primeiro professor de Budismo ao falar de História Antiga, dos fundamentos do Budismo e da vida do próprio Sidharta, o Buda (como se sabe, no budismo não há crença nem Deus criador).
Ele era brilhante.
Depois de uma aula sua, os conceitos se estabeleciam claros.
Primeiramente porque terrível e teatral.
Impunha autoridade, terror e respeito, com o seu olhar feroz, com sua autoridade.
Começava a aula pondo o paletó nas costas da cadeira, sentando-se e tirava lentamente um cigarro do bolso.
Olhava desafiadoramente para a turma como se perguntasse: “Alguém ousa?”.
Punha o cigarro na boca (meio calvo, usava bigode e óculos, e tinha um enorme anel de advogado no dedo, um rubi cercado de diamantes).
E começava:
-- Na aula passada...
Aí ele acendia lentamente, teatralmente o cigarro, dava uma baforada no ar, e dizia:
- ... Nós nos reportávamos...
E era possível ouvir o silêncio entre suas palavras no ar. Eu não sei como ele conseguia aquilo, de repente aqueles endiabrados estavam sentiam ameaçados e hipnotizados, a motivação inicial era a própria presença dele mesmo.
E ia falando e com clareza, explicando, pelo materialismo histórico, cada vez mais claro, modulando a voz nasal, ora rápido, ora devagar, (eu me lembro até hoje)... E como não adotava nenhum livro didático, nós anotávamos apressadamente o que ele dizia, que não constava em nenhum livro, eram conclusões suas...
Sua didática era antiga, mas ele sabia manter o interesse não se sabe como, e ele nunca era chato, maçante ou cansativo.
Foi assim quando falou de Buda e do Budismo, foi assim quando explicou as guerras napoleônicas, foi assim quando nos deu uma soberba aula de Shakespeare.  
Em Manaus, no Amazonas.  

Fonte da foto e do texto: site Entretextos 

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